Alfredo Sirkis em visita a Campos, em 23 de setembro de 2010 (Foto: Antonio Cruz – Folha da Manhã)
Alfredo Sirkis, de 69 anos, morreu ontem (10), em acidente automobilístico na Baixada Fluminense. Viajava sozinho em direção à Via Dutra, quando seu carro saiu da pista, bateu em um poste e capotou. Filho único, estava a caminho de um sítio para visitar a mãe de 96 anos, em isolamento social por causa da pandemia da Covid-19. Iria também rever o filho, que concluiu mestrado nos EUA e estava com a avó. Político, ambientalista, urbanista, jornalista, escritor, Sirkis integrou a luta armada contra a última ditadura militar brasileira (1964/1985). E, como seu colega Fernando Gabeira, soube fazer bem a transição do marxismo dos anos 1960, que sonhava com a Revolução Cubana de 1959, para uma esquerda libertária, não sectária e humanista. Que, na compreensão do homem como parte e inquilino da natureza, não seu proprietário por direito divino, ganha cada vez mais poder político na Europa.
Como político, Sirkis foi candidato à presidência da República em 1998, pelo PV, partido do qual foi um dos fundadores em 1986. Foi vereador da cidade do Rio de Janeiro por quatro mandatos e deputado federal. O conheci pessoalmente ao entrevistá-lo (confira aqui) em setembro de 2010, quando ele fazia essa transição do parlamento carioca ao Congresso Nacional e coordenava a campanha de ex-senadora Marina Silva a presidente. Relendo agora aquela matéria, irônico constatar como ele classificava de “atitude facistoide” uma manifestação do PT em São Paulo, então no governo federal já por dois mandatos, contra a grande mídia brasileira. A mesma que agora é alvo diário do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seus defensores, chamados de “petistas de sinal trocado” pela ex-aliada e deputada estadual paulista Janaína Pachoal (PSL). Como é impressionante ler, 10 anos depois e com os fatos já consumados, que Sirkis alertava sobre o “fantasma do PMDB” semanas antes de Dilma Rousseff ser eleita presidente pela primeira vez, com Michel Temer como vice em sua chapa.
Entre os presidentes ditadores que tomou em armas para derrubar, aos presidentes legitimamente eleitos aos quais se opôs com as armas da democracia, antes de antever a queda de Dilma, Sirkis teve também papel involuntário, mas fundamental no impeachment de outro: Fernando Collor de Mello. Foi com base em seu livro “Os Carbonários” (1980), vencedor do conceituado Prêmio Jabuti de 1981, que a Rede Globo produziu e levou ao ar a minissérie “Anos Rebeldes” em 1992. Seu protagonista, o personagem João Alfredo, interpretado pelo ator Cássio Gabus Mendes em par romântico com Malu Mader, era o próprio Sirkis. No tempo em que a TV concentrava seu atual poder com o que hoje divide com as redes socias, a popularidade da minissérie foi considerada o estopim (confira aqui) para que os jovens “caras-pintadas” saíssem às ruas do Brasil. E derrubassem um populista voluntarioso que buscava unir conservadorismo e moralismo político com liberalismo econômico, eleito presidente para derrotar o fantasma do PT.
Do que pude apreender pessoal e profissionalmente, além de seu leitor, Sirkis era um homem íntegro, inteligente, articulado e profundo conhecedor dos bastidores da política do Brasil. Em que encontraram refúgio seu pais, imigrantes judeus da Polônia, país esmagado entre os totalitarismos de direita e de esquerda durante a II Guerra Mundial (1939/1945). Atualmente, era diretor executivo do Centro Brasil do Clima. Cargo que ocupou após ser exonerado da coordenação executiva do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima (FBMC) em maio de 2019, pelo presidente Jair Bolsonaro. Por uma vida rica que inspirou tanta gente, sempre em oposição aos dogmas de fé na política, sem medo da autocrítica e da revisão de rumos, Sirkis vai fazer muita falta.
Deputado federal Wladimir Garotinho, juízes Ralph Manhães e Glaucenir Oliveira, e delegado federal Paulo Cassiano (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
“A Justiça Eleitoral se manifesta nos autos”. Foi como o juiz estadual Ralph Manhães, que vai coordenar a Justiça Eleitoral (confira aqui) nas eleições municipais deste ano, reagiu às declarações do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD), dadas no final do programa Folha no Ar, na manhã de hoje (09). Ao vivo na Folha FM 98,3, o pré-candidato a prefeito questionou nominalmente o magistrado. Sem citar o nome, questionou também o delegado da Polícia Federal (PF) Paulo Cassiano, que chefiará as investigações eleitorais em Campos e outros 17 municípios do pleito de novembro. Procurado pela reportagem da Folha, ele preferiu não se pronunciar.
— O delegado de Polícia Federal da eleição passada (Cassiano), que conduziu a operação Chequinho, será o mesmo delegado responsável pela eleição em Campos. O mesmo juiz (Ralph) que participou ativamente da operação Chequinho, vai ser o juiz responsável pela fiscalização da eleição em Campos. Isso me preocupa como pessoa, como pai e como marido (…) Não quero que seja transferida para mim o que houve com a minha família e meu grupo político. Mas eu não estou seguro que isso não vai acontecer. Então, isso também pesa na minha decisão de ser candidato (a prefeito) ou não (…) Tenho essa preocupação: vou disputar uma eleição em que dois atores principais do que ocorreu com a minha família e meu grupo político, estarão mais uma vez à frente da eleição. O que me garante que não vá acontecer nada? (…) Na minha eleição de deputado federal (em 2018), o dr. Ralph Manhães, o juiz, que também vai participar da próxima eleição de prefeito, ele era juiz da propaganda. Ele tentou, de ofício, usurpando da sua competência, abrir um processo criminal de compra de voto e associação ao tráfico de drogas na minha eleição de deputado (…) Eu tive que recorrer ao TRE (Tribunal Regional Eleitoral), que disse que o dr. Ralph não tinha competência para abrir de ofício aquele inquérito. E curiosamente, misteriosamente, dr. Ralph manda um comunicado ao TRE, narrando fatos, que virou um processo, uma Aije (Ação de Investigação Judicial Eleitoral) que eu e (o deputado estadual) Bruno Dauaire (PSC) estamos respondendo (…) Em Campos existe essa situação que foi criada na eleição passada, do estilo bélico e combativo do meu pai, com setores do Judiciário campista, que eu tenho medo do que, de repente, se possa inventar contra mim — disse Wladimir ao Folha no Ar, cujo espaço foi em seguida franqueado ao vivo ao juiz Ralph Manhães e ao delegado Paulo Cassiano.
