Paula Vigneron — Em cena

Espaço Diego y Frida do Museu Dolores Olmedo, na Cidade do México, 14/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Espaço Diego y Frida do Museu Dolores Olmedo, na Cidade do México, 14/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

A terceira campainha soara. Matheus havia chegado atrasado ao teatro e não conseguia enxergar os rostos que o acompanhariam nas próximas horas de espetáculo. A sinopse da peça chamara a sua atenção: um monólogo no qual um homem falava de suas dores e amores. Sabia que, durante as cenas, viveria momentos de catarse que tornariam mais leve o seu interior. Caminhou vagarosamente entre as cadeiras do espaço. Contou seis pessoas. Sentou-se na segunda fileira, sozinho.

Por cinco minutos, nenhum movimento no palco. Apenas uma cadeira de madeira, pintada de branco, no centro, com uma luz da mesma cor sobre ela. Olhou para trás. Estava aflito. As sombras permaneciam imóveis. Um arrepio percorreu o seu corpo. O vazio do teatro deixava-o ansioso e triste. Virou-se para frente. A cadeira, agora, era ocupada por um homem vestido de preto, com a cabeça baixa e cabelos castanhos caídos no rosto. Matheus se ajeitou e se concentrou. O espetáculo estava prestes a começar.

As respirações dos homens trancados no teatro seguiam o mesmo ritmo. Inspiravam, expiravam, inspiravam e expiravam em conjunto. Os movimentos pareciam premeditados e perfeitamente ensaiados. As luzes se tornaram mais escuras, não sendo possível distinguir as expressões dos rostos ali presentes. Ele se mexia em sua cadeira enquanto observava o ator no palco, que se acomodava melhor. Ambos se olharam por breves minutos. Matheus olhou, também, para os outros. Todos o encaravam. Subitamente, levantou-se. Sua vontade era correr em direção à saída de emergência. A estranheza do espetáculo o apavorou. A propaganda havia sido tão boa, e, de repente, as cenas pareciam grotescas. Passos alternados seguiam os seus. Virou-se para trás. As sombras faziam o mesmo percurso. Somente o ator observava o grupo que andava em busca de uma saída inexistente.

Vencido pela tensão, Matheus se sentou novamente. Todos se acomodaram na mesma fileira. Ele ofegava e transpirava. Não se lembrava de ter vivido momentos tão intensos de angústia. A iluminação do palco clareou o ator, que o olhava atentamente. O rapaz gritou ao enxergar a feição do artista. Era ele. Simultaneamente, as luzes da plateia se acenderam. Olhou ao redor. Os demais não possuíam rostos. Os olhos castanhos percorriam os cantos do teatro. Ansiava por explicações, mas sua voz parecia ter se perdido em um caminho sem volta.

A cadeira branca foi arrastada. O ator escorregou pela madeira e se sentou no chão. A luz estava concentrada nele, que alisava o tablado em um gesto incompreensível. Contrarregras surgiram e modificara m o cenário. Um sofá bege, cujo estofado se assemelhava a veludo, ocupava o lado direito do palco. No centro, um divã azul escuro. Matheus reconheceu o lugar. Levantou-se. Suas pernas tremiam. Temia o que iria encarar. Paradoxalmente, não conseguia desviar o olhar. O homem em cena deitou-se e observou o teto.

Antônia, sua psicanalista, conservava o mesmo aspecto sombrio. Os óculos, sempre tortos, postos sobre a ponta do nariz. O bloco branco e a caneta preta posicionadas para anotar os primeiros devaneios que seriam ditos por Matheus. Ela aguardava as palavras, que ainda se ordenavam dentro do ator. Os pés do homem se chocavam levemente, característica marcante do início das consultas. Inspirou profundamente.

— Conseguiu pensar sobre o que falamos na última consulta? — o ator continuava a encarar o teto enquanto Matheus se preparava para responder. Foi interrompido por um sussurro. “Cabe a ti o silêncio, meu caro.” Não havia ninguém a seu lado. O coração tamborilava com violência.

— Pensei, Antônia. Não concluí nada. Não há definições. Definitivamente, sou a perda de tempo que tanto lastimei em minha vida.

Como o ator poderia falar aquilo tão abertamente? Matheus se sentiu desnudado diante dos olhos da plateia e da psicanalista. Eram seus pensamentos mais profundos. Nunca teria coragem de expô-los em voz alta.

— Você é o que enxerga. Você é o que quer, Matheus. Tantas coisas para fazer, e você, homem, permanece apático e insignificante — ralhou Antônia. “Como ela tem coragem de me falar isso?”, questionou-se o homem, que continuava de pé em frente ao palco, apavorado com a grosseria sincera com que era tratado.

— De que adianta ir à luta? Abandonado por uma mulher adúltera a quem continuo amando. Ela, agora, está deitada na cama de outro. Há três anos, amargo essa derrota. O fracasso de não saber lidar com as novidades que a vida me apresenta. Desaprendi a me relacionar. Perdi a capacidade de recomeçar, refazer e recriar. Mesmo com o dia claro, não passo de um notívago. Sobre mim, a sombra de uma nuvem escura prestes a descarregar — a dor de Matheus acabara de ser, pela primeira vez, verbalizada. Desta vez, não entre quatro paredes. Os conflitos foram revelados a outros.

Teve o ímpeto de avançar sobre o ator, que falava sobre suas falhas. “Nem sequer posso deixar herdeiros. Nasci oco. Sou oco. E morrerei oco”, dizia o cruel artista a Antônia, que anotava os relatos. Os movimentos em direção ao palco foram esquecidos quando Matheus olhou ao redor. As sombras estavam coladas ao seu corpo.

— Quem são vocês? O que é isso que acontece à minha revelia? — a voz embargada preencheu o espaço.  Desvencilhou-se do invisível e alcançou o homem do divã. Suas mãos pousaram sobre o pescoço do ator, apertando-o. Ansiava pela morte do outro Matheus. À medida que apertava, perdia o ar. Os rostos ficaram vermelhos. As sombras e a psicanalista sumiram. Ele era obrigado a se encarar. Folgou os dedos e se sentou no chão. Homem e ator. Realidade e personagem. Morte e vida. Os dois se olharam por incontáveis minutos.

— Eu sou o que você não tem coragem de assumir. Eu sou a coragem presa a um corpo inerte e fracassado. Uma construção de sua mente. Confronte-se. Procure e encontre, sozinho, o que está perdido — as luzes rarearam. Apenas o divã e Matheus continuavam sob o holofote.

Diante do homem, um espelho havia sido colocado. Ele se encarou. Envelhecido, deitou-se no divã à espera de Antônia para mais um dia de consulta.

 

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Artigo do domingo — Nos versos do campeão

 

“Muhammad Ali chocou o mundo. E o mundo é melhor por causa disso. Nós somos melhores por isso”.

(Barack Obama)

 

 

Ali: “Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca, que prefere viver no mundo como ele está, em vez de usar o poder que tem para mudá-lo, melhorá-lo. Impossível não é um fato. É uma opinião. Impossível não é uma declaração. É um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário. O impossível não existe”.
Ali: “Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca, que prefere viver no mundo como ele está, em vez de usar o poder que tem para mudá-lo, melhorá-lo. Impossível não é um fato. É uma opinião. Impossível não é uma declaração. É um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário. O impossível não existe”.

 

 

Na sexta, o editor de esportes da Folha, Antunis Clayton, me disse que Muhammad Ali havia sido internado em Phoenix, no Arizona, onde residia, por conta de problemas respiratórios. No sábado, acordei tarde com o registro de várias ligações do meu filho, Ícaro, perdidas no celular. Retornei a ele para saber que a perda era pessoal: ainda na noite anterior, Muhammad Ali havia morrido, aos 74 anos.

Ex-campeão olímpico (meio pesado, em Roma-1960) e profissional (peso pesado em 1964, 74 e 78) de boxe, era considerado o maior pugilista de todos os tempos. Com seu jeito todo próprio de lutar, sua onipotência técnica só seria depois reeditada dentro do boxe pelo campeão peso médio Sugar Ray Leonard e, no MMA, pelo campeão brasileiro Anderson Silva. Mas Ali teve um cartel respeitável também como ativista político. Lutou pelos direitos civis dos negros e minorias nos conturbados anos 1960/70 — sobretudo depois que teve seu cinturão roubado pelo governo dos EUA e quase acabar preso. Recusou-se a lutar na Guerra do Vietnã (1955/75).

