Petrolão, “A Origem” — PF prende ex-petista André Vargas e mais dois ex-deputados

Da esquerda para a direita os ex-deputados André Vargas (ex-Pt, atualmente sem partido), Pedro Corrêa (PP-PE) e Luiz Argôlo (SD-BA) (Montagem: Estadão)
Da esquerda para a direita os ex-deputados André Vargas (ex-Pt, atualmente sem partido), Pedro Corrêa (PP-PE) e Luiz Argôlo (SD-BA) (Montagem: Estadão)

 

 

Por Fausto Macedo, Ricardo Brandt, Fábio Fabrini e Mateus Coutinho

 

O ex-deputado André Vargas (ex-PT, atualmente sem partido) foi preso nesta sexta-feira, 10, em Londrina  (PR) na nova etapa da operação Lava Jato denominada “A Origem”, deflagrada nesta manhã. Também foram preso os ex-deputados Luiz Argôlo (SD-BA) e o ex-parlamentar já condenado no mensalão e atualmente cumprindo pena no regime semiaberto, Pedro Corrêa (PP-PE). O nome da operação faz referência às investigações dos ex-parlamentares, cujo envolvimento com o esquema do doleiro Alberto Youssef foi descoberto nas primeiras etapas da operação, no ano passado.

Ao todo, cerca de 80 Policiais Federais cumprem 32 mandados judiciais: sete mandados de prisão, nove mandados de condução coercitiva e 16 mandados de busca e apreensão nos Estados do Paraná, Bahia, Ceará,  Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e no Distrito Federal. Os ex-parlamentares são os três primeiros políticos a serem presos na operação.

Nesta etapa, estão sendo investigados os crimes  de organização criminosa, formação de quadrilha, corrupção ativa, corrupção passiva, fraude em licitações, lavagem de dinheiro, uso de documento falso e tráfico de influência envolvendo três grupos dos ex-deputados. A investigação vai além da Petrobrás  e também abrange desvios de recursos ocorridos em outros órgãos públicos federais. Também foram detidos Leon Vargas, irmão do ex-deputado André Vargas, Eliá Santos da Hora, secretária de Argôlo, e um publicitário, identificado como Ricardo Hoffmann. O outro preso, identificado como Ivan Mernon da Silva Torres, é apontado como laranja de Corrêa.

Os presos serão trazidos para a Superintendência da Polícia Federal em Curitiba/PR onde permanecerão à disposição da Justiça Federal. Como perderam a prerrogativa de foro, o caso dos ex-parlamentares está sendo investigado pelo juiz Sérgio Moro, responsável pelas ações da Lava Jato.

 

 

Polícia Federal cumpre mandados na nova etapa da Lava Jato (foto: Divulgação)
Polícia Federal cumpre mandados na nova etapa da Lava Jato (foto: Divulgação)

 

Ex-deputados. No caso de Vargas, a relação entre o ex-parlamentar e o doleiro Alberto Youssef, um dos principais alvos da operação e acusado de liderar um esquema de lavagem de dinheiro internacional, veio a tona desde o começo das investigações.  A PF interceptou contatos entre o doleiro e o deputado – 270 mensagens de texto trocadas pelo aparelho BlackBerry, entre 19 de setembro de 2013 e 12 de março de 2014.

A suspeita é de que Vargas trabalhava em favor da rede articulada pelo doleiro, tendo inclusive feito lobby para o laboratório Labogen, de Leonardo Meirelles outro réu da Lava Jato, no Ministério da Saúde. O caso deu origem a um inquérito específico na Justiça Federal no Paraná. Além disso, o parlamentar chegou a viajar de férias  com a família em um jatinho fretado pelo doleiro em 2013.

Seu envolvimento com o doleiro levou Vargas a ter o mandato cassado em dezembro do ano passado e também ser expulso do PT.