Antes de encerrar o programa de hoje, Wladimir também questionou outro magistrado de Campos, Glaucenir Oliveira. Ele foi afastado temporariamente das suas funções por decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de 3 de dezembro de 2019, em representação movida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. Que, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), decidiu monocraticamente a libertação do ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), então preso há 28 dias pela operação Caixa D’Água, em decisão de Glaucenir. Este, em grupo de WhatsApp, questionou a decisão de Gilmar, em áudio que vazou na mídia nacional e gerou a representação do ministro contra o juiz campista no CNJ.
— Teve outro juiz de Campos (Glaucenir) que acabou sendo afastado do seu cargo por dois anos, devido a denúncias que meu pai fez no CNJ. Então, assim, existe uma animosidade do Judiciário contra o meu pai, contra a minha família e contra uma parte do meu grupo político. Que, apesar de eu não ter o estilo bélico que meu pai tem, eu tenho medo como ser humano, como pai, como marido, que isso possa ocorrer. Não estou, em hipótese alguma, dizendo que vá ocorrer. Mas o histórico me leva a ter precaução — disse Wladimir. Lembrado na sequência que o afastamento temporário de Glaucenir se deu por uma representação de Gilmar Mendes ao CNJ, não de Garotinho, o deputado admitiu: “correto”.
Após o Folha no Ar de hoje, Glaucenir também foi procurado para se manifestar sobre sua citação por Wladimir. Após ouvir o áudio deste, o juiz esclareceu:
— Primeiro ponto: todas as minhas decisões foram mantidas no Rio, pelo TRE. Não me preocupo com as mudanças ocorridas em tribunais superiores, que fazem seu trabalho de acordo com o entendimento dos ilustres ministros, cujas decisões devo respeitar. Não tenho nada pessoal contra nenhum dos réus em processos que julgo, e nem poderia. Por isso preservo e muito minha independência e imparcialidade. Mas políticos confundem as estações, o que é evidente: são seus interesses pessoais. Mas, no exercício da função, tomo minhas decisões com rigor nos exatos termos da legislação e de minha consciência jurídica. Friso, não existe nenhuma animosidade minha com ninguém. Seja político, traficante, assaltante. A lei é para todos! Independente de posição social e econômica, e também política. Aplico a lei. Ponto final. Réus que não aceitam ou não concordem com decisões judiciais, podem exercer o direito a recurso e a uso banalizado da ação constitucional de habeas corpus. Não fui afastado das funções, temporariamente e não em definitivo, por denúncias do sr. Garotinho, mas por conta de polêmicas com sua exa. ministro Gilmar Mendes. Todos sabem os motivos. Não deturpem os fatos! E todas as ações e acusações do sr. Garotinho contra mim, em qualquer tribunal, foram julgadas improcedentes, como não poderia deixar de ser. Enfim, trabalho de magistrado é e deve ser respeitado. Só pra ressaltar, minha imparcialidade foi mais uma vez demonstrada quando eu indeferi um novo pedido de prisão do sr. Garotinho, pois não acatei os fundamentos do MP na ocasião. Isso foi amplamente divulgado. Poderia ter feito o contrário. Mas a seriedade da minha judicatura sempre fala mais alto.
A matéria com o resto da entrevista de Wladimir Garotinho ao Folha no Ar da manhã de hoje, junto à que dará o prefeito Rafael Diniz (Cidadania) na manhã desta sexta (09) na Folha FM, será publicada no sábado (11) na edição da Folha da Manhã e no site Folha1.
A partir das 7h desta sexta (10), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Rafael Diniz (Cidadania), prefeito de Campos e candidato à reeleição. Ele dará seu testemunho pessoal da infecção pela Covid-19 e, como gestor, no enfrentamento da pandemia pelo município, que só não causou mais danos por conta da instalação do Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC). Também analisará os pontos positivos e negativos do seu governo. E projetará suas perspectivas sobre a eleição a prefeito e vereadores de Campos, em 15 de novembro.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Professor da UFF-Campos, o sociólogo George Gomes Coutinho convida ao bate-papo, às 15 h desta quinta (09), sobre o lançamento do livro do colega Fabrício Maciel: “O Brasil-Nação como ideologia”. Os dois professores já honraram o blog com seus textos em mais de uma oportunidade. E você, leitor, poderá acompanhar a live que reunirá ambos aqui, numa promoção das Coordenações dos cursos de Ciências Sociais da UFF-Campos e do blog Autopoiese e Virtu.
Para quem busca compreender o Brasil, a visão dos dois sociólogos da planície goitacá, mesmo em eventual discordância, é sempre contribuição instigante.
Vídeo conferência na tarde de hoje reuniu Christino Áureo, Marcão Gomes, o ministro Tarcísio Freitas e Wladimir Garotinho (Foto: assessoria de Wladimir)
A elaboração de uma nota técnica do ministério da Infraestrutura sobre a concessão da BR 101-RJ à empresa Arteris, com o que foi descumprido no contrato e a arrecadação dos pedágios no trecho da rodovia, para abrir uma Comissão Externa da Câmara Federal. Esse foi o principal resultado prático da vídeo conferência da tarde de hoje (08) entre o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, e os deputados federais da região Christino Áureo (PP), Marcão Gomes (PL) e Wladimir Garotinho (PSD). Em 19 de maio a Arteris anunciou unilateralmente sua intenção de abandonar a concessão durante em plena pandemia da Covid-19, gerando revolta e reação (relembre aqui) dos municípios fluminenses cortados pelos 320 quilômetros da rodovia entre a ponte Rio/Niterói e a divisa com o Espírito Santo.
— O ministro Tarcísio acredita que seja uma concessão saneável, apesar dos descumprimentos flagrantes da Arteris. O governo federal está em negociação com a mesma empresa, na concessão do trecho Sul da BR 101 em Santa Catarina. A lei 13.448, editada em 2017, faculta a devolução da concessão. Mas o poder público, em suas três esferas, não é obrigado a aceitar. E pode cobrar judicialmente o cumprimento do contrato. Não dá para deixar impune seu descumprimento. Alguém tem que pagar por isso. E não pode ser o contribuinte. Para acompanhar esse processo, a Comissão Externa será formada na Câmara Federal — explicou Christino Áureo.
