Um bom motivo para participar de manifestações — a favor ou contra Dilma Rousseff — chega a ser pueril. Podemos sair às ruas porque ainda é possível protestar pacificamente no país sem ser preso. O Brasil ainda não virou uma Venezuela; o regime democrático ainda não caiu de “maduro” e algumas instituições não estão podres. Melhor aproveitar e exercer o direito à livre expressão — ou será que não?
Um bom motivo para ficar em casa é não acreditar em nenhuma grande bandeira das manifestações pró e contra. Os grupos se confundem. Se existe algo que não identifica a grande massa de manifestantes e não manifestantes, é a ideologia. A maior burrice é rotular de “direita” ou “esquerda” quem vai numa ou na outra manifestação. Ou quem decide não sair às ruas. Quem são os fascistas? Em qual categoria ideológica se situam os que querem detonar, “com botas e chuteiras”, a política econômica atual de Dilma? Leia-se aí o MST de Stédile.
Pergunte se são de esquerda ou de direita os garis em greve contra o reajuste anual ridículo de 3%, os caminhoneiros que bloqueiam as estradas, os favelados sem-casa-esgoto-creche-hospital, os policiais, os professores, os médicos, os comerciantes, os estudantes em fila por senha para estudar. Pergunte se são de esquerda ou de direita os desempregados pela incompetência oficial, ou todos nós que pagamos contas de luz e gasolina estratosféricas pela má gestão do governo.
A resposta será: ah, vem para a vida real, sem esse papo de direita ou esquerda, somos a maioria sem voz, queremos um país que funcione, um governo que não assalte os cofres públicos, uma economia que favoreça o emprego e os empreendedores, sem descontrole da inflação, uma educação de qualidade para todos, uma saúde digna, uma aplicação honesta dos altos impostos que pagamos, uma infraestrutura que nos tire do Terceiro Mundo, uma política de segurança que não deixe as famílias à mercê de criminosos. Queremos bons exemplos de cima e fim da corrupção institucionalizada. É pedir muito?
Se você é a favor da Petrobras e contra o roubo sistemático do PT à Petrobras, a qual manifestação deve aderir? Se você abomina o cinismo dos últimos pronunciamentos de Dilma Rousseff mas é contra o impeachment, deve sair às ruas em protesto ou ir à praia e ao futebol? Se você é contra Eduardo Cunha e Renan Calheiros — e, consequentemente, contra o domínio do pior PMDB —, qual manifestação deve escolher? Ou vai ficar no sofá, um direito seu?
Se você acredita na lista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, se você continua estarrecido com o depoimento frio do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, relatando a distribuição sistemática de propinas milionárias ao PT desde a era Lula até a campanha de Dilma em 2010, como deve se comportar? Sai ou não sai às ruas? Leva suas panelas para o fogo ou para a janela?
Se você se preocupa com a desigualdade social, deve se aliar ao MST e ir contra o ajuste fiscal de Dilma e Joaquim Levy? Mas aí você estará conspirando contra a presidente. Como ela disse na quinta-feira no Rio de Janeiro, o Brasil “esgotou todos os recursos para combater a crise”. Se empresários e sindicalistas se unem em São Paulo contra o ajuste, quem é burguês, quem é coxinha, mãozinha, perninha?
Você acredita que o Brasil está nesse buraco por causa da “crise internacional” e porque Dilma fez tudo pelos pobres — na educação e na saúde? Você acredita na presidente quando ela diz que o governo do PT cortou gastos da máquina? Está faltando pau de selfie no Planalto — a presidente precisa se enxergar sem distorções de foco. Sobra cara de pau. Até o ex-tesoureiro da campanha presidencial de Dilma fez mea-culpa, disse que o PT errou. Quando Dilma assumirá alguma responsabilidade e pedirá desculpas à nação? A presidente nos pede “paciência”. A população deveria pedir à presidente “sinceridade”. Mas é pedir muito.
Quem quer derrubar Dilma no grito esqueceu o que é uma ditadura, não respeita o voto democrático, não pensa no país nem no povo e ainda por cima é ingênuo. Está claro que manifestações por impeachment não são oportunas e não darão em nada.
Quem apoia incondicionalmente uma presidente que fez desandar a economia e as alianças políticas, que resistiu durante meses a afastar a presidente da Petrobras e que mentiu e continua a mentir sobre índices e análises de seu desempenho com uma desfaçatez nunca antes vista não pensa no país nem no povo e ainda por cima é ingênuo.
Pedir impeachment de Dilma não é golpismo, é tolice de desmemoriados. Acreditar em Dilma não é idealismo, é tolice de desmemoriados. Vamos tentar o caminho do meio. Saindo às ruas ou ficando em casa.