Na dimensão trágica dada à palavra pelos antigos gregos, que também inventaram o pugilato, Ali foi um herói. Apesar da geração distinta, foi também o meu, legado por outro, meu pai. Desde criança, ele me contava, com o entusiasmo de devoto de tempo presente, cada gesto ousado das suas muitas lutas, dentro e fora dos ringues. Bonito, inteligente, articulado, audaz, divertido, defensor do seu povo, amante de lindas mulheres, viril e feminino, Ali foi o maior lutador de todos os tempos. E, nesta condição, derrotou o maior poder de todos os tempos — seu próprio país — quando se recusou a lutar.

Vários de seus combates têm lugar cativo na antologia do boxe. A vitória por nocaute técnico sobre Cleveland Williams (aqui), em 14 de novembro de 1966, considerada tecnicamente como a mais perfeita da história, porque não errou ou levou um soco sequer em seus três assaltos de duração. A vitória por pontos na luta seguinte, em 6 de fevereiro de 1967, contra Ernie Terrell (aqui), a quem surrou da maneira mais cruel, com dolo de ferir sem derrubar, enquanto perguntava “Wat’s my name?” (“Qual é meu nome?”), depois que o adversário o chamou de Cassius Clay, seu nome cristão de batismo, trocado por Muhammad Ali na conversão ao islamismo. A derrota (aqui) para Ken Norton, em 31 de março de 1973, por decisão médica, considerada fenômeno de resistência, por ter lutado 12 assaltos mesmo após ter o maxilar quebrado no primeiro.

E o que dizer das três lutas titânicas contra o também campeão Joe Frazier (em 1971, 74 e 75, aqui, aqui e aqui), seu maior adversário (relembre aqui), nas quais Ali perdeu a primeira e venceu as duas outras, numa trilogia violentíssima da qual ambos levariam consequências neurológicas para o resto das suas vidas? Como o Parkinson contra o qual Muhammad lutou por três décadas e que acabou por derrotá-lo na noite de sexta.

Mas se Ali tivesse que ser lembrado por uma única luta, talvez seja “The rumble in the jungle” (“A luta na selva”), realizada (aqui) em 30 de outubro de 1974. O título promocional fazia referência ao local da peleja, em Kinshasa, capital do então Zaire, atual República Democrática do Congo. Magistralmente registrado no documentário “Quando éramos reis”, de Leon Gast, o evento foi emblemático: primeiro título mundial peso pesado de boxe, esporte majoritariamente dominado por atletas negros, a ser disputado no coração da África, em plena selva equatorial.

Já aos 32 anos, Ali não era o campeão, mas desafiante do dono do cinturão de 25, sete anos mais novo. Não fosse apenas isso, George Foreman, dono do direto de direita mais devastador da história do boxe, havia antes massacrado Joe Frazier, a quem nocauteou cinco vezes ao lhe roubar o título, e Ken Norton. E Frazier e Norton haviam derrotado Ali, muito embora este tivesse vencido a ambos nas revanches.

Pelo retrospecto, a verdade é que ninguém, nem mesmo entre os segundos de Ali, achava que ele tivesse chance contra Foreman. Muitos temiam inclusive que, pelo seu destemor, ele acabasse morto no ringue pelo jovem e hercúleo campeão. Julgava-se que sua única alternativa seria tentar dançar em torno do adversário, sua arte (aqui), evitando o combate franco.

Soado o gongo inicial, Ali surpreendeu a todos e partiu para dentro do “monstro”. Na franqueza de uma briga de rua, se valeu da sua técnica exuberante para acertar 12 diretos de direita na cara do campeão. Uma dúzia exata e certeira do soco mais forte que um pugilista destro é capaz de desferir. E Foreman só virou o rosto após cada um deles, como se nada tivesse acontecido.

Certo de que, na briga, não teria chance, aquele intervalo entre o primeiro e segundo assaltos é a única vez na carreira de Ali que se pôde ver o medo estampado em sua face. Temor pior do que o de quem apanhou: a paúra de quem bateu com tudo que tinha e viu que não fazia qualquer diferença. Depois, quem temeu disse ter olhado o objeto do seu medo, no canto oposto do ringue, e mentalizado:

— Você é mais jovem do que eu, maior, mais forte, mais rápido. Mas você está disposto a quebrar costelas, seios da face, dentes, maxilar? Está disposto a morrer aqui, dentro deste ringue? Porque eu estou! E, se não estiver, você vai perder!

Após ter refeito sua convicção em si, o desafiante se virou para os 100 mil africanos que torciam declaradamente por ele e regeu o coro: “Ali, buma ye! Ali, buma ye!” (“Ali, mata ele!”).

Se tinha espantado a todos ao partir para o combate franco no primeiro assalto, Ali voltou a surpreender do segundo ao quinto, quando foi para as cordas, fechou-se na guarda e aceitou passivamente ser o saco de pancadas para o pugilista mais forte que já existiu. Isso, enquanto provocava o tempo inteiro, no combate psicológico que sempre impunha aos adversários:

— Ei, George, me disseram que você batia forte! Assim você me decepciona! Você não quebra nem amendoim assim, George! Cadê sua força, garoto?

Qualquer um que já tenha lutado, sabe que bater cansa muito mais do que apanhar. Tanto mais na umidade do clima de uma selva equatorial. Confiante no seu encaixe — no jargão do pugilismo, a capacidade de absorver golpes —, Ali foi minando as reservas do gigante, esvaído em golpes fortíssimos, como faz o mar com as construções humanas em Atafona. A partir do quinto round, o desafiante voltou também a agredir, até que numa sequência certeira de golpes no oitavo, um Foreman exausto e cambaleante desabou em câmara lenta, como um prédio.

Feito o impossível, diante do mundo que deixou mais uma vez atônito, Ali subiu nas cordas e ergueu os dois punhos à multidão reunida onde a espécie humana nasceu. E, naquele exato segundo de epifania coletiva entre o campeão e seu povo, como numa cena bíblica do Velho Testamento, desabaram as monções africanas.

Ali era disléxico. Por isso, fez uso da rima e da métrica, como um precursor dos rappers, para se tornar um grande aforista. Seu lema era: “float like a butterfly sting like a bee” (“voar como borboleta e picar como abelha”).

Certa vez, na universidade de Harvard, quando passou a viver de palestras, após ter sido impedido de boxear por três anos e meio por conta da recusa em lutar na Guerra do Vietnã, os estudantes lhe pediram em coro:“Give us a poem!” (“Dê-nos um poema”).

Após pensar um segundo, o campeão disse: “Me, we” (“Eu, nós”).

Com a humanidade a reboque, difícil pensar numa vida tão bem resumida em verso. E, como meu pai me ensinou, eu o amei por isso.

 

 

“virá impávido que nem muhammad ali

virá que eu vi”

(caetano veloso)

 

 

paixão a palo seco

 

o punho esquerdo vivo, arauto ativo

da direita dissimulada em guarda baixa,

guardada ao avessar da face que o encara

pendularmente, lado a lado, pela cartilha,

não para frente e trás, como seria

recuar nos trilhos do trem que avança,

só não alcança quando lá está ali,

feminino nos gestos de um felino.

 

a delicadeza florescida em oposição,

por oposto o soco ao giro da ponta do pé,

na lona plantado à picada da abelha,

mas de raiz aérea, de vôo de borboleta

— belo ao reinventar o mundo que abalou,

ao derrubar homens e se arrogar rei,

negou ser soldado de matar alguém,

para afirmar sua raça: homens também;

eu, nós, nos versos do campeão.

 

campos, 22/03/07

 

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Paula Vigneron — Quinze minutos

Ruínas de Atafona, 29/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Ruínas de Atafona, 29/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

A manhã estava estranha. Maria não podia definir o motivo de senti-la diferente das demais. O vento balançava as árvores plantadas perto do ponto final. As ruas, pouco movimentadas, contribuíam para a sensação que a dominava. Olhou as horas. Nove e quarenta e cinco. O calendário indicava que trinta anos tinham passado desde a última vez em que estivera ali. Na época, optou por um vestido azul marinho. Mais curto do que os habituais. Queria despedir-se dele com uma aparência leve para não pesar o seu caminho. Se deveria partir, que partisse sem dores ou receios. Desejava, mesmo com os nervos à flor da pele, não demonstrar os medos que pulsavam em seu coração. Como seria a distância de Marcos?