Já Luiz Argôlo, segundo afirmou Alberto Youssef em sua delação premiada, teria recebido emprestado um helicóptero do doleiro para sua campanha eleitoral de 2014. Na época, Argôlo foi candidato a deputado federal. Ele teve 63.649 votos e tornou-se suplente.

Segundo Youssef,  o ex-parlamentar comprou a aeronave em 2012, mas não teve dinheiro para quitar as prestações. O político teria pedido dinheiro emprestado ao doleiro para fazer os pagamentos. Youssef contou à Polícia Federal que não aceitou e fez uma contraproposta.

À PF, o doleiro informou também que “João (Luiz) Argôlo fazia parte do rol de parlamentares do PP que recebia repasses mensais a partir dos contratos da Diretoria de Abastecimento da Petrobrás”. Argôlo deixou o PP no fim de 2013 e transferiu-se para o Solidariedade. Interceptações telefônicas da PF apontam também que o ex-deputado teria recebido propina de R$ 400 mil da OAS por meio de Youssef.

O ex-deputado Pedro Corrêa, por sua vez, foi condenado a sete anos e dois meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no mensalão e vinha cumprindo pena no regime semiaberto no Centro de Ressocialização do Agreste, a 210 km de Recife (PE).

 

Publicado aqui, no Blog do Fausto Macedo

 

Atualização às 9h19: Sete minutos antes deste “Opiniões”, o Blog do Arnaldo Neto foi o primeiro da blogosfera local a repercutir a notícia

 

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Bruno Dauaire consegue com Beltrame iniciar retorno de PMS do interior

 Bruno Dauaire 1

 

Marinheiro de primeira viagem na Assembleia Legislativa do Estado do Rio (Alerj), o deputado Bruno Dauaire (PR) já garantiu nela o retorno da primeira leva dos PMs do interior transferidos às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) na capital. Já na próxima semana, 340 PMs serão devolvidos ao interior de onde haviam sido transferido às UPPs. E, até o final do ano, com a formação de novas turmas de PMs, serão devolvidos todos os mil que saíram para atender à capital. Quem garantiu isso ao jovem deputado foi o próprio secretário estadual de Segurança José Mariano Beltrame. Em audiência solicitada por Bruno, os dois se reuniram hoje, na secretaria de Segurança, das 10h30 da manhã ao meio-dia. Daqui a pouco, o deputado estará falando sobre o assunto na tribuna da Alerj.

 

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Jornalismo de Campos — Vitória de ontem foi da “catiguria”

Zidane 2006

 

 

Ontem, no dia do jornalista, a Associação de Imprensa Campista (AIC) soltou aqui uma nota. Após o óbvio da parabenização pela data, a AIC passou a tratar de assuntos nacionais e estaduais nos quais sua relevância é a mesma, por exemplo, do interesse que a Câmara Federal ou o governo estadual Luiz Fernando Pezão (PMDB) poderiam ter, respectivamente, em projetos como o Campistana junto à Câmara Municipal de Campos, ou para emplacar o Festival Doces Palavras (FDP) com apoio do governo Rosinha Garotinho (PR).

Onde de fato pode fazer alguma diferença, a AIC afirmou que “se coloca em estado de alerta em relação à série recente de textos publicados pelo jornal ‘O Diário’, que questiona o conteúdo de críticas publicadas por blogueiros e jornalistas. A entidade está atenta ao fato de que a liberdade que tem o veículo para levantar o tema não pode se confundir com qualquer sinalização de intimidação judicial e coerção a vozes contrárias aos interesses político-editoriais do jornal”. Certo que quem pretender utilizar qualquer tipo de mídia para prática deliberada de ofensas pessoais, se exporá sempre a ser processado. E, até pelo efeito didático, deve mesmo ser condenado segundo o entendimento da Justiça, soberano num estado democrático de direito, como foi o caso local e recente de quem teve que “morrer” em mais de R$ 15,7 mil no pagamento de indenização por danos morais.