ERA ROTINA — Dilma é festejada em visita ao Acre. Com a crise, recepções amistosas assim não são mais uma certeza (foto de Odairl Leal – Reuters)
Por Leandro Loyola e Murilo Ramos
A presidente Dilma Rousseff não estava muito confortável naquele momento da conversa com líderes de partidos aliados, ao final da tarde da última segunda-feira. Sentada à frente de uma mesa grande, no Palácio do Planalto, Dilma dizia que os protestos ocorridos durante seu pronunciamento de 15 minutos em cadeia de rádio e TV, na noite anterior, haviam sido “uma coisa concentrada em alguns bairros” de São Paulo, referindo-se a locais de classe média alta. Acrescentou que, em Brasília, os protestos ocorreram “no Sudoeste e em Águas Claras”, também bairros de classe média. “Em Recife foi só na Aldeota (outro bairro nobre)”, disse. “Aldeota é em Fortaleza, presidenta”, corrigiu o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira. Dilma foi então interrompida por um novato nesses encontros, o senador Omar Aziz, do PSD, ex-governador do Amazonas. “Presidenta, no domingo não vai ser assim…”, disse Aziz. Um novato permitia-se contradizer a presidente da República. Aziz prosseguiu: “Eu queria prestar minha solidariedade à senhora porque envolveram a senhora neste roubo na Petrobras, que é o maior roubo da história do Brasil. É uma vergonha fazerem isso com a senhora”. Constrangida e sem paciência, Dilma admoestou Aziz: “Governador (na verdade, Aziz agora é senador), o senhor está equivocado”.
A conversa estava tensa. Em outro momento, Dilma alertou os líderes: “Nós temos de ter cuidado porque a política está muito criminalizada”. Parecia o ex-presidente Lula falando. Ele usa esse argumento sempre que um companheiro é acusado de corrupção. Em tempos de petrolão, é quase todo dia. Dilma, então, narrou os dissabores de quem vive sob a ameaça das vaias dos contribuintes que povoam as ruas do Brasil e enxergam a criminalização na política. Contou aos parlamentares o caso da ex-presidente da Petrobras Maria das Graças Foster, sua amiga, que deixou o cargo em fevereiro após uma temporada exposta pelas investigações do petrolão. “Ela não pode sair de casa nem para ir à padaria”, disse Dilma. Graça vive hoje uma vida de aposentada no Rio de Janeiro, mas não tem sossego.
O governo acredita que os protestos recentes não são isolados, mas o início de um movimento
Omar Aziz é um político engraçado, um piadista que usa palavrões para descontrair a conversa e não se prende às mesuras do mundo político. Faria sucesso em reuniões com Lula. Entretanto, o fato de ele e outros terem tido abertura para dizer tanto a Dilma é sinal de que o governo enfrenta tempos difíceis. Sempre avessa a políticos, para seus padrões Dilma já fazia uma grande concessão ao recebê-los; sujeitar-se a ouvir conselhos beirava o inaceitável. Na semana passada, ouviu muitos. “A senhora tem de dialogar com o Congresso, o diálogo está obliterado”, disse o senador Fernando Collor, do PTB, um dos participantes. Collor, quanta ironia, serve às analogias políticas mais simplistas com Dilma: ignorava o diálogo com o Congresso e foi alvo de maciços protestos populares em 1992 – até sofrer o impeachment. “A senhora tem de ter humildade de pedir desculpas pelos seus erros”, disse. Que cena.
>> Os responsáveis pelo rebaixamento institucional do Legislativo
Dilma só se sujeitou às perorações dos políticos porque precisa deles para atravessar seu momento mais difícil na Presidência da República. A semana passada foi, provavelmente, a mais tormentosa de seu governo, ameaçado por uma crise econômica grave e uma inoperância política de grandes proporções. Dilma foi acuada por vaias ao visitar uma feira de construção em São Paulo – que nem estava aberta ao público. Contrariada e com semblante tenso, discursou para uma plateia semivazia. Comparecer ao evento era parte de uma estratégia traçada há um mês, para tentar recuperar a popularidade de Dilma, em queda livre desde a reeleição. Mas o cenário mudou rapidamente. No final da semana, Dilma cancelou a visita que faria a um evento em Belo Horizonte. O governo afirma que mudou os planos não por medo de vaias, mas porque a mãe da presidente, Dilma Jane, de 90 anos, não passava bem.
