A legitimidade das manifestações não é maior do que a de quem foi eleito pelo voto do povo

Dilma na comemoração da sua vitória eleitoral em 23 de outubro passado
Dilma na comemoração da sua vitória eleitoral em 23 de outubro passado

 

 

Vereador e funcionário público federal Marcão Gomes
Vereador e funcionário público federal Marcão Gomes

Viva a Democracia!

Por Marcão Gomes

 

“A persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia. Quando, após tantos anos de luta e sacrifícios, promulgamos o estatuto do homem, da liberdade e da democracia, bradamos por imposição de sua honra: temos ódio à ditadura. Ódio e nojo! Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações, principalmente na América Latina”. Esse é um trecho do discurso de Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição de 1988, extremamente atual neste momento em que algumas pessoas, que por ignorância ou oportunismo, falam em golpe contra o governo legitimado pelas urnas e intervenção militar.

Temos sim que reforçar a democracia, os empregos, a Petrobras, defender os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras e clamar pela reforma política. Temos sim que apurar e punir os culpados pela corrupção, pela malversação de recursos públicos.

O Brasil que já passou pelo colonialismo, pela escravidão e pela ditadura, agora vive momentos de uma tentativa de golpe. A presidente Dilma Rousseff foi reeleita em 2014  e a vontade popular deve ser respeitada. Esse é o princípio básico da democracia. Temos que defender a democracia que, quando faltou, deixou não só marcas na pele, mas também na alma do povo brasileiro.

Não podemos permitir que a democracia conquistada com tanta luta seja questionada por interesses escusos. Golpistas que partem de um modelo patrimonialista que não admite repartir, como por exemplo, os bancos das universidades com a população de baixa renda. Para se ter  uma ideia, a camada mais pobre da população brasileira está mais presente nos campus das universidades públicas do país. A participação aumentou quatro vezes entre 2004 e 2013. Tem gente que não aceita o Brasil para todos e todas. Temos que ter muito cuidado com aqueles políticos que se utilizam da grande mídia para propagar suas ideias e desestabilizar governos constituídos.Isso é muito perigoso e pode trazer consequências gravíssimas para a democracia brasileira.

Todos podem se manifestar, mas a legitimidade das manifestações não é e não pode ser maior do que a dos que foram eleitos pelo voto do povo nas urnas. Sabemos que atualmente não existem condições jurídicas para um pedido de impeachment da presidente Dilma. O próprio ministro do STF, Gilmar Mendes, já declarou que não existem bases sólidas para um impedimento. Insistir nessa ideia é apostar numa ruptura do atual estado democrático do Brasil, adquirido ao longo desses anos. As manifestações do último domingo (15) fizeram ressurgir simpatizantes da extrema-direita que vêem na volta do governo militar uma solução para desafios próprios dessa mesma democracia, ignorando o resultado de 23 de outubro passado (aqui), quando a presidenta Dilma Rousseff venceu no voto do povo Aécio Neves (PSDB) para mais quatro anos de mandato, como manda a Constituição do Brasil.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Entre o pró dos contra e o contra dos pró, só faltou ser contra a hipocrisia

Ponto final

 

Campos contra Dilma

A manifestação contra o governo Dilma Rousseff e o PT, pedindo o impeachment da presidente por crime de responsabilidade no caso do Petrolão, levou no último domingo cerca de 800 campistas à praça São Salvador (aqui), de onde saíram em passeata pacífica pela av. Alberto Torres, passando pela Beira Valão, até a av. Pelinca. O que leva a duas questões. A primeira: foi pouca gente?

 

Campos pró-Dilma

Bem, certamente foi mais do que as 1,5 mil pessoas que o PT de Campos e o Sindipetro-NF anunciaram (aqui) ter levado ao protesto pró-Dilma, no Centro do Rio, dois dias antes, quando a PM contabilizou em exatos 1,5 mil todos os manifestantes. E o ridículo exposto (aqui) pela aritmética simples ficou ainda pior quando as equipes de reportagem da Época e Folha de São Paulo revelaram que cada manifestante campista teria recebido R$ 80 para participar do evento. O fato foi confirmado pela própria assessoria do Sindipetro (aqui), a título de vale-alimentação, muito embora a revista e o jornal tenham apurado que a comida foi fornecida à parte o dinheiro.

