Artigo do domingo — Lágrimas na chuva

 

“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?

Será essa, se alguém a escrever,

A verdadeira história da humanidade”

 

(Álvaro de Campos/ Fernando Pessoa)

 

 

“Vi coisas que vocês nem imaginariam.

Vi naves em fogo na encosta de Orion.

Vi raios cósmicos cingindo o espaço em Tanhauser Gate.

E esses momentos ficarão perdidos para sempre…

como lágrimas na chuva!”

 

(Do filme “Blade Runner”)

 

Heróis do meu pai: Em pé: Barbosa, Augusto, Danilo, Juvenal, Bauer e Bigode; agachados: Friaça, Zizinho, Ademir Menezes, Jair Rosa Pinto, Chico e o massagista Mário Américo
Heróis do meu pai: Em pé: Barbosa, Augusto, Danilo, Juvenal, Bauer e Bigode; agachados: Friaça, Zizinho, Ademir Menezes, Jair Rosa Pinto, Chico e o massagista Mário Américo

 

Sou filho de um adolescente de 14 anos, cuja grande frustração foi não ter ido, junto com seu pai e irmão mais velho, à final da Copa de 50, em 16 de julho, no recém-inaugurado Maracanã. Daqui de Campos, pelo rádio, o garoto (?) vibrou com o primeiro gol do jogo, de Friaça, que certamente abriria a contagem para mais uma goleada, igual a dos dois últimos jogos — 7 a 1 sobre a Suécia, campeã olímpica de 48, e 6 a 1 diante da Espanha, quando um coro demais de 200 mil pessoas cantava “Touradas de Madri” das arquibancadas.

O belo gol, emendando de primeira, de Juan Alberto Schiaffino — cracaço da Celeste Olímpica, integrante da lista oficial dos dez maiores camisa 10 que o mundo já viu, mesmo 50 anos após sua maior conquista — fez com que meu velho (?) e toda uma nação despencassem de nuvens soberbas com a cara no chão, passando a torcer como doidos pelo empate que garantiria o título. Dez minutos mais tarde, aos 34 do segundo tempo, após uma arrancada pela direita, veio aquele chute fatal de Ghiggia, quase sem ângulo, entre Barbosa e a trave, selando a história que todo brasileiro já ouviu falar e que os uruguaios, chamando-a “Maracanazzo”, até hoje se ufanam ao contar.

Com a dimensão, desde muito novo, desse fantasma do imaginário nacional, “tragédia maior que a de Canudos”, nas palavras de Nelson Rodrigues, me interessei pela história até esgotar as narrações de meu pai. Além, passei a ler o que me caísse à mão sobre aquele grande time marcado pela fatalidade. Tomei ciência, por exemplo, de que nosso scratch — para usar um anglicismo recorrente à crônica da época — era regido por um meia direita que a crítica internacional, aqui presente pela Copa, elegeu como jogador mais completo que já havia surgido no mundo até então: Zizinho, o Mestre Ziza.

E olha que naquela Copa ainda jogaram, além de Schiaffino, craques do porte dos também uruguaios Alcides Ghiggia e Julio Perez, do iugoslavo  Rajko Mitic, do inglês Stanley Matthews, além dos próprios brasileiros Jair Rosa Pinto, Ademir Menezes, Danilo e Bauer. Como disse nosso tacanho Felipão e o Fernando Calazans vive satirizando em sua coluna: eram aqueles (bons) tempos em que se amarrava cachorro com linguiça.

Quando Péris Ribeiro, amigo daquele adolescente de 50, lançou seu “O Brasil e as Copas”, em 86, me presenteou, além dele, com um livro sobre a vida do Mestre Ziza, cujo título e autor não recordo, pois fiz a besteira de depois emprestá-lo. O primeiro livro me deu a base histórica de todo deslumbramento que colhi em 82, nos injustos gramados de Espanha, com Zico, Sócrates, Falcão, Leandro, Júnior, Luisinho, Cerezzo e cia. — “Maracanazzo” da minha geração. Já o segundo, me proporcionou a dimensão completa daquele grande mestre do futebol de que tanto ouvira falar.

Além da tragédia épica de 50, descobri ter sido Zizinho o grande ídolo de Pelé e, muito mais importante, herói da primeira grande conquista de meu time, construída ao lado de gente como Domingos da Guia, Jurandir, Biguá, Valido e Vevé: o tri estadual do Flamengo de 42/43/44. Vendido ao Bangu numa dessas imutáveis sacanagens dos cartolas, foi depois, já velho, jogar pelo São Paulo, ao qual conduziu ao título estadual de 57.

Algum tempo depois, quando Péris lançou seu “Didi, o gênio da folha seca”, em 93, numa livraria do Leblon, fui ao Rio prestigiar o amigo. Comigo foram Luiz Costa — que cobriu o evento pela Folha — e Adelfran Lacerda, todos conduzidos pelo hábil volante de (de carro) Leonardo Moreira. Pegando chuva desde Rio Bonito, chegamos ao Rio e paramos em Copacabana, para apanhar Christiano, meu irmão, então estudante universitário da PUC/RJ.

Ouvindo as impagáveis histórias de Leonardo, fui durante a viagem me preparando psicologicamente para o encontro cara a cara com o campista Didi, maior jogador da Copa de 58, na Suécia, nosso primeiro Mundial; bicampeão pela Seleção, em 62, no Chile; e, não fosse mais nada, herdeiro de Mestre Ziza. Aí eu entro na livraria e vejo não só Didi, mas também Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto, Nilton Santos, Vavá, Belini, Gerson, Afonsinho e… Zizinho.

Num dos poucos momentos em que despertei do meio transe no qual permaneci durante quase todo o coquetel, em meio a todos aqueles semi-deuses da bola, vi Luiz Costa indagar a Zizinho: “Você foi tido em sua época como o maior jogador do mundo e muitas pessoas hoje não têm essa dimensão. A que credita isso?”.

Ele respondeu: “O Brasil não sabe preservar sua história. Os jovens de hoje só querem saber de ouvir música americana no rádio e ver televisão. E eu não joguei na época da televisão!”.

A amargura do ídolo entrou pelo meu ouvido e ficou como fel salivando na boca. Talvez por isso não tenha tirado os olhos dele até que saísse do evento, acompanhado da esposa. Passaram pela porta, e, enquanto ela abria a sombrinha para protegê-los da chuva, enfrentei a timidez, saí também, me dirigi a eles e gritei: “Zizinho!”

Ele se virou. Eu disse: “Ouvi o que você falou lá dentro para o repórter. Pois eu sou jovem, gosto de música americana, mas ouvi e li muito sobre você. Você foi o melhor do mundo, jogou no meu time e foi campeão por ele. Nunca te vi jogar, mas você é um dos meus ídolos no futebol”.

Em meio à chuva fina, olhos marejaram e sorrisos se revelaram. Nos demos as mãos e o cumprimento virou um abraço. Após, ele deu um tapinha paternal na minha face e disse: “Valeu, garoto!”. Virou-se pela última vez, se abraçou à mulher, que também sorria com olhos infiltrados, e juntos saíram pela noite chuvosa, caminhando com a mesma classe que sempre atribuí, em minha imaginação, às suas passadas nos campos.

O Mestre morreu, mas nunca vou esquecer essa tabela que a vida nos deu.

 

(Publicado na edição de 17/02/2002 da Folha da Manhã, nove dias após a morte do Mestre Ziza)

 

Republicado hoje na edição impressa da Folha

 

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Seleção não aguentou a pressão da “pátria de chuteiras”, nem da Alemanha

 

(Capa da edição de hoje da Folha, com edição de Rodrigo Gonçalves, foto de Valmir Oliveira, concepção gráfica de Aluysio Abreu Barbosa e diagramação de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Ontem, desde o apito final do árbitro mexicano Marco Rodríguez, começou uma nova Copa do Mundo no Brasil. De um lado, entre os que acham entender de futebol, para ver quem mais repete: “Eu avisei!”. Do outro, entre quem não entende nada, mas ainda pensa tirar proveito político da maior tragédia da história do futebol brasileiro, a disputa será para saber quem mais ecoa: “Fizemos a Copa das Copas, só faltou time!”.

O fato é que na maior goleada sofrida pela Seleção Brasileira em 100 anos, a Alemanha massacrou o Brasil por 7 a 1, ontem, no Mineirão. E o mais triste talvez tenha sido assistir a uma geração de jogadores tão comprometida não ter forças para reagir à pressão do clima de “pátria de chuteiras”, no qual foi envolvida desde o início da campanha, assim como foi ontem por um futebol baseado no toque de bola, que já foi nosso, mas mudou de pátria há alguns anos e foi ditado diante do mundo em fluente alemão.

