Juíza Helenice Martins, o advogado José Francisco Abud que a ofendeu, Fórum de Campos e advogados Pryscila Marins e Felipe Drumond, entrevistados de ontem (25) no Folha no Ar (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Queixa-crime da juíza atacada
Atacada de forma racista (confira aqui, aqui e aqui) pelo advogado José Francisco Barbosa Abud, em petição a ela como titular da 3ª Vara Cível de Campos, a juíza Helenice Rangel Gonzaga Martins entrou (confira aqui) com uma queixa-crime por injúria no 1º Juizado Especial Criminal de Campos. Na qual foi representada por quatro advogados da Associação de Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj).
Resquícios escravocratas
Por conta de uma ação de anulação de testamento, tendo como um dos herdeiros a mãe do advogado, este fez ataques de cunho racista à juíza em sua petição à 3ª Vara Cível. Entre eles, classificou sua titular como “Magistrada afrodescendente com resquícios de senzala e recalque ou memória celular dos açoites”.
“Burocrata prevaricadora”
Embora cite essa e outras ofensas de claro teor racista feitas na petição, a queixa-crime da juíza, porém, se focou em um e-mail enviado em 30 de outubro de 2024, entre os mais de 20 que o advogado enviou à 3ª Vara Cível. No qual chamou a juíza de “burocrata prevaricadora”.
Pena de até 4 anos
A queixa-crime da juíza de Campos pediu enquadramento do advogado ofensor por injúria no Art. 140 do Código Penal, com pena de 1 a 3 anos de prisão. Que, pelo Art. 141, pode crescer em 1/3 por ser injúria contra funcionário público. Mas as ofensas, sobretudo em seu caráter racial, poderão ser alvo de novas ações.
Por que só injúria?
“Causou estranheza que a queixa-crime da juíza tenha tratado só da ofensa do e-mail, mais branda, do que as outras tantas da petição. Mas há razão técnica. Chamar a juíza de ‘burocrata prevaricadora’ é um crime de ação penal privada. É a própria vítima que tem que ajuizar a ação penal”, explicou o advogado criminalista Felipe Drumond, no Folha no Ar de ontem (25).
Racismo é com Ministério Público
“Já em relação aos outros crimes relacionados a racismo têm que ser alvo de ação penal pública incondicionada. Ou seja: quem processa o acusado, o autor das afirmações, é o Ministério Público. É por isso que a queixa-crime da juíza menciona as ofensas racistas, mas não pede a condenação do advogado por essas ofensas”, distinguiu Felipe.
O que virá depois?
“A queixa-crime da juíza tratou só da injúria. Aguarda-se a conclusão do inquérito policial (na 134ª DP) e, muito certamente, a propositura da denúncia pelo Ministério Público desses crimes de racismo”, projetou o criminalista o que deve vir como complemento da reação jurídica pelas ofensas do advogado à juíza.
“Defender a lei, não praticar crimes”
Outra convidada do Folha no Ar de ontem, a advogada Pryscila Marins também analisou o caso: “É difícil de entender essas palavras que foram colocadas dentro de um documento público, de um processo. Enquanto advogado, se torna muito pior. Não é esse o papel da advocacia. Nós estamos aqui para defender a lei, não para praticar crimes”.
Resposta rápida da OAB Campos e RJ
“Eu acho que a OAB está de parabéns, tanto da parte da dra. Mariana (Lontra Costa, presidente da OAB-Campos) quanto da dra. (Ana) Tereza (Basílio, presidente da OAB-RJ), porque deram uma resposta rápida (o repúdio aos ataques racistas do advogado e parecer da Corregedoria do órgão para cassar seu registro profissional)”, destacou Pryscila.
Os advogados Sana Gimenes, também socióloga, e Alex Ribeiro Cabral são os convidados do Folha no Ar desta quarta (26), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Eles falarão sobre o caso dos ataques racistas (confira aqui, aqui, aqui e aqui) do advogado José Francisco Barbosa Abud contra a juíza Helenice Rangel Gonzaga Martins, titular da 3ª vara Cível de Campos, em caso que ganhou repercussão nacional.