“Há um sentimento ruim, que precisa ser revertido”, disse recentemente o ex-presidente Lula em um café da manhã na casa do presidente do Senado, Renan Calheiros, em Brasília. Partindo de sua lógica preferida, a da divisão do Brasil entre classes sociais, Lula afirmou que antes o governo era vítima da desaprovação dos ricos por, na sua visão, ter privilegiado os pobres. Hoje, no entanto, haveria um sentimento difuso de desaprovação por outras camadas da população. A insatisfação expressa em junho de 2013 não desapareceu. A avaliação do governo é que os protestos marcados para domingo, dia 15, não devem se resumir a um evento isolado, mas devem marcar o ponto inicial de um movimento maior. O 15 de março será uma espécie de reunião para marcar o 15 de abril, o 15 de maio, e assim por diante. Será mais um problema agregado aos vários outros que Dilma já tem a resolver.
É GUERRA — Mulher vaia Dilma em São Paulo. Pesquisas do governo mostram que a popularidade de Dilma se mantém em queda (foto de Jorge Araujo – Folhapress)
A crise política, que atrapalha a solução da crise econômica, é alimentada por muitos erros, aqueles mencionados por Collor. Centralizadora, Dilma sempre resistiu a ouvir opiniões para tomar decisões na área política. Paulatinamente, desidratou o poder do vice-presidente, Michel Temer. O resultado disso hoje é que Temer perdeu parte da capacidade de influenciar seu partido, o PMDB. No início do ano, Dilma fez uma reforma ministerial que lhe custa caro. A troca diminuiu a capacidade de influência do PMDB no governo, a ponto de o partido ter cinco ministérios e trabalhar boa parte do tempo na oposição; diminuiu a presença da mais forte corrente interna do PT; e deu força para que os ministros Gilberto Kassab e Cid Gomes turbinassem seus partidos. Assim, Dilma deixou claro que queria enfraquecer o PMDB e o PT. Foi um erro estratégico em um momento delicadíssimo, em que Dilma precisa justamente de PT e PMDB para afastar o país do abismo econômico construído durante sua gestão anterior. Dilma tem de fazer isso em um momento em que as pesquisas feitas sob encomenda do Palácio do Planalto mostram que a avaliação de seu governo está ainda pior do que a atestada pelo Datafolha, no mês passado, quando havia atingido seu mais baixo índice. Na ocasião, a maioria dos entrevistados afirmava que Dilma havia mentido sobre a situação da economia. Hoje, a maior parte dos insatisfeitos está em São Paulo, como o governo já sabia; mas cresceu o número de descontentes no Nordeste.
Lula e Dilma passaram dois meses sem conversar, entre o resultado da eleição e o início deste ano. Lula esteve em Brasília em algumas ocasiões para conversar com políticos. No recente café da manhã com senadores, Lula ouviu reclamações sobre a má relação com Dilma. Tentou contemporizar. Disse que Dilma, pelo menos, havia montado um núcleo político com seis ministros, estava ouvindo mais a opinião de outras pessoas. Contudo, disse que esse núcleo não poderia ser fechado nem excluir o vice Michel Temer. “É um absurdo o governo não ter tido cuidado com o PMDB”, disse. Na semana passada, Lula e Dilma conversaram a sós no Palácio da Alvorada e, depois, jantaram com ministros do PT. Lula defendeu que é preciso abrir mais espaço para o PMDB no governo. No dia seguinte, Dilma anunciou que mais três ministros entrariam para o grupo, entre eles Eliseu Padilha, do PMDB.
Em público, Lula sugeriu ainda a troca do ministro da Articulação Política, Pepe Vargas, talvez a única unanimidade negativa no governo e no Congresso. Incumbido de trabalhar pela relação entre o governo e o Congresso, Vargas não pode articular na Câmara, porque o presidente Eduardo Cunha, do PMDB, não o recebe; também é sabotado por boa parte do PT, porque é de uma corrente minoritária dentro do partido. Também não tem apoio no governo. Na semana passada, Pepe chamou para uma reunião deputados para tratar da lei de socorro aos clubes de futebol. Após uma exposição de meia hora sobre a importância dos clubes, Pepe disse que, infelizmente, não tinha nada a apresentar porque os técnicos do Ministério da Fazenda não haviam terminado os estudos. “Estão todos envolvidos nesse negócio do Imposto de Renda”, disse Pepe. Os deputados saíram fulos de raiva. Hoje, ninguém aposta que Pepe Vargas permaneça muito mais tempo no cargo. A questão é que Dilma demora a tomar decisões. Se há sete meses o Supremo Tribunal Federal espera que ela escolha um substituto para Joaquim Barbosa, quanto tempo levará para nomear um substituto para Pepe?