Antes da semifinal de ontem, os três gols até então sofridos pela Alemanha da Copa haviam saído pelo lado esquerdo da sua defesa, onde o zagueiro Benedikt Höwedes atuava improvisado como lateral. Por isso a crônica esportiva foi quase unânime ao saudar a coragem de Felipão quando, depois de mistério nas escalações dos dois times, uma hora antes do jogo foi anunciado que quem entraria na vaga de Neymar seria o jovem Bernard, justamente para jogar no lado direito do ataque brasileiro — e envergando a camisa 20, a mesma usada pelo campista Amarildo para entrar no lugar de Pelé e ajudar na conquista da Copa de 1962. Por outro lado, o técnico alemão Joachim Löw, além de Höwedes na esquerda, confirmou a escalação do veterano centroavante Miroslav Klose, de 36 anos, no comando do ataque germânico, numa formação mais conservadora.

 

Primeiro gol da Alemanha, marcado por Thomas Müller, que surgiu sozinho na área brasileira
Primeiro gol da Alemanha, marcado por Thomas Müller, que surgiu sozinho na área brasileira

 

Marcada desde a Copa das Confederações, vencida em 2013 pela pressão no campo adversário nos minutos iniciais, a esperança de que a coragem brasileira surtisse resultado durou exatamente 10 minutos. Foi quando Marcelo perdeu a bola na ponta esquerda e gerou um contra-ataque rápido com Sami Khedira e Thomas Müller, que acabou em escanteio. Grande nome do jogo, o meia Toni Kroos bateu pela direita e Müller apareceu sozinho dentro da área para abrir o placar, num erro de toda a defesa brasileira, mas sobretudo de David Luiz que marcou a bola.

Mas o pior estaria porvir…

 

Aos 36 anos, Klose marcou o segundo gol da Alemanha, se tornando o maior artilheiro na história das Copas, com 16
Aos 36 anos, Klose marcou o segundo gol da Alemanha, se tornando o maior artilheiro na história das Copas, com 16

 

Dos 21 aos 27 minutos, num espaço de apenas seis, a até então sólida defesa brasileira tomaria nada menos que outros quatro gols. Aos 21, Fernandinho furou uma bola na entrada da área, que sobrou para Kross achar Müller dentro da área. Ele serviu a Klose, que chutou à defesa parcial de Júlio César, mas pegou a sobra para fazer o segundo gol alemão no jogo e seu na Copa, chegando aos 16 marcados em todos os Mundiais, deixando para trás o recorde de Ronaldo.

 

Nome do jogo, o meia Kroos comemora seu primeiro gol, o terceiro da Alemanha
Nome do jogo, o meia Kroos comemora seu primeiro gol, o terceiro da Alemanha

 

Aos 23, o meia Mezut Özil enfiou o lateral Philipp Lahm no apoio, que cruzou da ponta direita. Novamente solto dentro da área, Müller furou a bola, mas não Kroos, que bateu no canto direito de Júlio César. Aos 27, novamente Kroos apareceu para roubar a bola de Fernandinho, tabelar com Khedira e receber dentro da área, para bater forte e marcar seu segundo gol no jogo.

 

Após roubar a bola de Fernandinho e tabelar com Khedira, Kroos marcou seu segundo gol, o quarto da Alemanha
Após roubar a bola de Fernandinho e tabelar com Khedira, Kroos marcou seu segundo gol, o quarto da Alemanha

 

Para acabar de fechar a tampa do caixão brasileiro ainda no primeiro tempo, o zagueiro Mats Hummels roubou uma bola na raça e lançou Khedira, que tocou para Ozil dentro da ártea, na direita. Ele devolveu para Khedira marcar totalmente à vontade o quinto gol.

 

Em outra linha de passe alemã, Khedira comemora o quinto gol da Alemanha
Em outra linha de passe alemã, Khedira comemora o quinto gol da Alemanha

 

Diante do quadro praticamente irreversível, alguns torcedores brasileiros começaram a deixar o estádio, enquanto os que ficaram perderam a paciência aos 39, quando começaram a vaiar o Brasil. Até que, no minuto seguinte, ecoou das arquibancadas do Mineirão o mesmo coro ofensivo que gerou tanta polêmica na abertura da Copa, no Itaquerão: “Ei, Dilma, vai tomar no c(…)!”

No segundo tempo, com Ramires e Paulinho nos lugares de Hulk e Fernandinho, o Brasil tentou novamente pressionar, mas esbarrou no goleiro Manuel Neuer. Aos 5, aos 6 a aos 7 minutos, em duas conclusões de Oscar, e em outras duas de Paulinho, na mesma jogada, Neuer faz quatro grandes defesas consecutivas.

Aos 12, substituído pelo atacante André Schürrle, Klose saiu aplaudido por alemães e brasileiros como o maior artilheiro da história das Copas. Em contrapartida, no minuto seguinte, o centroavante brasileiro Fred bateu de fora da área e foi vaiado sonoramente pela torcida, que depois repetiu contra ele o coro da presidente Dilma: “Ei, Fred, vai tomar no c(…)!”. E não ficou sozinho, quando aos 17 o telão do Mineirão mostrou Ronaldo, que assistiu seu recorde ser batido por Klose, enquanto comentava o jogo pela Globo, e também foi vaiado pela torcida.

 

Em respeito ao Brasil, desde o final do primeiro tempo, a Alemanha pareceu querer diminuir o ritmo, mas não Schürrle, que entrou no jogo querendo mostrar serviço, ao marcar o sexto
Em respeito ao Brasil, desde o final do primeiro tempo, a Alemanha pareceu querer diminuir o ritmo, mas não Schürrle, que entrou no jogo querendo mostrar serviço, ao marcar o sexto

 

Dentro do campo, Lahm lançou Khedira pela ponta direita e correu para receber de volta e cruzar para Schürrle marcar o sexto da Alemanha, aos 23. Felipão aproveitou enquanto a torcida ainda tentava contar quantos gols tinha tomado, para tirar Fred, que era tão perseguido pelas vaias da torcida da casa, quanto foi o brasileiro Diego Costa nos três jogos que fez na Copa pela Espanha.

Aos 33, num contra-ataque, Müller cruzou da ponta esquerda. David Luiz, que tentava apoiar o ataque, chegou atrasado na marcação de Schürrle. O alemão dominou dentro da área de perna direita e emendou uma petardo de canhota, no ângulo de Júlio César: Alemanha 7 a 0.

 

Num bomba de canhota, que ainda bateu no travessão antes de entrar, Schürrle fez o seu segundo gol na partida, o sétimo da Alemanha
Num bomba de canhota, que ainda bateu no travessão antes de entrar, Schürrle fez o seu segundo gol na partida, o sétimo da Alemanha

 

Em outro contra-ataque, aos 44, Özil saiu cara a cara com Júlio César, na entrada da área brasileira. O meia alemão tocou com consciência, mas a bola saiu pela linha de fundo, rente à trave. Aos 45, Marcelo lançou Oscar, que recebeu na área, dominou, driblou o zagueiro Jérôme Boateng e bateu na altura da marca do pênalti, sem chance para Neuer. Foi o gol de honra, naquela que pôde existir na maior derrota da Seleção Brasileira em todos os tempos.

 

Depois de levar sete gols da Alemanha, Oscar marcou o gol de honra do Brasil
Depois de levar sete gols da Alemanha, Oscar marcou o gol de honra do Brasil

 

Na dúvida do que será ainda pior, entre ter que assistir a Argentina disputar a final do dia 13 no Maracanã, ou enfrentá-la na disputa pelo terceiro lugar, dia 12, em Brasília, uma certeza: ninguém tem o direito de repetir nessa tragédia do futebol brasileiro o mesmo feito em outra, há 64 anos, com os ex-jogadores Barbosa, Juvenal e Bigode, responsabilizados pela derrota brasileira na final da Copa de 1950. E isso vale tanto para os que rapidamente se converteram no culto de martirização midática de Neymar, quanto para os que cerraram fileiras na “caça às bruxas” virtual contra o lateral colombiano Juan Zúñiga, responsável pela contusão do craque brasileiro numa disputa imprudente.

Nesse mesmo oba-oba patriótico que só surge entre os brasileiros de quatro em quatro anos, todos da crônica esportiva do país da Copa acusados de sofrer de “complexo de vira latas” por apontar críticas táticas e técnicas ao time, ou à maneira como ele tentou ser descaradamente utilizado para fins políticos em ano de eleição presidencial, também não devem ceder à nenhuma pequenez. Nela, dá de goleada a grandeza demonstrada pelo zagueiro David Luiz, símbolo maior desse time, que mesmo sem ter feito grande partida deu sua cara a tapa ainda na saída do campo:

— Eu só queria poder dar uma alegria ao meu povo, à minha gente que sofre em tantas outras coisas. Infelizmente não conseguimos. Desculpa a todo mundo. Desculpa a todos os brasileiros. Eu só queria ver meu povo sorrir. Todo mundo sabe o quanto seria importante para mim ver o Brasil feliz pelo menos por causa do futebol. Eles foram melhores (…) É um dia de muita tristeza, mas de muito aprendizado também (…) Eu, na minha vida, aprendi a ser homem em todos os momentos. Não vou fugir de nada. Vou assumir tudo. E nunca vou desistir. Uma dia ainda vou alegrar esse povo de alguma forma.