— Sabemos que existe legislação específicas que prevê a devolução da concessão. Mas a empresa tem que cumprir antes o que pactuou em contrato. A obra do Contorno em Campos está parada. Precisamos dela para facilitar o desobstruir o trânsito do Centro da cidade, com duas pistas auxiliares da entrada da cidade até o Shopping Boulverd. Que também já estavam previstas e a empresa nada executou até agora. Outra cobrança é pela obra do trevo de Travessão, que dá acesso ao município de São Francisco de Itabapoana. Também é necessária a obra de passagem de nível de Serrinha. É preciso dar continuidade à duplicação prevista no contrato, sobretudo na altura de Casemiro de Abreu. Sabemos que existe uma questão ambiental em discussão. Mas, queremos que a empresa entregue todas as obras pactuadas para segurança dos usuários — enumerou Marcão Gomes.
— Através de um pedido nosso, o Ministério da Infraestrutura vai nos encaminhar o diagnóstico atual da concessão. A pasta acredita que o contrato é sanável, com pequenas adaptações. Mas, caso não seja, terá que estruturar um novo contrato e leilão. Ao longo desses 10 anos da concessão, os usuários têm pagado caro ao passar por cinco pedágios. E agora a Arteris não quer cumprir as obras previstas no contrato, entre elas, o contorno rodoviário de Campos e a duplicação do trecho entre Macaé e Rio Dourado. Já havia solicitado ao ministério em dar duas opções a concessionária: ou compra-se o contrato ou pague a multa rescisória, pois assim o Governo Federal poderá realizar as obras que são importantes e que já deveriam ter sido feitas — cobrou Wladimir Garotinho.
A partir das 7h desta quinta (09) o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Wladimir Garotinho (PSD), deputado federal e pré-candidato a prefeito de Campos. Ele falará sobre a ameaça da Arteris (confira aqui) de devolver a concessão da BR 101-RJ, que será tema de vídeo conferência às 15h de hoje (confira aqui) entre ele e ouros representantes da bancada federal fluminense com o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas.
Wladimir também dará seu testemunho pessoal sobre a infecção pela Covid-19. E analisará a questão do hospital de campanha de Campos e a situação do governador Wilson Witzel (PSC), ameaçado de impeachment por supostos desvios na saúde em tempo de pandemia. No último bloco do programa, projetará o que espera das eleições municipais a vereador e prefeito de 15 de novembro.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Ameaça da Arteris de abandonar BR 101 será tema nesta quarta do ministro Tarcísio com os deputados federais Marcão, Wladimir, Christino e Gurgel (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Às 15h desta quarta (08), por vídeo conferência, o ministro da Infraestrutura Tarcísio Freitas terá uma reunião com os deputados federais da região Marcão Gomes (PL), Wladimir Garotinho (PSD) e Christino Áureo (PP), mais o presidente da bancada fluminense, Sargento Gurgel (PSL). O assunto será a concessionária Arteris, que em 19 de maio anunciou sua intenção em abandonar a BR 101-RJ, em plena pandemia da Covid-19.
O anúncio da Arteris gerou forte reação (relembre aqui) dos municípios fluminenses cortados pela principal estrada do país, bem como de seus representantes no Congresso Nacional. Entre eles Marcão, Wladimir, Christino e Gurgel, que marcou a vídeo conferência dos quatro com o ministro do governo Jair Bolsonaro (sem partido). Além da Arteris, estrá em pauta a duplicação na BR 101 prometida quando a empresa ganhou a concessão.
A partir das 7h desta quarta (08) o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador e empresário de Campos Luiz Alberto Neném (PSL). Ele falará da experiência pessoal da internação hospitalar para se tratar da Covid-19, do comércio e do poder público goitacá durante a pandemia, e das eleições municipais remarcadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para 15 de novembro.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Maior músico do cinema de todos os tempos, Ennio Morricone recebe o Oscar de 2016 de melhor trilha sonora original, por seu trabalho em “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino
A música está presente no cinema desde quando ele era mudo. Logo na primeira exibição pública da sétima arte pelos irmãos Lumiére, na Paris de 1895, um piano e um pianista faziam o fundo musical e davam ritmo às imagens na tela. E assim permaneceu por muito tempo, permitindo a um gênio renascentista como Charles Chaplin exibir seu talento, além de diretor, roteirista e ator, também como compositor. A história começou a mudar quando “O Cantor de Jazz”, considerado o primeiro filme falado e dirigido por Alan Crosland, estreou na Nova York de 1927. No ano seguinte, em 10 de novembro de 1928, nasceria em Roma o maior músico da história do cinema: Ennio Morricone. Que morreu hoje aos 91 anos, após 10 dias internado por uma fratura no fêmur, fruto de uma queda.
Entre as maiores duplas da história do cinema, Ennio Morricone e Sergio Leone
Morricone começou a compor com apenas 6 anos. Após tocar trompete em bandas de jazz na década de 1940, se tornou arranjador de estúdio para a gravadora RCA Victor. Em 1955, começou a compor para o teatro e em 1961, aos 33, assinou sua primeira trilha sonora para o cinema, no filme “O Fascista”, de Luciano Salce. O sucesso internacional viria naquela mesma década em que o rock dos Beatles e Rolling Stones revolucionava o mundo com a releitura britânica da música criada nos EUA. E o cinema teria seu gênero mais hollywoodiano, o “western”, reinventado na parceria entre dois mestres italianos: Morricone e o diretor Sergio Leone. Uma dupla tão afinada — e, talvez, mais genial — que John Lennon e Paul McCartney, ou Mick Jagger e Keith Richards.
Na mitologia dos EUA, o herói de John Wayne e o anti-herói de Clint Eastwood
Com a trilogia “Por um Punhado de Dólares” (1964), “Por uns Dólares a Mais” (1965) e “Três Homens em Conflito” (1966), Leone fundou o gênero “western spaghtetti”. Nele, o herói dos EUA na conquista violenta do Oeste do país continental, mitologia criada pelo cinema do mestre John Ford e encarnada entre os ombros largos do ator John Wayne, foi transformado em anti-herói. Latino de onde o latim foi ecoado ao mundo, Leone matou com um tiro à queima-roupa o moralismo anglo-saxão que separava o “mocinho” do “bandido”. E foi buscar nas séries de TV dos EUA um ator desconhecido que lançaria ao estrelato: Clint Eastwood. Seu pistoleiro sem nome, que protagonizou os três filmes, era inspirado no samurai sem senhor de “Yojimbo” (1961), do mestre japonês Akira Kurosawa.
