Paula Vigneron — Vanda

Ruínas de Atafona, 06/08/14 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Ruínas de Atafona, 06/08/14 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

“Ah, se essas promessas se cumprissem”, pensou Heitor, enquanto, caminhando pelas ruas, encontrou um anúncio de milagres amorosos para o qual olhavam algumas mulheres desconcertadas. Retornos em até sete dias. Descobertas sobre amantes com relatos de trabalhos bem sucedidos.

E se lembrou de Vanda. Bonita. Charmosa para andar. Tinha um passo meio saltitante, como se comemorasse algo. Ele queria fazer parte daquela festa desde a primeira vez em que a viu. Os cabelos vermelhos escorriam pelas costas e se movimentavam de diferentes maneiras a cada passo dado por ela. Às vezes, iam da direita para a esquerda, lentamente. Em outros momentos, batiam contra a coluna, como se estivessem agredindo-a. Mas de modo delicado.

Vanda era tão contraditória quanto seus cabelos.

— Posso me sentar? Estou dançando há algumas horas. Meus pés estão doendo tanto que não resisti a essa cadeira convidativa — pediu, calorosamente, a ele. Aceitou, claro. Era oportuno o momento.

Conversaram por intermináveis minutos. Os caminhos dos garçons tinham paradas obrigatórias nas mesas dos dois. Eles enchiam os copos, já cansados dos gestos repetitivos e dos pedidos incessantes.

“Não, não temos mais esta cerveja”.

“A vodka acabou mais cedo, como falei com a senhora. Sim, falei. Mais de três vezes, senhora. Não, não tenho como providenciar.”

— Lugar mal servido, não acha? — e ele concordou. Na situação em que estava, discordância seria sinônimo de briga. E era tudo que Heitor não desejava naquele momento.

Seguiram a noite em um diálogo que beirava a incompreensão. A mulher contava os casos de sua vida, misturando-os a histórias de pessoas conhecidas dela. Ele não estava conseguindo acompanhar a sucessão dos fatos, mas ria quando era necessário e fazia expressões de total comunhão. Vanda parava o discurso, ocasionalmente, para esperar as reações do interlocutor. O homem manteve uma boa atuação até o final do encontro.

Desejou, em certos momentos, permanecer ao lado dela por todos os dias de sua vida, embora soubesse que sua paz se transformaria em um eterno turbilhão de palavras soltas, euforias e chateações. Era fácil deduzir, apesar de terem ficado juntos por pouco mais de quatro horas. Deixou-a em casa. Trocaram telefones e abraços como se fossem parentes ou amigos que se reencontraram, por acaso, depois de anos. Vanda era um mistério. Ele ainda não sabia se ela era a professora ou a coordenadora da escola em que disse trabalhar.

No dia seguinte, uma mensagem:

“Oi, Heitor. Não sei muito bem como foi a noite de ontem, mas torço para que tenha terminado bem. Alguns flashes passam por minha cabeça. Lembro que você me ofereceu uma carona. Obrigada pela gentileza e por ter acompanhado minha prosa torta sem questionar ou reclamar de tédio.”

Ela sabia exatamente como era seu comportamento quando misturava o álcool ao diálogo. Heitor se surpreendeu. Respondeu, educadamente, que o encontro foi ótimo e gostaria de repeti-lo para definir, em sua cabeça, se ela tinha estudado matemática ou letras.

O segundo dia de conversa desdobrou-se em três, quatro, sete, dez e um namoro. Tal como previra, Vanda era o furacão. Dormiam e acordavam em constantes tensões. Descobriu que era professora de geografia. Nas madrugadas, os gritos eram ouvidos por vizinhos. Ele pedia discrição, mas ela não se continha. Geralmente, um passeio pelo elevador, durante a manhã, representava minutos de constrangimento reforçados por adolescentes debochados ou idosos irritados.

Quando voltava para casa, encontrava-a instalada na cama. Aprendera a não se surpreender com as alterações de humor. Ora, estava alegre, contando os casos do dia, da família e os sonhos que construíra, sozinha, para ambos. Ora, discutia ideias para mudar completamente a sua vida. Ele se sentava, na beira da cama, e a ouvia silenciosamente. Sabia os momentos de pausa nos quais deveria interferir e os tons que precisariam ser usados. Vanda tinha prazer, que acreditava ser oculto, de transferir suas criações para a realidade.

Em uma manhã de folga, a mulher acordou mais cedo. Esperou Heitor despertar do sono pesado e ficou encarando-o por longos minutos. No começo, ele interpretou como carinho o gesto da namorada. Mas a forma de olhá-lo não era a mais simpática. A sonolência o deixava com os pensamentos vagarosos. Demorou a compreender. Sentou-se para tentar descobrir o que a afligia. O movimento dos lábios foi interrompido por uma enxurrada de reclamações.

“Falta amor, falta carinho, falta conversa. Você não tem tempo para mim. Eu não aguento mais ter que esperar para receber de volta aquilo que dou. Não, você não pode falar nada. Você pode ficar quieto e ouvir. Eu sei disso. Não precisa jogar na minha cara que você dormiu tarde porque ficou me escutando. Meus assuntos nunca te interessam, não é? Eu cansei do pouco que você tem para me dar.”

Ela, em discussões, usava poucas vezes o pronome “eu”. Mas abusava da segunda pessoa do discurso. Juntou os pertences e, assim como veio, foi. Ele lamentou por uns dias. Por outros, sentiu uma saudade lancinante. Depois, sonhou com ela. Acordava sentindo o cheiro. Buscou, por meses, um sinal. Mas ela havia ido.

Quando se esqueceu de Vanda, recebeu uma mensagem. “Continuo a te ver por todos os lados. Sei que corri de você, mas sempre te encontro onde não quero. Preciso me livrar.”

Ele não respondeu. Imaginou que era mais uma de suas maluquices fora de hora e na contramão. No dia seguinte, outro recado. “Não faça comigo o que fiz com você. Se te procurei, é porque preciso que me ajude. Não estou gostando do seu sumiço.”

Novamente, Heitor preferiu o silêncio. Rapidamente, Vanda avisou. “Você não muda, não é? Egoísta. Saiba que nada de bom te espera. Cuidado por onde anda.” E, outra vez, sumiu.

A caminho do trabalho, depois de tempos passados do último contato virtual, Heitor observava homens e mulheres que passavam a seu lado. Sem perceber, foi agarrado em uma das mãos por uma cigana. Saia e blusa coloridas em uma mistura atípica.

“Vejo o seu futuro. No seu futuro, uma mulher. Mas essa mulher te traz sofrimentos. E os sofrimentos são causados por uma forma de magia…”

O tédio das palavras consumindo o tempo do ouvinte.

“… Magia poderosa, menino. Magia do amor. Nunca vi nada tão forte. Mas, com uma ajuda, posso te ensinar a reverter.”

“Olha, senhora, pode ser que você esteja certa. Mas, como bom alvo, prefiro esperar que as coisas se manifestem sozinhas.” E deixou a cigana. A poucos metros, passou por Vanda, dominada por um olhar furioso. Parecia um sinal. Sentiu arrepios. Direcionava a ele as piores expressões. Podia ouvir os pensamentos dela, a voz ecoando críticas ao seu mau comportamento. À falta de carinho. A nenhuma parceria. Ao descaso. A tantas coisas que ele nem seria capaz de se lembrar.

Foi o último encontro dos dois. Soube, tempos depois, que a outro homem se destinavam as pragas de Vanda. Com ele, viveu nova paixão intensa, eterna e calorosa, com juras de amor transformadas em arrepios e ameaças transcendentais nunca materializadas. Conjuradas em um mesmo solitário quadro.