No futebol, a primeira coisa a ser assumida diante da belíssima exibição de futebol dada ontem pela Alemanha, que agora fará a final no Maracanã como favorita contra o vencedor entre Argentina e Holanda, não veio de nenhum analista ou cronista esportivo, mas de um torcedor anônimo saindo do Mineirão, entrevistado a esmo por uma das redes de TV que cobriu a partida:

— É até uma vergonha dizer isso, mas o Brasil tinha que ter entrado com mais medo. Não temos mais futebol para enfrentar a Alemanha de igual para igual.

Fora do futebol, entre os muitos outros erros revelados nesta Copa, cada um assuma o que quiser.

 

Súmula Alemanha 7 x 1 Brasil

 

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Escrita do Brasil contra fase da Colômbia por uma vaga à semifinal da Copa

Daniel Alves e Neymar apertam a marcação sobre James Rodríguez, no último jogo entre Brasil e Colômbia, em 15 de novembro de 2012, em Nova Jersey (EUA), que terminou empatado em 1 a 1. Os gols foram de Cuadrado e Neymar, que depois perdeu um pênalti
Daniel Alves e Neymar apertam a marcação sobre James Rodríguez, no último jogo entre Brasil e Colômbia, em 15 de novembro de 2012, em Nova Jersey (EUA), que terminou empatado em 1 a 1. Os gols foram de Cuadrado e Neymar, que depois perdeu um pênalti

 

Os únicos números que ganham um jogo de futebol são aqueles marcados no placar final. No caso de jogo eliminatório, como o que Brasil e Colômbia disputa hoje por uma vaga a semifinal da Copa do Mundo, eles podem ser definidos após os 90 minutos, ou mais 30 de prorrogação ou ainda disputa de pênaltis. Mas antes da bola começar rolar, a partir das 17h, na arena Castelão, em Fortaleza, todos os números indicam um confronto clássico entre uma seleção que atravessa um momento melhor, contra outra de mais tradição e vantagem esmagadora nos confrontos diretos.

Entre os oito times que chegaram às quartas de final deste Mundial, a Colômbia tem o maior número de vitórias (4, junto com a Holanda), o segundo melhor ataque (11 gols, atrás da mesma Holanda, com 12), o melhor saldo de gols (9), a defesa menos vazada (apenas 2 gols sofridos, junto com França, Bélgica e Costa Rica), o artilheiro isolado (James Rodríguez, com 5 gols) e o melhor passador (Juan Cuadrado, com 4 assistências a gol) da competição. Por sua vez, com uma campanha irregular e gerando dúvidas sobre sua própria estabilidade emocional, a Seleção Brasileira ostenta na sua história diante dos colombianos um cartel de 14 vitórias, cinco empates e apenas duas derrotas. Destas, nenhuma dentro de casa. E nesse total de 21 jogos, nunca por Copa do Mundo.

Sem o primeiro volante Luiz Gustavo, suspenso pelo segundo cartão amarelo, é quase certo que o treinador Luiz Felipe Scolari vá promover a volta de Paulinho ao time titular, como segundo volante. Fernandinho, que havia roubado na Seleção a vaga do jogador do Tottenham, será recuado para primeiro volante, posição em que atua no Manchester City. Embora, no treino coletivo de quarta-feira, Felipão tenha também a opção de jogar sem centroavante, dada a péssima fase do titular Fred e a incapacidade do reserva Jô de fazer-lhe sombra, isso só deve ser usado como opção no correr do jogo, caso o atacante do Fluminense seja novamente figura nula em campo.

Nesse esquema tático alternativo, que o técnico brasileiro só deixou para treinar às vésperas da quarta de final da Copa, o reserva Henrique seria adaptado à função executada por Edmilson em 2002, num misto de primeiro volante e terceiro zagueiro, quando o Brasil foi pentacampeão com o mesmo Felipão. Todavia, diferente de 12 anos atrás, quando tinha Ronaldo Fenômeno como centroavante, além de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho também em grande fase, a possível novidade tática só seria adotada para que a Seleção de hoje jogasse sem homem fixo de área.  Neymar, craque solitário do presente, atuaria como falso 9.

Outras duas possibilidades testadas no coletivo da Granja Comary foram a entrada do volante Ramires e do lateral Maicon. O primeiro, seria uma opção mais defensiva pela direita, para o lugar do atacante do atacante Hulk, alteração já testada sem grande êxito no empate sem gols contra o México. Já a substituição de Daniel Alves por Maicon é uma mudança que já havia sido cogitada para o jogo com o Chile, por conta do baixo rendimento do titular da lateral direita, mas até agora não se consumou.

Bom, e a Colômbia? Apontado como um dos craques da Copa, o artilheiro James Rodríguez costuma habitar a faixa de campo entre as linhas de defesa e meio campo, justamente onde o Brasil tem apresentado problemas crônicos na saída de bola, como no gol de empate do Chile. Foi nesse espaço que o camisa 10 da Colômbia recebeu o passe pelo alto e de costas para o gol, nas quartas de final contra o Uruguai, matou no peito, girou o corpo e, sem deixar a bola cair, emendou de canhota o chute certeiro.

Um dos mais belos gols da Copa, o que a maioria talvez não tenha notado é que, antes de chegar a Rodríguez, o time da Colômbia já tinha contabilizado 15 trocas de passe, numa posse de bola de 50 segundos. Esse trabalho coletivo revela a mão do treinador argentino José Pékerman, que chega pela segunda vez às quartas de final de uma Copa do Mundo. Em 2006, no comando da seleção de seu país, ele empatou no tempo normal e na prorrogação contra a Alemanha, antes de perder na disputa de pênaltis.

Para tentar melhor sorte no jogo de hoje, outra das armas de Pékerman é o habilidoso Juan Cuadrado, que nesta Copa já empatou em número de passes a gol com legendas como Tostão (1970), Zico (1982) e Riquelme (2006, naquele time de Pékerman). Meia que joga como ala pelos lados do campo, preferencialmente pela direita, deve dar grande trabalho aos laterais Daniel Alves e sobretudo Marcelo, que não são conhecidos por suas virtudes defensivas e precisarão da cobertura dos volantes e zagueiros.

Diante do Brasil, a Colômbia deverá ceder a posse de bola, mas diferente da sua brilhante geração de 1994, de Freddy Rincón, Carlos Valderrama e Faustino Asprilla, hoje não faz questão de mantê-la, explorando os contra-ataques com rapidez e objetividade, concluindo até pouco a gol, mas com excelente pontaria até aqui. O Brasil, cujo meio de campo parece incapaz de fazer a bola chegar ao ataque, abastecido apenas na ligação direta dos chutões desde a defesa, tem na retomada de bola no seu setor ofensivo a melhor maneira de tentar surpreender os colombianos, cuja defesa, embora pouco vazada, não inspira assim tanta confiança.

Apesar da boa campanha, inclusive diante de um Uruguai combalido pela suspensão do atacante Luisito Suárez, a Colômbia não teve ainda um teste de peso. Se não tremer hoje, continuar jogando bem e bater pela primeira vez o Brasil, dentro do Brasil, dará um passo fundamental à construção de uma tradição no futebol mundial. Não só para manter a sua, como para evitar o que todo o mundo considerará um vexame dentro da sua própria casa, ao Brasil não resta alternativa se não vencer os colombianos hoje — o que não consegue fazer desde 7 de setembro de 2003, há mais de 10 anos.

Depois, que venha Alemanha ou França!

 

Brasil x Colômbia

 

 

Publicado hoje, na edição impressa da Folha.

 

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Ilíadas nos campos da Copa

No salto mortal, Klose comemorou o gol em seu primeiro toque na bola, que empatou o jogo para a Alemanha e igualou seu atacante a Ronaldo como o maior artilheiro de todas as Copas (foto: Reuters)
No salto mortal, Klose comemorou o gol em seu primeiro toque na bola, que empatou o jogo para a Alemanha e igualou o recorde de Ronaldo como maior artilheiro de todas as Copas (foto: Reuters)

 

Tecnicamente, esta Copa teve até aqui três grandes jogos: o Espanha 1 x 5 Holanda (dia 13), o Inglaterra 1 x  2 Itália (14) e o Alemanha 4 x 0  Portugal (16), todos na primeira rodada.

Encerrada hoje a segunda rodada, tivemos nela os dois jogos mais épicos do Mundial: o Uruguai 2 x 1 Inglaterra (16) e o Alemanha 2 x 2 Gana de ontem.

Por jogo técnico, entenda-se aquele definido na qualidade de um time, na habilidade de seus jogadores.

Por épico, aquele de maior dramaticidade, onde as chuteiras parecem ser estar amarradas não com cadarços, mas às veias das pernas de cada jogador, como heróis clássicos a compor uma Ilíada.

Sobre Uruguai e Inglaterra, no qual o artilheiro Luisito Suárez saiu de uma astroscopia no joelho, há menos de um mês, para resgatar com dois gols a mística da Celeste, já escrevi aqui.

Ontem, foi o dia de uma Alemanha favorita na teoria e no campo encontrar uma igual na Gana, melhor seleção africana nesta Copa.

Após um primeiro tempo disputado, mas sem gols, Mario Götze completou de cabeça um cruzamento da direita para abrir o placar e a expectativa por outra goleada alemã.