Sana e Alex também tentarão projetar o julgamento, iniciado terça (25) na 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros sete denunciados (confira aqui, aqui e aqui) pela Procuradoria Geral da República (PGR) nos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, formação de organização criminosa armada, dano qualificado sobre o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
Os advogados Pryscila Marins e Felipe Drumond são os convidados do Folha no Ar desta terça (25), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Eles falarão sobre o caso dos ataques racistas (confira aqui, aqui, aqui e aqui) do advogado José Francisco Barbosa Abud contra a juíza Helenice Rangel Gonzaga Martins, titular da 3ª vara Cível de Campos, em caso que ganhou repercussão nacional.
Pryscila e Felipe também tentarão projetar o julgamento, na 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros sete denunciados (confira aqui e aqui) pela Procuradoria Geral da República (PGR) pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, formação de organização criminosa armada, dano qualificado sobre o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
Advogado José Francisco Barbosa Abud foi alvo de queixa-crime da Amaerj por injúria contra a juíza Helenice Rangel Gonzaga Martins, da 3ª vara Cível de Campos (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Com advogados da Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj), a juiza Helenice Rangel Gonzaga Martins, titular da 3ª vara Cível de Campos, apresentou queixa-crime por injúria, no 1º Juizado Especial Criminal de Campos, contra o advogado José Francisco Barbosa Abud (OAB/RJ 225313). Ele fez ataques racistas (confira aqui, aqui e aqui) a magistrada, em caso que ganhou repercussão nacional.
Em petição à juíza, por conta de uma ação de anulação de testamento, tendo como um dos herdeiros a mãe do advogado, este escreveu: “a Magistrada afrodescendente com resquícios de senzala e recalque ou memória celular dos açoites” e “Excelentíssima em tendências reprimidas(…) de uma infância devassada por parentes próximos que perpetuam abusos mais do que comuns a primatas ou primitivos”, entre outras ofensas de claro teor racial.
A queixa-crime por injúria, no entanto, se refere a um e-mail enviado em 30 de outubro de 2024, entre os mais de 20 que o advogado enviou à 3ª Vara de Campos, em que chama a juíza de “burocrata prevaricadora”. No que a queixa-crime pediu enquadramento por injúria no Art. 140 do Código Penal, com pena de 1 a 3 anos de prisão. Que, pelo Art. 141, pode crescer em 1/3 por ser injúria contra funcionário público.
Além da questão criminal, a queixa-crime pediu também a fixação de um valor mínimo de indenização por danos morais do advogado contra a juíza.
Atualização às 9h49 de 24/03 para corrigir a informação: a autora da ação por injúria foi a própria juíza Helenice Martins, por meio de advogados da Amaerj, não a Associação, como informado inicialmente na noite de ontem.
George Foreman, campeão do mundo peso pesado de boxe aos 45 anos e dono do direto de direita mais devastador da história do esporte
Cresci com as histórias do boxeador George Foreman. Desde criança, eram contadas por meu pai, o jornalista Aluysio Barbosa. Fã de boxe, ele sempre creditou ao pugilista texano o soco mais devastador da história do pugilismo. Que levou na noite de ontem (21) consigo, quando morreu aos 76 anos, em um hospital da cidade de Houston, mais populosa do Texas.
Antes das facilidades do YouTube, criado apenas em 2005, podia apenas imaginar as histórias que meu pai contava. De um Golias capaz de quebrar o braço do boxeador brasileiro Luiz Faustino Pires com um soco, em 1971. E, da mesma forma, tirar da lona os dois pés do então campeão peso pesado Joe Frazier, numa das seis quedas que lhe impôs para levar seu cinturão em 1973.
Mas a grande história que meu pai me contava sobre Foreman, talvez a maior do boxe, era a luta dele, campeão, contra Muhammad Ali, ex-campeão e 7 anos mais velho. Realizada em Kinshasa, capital do Zaire, hoje Congo, ficou conhecida como “The Rumble in the Jungle” (“O Estrondo na Selva”). Na qual Ali usou a inteligência para nocautear a força e reconquistar o cinturão.
