De 2018 a 2020, Feijó avalia Rafael, Marcão, Wladimir e Joílson Barcelos

 

Deputado federal Paulo Feijó

 

“Se Joílson Barcelos vier a concorrer a prefeito em 2020, será algo legítimo e salutar para Campos. Saindo das grandes dificuldades em que encontrou a Prefeitura, Rafael vai ter que apresentar bons resultados para se reeleger em 2020. Se Wladimir se eleger deputado federal, seu projeto imediato vai tentar ser prefeito de Campos. A eleição de Marcão (também pré-candidato a federal) é muito importante para Rafael”.

Foi parte do que disse hoje um dos políticos mais experientes da região, o deputado federal Paulo Feijó (PR), sobre a coluna Ponto Final do último domingo (30), que tratou (aqui) da projeção da eleição de 2020, em Campos, a partir do pleito de outubro de 2018. Feijó desistiu de tentar a reeleição para apoiar a pré-candidatura de Marcão (PR) à Câmara Federal.

 

Confira a repercussão completa na edição de amanhã (31) da Folha da Manhã. 

 

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Bem e mal na política brasileira analisados pelo lado oposto

 

Existe um impeachment do bem e do mal no Fla x Flu da política brasileira? O sociólogo Fabrício Maciel respondeu com a inversão na mão ideológica: “como no caso do cidadão de bem que deve ser armado contra o bandido”. Ele é coordenador do Núcleo de Estudos sobre Desigualdade (Nuesde) da UFF-Campos, onde leciona. E lá tem feito um trabalho de pesquisa em entrevistas com executivos do Estado do Rio. A partir do material obtido, teceu uma série de considerações sobre os rumos da política nacional. E também falou sobre reforma da Previdência, Lava Jato e meritocracia. Defensor da esquerda e crítico do fenômeno Bolsonaro, ele buscou entender seu “discurso de rápida mobilização afetiva”.

 

Fabrício Maciel, sociólogo e professor da UFF-Campos (Foto: Divulgação)

 

Folha da Manhã – Qual o objetivo da pesquisa “O habitus corporativo: um estudo teórico e empírico sobre a origem de classe de executivos no Estado do Rio”. E quais foram suas conclusões?

Fabrício Maciel – O objetivo da pesquisa é mapear esta fração de nossa sociedade, procurando identificar e compreender principalmente a sua origem social, que na verdade é uma origem de classe. O termo executivo é genérico e se refere a diretores e gerentes de empresas de diversos níveis. Nós temos, até o momento, 30 respostas, que fazem parte da primeira fase da pesquisa, que é um survey respondido online pelos entrevistados. Com isso, pudemos identificar três níveis de executivos: (1) gerentes; (2) diretores; (3) CEOs, presidentes e vice-presidentes. O objetivo deste mapeamento é situá-los na estrutura de classes do capitalismo brasileiro contemporâneo. Um dos principais dados nesta direção é que a grande maioria nasceu, cresceu e vive atualmente em bairros nobres. A maioria é composta por homens, na faixa etária entre 31 e 66 anos, que se declaram brancos e heterossexuais. Aqui raça, classe e gênero precisam ser compreendidos articuladamente. A maioria dos entrevistados se identifica como pertencendo à classe média ou média alta. Isso é verdade, se considerarmos que existe uma elite no Brasil e no mundo hoje que é muito mais rica e poderosa do que estes executivos, de quem eles na verdade são empregados. Por outro lado, levando em conta que uma pessoa com o salário de 27.000,00 reais no Brasil hoje faz parte dos 10% mais ricos, podemos concluir que os executivos são uma espécie de “sub-elite”, em relação ao restante da população pauperizada. Esta definição precisa considerar, inclusive, que eles são os “empregados representantes do capital”, que organizam a dominação social do capitalismo atual através da reestruturação constante do mundo empresarial, o que é a principal função dos grandes executivos, que situo aqui no nível 3. Em resumo, o trabalho destes grandes executivos, que conta com o auxílio dos médios e pequenos (níveis 1 e 2) é defender e tentar ampliar o patrimônio da elite proprietária dos grandes grupos corporativos e investidora dos grandes negócios. Não por acaso, o perfil destes executivos é conservador. A grande maioria se identifica como de “centro” ou de “direita”, é a favor da Lava-jato, admira Sérgio Moro e defende um discurso decorado sobre o valor da meritocracia e o papel das empresas enquanto vanguarda da sociedade, ao mesmo tempo em que constrói o discurso de que só existe corrupção no Estado. No geral, estamos presenciando um fato novo: os representantes do mercado têm militado ativamente pela desmoralização, deslegitimação e desconstrução da esfera política enquanto capaz de conduzir os assuntos da sociedade. Basta ver os artigos de Flávio Rocha, dono da Riachuelo, ex-presidenciável, agora fechado com o “centrão” de Alckmin e militante do MBL, na revista Forbes Brasil, cujo público é a classe média alta e a elite brasileira. As principais matérias da revista Exame, não por acaso a mais lida dos meus entrevistados, também trabalham, com a chancela de seus editoriais, na mesma direção. A principal revista conservadora deste país não é a decadente Veja, mas sim a sofisticada Exame. É impressionante que a Exame e a Forbes Brasil idolatrem figuras decadentes como Eike Batista, Marcelo Odebrecht, Pedro Parente e Joesley Batista, dentre outros, tentando construir biografias de sucesso imitando o padrão Forbes norte-americano. Esta militância de mercado possui obviamente interesses e consequências políticas, formando a opinião de nossos entrevistados. A principal delas é o fortalecimento do mercado enquanto única instituição legítima, uma super instituição, acima de todos os movimentos sociais populares criminalizados pela grande mídia, da desmoralizada esfera institucional da política e do judiciário explicitamente partidarizado, para decidir as eleições deste ano. Ou seja, a construção ideológica em curso (que reflete o cenário global, capitaneado por Trump, Macron e outros) é que Estado e sociedade não possuem força política legítima para a condução de seus próprios assuntos, dependendo assim de uma esfera moral superior, que seria o mercado. Não poderíamos ter cenário mais antidemocrático e assustador do que este.

 

Folha – A pesquisa foi realizada pelo Núcleo de Estudos sobre Desigualdade Social (Nuesde) da UFF-Campos, do qual você é coordenador. Docentes e discentes universitários das ciências humanas, sobretudo em universidades públicas, costumam ter a igualdade como principal valor. Que costuma ser a liberdade para os executivos, sobretudo de corte liberal. Como haver equilíbrio e olhar sem dogmas ou preconceitos de lado a lado?

Fabrício – Eu considero esta pergunta de extrema importância, pois muito me preocupa o clima de ódio incitado pelo calor dos acontecimentos do contexto político atual e infelizmente reproduzido muitas vezes pela grande mídia. Precisamos ter muito cuidado. A política é um castelo construído sobre o frágil alicerce de areia das emoções e dos impulsos humanos. Todos nós nos identificamos afetivamente com correntes partidárias e candidatos, ou com nenhum deles.  A falta de identificação afetiva com “o sistema” como um todo, como se diz no senso comum, tem levado muita gente e se identificar com o Bolsonaro como candidato “anti-sistema”. Tenho amigos simpáticos ao Ciro, outros ao PSOL, ao PT e também amigos simpáticos ao atual “centrão” (que para mim na verdade é a direita se distinguindo do Bolsonaro). Tenho conversado respeitosamente com amigos e pessoas na rua e tentado desenvolver a sabedoria de escutar. Se assumirmos que todos estamos de coração envolvidos, fica tudo mais fácil. Sei que esta é uma tarefa difícil, mas precisamos tentar. Já conversei com pessoas na rua, espontaneamente, simpatizantes do Bolsonaro, e vi que são pessoas boas. Estão apenas revoltadas com a política, o que se explica em grande parte pela deslegitimação da política. Estas pessoas acabam sendo vítimas fáceis do discurso radical de extrema direita de Bolsonaro, exatamente por ser um discurso de fácil mobilização afetiva. Você lembrou muito bem os valores da igualdade e da liberdade. Talvez o que esteja faltando em nossa vida pública é exatamente o da fraternidade. Acho que é este tom de tolerância e respeito que precisamos construir, contra os dogmas e preconceitos.

 

Folha – Após ter chegado ao poder com o “Lulinha Paz e Amor” criado por Duda Mendonça em 2002, o PT e a esquerda brasileira retornaram ao “nós contra eles”, a partir da acirrada campanha de reeleição de Dilma em 2014 e do seu processo do impeachment. Não foi justamente a corda esticada desse “nós contra eles” que acabou gerando o fenômeno Jair Bolsonaro (PSL)?