Ledo engano!

Para provar a igualdade entre aqueles homens de pele pálida e retinta em busca da mesma glória, foi também no arremate preciso de um cruzamento pela direita que Andre Ayew empatou o jogo.

De igual para igual, os ganeses provaram que poderiam ser superiores, depois que Philipp Lahm perdeu a bola no meio e Asamoah Gyan recebeu um passe em profundidade para entrar na área, tocando na saída de Manuel Neuer.

Quando tudo parecia perdido, no fracasso de mais um favorito, os alemães foram buscar suas esperanças no banco de reservas. Seu craque Bastian Schweinsteiger e seu veterano atacante Miroslav Klose entraram em campo.

Na primeira jogada de Schweinsteiger, uma trama pela esquerda do ataque germânico gerou um escanteio.

Cobrado, após um desvio no primeiro pau, Klose aproveitou a oportunidade para completar de pé direito e se tornar o maior artilheiro de todas as Copas, com 15 gols, igualando o recorde do brasileiro Ronaldo.

Na celebração daquele homem maduro de 36 anos, o salto mortal do moleque que acabara de conquistar a imortalidade nos campos.

Homens brancos e negros iguais no placar, no talento, na entrega, na glória vermelha de sangue não derramado dos irmãos Boateng, Jérôme da Alemanha e Kevin-Prince de Gana, filhos da África como todos os homens.

 

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Artigo do domingo — Além do rio, nada

Foz do Paraíba
Foz do rio Paraíba do Sul

 

 

Charles Frederick Hartt

O primeiro a estudar a formação da planície goitacá a partir da ação do rio Paraíba do Sul foi o geólogo canadense Charles Frederick Hartt (1840/78). Ele veio ao Brasil integrando a famosa expedição Thayer, entre 1864 e 1865, comandada por seu mentor, o zoólogo suíço Louis Agassiz (1807/73), defensor científico do Criacionismo e grande opositor do naturalista inglês Charles Darwin (1809/82) e sua Teoria da Evolução.

De qualquer maneira, foi nas pesquisas de Hartt reunidas em “Geologia e Geografia Física do Brasil” (1870), nas quais o avanço do mar em Atafona é pela primeira vez descrito, que nosso Euclides da Cunha (1866/1909) se baseou para escrever “A Terra”. Este apanhado da formação geológica do sertão brasileiro é o capítulo inicial de “Os Sertões” (1902) e principal motivo para a maioria abandonar a leitura, ainda no começo, deste necessário clássico da literatura nacional.

Alberto Ribeiro Lamego

Dentro desta mesma literatura, talvez maior herdeiro de Euclides na mestiçagem tanto entre ciência e romance, como do homem com seu meio, o geólogo campista Alberto Ribeiro Lamego (1896/1985) externou em “O Homem e o Brejo” (1945) grande parte das suas teses sobre o protagonismo do rio Paraíba na formação da planície. Mais recentemente, os brasileiros Kenitiro Suguio, Jean-Marie Flexor e José M. L. Dominguez se uniram ao francês Louis Martin, para comporem a oito mãos “Geologia do Quaternário Costeiro do Litoral Norte do Rio de Janeiro e Espírito Santo” (1997). Nela os renomados geólogos contemporâneos reviram grande parte das teses de Lamego, mas permaneceram endossando o papel quase monoteísta do Paraíba na gênese da planície em que deságua.

Desde quando a ciência ainda achava existir para afirmar a criação divina, até nossos dias, apesar das revisões naturais que o tempo impõe às teorias, ninguém que tenha se dedicado a estudar esta planície e o rio que a corta, foi capaz de afirmar que a primeira existiria, não fosse a ação direta do segundo. Os mesmos campistas, sanjoanenses e são franciscanos que adoram reclamar da cor marrom das suas praias, talvez nunca tenham percebido: o barro que lhes escurece o mar é o mesmo que, carreado pelo Paraíba ao longo dos milênios, formou o próprio chão sobre o qual caminham suas vidas, desde quando aprenderam a pisar.

Sem o rio, o mar provavelmente seria azul, mas avançaria sobre nossas cabeças até reencontrar a Serra do Imbé.

Reservatórios secos do sistema Cantareira
Reservatórios secos do sistema Cantareira

Ameaçado pelo projeto de desvio das suas águas na represa de Jaguari, para atender à Grande São Paulo no sistema de Cantareira, o Paraíba conseguiu confluir em sua defesa (aqui) lideranças fluminenses tão impermeáveis entre si quanto o governador Sérgio Cabral (PMDB) e o deputado federal Anthony Garotinho (PR). Bem verdade que o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) pareceu não se importar muito com a reação de ambos, chegando a afirmar depois que poderia fazer a obra, estimada em R$ 500 milhões e num prazo de 18 meses, mesmo com a discordância do Estado do Rio.

Procurador Eduardo Santos de Oliveira
Procurador Eduardo Santos de Oliveira

E a revelação (aqui) na sexta, por parte do procurador da República em Campos, Eduardo Santos de Oliveira, de que o governo estadual de São Paulo estudava desde 2008 o desvio do Paraíba para atender sua zona metropolitana em períodos prolongados de estiagem, tendo depois chegado a informar oficialmente ao Ministério Público Federal goitacá, em 2011, que não tinha nenhum projeto de transposição do rio federal, apresentado agora por Alckmin à presidente Dilma Rousseff (PT), reforça a impressão de que os paulistas estão pagando para ver.

Para um Estado que ostenta o maior PIB e o maior colégio eleitoral do Brasil, chamar transposição de “captação”, pode ser até além de um mero “jogo semântico”, como bem definiu Eduardo.

Talvez com o beneplácito do governo federal em ano de eleição, aquela que vence quem receber mais afluentes em voto e dinheiro, oxalá o jogo não seja “ou dá, ou desce”. Tanto pior na São Paulo que, apesar de berço petista, é dominada pelo PSDB de Alckmin. E diante dos 15 milhões de paulistas atendidos pelo sistema Cantareira, como ficar à míngua na simpatia enquanto se hidrata seu principal adversário nas urnas?

Barragem de Santa Cecília, que desvia 2/3 da água do Paraíba para atender o Grande Rio no sistema Guandu
Barragem de Santa Cecília, que desvia 2/3 da água do Paraíba para atender ao Grande Rio no sistema Guandu

Na dúvida, até que haja um estudo técnico e apolítico de toda a Bacia do Paraíba, nos três Estados que a integram, só a insanidade aconselha mais um sangramento em seu curso de água doce, que já registrou língua salina quilômetros adentro, à altura de Barcelos. Já na divisa dos municípios de Campos e São João da Barra, é a vanguarda do avanço do mar em Atafona, intensificado a partir dos anos 1950, quando outro desvio fluvial foi feito, para atender outra região metropolitana.

A partir da barragem de Santa Cecília, em Guandu, que até hoje serve de água o Grande Rio, já se perdeu a conta de quantas casas e ruas hoje só servem aos peixes, na foz de um rio em queda de braço com o Atlântico e tendões cortados pelo homem.

Com  1.137 km de extensão e 56.500 km2 de bacia, o Paraíba é um grande rio. Acima do Equador, com 2.320 km de comprimento e bacia de 632.000 km2, o rio Colorado é muito maior. Escultor do famoso Grand Canyon, como o Paraíba da planície goitacá, o Colorado foi alvo de várias intervenções para captação d’água e geração de energia elétrica, entre elas a Barragem Hoover, erguida nos anos 1930 e tida ainda hoje como a grande obra de engenharia dos EUA.

Foz do rio Colorado, completamente seca em boa parte do ano

Durante muito tempo, o modelo de transposição de águas adotado no Colorado para irrigação de terras secas foi considerado exemplo a ser seguido, inclusive no rio São Francisco, no Nordeste brasileiro. Mas nem seu gigantismo bastou para saciar a sede humana e hoje o rio está morrendo. Durante boa parte do ano, o Colorado sequer consegue mais atingir sua foz, no Golfo do México.

Se o mesmo acontecer aqui, será um desastre maior do que a perda dos royalties, já que o mal causado pela consequente salinização de toda a Baixada do Paraíba, inviabilizando a agropecuária e as indústrias sucroalcooleira e cerâmica, certamente durará mais do que as jazidas de petróleo no fundo do mesmo mar que, sem a oposição do rio, prevalecerá outra vez sua poderosa ação sobre a planície. Ademais, a captação d’água em diversos municípios teria que ser feita a partir da dessalinização, ou de fontes alternativas também já degradadas pela ação humana, como Lagoa de Cima.

Pela pena do seu heterônimo e mestre Alberto Caeiro, o poeta português Fernando Pessoa (1888/1935) escreveu:

 

“Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia”

 

Quem, por sensibilidade e gratidão, ainda não pensou no que há para além do Paraíba, que o faça por necessidade. Para quem habita a planície goitacá, além do rio da aldeia, não há nada.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha

 

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Calcinhas, blues e rock and roll

Um meeiro negro e pobre do Mississipi, que migrou para Chicago e lá descobriu que o violão acústico, perfeito para ecoar seu lamento nas amplidões silenciosas do meio rual, não era mais suficiente para fazer prevalecer sua música em meio ao caos sonoro de um grande centro urbano, levando-o a amplificar o blues com uma guitarra elétrica. Esse foi Muddy Waters (1915/83), cujo verso “pedras que rolam, não criam limo”, da música “Catfish Blues” (literalmente “Blues do Bagre”), seria depois usado por alguns garotos brancos da Inglaterra para batizar sua banda, uma tal de Rolling Stones.