Cresci em meio a essa mitologia repassada por tradição oral. Até que soube que Foreman, após abandonar o boxe em 1977, com apenas 28 anos, para se tornar pastor cristão, tinha voltado aos ringues, aos 38 anos. Foi em 1987, quando eu já tinha 15 e acompanhava o boxe atraído pela carreira do então jovem e fulgurante campeão peso pesado Mike Tyson.
Quando Foreman voltou, ninguém poderia supor que seria nada além de uma curiosidade saudosista. Até que 29 lutas depois, com mais 27 vitórias, 25 por nocaute, e apenas duas derrotas por pontos, Foreman chocou o mundo em 1994. Quando se tornou o campeão peso pesado até hoje mais velho da história do boxe, com 45 anos e 10 meses de idade.
Assisti àquela luta, ao vivo, pela TV, com meu pai. Na qual Foreman nocauteou o então invicto campeão canhoto Michael Moorer, de 28 anos. Que, com a rapidez da idade e técnica, vinha castigando nos anos 1990 o rosto da lenda dos anos 1970.
Até que, no intervalo do 9º ao 10º, em seu corner, com seu cantado sotaque texano, Big George disse aos seus também lendários treinadores Cus D’Amatto e Archie Moore: “Push me don’t more” (“Não vai mais me golpear”). E voltou para, a 57 segundos do fim da luta, nocautear o campeão 17 anos mais novo com seu velho direto de direita.
Da carreira após seu retorno em 1987, duas outras lutas de Foreman também foram marcantes. Em 1990, contra outro brasileiro, Adilson Maguila, a quem nocauteou no 2º round. A outra, na derrota por pontos para Evander Holyfield, em 1991. Que foi, entre as lutas que vi, a mais épica na sucessão de vezes que um esteve para nocautear o outro e ser nocauteado.
Naqueles anos 1990, outro dado revela o temor que o poder nocauteador de Foreman, mesmo aos 40 anos, gerava em grandes campeões muito mais novos. Entre eles, Holyfield foi o único com coragem para encarar e vencer Big George por pontos. Enquanto Tyson e o inglês Lennox Lewis sempre fugiram dos riscos inevitáveis desse confronto.
Campeão peso pesado de boxe aos 45 anos, Foreman também ficaria famoso pela defesa do cheeseburguer em sua dieta de atleta veterano e pelas grelhas com seu nome para prepará-lo. E faria mais quatro lutas de defesa do título. Que perdeu em controversa decisão por pontos, aos 48 anos e 10 meses de idade, para Shannon Briggs, de 26, em 1997.
Foreman ainda era campeão quando ele e Ali foram aplaudidos de pé por Hollywood em 1997. Quando o filme “Quando Éramos Reis”, de Leon Gast, recebeu o Oscar de melhor longa de documentário. Lançado só em 1996, registra a histórica luta de 1974 entre as duas lendas do boxe, e seus bastidores, no coração da África tropical.
Campeão olímpico peso pesado pelos EUA em 1968, na Cidade do México, Foreman foi um dos maiores pugilistas dos anos 1970. Quando compôs a era de ouro da categoria peso pesado no esporte, numa trindade encabeçada por Ali e ladeada por Frazier. E voltou da aposentadoria para fazer nos anos 1990, aos 45, o que ninguém jamais fez no boxe, antes ou depois.
O boxe tem uma semelhança com o futebol. Que talvez seja o grande atrativo de ambos entre os fãs do mundo: a capacidade de definir o confronto num único golpe. Egresso de um tempo sem fisiologia, musculação ou anabolizantes, em que a suplementação alimentar se resumia a um cheeseburguer, ninguém teve essa capacidade como Big George Foreman.
Advogado José Francisco Abud, Fórum de Campos e a juíza da 3ª Vara Cível, Helenice Martins (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Racismo de Campos ao Brasil
Na quinta (20), infelizmente, mais uma vez Campos virou (confira aqui) notícia em todo o Brasil por motivo torpe. Em petição do advogado José Francisco Barbosa Abud (OAB/RJ 225313), seus ataques de caráter abertamente racista contra a juíza Helenice Rangel Gonzaga Martins, titular da 3ª vara Cível da comarca, provocaram revolta nacional.