O fracasso de Dilma na política já foi mascarado em outras ocasiões com a ajuda da popularidade e do marketing. Na semana passada, a saída da propaganda deu errado. O pronunciamento de Dilma era um legítimo texto escrito pelo marqueteiro João Santana. No entanto, foi a primeira vez que Dilma se dirigiu à nação sem anunciar uma novidade ou benefício — nas ocasiões anteriores, anunciou reajuste do Bolsa Família ou novos programas, como o Minha Casa Melhor, que concedia financiamentos de até R$ 5 mil aos beneficiários do Minha Casa Minha Vida para comprar eletrodomésticos. Há duas semanas, o governo acabou com o programa por causa da alta taxa de inadimplência. Provavelmente, nos quatro últimos anos de governo, Dilma terá de ouvir todos os conselhos que não ouviu dos políticos nos quatro primeiros.
Manifestantes na Cinelândia, no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (13) (foto de Raphael Gomide – Época)
Por Raphael Gomide, Hudson Corrêa e Lívia Cunto Salles
Sentada em um canteiro no centro da Cinelândia, no Rio de Janeiro, alheia aos longos discursos políticos, feitos de um carro de som, em apoio à Petrobras e contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a desempregada Luciana, moradora de Campos dos Goytacazes (RJ), conversava desanimada com uma amiga na tarde desta sexta-feira (13). Parecia cansada. Ao redor da árvore, estavam ainda o marido, também desempregado, a filha de 6 anos e outros conterrâneos. Todos vestiam camisetas cor de laranja com os logotipos do Sindipetro e da Petrobras: “Defender a Petrobras é defender o Brasil”. Luciana, que não quis dizer seu sobrenome, não faz parte do sindicato e nunca trabalhou no setor petrolífero.
Sem trabalho, ela e o marido, Marco Aurélio, afirmaram ter recebido R$ 80 do sindicato para vir ao Rio participar de um protesto tão longe de casa. “O dinheiro chegou em boa hora”, disse. Quando o ato começou, Luciana e o marido estavam cansados. Acordaram às 5h30, saíram às 7h de Campos, a 274 km do Rio, e só chegaram ao centro da cidade às 15h. Segundo ela, vieram em uma caravana de mais de 20 ônibus do Norte Fluminense, alugados pelo Sindipetro. Sem ter com quem deixar a filha pequena, trouxeram a menina para passear no Rio. Demoraram mais que as quase cinco horas que a viagem costuma levar porque o grupo parou para almoçar na lanchonete Oásis Grill, na BR-101, na altura de Casimiro de Abreu. A despesa foi paga pelo sindicato, disse ela.
A Época, o diretor do Sindipetro-RJ e diretor de comunicação da Federação Nacional dos Petroleiros Edson Munhoz afirmou desconhecer que militantes tenham sido pagos para ir ao ato. “Nossa militância trabalha na base de contrapartidas. Por exemplo, a associação de moradores ou de sem-teto precisa de advogado em uma ocupação e providenciamos, mas dinheiro na mão desconheço.”
Segundo ele, o mais normal é haver uma “troca política”, de apoio mútuo. “Quando há uma ação deles, sindicatos maiores, como o dos Petroleiros e Bancários dão cesta básica e ajudam no que é preciso. Todos colaboram com os cidadãos mais humildes. Acredito que algum político tenha até auxiliado [financeiramente], mas não é praxe dar dinheiro no movimento sindical”, afirmou Munhoz.
Luciana era uma das muitas pessoas que, com camisetas cor de laranja e ar deslocado, se misturavam às muitas com camisetas vermelhas e portando bandeiras da CUT (Central Única dos Trabalhadores), do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e do PT. Época perguntou a Luciana a razão do protesto e o motivo por que ela estava ali. “É o petróleo!”, disse. “É o petróleo!” Como se a explicação fosse insuficiente, disse que o protesto era por causa dos “royalties que estão querendo tirar do Estado do Rio”. A manifestação era de apoio à Petrobras e contra o impeachment da presidente Dilma. A passeata em defesa dos royalties aconteceu em novembro de 2012.
A Polícia Militar estimou entre mil e 2 mil pessoas os presentes ao ato na Cinelândia, que depois seguiu, de forma pacífica, em direção a sede da Petrobras. Havia 150 policiais acompanhando a manifestação, mas eles não tiveram trabalho.
Atualização às 2h23: Após contato do blog, a assessoria do Sindipetro NF enviou a nota transcrita abaixo:
“O Sindipetro-NF mantém uma política transparente de ajuda de custo aos militantes que participam de atos públicos apoiados ou promovidos pela entidade. Os valores envolvidos são declarados em seus balanços e de conhecimento dos associados. Quando da impossibilidade de oferecer alimentação, o sindicato entende ser necessário um auxílio para sua aquisição durante uma longa jornada, que, no caso do protesto de hoje (ontem) na Cinelândia, se iniciou às 7h com a saída dos ônibus de Campos dos Goytacazes (RJ) e tem previsão de encerramento à 1h da manhã deste sábado, com o retorno à cidade. A ajuda destinada hoje (ontem) foi de R$ 80 para cada militante, para cobrir gastos com almoço, lanche e jantar no Rio”.