A música mais famosa do repertório de Muddy, “Hoochie Coochie Man”, curiosamente não é dele, embora escrita para ele por outra lenda do blues egressa do Mississipi: Willie Dixon (1915/92). Nela, na descrição do fascínio sobre as mulheres que o mestre bluseiro exercia, já estão todos os elementos que mais tarde um outro negro, Chuck Berry, descoberto por Muddy, misturaria ao country para fundar o rock and roll — e os garotos brancos como Elvis (1935/77) ficarem com o crédito.

A diferença, como gostava de definir Dixon, muito antes do nosso Wando (1945/2012), é relativamente simples: “A primeira vez que uma moça tirou a calcinha e a jogou no palco, foi por causa de um sujeito que cantava blues, mas quando as brancas também começaram a fazê-lo, virou rock and roll”.

Para conhecer essa rica gênese da música que mudaria o mundo entre os anos 50 e 70 (no Brasil, notadamente nos 80), uma boa dica é se assistir ao filme “Cadillac Records”, de Darnell Martin, que conta um pouco da história de Muddy, Dixon, Berry, entre outras lendas como Little Walter (1930/68), Howllin’ Wolf (1910/76) e Etta James (1938/2012), todos reunidos no período áureo da Chess Records. Para quem assina a Sky, as próximas exibições estão programadas para às 14h50 do dia 14 e às 9h30 do dia 24, sempre no canal 77 e, em HD, no 277.

Abaixo, a tradução em português e a execução por Muddy Waters, em seu auge, da música que Willie Dixon fez para descrevê-lo, sempre viva no repertório dos grandes mestres atuais do gênero, como Eric Clapton, que a entoou em um dos pontos altos da sua última apresentação no Rio, na HSBC Arena, em outubro passado…

 

(Eu Sou Seu) Homem Hoochie Coochie

A cigana disse à minha mãe
Antes de eu nascer
Eu tenho um garoto vindo
Ele vai ser um filha da mãe
Ele vai fazer garotas bonitas
Pular e atirar
Então o mundo quer saber
sobre o que é isso tudo
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Bem você sabe que eu sou o homem hoochie choochie
Todo mundo sabe que eu sou ele

Eu tenho um osso preto de gato
Eu tenho um mojo também
Eu tenho o conkeroo do Johnny
Eu vou mexer com você
Eu vou pegar suas garotas
Leve-me pela minha mãe
Então o mundo irá saber
O homem hoochie coochie
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Oh você sabe que eu sou o homem hoochie coochie
Todos sabem que eu sou ele

Na sétima hora
No sétimo dia
No sétimo mês
Os sete médicos disseram
Ele nasceu por boa sorte
E que você verá
Eu tenho setecentos doláres
Não mexa comigo
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Bem você sabe que eu sou o homem hoochie coochie
Todo mundo sabe que eu sou ele

 

 

 

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As mulheres, no seu dia, por Bukowski

Hoje, dia internacional da mulher, minha lembrança ao gênero oposto nesta nossa pretensiosa espécie de macacos sem rabo, com polegar opositor e pouco pêlo, se dá da única maneira que conheço: como homem! Neste sentido, para definir o pouco que sei e o muito que sinto em relação às mulheres, minha irrelevante escolha recaiu sobre os versos do escritor nascido na Alemanha e criado nos bares e becos dos EUA, sobretudo de Los Angeles, Charles Bukowski (1920/94), beberrão invereterado, maldito na vida e na obra, não por acaso também conhecido pela alcunha de “Velho Safado”.

Quem quiser saber um pouco mais de sua vida, além da leitura da sua obra em verso e prosa, quase sempre autobiográgica, uma boa e rápida dica é se assitir ao filme “Barfly – Condenados pelo Vício”, de 1987, do diretor francês Barbet Schroeder, com o também maldito (e excelente) ator Mickey Rourke interpretando a personagem central, inspirada em Bukowski, no roteiro por ele escrito. Agora, para se saber dos seus sentimentos sobre as mulheres, neste dia a elas dedicado, o melhor mesmo é ler o seu…

 

 

Bukowiski deitado e soterrado de amor às mulheres
Bukowski deitado e soterrado de amor às mulheres

 

 

Um poema de amor

todas as mulheres

todos os beijos delas as

formas variadas como amam e

falam e carecem.

suas orelhas elas todas têm

orelhas e

gargantas e vestidos

e sapatos e

automóveis e ex-

maridos.

principalmente

as mulheres são muito

quentes elas me lembram a

torrada amanteigada com a manteiga

derretida

nela.

há uma aparência

no olho: elas foram

tomadas, foram

enganadas. não sei mesmo o que

fazer por

elas.

sou

um bom cozinheiro, um bom

ouvinte

mas nunca aprendi a

dançar — eu estava ocupado

com coisas maiores.

mas gostei das camas variadas

lá delas

fumar um cigarro

olhando pro teto. não fui nocivo nem

desonesto. só um

aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam

descalças pelo assoalho

enquanto observo suas tímidas bundas na

penumbra. sei que gostam de mim algumas até

me amam

mas eu amo só umas

poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;

outras falam mansamente da

infância e pais e

paisagens; algumas são quase

malucas mas nenhuma delas é

desprovida de sentido; algumas amam

bem, outras nem

tanto; as melhores no sexo nem sempre

são as melhores em

outras coisas; todas têm limites como eu tenho

limites e nos aprendemos

rapidamente.

todas as mulheres todas as

mulheres todos os

quartos de dormir

os tapetes as

fotos as

cortinas, tudo mais ou menos

como uma igreja só

raramente se ouve

uma risada.

essas orelhas esses

braços esses

cotovelos esses olhos

olhando, o afeto e a

carência me

sustentaram, me

sustentaram.

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As duas metades de um canalha

Numa metade, um “erudito” que identifica filme de Terrence Malick como de Clint Eastwood, ou atribui um conhecido livro de George Orwell a Orson Welles. Na outra, um recalcado capaz de se sentir mal quando alguém deseja o bem, disposto a polemizar em cima de solidariedade manifesta, questionador do altruísmo alheio pela incapacidade do sentimento e fixação patológica por quem o sente.

Juntando as duas metades, o que se tem? Simples: um canalha completo!

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Joe Frazier — “Baixinho” à altura do maior

 

Frazier cruza a canhota e diz a Ali: “Pois Deus hoje caiu de bunda!”
Frazier cruza a canhota e diz a Ali: “Pois Deus hoje caiu de bunda!”

Nova York, Madison Square Garden, noite fria de 8 de março de 1971. Dentro da mais lendária casa de espetáculos e eventos esportivos dos EUA, absolutamente lotada, com direito a Frank Sinatra contratado pela revista Life como fotógrafo do evento, transmitido ao vivo pela tv para 300 milhões de pessoas, o clima era quente. Embora muitos pelejas de boxe, antes e depois, tenham sido igualmente alcunhadas de “luta do século”, aquela foi a primeira e única disputada entre dois campeões invictos de todos os pesos. Não por outro motivo, o combate correu equilibrado até o décimo quinto e último assalto.

Mártir de uma causa nobre, Muhammad Ali contava com generosa torcida nos quatro cantos do mundo, em sua tentativa de reconquistar o título que lhe fora roubado pelo governo do seu país, após ter se recusado a lutar na impopular Guerra do Vietnã (1959/75). Neste hiato, campeão olímpico em Tóquio (1964) e sem ter nada a ver com isso, Joe Frazier se tornou campeão mundial dos pesos pesados em 1970, após derrotar Jimmy Ellis, ex-sparring de Ali — este, por sua vez, ouro na Olimpíada de Roma, em 1960.

Convertido ao islamismo, fé pela qual abandonou o nome cristão de Cassius Marcellus Clay e que representava a ala mais radical na luta pelo direitos civis dos negros nos EUA, além de incurável falastrão, Ali tinha seu nome gritado pela multidão no Garden, enquanto vociferava para Frazier. Round a round, buscava nocautear o psicológico do adversário, antes de fazê-lo com o açoite rápido e preciso dos seus punhos: “Caia, idiota! Caia! Não sabe que Deus quer que eu seja o campeão? Deus quer que você caia!”

Com a guarda sempre baixa, na mesma demonstração de superioridade técnica (e de certa arrogância) que o brasileiro Anderson Silva hoje desfila nos octogons do MMA, Ali deixou espaço para o gancho de canhota, golpe mais letal de Frazier, que o lançou à lona e ao plano dos mortais. Antes de encontrar forças para se levantar e consumar por pontos, em decisão unânime, sua primeira derrota, Ali teve que ouvir (e engolir) a resposta de Frazier: “Pois Deus hoje caiu de bunda!”