OAB quer exclusão de advogado
“A Magistrada afrodescendente com resquícios de senzala e recalque ou memória celular dos açoites” foram algumas das palavras endereçadas pelo advogado à juíza. Foi tão inadmissível, que a própria Ordem dos Advogados do Brasil do Estado do Rio de Janeiro (OAB-RJ), conhecida por seu espírito de corpo, ontem (21) pediu (confira aqui) a exclusão do causídico dos seus quadros.
“Moralmente inidôneo”
“A exclusão representa a cassação do registro profissional do advogado. De acordo com o parecer da Corregedoria, o profissional citado praticou conduta incompatível com a advocacia, tornou-se moralmente inidôneo para o exercício da advocacia e praticou crime infamante, que gerou comoção na sociedade”, explicou ontem a assessoria da OAB-RJ.
MPRJ e 134ª DP investigam
Também ontem, a assessoria do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) informou “que a representação relativa ao caso de possível prática de racismo por um advogado contra uma juíza foi recebida e encaminhada à Promotoria de Justiça de Investigação Penal”. Enquanto a Polícia Civil confirmou que abriu inquérito na 134ª DP.
TJ-RJ: “afronta à dignidade humana”
Um dia antes, na quinta (20) em que a notícia foi divulgada em Campos e no Brasil, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) foi o primeiro a emitir nota oficial sobre o caso: “Além de atingir diretamente a honra pessoal e profissional da magistrada, representa uma grave afronta à dignidade humana e ao exercício democrático da função jurisdicional”.
OAB-Campos: “retrocesso”
Antes da OAB-RJ acionar ontem sua Corregedoria, a OAB-Campos também abandonou na quinta qualquer espírito de corpo em defesa do espírito humano: “As condutas racistas, machistas e quaisquer outras formas de violência são contrárias aos valores da profissão(…) Não podemos admitir tamanho retrocesso em nosso tempo”.
Amaerj: “inaceitável”
Ainda na tarde de quinta, a Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj) também divulgou nota oficial: “o advogado apresentou conduta discriminatória e desrespeitosa, com o uso de palavras de baixo calão, racistas e injuriosas. Esse caso é inaceitável. Racismo é crime e deve ser combatido por toda a sociedade”.
Direitos da Mulher
Ontem, antes de a OAB-RJ divulgar que acionou sua Corregedoria para a exclusão do causídico, o Centro Especializado de Atendimento à Mulher (Ceam) Mercedes Baptista e a subsecretaria da Mulher de Campos também divulgaram nota. Em que manifestaram juntos o seu repúdio.
“Direitos fundamentais”
“O racismo não pode ser tolerado em nenhuma esfera da sociedade, especialmente no sistema de justiça, que deve ser um espaço de equidade, respeito e compromisso com os direitos fundamentais”, pregaram as instituições municipais dedicadas aos Direitos da Mulher.
Karma de Campos?
Além da resposta institucional, os ataques racistas do advogado contra a juíza foram também o assunto em todas as rodas de conversas em Campos, desde que o caso explodiu na quinta. Quando se tornou quase inevitável a lembrança do suposto karma — relativo à lei de causa e efeito das fés budista, hinduísta e espírita — da cidade com o seu passado escravocrata.
Referências estapafúrdias
A petição com os ataques racistas traz também uma salada de frutas de referências estapafúrdias: “Déspota infiltrado por facção criminosa denominada PCC no Supremo Tribunal Federal (stf); indivíduo que servirá apenas como uma cobaia da Empresa NEURALINK como nos experimentos do Sr. Josef Mengele”, escreveu também o advogado.