Fabrício – Não acredito que foi o PT, nem a esquerda brasileira, que não se restringe a um partido, mas se estende a inúmeros movimentos sociais legítimos ao longo do país, quem criou a atual atmosfera de intolerância. Pelo contrário, uma das grandes marcas do Lula, simbolizado no “Lulinha Paz e Amor” é a capacidade de conciliação e de realização de acordos, extremamente importante na política, que é uma esfera de poder e interesses como qualquer outra esfera de ação da sociedade. A ausência desta habilidade, que na psicologia contemporânea tem o nome de inteligência emocional, tem sido demonstrada, por exemplo, por Ciro Gomes, numa sequencia de trapalhadas recentes que estão dificultando o seu caminho ao planalto. Mas vamos aos fatos. Foi exatamente na reeleição de Dilma, em 2014, que se iniciou a criação do atual contexto do “nós contra eles”. Dilma, que é uma grande mulher, não teve segundo mandato, boicotada sistematicamente por um movimento obscuro liderado por Aécio, dentre outros, revoltados com sua derrota. Lembro-me que estava em Juiz de Fora na ocasião e muitos eleitores de Aécio comemoravam sua vitória pouco antes do final da apuração. Muita gente achava que ele ia ganhar. Ali se iniciou um novo capítulo da história recente brasileira. Continuarei este ponto na pergunta seguinte sobre o impeachment de Dilma. Voltando a Bolsonaro, acho que seria impreciso atribuir ao PT a criação de um contexto que o gerou. O problema é bem mais complexo. Primeiramente, Bolsonaro como figura radical e messiânica não é uma grande novidade no Brasil. Tivemos o Enéas no passado e outras figuras radicais de direita que de alguma forma sempre apareceram. A novidade é o contexto brasileiro e global atual que proporciona grande adesão a sua figura. O pai de Bolsonaro é o discurso do novo capitalismo global financeirizado, que precariza e fragmenta as relações de trabalho, criando retaliação e desconfiança entre as classes sociais. Este é o mesmo pai que gerou Donald Trump, nos Estados Unidos, e Macron, na França. O ovo da serpente hoje é o mesmo de sempre: a fragmentação das relações sociais e a falta de confiança e fraternidade. A serpente também é a mesma: o mercado capitalista e sua cultura excludente, que promete falsamente prestígio, poder e status a todos os que traçarem para si o caminho “da corrida ao prestígio”, como genialmente definiu o grande sociólogo Wright Mills em seu grandioso livro “A elite do poder”, escrito nos anos de 1950 nos Estados Unidos. Como vemos isso no Brasil hoje? Bolsonaro se beneficia do cenário de enfraquecimento da esfera política, o que é hoje um fenômeno global. Em resumo, é o mercado com suas promessas sempre renovadas de realização e satisfação pessoal quem cria o contexto de descrença na política e de aposta messiânica no discurso radical de extrema direita. Não por acaso, Bolsonaro aproximou muito seu discurso do de Trump recentemente.

 

Folha – Considera o impeachment de Dilma como golpe? Por quê?

Fabrício – Há boas razões para dizer que sim. Retomando o argumento da questão anterior, inicia-se uma revolta muito grande em alguns setores da elite brasileira, com a derrota de Aécio em 2014. Ali se rompe o grande pacto, o “acordão” que o PT conseguiu sustentar desde a primeira eleição de Lula. Seria muito ingênuo atribuir ao nível de manejo de Dilma toda a desconstrução de um grande acordo que durante algum tempo deu certo. A política não é feita apenas de interesses materiais, mas também de honra e de valores. A esta altura, depois que Dilma sobrevive a seu primeiro mandato, uma parte da elite brasileira começa a ficar realmente incomodada com o acordão e principalmente com seus efeitos na sociedade. Gostando-se do PT ou não, e aqui estou apenas me remetendo aos fatos, não podemos esquecer que o legado lulo-petista melhorou muito a vida das classes populares no Brasil. Isso incomodou diretamente a classe média alta, que passou a compartilhar espaços físicos e sociais com os emergentes, como é o caso emblemático dos aeroportos. Indiretamente incomodou a elite que, ao perceber a insatisfação da classe média, que a elite precisa ter como sua aliada, resolveu tomar novamente nas próprias mãos as “rédeas” da história. De alguma forma, o PT administrou, com a permissão de grandes frações da elite, o pacto social brasileiro enquanto pôde, até que seu lado mais social “azedou o caldo”. O resto da história nós sabemos. Eduardo Cunha entra com o pedido de Impeachment na câmara, em 2016, e boa parte da novela que vimos na mídia é distração e não explicita os reais motivos da insatisfação de uma elite que anteriormente deixou Lula governar.

 

Folha – O que achou da tentativa de impeachment de do prefeito carioca Marcelo Crivella (PRB)? Vê incoerência em quem, como o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol), chamou o impeachment de Dilma de golpe, mas considerou a tentativa sobre Crivella como justa? Desde a queda de Fernando Collor de Mello da presidência, que o PT apoiou em 1992, há o impeachment do bem e do mal para a esquerda brasileira?

Fabrício – O impeachment já virou uma carta na manga de forças de oposição aos governos. Vejo aqui a possibilidade de banalização de uma coisa muito séria. Daqui há pouco qualquer coisa será motivo de Impeachment.  Mas na prática o processo não é simples. Um governo só cai quando perde três coisas: credibilidade, popularidade e apoio político. É o que parece acontecer com Crivella, que anda cometendo graves erros. Nunca me pareceu um grande político, em nenhum sentido, e seu envolvimento explícito com uma igreja deixa sua legitimidade muito fragilizada para parcelas da população de outra orientação espiritual. Ele é explicitamente particularista em um assunto crucial. Quanto ao Freixo, é preciso considerar seu contexto local e o contexto nacional que leva Dilma à queda. Por isso, em princípio não é incoerente. O problema do Freixo é outro: ele é tão particularista quanto o Crivella, mas em outra direção. Não consegue falar para o pobre carioca, apenas para a classe média ilustrada. Por isso perdeu a eleição. O assunto envolvendo Collor é mais complexo. Se elencarmos aqui as causas do impeachment dele veremos que, seguindo o caminho da coerência, quem deveria sofrer impeachment atualmente seria o Temer: escândalos de corrupção, medidas administrativas impopulares, vendas de estatais etc. Qualquer semelhança não é mera coincidência. No caso de Dilma é diferente. A questão acerca das pedaladas fiscais é frágil e permanece como uma discussão jurídica em aberto. É tão frágil que ela não foi punida com a perda dos direitos políticos e agora lidera a corrida eleitoral para o senado em Minas Gerais. Não acho que a esquerda tenha criado o impeachment do bem e do mal, mesmo porque a direita também se percebe como sendo “do bem”. Inclusive, o discurso do bem tem sido muito mais mobilizado recentemente pela direita do que pela esquerda. Quem foi para as ruas batendo panelas supostamente por um país melhor, vestindo verde e amarelo? A mesma classe média de direita, casada com o centrão, mas que flerta com Bolsonaro. Não por acaso, este último muitas vezes apenas radicaliza o discurso do centrão, como no caso emblemático do cidadão de bem que deve ser armado contra o bandido.

 

Folha – Acha que a prisão de Lula pode ser revertida pelo Supremo Tribunal Federal (STF)? E ainda dá para acreditar que ele poderá ser candidato, depois que Luiz Fux assumiu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 6 de fevereiro, poucos dias após Lula ser condenado por unanimidade na 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), dizendo: “ficha suja está fora do jogo democrático”?

Fabrício – Acho muito difícil que Lula seja candidato. Mas ele está usando o seu principal capital político, que é a sua popularidade, para dar uma cartada final. Ele vai lançar alguém em cima da hora. A cartada é menos arriscada do que parece. Contar com a sua capacidade de transferência de votos é mais importante e sólido estrategicamente para o PT do que abrir mão de sua imagem de líder inconstestável e pai da esquerda brasileira contemporânea. Não por acaso, os espertos Boulos e Manuela beijaram sua mão e aceitaram sua bênção. Nem o falso rebelde Ciro Gomes, que não é de esquerda, mas sim o clássico político ambíguo de centro, pode negar isso. Quanto a questão da “Ficha limpa”, sabemos o que está em jogo. Dizer que Lula está preso por isso é uma das grandes anedotas da política brasileira contemporânea. É inegável que ele é um preso político, e faço questão de dizer que não sou filiado ao PT e nem a nenhum outro partido. Meu partido é a verdade sociológica e a pesquisa empírica de qualidade. Todo mundo sabe que vários outros grandes políticos deveriam estar presos se a lei não fosse seletiva como regra. A situação inclusive explicita a incapacidade política do centrão e da extrema direita, que perderiam de lavada para um Lula solto.