Os dois se reencontrariam dentro do ringue mais duas vezes. Na revanche, em 1974, novamente no Madison Square Garden, Ali venceu por pontos e empatou o placar geral. No ano seguinte, o tira teima seria bancado pelo ditador filipino Ferdinando Marcos, no combate conhecido como “Thrilla in Manilla”. Tanto pela definição de uma rivalidade tão acirrada e igual, quanto pelo clima quente e úmido da capital do arquipélago asiático, a luta é até hoje considerada entre as mais violentas da história do boxe. 

No intervalo do último assalto, Eddie Futch, treinador de Frazier, jogou a toalha, já que seu lutador estava com o olho direito completamente fechado, em consequência dos incessantes jabs de esquerda de Ali. Smokin Joe, com era conhecido, queria continuar a lutar. Ali, após o anúncio da sua vitória, confessou completamente exausto e amparado por seus segundos: “Nunca cheguei tão perto da morte!”

Ambos passaram os dias seguintes no hospital. E há quem diga que levaram consequências neurológicas desse último combate pelo resto de suas vidas.

A de Frazier se encerrou hoje, aos 67 anos, na sua Filadélfia natal, em um nocaute rápido e  fulminante, como aqueles que gostava de aplicar, imposto por um câncer de fígado descoberto há apenas um mês. Enquanto pôde bater de volta, foram 32 vitórias, 27 por nocaute, com apenas quatro derrotas. Perderia outras duas para o também legendário George Foreman, campeão olímpico (em 1968, no México) e dono do direto de direita mais devastador da história do boxe, com o qual tirou de Frazier (em 1973, na Jamaica) o cinturão dos profissionais que cederia a Ali (em 1974, no Zaire) em outra “luta do século”.

Para muitos fãs leigos conquistados na esteira da militância política e da técnica exuberante de Ali, Frazier fazia jus, enquanto lutador, ao apelido pouco lisonjeiro de “gorila” dado por aquele. Quem entende um pouco de boxe, no entanto, sabe que o estilo elegante e plástico do primeiro, baseado no combate à distância segura dos jabs e diretos, era também necessidade da sua longa estatura e envergadura.

Baixo para um peso pesado, o atarracado Frazier preciava fintar o primeiro golpe dos braços geralmente mais longos do oponente, para então entrar em seu raio de ação com uma sucessão impiedosa de golpes diagonais em cruzados e ganchos. Pelos mesmos motivos, o estilo encontra analogia ao de outros dois gigantescos “baixinhos”, campeões de antes e depois: Rocky Marciano (1923/69) e Mike Tyson.

Sim, Muhammad Ali foi o maior pugilista peso pesado de todos os tempos. E, cara a cara dentro de um ringue, ninguém esteve à sua altura como Joe Frazier.

 

 

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Opiniões de poesia — José de Anchieta

 

O momento mais prazerozo das quartas, quando a política cede espaço neste blog à poesia, não poderia falhar justamente hoje, quando termina a reprodução, neste “Opiniões”, dos textos escritos para o hoje extinto “Cantos”, do qual participei ao lado do professor Adriano Moura e da antropóloga Fernanda Huguenin, ambos também poetas. Não por motivo diverso, chegou a vez  do artigo que, mesmo no “Cantos”, já se tratara de republicação, posto ter sido originalmente escrito a Folha Letras, página semanal dedicada à Literatura que este misto mal ajambrado de blogueiro, jornalista e poeta inaugurou nas contracapas de sexta da Folha Dois.

Se, como HAL nos ensina em “2001 — Uma Odisséia no Espaço”, para renascer, é preciso morrer, nada mais apropriado que terminar aqui essa série de republicações com aquilo que deu início à poesia brasileira…

José de Anchieta — Primeira poesia

“Semeador de esperanças e quimeras,

Bandeirante de entradas mais suaves,

Nos espinhos a carne dilaceras:

 

E por que as almas e os sertões desbravares,

Cantas: Orfeu humanizando as feras,

São Francisco de Assis pregando às aves…”

(Do soneto “Anchieta”, de Olavo Bilac)

Anchieta escreve o poema “Da Virgem Santa Maria Mãe de Deus” na areia da praia, quando era refém dos índios tamoios, óleo sobre tela de Benedito Calixto

 

Página semanal dedicada à Literatura, sempre na contracapa das edições de sexta da Folha Dois, a primeira edição da Folha Letras apresentava suas armas com alça e massa de mira alinhadas para “nunca perder de vista a necessidade das pontes entre você, leitor, e os grandes escritores e obras, do Brasil e do mundo — ‘os mais fortes heróis que na terra viveram’, como evocou o grego Nestor em outra planície, a de Tróia”. Opção influenciada pelos versos com que Homero (séc. 8 a.C.) fundou a Literatura, este espaço a ela dedicado inicia hoje, em publicações alternadas, o contato direto com os maiores poetas brasileiros, herdeiros do pioneiro grego, mas com certidão de nascimento lavrada na prosa de Pero Vaz de Caminha (1450/1500), em sua carta a El Rey de Portugal, narrando o achamento da Terra de Vera Cruz (mais tarde Brasil) pela expedição de Pedro Álvares Cabral (1467 ou 1468/1520 ou 1526), a 22 de abril de 1500.

Em que pesem manifestações autóctones, anteriores e paralelas ao descobrimento e à colonização pelos portugueses, o marco zero para nossa cronologia da poesia brasileira será determinado pela introdução e gradual prevalência da língua de Luís de Camões (1517 a 1524/1580), que nos bate ao palato há meio milênio. Foi com Camões, aliás, que debutaria em versos nosso país, ainda com seu primeiro nome, mas tendo já citada a madeira nativa que depois o batizaria em definitivo:

 

Mas cá onde mais se alarga, ali tereis

Parte também, co’o pau vermelho se nota;

De Santa Cruz o nome lhe poreis;

Descobri-lo-á a primeira vossa frota.

(“Os Lusíadas”, Canto X, 140 a 144)

 

A língua portuguesa e sua (talvez até hoje mais alta) expressão em poesia não se fundamentariam sem o Brasil na argamassa.

Na nação (a brasileira) que ainda engatinhava, os primeiros passos da poesia seriam dados pelo jesuíta José de Anchieta (1534/1597). Nascido na ilha de Tenerife, maior do arquipélago das Canárias, era espanhol, com linhagem paterna na nobre família basca Antxeta (Anchieta), e de cristãos-novos (judeus convertidos) por parte de mãe, o que o levou a estudar em Coimbra, já que a Inquisição Católica, na Espanha, era menos tolerante do que a de Portugal quanto a origens hebréias. Com 20 anos incompletos, veio como missionário ao Brasil, onde morreria 43 anos depois, não em antes ser um dos fundadores da cidade de São Paulo e desempenhar papel fundamental na pacificação e catequese dos índios em todo litoral da nova colônia portuguesa, papel que os historiadores até hoje se dividem se de proteção ou dominação.

Dúvida também há sobre a veracidade de uma passagem narrada pela tradição. Deixando-se fazer refém da Confederação dos Tamoios, para pôr fim à guerra destes contra os portugueses, Anchieta teria escrito com um galho, na areia de uma praia do litoral sul paulista, os versos do seu “Poema à Virgem”, memorizando-os no cativeiro para, depois de liberto, repassá-los ao papel. Talvez nunca se saiba se o amor à palavra mereceu o impressionante esforço, ou se habitou apenas a imaginação de quem criou a estória e daqueles que a repetem há cinco séculos. Mas traçada na areia da praia ou na lenda sobre a areia do tempo, a poesia transita em mão dupla na ponte entre os gestos.

Mais atentos à obra do que ao mito, Antonio Cândido e Aderaldo Castelo, em “Presença da Literatura Brasileira”, consideraram Anchieta “exemplo significativo do século XVI, da realização de uma expressão literária que correspondesse às novas condições do homem na paisagem americana”. Na dúvida se este “homem” se tratava do colonizador d’além mar ou do índio que aqui já vivia, o indicativo da primeira opção se dá quando analisada sua “expressão literária”, construída sobre a sólida base latina do jesuíta “zeloso leitor de Virgílio (70 a.C. a 19 a.C.) e Ovídio (43 a.C. a 17 d.C.)”, como definiu Alfredo Bosi, em “História concisa da Literatura Brasileira”.

No Brasil, Anchieta escreveu em português e latim, mas, sobretudo, em castelhano (sua língua materna) e tupi, que adotou a ponto de dedicar-lhe uma de suas mais importantes obras: “Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil”. Em sua composição, ao notar a inexistência dos sons F, L e R entre os índios, ele deduziu que um povo “com tal deficiência em sua fonologia no podia ter nem Fé, nem Leyes, nem Rei”. Conclusão que a professora Marisa Lajolo completou: “contando-se entre os lucros da colonização a Fé que os jesuítas traziam, o Rei trazido pelos portugueses, e as Leis que vinham na bagagem de ambos”.