Com sua empresa Nerurolink citada por advogado de Campos em petição de cunho racista contra juíza, o sul-africano Elon Musk imita a saudação nazista na posse de Donald Trump como presidente dos EUA, em 21 de janeiro, a quem serve como chefe do departamento de “Eficiência Governamental”
Josef Menguele, o “Anjo da Morte” do campo de concentração nazista de Auschwitz
Moraes, Musk e Mengele
A salada de frutas lembrou o pomar das teorias da conspiração das bolhas políticas da extrema direita. Em aparentes referências ao ministro do STF Alexandre de Moraes e a Elon Musk, dono da empresa Neuralink. Como na referência direta a Mengele, médico e carrasco nazista do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia ocupada pela Alemanha na II Guerra.
Desumanização
Os nazistas só puderam assassinar 6 milhões de judeus em campos de concentração e extermínio porque conseguiram desumanizar, aos olhos do povo alemão, suas vítimas. Como feito com os pretos nos 388 anos de escravidão no Brasil. Ou por quem, ainda hoje, é capaz de supor que pretos, índios, pardos, pobres, nordestinos e/ou homossexuais são sub-humanos.
Tentou bestializar juíza
Uma das formas mais cruéis de racismo, usada pelos nazistas com os judeus e os europeus com os africanos, é a bestialização: tirar a natureza humana para animalizar. Como o advogado tentou com a juíza: “Excelentíssima em tendências reprimidas(…) de uma infância devassada por parentes próximos que perpetuam abusos mais do que comuns a primatas ou primitivos”.
Fórum de Campos, batizado com o nome da falecida juíza Maria Tereza Gusmão Andrade
Com Júlia Alves e Ingrid Silva
Advogado José Francisco Barbosa Abud (Foto: Site do OAB)
“Ainda que em breve observação a Magistrada afrodescendente com resquícios de senzala e recalque ou memória celular dos açoites”. Foi assim que o advogado José Francisco Barbosa Abud (OAB/RJ 225313) apresentou petição (confira sua íntegra aqui, no site jurídico Migalhas) à juíza Helenice Rangel Gonzaga Martins, titular da 3ª Vara Cível de Campos.
O caso de claro teor racista ganhou a mídia nacional hoje (20), a partir da manifestação do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), firme (confira aqui) em defesa da magistrada:
Nota oficial do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ)
TJ-RJ
— O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro repudia as manifestações racistas direcionadas à magistrada Helenice Rangel, titular da 3ª Vara Cível de Campos dos Goytacazes. As declarações proferidas pelo advogado José Francisco Abud são incompatíveis com o respeito exigido nas relações institucionais e configuram evidente violação aos princípios éticos e legais que regem a atividade jurídica — pronunciou-se hoje o TJ-RJ em nota oficial.
— Tal comportamento, além de atingir diretamente a honra pessoal e profissional da magistrada, representa uma grave afronta à dignidade humana e ao exercício democrático da função jurisdicional. O Tribunal se solidariza com a juíza Helenice Rangel e informa que encaminhou o caso ao Ministério Público e à Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Rio de Janeiro (OAB/RJ), para apuração rigorosa das responsabilidades nas esferas criminal e disciplinar — seguiu sua manifestação o TJ fluminense.
— Reitera-se o compromisso permanente contra qualquer forma de discriminação ou preconceito, sobretudo o racismo, prática criminosa que deve ser amplamente repudiada e combatida por toda a sociedade — concluiu sua nota o TJ-RJ.
Nota oficial da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Campos
OAB Campos
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Campos também se posicionou em nota oficial (confira aqui) sobre o caso:
— Em virtude do evento ocorrido na 3ª Vara Cível da Comarca de Campos dos Goytacazes, a 12ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil manifesta repúdio aos atos praticados. As condutas racistas, machistas e quaisquer outras formas de violência são contrárias aos valores da profissão, devendo ser tratadas com máximo rigor. Não podemos admitir tamanho retrocesso em nosso tempo — advertiu a nota da OAB goitacá.
— Reafirmamos o compromisso desta Casa no enfrentamento a todas as formas de discriminação, com princípios da Advocacia e o respeito ao Estado Democrático de Direito. O Processo ético e disciplinar já está instaurado e é sigiloso. A 12ª Subseção da OAB/RJ presta solidariedade à Douta Magistrada e a todas as pessoas atingidas por este ato inaceitável — concluiu a nota da OAB-Campos.