Nove e cinquenta. Cinco minutos mergulhada em recordações. Trinta anos sem esquecer passos, palavras, gestos, sorrisos lacrimejados e o olhar do menino que estava prestes a se tornar um homem. Pronto para crescer longe dela.

Maria havia conhecido o rapaz em uma festa. Adolescentes, encantaram-se imediatamente. A atenção dele foi despertada pela beleza da garota. E a dela, pela sua inteligência ao se posicionar sobre diversos assuntos e uma perceptível sensibilidade para lidar com o próximo. “Quantos garotos são assim?”, questionou a si mesma.

O ônibus dele partiria às dez. Em ponto. Sem atrasos, desculpas ou desistências. Agora, seu relógio marcava nove e cinquenta e três. Sete minutos de despedida que se eternizaram por trinta anos. Todos os dias, a mulher se lembrava da partida dele. Como estaria hoje agora? “Marcos, você ainda é capaz de me reconhecer?”, perguntou, em voz alta, às memórias que ecoavam em sua cabeça. Acendeu um cigarro. O vício cresceu à medida que os dois se distanciavam. Ela precisava calar a ansiedade.

“Pode ter certeza de que não me esquecerei de você, minha pequena.”

Embora eles tivessem a mesma idade, ele a tratava como uma criança. Perdia noites de sono para acalmá-la, por telefone, quando seus planos desandavam. Escolhia delicadamente as palavras que poderiam confortar Maria. Quando feliz, por quaisquer razões, ambos comemoravam juntos. Mantiveram-se assim por anos. A rotina foi modificada pela mudança. Marcos havia sido convidado para morar em outra cidade, na casa de seus tios. Conseguira seu primeiro e importante emprego. Não poderia recusar a oportunidade.

“Você me entende, Maria?”

“Entendo, Marcos. E acho que a sua escolha está certa. Não é sempre que temos uma chance como essa.”

“Eu vou, mas eu volto assim que tiver tempo. Em breve, em um ônibus igual a este, chegarei de malas prontas e ficarei definitivamente. Aguarde um pouco. Só um pouco.”

Ela esperaria o tempo que fosse necessário. Ele acreditava, embora temesse que a namorada mudasse de ideia. Todos os receios e anseios foram silenciados. Não poderia haver empecilhos.

Nove e cinquenta e cinco. Dois minutos que pareceram dias. Como era relativo o tempo.

“Eu também não me esquecerei de você, menino. Jamais. Estarei aqui, à sua espera, quando o seu ônibus estacionar.” Em troca, ele lhe entregou uma rosa vermelha, que ela guarda dentro de um livro da adolescência.

Nos primeiros meses, a troca de cartas era constante. Saudades, sentimentos e histórias. Nomes antes desconhecidos por ambos eram citados nos relatos cotidianos. “Mas queria mesmo que você estivesse aqui”, escreviam sempre. Era o desejo do casal. Um desejo calado pelo tempo. Afastaram-se. Afazeres. Trabalhos, escola. Provas, leituras, novas companhias. Dois anos se passaram até que a última mensagem de Marcos chegasse a Maria.

“Não é justo. Não posso te manter presa a mim. Minha vida mudou completamente. Não me vejo retornando à rotina até então conhecida por nós dois. Sinto que ficarei por aqui, Maria. E torço, acima de tudo, por sua felicidade. Grande beijo. Marcos.”

Uma mancha ainda é visível no canto direito da carta, abaixo da assinatura. A primeira reação de Maria ficara registrada com as letras de Marcos. Limpou os olhos. Seus sentimentos variaram entre tristeza, leveza e revolta. “Como ele pode determinar o que é melhor para mim? Ninguém pode escolher pelo outro. Pode ser que haja outra pessoa.” A resposta, ela nunca soubera.

Nove e cinquenta e nove. Um ônibus, que lembrava o de Marcos, estava no sinal. Faltavam alguns segundos para chegar ao ponto onde ela esperava sentada. Trinta anos. O cigarro queimava entre seus dedos. A pele amarelada estava acostumada. O coração de menina novamente pulsava em seu peito.

Dez horas. Em ponto. Sem atrasos, desculpas ou desistências. Levantou-se. Pelas janelas, avistou os passageiros. Apenas cinco ocupavam as cadeiras. Dois homens, uma mulher e um casal de idosos, que conversava animadamente. Trinta anos de espera. Esperança vã.

“Aguarde um pouco. Só um pouco.”

A voz do seu menino continuaria a ecoar em sua cabeça por outros anos. Talvez mais trinta. Ou dez. Por dias. Até o último minuto.

“Falta pouco”, pensou. “Só um pouco.”

 

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Paula Vigneron — Um a menos

Atafona, agosto de 2014 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, agosto de 2014 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Era tarde. A casa estava escura e fria. A pouca iluminação provinha dos raios que cortavam o céu. A noite estava só começando. André se sentou à direita da mesa cuja decoração permanecia intacta. Dois pratos, quatro talheres e um par de copos idênticos. A cor vermelha brilhava quando o homem mexia vagarosamente a cabeça para olhar ao redor. Os sons da tempestade pareciam mais sombrios e perigosos quando ausências tomavam conta das paredes da velha casa marfim.

Caminhou pelos corredores em busca de algo que não sabia classificar. Ouvia passos atrás de si, e o barulho suave lhe trazia paz. À medida que andava, os pés invisíveis tocavam o chão pelo qual passava o homem. Seus lábios se esticavam lentamente em um sorriso. Os dentes brancos e alinhados tornavam-no bonito. Os cabelos pretos, hoje rareados, e os olhos azuis eram os únicos traços que mantinha do menino que fora. Todos os movimentos-sons-passos-ambientes pareciam devagar. Corriam de acordo com um relógio que era manualmente alterado: para cada um minuto a mais, dois a menos. A subjetividade do tempo atazanava André em sua procura pelo indizível.

Correu e sentiu seu corpo puxado para trás. Um passo a mais, dois a menos. Torturava-o não saber a origem da morosidade dos minutos, dos segundos, da vida. Exasperou-se rapidamente, mas seus movimentos não obedeceram aos comandos do cérebro. Olhou para trás a tempo de ver os pés invisíveis dando dois passos a menos, nenhum a mais. As batidas do coração misturadas aos trovões ensurdercedores lhe atingiam tal qual uma corrente elétrica. Estremecidos pés, mãos, cabeça, o homem voltou à sala.

A mesa continuava intacta. Dois pratos, quatro talheres, um par de copos idênticos. Pareciam mais virados para a direita. Antes, não os havia notado dessa maneira. Observou o espaço em que estava. Com pés no chão, a curiosidade o empurrava para o quarto. Deu um passo a mais, dois a menos. Amenos, os cantos silenciosos da casa continuavam observando o homem solitário. A menos que, ali, fossem mantidos resquícios de passado.

Um sopro invadiu a sala. Um sorriso assustador brotou no rosto de André. Viu-se menino correndo pela casa enquanto brincava com sua irmã. A menina, anos mais nova, demonstrava pavor nos olhos enquanto era perseguida pelo adolescente. A brincadeira era unilateral. Ele sabia. Pegou-a pela barriga, levou-a para um quarto, onde permaneceu por minutos. Palavras indecifráveis preencheram o ambiente. Finalizada a correria, André saiu do aposento e tomou outros rumos para novas brincadeiras.

Novamente, um clarão cortou o céu negro. Uma sensação de prazer se apoderou do homem, que foi até a janela. Sobreposta pela agonia, a paz se transformou em fúria. André rodou no centro da sala, em passos largos, até se acalmar. Era o que costumava fazer quando a tensão pesava-lhe os ombros. Um cheiro típico de noites silenciosas invadiu o ambiente escuro. Novamente em círculos, a ânsia instintiva voltava a dominá-lo.

Do quarto, pequenos ruídos eram ouvidos. Baixos, quase imperceptíveis, transpareciam a tensão que pairava sobre André. Ele correu até o quarto. Sentia seus pés serem puxados. Um passo para frente, dois para trás. Combatendo as mãos invisíveis que o puxavam, pôs-se a correr mais uma vez. Dois passos para frente, um para trás. Dois minutos para trás, um para frente. A contagem do tempo estava definitivamente anacrônica.