Todavia, esse nunca foi o caso do jornalista Ricardo André Vasconcelos, um dos exemplos mais éticos da mídia goitacá, seja em sua lida de 25 anos de jornalismo profissional em imprensa, rádio, televisão, secretaria municipal de Comunicação, além de como blogueiro e na democracia irrefreável das redes sociais. Ainda assim, por ter se colocado aqui contra a mesma ameaça dos lacaios dos donos do poder em Campos, conforme este blog registrou no dia seguinte aqui e aqui, Ricardo se viu alvo de um enxurrada de ameaças pessoais, como ele próprio teve o espírito democrático de registrar aqui. Como a este “Opiniões”, na defesa de um jornalista em sua defesa do jornalismo, a única e valorosa adesão até agora havia sido (aqui) a do colunista e blogueiro Murillo Dieguez, menos mal que nove dias depois do fato inicial, a AIC, antes tarde do que nunca, tenha se posicionado.

Só não revelou se foi cobrada a fazê-lo; tampouco por quem. E nem é necessário…

Noves fora o jogo para a galera, entre independentes, empregados, patronais e até os servidores da máquina lenta e dispendiosa do Estado, a vitória no dia de ontem foi da catiguria.

 

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Crítica de cinema — Grandeza e simplicidade

Bagdá Café

 

Cinderela

 

Mateusinho 3Cinderela — A crueza do mundo real é um dos motivos pelos quais, muitas vezes, opta-se por vivenciar a ficção, seja por meio da literatura ou do cinema. Nela, é ampla e irrestrita a possibilidade de encontrar aspectos que saciem a ânsia por horas de paz, dando ao leitor/telespectador momentos de tranquilidade e entrega a um mundo distante de cobranças, medos e angústias do cotidiano. Salvo em casos de histórias baseada em fatos, não há forma melhor de escapar da realidade. Um dos gêneros voltados principalmente para a criação de um mundo atípico, pleno de encantos e soluções deliciosamente irreais para conflitos diários é a fantasia, cujo representante mais recente, “Cinderela”, dirigido por Kenneth Branagh e roteirizado por Chris Weitz, cumpriu com êxito a missão a que estava inconscientemente destinado: a de levar o público à outra dimensão.

Por meio de efeitos especiais, trilha sonora, figurinos adequados ao contexto da época e cenários — cuja iluminação se alterna, dando maior ou menor tom sombrio ao enredo —, foi criada a ambiência ideal para a entrega do público à adaptação do conto de fadas. Desta vez, no entanto, a história abandonou os traços da tradicional animação para ser interpretada por atores, que não deram somente a voz, mas também o corpo e as expressões para a composição do longa-metragem. A opção estética torna universo de Cinderela ainda mais envolvente.

O filme narra a história de uma jovem, interpretada por Lily James, que, depois da morte de seus pais, é obrigada a morar com a madrasta, vivida por Cate Blanchett, que a explora e a transforma em empregada. Forçada a realizar tarefas domésticas para a mulher e as filhas, a moça se torna triste e desapontada com o ser humano. Apesar da dor, não esquece os ensinamentos da mãe. Em uma noite, após ter sido convidada para o baile real — e proibida de participar da festa pela madrasta —, Cinderela recebe a visita da fada madrinha, papel de Helena Bonham Carter, que muda o destino da jovem.

Apesar da rápida participação, Bonham Carter, como principal característica de sua marcante atuação, trouxe a essência da personagem às telas, unindo caracterização, texto e interpretação comedida e leve, fugindo a clichês e exageros que podem fazer parte de um filme de fantasia. Semelhante zelo pode ser comprovado em “Alice no país das maravilhas” (2010), de Tim Burton, no qual a atriz viveu a Rainha Vermelha. Ambos os longas-metragens apresentam narrativas infantis de maneira atraente, unindo, delicadamente, dramas e humor. Em comum, as duas histórias, adaptadas para o cinema, foram igualmente bem roteirizadas, produzidas e montadas. Lily James e Cate Blanchett também se destacam em cena pela atuação convincente e pela sintonia existente entre as atrizes

Os diversos sentimentos que “Cinderela” causa no telespectador são desenvolvidos por meio da construção da fotografia do filme. Nas primeiras cenas, o ambiente, tomado pelo verde da floresta e pelas luzes do dia, permite que seja emocionalmente compreendida a relação entre Ella e os pais. Com a morte do casal, as sequências se tornam pouco mais densas e escuras, levando o público a vivenciar a transição junto à personagem.