Referência a empresa de Elon Musk e ao “Anjo da Morte” nazista
Com sua empresa Nerurolink citada por advogado de Campos em petição de cunho racista contra juíza, Elon Musk imita a saudação nazista na posse de Donald Trump como presidente dos EUA, em 21 de janeiro
Em outro trecho da sua petição à juíza de Campos Helenice Martins, o advogado fez mais ataques de claro cunho racista. Quando falou de “decisões prevaricadoras proferidas por bonecas admoestadas das filhas das Sinhás das casas de engenho”.
Em outro trecho, o causídico também pediu que a magistrada “indefira pedido em Decisum infundado em desfavor a legislação incontestável supramencionada, amparada para seu julgamento pessoalmente subjetivo em déspota infiltrado por facção criminosa denominada PCC no Supremo Tribunal Federal (stf); indivíduo que servirá apenas como uma cobaia da Empresa NEURALINK como nos experimentos do Sr. Josef Mengele”.
Além de ecoar fake news e teorias da conspiração da internet geralmente associadas às bolhas políticas da extrema direita, a referência do advogado foi à Neuralink, empresa neurotecnológica que cria interfaces cérebro-computador (ICs) implantáveis. E pertence ao empresário sul-africano Elon Musk, atual chefe do departamento de “Eficiência Governamental” do governo Donald Trump nos EUA.
Josef Mengele, o “Anjo da Morte” do campo de concentração nazista de Auschwitz na II Guerra, morreria no Brasil, em 1979
Já a referência a (Joseph) Mengele é ao médico nazista conhecido como “Anjo da Morte”. Por sua atuação e experiências genéticas desumanas com os prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia ocupada pela Alemanha nazista de Adolf Hitler durante a II Guerra Mundial (1939/1945). Após fugir da Europa, Mengele veio incógnito para a América do Sul. Onde morreria em 1979 impune por seus crimes contra a humanidade, afogado na praia de Bertioga, no litoral de São Paulo.
Além de suas referências internacionais, o advogado também usou sua petição para atacar um(a) servidor(a) de gabinete da magistrada, em outro trecho de cunho racial e até de aparente bestialização (perder a natureza humana para animalizar-se):
— Com sério agravante de agir coagidamente e sob forte influência de subordinado(a) servidor de Gabinete de mesmo endereçamento continental e de similares, destoando da Excelentíssima em tendências reprimidas provavelmente resultante (causa e efeito) de uma infância devassada por parentes próximos que perpetuam abusos mais do que comuns a primatas ou primitivos, nada estranho a nossa natureza perversa e indiferente; aqui fica uma “pintura” de que “ainda somos os mesmos/ e vivemos como ““Neandertais””; retornando ao que é essencial a essa ficção, reivindico o deferimento de integração na demanda — escreveu o causídico.
A petição do advogado foi direcionada à 4ª Vara Cível de Campos, do juiz Leonardo Cajueiro D Azevedo, após a juíza racialmente atacada declarar-se suspeita para julgar o caso. Por sua vez, Cajueiro oficiou ao Ministério Público, diretamente ao gabinete do Procurador-Geral de Justiça, para que seja instaurado procedimento criminal para apuração dos possíveis crimes de racismo, injúria racial e apologia ao nazismo.
Nota oficial da Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj)
Na tarde de hoje, a Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj), também soltou nota oficial (confira aqui) sobre o ocorrido. Assinada pela presidente da instituição, a juíza Eunice Haddad, ela foi feita em apoio à juíza Helenice Martins, da 3ª Vara Cível de Campos:
— A Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj), instituição que reúne cerca de 1.200 desembargadores e juízes fluminenses, manifesta apoio integral à juíza Helenice Rangel Gonzaga Martins, titular da 3ª Vara Cível da Comarca de Campos dos Goytacazes. A Amaerj repudia veementemente o ataque racista praticado pelo advogado José Francisco Abud contra a magistrada do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) — disse a nota da Associação dos Magistrados. Que seguiu:
— Por petição e e-mails, o advogado apresentou conduta discriminatória e desrespeitosa, com o uso de palavras de baixo calão, racistas e injuriosas. Esse caso é inaceitável. Racismo é crime e deve ser combatido por toda a sociedade. Desde o ocorrido, a Amaerj vem atuando em defesa da magistrada na adoção das medidas judiciais cabíveis. A Associação se solidariza com a juíza Helenice Rangel Gonzaga Martins e reitera o apoio ao trabalho dedicado e de alta qualidade realizado pela magistrada — concluiu a nota da Amerj.