 

Folha – Em conversas pessoais, você disse estar curioso com a opção do “centrão”, ou “blocão”, como boa parte dos políticos fisiológicos da direita brasileira passaram a se chamar. Independente do nome, a opção deles foi o presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB). Bolsonaro, que cortejava o “centrão”, quis desdenhá-lo após ter perdido seu apoio. Como viu esse movimento? Acredita que ele fará alguma diferença?

Fabrício – Bolsonaro tem dificuldades de articulação, inteligência emocional zero, muito parecido nisso com o Ciro, que também não conseguiu oficializar o noivado com o centrão. A dificuldade é tanta que até a Janaína Paschoal “fez doce” com Bolsonaro. Seu único capital político é um carisma de direita que fala para desesperados e reacionários. Da parte de Bolsonaro, bater em Alckmin faz todo o sentido por que eles disputam boa parte do mesmo eleitorado, ou seja, as frações mais conservadoras da elite e da classe média. Bolsonaro deve estar bem apreensivo, inclusive, por que agora sabe que Alckmin vai crescer. A união do centrão em torno do PSDB não deveria causar espanto a ninguém. É o lugar natural deles, basta olhar o histórico de cada um dos partidos envolvidos. Não podemos nos esquecer da história recente brasileira. Até a última eleição PSDB e DEM, principalmente, eram a direita clássica, tradicional, neoliberal, polarizando com o PT. De repente viram um “centrão”, com ares de direita light esclarecida e até de “esquerda democrática”, como alguns se denominam. A união do centrão é o marco decisivo destas eleições. A brincadeira começa para valer agora. Eles têm chances reais de estar no segundo turno. O outro movimento decisivo será a cartada final de Lula. E se eu fosse o centrão, não subestimaria isso. Não vou arriscar previsões, mas talvez o centrão tenha se livrado de Ciro e Bolsonaro em uma tacada só. Por fim, cabe dar o título de centro a quem realmente merece, e estes são o Ciro e a Marina. Ambos têm em comum a capacidade única de pregar princípios de esquerda e de direita ao mesmo tempo. É impressionante. O caso de Ciro é particularmente emblemático: como pode alguém ao mesmo tempo elogiar a Lava Jato, bater no Lula e dizer que vai revogar a reforma trabalhista e mexer na taxação das fortunas dos ricos? Ficou difícil saber para quem ele estava pregando. Por outro lado, o centrão é coerente em sua posição de direita. Sempre foi isso ai e não vai mudar. Pode ser que tenhamos um “mais do mesmo” entre PT e PSDB outra vez. Vamos ver.

 

Folha – Nas conclusões da sua pesquisa, você destacou que “a maioria (dos executivos entrevistados) é a favor das reformas trabalhista e da Previdência”. Em relação a esta última, há solução aritmética para o próximo governo do Brasil, sem fazê-la? Como driblar sua impopularidade?

Fabrício – É verdade. São respostas previsíveis, pois é óbvio que a cúpula do mundo corporativo deseje formas de contrato mais flexíveis, que a isenta quase que totalmente de encargos e agora especialmente a defende de processos na justiça. É o que está acontecendo neste exato momento. O número de processos contra os grandes empregadores está caindo e o número de derrotas por parte dos trabalhadores está aumentando. Efeito imediato da era Temer. Como eu disse antes, os executivos, em sua maioria, estão no front de batalha ao lado dos grandes empregadores e são muito bem pagos para isso. A questão se articula diretamente com a da reforma da Previdência. Ela não foi levada a cabo por problemas internos do governo, mas com isso não deixa de ser contra o trabalhador. Quer fazer com que este trabalhe até a morte e o povo sabe disso. Nesta hora o cidadão comum para e faz seus cálculos. Por isso é impopular. Uma verdadeira reforma da previdência, articulada à trabalhista, deveria levar em conta a saúde e a vida do trabalhador, e não trata-lo como escravo, como é o caso. Inclusive, isso contraria um princípio central do mundo corporativo, ou seja, cuidar do seu capital humano. É claro que se trata de uma ideologia. De modo simples: as empresas obrigam o trabalhador a trabalhar mais por menos, sem nenhuma garantia no presente (trabalhista) e no futuro (previdência). Isso é efeito da loucura do capital financeiro global hoje, enquanto as celebridades da Forbes acumulam bilhões que nem conseguem gastar. É por isso que um governo sério e equilibrado precisa por em prática os princípios do Estado democrático de direito, que são agora na era Temer sistematicamente revogados. O que é isso? Na prática, a única realização possível, sem a abolição do capitalismo, é a construção gradativa de um Estado de bem estar social. Se revisitarmos grandes autores sobre o tema como Thomas Marshall e Robert Castel, que analisaram várias experiências reais deste tipo na Europa, aprenderemos que não existe bem estar social sem a garantia econômica e moral de um patamar mínimo de dignidade para todas as classes sociais. Quando a nossa elite vai entender isso? Quando vai entender que a rapina de cima para baixo cria uma sociedade violenta e instável? Quando vai assumir esta culpa? Se voltarmos ao grande Joaquim Nabuco, um verdadeiro liberal do século XIX, no melhor sentido desta palavra, aprenderemos que uma sociedade que possui escravos é uma sociedade moralmente rebaixada e todos os seus membros, sem exceção, pagam por isso. Nossas classes abastadas pagam com o medo da violência. Precisam entender as razões dela. Não por acaso, muitos de meus entrevistados acham que uma das soluções para os problemas do Brasil é construir mais presídios. É trágico.

 

Folha – Outra conclusão junto a seus entrevistados, é que “a figura pública atual mais admirada é Sérgio Moro”. Como vê a atuação do juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba?

Fabrício – É verdade. É uma atuação que poderia ser entendida como seletiva, de um certo ponto de vista. A foto dele ao lado de Dória é muito emblemática. Lembra o conceito de “prestígio emprestado”, de autoria do grande Wright Mills. O sabor do prestígio, ou seja, esta espécie de reconhecimento fake das elites, é irresistível. Muitas vezes é melhor do que dinheiro. Se a análise de Wright Mills nos anos 50 estiver correta, trata-se de um aspecto essencial do caminho para a inserção e permanência nas “altas rodas” do poder e da fama.

 

Folha – Você também destacou que a “maioria (dos entrevistados) aprova enfaticamente a Lava Jato”. Mas pesquisas revelam que a operação, considerada no mundo como a maior da história contra a corrupção, tem apoio de mais de nove entre cada 10 brasileiros. Não é, portanto, um lastro que pesa independente das classes socioeconômicas?

Fabrício – É natural que a população como um todo aprove a Lava-jato, pois este mantra está sendo cantado diariamente pela grande mídia no ouvido das pessoas. O dado de que meus entrevistados, em sua maioria, a aprovam não deve ser percebido isoladamente. Ele se articula à admiração ao Moro e a um discurso decorado em favor da meritocracia e contra a corrupção do Estado. Também se articula a opinião do aumento da punição como solução dos problemas sociais no Brasil, o que legitima, por exemplo, a intervenção de Temer na gestão da segurança no estado do Rio de Janeiro. Estes dados, articulados, ajudam a esclarecer um perfil social, ou seja, uma parte significativa do que podemos chamar de nossa classe média alta, uma espécie de sub-elite. O perfil que se esboça é conservador, coerente com a visão de mundo que preserva os privilégios inerentes à condição de quem tem uma origem social abastada e confortável. O fato explícito de adesão à Lava-jato tem a ver com a sensação de punição ao PT. O fato implícito tem a ver com deslegitimação da política e a preservação moral do mercado.

 

Folha – Outro dado coletado dos entrevistados é que “a maioria acredita enfaticamente no discurso do mérito”. Na educação, por exemplo, não foi a partir da meritocracia que países como a Coreia do Sul, o Japão, a Finlândia e até a China deram um salto tremendo de qualidade e competitividade em suas sociedades? Como educador, o que pensa a respeito?