Em poesia, a obra mais famosa de Anchieta foi “De gestis Mendi de Saa” (“Os feitos de Mem de Sá”), primeiro poema épico das Américas e primeiro escrito no Brasil a ser publicado, que descreve a batalha do nosso terceiro governador geral, na Baía de Guanabara, contra os franceses comandados por Nicolas de Villegagnon, fundador da França Antártica no Rio de Janeiro. Editada em Coimbra, em 1563, a epopéia renascentista veio a público antes de “Os Lusíadas”, que só seria publicado em 1572, mesmo tendo sido concluído por Camões, provavelmente, desde 1556.

Além do já citado “Poema à Virgem”, Anchieta escreveu também outros poemas religiosos, como essas redondilhas dedicadas a Santa Inês, concebidas numa singeleza que, segundo o poeta e tradutor Alexei Bueno, “talvez só tenha vindo a repetir-se em alguns momentos do nosso Romantismo”, três séculos depois:

Cordeirinha linda,

 como folga o povo

porque vossa vinda

lhe dá lume novo.

 

(…)

 

Por isso vos canta,

com prazer, o povo,

porque vossa vinda

lhe dá lume novo.

 

Não é d’Alentejo

este vosso trigo,

mas Jesus amigo

é vosso desejo.

 

(…)

 

Santa padeirinha,

morta com cutelo,

sem nenhum farelo

é vossa farinha.

 

Ela é mezinha

com que sara o povo,

que, com vossa vinda,

terá trigo novo.

 

O pão que amassastes

dentro em vosso peito

é o amor perfeito

com que a Deus amastes.

 

Deste vos fartastes,

deste dais ao povo,

porque deixe o velho

polo trigo novo.

 

Não se vende em praça

este pão de vida,

porque é comida

que se dá de graça.

 

Ó preciosa massa!

Ó que pão tão novo

que, com vossa vinda,

quer Deus dar ao povo!

 

(…)

Fácil vislumbrar a metáfora do lume, do trigo novo, como a novidade da fé cristã diante da nova terra, o Brasil, à densa sombra da selva ainda virgem. Ecoado desta, no lugar do “horror” sentenciado pela prosa inglesa do polonês Joseph Conrad (1857/1924), o espanhol quinhentista tinha ouvidos de escutar, na colônia portuguesa, o rugido de fome espiritual da imensa maioria pagã (os índios), que estudou e compreendeu como poucos europeus do seu tempo.

Talvez não sem motivo, um Chico brasileiro de Holanda, também grande entendedor do povo desta Terra de Santa Cruz, tenha cantado as boas novas no eufemismo de 500 anos depois:

 

A novidade

Quem tem no Brejo da Cruz

É a criançada

Se alimentar de luz

 

(…)

Meio milênio driblado, como um João de Mané, na tabela de Zé a Francisco, de Chico a José, o método antes proposto à conversão ganha contraste em outros versos do jesuíta:

 

Como, vem guerreira

a morte espantosa!

Como vem guerreira

E temerosa!

 

Suas armas são doença,

com que a todos acomete.

Por qualquer lugar se mete,

sem nunca pedir licença.

Tanto que se dá sentença

da morte espantosa.

como vem guerreira

e temerosa!

 

(…)

 

A primeira morte mata

o corpo, com quanto tem.

A segunda, quando vem,

a alma e o corpo rapa.

Co’o o inferno se contrata

a morte espantosa.

Como vem guerreira

E temerosa!

Se antes expõe a oferta aparentemente livre (“quer Deus dar ao povo”), cuja aceitação é sugerida no realce às possibilidades de luz e alimento da fé cristã, nos versos seguintes o autor age como os pastores evangélicos de hoje, protestantes tão odiados e combatidos pelo padre jesuíta. A analogia se dá na prevalência do apelo dramático e, sobretudo, quando o “mal” é ressaltado para se tentar vender o “bem”, não só com a morte terrena pela peste (trazida à América pela cristandade católica e protestante), mas com a danação eterna do inferno, que, na mão inversa a Conrad, tanto horror deve ter causado aos índios.

A Literatura parece confirmar as dúvidas da História sobre Anchieta. Parida no dualismo, na dialética fundamentada pelos gregos antigos, a poesia surge, no Brasil e no mundo, para refletir as contradições do homem de sempre.

 

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Opiniões de poesia — João Cabral de Melo Neto

Na transição da política à poesia, momento sempre mais prazeroso das quartas-feiras, segue a reprodução neste “Opiniões” de textos originalmente escritos pelo blogueiro para o “Cantos” (aqui), inativo há algum tempo. Precisa como na tacada de sinuca ou no passe de Zidane, a bola da vez é…

João Cabral de Melo Neto — Poeta diamante

Por aluysio, em 07-11-2009 – 2h49

 

 

João Cabral de Melo Neto

 

Cronologicamente, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920/1999) pertenceu à Geração de 45, ano do fim da II Guerra Mundial e inicial da Guerra Fria. A ela, coube a difícil missão de suceder à Geração de 30, talvez a mais profícua na história da poesia brasileira, com valores como um Carlos Drummond de Andrade (1902/1987), um Murilo Mendes (1901/1975), um Mário Quintana (1906/1994), uma Cecília Meireles (1901/1964), um Augusto Frederico Schmidt (1906/1965), um Emílio Moura (1902/1971), um Jorge de Lima (1895/1953) e um Vinícius de Moraes (1913/1980). Por sua vez, foi a qualidade destes autores que solidificou o Modernismo no Brasil, inaugurado pela transgressora Geração de 22, de Mário de Andrade (1893/1945), Oswald de Andrade (1890/1953), Cassiano Ricardo (1895/1974), Raul Bopp (1898/1984), Ribeiro Couto (1898/1963) e do maior poeta entre estes pioneiros, ainda que modernista tardio: Manuel Bandeira (1886/1968), que, aliás, era primo de João Cabral.

Todavia, todo esse preâmbulo geracional, talvez didático e certamente enfadonho, se desvanece diante da afirmação do próprio Cabral: “Eu não sou de 45”. Cronologias à parte, não afirmava isso desprovido de razão, posto ter inaugurado uma póetica diametralmente oposta ao confessionalismo e à metafísica que marcaram seus contemporâneos.

Curiosamente, é uma toada de claras cores surreais, influência certamente do amigo Murilo Mendes, que vai ditar o primeiro livro de João Cabral, “Pedra do sono”, de 1942. A direção inicial, no entanto, seria realinhada pelo compasso e esquadro com os quais acabaria por sedimentar sua obra, tomados de empréstimo não de um poeta, mas de um arquiteto, o francês de origem suíça Le Corbusier (1887/1965):

— Quem mais influência exerceu sobre mim, teoricamente, foi o arquiteto Le Corbusier. Por muitos anos, ele significou para mim lucidez, claridade, construtivismo. Em resumo: o predomínio da inteligência sobre o instinto — admitiria o próprio Cabral.

Essa influência das artes visuais não se restringiria ao grande arquiteto, se espraiando também sob os traços do pintores holandês Piet Mondrian (1872/1944), do francês André Masson (1896/1987) e dos espanhóis Pablo Picasso (1881/1973) e Joan Miró (1893/1983), sobre quem chegou a escrever um livro em prosa e com quem chegou a conviver em sua carreira diplomática na Espanha — cuja Andaluzia, como seu Nordeste natal, está tão impressa em seus versos. Na poesia em si, ironicamente, quem mais marcou o vate pouco afeito ao canto das musas foi uma mulher: a estadunidense Marianne Moore (1887/1972), que “em vez de lápis,/ emprega quando escreve/ instrumento cortante:/ bisturi, simples canivete”, como ele descreve logo à estrofe inicial de “O sim contra o sim”,  poema do livro “Serial”, de 1961.

Identificados na gênese do “verso cicatriz” de Moore, a analogia óbvia desse “bisturi” e desse “canivete” com a “faca” e a “lâmina” que rasgam presença em boa parte da obra cabralina evidencia bem o autor marcado a fio de navalha pela imagem, auto-destinado à coisificação da poesia. Afinal, como diagnosticou nos versos de “Psicologia da composição”, poema que batiza o livro publicado em 1947: “São minerais/as flores e as plantas,/as frutas, os bichos/quando em estado de palavra.”

Poeta da concisão e da contenção, do “seco”, avesso ao lirismo fácil, ao derramamento sentimental que o grande público costuma associar aos poetas,  João Cabral está para a poesia brasileira como Graciliano Ramos (1892/1953) para a prosa. Elevado pelos concretistas a ponto de partida de uma nova estética, é o principal referencial ao fazer poético de lá ao Brasil dos nossos dias, mais que qualquer outro poeta do Modernismo, incluindo Drummond.

Atual inimigo público nº 1 do Concretismo, o poeta Alexei Bueno sequer considera os concretistas como pares, mas “artistas gráficos”, e denuncia ruidosamente o monopólio que os seguidores do movimento passaram a exercer no eixo Rio/São Paulo, a partir dos anos 1950 e do encastelamento nas universidades, sobre a produção e crítica da poesia brasileira. Mas ao radiografar esta numa obra de fôlego, “Uma história da poesia brasileira” (de 2007), ele ainda assim não se furtou em classificar Cabral “entre seus maiores criadores”.  Ou seja, embora critique o que chama de “seita” — o Concretismo e os neo-concretistas —, Bueno reverencia o “messias”.