Mesmo com a base em Ford e Kurosawa, e o carisma de Eastwood, a reinvenção de Leone só estaria completa com a música seca e minimalista de Morricone, que reforçava a aridez das paisagens da Europa em que as cenas da trilogia foram filmadas. Mesmo a quem não lembrar de nenhuma das suas cenas, ou sequer as tenha assistido, é impossível não ouvir o assobio da música tema e homônima de “Três Homens em Conflito”, sem associá-la imediatamente aos pistoleiros do “Velho Oeste” dos EUA. A trilha sonora ganhou uma força tal na cultura pop do mundo, que outra música do filme, “L’estasi dell’oro” (“O Delírio do Ouro”), acabou usada em shows por grandes de bandas de rock como Ramones e Metallica.
Outra das músicas de “Três Homens em Conflito” é “Morte di um soldato” (“Morte de um Soldado”). É dela o único som, além dos gemidos de um jovem soldado moribundo da Guerra Civil dos EUA e do relincho de um cavalo, em uma das cenas mais pungentes da história do cinema. Na qual Leone dialoga (confira aqui) com dois dos maiores poetas da literatura universal: o francês Arthur Rimbaud e o português Fernando Pessoa. Na dúvida, leia seus versos abaixo. Entre os dois poemas, veja a cena a que serviram de roteiro. E, sobretudo, ouça a música de Morricone:
Arthur Rimbaud por Pablo Picasso e Fernando Pessoa, por Almada Negreiros (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
O adormecido do vale
(Arthur Rimbaud)
Era um recanto onde um regato canta
Doidamente a enredar nas ervas seus pendões
De prata; e onde o sol, no monte que suplanta,
Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões.
Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,
E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,
Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,
Branco em seu leito verde onde chovia luz.
Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono
De uma criança que risse, enferma, no seu sono:
Tem frio, ó Natureza – aquece-o no teu leito.
Os perfumes não mais lhe fremem as narinas;
Dorme ao sol, suas mãos a repousar supinas
Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.
Outubro de 1870
O menino da sua mãe
(Fernando Pessoa)
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado —
Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
“O menino da sua mãe.”
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe
Lisboa, 1926
A parceria de Morricone seguiria na trilogia seguinte e derradeira de Leone, falecido em 1989: “Era Uma Vez no Oeste” (1969), “Quando Explode a Vingança” (1971) e “Era Uma Vez na América” (1981). O primeiro filme é considerado a obra-prima do cineasta. “Três Homens em Conflito” já traria diferenças na mesma música para os três personagens principais: flauta para Eastwood, oscarina (instrumento de sopro) para Lee Van Cleef e vozes a Eli Wallach. Mas em “Era Uma Vez no Oeste”, Morricone cria uma música própria para cada personagem entre os protagonistas interpretados por Claudia Cardinale, Henry Fonda, Charles Bronson e Jason Robards. O resultado é uma ópera do cinema. Mal recebido por público e crítica à época do seu lançamento, é hoje considerado o melhor western já feito.
Morricone nunca aprendeu a falar inglês ou deixou de morar em Roma. Nem deixou de compor trilhas sonoras para outros grandes diretores italianos, como para Gillo Pontecorvo, em “A Batalha de Argel” (1969); para Pier Paolo Pasolini, em “Teorema” (1968) e “Decameron” (1971); para Dario Argento, em “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1970); para Giuliano Montaldo, em “Sacco e Vanzetti” (1971); para Bernardo Bertolucci, em “1900” (1976); para Giuseppe Tornatore, a quem escreveria a música de todos os filmes desde “Cinema Paradiso” (1989). Mas foi o sucesso com seu maior parceiro no cinema, Sergio Leone, que levou o compositor a Hollywood.
Morricone fez trabalhos memoráveis, como em “A Missão” (1986), ficção sobre o massacre real dos índios na colonização da América do Sul. Dirigido por Roland Joffé, o filme foi ganhador da Palma de Ouro de Cannes. E uniu o talento dos grandes atores Jeremy Irons e Robert De Niro, com quem Morricone já havia trabalhado em “1900” e “Era Uma Vez na América”. Em 2017, o compositor italiano diria: “A música de ‘A Missão’ nasceu de uma obrigação. Tinha que escrever um solo oboé, se passava na América do Sul no século XVI, e tinha a obrigação de respeitar o tipo de música do período. Ao mesmo tempo, eu tinha que compor uma música que também representasse os índios da região. Todas as obrigações me prendiam. Mas também fizeram com que saísse algo claro”.
Como De Niro, Morricone teve outros ítalos-estadunidenses como parceiros assíduos em Hollywood. Com o diretor Brian De Palma, trabalhou em filmes como “Pecados de Guerra” (1989) e “Missão: Marte” (2000), após legaram outra obra-prima ao cinema: “Os Intocáveis” (1987). A música realça as grandes interpretações de Sean Connery, que lhe rendeu o Oscar de ator coadjuvante, Kevin Costner e, mais uma vez, De Niro, como o violento chefe mafioso Al Capone. Ganhador de um Oscar honorário pelo conjunto da sua brilhante carreira, em 2007, Morricone ainda teria tempo para ganhar outro pelo seu trabalho em “Os Oito Odiados” (2015). Emblematicamente, foi um western. E dirigido por outro ítalo-estadunidense, grande admirador do músico e do cineasta Sergio Leone: Quentin Tarantino.
Estive na Itália em julho de 2010, verão deles, quando visitei a “bela cidade de Verona”, como a classifica Shakespeare logo na abertura de “Romeu e Julieta”. Já sabia que a cidade tinha uma grande arena legada pelos antigos romanos, menor, mas mais conservada que o Coliseu, na Roma de Morricone. E reservei ingressos para assistir, no palco antes destinado a gladiadores, à ópera “Carmen” de Bizet. Era dirigida por outro grande nome do cinema italiano, Franco Zeffirelli. E foi um espetáculo grandioso, do qual nunca esquecerei. Mas deixou um dissabor: só quando já estava em Verona, descobri que, na semana seguinte, era Morricone quem se apresentaria na mesma antiga arena romana. Cheguei a tentar mudar o roteiro da viagem, para tentar ficar e assistir. Mas foi impossível mudar a logística e as reservas já feitas de hotéis por outras cidades italianas.