Fabrício – A gente precisa entender o que é a meritocracia enquanto discurso e valor moral. Uma coisa é a boa gestão de políticas educacionais, construção de escolas, geração de boas condições de aprendizado etc, que pode ser aprendida pela experiência de vários países. Ou seja, a igualdade de oportunidades. Outra coisa é o mito do mérito, valor maior sacralizado no mundo corporativo e pilar da sociedade moderna. As pessoas não são iguais em suas possibilidades de aprendizado e de desempenho por razões que serão encontradas em suas histórias de vida, leia-se histórias de classe, em grande medida. Quando fiz, durante meu mestrado, há doze anos, uma pesquisa com lavadores de carros em Campos, pude me deparar com esta triste realidade. Alguns deles relataram que não aprendiam nada na escola por que sofriam maus tratos em casa, passavam fome e precisavam ainda enquanto crianças trabalhar duro para ajudar nas despesas da casa. É muito triste que boa parte de nossa sociedade ainda ignore isso. Boa parte de meus entrevistados na pesquisa atual, por outro lado, teve a chance de aprender alguma língua estrangeira ainda jovem e de ter alguma experiência no exterior, o que é decisivo afetivamente para este tipo de aprendizado, por exemplo. É apenas um aspecto central do que estou definindo como “habitus corporativo”, ou seja, um conjunto de capacidades essenciais para a condição de executivo. Em resumo, para autores como Pierre Bourdieu, que cunhou o conceito sociológico de habitus, e de Wright Mills que definiu as habilidades das classes dominantes como uma “personalidade de elite”, tudo isso não tem absolutamente nada a ver com mérito, mas sim com uma condição de origem social privilegiada.

 

Página 3 da edição de hoje (29) da Folha

 

Publicado hoje (29) na Folha da Manhã

 

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Rafael, Wladimir e Joílson Barcelos: 2020 de Campos começa em 2018

 

 

2020 começa em 2018

A pouco mais de dois meses da urna, a campanha ainda não começou. Mas não é segredo que a disputa entre as pré-candidaturas a deputado federal de Wladimir Garotinho (PRP) e Marcão Gomes (PR) será uma prévia para dois anos depois, no pleito para prefeito de Campos. E nesta balança ainda pode pesar outro pré-candidato a federal: Marcelo Mérida (PSD). Wladimir, se eleito, se cacifa naturalmente para disputar a sucessão de Rafael Diniz (PPS). Antes de tentar se reeleger, o prefeito será testado na tentativa de eleger Marcão a federal. Já Mérida, se eleito, pode trazer um terceiro nome à disputa da Prefeitura em 2020: Joílson Barcelos.

 

Wladimir x Marcão

Com penetração em todo o Estado do Rio, governado por seu pai e depois por sua mãe, Wladimir parece ser o pré-candidato local com melhores chances de conquistar um mandato na Câmara Federal em 2018. Conhecido pela capacidade de trabalho, mesmo antes de se tornar presidente da Câmara Municipal de Campos, Marcão está empenhado em se eleger. Mas será muito difícil superar o filho do casal Garotinho no total de votos. É em Campos que ele brigará para ter uma votação superior como deputado federal, o que seria uma prova de força não só de sua capacidade eleitoral, mas do prefeito Rafael.

 

Joílson com Mérida

Já Marcelo Mérida correrá por fora na briga entre os dois principiais grupos políticos da cidade. Egresso da presidência da Federação Fluminense das Câmaras de Diretores Lojistas (CDLs), ele também se empenhou bastante em reuniões com empresários pelos municípios do Norte e Noroeste Fluminense. Em quase todas foi acompanhado de Joílson Barcelos, presidente da CDL-Campos e empresário de destaque na cidade. Segundo Mérida revelou em entrevista à Folha publicada (aqui) em 3 de setembro de 2017, sua pré-candidatura a federal faz parte de um planejamento das CDLs para 2018 em todo o Estado.

 

O nome

Naquela entrevista do ano passado, onde assumiu integrar um projeto de poder dos lojistas, Mérida foi diretamente indagado: “E se a classe produtiva quiser a Prefeitura de Campos?”. Ao que respondeu: “Eu acho que a gente tem outros nomes”. Dentro deles, Joílson é sem dúvida um de grande potencial. Empresário exitoso no competitivo setor de supermercados, consegue enfrentar e vencer a concorrência com redes maiores, vindas de fora. Gera muitos empregos, inclusive para pessoas com necessidades especiais. E compra de agricultores familiares do município, no qual tem seu comércio espraiado em vários bairros e distritos.

 

CDL e Rafael

Num momento em que a população está desencantada com os políticos e passa a valorizar a experiência de administradores de sucesso para cargos executivos, Joílson parece um bom produto. Também tem defeitos, como a falta de articulação verbal, ou de traquejo na política além da classista. Mas tem promovido de fóruns de discussão na CDL, em busca de soluções econômicas para Campos, em parceria com entidades afins como Firjan, Acic e Carjopa. Cresce no espaço deixado pelo governo Rafael, que pegou uma Prefeitura falida pelos Garotinho, mas ainda não conseguiu imprimir uma marca administrativa. E espaço vazio é espaço ocupado.

 

Recordar é viver

Certo que, numa democracia, a tendência de qualquer governo ensimesmado é ofertar espaços aos adversários já postos e ainda potenciais. E achar que o debate político real só ocorre para as urnas de dois em dois anos ou na Câmara, com suas demandas fisiológicas de sempre, é um vício perigoso. Na administração Arnaldo Vianna — talvez ainda a mais popular da história recente de Campos —, quando o prefeito percebeu um movimento da sociedade civil organizada para discutir o futuro da cidade, como a CDL tem feito em seus fóruns, a resposta veio rápida na criação do Fundecam.

 

Sob observação

Até 2020, quem nele mira desde 2018 deve ter seu entorno observado. Rafael tem uma equipe jovem, talvez vítima da soberba de quem venceu 2016 em turno único. Já teve quase dois anos para tomar pé da situação. E precisa usar os dois à frente para fazer mais do que sanear contas e criticar quem as quebrou. Wladimir tem como pai e mãe os responsáveis pela quebra. Por sua vez, entre colaboradores próximos, Joílson tem o DNA do garotismo. É o caso de Orlando Portugal, Wainer Teixeira, Mauro Silva, Sérgio Cunha e do próprio Mérida, ex-secretários de Rosinha. Não dá para negar isso, mesmo que provavelmente vá negar seu interesse em ser a terceira via de 2020.

 

Publicado hoje (29) na Folha da Manhã

 

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Críticas companheiras de boçalidade nos eleitores de Bolsonaro

 

Primeiro, Magno Malta (PR) preferiu disputar a reeleição ao Senado e dispensou compor a chapa de Jair Bolsonaro (PSL) a presidente.

Quem depois entrou na fila para vice de Bolsonaro foi a advogada Janaína Paschoal (PSL), uma das que formularam o pedido de impeachment de Dilma. Mas, no lançamento da candidatura presidencial de quem promete armar a população, foi Janaína quem disparou:

— Os seguidores, muitas vezes, do deputado Jair Bolsonaro têm uma ânsia de ouvir um discurso inteiramente uniformizado. Pessoas só são aceitas quando pensam exatamente as mesmas coisas. Reflitam se não estamos fazendo o PT ao contrário.

A crítica contundente da jurista foi endossada pelo general da reserva Hamilton Mourão (PRTB), consultor da candidatura de Bolsonaro. Ele admitiu que “há um certo radicalismo nas ideias, até meio boçal” nos apoiadores do presidenciável.

Pelos fartos exemplos dados diariamente pelos eleitores de Bolsonaro nas redes sociais, os alertas companheiros de radicalismo e boçalidade são bastante pertinentes. A não ser, claro, que se confirme o nome do astronauta Marcos Pontes, novo cotado para ser o vice do presidenciável do PSL.

Com base na popular trilogia cinematográfica “MIB — Homens de Preto”, a explicação seria mais simples: às vezes, esse pessoal parece mesmo ter vindo de outro planeta.

 

 

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Guiomar Valdez — Eleições 2018: quando veremos face a face?

 

 

Tenho acompanhado e aprendido neste espaço as opiniões e debates sobre as eleições 2018, em especial, os que tratam da corrida presidencial. Muito qualificado o que vem se apresentando, onde as diversas interpretações se apresentam de uma forma plural e legítima (importante registrar que não há ‘pensamento único’, pode existir pensamento hegemônico, ok?!). Gosto disso. Reflete o debate geral no país, incluindo, óbvio, as diferenças, e, às vezes, visíveis incompatibilidades das ‘leituras’ do mundo e atitudes afins, no trato com o Fato e o Conhecimento (com letra maiúscula mesmo!). Isso é riquíssimo, bem mediado, como é, para exercitar a frágil Democracia em que vivemos. Continuemos assim! Nestes tempos onde a intransigência com o diferente se agudiza, paciência, paciência histórica, é do que precisamos e muito!