 

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Paula Vigneron — Ela

Campos, aurora de 26/08/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Campos, aurora de 26/08/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Os olhos pareciam confundir realidade e ficção. A seu lado, uma idosa dormia profundamente. Estava fraca, Há quantos dias estava ali? As paredes brancas se transformaram em uma câmara densa. Sufocavam. Ou seria o descompasso de sua respiração? Ora, transparecia serenidade. Ora, tensão. Quem passava gostava de analisá-lo. Alto, magro, belo. Em outros tempos, havia conseguido unir inteligência e beleza na medida certa para atrair as pessoas. “Ele é diferente dos demais”, diziam as meninas apaixonadas. Bobas. Não sabiam que, no fundo, todos são iguais.

Será?

Antônio, hoje, observa no espelho o que restou de sua plenitude. Agora, no entanto, não podia se levantar. Restaram somente as lembranças da passagem do tempo. As palavras ditas. As bocas beijadas. Os olhares trocados com outras, tantas, muitas mulheres. Os olhos dela. Ela. A mulher que ainda permanecia em pé a seu lado desde o dia em que dera entrada naquele quarto de hospital.

Onde?

Ao redor, rostos, vozes, gestos e observações desconhecidas. E ela continuava por perto, em algum canto distante. Ele não podia vê-la nem tocá-la. Mas seria capaz de descrever, com riquezas de detalhes, a sua sonoridade. Nos atos, nas palavras e no jeito. “Uma pluma que acaricia nossa alma”, comentava com os amigos. Diziam que era fase. Besteira. Ninguém confiava em sua fidelidade. “É só mais uma, rapaz. Você sabe. Quantas outras fazem parte da sua lista de achadas e perdidas?” E os homens gargalhavam das piadas. Antônio analisava, buscava a graça. Mas eles estavam errados. Todos eles.

E ele?

Esticou a mão para tocá-la. Em foto, em carne, em osso, em alma. Os dedos perderam a sensibilidade. “Por isso, não a sinto”, tentava se convencer. E conseguia. Misturava cenas do passado para desenhar o presente e ter a sorte, quem sabe, de traçar um futuro. Ela corria em sua direção para anunciar uma conquista. Comemoravam. Beijos, abraços, histórias. Por vezes, ficava brava. “Tem um gênio de cão”, desabafou com o irmão mais velho, que ria e se espantava com as mudanças do caçula. “Em outros tempos, não restaria nada além de sua impaciência.” O casal gostava de contar seus casos. As impressões de amigos e familiares rendiam risadas e comentários irritadiços. Pela voz, Antônio sabia, com precisão, o que se passava no interior dela.

E a voz?

Era doce. Direta. Ríspida. Agressiva. Cortante. Era? Chafurdava os compartimentos de sua memória para buscar o tom exato da frase que ela diria. Perdia-a. O avanço dos minutos resultava em completo afastamento. Sua mãe lhe contou isso na infância. “Quando uma pessoa morre, esquecemos aos poucos todos os detalhes. É como uma fotografia que o tempo trata de envelhecer e apagar vagarosamente. Ficam os traços do sorriso, o fundo da imagem e, no final, o nada.”

O nada.

Mas, com ela, não. Não poderia ser assim. Uma recordação qualquer. A tarde no parque. O encontro com os parentes. As idas ao cinema que terminavam em discussões quase filosóficas sobre os filmes vistos, inclusive os mais superficiais. Ela encaixava uma teoria para explicar decisões e opções de diretores e produtores. “Como você não entendeu a referência?”. Ela brigava quando tinha que explicar algum ponto obscuro. Os tons. A voz. As frases surgiam em sua cabeça como as frases de um livro de literatura. Um filme mudo. Era nisso que ela se transformara. Em silêncio. Ao lado, a máquina mostrava, agora, o descompasso de seu coração.

A perda definitiva.

Pessoas, vestidas de brancos, posicionaram-se ao redor dele. Via as luzes provenientes de todos os cantos daquele quarto. “Vocês estão me sufocando”, disse. Mas a voz não saia. E seu tom? Mesclavam-se, aos poucos, o homem e a mulher. Os sons desaparecendo. “Aja com cautela”, lembrou-se do conselho do irmão. Dissera isso em vários momentos de sua vida. “Ajo, Sandro. Mas o que faço agora?” A boca aberta ecoava o vazio. Buscava o timbre exato para cruzar com o dela.

Cautela.

O sorriso. Os dentes levemente amarelados devido aos maus hábitos. E Antônio gostava. Sentia prazer ao ver as imperfeições dela. Estava acostumado à rouquidão que, no início, havia estranhado. “E agora, Sandro?” Mãos diversas, cores diferentes, tocavam o peito dele. As luzes pareciam mais fortes. Sentia-se leve como há tempos não conseguia. Paz. Nirvana. Atrás daquela confusão de dedos e expressões, o sorriso dela. A voz tomou conta do ambiente. Límpida. Clara. Sonora. Sorriu em compreensão. Desejou encostar os lábios nos dela, mas aguardaria. Não demoraria muito mais. Passado e presente em comunhão para traçar, com sorte, o futuro.

 

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Saulo, Paula, Camilla e Helô — Novos blogueiros da Folha Online

Folha Online 1

 

 

Três jornalistas e uma professora de educação física. A partir da próxima quinta, dia 1º de setembro, Saulo Pessanha, Paul Vigneron, Camilla Silva e Helô Landim, sucederão o historiador Aristides Soffiati (aqui) como os novos blogueiros hospedados pela Folha Online.

Abaixo, em palavras próprias, um pouco de cada um, bem como o que eles pretendem trazer a você, leitor, nesses novos pontos de encontro virtual. Para começar a conferi-los, basta clicar sobre o layout de cada blog:

 

 

Saulo Pessanha - blog Saulo Pessanha

 

O jornalista Saulo Pessanha, 66 anos, está há algumas décadas militando na imprensa de Campos. Ele assina duas colunas na Folha da Manhã. Na blogosfera, está voltando, depois de quase dois anos fora do ar. Saulo debutou na profissão em A Notícia, então sob o comando de Hervé Salgado Rodrigues, em 1969. Ao longo da carreira, foi correspondente da revista Placar, do Jornal dos Sports e da Ùltima Hora. Fora do jornalismo, foi dono de bar — o Bar Doce Bar, ponto de boêmios e intelectuais na noite de Campos, nos anos 1970. Também escreveu livros: “A Imprensa de Campos pelo avesso — 400 gafes e pérolas” e “Anedotário Político — 400 casos de Campos e adjacências”, volumes I e II.

 

 

 

Paula Vigneron - blog Vigneron

 

Trabalho, há aproximadamente dois anos, como repórter da Folha Dois, caderno de cultura da Folha da Manhã. Junto a essa tarefa, publico, quinzenalmente, contos no blog Opiniões. E, agora, também a convite de Aluysio Abreu Barbosa, compartilharei com os leitores textos, jornalísticos e literários, por meio do blog Vigneron.

Diante da avalanche de notícias a que somos submetidos diariamente, a ideia é que a página virtual, que estará no ar em breve, possa ser um meio de filtrar e analisar fatos do cotidiano sobre assuntos diversos, principalmente quanto à área cultural. O espaço será utilizado, também, como meio para divulgação de interessantes produções, tanto locais quanto nacionais, relacionadas à literatura, música, teatro e cinema.

 

 

 

Camilla Silva - blog Preto no Branco

 

A nossa opinião pode ter inumeráveis tons de cinza. Nós podemos defendê-la com todos os argumentos que tivermos. Os argumentos podem ser variados, às vezes, até antagônicos e inteiramente válidos. Eles só não podem ser falsos. O blog Preto no Branco nasceu com a intenção de desfazer boatos, mentiras criadas e difundidas, respostas duvidosas de assessorias, entre outros. A ideia é que ele também tenha um espaço para opinião, devidamente identificado. É bem certo que verificar informações é a função básica do jornalismo. O blog é, portanto, apenas uma extensão do trabalho da redação de todos os dias.