“Cinderela” proporciona, simultaneamente de maneira simples e grandiosa, momentos de descontração e desconexão com o mundo real, dando a adultos e crianças a possibilidade de fazer parte um mundo encantando que, por quase duas horas, é o único acessível e compreensível para os telespectadores.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Crítica de cinema — Valores bem animados

Colyseu

 

cada um na sua casa

 

Mateusinho 4Cada uma na sua casa — Na medida em que pensamos cinema de animação ou no consumo desse formato, é comum imaginar que este é um dos poucos momentos que a família — todos em qualquer idade – possa aproveitar instantes de lazer e, às vezes, cultura com censura livre e sem preocupação.

De vez em quando vemos desenho animado que desenvolve tramas com valores que acompanharão a garotada por toda vida. Se vierem através de personagens aventureiros, engraçadinhos e de outro planeta, mais efeitos 3D e música pop, aí é maravilhoso.

A novidade da Dream Works Animation (responsável por alguns dos maiores e mais brilhantes lançamentos do cinema de animação contemporâneo, entre eles “O Príncipe do “Egito”, “Madagascar”, “Shrek”, “A Fuga das Galinhas” e, mais recentemente, “Como Treinar Seu Dragão”) para trazer de volta os bons números das películas citadas acima é a animação (3D) “Cada Um Na Sua Casa” (Home- titulo original), distribuída pela 20th Century Fox.

Mesmo com a indústria de animação passando por dificuldades nos últimos anos, como o adiamento de algumas das suas películas (incluindo a em questão) e o fechamento de algumas de suas filiais/escritórios, a produção ( Chris Jenkins e Suzanne Buirgy)  contou com um orçamento de US$132.000.000. Com argumento baseado no livro infantil “Tre True Meaning of Smekday”, de Adam Rex, o filme tem direção de Tim Johson (“FormiguinhaZ” 1998,  “Sinbad – A Lenda dos Sete Mares” 2002, “Os Sem Floresta” 2006, “Kung Fu Panda” 2010 e “Como Treinar Seu Dragão” 2010). Na dublagem original, o famoso Jim Parsons (o magrelo nerd, Sheldon de The Big Bang Theory) e a cantora pop barbadiana Rihanna emprestam suas vozes aos personagens principais, Óh e Tipoline, a Tip. Ainda compõe o elenco de dubladores a cantora/atriz hispânica  Jennifer Lopez (Lucy Tucci, mãe da jovem Tip) e o comediante Steve Martin (com a voz do Capitão Smek, o líder da raça alienígena Boov).

No filme, de 94 min, a Terra é invadida por alguns alienígenas (os Boov’s seres estranhamente fofos que mudam de cor de acordo com os sentimentos) que procuram refúgio dos seus temidos inimigos e, para isso, realocam toda a humanidade em um único lugar (mais especificamente a Austrália) e tomam conta do resto do planeta. O protagonista é Óh (Jim Parsons), um jovem atrapalhado e excluído (bullying) que, na empolgação de chegar a um novo lugar que passa sentir “seu”, acaba enviando um sinal aos inimigos de sua espécie por acidente. Com seu vacilo, o estabanado personagem vira  alvo das autoridades alienígenas, comandadas pelo Capitão Smek (Steve Martin), e se une a Tip (Rihanna), uma garota  que conseguiu  escapar,  juntamente com Porquinho, seu gato, das garras dos invasores e está decidida a procurar Lucy Tucci (J-Lo), sua mãe, que foi raptada pelos Boovs. É aí que a trama passa a girar em torno do relacionamento construído entre os personagens e é justamente essa a “cereja do bolo”. Óh e Tip vão criando laços gradativos de amizade e companheirismo durante a busca, realizada em um carro voador movido à refrescos coloridos,  mostrando que as diferenças, indiferentes de quais sejam, podem ser superadas quando há um sentimento verdadeiro entre dois indivíduos, arrancando do público risadas e, em algumas cenas mais emotivas, lágrimas.