 

O pró dos contra

Ou seja, a contribuição campista ao evento pró-Dilma fez justiça à classificação feita (aqui) no dia seguinte pelo jornalista Merval Pereira, acerca do que restou da base de apoio popular do PT: “são apenas movimentos de pelegos transportados em ônibus, com diária e comida”. Rigorosamente nenhuma das cerca de 800 pessoas que foi à praça São Salvador no domingo, por livre e espontânea vontade, com a paga apenas da consciência, poderia se encaixar na mesma descrição.

 

E contra a hipocrisia?

Isto posto, chegamos à segunda questão: como o campista que dedica sua manhã de domingo para sair à rua e protestar contra o governo Dilma Rousseff, marcado pela incompetência administrativa e denúncias de corrupção, cuja política econômica levou o Brasil à beira do abismo, pode não dedicar nenhum outro dia da semana para constatar que as mesmas características estão marcadas a ferro em brasa no couro do seu próprio município? CDL, Acic, maçonaria, cidadãos presentes no domingo ao evento contra Dilma, quando se trata das semelhanças desta com Rosinha, são cegos ou têm medo?

 

Rancho da Ilha  (I)

O show com a cantora Danni Carlos, na noite de sábado foi muito bom. Além da cantora ainda manter sua voz em forma, embora o corpo nem tanto, o reinaugurado Rancho da Ilha, à beira do Paraíba, é um lugar mágico. Por isso mesmo deveria ser melhor cuidado. Marcado para às 23h, quem lá chegou às 22h30, visando ocupar melhores lugares, não pôde entrar, sendo deixado pelos seguranças com a opção de esperar à beira da RJ 158, num lugar escuro e ermo, ou então voltar para casa.

 

Rancho da Ilha (II)

Vencido o primeiro risco desinteligente e desnecessário à segurança dos espectadores, lá dentro a organização do evento, diferente da beleza do local, continuava deixando a desejar. Quem quisesse beber tequila, por exemplo, teria que ter trazido o limão de casa, assim como guardanapos de papel ou pano para limpar a mesa, todos ausentes dos bares ocupados por funcionários que respondiam despreocupados a qualquer eventual queixa:  “reclama com o dono!”

 

Rancho da Ilha (III)

Por fim, os banheiros masculinos do Rancho só estavam preparados para atender ao número 1, não ao 2. Quem não conseguisse resistir ao chamado da natureza, teria que fazer suas necessidades num banheiro de porta com a divisória inferior quebrada, exposto publicamente da cintura para baixo. Na falta de uma simples esquadria para solucionar o óbvio e constrangedor problema, a única alternativa permanecia a mesma da chegada: voltar para casa.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Crítica de cinema — Animação inusitada

Cinematógrafo

 

 

Bob esponja 1

 

 

Mateusinho 4Bob Esponja — Um herói fora d’água — Além de insólito, extraordinário, incomum, inusitado significa, em sua raiz, fora do lugar. Stephen Hillenburg, biólogo marinho, transportou para a animação o mundo que domina muito bem, mas de forma inusitada. Além de cientista, ele é artista, não se preocupando com a veracidade em suas criações, notadamente Bob Esponja Calça Quadrada. Sua criatividade é também inusitada na medida em que inverte e cria uma nova realidade.

No fundo do mar que ele concebe, Bob Esponja é a personagem central de sua turma, com Lula Molusco, uma lula irritadiça, Patrick, uma estrela do mar afeminada, Sr. Siriguejo, um siri dono de um Fastfood, uma esquila que vive embaixo do mar com um escafandro. A Fenda Biquini é o lugar fora de lugar onde Bob Esponja vive com sua exótica turma.

O que Hillenburg faz é colocar sob as águas do mar o mundo continental, em que os personagens tomam banho de sol e contam com outros meios típicos da superfície da terra. E, nesse contexto esdrúxulo, o autor parodia e ironiza filmes.

Agora, com “Bob Esponja: um herói fora d’água”, Hillenburg, em seu segundo longa, inverte a inversão: o ambiente continental no fundo do mar vem para a superfície continental. Quem depende do oxigênio dissolvido da água, vive em atmosfera livre, como os animais pulmonados. Hillenburg está consciente dessa inversão por sua formação acadêmica. Esse mundo seco pode ser visto em 3D pelos espectadores.

Como sempre, Plakton, o vilão, tenta novamente subtrair a receita de hambúrguer. Ele é o vilão. Até nesse ponto existe humor. Parodiando os filmes apocalípticos, Hillenburg transforma a Fenda de Biquini num mundo futuro e desolado, como em “Mad Max”. A natureza se apodera da casa de Bob Esponja, como em “Eu sou a lenda”. Sandy pira com os cálculos sobre documentos deixados por alguém, como em “Presságio”. Mas, no final, o bem triunfa sobre o mal e toda a turma do nosso herói se confraterniza.