Também é sobre Política e corrida presidencial 2018 que me expresso hoje, apenas apontando um aspecto que vem sendo secundarizado, às vezes, negligenciado nessas discussões: o entrelaçamento entre a crise econômica mundial que persiste e se aprofunda há 10 anos, a nossa crise política que estabeleço como proposta de marco inicial o ano de 2013, seu primeiro resultado com consistência o ano do impeachment da presidenta Dilma (2016) e as eleições gerais desse ano. Muitas análises podemos encontrar sobre estes temas, mas, para mim, infelizmente, de maneira isolada. Penso que se articularmos esses temas com o cuidado necessário, sem fundamentalismos e histerias, podemos, inclusive, clarear o contexto conjuntural, nos dando uma visão para além do curtíssimo prazo; um olhar, inclusive, que nos faça compreender nossos interesses, sejam individuais ou coletivos.

Um entendimento que deveria já ser comum, é de que as crises do nosso sistema socioeconômico deixaram de ser cíclicas para ser crônicas. Ou seja, não existe mais ‘remédio’ para as crises. O desafio é aprendermos a viver com ela (acho que quem nasceu a partir da segunda metade dos anos de 1970, a primeira palavra que falou foi ‘crise’, e, não mamãe e papai) ou construir um outro sistema socioeconômico (mas isso é um outro assunto…).

Fato é que vivemos hoje apenas a ilusão de um desenvolvimento/crescimento ‘auto-sustentável’. Na prática, é vã qualquer tentativa de controle daquilo que é incontrolável. Os ciclos ‘virtuosos’, quando acontecem, estão cada vez mais escassos. As inspirações keynesianas estão impossíveis de se aplicarem, como num passado recente. As liberais, ou, sejamos sinceros, as neoliberais – ‘hayekianas/friedmianas’ — estão batendo cabeças, aterrorizadas com o pesadelo das suas soluções que não resolvem a tendência à queda de lucros dos momentos de superacumulação, de um capital hegemônico que deixou de ser ‘produtivo’, para se lambuzar no monetarismo-especulativo. É fato a desindustrialização!

Ora, eu sei que fica muito confuso traduzir esta crise econômica, esta crônica situação para a dimensão política, para as relações de poder, institucionalizadas ou não. Mais difícil ainda, traduzi-la para a dimensão cultural e particular/privada. Porém, eu engatinho neste esforço. E, nesse caminho, relação política-economia, é imprescindível o papel do Estado. Ele é essencial para o funcionamento da economia capitalista — seja para institucionalizar a ordem política, econômica e cultural necessárias à acumulação, seja para atuar em momentos das crises cíclicas.

Nesse vaivém (acumulação acontecendo satisfatoriamente ou a queda da taxa de lucros), é quando se apresentam mais claramente as discussões do ‘tamanho’ do Estado: pequeno/grande. Raramente se pergunta pequeno ou grande para quê? Para quem? Certo é que o Estado é um protagonista insubstituível das ações/medidas necessárias à ordem empresarial/burguesa. É certo também, a história demonstra, que a ‘conta’ maior, em tempos de crise, vem sendo paga pelos trabalhadores em sua quase totalidade de segmentos.

Pois bem, o entrelaçamento Economia<<>>Política na História Contemporânea chega sob os auspícios do Liberalismo, que projeta e busca realizar uma Democracia que não atente contra à ordem vigente da dimensão socioeconômica e seus pressupostos filosóficos/ideológicos. A História, em especial, do século XX, tem em abundância exemplos de que quando a economia/acumulação entra em crise, a Democracia Liberal também sofre seus revezes, suas flexibilizações e/ou rupturas, afinal, Liberdade, Igualdade, Direitos, etc, podem ser proclamados, podem ser constitucionalizados.

Mas, diante da crise material, tudo é passível de ser relativizado! Isso acontece porque os espaços institucionalizados da Democracia construída historicamente tem a hegemonia do bloco de poder (reunião de frações da classe dominante/empresarial) de quem domina a economia. A variação no tempo se dá nas frações que compõem, não na classe. De uma maneira geral, as frações políticas de esquerda, enquanto classe, ainda pouco conseguiu historicamente se constituir em ‘bloco’.

Daí porque em tempos de crise econômica/acumulação, transborda a crise política/crise orgânica do bloco de poder, o impasse, as alianças, em busca da sobrevivência, em busca de uma forma de saída da crise que não desmorone a classe ou o sistema socioeconômico vigente. Normalmente ficamos confusos porque essas frações nem sempre se entendem no como administrar a crise, gerando uma concorrência orgânica/interna, um ‘salve-se o meu setor’, que me faz lembrar de uma frase significativa da política partidária do Segundo Reinado: “nada mais conservador do que um liberal no poder; nada mais liberal do que um conservador na oposição”.

No Brasil, o Partido dos Trabalhadores no poder não representou um bloco de esquerda, por favor. E, para mim, infelizmente. A ‘Carta aos Brasileiros’ de 2002 e os seus mandatos até 2016, representou o símbolo de um novo arranjo na hegemonia do bloco de poder, repetindo a reunião de frações da classe dominante/empresarial, em tempos de crise socioeconômica mundial crônica! Ao passar a ‘marolinha’ por volta de 2009/2010, os sinais do ‘tsunami’ começam a chegar, tornando impossível a continuidade da conciliação que ‘servia a quase todos’; tornando impossível conter as antigas e novas insatisfações… esta é uma possível leitura do ano de 2013.

Aparentemente caótica, as manifestações, o surgimento de novos movimentos sociais, da ação informativa e mobilizadora das redes sociais, apresenta o que ficou abafado, contido, engolido a seco, da ‘conciliação política’. Não apenas dela, mas das ideias políticas que estavam nos porões autoritários aparentemente adormecidas. Tudo sai dos armários!

A crise econômica chegou arrasadora e assumida, no momento dos dois últimos governos do PT. O que aparentava para nós nas eleições de 2014? Mais uma disputa partidária entre PT x PSDB. Não, foi muito mais que isso! Foi a expressão de uma crise política, sem mais a mediação conciliatória, diante da avassaladora crise sistêmica! A ilusória pretensão do Lulismo de que havia encontrado a ‘fórmula da harmonia social’, caiu por terra. Serviu mesmo, do ponto de vista do bloco de poder hegemônico, para salvaguardar seus interesses. Agora, não serve mais, mesmo tomando medidas de ajustes econômicos e políticos antipopulares!

O impeachment de 2016 e seus desdobramentos para o lulopetismo veio significar o fim da ‘conciliação’, como também, um momento da disputa dentro do bloco hegemônico de poder (industrial, agrário, financeiro, exportador, comercial, etc, etc) buscando saídas para administrar politicamente a crise, um acerto de contas dentro do próprio Estado das frações empresariais/burguesas. É preciso dar respostas econômicas à crise no âmbito político! É preciso manter a ordem, mesmo que a Democracia seja relativizada, desestabilizada.

A dimensão jurídica dessa Democracia tem sido protagonista neste novo arranjo, por exemplo. As forças estão sendo acumuladas desde então. O clima para a tese do descontrole está dado: desemprego, corrosão salarial, péssimos serviços públicos em todas as áreas, violência social exacerbada e a institucionalizada também, perdas de direitos, insegurança social se generalizando.

As Eleições Gerais de 2018 estão contidas nessa conjuntura política que expressa a crise estrutural no Brasil. As candidaturas stricto-sensu de centro-direita e de direita e seus fisiologismos são os possíveis vitoriosos. Não é o que eu quero ou desejo viver no meu país novamente! Considerando que o processo de acumulação não se move pela ética humanitária e recordando que em tempos de crise sistêmica-estrutural a Democracia Liberal pode ser solapada, até a extrema direita tem espaço, dependendo apenas da análise do grande capital e suas inseguranças políticas para a saída da crise. Para mim seria um pesadelo vivenciar o fardo desse possível tempo histórico! Por não entrelaçarmos Economia<<>>Política, vemos em ‘parte’, e, às vezes, em pedacinhos minúsculos dessas partes. Quando veremos ‘face a face’?

 

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Facebook fez a limpa nas páginas do MBL e direita zurra “censura”

 

Líder do MBL Kim Kataguiri posa orgulhoso ao lado do então presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, antes deste ser preso pela Lava Jato

 

Nesta semana, 196 páginas brasileiras do Facebook, a maioria ligada ao MBL, foram retiradas do ar. E afirmar que foi pela suspeita de disseminação de fakenews é, de fato, a única fakenews. Na verdade, as páginas foram alvo da limpa por serem operadas por 87 perfis falsos, o que é proibido. Não por outro motivo, todos foram igualmente banidos.