Libertou-se das mãos, pensamentos, sentimentos, ilusões que o prendiam e abriu a porta do quarto. Respirações dominaram o ambiente. Em poucos minutos, sussurros foram ouvidos. Palavras inaudíveis. Barulhos indecifráveis. Rasgos. Corpos se batendo. Angústia. Pela porta entreaberta, um trêmulo André apareceu. O sorriso vitorioso no rosto. Dali, não sairiam mais ruídos.

“Um a menos”, disse em voz alta. Regozijou-se enquanto retirava dois pratos, quatro talheres e um par de copos idênticos que decoravam a mesa. Passos para frente, nenhum para trás. “Um a menos”.

 

 

 

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Paula Vigneron — Metades

Carcará na areia e Bem-te-vi no ar, no Pontal de Atafona, em 18/02/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Carcará na areia e Bem-te-vi no ar, entre as ruínas do Pontal de Atafona, em 18/02/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Caminhava à beira-mar. As mãos brancas tremiam levemente. A tensão se manifestava em todas as partes do seu corpo, que parecia definhar cada vez mais. Os olhos azuis cruzaram com o azul do mar. Ali, de longe, Iemanjá o olhava. Parecia puni-lo com ondas ora mansas, ora furiosas. Sem dúvidas, estava insatisfeita e em comunhão com o homem nervoso. Os cabelos grisalhos se assemelhavam às espumas da água.

Ao redor, meninas e meninos desfaziam-se após corridas, jogos de bola, baldes de areia e mergulhos rápidos sob a tutela dos responsáveis. E por ele, quem seria o responsável? Lembrou-se dos pais, mortos há mais de vinte anos, e das tardes que passavam diante da junção do horizonte com o oceano. Ele desfrutara, ali, dos melhores anos de sua vida. Infância, adolescência e as primeiras experiências adultas. Mesmo que se visse como jovem, sabia que aquele lugar marcara a sua transição entre as duas fases.

Pisava sobre a areia quente. Em algum lugar distante, um sino de uma igreja dava as doze badaladas, sinalizando meio-dia.

Metade de mais um dia perdido.

Meio-dia.

Metade de uma vida jogada fora dolosamente.

Meio-dia.

Metade das oportunidades desperdiçadas.

Meio-dia.

Metade do que poderia ter sido.

O sol queimava toda a sua carne exposta. De branco, sabia, ficaria vermelho em poucos minutos. Mais um ato doloso. Arder o corpo para não arder a alma. Arder os olhos para não arder a mente. Para não queimar o que lhe restava de bom. Passo a passo, observava as expressões em torno de si. Havia alegria. Genuína. A uns metros de seus pés, uma família, provavelmente mãe, pai, filhos e avós, se divertia. Era simples. Tão simples quanto a felicidade. A simplicidade que, paradoxalmente, soa como quase inalcançável. Como eles a capturaram?

“O senhor pode chutar a bola?”, perguntou um menino, acenando para que fosse enxergado. Gritava o homem há alguns segundos. Em resposta, ele pôs o pé na bola e o moveu. O objeto voou em direção à criança, que agradeceu. Sem dúvidas, ele era aquele menino metade branco, metade vermelho. Metades. Ele era o sorriso ao retomar a brincadeira. Era o que havia deixado definitivamente para trás.

Sentou-se. O calor aumentara desde a sua chegada. Perdera a noção de quanto tempo estava ali. À sua frente, um rapaz de cabelos arrepiados e olhos azuis. Seus olhos. O jovem se posicionou ao seu lado. Encararam-se por breve tempo. Reconheceram-se. De onde surgira? Fruto de seu desejo. A tão sonhada chance de recomeçar. Observavam-se mutuamente. Havia interesse facilmente perceptível.

“Você é o que eu fui.”

“Você é o que eu não quero me tornar. É o que não quero ser.”

Mentiras sinceras interessam? Ele também não quereria ser o homem que se tornara. Se tivesse a opção, mudaria.

“Protótipo de egoísmo condensado em 50 anos mal vividos. Más palavras, maus olhos, mau jeito. Erros. Medo do eterno retorno. Eu espero poder fazer diferente e seguir o caminho oposto ao seu, meu caro. Almejo ser o inteiro de sua metade.” E partiu.

O homem se esparramou na areia. As mãos sobre a barriga e os olhos fechados. Centro da cena de uma despedida. O sol passeava por entre nuvens. A água, agora, batia suavemente na sola de seus pés. O despertar de Iemanjá. O toque frio lembrou-o da necessidade de voltar à vida. Levantou-se. Ali, deitados, permaneceram seus sonhos.

 

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Escritora Paula Vigneron no “Opiniões”, quinta sim, quinta não

Depois dos escritores capixaba Fabio Bottrel (aqui) e itaperunense Guilherme Carvalhal (aqui), chegou a vez deste espaço virtual, antes tarde do que nunca, se abrir à voz feminina nas letras de Campos. Paula Vigneron, autora do livro e contos “Sete balas ao luar” (aqui), passa a partir de amanhã a se revezar com Carvalhal neste “Opiniões”, sempre às quintas-feiras. Abaixo, em suas próprias palavras, o que a jovem escritora e jornalista pretende trazer quinzenalmente a você, leitor do blog:

 

Paula Vigneron (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Paula Vigneron (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

Iniciei a faculdade de jornalismo, no Uniflu, em 2012. Mas a relação com a escrita vem de anos anteriores, quando comecei a produzir contos, em 2008. Ainda durante a graduação, entrei para a equipe da Folha da Manhã, em 2014, como estagiária da Folha Online. Após alguns meses, fui contratada como repórter da Folha Dois, minha atual função.

Em contato com a realidade cultural da cidade, conheci diversas pessoas que auxiliaram minha formação profissional – e também pessoal –, e me fizeram crescer e compreender não só o papel do jornalismo, mas também da literatura para a sociedade. Em setembro do ano passado, lancei o livro “Sete Balas ao Luar”, pela editora Autografia, com 32 contos. Agora, a convite do jornalista e poeta Aluysio Abreu Barbosa – a quem agradeço pela oportunidade –, serei colaboradora deste blog com contos e crônicas, passeando por ficção e realidade.

 

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Artigo do domingo — Até o sol nascer

Atafona, aurora de 26/02/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, aurora de 26/02/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Beque de roça tecnológico, pedi a Antunis Clayton que levasse um gravador e me emprestasse para a entrevista. Ao contrário do hábito, não preparei pauta, nem estudei vida e carreira do entrevistado. Julgava ser capaz de fazê-la bem, só batendo de prima da memória.

“Entre as curvas da estrada e do rio” encarnado verso em “epifania”, ouvíamos a guitarra de blues do inglês Matt Scofield e subíamos o Paraíba do Sul. Já escrevi (aqui) que a RJ 158, entre Campos e São Fidélis, está entre as mais lindas que conheço, junto da Turmalina/Diamantina, trecho da BR 367 no norte de Minas Gerais; da Esparta/Olímpia, no Peloponeso (GRE); e todos os caminhos das Highlands (“Terras Altas”) da Escócia e do sul da Toscana (ITA), que chegam e saem de Siena — linda cidade que batiza um carro feio.

Chegados ao sítio do deputado federal Paulo Feijó (PR), Antunis saca da sua mochila o gravador. Eu me espanto e Tércio Teixeira, o repórter fotográfico, ri, ao perceber que se trata de um daqueles antigos “tijolões” de fita cassete. Completava o anacronismo o elástico improvisado no lugar da tampa, para as pilhas não caírem.

Após pensar, constatei que o tempo do qual falaríamos era o mesmo da tecnologia que nos gravaria o som. E por isso ri também, num alívio curioso e involuntário. Entramos e caminhamos ao longo da antiga linha de trem e do rio, até avistar homens de meia idade brincando como crianças dentro e ao redor da quadra de futevôlei, enquanto crianças de verdade corriam alheias ao entorno.