A segunda animação do inteligente criador de Bob Esponja é repleta de referências e metalinguagem, arrancando gargalhadas do público infantil e adolescente, mas se dirigindo aos adultos conhecedores de cinema.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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O fascismo que espreita dos dois lados. E por todos tem que ser combatido

Fascismo

 

Aqui, a leitora Carla Souza, que não conheço, me pergunta em comentário à postagem da necessária análise da jornalista Cora Rónai (aqui) sobre o 15 de março, se o vídeo da UOL com link enviado por ela representa a lição democrática deixada pela histórica manifestação popular. Não, Carla, certamente não é! Infelizmente, o fascismo espreita dos dois lados. E por todos os lados tem que ser combatido. Ele já havia escoiceado do lado de fora da ABI, no último dia 25 de fevereiro, quando militantes do PT, CUT e MST agrediram a socos e pontapés pedestres críticos ao governo Dilma Rousseff, enquanto do lado de dentro o ex-presidente Lula ameaçava colocar o “exército do Stédile” na rua (aqui). E não é porque a reação a essa ameaça acabou tomando às ruas, que os mesmos desvios de conduta (e caráter) podem ser admitidos, só porque mudaram a cor da camisa.   

Abaixo o vídeo:

 

 

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A “velha senhora” roubou R$ 2 bilhões da Petrobras e Dilma não se deu conta? Conte outra!

velha bandida

 

 

Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat

E logo Dilma, sempre tão atenta a tudo, não percebeu a companhia da Velha Senhora, a corrupção

Por Ricardo Noblat

 

A corrupção, esta velha senhora que circula por toda parte como disse a presidente Dilma Rousseff…

Não importa que Dilma tenha se limitado a repetir o que ouviu de um assessor inteligente – a imagem da corrupção como uma velha senhora.

Fez bem em usá-la. É uma imagem feliz.

Só não sei por que os coleguinhas não aproveitaram para perguntar a Dilma, em sua versão o mais próxima possível da humildade, se ela, desde que ligou sua vida à Petrobras, nunca se deu conta da presença por ali da velha senhora.

Sim, porque na versão “dona da verdade” ou “a última palavra é minha”, Dilma jamais deixou que alguém se aproximasse da Petrobras sem a sua licença.

Foi assim como ministra das Minas e Energia. Como chefe da Casa Civil da presidência da República. Como presidente do Conselho de Administração da Petrobras. E como presidente da República.

Dilma nomeou Graça Foster presidente da Petrobras para que nem uma folha de papel mudasse de lugar, ali, sem que ela soubesse.

A “velha senhora” fez da Petrobras a sua morada preferencial. Roubou algo como 2 bilhões de reais. E Dilma não se deu conta da presença dela em seus domínios.

É possível?

Possível, é. Mas isso caracteriza negligência, desleixo, irresponsabilidade.

Depenaram uma das maiores empresas do mundo, a maior do Brasil, e dois presidentes da República de um mesmo partido, aliados, portanto, não perceberam.

Contem-me outra!

Por que Dilma não confessa pelo menos que errou?

Está bem: ela não gosta de confissões como disse ontem. Troquemos a palavra.

Por que Dilma não admite pelo menos que errou?

Isso não lhe arrancará nenhum pedaço.

Quantos aos coleguinhas que se deslumbram com o Poder e que temem perder informações se parecerem incômodos…

Jornalista que não incomoda não é jornalista – é assessor.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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Com tantas pontes que desfez, a Dilma real se parece cada vez mais com a da charge

Jean Galvão - charge FSP 16-03-15
Charge de Jean Galvão da Folha de São Paulo de ontem (16/03)

 

 

Por Antonio Jiménez Barca

 

Em uma charge publicada nesta segunda-feira na Folha de São Paulo, o cartunista Jean Galvão apresenta a presidenta Dilma Rousseff em um canto escuro do palácio, esmagadoramente sozinha, olhando para uma ampla janela onde se veem as multidões que no domingo protestaram nas ruas contra ela. A presidenta, vestida de vermelho, com expressão de enfado, se limita, impotente, a contar, apontando com o dedo: “Um, dois, três, quatro…” A ilustração reflete razoavelmente bem a atual situação política da presidenta: isolada, só, protegida em sua residência de Brasília e a cada dia com menos apoios com os quais contar.