Irmãos Auguste e Louis Lumiére
Uma década depois, o maestro escreveu seu próprio obituário: “Ennio Morricone está morto. Anuncio a todos os amigos que sempre estiveram próximos de mim e também aos que estão um pouco distantes e os saúdo com muito carinho”. Em um ano de pandemia e perdas pessoais, a sua morte é sentida. Menos pelos 91 anos de uma vida plena. Que se difere pelo silêncio que sua última respiração não deixará; pela melhor música que o cinema foi capaz de produzir. Desde que um piano e um pianista acompanharam, há 125 anos, a primeira sessão dos irmãos Lumiére.
O pescador e os cães na Convivência, manhã de 06/07/20 (Foto de Ícaro Barbosa)
Semana aberta aos passos entre Atafona, a foz fechada do Paraíba e a Convivência. Fotos de Ícaro Barbosa.
Convivência, manhã de 06/07/20 (Foto de Ícaro Barbosa)
Atafona, manhã de 06/07/20 (Foto de Ícaro Barbosa)
“este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida”
(heráclito, d 30)
faces do mesmo
poderia ter usado a coroa do rei de éfeso,
mas renunciou à honra em favor do irmão.
prestar governo aos surdos, dever funesto,
aqui, agora, jônia européia há cinco séculos;
ou na ásia menor, meio milênio antes de cristo.
por iluminar seria, já aos antigos, o obscuro;
nada revelariam suas palavras de sibila,
não fosse a oposição do ouvido surdo,
como, sem tensão na corda, emudece a lira
e a do arco, por relaxada, inutiliza a flecha.
ao alcançar a outra margem, não era
mais o mesmo homem, nem mesmos
eram os rios atravessados, múltiplos
a desaguar no Um que a todos gera.
media a largura do seu pé pela do sol
por desconhecer outra grandeza ao passo
do homem entre a luz e a própria sombra.
domingos martins, 01/05/07
Cães na Convivência, com Atafona ao fundo, manhã de 06/07/20 (Foto de Ícaro Barbosa)
Com as perspetivas de vacinas apenas para dezembro e janeiro pode parecer que vamos falar de algo distante, mas entender, planejar e executar ações agora são a chave para sair com menos sequelas da pandemia do Covid-19, pois sem sequelas não sairemos de forma alguma, então precisamos mitiga-las para que o povo sofra pelo menor tempo possível.
Vou me ater a falar de ações em âmbito nacional, pois serão as medidas adotadas pelo Congresso e União que servirão para estados e municípios atacarem seus problemas no pós-pandemia.
Precisamos urgente debater e aprovar no segundo semestre as reformas administrativa e tributária. A primeira, precisa ser mais profunda do que já vinha se desenhando, ou praticamente todos os entes federativos não fecharão suas contas, devido ao tamanho da máquina pública. Já a segunda, a tributária, precisa ser progressiva, tirando impostos indiretos sobre o consumo, que ataca a classe média, e elevar as alíquotas para grandes fortunas e dividendos empresariais. Sim, alguém tem que pagar a conta e tem que ser no topo da pirâmide. Feitas essas duas reformas o Brasil precisa decidir sobre o que realmente quer propor sobre o pacto federativo, não dá mais para ir recursos ficarem concentrados na União e os serviços com os municípios sem o recurso necessário para fazer funcionar de maneira adequada. O que fazer? Sugiro que a União reassuma os serviços essenciais e de grande relevância, como saúde e educação. Faça um plano nacional e execute através do seu grande orçamento que é repassado a pinga gotas, através de emendas sempre insuficientes aos municípios brasileiros. Ou, então, faça valer de uma vez o discurso de campanha do presidente Jair Bolsonaro “Mais Brasil e menos Brasília” e faça o dinheiro ser descentralizado de uma vez para chegar na ponta onde o serviço é executado, onde de fato as pessoas vivem, as cidades. O risco disso, é o presidente descentralizar e transformar em uma guerra política e ideológica, acusando prefeitos e governadores de mau uso de recursos públicos. Seria uma briga sem vencedores e que atrapalharia ainda mais o Brasil.
A União vai precisar, por um bom tempo, abolir o discurso de equilíbrio fiscal e ser o estado brasileiro o grande propulsor da retomada da economia, fazendo investimentos nos agentes multiplicadores, tais como, obras de infraestrutura, programas de transferência de renda, programas de incentivo ao agro negócio e etc, gerando os empregos necessários e também gerando para si receitas oriundas da circulação de recursos do próprio governo e da iniciativa privada.
Procuro ser bastante realista e não faz parte do meu perfil vender ilusões ou criar cenários para agradar quem quer que seja, o que vejo a frente, infelizmente, é uma recessão profunda que só pode ser superada com unidade entre os diferentes. Se os políticos insistirem na velha tática do “nós contra eles”, temo que o “eles” continue sendo milhões de brasileiros.
Marcão Gomes, deputado federal de Campos
Complexo do Açu é estratégico no pós-pandemia
Por Marcão Gomes
No início desse ano, foi assinada por órgãos estaduais a licença de instalação para a segunda usina termelétrica da empresa Gás Natural Açu (GNA) no Complexo Portuário do Açu em São João da Barra. A primeira já está em construção e, com a conclusão da segunda usina, as duas farão com que o complexo termoelétrico seja o maior da América Latina, prometendo gerar muitos empregos para a nossa região.
A licença de instalação, na verdade, é uma das etapas do licenciamento ambiental, pois autoriza a construção do empreendimento. Além disso, fixa um cronograma para execução de eventuais medidas mitigadoras e para implantação de sistemas de controle ambiental que farão parte de todo o processo.
Vale lembrar que o Porto do Açu começou a operar em outubro de 2014 e, atualmente, é o maior ponto de apoio logístico para as operações que passam pela Bacia de Campos, usado por vários prestadores de serviços e também para o transbordo do petróleo, pois conta com uma localização geográfica privilegiada para essas áreas.
Podemos dizer que, em linhas gerais, as usinas termoelétricas são construídas para a geração de energia elétrica a partir de produtos combustíveis, como: óleo combustível, óleo diesel, carvão natural, bagaços, madeira, gás natural e até mesmo urânio enriquecido. Elas são um bom recurso estratégico para o setor elétrico do Brasil, pois suprem as necessidades energéticas, por exemplo, durante os períodos de seca, quando as hidroelétricas não conseguem atender a demanda da nossa população.