A primeira entrevista, no deck da piscina ao lado da quadra de areia, foi com o ex-atacante Cláudio Adão. Meu pai me dizia que, quando ele surgiu, ainda garoto, no Santos dos anos 1970, era apontado como o sucessor de Pelé, que ainda jogava, já perto de encerrar a carreira. Ademais, me lembro com vista própria de Adão jogando no Flamengo de Zico, entre o final dos anos 70 e início dos 80, no qual se notabilizaria outro centro-avante de menos técnica, mas decisivo: Nunes.

Lançado também no Flamengo, ainda com Zico, Leandro e Andrade, na segunda metade dos anos 1980, meu objetivo se mostrou à primeira vista esquivo e tímido, como sempre me pareceu ser nos tempos de jogador. A impressão foi reforçada quando começamos a entrevista, onde aos poucos, ao perceber o conhecimento de pormenores das suas jogadas e carreira, foi se soltando o ex-zagueiro Aldair, do Flamengo, Benfica (POR), Roma (ITA) e Seleção Brasileira, Tetracampeão do Mundo na Copa de 1994, na qual foi um dos destaques.

Acabamos a entrevista (aqui), apertei sua mão e disse: “Você foi o maior zagueiro que vi jogar!”. Despedimos-nos dele e dos demais, e saímos logo depois. Como estávamos já no início de tarde de sábado, sabia que a entrevista só daria para ser degravada e editada no correr da semana seguinte.

São engraçadas as impressões de uma entrevista que fizemos. Geralmente temos uma opinião sobre ela quando a acabamos, outra depois que a tiramos do gravador e uma terceira após a lermos impressa. Com Aldair, me valeu como segurança o que disse o Tércio logo depois da entrevista, que acompanhou com olhos atentos na câmera e ouvidos ao papo: “Vocês foram ficando visivelmente emocionados, principalmente quando começou a relembrar nas suas perguntas os detalhes dos lances dele no campo”.

Com a semana seguinte cheia de trabalho laico, apesar de santa, aproveitei o feriado da Páscoa para ir a Atafona, com meu filho e seu cão, um buldogue francês tigrado chamado Zidane, desde a noite da Quinta-Feira da Ceia. Na Sexta da Paixão, dediquei manhã e início da tarde à pauta de outra entrevista (aqui), mais técnica, mas também mais prática, porque por e-mail, sobre o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), com o advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do Supremo Tribunal Federal.

No resto da tarde de sexta, noite e início da madrugada, tirei do gravador, editei e fiz a abertura da entrevista com Aldair. Irônico, mas de crença difícil, foi o fato que, no mesmo quarto onde meu filho já dormia, ao final da degravação, exatamente quando Aldair falava da falha da marcação coletiva na final da Copa de 98 (França 3 a 0 Brasil), na qual a Seleção Brasileira sofreu dois gols de cabeça do craque Zidane, em cobranças de escanteio, o cachorro Zidane passou a me lamber.

Acabei a entrevista, desci à área externa e fui tomar sozinho, já na madrugada do Sábado de Aleluia, a primeira cerveja daquela semana santa. Cercado por muitos ídolos dos campos citados por outro, todos revisitados no encanto de quem passeia entre os heróis homéricos da sua juventude, o primeiro casco vazio de cerveja ganhou companhia na celebração do trabalho.

Até a “aurora de dedos róseos” anunciar o sol.

 

 

Aldair dos Santos Nascimento e Aluysio Abreu Barbosa, em 19/03/16 (foto de Tércio Teixeira - Folha da Manhã)
Aldair dos Santos Nascimento e Aluysio Abreu Barbosa, em 19/03/16 (foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

 

Publicado hoje (03/04) na Folha da Manhã

 

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Craque do Tetra na linha da zaga

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Nos preocupamos em marcar seus atacantes (Bebeto e Romário). E acho que fizemos isso bem. Aí vem um zagueiro, rouba a bola, dá um passe daqueles e desarma todo meu esquema defensivo. O que posso fazer?” Lamentou-se Dick Advocaat, treinador da Holanda, na coletiva após as quartas-de-final da Copa de 1994, nos EUA. Tentava explicar a derrota do seu time por de 3 a 2, no jogo mais duro do Brasil (reveja-o aqui) naquele Mundial, cujo placar foi aberto quando Aldair Santos do Nascimento interceptou um passe de Frank Rikjaard e fez um lançamento preciso de 60 metros na ponta esquerda a Bebeto, que cruzou na área para Romário marcar.

Baiano de Ilhéus, campeão brasileiro no Flamengo (1987) e italiano no Roma (2000/01), Aldair esteve na semana passada em Campos, no sítio do deputado federal Paulo Feijó, para um torneio de futevôlei, esporte no qual hoje desfila a mesma técnica que sempre o distinguiu entre os zagueiros do mundo. Com a forma física dos tempos de jogador, ele falou da carreira desde os campos de pelada no time do pai, até sua maior conquista: o Tetra de 94, primeira Copa do Mundo para a Seleção Brasileira, após um hiato de 24 anos. Indagado sobre o que guarda com mais carinho da sua carreira, ele se antecipou ao lance no verbo, na mesma classe que tinha com a bola nos campos: “somos só pessoas normais, seres humanos”.

 

Com a mesma forma física e categoria dos tempos de zagueiro, Aldair hoje se dedica ao futevôlei (foto: Satiro Sodré - Agif)
Com a mesma forma física e categoria dos tempos de zagueiro, Aldair hoje se dedica ao futevôlei (foto: Satiro Sodré – Agif)

 

Folha da Manhã – Natural de Ilhéus (BA), você foi cria das divisões de base do Flamengo. Você começou lá com que idade?

Aldair do Nascimento – Eu fui para o Flamengo com 16 anos. Fiz quatro anos de categoria de base, com o professor Carlinhos (aqui, ex-craque rubro-negro dos anos 50 e 60, que seria depois treinador dos profissionais no Tetra Brasileiro do clube em 1987)…

 

Folha – Você foi reserva de Leandro como zagueiro central (pela direita) naquele time campeão de 87, não é isso?

Aldair – Eu subi em 86. Ganhamos o Campeonato Carioca de 86.

 

Folha – Aí, em 87, você estava na reserva. Você e o Zé Carlos II. Na zaga titular do Tetra estavam Leandro e Edinho.

Aldair – Eu e Zé Carlos II. Nós jogamos bastante jogos, mas na final (1 a 0 contra o Internacional) quem jogou foi o Leandro e o Edinho. Eu participei, peguei um pouco da experiência dessa galera aí (Edinho disputou as Copas de 1978, 82 e 86, enquanto Leandro, a de 82).

 

Folha – Você ainda pegou remanescentes daquela geração do Flamengo de Zico, campeã da Libertadores da América e do Mundial Interclubes em 81. Além dele e Leandro, o volante Andrade também estava naquele time de 87. Mas o grande craque era Zico (Copas de 1978, 82 e 86). Foi o maior que você viu jogar?

Aldair – Olha, eu tive a sorte de também jogar com grandes campeões depois. Mas eu sempre coloco o Galo (pelo físico franzino, Zico era chamado de Galinho de Quintino, bairro da periferia carioca onde nasceu e cresceu) como primeiro da lista, por tudo que ele fez no futebol, pelo que ele é para o Flamengo. Então, mesmo em relação a outros grandes jogadores com os quais eu joguei, eu boto sempre o Galo à frente. Eu acho que faltou a ele aquilo que nós conquistamos em 1994 (Tetra na Copa do Mundo, com a Seleção Brasileira). Mas ele foi um jogador e uma pessoa espetacular.

 

Folha – Em relação ao Tetra em 94, fala-se muito de Romário (Copas de 1990 e 94). Cobri pela TV todos os jogos do Brasil naquela Copa e, particularmente, acho que você, Bebeto (Copas de 90, 94 e 98) e Mauro Silva foram igualmente fundamentais à conquista. Como avalia sua participação naquele Mundial?

Aldair – Eu estava muito bem preparado naquela Copa. Eu tinha saído, oito meses antes, de uma operação. Então tive tempo de trabalhar muito a parte física. E depois a sorte de estar num grupo forte e de machucar um Ricardo (Gomes, Copa de 1990), depois machucar o outro Ricardo (Rocha). Eu e Márcio Santos (inicialmente reservas) estávamos sempre bem, jogando contra o time titular. Seleção é isso: temos que estar todos bem preparados e aproveitar o momento. Nós aproveitamos o nosso. Aquilo que você falou de mim, o Bebeto e o Mauro Silva, mas o Romário realmente estava voando e fez uma grande diferença. O time estava bem montado, bem entrosado. É claro que uma decisão por pênaltis (após o 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação contra a Itália) é sempre emocionante. Mas nós conseguimos levar depois de 24 anos.