As centenas de milhares de pessoas que saíram no domingo para protestar em São Paulo e outras cidades brasileiras (alguns estimam um milhão, outros elevam a cifra para dois milhões) entoaram, sobretudo, um slogan claro e categórico (aqui, aqui e aqui): “Fora Dilma”. Indo além dos números, a resposta da população, em sua imensa maioria pertencente à classe média e urbana, foi maciça, contundente e inesperada. Daí que a presidenta brasileira atravesse hoje seu pior momento, com uma popularidade (aqui) que já ia a pique (segundo uma recente pesquisa feita antes do protesto, só 23% consideravam que a gestão de Dilma é boa). Tudo isso, em um tempo recorde de dois meses e meio depois de ter tomado posse de seu segundo mandato.

Os analistas e especialistas observam agora a cada vez mais escassa margem de manobra da presidenta e sua cada vez mais exígua lista de aliados, com exceção do círculo mais próximo de colaboradores e ministros fiéis.

No Partido dos Trabalhadores (PT), ao qual ela pertence, ouvem-se vozes críticas diariamente. O senador Walter Pinheiro, personagem histórico do partido, condenou o Governo por não saber reconhecer os erros e escutar a sociedade.

Não é só ele. Uma parte do partido de Dilma e de Lula critica, de modo geral e já há algum tempo, o fato de a presidenta ter assumido desde o princípio as teorias econômicas do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, favoráveis a um ajuste fiscal, à elevação de impostos e à contenção de gastos. Nesta segunda-feira mesmo, Levy insistiu em que não há como recuar: “Se ficarmos com medo, teremos problemas, porque nos paralisamos”.

O PMDB, seu aliado e de ideologia pouco clara, tampouco é um aliado confiável. É verdade que vários de seus membros estão no Governo, incluindo o vice-presidente do país, Michel Temer. Mas a lista divulgada há duas semanas dos implicados na corrupção da Petrobras, na qual constam os nomes dos presidentes da Câmara e do Senado, ambos desse partido, envenenou (aqui) essa relação e semeou minas que podem explodir a qualquer momento (aqui).

O próprio Lula, mentor de Dilma, referência do PT (e da esquerda brasileira), a pessoa que a elegeu para o cargo e que na última e decisiva parte da campanha eleitoral pôs seu carisma e seu cacife eleitoral ao lado da candidatura de Dilma, permanece neste momento ou, por ora, calado e ausente. Desvendar como estão se dando Dilma e Lula é um capítulo interminável da política brasileira contemporânea, já que as relações entre o fundador do PT e a presidenta podem se complicar o tempo todo: personalidades distintas, dois egos poderosos frente a frente, interesses às vezes opostos, falta de confiança em algumas ocasiões, de ambas as partes…

Até agora o PT ganhava nas ruas. Não mais (aqui). O multitudinário protesto do domingo, o mais numeroso na recente democracia brasileira, segundo alguns, com 1 milhão, no mínimo, de manifestantes por todo o Brasil, faz empalidecer a marcha de apoio a Dilma realizada na sexta-feira, com 40.000 participantes (e com o adendo de insultos ao ministro da Fazenda)

Ela falou nesta segunda (aqui), no ‘day after’ aos protestos, mas não parecia falar para todos, como queria fazer supor. Procurou mudar parte dessa fama em entrevista coletiva nesta segunda, quando falou que poderia ter cometido um erro de dosagem na política econômica empregada até o ano passado. “É possível até que a gente possa ter cometido algum”, disse ela, para explicar em seguida que o foco era a melhoria econômica de emprego e de renda. A resposta não parece suficiente para um país em polvorosa, mas para Dilma foi um avanço depois de uma reunião ministerial, em que ouviu dos interlocutores que precisava passar uma mensagem de humildade depois dos protestos. Seus ministros mais próximos, incluindo José Eduardo Cardozo, da Justiça, Aloizio Mercadante, da Casa Civil, e Jacques Wagner, da Defesa, talvez sejam seus únicos companheiros fieis neste momento. Mas, com tantas pontes que ela já desfez até aqui fica a dúvida se a Dilma Rousseff de verdade não se parece cada vez mais com a Dilma Rousseff da charge.