Atualização às 14h12: Alertado aqui, em comentário do leitor Alvaro, o blog reproduz abaixo o vídeo no qual a equipe de reportagem da Folha de São Paulo flagra a distribuição do dinheiro pago pelo Sindipetro NF aos “militantes” pró-Dilma, na manifestação de ontem no Rio. Confira com seus próprios olhos e forme a sua opinião:
Atualização às 15h21: Apesar da nota da assessoria do Sindipetro NF ter alegado que “a ajuda destinada ontem foi R$ 80 para cada militante, para cobrir gastos com almoço, lanche e janta no Rio”, a equipe de reportagem da Folha de São Paulo revelou que, além da distribuição do dinheiro flagrada em vídeo, os militantes pagos de Campos já haviam recebido quentinhas. Confira aqui.
Para atuar em outra vertente do jornalismo, na lida por certo mais prazerosa de crítico de cinema, este “Opiniões” fará uma outra pausa momentânea, até amanhã, na cobertura do Petrolão. Quem não quiser esperar, pode continuar acompanhando tudo sobre o assunto, em tempo real, no Blog do Arnaldo Neto.
Manifestantes campistas integram o ato pró-Dilma no Rio de Janeiro. Desde às 15h25, a cobertura em tempo real do jornal O Globo (aqui) mostrou que eles já estavam na Cinelândia, onde acontece o ato intitulado como “Dia Nacional de Luta em Defesa: dos Direitos da Classe Trabalhadora; da Petrobras; da Democracia; da Reforma Política e Contra o Retrocesso”.A foto mostra estudantes membro do Diretório Central de Estudantes (DCE) da UFF Campos, com uma faixa em defesa da “soberania nacional”. O jornal também registrou a presença em grande número de participantes do Sindipetro do Norte Fluminense. Pelo país, o protesto acontece em pelo menos mais 28 cidades.
Como este blog mostrou aqui, cerca de 1.500 manifestantes de Campos — segundo números do Sindipetro e do presidente do PT Campos — foram para o Rio de Janeiro participar do ato pró-Dilma. Entre eles estão sindicalistas, petistas, simpatizantes e estudantes. A concentração na Cinelândia estava prevista para 15h. Uma passeata prevista para 17h começou pouco antes das 18h.
A Polícia Militar informou que, até às 16h35, nenhum incidente tinha ocorrido na manifestação no Rio. Os PMs, 400 escalados, liberaram o trânsito na região da Cinelândia, pedindo para as pessoas irem para a calçada. Muitas pessoas com camisas da CUT e do Sindipetro do Norte Fluminense participavam do ato. Nos cartazes, muitos pedidos pela democratização da mídia e pela punição dos envolvidos no escândalo da Petrobras.
Segundo o subcoodenador de policiamento do evento, tenente-coronel Carlos Tiango, às 17h20, cerca de 700 pessoas participavam do ato na Cinelândia, no Rio. Após 20 minutos, a PM divulgou novo boletim com número de 1.000 participantes.
Manifestantes começaram a deixar a Cinelândia, por volta das 17h45, e caminhar em direção à sede da Petrobras, na Avenida Chile. O ato, segundo a PM, acontece de forma pacífica.
Os primeiros manifestantes que chegaram à sede da Petrobras realizaram um abraço simbólico e cantaram o Hino Nacional na porta do edifício. Em seguida, gritaram “viva Dilma”. o número oficial de manifestantes, segundo a Polícia Militar, foi de 1.500. Já a Central Única dos Trabalhadores (CUT), responsável pelo protesto, diz que foram 5.000 presentes.
A manifestação em frente à sede da Petrobras terminou às 18h40. O protesto terminou sem incidentes, de forma pacífica.
Além do Rio de Janeiro, os manifestos pró-Dilma acontecem em outras 34 cidades pelo país. Até o momento, não houve confronto registrado em nenhum dos manifestos:
O governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) afirmou nesta sexta-feira, 13, já ter sido “julgado e condenado” em razão das acusações feitas pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa, em sua delação premiada nas investigações sobre corrupção na estatal. “Estou sendo acusado de ter participado de uma reunião que nunca ocorreu. É uma denúncia política”, disse Pezão.
O depoimento de Paulo Roberto Costa, delator da Operação Lava Jato, serviu de base para a abertura de inquérito por parte do Superior Tribunal de Justiça (STJ), nessa quinta-feira. Além de Pezão, a investigação vai atingir o ex-governador fluminense Sérgio Cabral (PMDB).