 

Folha – Você não bateu. Se chegássemos à segunda rodada das cobranças, qual seria sua posição?

Aldair – Eu seria o sexto batedor, depois do Bebeto. Mas nem chegou no Bebeto, todos sabem o que aconteceu (o Brasil foi campeão após Roberto Baggio desperdiçar sua cobrança). Bater um pênalti naquelas condições (Baggio jogou contundido) não é fácil. Você vê que um dos maiores jogadores do futebol italiano perder o pênalti na final da Copa do Mundo. Isso acontece.

 

Folha – Sim, se fala muito no Romário, mas Baggio (Copas de 1990, 94 e 98) também jogou muito naquela Copa, apesar do pênalti decisivo perdido. Já nos descontos do primeiro tempo da final, me lembro uma jogada em que Massaro (Copas de 82 e 94) toca de calcanhar para Baggio, que iria partir sozinho contra Taffarel (Copas de 90, 94 e 98), e você antecipa o lance. Depois, já na prorrogação, você sai driblando Massaro dentro da área. A bola é rebatida na frente, volta e você repete o feito em cima de Baggio. Na verdade, você não perdeu uma disputa de bola naquela final (reveja o jogo aqui). De onde tirou tanta confiança?

Aldair – A gente jogava juntos há alguns anos e já se conhecia (Massaro, no Milan; Baggio, na Juventus; Aldair, no Roma). Estava com confiança ali. Tivemos a sorte também de que o Baggio não estava 100%, teve problemas no jogo antes (Itália 2 a 1 Bulgária, na semifinal) e entrou à meia boca. Mas, mesmo assim, sempre perigoso. Ele teve uma bola boa no primeiro tempo, mas nós conseguimos bem, com Mauro (Silva) à nossa frente, eu e Márcio (Santos) conseguimos controlar bem a situação. Mas o horário do jogo (começou às 12h35 na cidade de Pasadena, na Califórnia, no verão dos EUA), eu acho que estava muito mais quente que este dia de hoje, aqui. Então, era um jogo muito difícil.

 

Folha – Falamos de Romário, Bebeto, Baggio e Massaro. Quem foi o melhor atacante que você enfrentou dentro do campo, o mais difícil de marcar?

Aldair – Como atacante de primeira, assim, centroavante, acho que o que me colocava mais dificuldade era o Ronaldo Fenômeno (Copas de 1994, 98, 2002 e 2006). Pegamos ele na Inter (de Milão) em grande forma (1997/2002), grande aceleração, troca de ritmo. Então era muita dificuldade para marcar o Ronaldo.

 

Folha – E dos zagueiros com os quais você jogou? Com quem compôs a melhor dupla de zaga?

Aldair – Assim, eu tive a sorte de jogar com grandes zagueiros. Joguei um ano com o Ricardo…

 

Folha – Ricardo Gomes, no Benfica de Portugal.

Aldair – É, joguei um ano com o Ricardo. Joguei com o (Mauro) Galvão (Copa de 90), com o Mozer (Copa de 90), com o Júlio César (Copa de 86). Então é difícil. Aprendi com todos eles. Eu tive a sorte de começar no Flamengo, tinha o Edinho, tinha o Dario Pereira (Copa de 86, pelo Uruguai), que tinha vindo do São Paulo. Tinha o Leandro. Mas eu procurava pegar uma coisa de cada um. Mas na Copa de 82, eu via muito o Luizinho jogar, tentava fazer o que o Luizinho fazia. Então peguei muito coisa do Luizinho.

 

Folha – Sua referência, então, foi o Luizinho?

Aldair – Foi o Luizinho. Como zagueiro, sim.

 

Folha – Esses dias, ouvindo Toninho Cerezzo (Copas de 78 e 82) falar numa entrevista daquele grande Atlético Mineiro do fim dos anos 1970 e começo dos anos 80, do qual foi um dos craques: “O quarto zagueiro (pela esquerda) daquele time era o Luizinho. Meu Deus! O Luizinho era tão técnico que poderia jogar de meia esquerda”.

Aldair — Sim, ele era muito técnico.

 

Folha — Sim, como você, ele era muito técnico. E como, sendo tão técnicos, vocês acabaram virando zagueiros?

Aldair – (Risos) Eu, na verdade, virei zagueiro por oportunidade. Eu estava no Rio e jogava pelada no Rio de Janeiro. E um ex-jogador do Flamengo perguntou se eu queria ir para o Flamengo como zagueiro, e eu falei que queria. Mas antes disso, eu jogava nas peladas como atacante, antes de ir para o Rio, na Bahia, com o timezinho do meu pai lá em Ilhéus.

 

Folha – Seu pai é vivo?

Aldair – Não, é falecido. Mas eu jogava no time dele.

 

Folha – Era boleiro também?

Aldair – Era boleiro, boleiro também. E também era atacante. Mas eu tive essa oportunidade de ir para o Flamengo como zagueiro e a coisa deu certo.

 

Folha – Mas você era um zagueiro que fazia gols. Quantos fez na carreira profissional?

Aldair – Não fiz muitos, não. Marquei mais pelo Flamengo. No Roma, muito pouco. Acho que não supera os 30 gols, mais ou menos.

 

Folha – Você era um zagueiro que terminava o jogo de calção limpo, não dava carrinho. Dos que vi jogar, você talvez tenha sido o defensor com maior senso de antecipação, com o qual evitava o combate mais brusco. Como fazia isso? Antevia os lances?

Aldair – Então, acho que você tem que ter uma leitura boa de jogo lá atrás. Porque você jogar contra grandes atacantes, não é fácil você competir contra um Van Basten (Copa de 1990, pela Holanda) ou um Ronaldo. Então você tem que ter uma leitura muito boa de jogo, de antecipação, para cortar os caminhos. Se não fica muito difícil você marcar esses grandes jogadores. Eu tinha essa visão, essa vantagem, que me fez subir na carreira e chegar aonde cheguei.

 

Folha – No Brasil, as pessoas talvez não tenham a noção exata da sua condição de ídolo do Roma, clube tradicional da Itália. Mesmo tendo saído de um time de torcida tão apaixonada como o Flamengo, impressiona assistir em vídeo à devoção romanista por você, com os tiffosi giallorossi (torcida do Roma) cantando seu nome em coro (aqui) no estádio.

Aldair – Eu fiquei bastante tempo lá. Joguei 13 anos lá.

 

Folha – Aposentaram sua camisa no Roma, não foi?

Aldair – Por um bom tempo. Até o ano passado. Era a número 6. O clube me chamou, para ver se eu deixaria voltar essa camisa e foi o que aconteceu. Mas acho que existe um acolhimento, uma paixão imensa comigo e com a torcida do Roma. Foi muito legal. A gente teve durante dois ou três anos um time muito forte (campeão da Itália e da Supercopa da Itália na temporada 2000/01), com Batistuta (Copas de 1994, 98 e 2002 pela Argentina), com (o brasileiro) Antônio Carlos, o Montela (Copa de 2002 pela Itália) e o Cafu (Copas de 94, 98, 2002 e 2006). Não ganhamos tudo que eu acho que poderíamos ter ganhado, mas foram anos maravilhosos.

 

Folha – Das coisas boas às não tão boas: o que aconteceu naquela final da Copa de 98 (França 3 a 0 Brasil)?

Aldair – Em 98 aconteceu tudo aquilo que todos sabem. Primeiro, o início foi muito ruim. Porque aquela desconvocação do Romário, eu acho que o grupo rachou um pouco. Uma parte, do lado do Romário. A outra, não. Fomos pegos de surpresa, quando Romário saiu. Na minha opinião, se Romário estivesse, a Seleção iria render mais. Fica difícil falar se a gente iria ganhar o Mundial ou não, mas acho que teríamos grande chance. E depois teve a final.

 

Folha – Deu um apagão no time?