 

Publicado aqui, no elpais.com

 

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Empreiteiro confessa que tesoureiro do PT cobrou R$ 10 milhões de propina em 2010

Vice-presidente da Camargo Correia, Eduardo Leite aceitou delação premiada com a Justiça e entregou o tesoureiro do PT
Vice-presidente da Camargo Correia, Eduardo Leite aceitou delação premiada com a Justiça e entregou o tesoureiro do PT

 

 

Por Ricardo Brandt, Julia Affonso, Andreza Matais e Fausto Macedo

 

O vice presidente da empreiteira Camargo Corrêa, Eduardo Leite (aqui), declarou à força tarefa da Operação Lava Jato, que o tesoureiro do PT João Vaccari Neto o procurou “por volta de 2010″ e pediu R$ 10 milhões. O relato de Eduardo Leite foi tomado no âmbito da delação premiada que ele firmou com os procuradores da República e os delegados da Polícia Federal que conduzem a grande investigação sobre cartel e fraudes na Petrobras.

O executivo da empreiteira afirmou que, naquele ano, Vaccari lhe disse que “tinha conhecimento, por meio da Área de Serviços da Petrobras, que a Camargo Corrêa estava atrasada no pagamento das propinas relativas a contratos com a Petrobrás”.

 

Trecho da denúncia contra tesoureiro do PT e outras 26 pessoas
Trecho da denúncia contra tesoureiro do PT e outras 26 pessoas

 

Na extensa denúncia contra 27 alvos, entre eles Vaccari (aqui) e o ex-diretor Renato Duque (aqui), o Ministério Público Federal é taxativo ao se referir ao tesoureiro do PT. “Não há qualquer dúvida de que João Vaccari tinha plena ciência, na qualidade de tesoureiro e representante do Partido dos Trabalhadores, do esquema ilícito e, portanto, da origem espúria dos valores.” A denúncia transcreve trecho da delação de Eduardo Leite.

Denúncia do MPF contra tesoureiro do PT por receber propina de empreiteiras para o partido, no esquema do Petrolão, já era esperada
Denúncia do MPF contra tesoureiro do PT por receber propina de empreiteiras para o partido, no esquema do Petrolão, já era esperada

“Eduardo Leite relatou que João Vaccari o procurou, por volta de 2010, dizendo que tinha conhecimento, por meio da Área de Serviços da Petrobras, que a Camargo Correa estava atrasada no pagamento das propinas relativas a contratos com a Petrobrás, e solicitou que a propina atrasada fosse paga na forma de doações eleitorais, em montante superior a R$ 10 milhões.”

Os procuradores federais da Lava Jato suspeitam de enriquecimento ilícito de Vaccari. Eles estão convencidos do envolvimento do tesoureiro do PT no vasto esquema de corrupção que se instalou na Petrobrás. “Além de tudo isso, no tocante a João Vaccari, há evidências de que os esquemas estabelecidos no seio da Petrobrás serviam a partidos políticos e a projetos pessoais de enriquecimento ilícito de detentores de cargos públicos, inclusive dele próprio.”

 

Com a palavra, o criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, em defesa de João Vaccari Neto

“O sr. Vaccari repudia as referências feitas por delatores a seu respeito, pois as mesmas não correspondem à verdade. A defesa do sr. João Vaccari Neto manifesta-se diante das informações veiculadas nesta data, as quais noticiam a apresentação de denúncia contra o sr. Vaccari, secretário de Finanças do PT, além de outras 26 pessoas, na 10ª fase da operação Lava Jato, deflagrada nesta segunda-feira.

Embora ainda não se tenha ciência dos termos da denúncia, torna-se importante reiterar que o sr. Vaccari não participou de nenhum esquema para recebimento de propina ou de recursos de origem ilegal destinados ao PT.

Ressaltamos que causa estranheza o fato de que o sr. Vaccari não ocupava o cargo de tesoureiro do PT no período citado pelos procuradores, durante entrevista no dia de hoje, uma vez que ele assumiu essa posição apenas em fevereiro de 2010.

O sr. Vaccari repudia as referências feitas por delatores a seu respeito, pois as mesmas não correspondem à verdade. Ele não recebeu ou solicitou qualquer contribuição de origem ilícita destinada ao PT, pois as doações solicitadas pelo sr. Vaccari foram realizadas por meio de depósitos bancários, com toda a transparência e com a devida prestação de contas às autoridades competentes.

O sr. Vaccari permanece à disposição das autoridades para todos os esclarecimentos necessários, como sempre esteve desde o início dessa investigação.

