A legitimidade das manifestações não é maior do que a de quem foi eleito pelo voto do povo


Viva a Democracia!
Por Marcão Gomes
“A persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia. Quando, após tantos anos de luta e sacrifícios, promulgamos o estatuto do homem, da liberdade e da democracia, bradamos por imposição de sua honra: temos ódio à ditadura. Ódio e nojo! Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações, principalmente na América Latina”. Esse é um trecho do discurso de Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição de 1988, extremamente atual neste momento em que algumas pessoas, que por ignorância ou oportunismo, falam em golpe contra o governo legitimado pelas urnas e intervenção militar.
Temos sim que reforçar a democracia, os empregos, a Petrobras, defender os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras e clamar pela reforma política. Temos sim que apurar e punir os culpados pela corrupção, pela malversação de recursos públicos.
O Brasil que já passou pelo colonialismo, pela escravidão e pela ditadura, agora vive momentos de uma tentativa de golpe. A presidente Dilma Rousseff foi reeleita em 2014 e a vontade popular deve ser respeitada. Esse é o princípio básico da democracia. Temos que defender a democracia que, quando faltou, deixou não só marcas na pele, mas também na alma do povo brasileiro.
Não podemos permitir que a democracia conquistada com tanta luta seja questionada por interesses escusos. Golpistas que partem de um modelo patrimonialista que não admite repartir, como por exemplo, os bancos das universidades com a população de baixa renda. Para se ter uma ideia, a camada mais pobre da população brasileira está mais presente nos campus das universidades públicas do país. A participação aumentou quatro vezes entre 2004 e 2013. Tem gente que não aceita o Brasil para todos e todas. Temos que ter muito cuidado com aqueles políticos que se utilizam da grande mídia para propagar suas ideias e desestabilizar governos constituídos.Isso é muito perigoso e pode trazer consequências gravíssimas para a democracia brasileira.
Todos podem se manifestar, mas a legitimidade das manifestações não é e não pode ser maior do que a dos que foram eleitos pelo voto do povo nas urnas. Sabemos que atualmente não existem condições jurídicas para um pedido de impeachment da presidente Dilma. O próprio ministro do STF, Gilmar Mendes, já declarou que não existem bases sólidas para um impedimento. Insistir nessa ideia é apostar numa ruptura do atual estado democrático do Brasil, adquirido ao longo desses anos. As manifestações do último domingo (15) fizeram ressurgir simpatizantes da extrema-direita que vêem na volta do governo militar uma solução para desafios próprios dessa mesma democracia, ignorando o resultado de 23 de outubro passado (aqui), quando a presidenta Dilma Rousseff venceu no voto do povo Aécio Neves (PSDB) para mais quatro anos de mandato, como manda a Constituição do Brasil.
Publicado hoje na Folha da Manhã


