Menos pela edição dos efeitos 3D e pelo roteiro singelo, há que se destacar a trilha sonora com Rihanna e Jennifer Lopes interpretando músicas como “Only Girl”, “As Real As You And Me”, “Dancing In The Dark”, “Feel The Light”, principalmente nas cenas finais de dança e as de maior carga emocional. Outra cena que merece atenção é a que se passa em uma Paris totalmente tomada pelos Boovs em que a Torre Eiffel vira de cabeça para baixo.

“Cada Um Na Sua Casa” é bacana também por sua mensagem contra o preconceito, sobre amizade e superação passadas pelos seus cativantes e fofos personagens de forma alegre, colorida e emocionante sem ser chato ou piegas. As crianças saem da sala de exibição encantadas, com os olhos brilhando.

Adultos também.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Crítica de cinema — Indiferente

De olhos bem abertos

 

Divergente insurgente

 

 

Mateusinho 2A série Divergente: Insurgente — Num certo futuro, aquilo que alguma vez foi a cidade de Chicago será dividida em cinco facções: Amizade, Abnegação, Erudição, Franqueza e Audácia. Numa determinada idade, todos os jovens devem escolher a qual facção irão permanecer pelo resto das suas vidas, baseados em testes prévios que pré-determinam a escolha a tomar. Quem não se encaixa completamente num dos grupos, é considerado divergente, e aparentemente são uma ameaça para o sistema todo.

Logicamente, a protagonista de Insurgente, Tris  (Shailene Woodley), é uma divergente. No primeiro filme da franquia, “Divergente”, ela tinha escolhido o grupo de Audácia, e o seu roteiro se dedicava a narrar os ritos de iniciação e treinamento que ela e outros candidatos deviam passar para serem admitidos como integrantes da facção. Entretanto, o seu espírito rebelde a levaria despertar uma revolta contra os planos da facção Erudição, cuja líder Jeanine, interpretada por Kate Winslet, pretende se impor por sobre o resto.

Nesta continuação, Tris está refugiada na facção Amizade, junto com seu namorado e outros ex integrantes de Audácia. Amizade é uma comunidade paz-e-amor que se dedica a atividades agropecuárias, e não quer brigar com ninguém. Tris, como já tinha acontecido na Audácia, não se sente a vontade aqui.  Acha chato.  Mas o aborrecimento será resolvido logo, pois uma força de Audácia invadirá Amizade em busca de divergentes, os quais serão procurados dado que só eles podem decifrar uma mensagem encriptada numa caixa misteriosa, cuja revelação, segundo entende a líder de Erudição, lhe dará o poder absoluto.

Se toda a explicação anterior lhe resultou confusa, não se preocupe, pois isto não tem a menor importância. Esse arcabouço argumental funciona apenas como desculpa para sustentar uma cambada de cenas de ação, recheadas de efeitos visuais impactantes que remetem a filmes como Matrix e A Origem, através de suas alusões a realidades virtuais e combates que só acontecem na cabeça da protagonista.

A franquia  Divergente pertence a um recente subgênero  da ficção científica que poderíamos denominar ‘distopias adolescentes’, similares a outras séries de filmes como são“Os Jogos Vorazes” e “Maze Runner: Correr ou Morrer”.