 

 

 

Helô Landim - blog Vida Ativa

 

Graduada em Educação Física ,docente I do Governo do Estado do Rio de Janeiro .  Especialista em Gerenciamento de Projetos — MBA Gerenciamento de Projetos pelo Isecensa, expertise na gestão de programas de atividade física e saúde com ênfase na Gestão do Envelhecimento Saudável.  Especialista em Qualidade de Vida e Gerontologia pela Faveni e aluna de Iniciação Científica do Mestrado em Educação Física da Uerj.

O blog Vida Ativa, hospedado na Folha da Manhã, tem por objetivo difundir e dialogar com os leitores sobre as questões que cercam envelhecer no mundo , no Brasil e especificamente em campos dos Goytacazes. Conversaremos sobre envelhecimento ativo, a importância da atividade física para a longevidade e as políticas públicas que são realizadas com essa finalidade, além é claro do exercício da cidadania no cumprimento da legislação que envolve o idoso no país.

 

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Paula Vigneron — Quase vida

 

Pista de corrida do Estádio Olímpico do Engenhão, Rio, noite de 16/08/16 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Pista de corrida do Estádio Olímpico do Engenhão, Rio, noite de 16/08/16 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

 

A primeira pontada foi naquela manhã. Era o sinal de que seu menino, que já demonstrava ser bagunceiro, estava prestes a chegar. Lembrava-se da recomendação médica: “você pode me ligar quando começarem as contrações. A qualquer dia e hora”. Mas ela queria sentir mais um pouco a dor de ser quase mãe. Quase. Ansiava pelo momento de se dizer mãe. Palavra curta e forte. Desde que soubera que estava grávida, pensava muito no verdadeiro sentido da maternidade. Relativamente jovem, sabia que ainda não conhecia o significado da fase em que iria entrar.

Segunda pontada minutos depois. Não sabia exatamente o tempo entre uma e outra. “Ela vai ficando cada vez mais forte. Não hesite em me procurar”, recomendava o médico. “Eu sei, doutor. Pode ficar tranquilo. Eu sei como agir”, dizia, consciente de que não havia verdade em sua frase. Ela não sabia como agir. Para lidar com a gravidez, antes de contar à família, passou uns dias isolada. Precisava ficar em silêncio para aceitar que deixaria de ser filha para se tornar mãe. Responsável por um frágil ser, cuja única forma de contato com ela seria o choro. Ou o riso. Gritos. Sem verbalização de sentimentos, dores e emoções. Sem vozes. Só reações facilmente confundíveis.

“E agora?”, perguntou a si mesma nos dias de afastamento da realidade. Não havia respostas. Era hora de encarar-se como adulta.

Terceira pontada. Mas acostumou-se à ideia de ter um pequeno ser ao seu redor, com lágrimas, risos, cólicas e amor puro. Na verdade, estava ansiosa para conhecer o rosto do menino que habitava sua barriga há nove meses. Queria ver gestos, traços, expressões. Queria, acima de tudo, ver seu reflexo nele. Quarta pontada. O intervalo entre as contrações diminuía. Era hora de telefonar. Quinta pontada. O médico a recomendou que corresse ao hospital. Honesta, a mulher contou que demorara a entrar em contato por desejar sentir um pouco mais as dores de ser quase mãe. Quase. Faltava pouco.

Sexta pontada. Telefonou para o marido. Rapidamente, o homem chegou ao apartamento, organizou as malas da esposa e do filho e desceu. A tensão era grande. Ele sentia o corpo tremer. “Pai de primeira viagem, hein?”, ouvia dos amigos. E morria de medo da responsabilidade que se materializaria em breve. Ainda bem que tinha a companheira. Sétima pontada. Um líquido começou a escorrer pelas pernas da mulher. Era a tal bolsa estourada. Sim. O processo estava próximo ao fim. Sentia-se feliz e plena. Agora, seria mãe. O confronto com a maturidade. Ida para um tempo sempre temido. Ainda assim, prevalecia a alegria.

A intensidade do incômodo crescia. Deitada na maca, era encaminhada com rapidez para a sala de parto. Optara pela cesariana. Não queria sofrer mais do que o necessário. A família concordou. A expressão do médico era de preocupação. Ela não entendia. “Deve ser normal”, pensou. “Não é possível estar angustiado diante de um momento de tanta felicidade”. A conclusão a que chegou parecia ser diferente da dos demais. Havia urgência em todos os olhos que pousavam sobre ela.

Anestesia. Seu corpo adormecia vagarosamente. O tato perdia-se. Os pés já não balançavam. Ficaria acordada. Os primeiros cortes. Sentia um leve ardume na barriga. A dor de ser quase-quase mãe. Cada vez mais perto de seu menino. Seu garoto. Seu guri.

“Corra. Não temos muito tempo”, disse a enfermeira. A quem foi dirigido o alerta, ela não sabia. Todas as palavras tocavam seus ouvidos com certo atraso. Não conseguia compreender o significado do que era dito. A movimentação aumentava em seu entorno. Mãos, braços, dedos e instrumentos cirúrgicos confundiam-se diante dela. O decorrer dos minutos trazia afastamento da realidade. Longe, escutou os primeiros ruídos do que parecia um choro. Uma agulha foi enfiada em sua veia. “Ai”. Exclamação quase inaudível.

“Quase. Quase a perdemos”, comentou o médico, trêmulo. Havia um quê de alegria por tê-la trazido de volta.

A seu lado, havia um pequeno embrulho. Depois da injeção, ela o enxergava bem. Era tão pequeno. Tão indefeso. Tão amado.

“Meu menino. Meu querido. Meu curumim”, disse. Lágrimas embaçavam um pouco a visão da mulher.

Novamente, o corpo adormecido. Sentia incômodo, mas não sabia de onde vinha a sensação. Tentava chamar os médicos com as mãos, mas elas não respeitavam a sua vontade. O mal estar aumentava. Não conseguia pedir ajuda. Seus olhos estavam presos à criança recém-nascida. Queria dizer que logo estariam em casa, mas as palavras escorriam pela boca junto à saliva. O descontrole tomava conta da mulher. Tudo estava denso. Pesado. Respiração lenta.

O menino estava distante. Fugia de seus toques. Logo, seria homem. Antes, quase-quase homem. E bonito. Grande e forte, era assim que tentava imaginá-lo. E seria pai. Primeiro, um quase pai. Depois, seria avô. Seria pleno. Seria o reflexo dela em todos os rostos. Sua fiel representação e protetor de sua memória. Seria o que quisesse. Seria o que ela quase foi. Curumim.

“Fique em paz, meu filho. Cuide-se. Por ti. Cuide-se por mim.”

 

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O homem e o mar — Atafona de dentro do Atlântico

Nadinho 1
Sobre as águas azuis do oceano, o “Paleta de Ouro” recebe visita (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Atafona vista do Atlântico (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona vista do mar barrento já próximo da foz (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

O pescador se chamava Nadinho. Alto, ombros largos, alourado, pele clara curtida de sol, era um muxuango descrito por Alberto Lamego em “O homem e a restinga”. Levava os genes de corsários holandeses e ingleses que, em passado remoto, teriam encalhado próximos à foz do rio Paraíba do Sul.

No vingar desse sangue europeu setentrional pelas gerações, mesmo misturado ao de portugueses, negros e índios, a Ilha da Convivência passaria a ser também conhecida como “Ilha dos Olhos Azuis”. Foi nela que Nadinho nasceu e aos 10 anos aprendeu a pescar com o pai, Arnaldo — que lhe deu nome, repetido depois no neto, e ofício.

Às 4 da manhã, na escuridão do inverno antes do sábado nascer, o pescador levava passageiro ao navegar mais uma vez pela foz do Paraíba rumo ao Atlântico, na lida à qual se acostumou com menos companhia:

— Só eu e Deus! E quem está com Deus, não está sozinho!

Nadinho conduzia com segurança a roda do leme do “Paleta de Ouro”, dentro da cabine do barco de madeira de 11,2 metros, homônimo a um barco antigo do pai — como o filho era deste. O passageiro, atrás da cabine, olhava sobre esta e a proa para o oceano enegrecido de noite. Sentia na face o vento frio e úmido, enquanto aferia a linha do horizonte pelas luzes dos barcos saídos antes.