Contra a ação necessária e talvez tardia, acusações de “censura” são ecoadas com a mesma moral de quem prega menos interferência do Estado na iniciativa privada — como é o caso da empresa de Zuckerberg — enquanto comemora como bom Macunaíma o pedido de explicações ao Face feito pelo MPF de Goiás.

Ao que tudo indica, operar páginas com perfis falsos era uma tática do MBL, símbolo dessa neodireita histérica que, em 2017, comandou uma cruzada tupiniquim contra as artes e os artistas do país — relembre aqui. Quem aderiu naquela oportunidade para destilar seus recalques, é o mesmo indivíduo que agora zurra “censura”, com o histrionismo de um Fernando Holiday.

Um dia após o outro, não deixa de ser irônico constatar que os chiliques hoje da direita têm a mesma eficácia do “não passarão!” da esquerda em 2016, enquanto o impeachment de Dilma passava das ruas ao Congresso Nacional. No Brasil, o antipetismo é uma seita carbono do lulismo. Tão pretensiosa, chata e maniqueísta quanto. Só que menos popular.

 

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Paula Vigneron — Enquanto

 

Trilha férrea Tiradentes/São João Del Rey, 24/09/17 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Sorriu.

Acendeu as luzes. Olhou para o espelho. Estavam gastos, ele e a moldura. Não era tão ruim, pensou. Ajeitou os cabelos. O relógio apontava o amanhecer. No corpo, pontadas. Também não era tão ruim assim, analisou pela segunda vez. Esta chata mania de pensar, pensou.

E sorriu.

Os ponteiros do relógio mostravam os poucos minutos para o amanhecer. O corpo em ritmo de pontadas. Terminou de se arrumar. Os primeiros raios de sol entravam pelas frestas entreabertas. Havia deixado assim desde o começo das dores no correr das horas.

Do outro lado, o dia apontando em cores. Tempo perdido. Do seu lado, pontuavam as dores. Somos tão jovens, gritava um carro pela rua.

Sorriu.

Sentia o quarto esquentar enquanto seu corpo esfriava. Ouvia crescentes barulhos na rua enquanto os seus silenciavam vagarosamente. Ouviu o tic-tac do relógio enquanto os perdia. Sentiu seu corpo anoitecer enquanto amanhecia.

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — É melhor já ir refletindo

 

 

“Um táxi vazio chegou a Downing Street, e dele desceu Attlee”. Com essa frase genial, Winston Churchill desprezou o seu rival político, o laborista Clement Attlee, que o tinha sucedido como primeiro-ministro em 1945 e que, aos olhos de Winston, era evidentemente uma insignificância de pessoa.

A boutade me veio à cabeça após ler a entrevista que o jornal O Globo fez com o candidato a presidente Jair Bolsonaro. Nela, o deputado confessa não ter a menor ideia da política econômica que terá o seu eventual governo. A cada pergunta relacionada com a área, Bolsonaro manda perguntar para o Paulo Guedes, o seu assessor econômico. Tentando ser engraçado, responde “pergunta no Posto Ipiranga”.

A insignificância de Bolsonaro deriva de seu desinteresse com qualquer assunto que não seja segurança pública. O candidato parece não apenas não saber nada sobre assunto algum, mas também fazer questão de se manter na ignorância. Apenas de uma coisa tem certeza: bandido bom é bandido morto.

Há 27 anos que Bolsonaro é deputado federal, e na maioria das vezes em que teve que se posicionar sobre algum projeto de lei votou a favor do corporativismo, do populismo econômico e do fisiologismo. Agora defende o liberalismo de Paulo Guedes, que em teoria se opõe a tudo o que Bolsonaro apoiou até ontem.

No domingo passado, o Partido Social Liberal (PSL) homologou a candidatura de Bolsonaro a presidente da República, sem ter conseguido coligar com nenhuma outra legenda. No evento, o candidato ironizou o acordo que Gerardo Alckmin costurou com o chamado ‘Centrão’ (a ‘direita fisiológica’, como bem a definiu Idelber Avelar) ao dizer que agradecia ao tucano por ter ficado com “a nata do que há de pior do Brasil”. Apenas duas semanas atrás, numa outra entrevista, tinha se orgulhado em dizer que 40% do Centrão o apoiava. Se o Lula reconheceu alguma vez ser uma metamorfose ambulante, Bolsonaro deveria se catalogar como uma incoerência móvel.

E, no entanto, o capitão-deputado tem mais ou menos um quarto da intenção de voto a nível nacional, dependendo da pesquisa. No estado do Rio de Janeiro, deixa o Lula em segundo lugar.

É preciso entender: não é que Bolsonaro tenha chances de ir ao segundo turno apesar das barbaridades e das incoerências que diz, mas graças a elas. A sua fortaleza reside em manifestar declarações que os políticos tradicionais não se animam a dizer. O pior que poderia fazer para sua candidatura é contratar um marqueteiro que venha a lhe aparar os excessos. O eleitorado (ou grande parte dele) está cheio de políticos de boa lábia, mas incapazes de compreender suas necessidades — e hoje, infelizmente, uma das preocupações que o cidadão tem é a de não morrer na volta do trabalho.

Bolsonaro representa a falência da política brasileira, assim como Chavez  representou a venezuelana, o Trump a norte americana, e Hitler a alemã do pós-guerra. São filhos, por parte de pai, da indiferença e do desprezo das elites governantes, e por parte de mãe do ressentimento de um povo. Em condições sociais normais um país nunca elegeria sujeitos pitorescos, despreparados, psicopatas ou fanfarrões para dirigir o seu destino. Bolsonaro pode parecer uma atrocidade, mas em verdade é o sinal de febre de um país doente.

 

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Cineclube Goitacá exibe e debate nesta quarta “Lawrence da Arábia”

 

Lawrence da Arábia. O que falar do clássico do cinema e da personagem real na qual ele se baseia? Considerado pelo American Film Institute como o sétimo melhor filme já feito, o longa dirigido em 1962 pelo mestre inglês David Lean (1908/91) ganhou os Oscar de melhor filme, diretor, edição, fotografia, direção de arte, som e trilha sonora. A partir das 19h de hoje, a obra será apresentada no Cineclube Goitacá, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio. A entrada e a participação no debate são gratuitas e bem vindas.

Apesar dos sete Oscar de “Lawrence da Arábia”, Hollywood cometeu das maiores injustiças da sua história ao não conceder também o prêmio de melhor ator ao irlandês Peter O’Toole (1932/2013). Até hoje, impressiona sua solar interpretação da personagem que batiza o filme: o arqueólogo, literato, agente secreto, diplomata e militar britânico Thomas Edward Lawrence (1888/1935).

A partir da morte de Lawrence num acidente de moto, o filme recua em flash-back até o início do seu envolvimento no teatro da I Guerra Mundial (1914/18), no palco do Oriente Médio. Com boa parte dele controlada há 400 anos pelo Império Otomano, o conhecimento profundo da língua e cultura árabes fizeram com que o jovem arquéologo fosse requisitado pelo serviço de inteligência do Império Britânico, para atuar na ligação com as tribos beduínas do deserto. Elas lutavam contra o domínio turco muito antes da I Guerra.

Aliada da Alemanha e Império Austro-Húngaro, a Turquia enfrentava em seus antigos domínios a Grã-Bretanha e a França. Ambas já se interessavam pelo controle da região rica em petróleo, naquele início de século XX — importância geopolítica que o Oriente Médio mantém, 100 anos depois. Como oficial de ligação e agente secreto, Lawrence foi enviado ao acampamento nômade do príncipe Feiçal. Interpretado no filme por Alec Guiness, ele era líder de Meca (cidade mais sagrada dos muçulmanos) e da até então incipiente Revolta Árabe (1916/18).

Na demada do “milagre” pedido por Feiçal, Lawrence assumiu seu protagonismo no papel de profeta sem Deus. Com 50 beduínos, ele cruzou o deserto de Nefud, considerado intransponível, para conquistar Aqaba, na atual Jordânia. Cidade portuária fundamental ao domínio da região, toda a pesada artilharia turca estava apontada para o mar. Por terra, no lombo de camelos e comandando apenas árabes nômades, cujas vestes e costumes passou a adotar, o jovem ocidental de 28 anos fez o que a poderosa Marinha Real Britânica havia tentado, sem conseguir.

A partir do feito militar sem precedentes, Lawrence fundamentou o que ficaria conhecido como guerra de guerrilha. Os árabes tinham camelos, cavalos, espadas e fuzis. A Turquia já contava com metralhadoras, granadas, artilharia e a aviação de um exército moderno e mecanizado. Na impossibilidade de sucesso em confronto aberto, o líder britânico aproveitou a agilidade dos beduínos no deserto, atacando e sumindo rapidamente nas extensas paisagens castigadas de sol. Reproduziu o que a Inglaterra havia feito na Terra com navios.