Em todas elas, os protagonistas são jovens inseridos em sociedades totalitárias pós apocalípticas, que decidem se rebelar contra a estratificação de classes, estabelecidos pelas autoridades, e acabam liderando revoltas tendentes a construir um novo modelo de comunidade. Entretanto, esta historia padrão, que tem suas particularidades em cada série (uma competição perversa em “Jogos Vorazes”; um labirinto a ser percorrido em “The Maze Runner”; etc.) funcionam apenas como uma espécie de cenografia temática numa arena de luta. Não há nenhuma intenção de refletir acerca dos perigos das desviações totalitárias, como o faziam os romances “1984”, “Fahrenheit 451” ou “A Laranja Mecânica”, todos eles adaptados em versões cinematográficas. Nestes, falava-se em verdade de ameaças ao presente, embora fantasiado como futuro.

Nestas novas distopias adolescentes, pareceria que o que se tenta apenas é produzir uma  empatia etária com o público, identificando-o aos protagonistas, que são jovens inconformados com os abusos das regras criadas pelos adultos, isto é, os pais. Mas, como bem apontara Aluysio Barbosa (aqui)na sua crítica sobre o mesmo filme, para rebeldia já tínhamos “Clube dos cinco” de John Hugues.

Todavia, receio que “Insurgente” nem sequer pretenda gerar algum tipo de  identificação com os adolescentes. Desconfio que o seu verdadeiro propósito seja simplesmente fornecer ao espectador de duas horas para que possa comer pipoca, e se esquecer tanto do que se passa fora do cinema quanto dentro dele, fascinando-o com imagens de prédios explodindo em câmera lenta. Insurgente é uma espécie de ‘soma’, aquela droga supostamente inofensiva dessa outra distopia chamada  “Admirável Mundo Novo”.

 

Mateusinho viu

 

Publicado na Folha Dois em 03/04, e republicado aqui apenas hoje com o devido pedido público de perdão ao Gustavo Alejandro Oviedo, mas foi o mesmo dia do velório e do enterro de Kapi

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Artigo do domingo — Entre o céu e o mar

No Pontal de Atafona, a primeira chamada da peça “Pontal”: Marius, Aluysio, Yve, Kapi e Sidney (foto de Leonardo Berenger - Folha da Manhã)
Em janeiro de 2010, no Pontal de Atafona, a primeira chamada da peça “Pontal”: Mairus, Aluysio, Yve, Kapi e Sidney (foto de Leonardo Berenger – Folha da Manhã)

 

 

(Para Beth Araújo, Severina Cavalcanti, Fátima Castro, Aucilene Freitas, Jorge Rosa e Bernadete Bogado)

 

Era 2009. Caminhávamos conversando à beira-mar, quase na curva da foz do Paraíba, numa faixa de areia que hoje é oceano. Tentava animar Kapi, que estava hospedado em minha casa, em Atafona, após um período de internação no Hospital Ferreira Machado por conta de uma tuberculose. Mais do que a recuperação pela doença oportunista, entre as tantas que acham brecha na imunidade comprometida de um soroposito, o ânimo do genial criador estava abatido pela perspectiva do ostracismo, dolosamente banido pelo poder público municipal depois que os Garotinho reassumiram o poder em Campos, naquele mesmo ano.

Foi então que ele teve, de chofre, a ideia:

— Vamos pegar seus poemas sobre Atafona e juntar mais uns meus, do Artur (Gomes) e da Adriana (Medeiros) e montar uma peça. “Pontal”! O nome vai ser “Pontal”!

Ao que eu indaguei, meio assustado:

— Como assim? Vamos montar onde? Quando? Como transformar poemas em texto de teatro?

— Isso tudo você deixa comigo! — disse em tom propositalmente afetado, mas seguro de si, com uma risadinha mefistotélica e os olhos brilhando.

Sem respostas lógicas, não precisava de outra que não fosse aquela expressa em sua súbita recuperação física e psicológica. Mesmo para alguém, como eu, envolvido em trabalho de criação, era impressionante como em Kapi isso era uma demanda tão vital, literalmente, quanto o ar que os demais precisam para respirar.