Aldair – Eu acho que foi o que aconteceu com o Ronaldo. Mudou muito o comportamento do time no campo. Alguns momentos, algumas horas antes do jogo, o Ronie apagou, o homem que levou a gente à final muito bem. Apesar disso, eu reclamo sempre da falta de atenção que nós tivemos na marcação, de levar dois gols de cabeça de escanteio.

 

Folha – Dois gols de um cara que, embora craque, não era bom cabeceador. Zidane (Copas de 1998, 2002 e 2006) nunca havia feito um gol de cabeça.

Aldair – Nunca tinha feito um gol de cabeça. Mas não me surpreendo, não. Um dia antes eu pedi para a gente treinar escanteio. O pessoal disse: “Não, cada um já sabe o que faz”. E aconteceu aquilo ali. Você vai para uma final de Copa, você leva dois gols de cabeça. Então, foi uma falta de atenção de alguém ali, que tinha que marcar o Zidane e ficou na dúvida: o Zidane ia bater escanteio, daqui a pouco estava dentro da área. Acabou que perdemos o jogo. Mas, assim, o Brasil não fez um grande Mundial, teve altos e baixos, oscilou muito.

 

Folha – E de todos os títulos que conquistou, todos os jogos que disputou, o que você leva para sua vida pessoal com mais carinho, com mais emoção?

Aldair – Se eu falar de título, será sempre do Mundial (94), porque ganhamos para a gente e para uma nação. Então, é uma responsabilidade muito grande. Como título, certamente aquele pela Seleção Brasileira. Mas o que a gente leva é a amizade. Você vê, hoje, estamos aqui com vários amigos, pessoas que conheci muito depois. E estamos bem juntos. É isso que a gente tem que levar. E essa foi minha vida até quando jogava. Porque muitas vezes os jogadores pensam só no momento, ali, em que estão jogando, e esquecem que somos pessoas normais, seres humanos. Temos só uma oportunidade de representar um país, um clube cheio de torcida, de grande responsabilidade. Mas somos só pessoas normais, seres humanos.

 

Página 11 da edição de hoje (27/03) da Folha
Página 11 da edição de hoje (27/03) da Folha

 

Publicado hoje (27/03) na Folha da Manhã

 

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Paula Vigneron lança livro no Sesc nessa quarta

Paula Vigneron Alma Brasileira

 

 

 

Sete balas ao luarPor Aluysio Abreu Barbosa

 

“Compartilhando segredos, aventuras, paixões tão passageiras quanto um sopro de vento”. Desde o seu primeiro conto, “Solidão”, escrito por uma adolescente de 15 anos, Paula Vigneron impressiona pela maturidade da prosa ao compor o prefácio que não há para o seu livro de estreia. Nas livrarias (aqui) desde o ano passado, a obra terá relançamento nessa quarta, dia 16, às 19h, no espaço multimídia do Sesc de Campos, dentro do projeto “Alma brasileira”. O evento terá debate com a autora e leitura de trechos pela atriz Liana Velasco. Reunidos em ordem não cronológica pela editora carioca Autografia, o livro traz 32 contos escritos entre 2008 e 2015, fechados com aquele que, pela força do título, a autora escolheu para batizar também seu livro: “Sete balas ao luar”.

Jornalista e crítica de cinema, lidas desenvolvidas como ramos da mesma raiz de escritora em semeadura precoce, Paula apresenta muitas influências em seus contos; e não só literárias. Do cinema, por exemplo, a jovem escritora assumidamente ecoa do sueco Ingmar Bergman (1918/2007) e do estadunidense Woody Allen — o diretor de drama, não o comediante — alguns questionamentos existenciais primários da humanidade: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Quanto tempo tenho? Que diabos estou fazendo aqui?

Com a cara de Woody Allen impressa às máscaras opostas (e complementares) da comédia e da tragédia, é esta segunda o alvo dos disparos de “Sete balas ao luar” — inclusive no conto que dá nome ao livro, ambientado no sertão de Sergipe, com as bênçãos de “São Lampião”. Quase sempre ácido, algumas vezes mórbido, há humor aqui e ali. Mas é a realidade na qual Virgulino Ferreira da Silva foi executado a tiros que prevalece na ficção de vida e morte de Zé do Cangaço:

— Segurou, novamente, as munições que trazia em seu bolso. Pediu a Lampião que não precisasse usá-las contra si na tentativa desesperada de calar os gritos interiores (…) Ao seu lado, colocaram a sua carabina e sete balas, em forma de cruz, para protegê-lo nas noites de luar.

E mesmo “lá para as terras do Sudeste”, onde “a forte estiagem havia atingido a todos, independente de classe e cor”, a coisa não parece não independer tanto assim. Algumas páginas antes, em cenário talvez familiar aos campistas, um menino de rua se levanta e deita no papelão, “seu companheiro de dias e noites assustadoras”, para encarnar o “Invisível” dentro de uma sociedade que desfila sua ânsia de consumo no “calçadão do Centro da cidade” — qual seria?

Se o final feliz passa longe das histórias de fôlego curto e pegadas fundas de Paula Vigneron, a leveza bate ponto em seu processo de criação, quase sempre emprenhado de música. Da MPB de Chico Buarque, Elis Regina e Milton Nascimento ao suingue jazzístico de Frank Sinatra. Este, aliás, conhecido como “A Voz”, tem a sua vencendo o limite entre realidade e ficção ao entoar “The way you look tonight”, no conto “A primeira dança”.

Além de inspiração, quem também dá as caras como personagem é Woody Allen. O cineasta novaiorquino faz uma ponta no conto “1975”, quando pisca à protagonista atônita. Vinda de uma viagem no tempo e no espaço para uma Manhattan imaginária, ela baila sem respostas ao som de “Cause I was Born to the blue”, após ser convencida pelo conselho do seu par:

— Pare de se questionar, querida. Você pensa muito. Sinta mais e reflita menos.

Recurso utilizado desde o primeiro conto adolescente, a narrativa retroativa em flashback bate ponto em boa parte do livro. A partir dela, um passado geralmente mais feliz é contraposto ao presente de desencanto, causado por alguma perda ou traição, algum tipo de tragédia humana quase sempre fadada a gerar outra, tão grave ou mais, ao final. E, única certeza da vida, a morte parece estar à espreita nas esquinas dos parágrafos.

Todavia, no lugar de ponto final, é posta a possibilidade de (re)começo. Em “Condenados”, terror e humor negro se misturam numa história deliciosa de voyeurismo e vendeta:

— Sem dúvida, a vingança é um prato que se come frio. Frio, assim como meu corpo inerte que, agora, apodrecia sob a terra (…) Permaneceríamos juntos como juráramos diante do padre quando nos casamos. Na alegria e na tristeza. Na saúde e na doença. Na riqueza e na pobreza. Mas nem a morte nos separa.

Em alguns contos, personagens e autora parecem unidos por laços semelhantes. Em “Ilhas”, difícil não pescar algo de autobiográfico na Marina, em quem Fábio acaba por fim acreditando ter “deixado marcas nas terras quase intocáveis em que a doce garota estava escondida e isolada pelas águas furiosas que a atormentavam”.

Neste istmo capaz de transformar qualquer ilha em península, ligando-o a outra ilha ou ao continente, também é possível avistar a prosista real refletida no fictício escritor Daniel, na maré baixa do conto “Comunhão literária”:

— As palavras eram suas companheiras. Refugiava-se nelas para encontrar o destino que lhe cabia (…) acreditava na independência delas e suas ações. O rapaz, no fundo, era guiado pelas letras (…) Comovia-se com a dor do outro, que passava a ser sua até conseguir transformá-la em palavras.

Do lado de cá das páginas, a moça também!

 

 

Paula Vigneron (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Paula Vigneron, Atafona, fevereiro de 2016 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

* Adaptação de resenha publicada aqui, em 4 de setembro de 2015, anunciando o lançamento do livro “Sete balas ao luar” no Sinasefe

 

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Sete balas, 32 contos — Paula Vigneron lança livro hoje no Sinasefe

Aos 22 anos, Paula Vigneron lança hoje seu primeiro livro, com contos que escreve desde os 15 (foto de Tércio Teixeira - Folha da Manhã)
Aos 22 anos, Paula Vigneron lança hoje seu primeiro livro, com contos que escreve desde os 15 (foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

 

Sete balas ao luarPor Aluysio Abreu Barbosa

 

“Compartilhando segredos, aventuras, paixões tão passageiras quanto um sopro de vento”. Desde o seu primeiro conto, “Solidão”, escrito por uma adolescente de 15 anos, Paula Vigneron impressiona pela maturidade da prosa ao compor o prefácio que não há para o seu livro de estreia, cujo lançamento com noite de autógrafos acontece hoje, às 20h, no Espaço Cultural Fulinaíma do Sinasefe, na rua Álvaro Tâmega, nº 132, Centro. Reunidos em ordem não cronológica pela editora carioca Autografia, são 32 contos escritos entre 2008 e 2015, fechados com aquele que, pela força do título, a autora escolheu para batizar também seu livro: “Sete balas ao luar”.