Após Aqaba, Lawrence realinhou o alvo dos árabes sobre o mar das ferrovias inimigas, fundamentais ao abastecimento numa região desértica. Dinamitadas em açõs cirúrgicas, causaram o esgotamento dos turcos por falta de suprimentos e armamentos, até que o gigante se ajoalhasse vagarosamente por inanição.

O ponto alto da Revolta Árabe, após Jerusalém, foi a tomada de Damasco. Os árabes comandados por Lawrence foram os primeiros a entrar na capital da Síria. E, como libertadores, impuseram o fim de quatro séculos de domínio da Turquia sobre o Oriente Médio. Ao seu lado, o britânico tinha líderes beduínos como Ali ibn el Kharish (Omar Sharif) e Auda Abu Tayi (Anthony Quinn). Imbatíveis na guerra, os nômades se revelaram, todavia, incapazes de administrar as demandas sedentárias de uma grande cidade em tempos de paz.

Após o esfuziante sucesso militar, o dilema do jovem oficial no pós-guerra se revelou não só entre os beduínos que liderou, mas na pátria a que serviu. A partir do acordo Sykes-Picot, de 1916, Inglaterra e França já haviam dividido o Oriente Médio nos países que passamos a conhecer. E, no lugar da liberdade e da autodeterminação prometidas por Lawrence aos árabes, as duas nações europeias vencedoras da I Guerra assumiram da derrotada Turquia o papel de domínio da região. O que só acabaria após a II Guerra (1939/45).

Com a lealdade dividida entre árabes e britânicos, algo se quebrou dentro da personalidade multifacetada do próprio Lawrence. Na busca do que desse sentido à sua fantástica aventura na Península Arábica, ele a transformou no livro “Os sete pilares da sabedoria”. Escrito entre 1919 e 1922,  com revisão do dramaturgo e amigo George Bernard Shaw, seu autor só o lançou não comercialmente em 1926. Mas o poder da narrativa foi tamanho que a obra de mais de 600 páginas rapidamente se disseminou, sendo considerada um marco da literatura do século XX.

Mais conhecido como primeiro-ministro da Grã-Bretanha, do que como jornalista, pintor e prêmio Nobel de Literatura, Winston Churchill escreveu sobre o monumento literário de Lawrence, baseado em suas experiências à luz do sol no deserto:

— Se fosse obra de mera ficção, haveria de viver enquanto o inglês fosse falado em algum recanto do globo.

Foi no livro em que o filme se baseou. Depois do que seu autor fez e contou, não houve um movimento de guerrilha no mundo, dos chineses de Mao Tse-Tung e Zhu De, aos cubanos de Fidel Castro e Che Guevara, dos vietnamitas de Ho Chi Minh e Vo Nuguyen Giap, aos brasileiros dos Carlos Lamarca e Marighella, que não tivesse assumidamente bebido no relato do jovem arqueólogo e militar britânico. Nas suas palavras: tomou “nas mãos estas ondas de homens”.

Talvez a grande virtude do filme seja reproduzir em imagens os parágrafos do livro “escritos ao ritmo do lombo dos camelos”, como definiu C. Machado, seu primeiro e definitivo tradutor no Brasil. Para levar a história às telas, David Lean contou com a ajuda de outro mestre da sétima arte: o diretor de fotografia inglês Freddie Young (1902/88). Numa das parcerias mais exitosas do cinema, renderia ao fotógrafo mais dois Oscar, em duas outras obras-primas dirigidas por Lean: “Dr. Jivago” (1965) e “A filha de Ryan” (1970).

Sobre a personagem histórica de Lawrence, tão fascinante quanto intrigante, ou sua imortal cinebiografia, diz C. Machado, tradutor do livro: “Hamlet do Hedjaz (deserto a oeste da hoje Arábia Saudita), que ajustava a mira do velho fuzil enquanto interrogava as estrelas”.

 

Confira o trailer do filme:

 

Sobre o livro:

 

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Acusação de racismo para tentar inverter o jogo entre futebol e política

 

No último dia 13 de abril, antes da Copa da Rússia, Özil presenteou o controverso Erdogan com sua camisa 11 do Arsenal (Foto: Reuters)

 

O meia Mezut Özil, do Arsenal, anunciou ontem nas redes sociais que não defenderá mais a seleção da Alemanha. Filho de pais turcos, o campeão da Copa de 2014 saiu atirando e acusou os dirigentes da Federação Alemã de racismo. O pomo da discórdia foi uma foto que o jogador fez em maio deste ano com o presidente da Turquia, o controverso Recep Erdogan, que estava em plena campanha de reeleição.

Na ocasião, a foto e sua ampla divulgação foram alvo de críticas de dirigentes do futebol alemão. Mas como Özil era o camisa 10 da seleção então campeã do mundo, uma das favoritas ao título na Rússia, a coisa ficou por isso mesmo. Daí veio a Copa. E o jogador e sua seleção não jogaram nada.

Titular no primeiro jogo, na derrota de 1 a 0 contra o México, Özil foi sacado do time na vitória de 2 a 1 sobre a Suécia. E, inexplicavelmente, voltou a ser titular na vergonhosa derrota de 2 a 0 para a Coreia do Sul. Por questão de futebol, não racial, sua presença em campo foi unanimemente encarada pela crítica internacional como um dos motivos do retumbante fracasso alemão.

Herdeira dos Impérios Bizantino e Otomano, além do controle sobre boa parte do mundo islâmico, a Turquia era uma das maiores potências do mundo até I Guerra Mundial (1914/18), quando foi derrotada junto com a Alemanha. O que restou do país foi salvo na Guerra de Independência Turca (1919/23) liderada pelo militar Mustafá Kemal Atatürk (1881/1938), que fundou a República da Turquia como estado laico e foi seu primeiro presidente.

O culto à figura do fundador da Turquia moderna, que sobrevive até hoje, é criticado pelos islâmicos, que dizem não adorarem santos. Ironicamente, o líder mais marcante que o país teve de lá para cá foi Erdogan. No poder desde 2003, ele é considerado um anti-Atatürk, por ter resgatado a promiscuidade entre religião e política banida do país desde a década de 1920, quando já era encarada como sinônimo de atraso.

Por contestações como essa, Erdogan sofreu uma tentativa de golpe fracassada em 2016. Que respondeu fortalecendo seu poder, baseado no populismo religioso, em condições de exceção que perduram. Cerca de 107 mil servidores públicos e soldados foram demitidos e mais de 50 mil pessoas estão até hoje presas. Mais de 5 mil acadêmicos e 33 mil professores também perderam os empregos. Sem contar cerca de 150 jornalistas detidos desde 2016.

Foi a esse tipo de líder político que Özil apoiou publicamente antes da Copa. Meia técnico, ele sempre foi, no entanto, o tipo de jogador conhecido como “vaga-lume”: que acende e apaga durante uma partida. Por essa inconstância, não conseguiu se firmar no Real Madrid, do qual foi liberado para tentar a sorte no Arsenal.

Aos 29 anos, pelas atuações de pouca qualidade e nenhum comprometimento na Copa da Rússia, Özil tinha seu desligamento da seleção alemã tido como certo. Mas, quase um mês após a eliminação germânica do Mundial, o jogador agora alega ter sido vítima de racismo, porque apoiou o governante do país de seus pais, de clara inclinação autocrata, e foi repreendido no país democrático em que nasceu.

Ao simular vontade própria em sua despedida da seleção da Alemanha, após a crônica esportiva do mundo já ter decretado seu adeus, Özil tenta usar o politicamente correto para inverter o jogo. Só pode colar com quem não entende nada de história, geopolítica, ou  futebol. Infelizmente, é a maioria da “torcida”.

 

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Alexandre Buchaul — Fim do começo

 

 

Esses últimos dias fecharão o prazo para realização das convenções partidárias e definições dos candidatos para a eleição em outubro. Essa etapa é a finalização de acordos que se arrastam em articulações sem fim há ao menos um ano. Por mais que o calendário eleitoral determine datas em um cronograma bem definido sobre as ações eleitorais dos partidos e candidatos, sabemos que a campanha nunca tem fim. Os exércitos que agora se perfilam para a batalha já deixaram acordos que cobrem a eleição de 2020, sejam lá quais forem os resultados alcançados por cada postulante, os algoritmos estão determinados e, terminando esta eleição, ganhará vida o tabuleiro municipal.