Voltamos da caminhada, almoçamos, eu tomei banho, entreguei os poemas que ele pediu e segui a Campos para meu trabalho, deixando Kapi imerso no dele. Quando voltei à noite, já estava tudo resolvido:

—  Vamos montar no Bar do Bambu (antiga casa de barco da família Aquino, que o mar depois levou). Serão apresentações quinta, sexta e sábado, em quatro semanas entre janeiro e fevereiro do ano que vem (2010). Os poemas serão interpretados como causos contados por pescadores de Atafona. Yve (Carvalho) e Sidney (Navarro) serão os atores. Só falta arrumarmos um terceiro, para dividir melhor os textos.

O terceiro homem, no furto ao filme clássico de Carol Reed, acabou sendo o Mairus Stanislawiski, um gaúcho bicho grilo desses que costumam brotar em Atafona como bicho de pé, sem nenhuma experiência anterior como ator. Comigo e Sidney toureando os conflitos entre as personalidades de diva de Kapi e Yve, sinceramente não sabíamos o que esperar na noite de estreia de uma peça com atores locais (à exceção gaúcha e desconhecida), diretor local e autores locais, num lugar sem luz elétrica e de difícil acesso pela areia.

Grande foi a nossa surpresa quando cerca de 80 pessoas tiveram sua silhuetas atraídas bruxuleantes pela fogueira acesa, no encontro das águas do Paraíba e do Atlântico, em frente ao Bar do Bambu, lotando o antigo galpão que tinha o centro como palco, iluminado internamente por lamparinas e lampiões. Gente de todas as idades e estilos, cujo o boca a boca não deve ter sido ruim, pois o público chegaria a dobrar nas apresentações seguintes, que ganharam ainda mais força dramática quando o Mairus foi substituído pelo Artur Gomes, coautor e também ator do espetáculo, fazendo com que tivéssemos que improvisar uma arquibancada de areia e madeira na entrada do bar transformado em teatro.

Conheci Kapi ainda nos anos 1980, quando eu ainda era um adolescente fascinado pela vida boêmia na qual ele já era uma lenda da planície, dono do mitológico Bar Vermelho, point do underground goitacá. Mas nosso contato se estreitou mais na década seguinte, quando passei a escrever poesia. Logo no primeiro concurso em que entrei, no FestCampos de 1992, realizado no hoje abandonado anfiteatro do Parque Alberto Sampaio — acreditem! aquele lugar já foi palco de poesia —, tendo o Artur Gomes como intérprete de dois trabalhos selecionados à final, grande foi minha surpresa. Aos 19 anos, acabei tirando primeiro e segundo lugares, respectivamente com “Calvário” e “Caçula”, poemas que não guardo, posto serem frutos de uma fase com a qual depois romperia.

Só mais tarde fui saber que, compondo o júri, foi Kapi quem bateu pé contra uma tentativa de manobra “politicamente correta” nos bastidores, que visava me dar apenas um prêmio, abrindo espaço para mais gente:

— Valem o regulamento e as notas dos jurados! — E, graças a Kapi, valeram mesmo.

Alguns anos depois, lembro de um marcante encontro ao acaso, na sua casa em Atafona. Era fevereiro de 1997, eu vinha ouvindo aquele verão todo, até quase “furar” o CD, o acústico do Eric Clapton, com o qual a MTV inaugurou sua exitosa série Unplegged. Por sua vez, Kapi estava cheio de histórias para contar, recém-chegado de uma viagem junto com sua imprescindível amiga Beth Araújo e sua turma de formatura da faculdade de turismo, por mais de 30 dias, entre Costa do Marfim, Líbano, Egito, Israel, Jordânia e França. Velas enfunadas ao vento nordeste, passamos a tarde naquela varanda atafonense, conversando sobre tudo que ele trazia ainda fresco do berço da civilização humana, ouvindo blues, tomando o vermute e fumando os gauloises trazidos há pouco de Paris.