Com mar muito mexido a partir da pororoca — gerúndio em tupi do verbo estrondar — na boca da foz, as ondas grandes eram literalmente surfadas, uma a uma, com habilidade, pelo condutor do barco. Com um passado de intimidade com Iemanjá, o passageiro foi salgado no presente pela onda que lhe molhou a face e a máquina fotográfica pendurada ao pescoço.

Sentou-se na entrada da cabine e abriu o casaco impermeável para expor a malha de algodão da blusa. Enquanto limpava com ela a câmera, seus olhos agora voltados à popa fotografavam as aparições do dorso negro das grandes ondas deixadas para trás. Eram desveladas por instantes no contraste com as luzes do continente, que se distanciavam lentamente no mesmo sentido.

Após uma hora e 10 minutos surfando ondas, chegaram num ponto para pesca de peroá (Balistes capriscus) conhecido de Nadinho, como se fosse qualquer outro lugar de terra em Atafona. Jogou a âncora de 20 kg, cuja corda revelou a profundidade de 10 metros.

Antes do dia nascer, lançadas da popa, já estavam nas águas ainda escuras três linhas de nylon 0,100 mm, cada uma com doze anzóis, seis de cada lado. Espetados neles eram intercalados metades de siris, como engodo para atrair os peroás, e camarões, aos quais os peixes morderiam para iniciar uma luta de vida e morte contra a fisga trespassada à própria boca.

Nos dois cantos extremos da popa, iam linhas cujas boias de garrafa pet, pela forma e função, lembravam os barris arpoados ao aterrorizante grande peixe do filme “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg. Do lado direito do “Paleta de Ouro”, na altura da porta traseira da sua cabine, ia mais uma linha de fundo.

Quando o sol nasceu, parido pelo mesmo horizonte em que pescador e seu passageiro balançavam como crianças impotentes no berço, se deram a ver, algumas centenas de metros adiante, dois grandes cargueiros dos mares do mundo. Ancorados, esperavam a vez para se abastecerem de minério de ferro no Porto do Açu.

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Algumas centenas de metros adiante, após as aves marinhas, os cargueiros do mundo (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Com o dia, vieram os primeiros peroás negros, embora apresentem cor cinza. O pescador explica que, embora ele próprio goste mais do sabor da carne destes, não são tão valorizados quanto os azuis e geralmente mais graúdos peroás do leste.

A maioria dos peixes era puxada do mar pela linha com boia da esquerda:

— Nunca que vou entender isso. Como pode com a linha do lado da outra, uma pegar tanto peixe e a outra não? — questionou Nadinho.

— Vai ver os peroás gostam mais de guaraná Tobi do que de Coca-Cola! — brincou o passageiro, em referência ao rótulo que ainda sobrevivia na garrafa pet verde da sortuda linha canhota, em contraste com a similar de plástico transparente e tampa vermelha, sinalizando como boia o azar da direita.

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Linha sortuda da esquerda com cinco peroás fisgados de vez (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Enquanto os peroás eram fisgados, às vezes cinco na mesma linha, o passageiro não pôde deixar de notar o constrangedor contraste entre sua própria movimentação dentro do barco e a do pescador. Enquanto o primeiro só conseguia caminhar, ao balanço das ondas, se apoiando com as mãos, Nadinho o fazia com tanta naturalidade dos passos, equilíbrio do tronco e liberdade dos punhos, que lembrava um pugilista de maturidade técnica dentro do ringue.

Embora os peróas compusessem a grande maioria do pescado que foi enchendo as caixas de frigorífico, dois baiacus arara (Lagocephalus laevigatus) também foram capturados. Um deles após cortar a tal linha esquerda e arrancar com suas poderosas mandíbulas o lombo de um xarelete (Caranx hippos) fisgado ao anzol.

Após limpar o baiacu arara, separando sua parte comestível da cabeça e vísceras, Nadinho exibe na mão esquerda a glândula venenosa de cor verde que, se cortada, envenena a carne do peixe (Foto : Aluysio Abreu Barbosa)

Por experiência própria, o passageiro já sabia que aquela espécie de baiacu era não só comestível, desde que corretamente limpo, como delicioso. Conhecimento que Nadinho acresceu da malandragem de pescador:

— Tem dono de peixaria que compra baiacu e vende em posta, dizendo ser garoupa (Epinephelus marginatus), porque têm a mesma carne branca. A nós, não conseguem enganar. Mas para quem não conhece direito…

Entre um peroá e outro, sobrou espaço para o pescador falar sobre sua experiência com outro tipo de vida marinha. Do peixe mais temido do mar, disse que nunca cruzou com um tubarão branco (Carcharodon carcharias), personagem do filme de Spielberg.

Mas, com malhão (rede de malha larga, para prender peixes maiores), já pescou outras espécies de tubarão bastante agressivas, como o cabeça chata (Carcharhinus leucas), responsável pelo maior número de ataques a seres humanos no litoral brasileiro, e o tigre ou tintureira (Galeocerdo cuvier).

Da última espécie, lembra já ter pescado um tubarão tigre que deu 198 kg depois de limpo:

— Mas foi até difícil de vender, porque o tintureira não tem a carne boa — ressalvou, ao esclarecer que a maior parte do cação vendido em Atafona vem daquele que ele e os demais pescadores chamam de “torce torce” (pelo hábito de rodar sobre seu eixo quando capturado, como todo tubarão), também conhecido como caçonete (Mustelus norrisi).

Nadinho cabine
Com a mão na roda do leme e o corpo para fora da cabine, Nadinho conduz o “Paleta de Ouro” na reentrada pela foz do Paraíba (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Uma história violenta com tubarões foi vivida não por Nadinho, mas por um primo que é seu vizinho no Pontal de Atafona, para onde se mudou ao sair da Convivência, há quase 30 anos:

— Uns 10 anos depois, meu primo, o Genilto estava recolhendo uma rede mijuada (ancorada). Um cação marimbondo (Lamna nasus, conhecido como marracho), que eles já tinham recolhido, estava no chão do barco. Quando ele cruzou na frente, o cação deu o bote e arrancou a barriga da perna dele. Quando abriram o bicho, acharam o pedaço da perna dentro do seu bucho. E Genilto ficou com aquela roda pra dentro da perna.

Já com o maior de todos os peixes, o encontro foi pacífico. Apesar de atingir até 20 metros e 13 toneladas, o dócil tubarão baleia (Rhincodon typus) se alimenta só de plâncton (microorganismos) e outros invertebrados, que filtra na água com sua boca imensa, enquanto nada lentamente:

Nadinho limpa alguns dos peroás maiores ainda dentro do barco (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Nadinho limpa alguns dos peroás maiores ainda dentro do barco (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

— Estava no “Paleta de Ouro”, mais dois companheiros, pescando de caída (rede para peixes que fica flutuando ao sabor da corrente marinha), no mar de Quissamã. Ele era um pouco maior que o barco (11,2 m). Devia ter uns 12 metros. Nadava devagar, com as costas todas pintadas de branco (característica do dorso do animal). Um amigo encostou nele com o bicheiro (haste com um anzol grande na ponta, usado para ajudar a trazer os peixes ao barcos) e ele afundou.

Foi também no seu próprio barco que Nadinho encontrou os maiores seres do mar, as baleias de verdade, mamíferos, não peixes, que costumam aparecer no litoral de Atafona nos meses invernais de junho e julho. Um desses encontros, poderia ser narrado nas páginas de “Moby Dick” (1851), clássico romance de Herman Melville (1819/91):

— Estava com mais dois companheiros, pescando de malhão. De repente uma baleia se embolou na rede e começou a puxá-la, arrastando o “Paleta de Ouro” com se fosse um barco de papel. Durou cinco minutos, mas foi muita tensão. Acho que elas nem sabem a força que têm. Aí, quando íamos cortar a corda da rede, para nos soltar, a baleia pocou ela.