São Paulo, 16 de março de 2015

Prof. Dr. Luiz Flávio Borges D’Urso”

 

Publicado aqui, no Blog do Fausto Macedo

 

 

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“Assustador”: homem do PT no Petrolão cobrou propina mesmo depois da Lava Jato

Juiz Sérgio Moro considerou “assustador” que Renato Duque continuasse a cobrar propina para o PT mesmo depois da Operação Lava Jato ter se tornado de conhecimento público
Juiz Sérgio Moro considerou “assustador” que Renato Duque continuasse a cobrar propina para o PT mesmo depois da Operação Lava Jato ter se tornado de conhecimento público

 

Por Germano Oliveira

 

Ao decretar (aquia prisão preventiva do ex-diretor de Serviços e Engenharia da Petrobras Renato Duque, o juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal do Paraná, classificou de “assustador” o fato de ele continuar a receber propinas mesmo depois de deflagrada a Operação Lava-Jato, em março do ano passado. Segundo o juiz, o empresário Shinko Nakandakari, outro intermediador de propinas nos contratos da Petrobras, disse em seu depoimento de delação premiada que intermediou o pagamento de propinas da empreiteira Galvão Engenharia a Renato Duque e Pedro Barusco, ex-gerente da estatal. Shinko declarou que pagou pelo menos R$ 1 milhão em espécie a Renato Duque.

“O mais assustador é que Shinko confessou o pagamento de propinas ainda no segundo semestre de 2014, quando a Operação Lava-Jato já havia ganho notoriedade na imprensa. Indagado, admitiu que, mesmo com a notoriedade da investigação, nem ele ou a empreiteira sentiram-se tolhidos em persistir no pagamento de propinas, o que também parece ser o caso de Renato Duque, já que realizou operação de lavagem em 2014, já durante o curso das investigações”, diz trecho do parecer da decisão de Sérgio Moro.

O juiz explica que pediu a prisão preventiva de Duque, uma vez que ele “esvaziou” suas contas na Suíça, onde tinha 20,5 milhões de euros (aproximadamente R$ 70 milhões), remetendo os valores para contas em outros países, como o Principado de Mônaco.

“Ainda no segundo semestre de 2014, a conta em nome da offshore Milzart Overseas, no Banco Julius Baer, no Principado de Mônaco, que tinha como beneficiário e controlador Renato Duque, recebeu, em diversas operações de crédito, cerca de US$ 2,2 milhões. Já a conta em nome da offshore Pamore Assets, no Banco Julius Baer, no Principado de Mônaco, recebeu, no segundo semestre de 2014, 208,6 mil euros. Esses valores foram provenientes de contas mantidas em nome das offshores Tammaroni Group e Loren Ventures, no Banco Lombard Odier, na Suíça, que também seriam controladas por Renato Duque, ainda em 2014”, acrescenta o juiz em seu despacho.

Segundo Moro, há indícios de que Duque agiu com receio de que a Justiça bloqueasse os valores de suas contas na Suíça, assim como ocorreu com Paulo Roberto Costa, que teve bloqueados valores de U$ 23 milhões. “Por isso, Duque transferiu os fundos da Suíça para contas no Principado de Mônaco, esperando por a salvo seus ativos criminosos”.

Para o juiz, Duque jamais declarou dinheiro no exterior à Receita Federal ou jamais admitiu à Justiça ter contas no exterior. Por isso, o dinheiro foi bloqueado, “por ser absolutamente incompatível com os rendimentos que recebia como ex-diretor da Petrobras”. Segundo Moro, ao fazer essas operações envolvendo suas offshores, Duque está praticando novos atos de lavagem de dinheiro.

O MPF constatou que nos extratos das contas de Duque em Mônaco, “há registro de transferências vultosas para outras contas nos Estados Unidos e em Hong Kong, que podem igualmente serem controladas por Renato Duque e ainda são mantidas fora do alcance das autoridades brasileiras”.

Moro diz que, sem a preventiva, Duque pode continuar com novos atos de lavagem de dinheiro, frustrando a iniciativa das autoridades em recuperar os ativos desviados por ele. O juiz lembra que já foi possível a recuperação de ativos do ex-gerente da Petrobras, Pedro Barusco, com a recuperação de US$ 97 milhões, assim como a recuperação dos valores com Paulo Roberto Costa, como “fruto do trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público e do Ministério da Justiça”.

 

Publicado aqui, no globo.com

 

Confira abaixo os vídeos com as reportagens da primeira prisão do ex-diretor da Petrobras Renato Duque, em novembro do ano passado, e ontem:

 

 

 

 

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Líder do PT na Câmara: “Manifestações foram exitosas. Ou mudamos, ou ruas nos engolem”

O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE) - foto de Givaldo Barbosa / Agência O Globo
O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE) – foto de Givaldo Barbosa / Agência O Globo

 

Por Isabel Braga

 

O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), disse nessa quinta-feira que as manifestações de sexta e de domingo refletem a necessidade de mudança por parte do governo e do Congresso Nacional. Para ele, “qualquer governo comete erros, e o momento é de humildade, de dialogar e não fazer política com rancor”. O líder reclamou da cobertura da mídia. Para ele, houve supervalorização das manifestações de domingo e não foi dado o mesmo peso em relação às de sexta, que não pediam a saída do PT e da presidente Dilma Rousseff do governo. Também comentou a discrepância de números de manifestantes do DataFolha e da Polícia Militar de São Paulo.