De acordo com o delator, em 2010 Pezão, então vice-governador, e o então governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) e o secretário da Casa Civil, Régis Fichtner, participaram com ele de uma reunião para combinar a arrecadação de fundos para a campanha da reeleição ao governo fluminense. Cabral e Régis também negam as acusações.
Segundo a Procuradoria, Cabral e Pezão agiram juntos, com colaboração do ex-secretário, para receber R$ 30 milhões em 2010 de empresas contratadas pela Petrobrás para a construção do Comperj. No entendimento da Procuradoria, o recebimento da propina foi feito por meio do ex-diretor.
O ministro do STJ aceitou também pedidos da procuradora para efetuar diligências, a fim de aprimorar a investigação dos fatos narrados pelos delatores da Lava Jato. No inquérito para apurar o envolvimento de Cabral, Pezão e Fichtner, a Procuradoria pediu que sejam coletados documentos, vídeos e registros de entradas e saídas do hotel Caesar Park em Ipanema, zona sul do Rio, onde teria ocorrido a reunião em 2010.
Nesta sexta, Pezão reclamou que só agora terá direito de defesa. “Tenho 32 anos de carreira pública e lamento muito ter de passar por esse tipo de exposição. Já fui julgado e condenado e só agora vão me dar o direito de defesa”, afirmou.
O governador disse que já tornou públicas as declarações de bens e de renda, no começo do ano. “Tenho certeza de que a verdade vai aparecer. Confio na Justiça”, afirmou Pezão, ressaltando não ter sido oficialmente notificado pela Justiça.
Jornalista, escritor e produtor musical Nelson Motta
Raios e trovoadas
Por Nelson Motta
Nem tudo piorou de 2010 a 2014. Caíram de 131 para 98 por ano os brasileiros fulminados por raios em diversas regiões do país, de todas faixas etárias e sociais. As vítimas do que os antigos acreditavam ser a ira dos deuses são em número bem maior do que as temidas mortes em acidentes aéreos e não há nada que as explique, além de estar no lugar errado, na hora errada. Ou aquela palavra que não se diz.
Mas justo na hora em que o governo Dilma enfrenta um tiroteio cerrado de todos os lados e grandes turbulências, na semana passada, um raio atingiu em cheio o quartel da Guarda Presidencial, em Brasília, levando ao hospital 31 militares feridos, felizmente sem vítimas fatais. E sem que a oposição ou as elites golpistas pudessem ser responsabilizadas.
A advertência metafórico-meteorológica parece sob medida para a infalível, incontestável e incorrigível Dilma, mas também para cada um de nós. Os raios fulminam a onipotência humana e revelam a nossa fragilidade e precariedade, nos fazem aceitar que, se não há justiça na natureza, nem no cosmos, nem nos deuses e religiões, nos resta acreditar que a ideia de fazer justiça é só uma invenção humana, com todas as suas imprecisões e contradições, como parte do processo civilizatório.
Diz a lenda que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas há registros de descargas que atingem o mesmo ponto até mais de duas vezes. Mas, ao contrário da História, os raios não se repetem como farsa, mas como tragédia, inexorável e inexplicável. Raios políticos, como metáfora da força do acaso, já caíram várias vezes no Congresso, na Presidência e no Ministério da Fazenda.
Vítima constante de raios, como os que mataram Tancredo Neves, Luís Eduardo Magalhães e Eduardo Campos, o Brasil agora sofre com os raios econômicos semeados pelo governo Dilma, colhendo tempestades politicas e trovoadas sociais. Não há nenhuma crise internacional, os Estados Unidos cresceram 4,6% no trimestre, até a União Europeia e a América Latina cresceram mais do que o Brasil, com menos inflação. A crise é de quem a criou, a conta é nossa.
Presidente Dilma Rousseff em seu programa eleitoral na TV (reprodução do YouTube)
Professora e tradutora Maria Helena Rubinato Rodrigues de Souza, filha do compositor Adoniran Barbosa
As panelas de dona Dilma
Por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Souza
Mentir é das artes mais difíceis e trabalhosas. Não é para qualquer alfinete, não. Quem quer ser um mestre na arte de enganar, tem que ter, em primeiro lugar, uma memória fabulosa e, em segundo lugar, respeitar o infeliz a quem mente. Acima de tudo, tem que ser diligente, estar sempre atento e não saber o que é preguiça, já que a mentira obriga o mentiroso a estar sempre fiando outras mentiras para sustentar a primeira que engendrou.
O grande erro dos políticos brasileiros é não ler, não estudar, não se aventurar entre os clássicos da literatura e querer, com sua rala cultura, fazer aquilo que Lincoln já advertia ser impossível e é: enganar a todos o tempo todo.