Entre histórias do mar, seus homens e outros seres, três caixas de frigorífico foram cheias, cada uma com 25 kg de pescado. Vendida por R$ 3 o quilo para os frigoríficos, chegam ao consumidor final, nas peixarias de Atafona, a R$ 9; ou R$ 10, no Mercado de Campos. R$ 225 pelas três caixas de peixe, menos R$ 100 do diesel e das iscas, dão um lucro líquido como o mar — mas bem menor — de R$ 125.

 

Cara-ventos de Gargaú nascem na parte direita da proa (Foto; Aluysio Abreu Barbosa)
Cara-ventos de Gargaú florescem entre céu e mar, à direita da proa (Foto; Aluysio Abreu Barbosa)

 

Foi o que deu, até por volta das 14h, quando os peroás pararam de bater, mesmo na linha sortuda da esquerda, da boia verde de guaraná Tobi. Após Nadinho recolher linhas e âncora, com mar bem mais calmo, o retorno durou 40 minutos. Cada segundo deles na proa, a ver nascerem e crescerem lentamente no horizonte os cata-ventos da usina eólica de Gargaú, à direita, e Atafona, à esquerda, com suas ruínas e casuarinas.

Num cenário tão íntimo ao pescador, o passageiro viu pela primeira vez a foz do Paraíba e seu litoral de dentro do Atlântico. Era fisgada para desaguar a vida inteira.

 

Nadinho Atafona 1
No caminho de volta, Atafona nasce à esquerda do horizonte (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

 

Página 5 da edição de hoje (14) da Folha
Página 5 da edição de hoje (14) da Folha

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

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Paula Vigneron — O escritor e a ficção

 

Ruínas de Atafona, 06/01/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Ruínas de Atafona, 06/01/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

O escritor brinca de Deus a cada palavra escrita, a cada frase formada, a cada texto acabado. Em prosas inacabadas. Em páginas perdidas. E isso tem a ver com a sua impotência diante de seu próprio destino. A incapacidade de, em certos momentos, traçar os caminhos. Suas vontades, por vezes frustradas, são refletidas nas ações e reações dos personagens. Os sonhos esquecidos, deixados para um depois que nunca chega, são realizados na ficção. É uma maneira de alcançar a sensação de plenitude. Irreal, sim, mas trazida para a vida como se dela fizesse parte.

O autor se transfigura e figura como Destino. Com “dê” maiúsculo. Personagem que ninguém vê ou ouve, mas que também está ali, presente nas narrativas. E, nesse momento, o escritor se torna parte de sua invenção. Escolhe os caminhos a partir do que gostaria de viver. Deixa as palavras fluírem por seus dedos, enquanto a emoção e a razão, cansadas da monotonia, se unem e constroem uma história que, por vezes, o autor gostaria que fosse a sua.

Quantos personagens largaram suas vidas em busca de algo que julgaram que lhes fosse dar prazer? Quantos finais de possíveis tragédias deram lugar à felicidade, nunca imaginada por aqueles que acompanharam a obra? Quanta coragem carrega um ser humano na ficção? Faz-se isso, afinal, para anestesiar o cansaço; os momentos de luta por causas vãs; o arrependimento de deixar para depois e perder; o não poder escolher livremente o caminho e se livrar de amarras invisíveis. Para trazer paz às mentes fragilizadas pelo cotidiano.

O escritor não escreve para o público. Ele escreve para si. Para acalmar seus conflitos. Cria universos, pessoas, histórias, sentimentos e vidas para dar vazão aos mais complexos sentimentos. Desliza os dedos sobre os teclados para não se descontrolar e perder a razão em nome da emoção. Inventa para alimentar a sua alma, carente de novidades e prazeres. Abre mão da racionalidade e se entrega à sensibilidade por meio de um mergulho na ficção para suprir o vazio causado pela não-ficção. Dá aos personagens rumos que não podem ser os de sua realidade.

O autor, ao final de mais uma história, é forçado a retomar as demais atividades a que se dedica, deixando de lado o exercício de criação. Contudo, outras narrativas invadem a sua cabeça para lembrar-lhe que a vida no mundo real continua, mas a ficção estará ao seu lado, pronta para entrar em cena quando o cotidiano se tornar denso e mecânico. Quando a sensibilidade estiver prestes a escapar. A ficção diz, com cumplicidade característica, que estará pronta a abraçá-lo e oferecer-lhe outras vidas para refazer seus próprios caminhos.

 

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Paula Vigneron — Azul turquesa

Pôr do sol de Campos, em 12/07/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Pôr do sol de Campos, em 12/07/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

 

Dez horas da manhã. O relógio apitou duas vezes antes de Estela abrir os olhos. Na juventude, era chamada de Estelinha pelos amigos e parentes. Hoje, poucos usavam o apelido que tanto lhe era caro há anos. A prova de que o tempo passou. Os cabelos esbranquiçados e as rugas de expressão contrastavam com a jovialidade presente no olhar. “Tens a curiosidade em ti, menina”, dizia o avô quando ela era criança. Costumava observar todos os passos, casos e vidas que se desenrolavam ao seu redor.

Novamente, o despertador se dedicava a acordar Estela. Desativou-o. Sempre fazia o mesmo gesto quando o terceiro apito soava, quinze minutos depois da hora programada. Levantou-se. Estava sol. Caminhou até a janela, que oferecia a chance de olhar o jardim antes de sair de casa. Estava bonito. Verde, limpo e bem cuidado. Josias havia preparado-o com carinho no dia anterior. As poucas nuvens combinavam com a nobreza da área externa.

Naquela área, Estela viveu parte da infância e adolescência. Voltou à casa de seus pais somente depois da morte do casal. Era a herança que os dois deixaram para a filha única. Todas as paredes guardavam histórias da menina, que lhes confidenciara amores e maturidade. Elas, silenciosas, escutavam os detalhes narrados sob lágrimas. Outros, entre risos. Sentia-se sozinha. Os pais trabalhavam fora e pouco tempo tinham para dedicar a ela. A mãe, quando podia, ouvia a menina, mas os compromissos levaram-na a se afastar mais de Estela durante a adolescência. E ela tinha necessidade de compartilhar suas vivências.

Seus retratos se mesclavam à tinta encardida da construção. Os recantos da casa escondiam seus segredos, agora desimportantes. Ninguém quer saber. Nem ela. Todas as primeiras vezes registradas: o beijo no quarto, durante os estudos. A transa na casa ao lado, com o vizinho por quem se apaixonara perdidamente. O amor adolescente que parecia ter se desfeito tão rápido quanto surgiu. “Um chato”, contou a uma amiga. Ela concordou. Em pouco tempo, os dois namoravam. O relacionamento magoou Estela, que percebeu a não simplicidade do amor.

“Por que as pessoas nos enganam, mãe?”, perguntou, em um dia de sol como aquele que se apresentava agora. As duas conversaram no jardim, sentada em uma canga sobre a grama, enquanto faziam um piquenique. Era período de férias de Marta, que aproveitava os dias com filha de 15 anos.

“Porque as pessoas nunca vão agir como você espera, minha criança. Nem você agirá de acordo com o que elas querem. E, assim, a vida se torna uma sucessão de erros e decepções.”

A certeza com que a frase fora pronunciada fez com que as palavras nunca saíssem da cabeça de Estela. Mais de 40 anos se passaram, e aquela tarde continuava pintada na paisagem da janela. O sol inundava o quarto quando a mulher se afastou e seguiu em direção ao guarda-roupa. Ele também era parte de seu passado. Ela vestia uma camisola branca. Abriu a porta e pegou o roupão da mesma cor. Dentro do armário, junto aos perfumes, duas fotografias: uma registrava a formatura simbólica da quarta série; a outra mostrava a adolescente sorrindo entre os pais, em seu aniversário de 15 anos. “Tudo parece ter acontecido nessa idade”, pensou. As principais histórias de sua vida. Depois, tudo seguiu o inacreditável marasmo a que estava adaptada: casa, trabalho, afazeres diários e direitos adquiridos.