— Independente disso, as ruas mostraram que querem mudança. Ou fazemos ou as ruas nos engolem. Ninguém pode chegar aqui com o mesmo sentimento da semana passada. Quem fizer isso, quebrará a cara — disse o líder do governo.

Segundo ele, o governo tem que mudar na área econômica, dialogar com as centrais sobre os direitos trabalhistas, com a sociedade, com o Congresso. Para Guimarães, o governo da presidente Dilma é “forte” e irá se recuperar tomando medidas para enfrentar a crise. Guimarães defendeu a ampliação do ajuste fiscal e disse que, pessoalmente, é a favor da taxação de grandes fortunas.

— O novo núcleo político nasce na sequência para aprimorar a saída (da crise). Não tem milagre, não é uma pessoa só a apertar um botão. É construção política e tem que ser feita com toda a base aliada. O momento é de reconstrução da base aliada. Amanhã (terça), o vice-presidente Michel Temer se reunirá com os líderes aliados na Câmara. Temos que dialogar e sair dessa mesmice. Fazer um ajuste amplo, atingindo todos os setores.

Indagado sobre a tentativa de ministros e petistas de relativizar as manifestações de domingo, dizendo que são em sua maioria pessoas que votaram nos adversários de Dilma, Guimarães afirmou:

— Não estou relativizando. Acho que as manifestações foram exitosas, e temos que agir. Não vou pela linha do eleitorado do adversário. Não temos que ficar atordoados. O governo precisa agir. O recado foi para todos: governo, oposição, Congresso.

O líder do governo propôs um pacto entre governo e oposição em torno da votação da reforma política. Segundo ele, em junho de 2013 a presidente Dilma propôs como resposta às ruas a aprovação desta reforma, mas a “culpa” por ele não ter sido votada é do Congresso.

José Guimarães também defendeu nesta quinta-feira mudanças internas no PT no próximo congresso da legenda, que acontecerá em junho. Segundo o líder do governo, o PT “está sofrendo” e precisa se recompor, fazendo no próximo congresso da legenda um pacto que garanta mudanças, dando como exemplo, mudanças na formação e também na relação com os movimentos sociais de quadros.

 

Publicado aqui, no globo.com

 

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Reprise de entrevista de Dilma no JN provoca novo panelaço em várias cidades do Brasil

Movimento divulgou imagem avisando que, nesta noite, um novo panelaço aconteceria durante o Jornal Nacional (Foto: VemPraRua.net / reprodução)
Movimento divulgou imagem avisando que, nesta noite, um novo panelaço aconteceria durante o Jornal Nacional
(Foto: VemPraRua.net / reprodução)

 

A reportagem do “Jornal Nacional”, da TV Globo, desta segunda-feira (16) sobre o discurso da presidente Dilma Rousseff ocorrido à tarde, em que ela comentou as manifestações contra o governo no domingo (15), gerou um novo “panelaço” em várias cidades do país.

O movimento antigovernista “Vem Pra Rua” mobilizou a população para o novo protesto contra a presidente. Em seu discurso, Dilma afirmou que mesmo com atos contrários à sua gestão, “valeu a pena lutar pela liberdade”, referindo-se ao seu passado de combate à ditadura militar.

Em São Paulo, bairros como Vila Mariana, Moema, Higienópolis, Pompéia, Sacomã, Jardins, Liberdade, Santa Cecília, Alphaville e Tatuapé registraram “panelaço”.

No Rio de Janeiro, onde neste domingo houve dois atos contra a presidente Dilma, houve novo panelaço na noite desta segunda, em Copacabana, no Jardim Botânico, em Jacarepaguá, na Barra da Tijuca e no Leme.

Relatos de internautas em redes sociais apontam ainda o panelaço em SalvadorGoiâniaCuritiba (com panelaço, apitaço e buzinaço), Belo HorizonteLondrina (PR)Porto Alegre, Niterói (RJ), Brasília, Santos (SP), Campinas (SP) e Santo André (SP).