Vejam o PT e sua mentira mais usada: a vida que deu aos pobres. Quem nasceu, por exemplo, no último quartel do século 20 com certeza acredita que antes do PT aqui era o nada. Que os brasileiros nem sorrir sorriam, eram uns infelizes de pai e mãe. Antes do PT, era o breu!
Talvez nem acreditem que antes do PT o MDB, que pariu o PMDB, foi o partido no qual os brasileiros apaixonados pela liberdade e ansiosos pelo fim da ditadura mais confiaram.
Não os culpo. O PMDB, inerte, aquele que entra calado e sai mudo, não inspira que se acredite que já foi o berço de políticos que amavam mais o Brasil do que o Poder. De alguns que até abriram mão do Poder para preservar um país mais decente e com um futuro mais digno.
Leem Juca Kfouri, o jornalista do futebol, e acreditam quando ele garante que o repúdio demonstrado em várias cidades e bairros deste enorme Brasil ao engodo que foi a campanha e a consequente eleição de dona Dilma à Presidência da República foi “contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade”.
Gente diferenciada como dona Dilma, a filha de imigrante que deu certo. Ficam em êxtase diante da foto da presidente em sua modesta cozinha familiar, onde se vê, numa prateleira ao fundo, o xodó das cozinhas de todo o Brasil, o radinho.
Vestidinha com um simples blazer, a presidente da República tem nas mãos uma frigideira de onde despeja numa travessa o macarrão na manteiga que preparou para os seus.
Não sei o que a minha nonna diria de um macarrão que saiu da panela para uma frigideira, mas sei o que eu digo das panelas de dona Dilma: um luxo, um sonho dourado, são panelas Le Creuset!
Mas, acreditem, é uma típica cozinha pós-PT. Até no detalhe das orquídeas em vez da tradicional comigo-ninguém-pode.
Stoa Sul da ágora de Atenas, berço da democracia, julho de 2009 (foto de Ícaro Barbosa)
Já disse mais de uma vez que grande barato da lida blogueira, além do retorno em tempo real, é que muitas vezes os debates gerados nos comentários acabam sendo tão ou mais interessantes do que as próprias postagens que os geraram. Não por outro motivo, em dia de manifestações pró-Dilma hoje, antevéspera das passeatas que no próximo domingo pedirão nas ruas o impeachment da presidente reeleita, no desejo sincero de que as ideais e os argumentos que as sustentam (ou não) se digladiem na ágora da democracia, jamais as pessoas, o blog reproduz abaixo, na relevância maior de post, um debate gerado aqui entre o titular deste espaço e o ator Tonin Ferreira:
O motorista dirige mal? Matem o dono da empresa! A água do rio Paraíba está poluída? Prendam o Presidente da antiga CEDAE! Seu condomínio aumentou? Joguem o síndico pela janela do último andar e culpem o porteiro! Eu fico assustado com a falta de vergonha, de decência, de educação, e de sentido lógico em algumas atitudes de pessoas que se dizem revoltadas com a Dilma. Lembrei-me da galera do “crucifica-o! Crucifica-o!”, pedindo a libertação de um bandido (o tal Barrabás). Fico assustado quando não posso ir ao estádio torcer pelo meu time, pois é capaz do meu vizinho me agredir sem perceber, simplesmente por ser torcedor do time rival. Fico assustado quando o campo do Americano é vendido para dar lugar a edifícios e ninguém se mexe em nenhuma manifestação de repúdio a especulação imobiliária. Fico assustado quando o talento é substituído por BBB’s, teste de fidelidade ou qualquer coisa by nigth. Fico assustado com panelaços durante um programa gravado na televisão (quanta burrice), manifestantes destruindo lojas e alegando liberdade de expressão, pessoas me mandando voltar pra Cuba (se fosse Cubano talvez pensasse nisso), pelo simples direito de votar em quem eu quiser,de salários defasados, professores desprestigiados (desde sempre)… não dá pra confiar nem no antidopping!!! Mas falar da Dilma sem antes falar de si mesmo, pra mim, fica uma conversa meio “de um lado só”. Lembrei-me de José Cisneiros, diretor de teatro de Campos, falando comigo e Adriana Medeiros sobre atitudes: “limpa teu quintal antes de reclamar da rua”. Que os ladrões sejam presos… que os corruptos paguem por seus pecados… que o dinheiro surrupiado seja devolvido aos cofres públicos… e que a democracia seja respeitada.
Esse é o meu desejo.
Prazer tê-lo aqui! Sim, a democracia tem que ser sempre respeitada, mas desde que observadas duas das suas próprias ressalvas. A primeira: que os ladrões sejam presos, consequentemente apeados dos cargos públicos que eventualmente ocupem e/ou impossibilitados de novamente ocupá-los, segundo reza a lei. A segunda, só para constar, é que o fato de você ter direito de votar em quem quiser não é diferente daqueles que, no exercício democrático do mesmo direito, escolheram há dois mil anos salvar a vida de um bandido: “o tal Barrabás”.