O único momento diferente ao que estava acostumada aconteceu quando se apaixonou por Orlando. Era alguns anos mais velho do que ela. A amizade se transformou em interesse dos dois lados. Primeiro, o envolvimento sexual. Depois, os sentimentos vieram à tona. Namoraram e se casaram. Do matrimônio, restaram apenas os conflitos.

“Maldita seja a hora em que te conheci”, gritou o então marido, alternando gritos e mãos na arrumação das malas.

“Maldita seja a hora em que aceitei essa merda de casamento.”

“Maldita seja a hora em que subi àquele altar e concordei com o desperdício dos meus melhores anos.”

Orlando segurou a mala em uma mão e abriu a porta com a outra, proferindo palavras misturadas ao rancor. Nunca mais o viu. Soube, poucos dias depois, que ele retornou para a cidade de origem. Estela não chorou. Nem na despedida e nem ao saber da partida. Nesses anos, não se emocionara com o que a vida mostrava a ela. Era considerada fria pelos poucos com quem convivia. Mas, no íntimo, sabia que sentia de forma diferente. Sem sofrimento e ressentimento. Só saudade. Cada canto de sua alma era um resquício das ausências. E a mulher se sentia grata por todas as experiências.

Desistiu do roupão e da camisola. Trocou-os por um vestido azul turquesa que se estendia até a coxa. “Sim. Estou bonita”, e sorriu. A roupa se assemelhava a uma que ganhara em seu décimo quinto aniversário. A diferença estava no comprimento. Usou-o em diversas ocasiões até que ficasse desbotado. Desde então, manteve-o guardado em uma caixa na parte superior do guarda-roupa. Ele era parte de sua história, de seu contato com o passado. Não poderia jogá-lo fora.

Olhou-se novamente no espelho. Os cabelos estavam bagunçados; o rosto; envelhecido; o sorriso, amarelado. Ao lado de Estela, posicionou-se uma jovem. Usava o vestido azul turquesa. Ambas, mulher e menina, sorriam. Os gestos ensaiados. Encararam-se. Deram-se as mãos e rodopiaram no centro do quarto, sobre o tapete marfim. Dançavam. Os passos levavam-nas da esquerda para a direita. Seguiam o ritmo da canção que ecoava entre quatro paredes. Da direita para a esquerda.

Mulher e menina. Olhos nos olhos. Os traços jovens e velhos em perfeita harmonia. Os vestidos balançavam juntos. Rodopiaram outras vezes até pararem. Estela caminhou para frente do espelho. Era menina. Era adolescente. Era mulher. Um misto de todas as Estelas. Da menina curiosa. Da adolescente inexperiente. Da mulher vivida. Das lágrimas vertidas. Do riso frouxo. Contida em certos momentos. Em outros, alvoroço pela casa agora silenciosa.

“E como está a sua vida?”, perguntou a moça.

“Está tranquila. Sempre aqui, sempre à espera.”

“Sei. Conheço seus passos e caminhos. Do passado ao futuro, ando por eles.”

“Sim, querida. Por essas trilhas, já caminhei.”

Abraçaram-se. Estela abriu novamente o armário. Despiu-se. Escolheu o roupão branco. Vestiu-o e retornou à cama. À menina, sorriu em despedida. Mas ela continuaria pelos cantos, no quarto, com seu vestido azul turquesa a clarear os dias.

 

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Virá impávido que nem George Steiner

Sujeito que conheci pessolmente há muito pouco tempo, mas que não dá para deixar de causar (boa) impressão pelo brilho da carreira acadêmica e envergadura do raciocínio, mesmo quando diametralmente oposto ao nosso, o sociólogo Brand Arenari, estreou hoje como colaborador da Folha. A partir desses contatos, ele me enviou pela democracia irrefreável das redes sociais uma entrevista com George Steiner, feita pelo jornalista Borja Hermoso e publicada em El Pais.

Escritor, filósofo e professor das universidade de Cambridge e Genebra, judeu francês de 87 anos, criança refugiada da expansão no nazismo (1933/45) pela Europa, Steiner não perdeu o humor, tratando grandes gênios da história como referências cotidianas, para falar de questões muito sérias. Daquilo que Sigmund Freud (1856/1939) não previu na sexualidade humana, à gangrena do dinheiro no caráter do homem antevista por Karl Marx (1818/83), sem perdoar os grandes erros da espécie contra si no nazifascismo e no comunismo, ele centrou fogo na péssima formação cultural que o atual sistema de ensino impõe universalmente aos nossos filhos e netos.

Por motivos pessoais, de memória afetiva, mas também da razão, por endossar um raciocínio próprio sobre o qual cheguei a escrever (aqui) antes de lê-lo nas palavras do mestre, segue abaixo um pequeno trecho — na intersecção entre as ditas “baixa” e “alta” culturas — da entrevista que merece ser lida na íntegra aqui:

 

George Steiner em sua casa em Cambridge (foto de Antonio Olmos - El Pais)
George Steiner em sua casa em Cambridge (foto de Antonio Olmos – El Pais)

 

P. O senhor diferencia a “alta” cultura e a “baixa” cultura, como fazem alguns intelectuais de renome, visivelmente incomodados com formas da cultura popular como os quadrinhos, a arte urbana, o pop ou o rock, para as quais se chegou a criar o rótulo de “civilização do espetáculo”?

R. Vou lhe dizer uma coisa: Shakespeare teria adorado a televisão. Ele escreveria para a televisão. E não, eu não faço esse tipo de distinção. O que realmente me entristece é que as pequenas livrarias, os teatros de bairro e as lojas de discos estejam fechando. Por outro lado, os museus estão cada vez mais cheios, as multidões lotam as grandes exposições, as salas de concerto estão cheias… Portanto, cuidado, porque esses processos são muito complexos e diversificados para se querer fazer julgamentos generalizantes. O senhor Muhammad Ali era também um fenômeno estético. Como um deus grego. Homero teria entendido perfeitamente Muhammad Ali.

 

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Paula Vigneron — Marionetes

Terraço do Museo Casa Estudio Diego Rivera y Frida Kahlo, na Cidade do México (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Terraço do Museo Casa Estudio Diego Rivera y Frida Kahlo, na Cidade do México (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

O barulho da chuva confundiu-se com o do batente. A porta acabara de ser fechada. Em seguida, passos foram escutados por Anna, que mantinha os olhos cerrados. O corpo, retesado sob as colchas, precisava demonstrar a serenidade inexistente. Raios clarearam o quarto azul da mulher. Optara pela cor porque, desde a infância, ouvia que ela acalmava. A despeito da crença, crescia sua tensão. Pés firmes se aproximaram da porta do quarto. O coração desassossegou-se. Sentia em seus lábios o gosto da despedida.

Luciano repetiu o gesto anterior: tocou a maçaneta com as mãos suadas e frias. Os dedos trêmulos, ansiosos por retrocessos e recomeços, obedeceram, com dificuldade, ao comando do cérebro. Seguraram o objeto e o puxaram para baixo. Os olhos do homem perderam-se sobre a cama alva. A luta interior dominava seu corpo. Acelerado, o coração poderia ser ouvido de longe, junto aos compassos dos batimentos de Anna. Não sabiam, mas estavam em total comunhão.

Caminhou vagarosamente em direção à mulher adormecida. Ela, por sua vez, se entregou à escuridão ao fechar as pálpebras trêmulas. Sabia que ele perceberia o disfarce. Luciano continuou observando-a. Por crer que não a conhecia, ficou em dúvida sobre a veracidade de seu sono. A respiração descompassada, paradoxalmente, tirou a tensão do homem. Por breves e fugidios segundos, a vida pareceu estar normalizada: a casa escura, o quarto azul, a cama branca, a mulher quase despida e o desejo latente. Um suspiro, e a paz se desfez diante de seus olhos.