 

Publicado aqui, no uol.com

 

Panelaço de hoje em São Paulo (SP)

 

 

Panelaço de hoje em Tatuapé (SP)

 

 

Panelaço de hoje no bairro de Leme, Rio de Janeiro (RJ)

 

 

Panelaço no bairro Água Verde, em Curitiba (PR)

 

 

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O governo, via PT, CUT e UNE, quis pagar para ver. Deu no que deu

Deu ruim - Quico

 

 

 

Jornalista Eliane Catanhêde
Jornalista Eliane Catanhêde

Crise grave, mas sem saída

Por Eliane Catanhêde

 

O Brasil tem agora o antes e depois de 15 de março de 2015. Mais de 1 milhão de pessoas foram às ruas para protestar contra a presidente Dilma Rousseff e contra o PT, que, desde 1980, era quem tinha força e capacidade de mobilização.

Quem poderia imaginar que o PT mudaria de lado e passaria a ser alvo, após 30 anos de glórias e de jogar as ruas contra tudo e contra todos em nome da ética? Bastaram 12 anos de poder para o caçador virar caça. E isso tem um lado dramático. Mas cada um colhe o que plantou.

À crise política, aos erros na economia, aos desmandos éticos, ao desmanche da Petrobrás, soma-se o último fator que faltava: as ruas. Fecha-se o cerco. Não foi uma manifestação a mais, foi uma para entrar na história, tal a dimensão e a extensão.

Em junho de 2013, a classe média assalariada explodiu nas ruas com uma pauta difusa — e confusa — de reivindicações e de acusações generalizadas contra “tudo o que está aí”. Já neste 15 de março de 2015, jovens e velhos, mulheres e homens, empresários e assalariados tiveram uma pauta bastante específica: a rejeição a Dilma, ao governo e ao PT.

Registre-se uma grande ausência: a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não apareceu na sexta-feira nem no domingo, fosse para aprovar ou desaprovar qualquer dos dois movimentos. Mas o pior não foi isso: as multidões, com seus cartazes e slogans, simplesmente ignoraram Lula. Será que Lula, para o bem e para o mal, também não é mais o mesmo?

Do outro lado, a palavra impeachment, que foi o mote original da convocação pelas redes sociais, perdeu apelo e se enfraqueceu ao longo do processo e praticamente desapareceu no dia D. O “Fora Dilma” é simbólico. O pedido de impeachment, bem mais concreto, sumiu.

Tudo isso desaba sobre o PT num momento em que Dilma despenca nas pesquisas de opinião em todas as faixas e em todas as regiões e em que o governo deixa de ser um trunfo do partido para se transformar num fardo político. Por quê? Porque não tem o que dizer, não tem o que apresentar, não tem um horizonte melhor a oferecer.

Diz a regra que, se você não tem o que dizer, é melhor ficar calado. Dilma quebrou essa regra no Dia Internacional da Mulher e ontem destacou os ministros José Eduardo Cardozo e Miguel Rossetto para responder à avalanche popular com os dois temas sacados em junho de 2013: reforma política e pacote anticorrupção. Dois anos depois, é tudo o que o governo tem a dizer?

Como “defesa”, os ministros disseram que quem foi às ruas não foi o eleitor de Dilma, foi o de oposição. Isso escamoteia o desgaste real e perceptível da presidente recém-reeleita; é uma admissão de que a oposição está cada vez mais forte e mais organizada e confirma que o governo, incapaz de fazer autocrítica, continua autista, isolado, talvez incapaz de ouvir a voz rouca das ruas. Pior: foi para o confronto e perdeu.

O governo, via PT, CUT e UNE, pagou para ver e deu no que deu. Os atos de sexta-feira, organizados, foram relevantes, mas os protestos de ontem, espontâneos, mostraram que os irritados com o governo ultrapassam em muito os aliados do PT.

É hora de o governo lamber as feridas e de a oposição avaliar seriamente como entrar no vácuo das manifestações. Espera-se que Dilma passe a ouvir, a conversar, a ceder, mas isso é querer que Dilma deixe de ser Dilma. Espera-se que o governo recomponha uma economia esgarçada e recupere a capacidade de articulação política com o Congresso, mas é preciso combinar com o PMDB.

E da oposição, o que se espera? Aí está o X do problema. As manifestações foram contra o PT, mas não foram a favor da oposição. O PSDB parece não saber o que dizer, o que fazer e para onde ir, está sem rumo e a reboque das ruas. E isso leva a um diagnóstico bastante grave: a crise é gigantesca, mas sem saída.

 

Publicado aqui, no estadao.com

 

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