Para o bem ou para o mal dos olhos de quem lê, a “pedra” que Cabral atirou no leito da poesia brasileira tem suas ondas de impacto refletidas até hoje. E sem margem ainda à vista…

Vários são os poemas que poderiam ser escolhidos para tentar sintetizar sua obra neste blog. “O cão sem plumas”, “Uma faca só lâmina”, “A educação pela pedra” e “Morte e vida severina” certamente estão entre eles. Todos pertencem a livros homônimos, publicados, respectivamente, em 1950, 1955 e, os dois últimos, em 1966. Para muitos, sua grande obra seria “Estudos para uma bailadora andaluza”, que abre “Quaderna”, de 1960. Também deste livro, a escolha, no entanto, acabou recaindo sobre outro poema:“‘Cante a palo seco’”.

O título do livro, pela etimologia, remete ao latim quaterna: “que são em número de quatro; que são quatro a quatro”, na definição do Houaiss. Muitas vezes pelos motivos errados, considerado um poeta complexo, o fato do pernambucano ter a quadra como sua estrofe de eleição é  fruto da influência direta que assumidamente sofreu da poesia popular nordestina. No poema “O número quatro”, do livro “Museu de tudo”, de 1975, ele dá sua razão: “O número quatro feito coisa/ ou a coisa pelo quatro quadrada,/ seja espaço, quadrúpede, mesa,/ está racional em suas patas”.

Se todos os poemas de “Quaderna” são compostos em estrofes de quatro versos, é em “‘Cante a palo seco’” que a exatidão da forma vem na numeração exata: quatro movimentos, cada um de quatro conjuntos com o divisor do quatro (dois) por número de estrofes. E, ao quadrado ou vezes quatro, quatro é conta sempre precisa de 16.

Dedicado ao poeta espanhol Rafael Santos Torroella — que apresentou a Drummond e que traduziu este ao castelhano —, o poema é também onde Cabral mais brilhantemente rascunha, em versos, o seu próprio fazer poético, onde o anti-confessional melhor confessa sua arte diante de si e do leitor, nesse difícil “ser-se ao meio-dia”. Entre os maiores imagéticos da poesia brasileira e universal, ele faz isso utilizando metáforas de musicalidade, despindo-a em suas rimas toantes ao quase silêncio; mas só quase, como  “esse fio/ quando sem qualquer pássaro/ dá o seu assovio”.

A música, que costumava chamar de “menos desagradável dos ruídos”, foi a sua chave para negá-la.

Poeta mais apolíneo da Literatura brasileira, João Cabral de Melo Neto foi pintado em “Retrato, à sua maneira”, por Vinícius de Moraes, nosso maior dionisíaco: “Adiante Ave/ Camarada diamante!”

Bem sabia o Poetinha que a pedra mais dura é também a que mais brilha.

 

“A Palo Seco”

A R. Santos Torroella

 

1.1

Se diz a palo seco

o cante sem guitarra;

o cante sem; o cante;

o cante sem mais nada;

 

se diz a palo seco

a esse cante despido:

ao cante que se canta

sob o silêncio a pino.

 

1.2

O cante a palo seco

é o cante mais só:

é cantar num deserto

devassado de sol;

 

é o mesmo que cantar

num deserto sem sombra

em que a voz só dispõe

do que ela mesma ponha.

 

1.3

O cante a palo seco

é um cante desarmado:

só a lâmina da voz

sem a arma do braço;

 

que o cante a palo seco

sem tempero ou ajuda

tem de abrir o silêncio

com sua chama nua.

 

1.4

O cante a palo seco

não é um cante a esmo:

exige ser cantado

com todo ser aberto;

 

é um cante que exige

o ser-se ao meio-dia,

que é quando a sombra foge

e não medra a magia.

 

2.1

O silêncio é um metal

de epiderme gelada,

sempre incapaz das ondas

imediatas da água;

 

a pele do silêncio

pouca coisa arrepia:

o cante a palo seco

de diamante precisa.

 

2.2

Ou o silêncio é pesado,

é um líquido denso,

que jamais colabora

nem ajuda com ecos;

 

mais bem esmaga o cante

e afoga-o, se indefeso:

a palo seco é um cante

submarino ao silêncio.

 

2.3

Ou o silêncio é levíssimo,

é líquido sutil

que se coa nas frestas

que no cante sentiu;

 

o silêncio paciente

vagaroso se infiltra,

apodrecendo o cante

de dentro, pela espinha.

 

2.4

Ou o silêncio é uma tela

que difícil se rasga

e que quando se rasga

não demora rasgada;

 

quando a voz cessa, a tela

se apressa em se emendar:

tela que fosse de água,

ou como tela de ar.

 

3.1

A palo seco é o cante

de todos mais lacônico,

mesmo quando pareça

estirar-se um quilômetro:

 

enfrentar o silêncio

assim despido e pouco

tem de forçosamente

deixar mais curto o fôlego.

 

3.2

A palo seco é o cante

de grito mais extremo:

tem de subir mais alto

que onde sobe o silêncio;

 

é cantar contra a queda,

é um cante para cima,

em que se há de subir

cortando, e contra a fibra.

 

3.3

A palo seco é o cante

de caminhar mais lento:

por ser a contrapelo,

por ser a contravento;

 

é cante que caminha

com passo paciente:

o vento do silêncio

tem a fibra do dente.

 

3.4

A palo seco é o cante

que mostra mais soberba;

e que não se oferece:

que se toma ou se deixa;

 

cante que não se enfeita,

que tanto se lhe dá;

é cante que não canta,

cante que aí está.

 

4.1

A palo seco canta

o pássaro sem bosque,

por exemplo: pousado

sobre um fio de cobre;

 

a palo seco canta

ainda melhor esse fio

quando sem qualquer pássaro

dá o seu assovio.

 

4.2

A palo seco cantam

a bigorna e o martelo,

o ferro sobre a pedra,

o ferro contra o ferro;

 

a palo seco canta

aquele outro ferreiro:

o pássaro araponga

que inventa o próprio ferro.

 

4.3

A palo seco existem

situações e objetos:

Graciliano Ramos,

desenho de arquiteto,

 

as paredes caiadas,

a elegância dos pregos,

a cidade de Córdoba,

o arame dos insetos.

 

4.4

Eis uns poucos exemplos

de ser a palo seco,

dos quais se retirar

higiene ou conselho:

 

não o de aceitar o seco

por resignadamente,

mas de empregar o seco

porque é mais contundente.

 

João Cabral de Melo Neto, em João Cabral de Melo Neto — Obra completa (1994), Editora Nova Aguilar, Quinta reimpressão da 1ª edição (2006), págs. 247 a 251

 

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Sirkis: Denúncias contra o PT partem do PT

O “ex-companheiro” Alfredo Sirkis (foto de Antonio Cruz)
O “ex-companheiro” Alfredo Sirkis (foto de Antonio Cruz)

“Uma atitude fascistóide”. Foi assim que o vereador carioca e candidato a deputado federal pelo PV, Alfredo Sirkis, em visita de campanha a Campos, classificou a manifestação programada para hoje, em São Paulo, contra a chamada “grande imprensa”. Além de PT, CUT e UNE, segundo definiu e denunciou o jornalista Merval Pereira, em sua coluna publicada hoje em O Globo, o evento é também organizado pelos “que se intitulam ‘blogueiros independentes’, todos, sem exceção, financiados pelo dinheiro público”. Irônico que, nesta terra de planície, quem se arroga de título idêntico, até pouco tempo se ufanava por ter conseguido emplacar um e-mail na mesmíssima coluna do Merval — um dos tantos que, pelo “crime” da exposição do contraditório, passou a ser encarado como inimigo figadal por essa espécie de SS virtual.

Com a bagagem de quem integrou a luta armada contra a ditadura, junto com vários “companheiros” hoje no comando do PT, Sirkis não tem dúvidas de quem está por trás deste movimento de “inteligência” do partido: José Dirceu, mentor do Mensalão.  Em conversa com o blogueiro, o verde revelou, inclusive, que enquanto estava reunido, ontem, com a cúpula da campanha de Marina Silva à presidência, chegou a informação de que todas as denúncias contra o governo federal, repercutidas pela imprensa, teriam origem dentro do próprio PT. Seriam facções não apenas insatisfeitas com a iminente ocupação do PMDB no governo Dilma, como por oposição interna ao grupo palaciano nas diputas sempre intestinas do partido — nítidas e bem reproduzidas, por exemplo, em Campos.

Para Sirkis, além do “fantasma do PMDB”, um possível governo Dilma ainda teria outro grave problema: Lula. Não bastasse Zé Dirceu dando as cartas novamente sob a mesa do PT,  o verde indagou qual seria o papel do popularíssimo presidente quando finalmente deixar a cadeira: “tutor de Dilma?” Se não se ateve à postura de magistrado que caberia à presidência da República, evidenciando total ausência de limites para tentar eleger sua candidata, a qualquer custo, ainda no primeiro turno, o que garante que Lula irá aprender a fazê-lo, depois que se tornar ex?

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