Atualização às 17h15 para acrescentar a nota da Amaerj.
Jornalista, ex-governador duas vezes do RJ, ex-senador e ex-presidente da Alerj, Sérgio Cabral Filho (MDB) é o convidado para fechar a semana do Folha no Ar nesta sexta (21), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.
Ele tentará projetar as eleições a governador do RJ em outubro de 2026, com base nas pesquisas e movimentações mais recentes (confira aqui e aqui), daqui a pouco mais de 1 ano e meio.
Cabral também analisará o papel que lideranças políticas de Campos, como o atual presidente da Alerj, deputado Rodrigo Bacellar (União), e o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (PP), têm e podem ter no cenário estadual.
Por fim, analisará o papel que o Judiciário tem cumprido na política brasileira. Da Lava Jato, pela qual ele e o hoje presidente Lula (PT) foram presos, à denúncia (confira aqui e aqui) da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros 33 acusados no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
Professor de História da rede pública e doutorando em História na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), Eraldo Duarte é o convidado do Folha no Ar desta quinta (20), ao vivo, a partir das 7 da manhã.
Ele falará como é ser politicamente de direita ao cursar e lecionar num curso de humanas na rede pública de ensino. E tentará analisar o bolsonarismo pela ótica de quem viu o fenômeno do lado de dentro e de fora.
Por fim, Eraldo falará do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros 33 acusados de tentativa de golpe de Estado, do governo Lula 3 e das eleições de 2026.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
Bolsonaro no sábado de Copacabana (Foto: Alexandre Cassiano/O Globo)
Quantos com Bolsonaro em Copa?
Qual o público real da manifestação pró-anistia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), no último sábado (15) em Copacabana? Os 18,3 mil contabilizados pela Universidade de São Paulo (USP)? Os 30 mil calculados por imagens pela DataFolha? Ou os 400 mil anunciados pela PM comandada pelo governador Cláudio Castro (PL), aliado de Bolsonaro e presente ao evento?
Bem abaixo da expectativa
Nos bastidores, nem os bolsonaristas confiaram na conta da PM de Castro. E calcularam o público de Copacabana entre 70 mil e 130 mil pessoas. Qualquer que tenha sido o número real, foi menos do que Bolsonaro, quando era presidente, conseguia colocar nas ruas. E, certamente, bem menos do que o 1 milhão que contava ter no sábado.
Enfraquecido para o STF
Com perspectiva de se tornar réu, mais 33 acusados de tentativa de golpe de Estado pela Procuradoria-Geral da República (PGR), na sessão da 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) da próxima terça (25), Bolsonaro quis mostrar força. E saiu de Copacabana enfraquecido. Como sua pauta no Congresso por uma anistia a crimes pelos quais sequer foi julgado.
Sem motivo para celebrar
Pode ser cedo para o governo Lula 3 celebrar. Em queda de popularidade em todas as pesquisas, o atual presidente e o PT estão distantes do tempo em que dominavam as manifestações de rua no Brasil. Nos 21 anos entre o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992; e as Jornadas de Junho de 2013, no governo Dilma Rousseff (PT).
Esquerda leva metade?
O pastor Silas Malafaia não pareceu errado ao rebater as críticas à baixa adesão popular a Bolsonaro no sábado: “Quero ver a esquerda levar metade”. Ainda assim, o bolsonarismo colheu outro revés ontem (18). Quando Eduardo Bolsonaro (PL) se licenciou do mandato de deputado e desistiu de ser presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara Federal.