Jornalista e crítica de cinema, lidas desenvolvidas como ramos da mesma raiz de escritora em semeadura precoce, Paula apresenta muitas influências em seus contos; e não só literárias. Do cinema, por exemplo, a jovem escritora assumidamente ecoa do sueco Ingmar Bergman (1918/2007) e do estadunidense Woody Allen — o diretor de drama, não o comediante — alguns questionamentos existenciais primários da humanidade: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Quanto tempo tenho? Que diabos estou fazendo aqui?

Com a cara de Woody Allen impressa às máscaras opostas (e complementares) da comédia e da tragédia, é esta segunda o alvo dos disparos de “Sete balas ao luar” — inclusive no conto que dá nome ao livro, ambientado no sertão de Sergipe, com as bênçãos de “São Lampião”. Quase sempre ácido, algumas vezes mórbido, há humor aqui e ali. Mas é a realidade na qual Virgulino Ferreira da Silva foi executado a tiros que prevalece na ficção de vida e morte de Zé do Cangaço:

— Segurou, novamente, as munições que trazia em seu bolso. Pediu a Lampião que não precisasse usá-las contra si na tentativa desesperada de calar os gritos interiores (…) Ao seu lado, colocaram a sua carabina e sete balas, em forma de cruz, para protegê-lo nas noites de luar.

E mesmo “lá para as terras do Sudeste”, onde “a forte estiagem havia atingido a todos, independente de classe e cor”, a coisa não parece não independer tanto assim. Algumas páginas antes, em cenário talvez familiar aos campistas, um menino de rua se levanta e deita no papelão, “seu companheiro de dias e noites assustadoras”, para encarnar o “Invisível” dentro de uma sociedade que desfila sua ânsia de consumo no “calçadão do Centro da cidade” — qual seria?

Se o final feliz passa longe das histórias de fôlego curto e pegadas fundas de Paula Vigneron, a leveza bate ponto em seu processo de criação, quase sempre emprenhado de música. Da MPB de Chico Buarque, Elis Regina e Milton Nascimento ao suingue jazzístico de Frank Sinatra. Este, aliás, conhecido como “A Voz”, tem a sua vencendo o limite entre realidade e ficção ao entoar “The way you look tonight”, no conto “A primeira dança”.

Além de inspiração, quem também dá as caras como personagem é Woody Allen. O cineasta novaiorquino faz uma ponta no conto “1975”, quando pisca à protagonista atônita. Vinda de uma viagem no tempo e no espaço para uma Manhattan imaginária, ela baila sem respostas ao som de “Cause I was Born to the blue”, após ser convencida pelo conselho do seu par:

— Pare de se questionar, querida. Você pensa muito. Sinta mais e reflita menos.

Recurso utilizado desde o primeiro conto adolescente, a narrativa retroativa em flashback bate ponto em boa parte do livro. A partir dela, um passado geralmente mais feliz é contraposto ao presente de desencanto, causado por alguma perda ou traição, algum tipo de tragédia humana quase sempre fadada a gerar outra, tão grave ou mais, ao final. E, única certeza da vida, a morte parece estar à espreita nas esquinas dos parágrafos.

Todavia, no lugar de ponto final, é posta a possibilidade de (re)começo. Em “Condenados”, terror e humor negro se misturam numa história deliciosa de voyeurismo e vendeta:

— Sem dúvida, a vingança é um prato que se come frio. Frio, assim como meu corpo inerte que, agora, apodrecia sob a terra (…) Permaneceríamos juntos como juráramos diante do padre quando nos casamos. Na alegria e na tristeza. Na saúde e na doença. Na riqueza e na pobreza. Mas nem a morte nos separa.

Em alguns contos, personagens e autora parecem unidos por laços semelhantes. Em “Ilhas”, difícil não pescar algo de autobiográfico na Marina, em quem Fábio acaba por fim acreditando ter “deixado marcas nas terras quase intocáveis em que a doce garota estava escondida e isolada pelas águas furiosas que a atormentavam”.

Neste istmo capaz de transformar qualquer ilha em península, ligando-o a outra ilha ou ao continente, também é possível avistar a prosista real refletida no fictício escritor Daniel, na maré baixa do conto “Comunhão literária”:

— As palavras eram suas companheiras. Refugiava-se nelas para encontrar o destino que lhe cabia (…) acreditava na independência delas e suas ações. O rapaz, no fundo, era guiado pelas letras (…) Comovia-se com a dor do outro, que passava a ser sua até conseguir transformá-la em palavras.

Do lado de cá das páginas, a moça também!

 

Folha Letras de hoje, na contracapa da Folha Dois
Folha Letras de hoje, na contracapa da Folha Dois

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

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Poema do domingo — As meninas de Adriana

Conheci Adriana Medeiros, se não me falha a memória, no FestCampos de Poesia Falada de 2004. Eu era jurado e ela concorria com dois poemas, defendendo-os com brilho como intérprete. Nunca lhe disse, mas me impressionei à primeira vista com sua intensidade dramática, com aquele desabrir uterino com jeito de coisa casual, oximoro refletido também em seus versos. Se foi eleita, com endosso do meu voto, a melhor intérprete daquele festival, ela perpetraria a façanha de vencer como poeta outras duas edições: de 2006, com “Descobrimento de mim”, e de 2009, com “Imagens e versos”.

Falando aqui sobre Castro Alves (1847/71), nosso maior romântico e para quem o ritmo era o “talismã da verdadeira poesia”, disse que via em Campos dois poetas reverberados ao eco da mesma oralidade, tão egressa dos palcos quanto Apolo e Dionísio: Antonio Roberto Kapi e Artur Gomes. E tenho dito!

 

“La hamaca” (1956), óleo e têmpera sobre tela de Diego Rivera (1886/1957)
“La hamaca” (1956), óleo e têmpera sobre tela de Diego Rivera (1886/1957) – foto de Aluysio Abreu Barbosa

 

“La hamaca” (1956), óleo e têmpera sobre tela de Diego Rivera (1886/1957)
“La hamaca” (1956), óleo e têmpera sobre tela de Diego Rivera (1886/1957) – foto de Aluysio Abreu Barbosa

 

As Meninas

 

Como quem

Convém a dois

Estavam as duas

Quase nuas

Em primícias

De carícias

Estavam elas

Duas e uma

Completamente

Ausentes

Pareciam únicas

As meninas

Douradas

Escancaradas

Sem vergonha

De serem

Inocentes

Como convém

A Deus.

Era um recreio

Meninos empinavam

Suas pipas

Como quem só queria

o céu

E elas estão… lá

Elas… como nuvens

Que no céu flutuam

Estacionando

Nos desejos do meu

Emblema

O que significa

Farme em Ipanema

As meninas juntas

Eram a minha

Incapacidade

De lhes escrever

Um digno poema.

 

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Poema do domingo — Antonio Roberto Kapi

Kapi 5
(Foto de César Ferreira)

 

 

ACENOS

 

Quem parte

deixa saudade,

deixa acenos,

esquece livros.

Deixa tolhido

um mundo de desejos,

vida desarrumada

e a gente sem prumos.

Quem fica

fica de lembranças,

fica mais criança,

fica solidão.

Quem parte,

parte inteiramente,

parte de repente

sem um avisar.

Quem fica

fica de inocente

regando as sementes

de um tal regressar.

Quem fica

fica sem despedida

fica sem guarida

e morre um pouco em vida

pois quem parte

parte corações

mata as ilusões

e parte.

 

Kapi, Antonio Roberto. “Manual da criação de ratos”, com Eloah Marconi de Souza, edição de Carlos Araújo, Edições Clarear (1984), pág. 18

 

 

 

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