“Eu me cansei de estar sempre aqui, mas não ter você aí. Eu estou farta da ausência preenchida por filmes, livros e músicas cuspidas por um aparelho envelhecido e enferrujado que se assemelha ao retrato de nós dois. As poesias jogadas pela casa. A esperança de você enxergá-las. E, por meio delas, me encontrar. E você sempre ocupado com seu mundo. Horários, ritmos, corridas. Almoços, jantares. Nestas idas e vindas, Luciano, você se esqueceu de compartilhar histórias com quem está ao seu lado.”

O discurso, gritado naquela manhã, continuava a ecoar em sua cabeça. Não tivera força para admitir, mas reconhecia os erros acumulados e repetidos que se transformaram em muros sobre a cama. Era humano. E, como tal, falho. Talvez tenha se esquecido de ver-se como homem. Esperava que as situações ruins fossem se ajeitar sem que ele precisasse intervir ou tomar decisões. No fundo, pensava que Anna, depois de dizer todas as sinceras barbaridades, pudesse voltar atrás e oferecer o colo como abrigo. Mas não. Desta vez, ela fora firme e inatingível. As palavras batiam nele com todas as forças da esposa.

Ouvindo o silêncio, ela tentava descobrir o que Luciano fazia parado e sentado à beira do colchão. Não podia se mover. Se houvesse movimento, ele se certificaria da péssima atriz que era a mulher. Parada, imaginava dar mais veracidade à grotesca cena. Os pensamentos difusos deixavam Anna ainda mais angustiada. Não saber o que se passava ao seu redor era estranho para quem sempre manteve o controle sobre todas as situações. Vagarosamente, sentiu uma mão tocar seus cabelos. O corpo tremeu. O marido, então, notou que Anna estava acordada. Teve vontade de gritar ao perceber. Era hábito fugir de uma discussão criando outras. Mas, pela primeira vez, agiria de maneira diferente.

“Temos que conversar”, disse Luciano, mantendo a voz firme e serena. Ela estranhou.

“Desde quando conversar faz parte do nosso cotidiano? É sobre o quê? Alguma conquista que ainda não partilhou com quem não costuma te escutar?”

“Anna, não complique a situação. Tenho pessoas que me ouvem e que não me ouvem. E você, que julga estar entre as primeiras, faz parte das segundas.”

Os olhares se cruzaram. A mulher carregava mágoas. O homem, medos. Sentimentos e sensações veladas conduziam o casal a um caminho ainda oculto. Ela teve ânsia de gritar por todos os anos que considerava perdidos. Calou-se com lágrimas escorrendo involuntariamente. Ele desejou abraçar a mulher. Abaixou a cabeça em respeito ao inesperado choro. Estrondos de trovão embalavam a cena.

“Nunca sei para onde poderemos seguir. Desde o começo, nossas vidas foram construídas por impulsos impensados. Acho que desaprendi a usar a razão em relação a você”, disse Luciano, observando os olhos marejados de Anna. Ela balançou a cabeça em concordância. Pela primeira vez, ambos se enxergaram. A olhos e almas nus, não souberam decifrar pensamentos, vontades, sonhos, intenções e desejos. Despiram-se das capas ilusórias com as quais costumavam se apresentar para o outro. O impacto dos rostos crus deixou-os sem reação.

“Creio que nunca tenhamos sido sinceros conosco, Luciano. Fiz de você o que ambicionei, o que desejei. Enquanto, na verdade, deveria ter te deixado ser o que és, sem intromissões ou pedidos exagerados. Eu te moldei a mim, e você, em sua fraqueza, permitiu. Agora, desconheço-o.” Havia sinceridade e verdade nunca antes demonstradas na palavra da mulher, cuja expressão de indiferença tomou lugar da suposta fragilidade pela qual o marido tinha se enternecido anos antes. Ela era uma estranha deitada em sua cama. Ele era o passado extinguindo-se diante de seus olhos.

“Todas as suas reclamações, então, foram vãs? Não sentia o que afirmou te incomodar?” Dentro dele, pulsava incredulidade. A mulher que acabara de se revelar era completamente diferente daquela com quem dividia os espaços do pequeno apartamento. O menino assustado transparecia nos traços masculinos.

“Não sei responder. No fundo, o meu maior desejo era sentir e me angustiar com as bobagens que gritava para você. Mas não fazia muita diferença. Nunca fez.” As palavras cortantes vazavam pelos lábios da mulher com naturalidade. Agora, ele estava começando a conhecê-la. A frieza do olhar ainda deixava-o sem ação, mas Luciano se adaptaria à nova realidade. Sempre se moldava.

“Vamos dormir, querida. Amanhã será um longo dia. Quando amanhecer, revelarei os planos para o próximo final de semana. Tenha uma ótima noite.” Tal como ocorria cotidianamente, ambos trocaram beijos, carinhos e gestos mecanicamente repetidos. Com as mãos entrelaçadas e olhares longínquos, acomodaram-se na cama. Mais um dia. “Boa noite, querido.”

 

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Paula Vigneron — Via Crucis

Atafona, 04/08/14 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, 04/08/14 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Às sete horas da noite, Ana transita pelas ruas do Centro da cidade. Caminha rapidamente. Tenta acostumar o ritmo das pernas à urgência dos minutos. Enquanto alterna os pés, se cuidando para não tropeçar e perder tempo até se restabelecer, sua cabeça é tomada pelo retrato do dia estampado nas capas de jornais. Crimes. Abusos. Limites ultrapassados. Desrespeito ao ser humano.

Ana acelera.

As últimas semanas têm sido trágicas. Mulheres violadas com suas histórias devassadas nos noticiários. De quem é a culpa? Dela? Não. A culpa é de quem a olha, mas não a enxerga. Ser humano. Aqui e ali, vozes se unem em gritos de alerta para mostrar à sociedade os atos monstruosos a que ela está sendo submetida.

A rua está escura. Falta um trecho longo para chegar ao ponto de ônibus. Atrás, passos seguem o caminho pisado por ela. Escutando a respiração ofegante que vinha de alguém, as linhas dos textos jornalísticos berram, em seus pensamentos, as mensagens anunciadas:

Uma estrangeira de 22 anos é estuprada, no Catar, e presa por fazer sexo fora do casamento.

Uma estudante é violentada a caminho da escola, em uma manhã aparentemente tão comum quanto as outras.

Na rua dela, uma menina gritou, à noite, e ela não soube o motivo.

Em uma cidade próxima, uma jovem de 16 anos foi abusada por 33 homens.

Os passos atrás ficam mais rápidos.

Ana segura a bolsa.

“Meu Deus, que seja só um assalto. Que levem bolsa, dinheiro e celular, mas deixem a minha dignidade”.

Ana afrouxa a bolsa.

Noites passadas, conversara sobre os medos de ser mulher. E, enquanto falava, seus temores tomavam proporções cada vez maiores. Andar na rua sem saber se conseguirá voltar para casa. Olhar para os lados até se certificar de não estar sendo seguida. Atravessar a rua quando homens estranhos sem aproximam e ignorar palavras imundas que saem de suas bocas quando ela passa.

Ana respira fundo para controlar os tremores.

A poucos metros, a rua mais escura, avista o ônibus. Parado no ponto. Mais uma vez, roga a Deus. “Que ele não saia até a minha chegada. Que ele espere para que eu não fique sozinha”. Posiciona-se para atravessar a rua. Tinha certeza de que os passos continuavam ali. Vagarosamente, para não chamar a atenção, virou o pescoço. Não havia homem. Nem mulher. Expirou, aliviada, e entrou no ônibus seguida por seus medos.

 

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Das lágrimas, versos ao campeão

Ocinei Trindade
Ocinei Trindade

Quando Muhammad Ali morreu, na noite de 3 de junho, alguma coisa em mim se quebrou. Talvez porque Ali fosse a maior referência ainda viva do meu pai sobre mim. Não por outro motivo, escrevi sobre ele (aqui), no artigo do domingo seguinte. E depois aqui, na terça sequente, para anunciar a exibição e debate do documentário “Quando éramos reis”, de Leon Gast, sobre a disputa de título entre Ali e George Foreman, em Kinshasa, capital do Zaire, hoje República Demorática do Congo, pulsando no coração da África e no Cineclube Goitacá.