Passado o verão, no final daquele ano, Kapi sofreu sua primeira grave crise advinda do HIV, chegando a ficar em coma. Depois que ele começou a se restabelecer, fui vê-lo internado no Hospital Ferreira Machado, sempre sob a guarda zelosa da mãe, a saudosa Severina. Ao final da visita, entreguei-lhe “órbita de hal”, poema a ele dedicado, que trazia as lembranças daquela tarde em Atafona, assim como a comunhão com seu estado de saúde, por conta de um acidente que também me deixara entre vida e morte alguns anos antes. Creio que foi ali, naqueles versos escritos em tinta de solidariedade, que da amizade se fez uma fraternidade de vida inteira

Com base nessa cumplicidade, se formou uma parceria artística inquebrantável, na qual eu não teria mais nenhum poema em festival cuja interpretação não fosse dirigida por Kapi. Comigo como poeta, ele como diretor e o Yve Carvalho como ator, o trio colheria relativo sucesso em Campos e no Rio.

Nos FestCampos, bati na trave algumas vezes, com um segundo lugar em 2000, com “epifania”, e um quarto lugar em 2006, com “cantos da pequena”, até novamente vencer com “muda”, em 2007, na minha despedida dos festivais de Campos. Além dos limites da província, a parceria também arrebanharia o primeiro lugar de poema, com “conversão a mais de uma atmosfera”, bem como de intérprete, com Yve, no 11º Concurso Nacional de Poesia Francisco Igreja, em 2008, realizado no auditório Machado de Assis, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Por sua vez, de pena própria, marcada pelo ritmo da oralidade trazido do teatro, Kapi também ganharia duas vezes o FestCampos: em 2002, com “Canção amiga”, e em 2005, com “Goya Tacá Amopi”.

Com mais de 100 peças encenadas, inclusive no Rio, Kapi foi um divisor de águas no teatro de Campos. Ainda nos escombros, inaugurou o Teatro Trianon, do qual tanto se ufana quem segregou o grande artista, onde encenou “Gota D’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, em 1995. Mas a montagem da qual mais se orgulhava, na qual deu vazão às suas ambições artísticas sempre épicas, foi “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles, em 1998. Na superprodução, dirigiu dezenas de atores no cenário perfeito (e real) da Igreja e Mosteiro da Lapa.

Como passagens marcantes também como carnavalesco e organizador do Carnaval de Campos, Kapi foi, talvez, o artista mais completo que conheci nesta planície cortada pelo Paraíba do Sul. Campista filho de uma retirante nordestina, trespassou a origem humilde e os preconceitos de raça e orientação sexual com gumes afiados de talento e coragem. Se nunca cuidou de si como de sua arte, ainda assim foi um bravo resistente. E sobre ele não mente o também diretor teatral Fernando Rossi: “Mais lamentável é saber que esse processo da sua morte foi acelerado pela falta de apoio à sua arte”.

Junto com meu filho, de quem Kapi foi também grande amigo, a coisa que mais me importa nesta vida, ou em qualquer outra, é minha arte. E, como Aluysio Barbosa fez no jornalismo, foi Kapi quem me ensinou que arte é coletiva, ou de ninguém.

Em contrapartida, ele também dizia não acreditar em artista humilde. E tanto à sua vaidade, quanto à minha, às de Yve, Sidney, Artur e Adriana, afaga o fato de que aquela montagem de “Pontal” tenha sido o último grande momento de um lugar mágico que deixou de existir, engolido pelas ondas, como seremos todos nós.

Pode parecer teatro, e depois realmente foi, mas naquela mesma caminhada no Pontal, na qual Kapi pariu “Pontal”, nós dois vimos um golfinho saltar das águas e descrever em arco suas piruetas no espaço. Continuamos acompanhando as aparições do seu dorso e dos seus companheiros, até que sumissem entre o céu e o mar.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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