Vislumbro os empreendimentos no Complexo Portuário do Açu como de suma importância para alavancar a empregabilidade e ajudar na retomada da economia regional do pós-pandemia. Empreendimentos desse porte acabam atraindo a chegada de mais empresas, contribuindo para incrementar ainda mais a oferta de emprego e renda, reduzindo, assim, o desemprego e elevando o nível de renda das pessoas.
Para se ter uma ideia, segundo dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), do IBGE, a taxa de desemprego era de 12,6% em abril desse ano, mas os especialistas estimam que pode alcançar a marca negativa de 18% até o fim de 2020.
Enquanto a pandemia ainda é uma realidade, as soluções para a economia brasileira pós-pandemia ainda estão no campo das propostas. Mas, sem dúvida alguma, os empreendimentos localizados no Porto do Açu serão de muita importância nesse novo contexto, que fará parte de um futuro bem próximo da região Norte do Estado do Rio de Janeiro.
“Eduardo Paes (DEM) é franco favorito na eleição a prefeito do Rio em 15 de novembro”. Na manhã de ontem (03), em entrevista ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, foi o que apostou o deputado estadual Chico Machado (PSD), presidente da Comissão que analisa o pedido de impeachment do governador Wilson Witzel (PSC) na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). E Chico nem é correligionário ou aliado político do ex-prefeito carioca, pré-candidato a governar a cidade do Rio pela terceira vez. Nesta entrevista exclusiva à Folha, Eduardo Paes falou do legado das Olimpíadas de 2016 e demais realizações dos seus dois mandatos como gestor da capital fluminense. Admitiu o erro no projeto da ciclovia Tim Maia, que desabou a primeira vez em 2016 “e me causa muita dor, principalmente por aquilo que é irrecuperável, que é a vida de duas pessoas”. Equívoco que não enxerga ao ter insistido com a candidatura do deputado federal Pedro Paulo (DEM), seu aliado político, para sucedê-lo na Prefeitura do Rio em 2016, eleição vencida por Marcelo Crivella (Republicanos). A quem não poupou de críticas: “pode ter TV Record, Igreja Universal, máquina da Prefeitura, apoio do Bolsonaro, que eu te garanto que o Crivella não será reeleito. Ele foi, tem sido um péssimo prefeito para o Rio, incompetente, sem capacidade de compreender a cidade”.
Paes também alfinetou a deputada federal Clarissa (Pros), outra pré-candidata à Prefeitura do Rio: “Sorte de Campos, que tem um Garotinho a menos para enfrentar”. Como fez com os pais da parlamentar campista, os ex-governadores Garotinho (sem partido) e Rosinha (Pros). Ainda assim, ressalvou não ficar feliz com as prisões “nem do Garotinho, nem do Lula, nem do Cabral”, único dos três que continua na cadeia. O ex-prefeito carioca também lamentou o processo de impeachment enfrentado por Witzel, que o derrotou no 2º turno do pleito a governador de 2018. Mas lembrou: “Em alguns momentos eu até o chamei de ‘Kinder Ovo’. Mas vários dos aspectos que surgem hoje, eu apontei na eleição (…) isso só mostra que eu tinha razão, isso não é tarefa para pessoas que não têm experiência, não têm capacidade, que a gente não sabe nem quem é ou de onde veio”. Lacônico ao responder sobre as delações premiadas que o denunciaram por recebimento de dinheiro de caixa dois para campanha, Paes ressaltou ter “muito orgulho de marchar ao lado do deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ)”, presidente do Congresso Nacional. E reafirmou seu maior objetivo: “eu ainda vou ser governador do estado do Rio”. Missão na qual ressaltou a importância política de Campos, “uma cidade que eu adoro”, embora tenha preferido não opinar sobre sua eleição a prefeito.
(Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil)
Folha da Manhã – Como está a sua pré-candidatura a prefeito do Rio pelo DEM? Trabalha para vencer a eleição em turno único, como pesquisas chegaram a indicar, após o deputado federal Marcelo Freixo (Psol) desistir de disputar o pleito?
Eduardo Paes – Eu sigo muito animado com a pré-candidatura. É uma pré-candidatura que busca resgatar a autoestima do carioca, botar a Prefeitura para funcionar mais uma vez. Agora, eu não me animo nem com pesquisa que me coloca lá na frente, nem me deprimo com pesquisa que me coloca atrás. Então, se a eleição vai ter um turno, dois turnos, isso depende da população. Eu vou disputar eleição como sempre fiz, respeitando os meus adversários e lutando para vencer.
Folha – Campista, de uma das famílias mais tradicionais da política goitacá, a deputada federal Clarissa Garotinho também seria pré-candidata a prefeita carioca. Como você vê?
Paes – Eu acho que é um direito dela. Me parece que ela já mora no Rio há muito tempo. Enfim, é um direito dela ser candidata pelo Rio, ou por Campos, ou por qualquer lugar. Sorte de Campos, que tem um Garotinho a menos para enfrentar.
Folha – Prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos) é candidato à reeleição. Embora desgastado, tem a máquina municipal, o apoio da Record, da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) e do clã Bolsonaro, após seu partido ter abrigado o senador Flávio e o vereador carioca Carlos, filhos do presidente. Que peso isso pode ter no pleito?
Paes – Sim, eles também são donos da TV Record. Então, de fato, é muita máquina. A vantagem para os adversários do Crivella, o que é uma tragédia para o Rio, é que ele é muito ruim. Então, pode ter TV Record, Igreja Universal, máquina da Prefeitura, apoio do Bolsonaro, que eu te garanto que o Crivella não será reeleito. Ele foi, tem sido um péssimo prefeito para o Rio, incompetente, sem capacidade de compreender a cidade. Então, tenho certeza, o Rio felizmente vai mandar o Crivella de volta para casa; ou para a igreja dele.
Folha – Se a aliança entre Crivella, a Iurd e o clã presidencial for derrotada na cidade do Rio, seria um golpe nessa mistura entre religião e política? Especificamente no projeto de poder político cada vez mais claro dos pentecostais?