Após o filme, na última quarta (aqui), em meio ao debate, confesso que o mais comovente, para mim, foi perceber o poeta e jornalista Ocinei Trindade em meio às lágrimas, pelo que acabara de assistir. Longe de um entusiasta, como eu, do mundo das lutas, o pranto alheio (e comum) confirmou aquilo que o comediante judeu Billy Crystal disse (para quem entende inglês, aqui) no belo discurso funerário sobre o mitológico campeão de boxe, seu “big brother” muçulmano: “Ele tinha a capacidade de extrair, sempre, o melhor de todos nós”.

Lembro que, no correr do debate, Ocinei comentou que o título do filme era equivocado: “Com B. B. King, James Brown, George Foreman e Muhammad Ali, o nome desse filme não deveria ser ‘Quando éramos reis’, mas ‘Quando éramos deuses’”. Como entre os antigos gregos que criaram o pugilato e uma tal Civilização Ocidental, aqueles deuses descidos em 1974, na África que pariu o homem, eram mais divinos, justamente por humanos.

Nos versos escritos hoje (aqui) pelo poeta, a intersecção que há entre homens e deuses:

 

 

 

 

Quando Muhammad Ali me fez chorar

 

Não era só um filme, era uma vida.

Não era uma despedida, era um encontro.

Não era só uma luta, era missão.

Não era só uns milhões de dólares, era tudo.

Não era só um espetáculo, eram ossos e músculos.

 

Havia sangue e suor escorrendo pelo meu corpo.

Existe ainda alguém desafiando deuses e heróis?

Senti um aperto no peito, desses que corrói.

Destruir gigantes no Olimpo não é fácil.

Imagina só o Titã que sabe na alma onde dói.

 

Toda a beleza que sua realeza invoca.

Não sei bem o que provoca aqui dentro.

Só sei que estou dentro de um ringue de lutas.

É uma estranheza assim meio filha da puta

que não quer me parir, não quer sair, nem partir.

 

Desconfio que Muhammad Ali é um puro pretexto.

Serve para me levar aos lugares sombrios onde nunca vou.

Ajuda-me a imaginar o rei ou o homem que eu sempre sou:

Vencido, desiludido, impedido, sentido.

Amargurado, angustiado, atribulado, atrelado ao show.

 

Quando o outro importa mais que eu, onde me ponho?

Um mundo cercado de mediocridade e casebres medonhos.

Não sei bem onde se esconderam aqueles antigos e alegres sonhos.

É uma multidão a repetir palavras, frases e sons enfadonhos

Um homem tristonho e vazio não merece muito além de rima feia.

 

Chicoteia a minha pele que não para de ressecar e murchar.

Será que a velhice não passa de uma outra combatida ilusão?

Percebo mais perto a morte rondando o jardim sem flores.

Pressinto, decerto, a vida mais ávida por idiotices e dissabores.

É a melancolia, sim, instalada entre o umbigo e a garganta.

 

Não sei se adianta muito eu chorar ou lágrimas disfarçar.

Só sei que ali diante de Ali, eu me senti ainda mais diminuído.

Fui engolido por todos os fanáticos estúpidos maometanos.

Fui devorado por todos os cristãos imbecis e profanos.

Fui esmagado por judeus intolerantes, gananciosos e insanos.

 

Antes de estar ali com Ali, encontrei Jesus no templo.

Não muito tempo ali permaneci, mas sei que o vi e ele a mim.

Estava disfarçado em mortalha e capuz escondido atrás da palavra.

Pediu para que eu orasse e não me comportasse como hipócritas exibidos.

Obedeci, mas depois, talvez, percebi que não o atendi tão bem assim, remido.

 

Eu menti para os meus seguidores e seus fingidores.

Omiti a verdade de mim mesmo provavelmente,  receio.

Clamei ao Tempo uma pausa, uma outra ilusão, mas ela não veio.

Talvez precisasse de uma mão sem luvas para me esbofetear.

O soco de Ali para me nocautear além do Oceano e eu afogar certeiro.

 

Creio que todo aquele gozo foi deveras insuficiente para toda a gente.

Deveria eu ter sido bem mais pecador e, quem sabe, ainda mais indecente.

Poderia me desnudar inteiro, sóbrio ou ébrio, pelas ruas de Kinshasa.

Não fiz tudo, nem tudo chorei, nem toquei Maomé, nem Jesus, nem Ali.

Voltei sozinho e tocado por eles para a casa onde moram palavras cheias de si.

 

Campos, 17.06.2016

 

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“Quando éramos reis”, nesta quarta, no Cineclube Goitacá

Ali x Foreman

 

 

Num ano de perdas, algumas irreparáveis, o que nos resta é manter vivo o legado. Neste sentido, nessa quarta (15/06), na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da rua Conselheiro Otaviano com avenida 13 de Maio, o Cineclube Goitacá vai exibir e debater o filme “Quando éramos reis”, de Leon Gast. Oscar de melhor documentário em 1997, narra em detalhes um evento de 23 anos antes. “The rumble in the jungle” (“A luta na selva”), foi o título promocional dado à disputa do título profissional peso pesado de boxe, na África, entre o jovem campeão George Foreman e seu desafiante, Muhammad Ali, considerado antes e depois o maior pugilista de todos os tempos — morto (aqui), aos 74 anos, na noite do último dia 3 de junho.

Caetano Veloso admitiu não gostar de boxe, mas escreveu “virá impávido que nem Muhammad Ali”, na música “Um índio”. E “Quando éramos reis” é uma oportunidade documental única para constatar o encontro da cultura black em sua explosão nos EUA dos anos 1970, sendo levada de avião ao coração da África, às margens do legendário rio Congo, em Kinshasa, capital do então Zaire, hoje República Democrática do Congo. Emblematicamente, era a primeira vez que dois campeões negros de boxe, esporte majoritariamente dominado por atletas negros, decidiriam o cinturão de todos os pesos na África.

Ao velho continente que pariu a espécie humana, voltavam como reis os descendentes daqueles que séculos antes saíram acorrentados como escravos. Neste sentido pascal de retorno, foram promovidos shows com estrelas negras da black music dos EUA, como o mestre do blues B. B. King (aqui) e o rei do soul James Brown. No estádio de futebol de Kinshasa, onde seria realizada a luta, os músicos negros estadunidenses se apresentaram para dezenas de milhares de africanos, dançando e cantando juntos como a mesma tribo.

Mesmo de pele mais clara do que Foreman, Ali era adorado pelos africanos muito antes de lá disputar um título de boxe. Na África e no planeta, sua fama já havia conquistado fãs, sobretudo nos países do terceiro mundo, não só pela técnica exuberante do pugilista, mas por conta da sua luta pelos direitos civis dos negros nos EUA, da sua conversão ao islamismo, quando trocou o nome de Cassius Clay para Muhammad Ali, e da sua recusa em lutar na Guerra do Vietnã (1955/75), quando teve seu título de campeão revogado pelo governo dos EUA, quase acabou preso e foi impedido de boxear por três anos e meio. Roubaram aquele que seria o período áureo da carreira de qualquer atleta.

Foi dessa empatia com o povo africano que Ali se valeu, extraindo do coro “Ali, buma ye! Ali, buma ye!” (“Ali, mata ele!”) a força para fazer o impossível, chocando mesmo jornalistas experientes como Norman Mailer e George Plimpton, que dão seus depoimentos no documentário, assim como o cineasta e ativista do movimento negro Spike Lee. Como este diz em determinado momento do filme, independente do tempo em que se viva, é muito difícil se ter a oportunidade de poder conviver com heróis de verdade.

É que quando Ali lutava, dentro ou fora dos ringues, todos éramos reis.

 

Confira nos vídeos abaixo a música de Caetano e o trailer do filme de Leon Gast:

 

 

 

 

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