Asilo por quê?
Eduardo decidiu continuar nos EUA. Onde já quis ser embaixador do Brasil, mas também não conseguiu, e está desde o final de fevereiro. Ontem, Jair comentou a decisão do filho 03. Após Copacabana e antes do STF, não pareceu otimista: “Ninguém falou em asilo (político) ainda. Mas se for o caso, ele (Eduardo) pede. Ele pede e o Trump dá imediatamente para ele”.
Lagoa alongada de Iquipari com o Porto do Açu ao fundo (Foto: Divulgação)
Deputado denuncia Porto
Deputado estadual do Psol, Flavio Serafini protocolou na última sexta (14), no Ministério Público Federal (MPF) de Campos, uma representação contra o Porto do Açu, responsável pela Reserva Caruara. Segundo ele, para garantir o acesso da população do 5º distrito de São João da Barra (SJB) a bens naturais públicos, como a Lagoa de Iquipari e a Praia do Açu.
Ausência?
O deputado disse que, apesar de audiências públicas na Câmara Municipal de SJB e na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), a empresa teria se recusado a comparecer. Além da questão do acesso, a denúncia ao MPF também fala da contaminação do ar e da água por sal e outros minérios.
Medidas arbitrárias?
— É inaceitável que, mesmo previsto no Plano de Manejo da Reserva Caruara, o acesso à Lagoa de Iquipari tenha sido fechado aos moradores do 5º Distrito. Também é grave que a empresa se esquive do debate público no Legislativo. Esperamos que o MPF acolha a denúncia e que a Justiça reverta essas medidas arbitrárias do Porto do Açu — disse Serafini à coluna.
Palavra do Porto (I)
— O fechamento do acesso foi comunicado em 28 de fevereiro de 2023 ao Legislativo municipal. E informado previamente à comunidade, logo após a identificação de danos provocados por terceiros que acessavam o local, de forma indevida, para realizar caça e pesca predatórias na Lagoa de Iquipari — justificou a assessoria da Reserva Caruara do Porto do Açu.
Palavra do Porto (II)
— O acesso à lagoa não foi proibido. Continua sendo exercido pela população e pescadores artesanais. Como gestora e responsável pela unidade de conservação, a Reserva Caruara cumpre a sua obrigação legal de assegurar o cumprimento do seu Plano de Manejo, aprovado pelo órgão ambiental — completou a assessoria em nota enviada ao Ponto Final.
Morreu (confira aqui) na manhã de ontem (18) o comerciante Afrânio de Abreu, aos 77 anos. Dono do Bar do Afrânio, há mais de 30 anos no cruzamento das ruas Barão de Miracema e Gil de Góis, no Centro de Campos, faleceu de parada cardíaca, decorrente de uma pneumonia, no Hospital da Unimed. Seu corpo (confira aqui) foi velado e sepultado na tarde de ontem, no Campo da Paz.
Pirica de DJ
Considerado por muitos boêmios como o melhor botequim “pé sujo” de Campos, o estabelecimento era conhecido pela simpatia do seu proprietário e atendente. Como pela sua famosa jukebox. Onde gente como o falecido Marcelo Silva Martins, o icônico Pirica, morto (confira aqui e aqui) em 2022 aos 52 anos, costumava comandar noites e madrugadas como DJ informal do bar.
Cigarro e cerveja 24h
O Bar do Afrânio era um dos lugares mais democráticos da noite campista. Cujo dono tricolor atendia a todas as torcidas, muitas vezes reunidas para ver futebol no pay per view da sua TV. Como era também buscado por outra razão utilitária: era um dos poucos lugares para se comprar cigarro e cerveja depois que a maior parte do comércio da cidade já tinha fechado.
Clássico como Machado
Acolhedor, Afrânio também se impunha se alguém saísse (muito) da linha. Sempre com base no respeito que todos os clientes do bar tinham por ele. Embora poucos conhecessem a complexidade do homem. Ex-metalúrgico da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), era leitor de Machado de Assis. Protagonista de um clássico da boêmia goitacá, fará muita falta!