Paes – Olha se você perguntar uma qualidade que eu vejo no Crivella é ele ser um homem de fé, ter uma religião. Então eu não vejo como um golpe a derrota dele na mistura entre religião e política, não. É um golpe na incompetência, na incapacidade, no amadorismo no trato da coisa pública, no desrespeito, na falta de vontade e disposição em trabalhar pela cidade que o elegeu prefeito quatro anos atrás.
Folha – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não foi o primeiro a se aproximar dos evangélicos. O ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), apesar de comunista e ateu na juventude, foi precursor nisso. E Crivella, com o aval do tio, o “bispo” Edir Macedo, foi ministro da Pesca de Dilma Rousseff (PT), com o aval do ex-presidente Lula (PT). Como analisa?
Paes – É isso mesmo, é uma coisa curiosa. Você vê que a direita nessa eleição, supostamente conservadora, evangélica e contra os comunistas, é representada pelo Crivella, que foi ministro da Dilma. E a esquerda é representada por setores que trabalharam e apoiaram, por exemplo, a eleição a governador de Sérgio Cabral (MDB). Então, acho que isso é uma grande confusão. E, como o Crivella, a única qualidade que eu vejo no ex-governador Garotinho; e, neste caso, é a única mesmo; é o fato dele ser um homem de fé. Pelo menos eu quero crer que essa seja a única verdade que ele conta.
Folha – Lula, quando o PT era governo federal, também foi aliado do então governador Sérgio Cabral e de você, quando prefeito do Rio. O primeiro foi e o segundo continua preso por corrupção. O que pode dizer daquela relação de proximidade entre as três esferas de poder, que teve como marco as Olimpíadas de 2016? Qual o legado do evento à cidade?
Paes – Olha, enfim, todas as pessoas que cometeram desvios, crimes, estão respondendo pelos seus crimes. Há o caso do ex-governador Garotinho, que já foi preso aí seis ou sete vezes (na verdade, foram cinco vezes), infelizmente o caso do ex-governador Sérgio Cabral e do ex-presidente Lula. Eu não fico feliz com a prisão de nenhum deles, nem do Garotinho, nem do Lula, nem do Cabral; lamento que tenham cometido erros. A Olimpíada foi um evento fantástico para a cidade, deixou um enorme legado, com um aporte enorme de recurso da iniciativa privada na construção dos estádios olímpicos, com expansão da rede de metrô, com o Porto Maravilha, com a implantação de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) de BRTs (Bus Rapid Transit, ou ônibus de trânsito rápido). Então, quem conhece o Rio, sabe do fantástico legado deixado pelas Olimpíadas.
Folha – Todos que frequentam a cidade do Rio são capazes de notar as realizações das suas duas gestões. A maior delas talvez tenha sido derrubar o elevado da Perimetral, na descida da ponte Rio/Niterói, para revitalizar a zona portuária da cidade com o Aquário, o Museu do Amanhã e um boulevard com áreas de lazer, bares, restaurantes e atividades culturais. O ponto negativo talvez tenha sido a ciclovia Tim Maia, que teve desabamento de trecho a primeira vez em 2016, matando duas pessoas. Entre uma coisa e outra, qual a média?
Paes – Olha, nós realizamos muito. Além do Porto Maravilha, você tem 150 km de BRT, você tem 300 escolas; eu fiz mais escolas no Rio do que o Brizola fez Cieps; você tem 115 clínicas da família, novos hospitais. Foi um governo de muita realização. Infelizmente, a gente errou ao ter implantado aquela ciclovia, você tem ali um erro de projeto técnico. Mas a responsabilidade política é do prefeito. Eu era o prefeito à época e me causa muita dor, principalmente por aquilo que é irrecuperável, que é a vida de duas pessoas.
Folha – Você foi citado como destinatário de caixa dois em delações premiadas de Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade Azevedo Odebrecht, ex-executivos da Odebrecht; de Renato Pereira, ex-marqueteiro do MDB; e de Lélis Marcus Teixeira, ex-presidente da Fetranspor. O que pode dizer sobre esses três casos?
Paes – Eu só conheço os dois primeiros casos. E ambos não condizem com a verdade.
Folha – Na eleição a prefeito do Rio em 2016, você foi criticado por insistir com a candidatura do deputado federal Pedro Paulo (DEM) para sucedê-lo, após ele ser acusado de violência doméstica contra a esposa. O fato é que, no 1º turno, o centro se rachou entre ele e os candidatos Índio da Costa (PSD) e Osorio (PSDB). Juntos, os três fizeram 33,73% dos votos, mais que os 27,78% de Crivella, ou os 18,26% de Freixo. Que foram o 2º turno, vencido pelo primeiro. Não foi um erro estratégico previsível? Pode ter sido arrogância?
Paes – Olha, eu coloquei o melhor candidato para a cidade, apresentei o melhor candidato para a cidade, o mais preparado, o que tinha condições de enfrentar aquele momento de crise que o Brasil já vivia; a gente já vinha de um decréscimo do PIB de 7,5%. Em relação à acusação que ele sofreu, ele foi inocentado depois de uma investigação da Polícia Federal (PF), do Ministério Público Federal (MPF), a pedido do (ex-)procurador(-geral da República) Rodrigo Janot, que nunca deu mole para político nenhum, e no Supremo Tribunal Federal (STF). Então a notícia não era verdadeira, a acusação não era verdadeira, ele foi inocentado, mas esse foi um dos fatores que prejudicou a candidatura dele. Infelizmente, quem perdeu foi o Rio, tendo que ver o Crivella se converter nessa tragédia. Eu não diria que foi arrogância, não. Foi a crença que eu estava apresentando para a cidade o melhor candidato.
Folha – Da eleição de 2016 à de governador, em 2018, até que ponto o fenômeno Wilson Witzel (PSC), com um dígito nas pesquisas até a semana do 1º turno, mudou a política fluminense? Credita o que aconteceu ao apoio do bolsonarismo, sobretudo a partir de Flávio, e de alguns importantes pastores pentecostais, que apostaram na reta final, via redes sociais, no então desconhecido ex-juiz federal?
Paes – Olha, eu acho que ficou muito claro que a vitória do governador Witzel em 2018 se deve ao apoio do presidente Bolsonaro, da família Bolsonaro, a esse desejo das pessoas que aconteceu em 2018 pela “nova política”; ele era um desconhecido. Em alguns momentos eu até o chamei de “Kinder Ovo”. Mas vários dos aspectos que surgem hoje, eu apontei na eleição. Eu sinceramente torcia que, após a minha derrota, ele fizesse um bom governo. E lamento que a gente esteja vivendo a situação que estamos vendo. É muito ruim para um estado já tão dilacerado como o Rio de Janeiro, que tem todos seus ex-governadores presos, a começar pelo senhor Garotinho e a senhora Rosinha (Garotinho e Rosinha estão em liberdade desde 31 outubro de 2019).