Quando o escândalo da Petrobras está em questão, Lula fala pela boca de José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da empresa.
Lula quer que acreditemos que era impossível saber que uma quadrilha se instalara na Petrobras.
Quadrilha, por sinal, no todo ou em parte, nomeada por ele — mas isso Lula não quer que pensemos.
A compra da refinaria Pasadena no segundo governo dele foi um bom negócio — acha Lula, diz Gabrielli, que ontem depôs na CPI da Petrobras.
É de quase dois bilhões de dólares o prejuízo contabilizado pela Petrobras com a compra de Pasadena.
O ex-gerente Pedro Barusco começou a roubar a Petrobras na época do governo Fernando Henrique Cardoso.
Barusco já disse que se corrompeu sozinho, recebendo propina de uma empresa holandesa. E que a corrupção só se tornou sistêmica no primeiro governo Lula.
Não é o que pensa Gabrielli. Ou melhor: não é o que Lula admite que pensemos.
O dólar acentuou sua alta no início da tarde e chegou a ser cotado a R$ 3,281, o maior nível desde 1º de abril de 2003, no início do governo Lula. Por volta de 14h20, avançava 3,13%, a R$ 3,26, sob expectativa das manifestações contra o governo Dilma no domingo e do ambiente externo. Ontem, teve valorização de 1,02%, a R$ 3,161.
Para analistas, o quadro político antes das manifestações previstas para hoje — a favor do governo Dilma — e domingo — contra o governo pesa sobre o dólar. Ao mesmo tempo, o mercado acompanha o quadro externo, na expectativa da reunião dos conselheiros do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) na próxima semana. Mas há quem admita que a forte alta de hoje também esteja ligada a especulações.
— Além da influência externa, com valorização em todo o mundo, o dólar é puxado pela instabilidade política. Há expectativa com as manifestações de domingo e seu desdobramento. O mercado está se protegendo, fazendo hedge (operação de proteção da moeda), sejam os investidores ou as empresas — diz o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo.
Para o analista da Clear Raphael Figueiredo, a tendência mundial de valorização, o clima político e o risco de recuo da classificação de risco do Brasil são alguns dos fatores que puxam o dólar para cima. Ele admite, no entanto, que pode haver uma certa especulação hoje.
— Os Estados Unidos podem subir os juros antes do previsto e temos um cenário de incerteza no mercado doméstico, com risco de perda de rating e o clima político, com manifestações no fim de semana. O dólar passou de R$ 3,20 e não tem sinal de topo. Mas hoje parece mesmo haver um perfil mais especulativo — afirma Figueiredo.
Nesta sexta-feira, o Banco Central manteve a chamada ração diária, ou seja, os contratos de swap cambial para rolagem de
O clima também é de pessimismo na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). O índice Ibovespa, que reúne as principais ações da Bolsa, recuava 1,40% às 14h20, para 48.193 pontos, depois de registrar perda de quase 2%.
Há queda em ações líderes, como Petrobras e bancos. Petrobras PN (preferencial, sem direito a voto) perdia 2,11%, a R$ 8,32, enquanto Petrobras ON (ordinária, com voto) tinha queda de 1,32%, a R$ 8,71, por causa das consequências da operação Lava-Jato. As preferenciais do Itaú caíam 1,44%, a R$ 33,51, enquanto as do Bradesco recuavam 1,87%, a R$ 33,44.
Na Bolsa, o analista da Clear explica que há um clima de apreensão e cautela, tanto com os desdobramentos da operação Lava-Jato e com as manifestações.
— Os investidores estão optando por não se expor ao risco — diz Figueiredo.
Levantamento da agência Bloomberg com 16 moedas — incluindo euro e libra, entre outras — mostra que todas perdem valor frente ao dólar. A única exceção é o iene, que se mantém estável.
Bancos elevam projeções de câmbio
Nesta sexta-feira, os bancos Itaú Unibanco e Goldman Sachs elevaram projeções para o dólar comercial no país. O Itaú subiu a taxa de câmbio prevista para o fim deste ano de R$ 2,90 por dólar para R$ 3,10, enquanto em 2016 a moeda americana será vendida a R$ 3,40 em vez de R$ 3,00. Já o Goldman Sachs elevou suas previsões para a cotação do dólar no Brasil nos prazos de três, seis e 12 meses, de R$ 2,75 para R$ 3,20, de R$ 2,80 para R$ 3,25 e de R$ 2,85 para R$ 3,35, respectivamente