O “centrão”, ao menos por hora, estará com Geraldo Alckmin do PSDB na corrida presidencial, Ciro morre afogado lentamente na própria intemperança, Marina… bem Marina “ainda não decidiu se é contra, a favor ou muito pelo contrário” — faz de sua já habitual indefinição uma nódoa permanente. Bolsonaro, com todas as suas peculiaridades, diz que o centrão é escória, mas que está em boa parte com ele e continua sonhando com a Janaína Pascoal, que não se definiu, como sua vice. Os demais pré candidatos ainda precisam comer muito arroz com feijão, ou sair da cadeia, para valer a pena comentar.

Na corrida para o legislativo a profusão de candidatos vindos de todos os cantos possíveis, alguns inimagináveis me leva a ter cada vez mais convicção de que deveríamos adotar o sistema distrital.

Acharam ruim? Melhor nem falar sobre o Rio de Janeiro…

 

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Hamilton Garcia — Do socialismo cientítico ao socialismo mítico

 

 

O título principal do artigo é uma referência ao texto do revolucionário socialista russo Vladimir Lênin escrito em 1897, onde ele, à semelhança de Marx e Engels n’A Ideologia Alemã (1846), procurava situar a luta socialista nos marcos do realismo empírico (socialismo científico) ou seja, da modernidade fundada, a duras penas, nas révolutions citoyens dos séculos anteriores – em oposição ao idealismo romântico (socialismo utópico) predominante na esquerda da época.

Se no trabalho de Marx&Engels[1] o foco era o idealismo crítico da esquerda alemã, que acreditava ser possível combater “o mundo real lutando contra a ‘fraseologia’ do mundo”, numa “luta filosófica contra as sombras da realidade” — de novo em voga no séc. XXI —, no de Lênin[2] o alvo é a crítica populista ao capitalismo, que se transformara em repulsa ao desenvolvimento e apologia à comunidade rural originária russa.

Enquanto nossos autores alemães[3] refutavam seus filósofos por não terem se lembrado “de procurar a conexão da filosofia alemã com a realidade alemã, a conexão de sua crítica com o seu próprio ambiente material”, nosso russo[4] condenava os populistas por ignorarem as mudanças causadas pelo capitalismo na realidade rural da Rússia, mantendo uma visão romântica do campo e, assim, fazendo “o jogo da estagnação e de toda a sorte de asiatismos” ao comparar “sempre a realidade do capitalismo com a ficção do regime pré-capitalista”, daí concluindo pela superioridade do segundo — como, amiúde, fazemos com relação aos povos naturais e às populações vulneráveis.

O que animava a corrente realista da esquerda, desde o Manifesto Comunista (1848), era a ideia de que “(…) não é possível conseguir uma libertação real a não ser no mundo real e com meios reais; (…) não é possível abolir a escravatura sem a máquina a vapor e a mule-jenny (fiação automática), nem a servidão sem uma agricultura aperfeiçoada (…). A ‘libertação’ é um fato histórico, não um fato intelectual, e é efetuada por condições históricas, pelo nível da indústria, do comércio, da agricultura”[5].

Deriva disso que a revolução socialista só poderia ser obra de uma sociedade evoluída, onde a divisão do trabalho estivesse suficientemente avançada, o acúmulo de riqueza e cultura elevado e a forma de existência há muito tenha deixado de ser local. Do contrário, diziam nossos alemães, “só a penúria se generaliza, e (…) a miséria recomeçará a luta pelo necessário e se cairá de novo na imundície anterior”[6].

Foi precisamente a não observância desse limite real à mudança social (revolução), levando longe demais a ideia de “revolucionar o mundo existente”[7], que levou o socialismo racional ao colapso. Se na Comuna de Paris (1871), Marx apoiara os trabalhadores por se tratar de um gesto extremo numa situação extrema — sabendo da impossibilidade de qualquer socialismo naquelas condições —, Lênin, ao provar a possibilidade (e necessidade) da revolução popular na Rússia (outubro de 1917) para garantir qualquer progresso democrático ao país, creu ser possível, por isso mesmo, estender o poder popular à esfera econômica sem maiores considerações acerca da capacidade da classe trabalhadora — já em pleno taylorismo — em gerir adequadamente as modernas empresas, com as desastrosas consequências sabidas, entre elas: a guerra civil, o colapso da produção industrial e agrícola, e a consequente anomia social que levou à hipertrofia do Estado e à supressão das liberdades públicas.

Desde então, já sob o stalinismo — que foi a reação da nomenklatura soviética à tentativa de Lênin, com a NEP, de reverter a tragédia —, o racionalismo socialista foi posto a serviço da mais perversa das formas idealistas de todos os tempos: o marxismo-leninismo, uma espécie de super-Leviatã despótico à serviço da utopia comunista(!); capaz de fazer bula rasa de qualquer abordagem empírica honesta e, pior, usando, para tal, os maiores inimigos da utopia (Marx, Engels e Lênin), em nome dos quais — com o uso arbitrário e abusivo de seus textos, transformados em sagrados — se constituiu a mais fantástica máquina de narrativas fraudulentas da história, à guisa de redenção revolucionária, representada por um jornal chamado Pravda (Verdade).

Iludem-se os que pensam que este cruel processo degenerativo do socialismo-científico, transmutado em socialismo-mítico, tenha se esgotado junto com seu mais célebre protagonista (Stálin) ou sua mais iminente criatura (PCUS). Na verdade, seu ocaso inaugurou uma nova era de mistificações na esquerda, agora não mais sob a roupagem do comunismo, mas do humanitarismo, que, aditivado pelas interpelações pós-modernas de matiz norteamericana (identidades, lugares de fala, etc.), nos levam, sem mais mediações, da razão à emoção e, dependendo do contexto, à comoção, num agir comunicativo que não só prescinde da análise histórica rigorosa e da própria ciência natural, como exige seu abandono em nome de um novo puritanismo ético, de caráter laico-utópico, muito mais amplo e persuasivo do que o comunismo.

É impossível separar o homem de sua natureza histórica e de sua história natural — natureza esta que é a base de sua própria existência —, já haviam nos ensinado os alemães[8], mas a “nova esquerda” não se contentou em suplantá-los — aniquilando, por tabela, o legado de Morgan e Darwin —, libertando também a própria ideia humanitária de qualquer determinação complexa para torná-la apanágio exclusivo de uma “vontade política” personificável.

Não é por outro motivo que complexas antinomias se transformaram em simples paradoxos na verve de lideranças prestidigitadoras, capazes de, em frases curtas e penetrantes ao nível do subconsciente, ressignificar a conexão entre economia e política de modo a possibilitar a mais ampla e discricionária liberdade da última sobre a primeira — maximizando o pecado original leninista.

“Se, ao final de meu mandato, cada brasileiro puder se alimentar três vezes ao dia, terei realizado a missão de minha vida”[9], disse LILS, a maior liderança política da esquerda desde a redemocratização, ao tomar posse, em 2002, sem maiores preocupações com o fato de que o capitalismo brasileiro havia sido capturado pela “doença holandesa” (rentismo) e que a realização deste sonho — mais do que justo, inadiável — não seria sustentável sem reformas econômicas que visassem, mais que o consumo das famílias — perspectiva de curtíssimo-prazo dos liberistas —, os investimentos produtivos capazes de criar empregos e produtos, além de reformas políticas que pusessem fim ao domínio neopatrimonial sobre o Estado, que junto com o setor financeiro se constituem em verdadeiros “devoradores de mais-valia”[10] ou, em outras palavras, parasitas dos excedentes produtivos que deveriam sustentar a economia pública e privada de todos.

 

[1] A Ideologia Alemã – crítica da filosofia alemã mais recente nos seus representantes Feuerbach, Bruno Bauer e Max Stirner e do Socialismo Alemão nos seus diferentes profetas, ed. Centauro/SP, 2006, pp. 11-12, 15.

[2] ¿A Que Herencia Renunciamos?, in. Obras Escogidas Vol.1, ed. Progreso/Moscú, 1979, passim.

[3] Op. cit. p. 15.

[4] Op. cit. pp. 96-97.

[5] A Ideologia Alemã, p. 29, grifo meu.

[6] id. p. 45, grifo meu.

[7] Id. p. 31.

[8] Id., pp. 32-33.

[9] Luís Inácio da SIlva, apud. Bernardino Furtado e Ronald Freitas, Cruzada Contra a Fome, in. <http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT432696-1659,00.html>, edição 233 de 04/11/02, em 20/07/18.

[10] Gramsci, apud. Giuseppe Vacca, Modernidades Alternativas – o século XX de Antônio Gramsci, ed. FAP-Contraponto/DF-RJ, 2016, p.190.

 

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