Folha – No atropelo de Witzel, ele acabou o 1º turno com 41,28% dos votos, contra seus 19,56%. Você ainda conseguiu tirar boa diferença, perdendo o 2º turno com 40,13% dos votos, contra os 59,87% dele. Foi a derrota de um político experiente na vitória da antipolítica? Como olha para isso diante da possibilidade real e presente do governador sofrer um impeachment, pelo que foi revelado na operação Placebo?
Paes – Como eu disse anteriormente, eu não vejo com alegria, não; eu vejo com tristeza. Ele me derrotou, ele venceu a eleição, teve a maioria do apoio da população do estado. A partir do momento da minha derrota, eu a reconheci e torci para que ele fizesse um bom governo. O Rio não merecia, de novo, um governador que cometesse esse tipo de erro. Nós merecíamos um governador que estivesse produzindo. Claro, isso só mostra que eu tinha razão, isso não é tarefa para pessoas que não têm experiência, não têm capacidade, que a gente não sabe nem quem é ou de onde veio.
Página 2 da edição de hoje (04) da Folha
(Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil)
Folha – Witzel foi alvo da operação federal por um suposto esquema de superfaturamento e desvio de verbas da saúde, que usaria o escritório de advocacia da primeira dama para lavar dinheiro, envolvendo o empresário Mário Peixoto. É a mesma área, modus operandi e ator do esquema de corrupção de Cabral. O problema não parece ser estrutural?
Paes – Não acho que seja estrutural, não. Eu fui prefeito do Rio oito anos, sou casado, tenho pai advogado; enfim, não há qualquer pessoa que me acuse ou que me denuncie por esse tipo de prática. Acho que isso… infelizmente… eu espero e torço, e quero repetir aqui, espero e torço para que não seja verdade em relação ao governador Witzel.
Folha – Não é segredo que você mantém o objetivo de ser governador. Se eleito prefeito do Rio, há possibilidade deixar o cargo que já ocupou duas vezes para se candidatar em 2022? Todos os ex-governadores vivos do estado, Moreira Franco (MDB), Garotinho, Rosinha e Luiz Fernando Pezão (MDB), foram presos. Cabral ainda está. E o atual, Witzel não deve ter vida fácil pela frente. É uma sina fluminense? Como romper com ela?
Paes – Um dia eu ainda vou ser governador do estado do Rio, sim. Mas não será em 2022. Se eu me eleger prefeito, eu vou terminar meu mandato de prefeito. Não teria como fazer isso com a minha cidade. Mas não tenho dúvida de que eu queria muito dedicar a minha experiência para ajudar um estado tão rico, tão importante, com cidades importantes como Campos; com cidades tão importantes como Petrópolis, Teresópolis, Friburgo; cidades tão importantes como Volta Redonda, Barra Mansa e Resende; com uma região metropolitana que tem tudo para despontar, com uma cidade como São Gonçalo, que precisa de muita atenção do poder público. Um estado com um potencial como o nosso, é lamentável que a gente tenha esse tipo de governadores. Um dia, se Deus quiser, ainda vou ser governador e mostrar que o estado do Rio não precisa seguir essa sina, não; que a gente vai renovar isso. E, se Deus quiser, com a maioria dos votos de Campos, que é uma cidade que eu adoro.
Folha – Já falamos sobre os evangélicos na política. E seu DEM em Campos é controlado pelo pastor Eber Silva, ex-aliado de Garotinho, ex-deputado federal e pré-candidato a prefeito na cidade, que costura uma aliança com o SD do deputado estadual Rodrigo Bacellar às eleições municipais. Como vê esses movimentos? Prefeita de Quissamã e pré-candidata à reeleição, Fátima Pacheco é o quadro mais forte do seu partido no Norte Fluminense?
Paes – A eleição para governador é uma coisa, né? Você olha para o quadro todo. De prefeito, ela vai para especificidades locais. Então, eu não tenho, focado aqui na política municipal da cidade Rio de Janeiro, eu não tenho como dar opinião na política de qualquer outro município do estado. A não ser torcer para que os bons quadros se reelejam e a gente possa ter na política, vencendo as eleições municipais, gente preparada para governar.
Folha – Da planície goitacá ao Planalto Central, o DEM controla o Congresso Nacional com Rodrigo Maia na Câmara e Davi Alcolumbre (AP), no Senado. O primeiro vinha sendo apontado como principal anteparo institucional aos arroubos autoritários do bolsonarismo. Mas parece ter engessado após a aliança do presidente com o Centrão. Qual a sua leitura?
Paes – O Brasil deve muito ao deputado Rodrigo Maia. Eu diria que ele é o “Senhor Estabilidade”. Se não fosse Rodrigo Maia, nós não teríamos ultrapassado o governo Michel Temer (MDB), nós não teríamos vivido minimamente este primeiro ano e meio do governo Bolsonaro. Então, eu tenho muito orgulho de marchar ao lado do deputado Rodrigo Maia e acho que ele hoje é um fator de estabilidade e muita força no cenário político brasileiro. É necessária a presença dele na política nacional, e devemos muito a ele.
Folha – Como avalia a política de enfrentamento da pandemia da Covid-19 pelos governos Bolsonaro, Witzel e Crivella? O que faria diferente?
Paes – Faria muita coisa diferente, mas destacaria duas coisas. Primeiro, se eu fosse governador, eu não teria brigado com o presidente da República e estaria trabalhando em parceria com os vários prefeitos do estado do Rio de Janeiro, algo que não acontece neste momento. É um monte de prefeito brigando com o governador, que briga com o presidente, que briga com o prefeito; todo mundo brigando com todo mundo. Isto é muito ruim. O segundo aspecto e que eu agiria diferente é o fato de que nós temos no estado do Rio, mais especificamente na Região Metropolitana, mais de 1.800 leitos da rede estadual, municipal e federal, vazios, prontos para serem usados. E não havia a menor necessidade de se construir esses hospitais de campanha caríssimos e, pelo jeito, com uma série de desvios. Então, eu faria muita coisa diferente, mas destacaria essas duas.