“Quando éramos reis”, nesta quarta, no Cineclube Goitacá

Ali x Foreman

 

 

Num ano de perdas, algumas irreparáveis, o que nos resta é manter vivo o legado. Neste sentido, nessa quarta (15/06), na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da rua Conselheiro Otaviano com avenida 13 de Maio, o Cineclube Goitacá vai exibir e debater o filme “Quando éramos reis”, de Leon Gast. Oscar de melhor documentário em 1997, narra em detalhes um evento de 23 anos antes. “The rumble in the jungle” (“A luta na selva”), foi o título promocional dado à disputa do título profissional peso pesado de boxe, na África, entre o jovem campeão George Foreman e seu desafiante, Muhammad Ali, considerado antes e depois o maior pugilista de todos os tempos — morto (aqui), aos 74 anos, na noite do último dia 3 de junho.

Caetano Veloso admitiu não gostar de boxe, mas escreveu “virá impávido que nem Muhammad Ali”, na música “Um índio”. E “Quando éramos reis” é uma oportunidade documental única para constatar o encontro da cultura black em sua explosão nos EUA dos anos 1970, sendo levada de avião ao coração da África, às margens do legendário rio Congo, em Kinshasa, capital do então Zaire, hoje República Democrática do Congo. Emblematicamente, era a primeira vez que dois campeões negros de boxe, esporte majoritariamente dominado por atletas negros, decidiriam o cinturão de todos os pesos na África.

Ao velho continente que pariu a espécie humana, voltavam como reis os descendentes daqueles que séculos antes saíram acorrentados como escravos. Neste sentido pascal de retorno, foram promovidos shows com estrelas negras da black music dos EUA, como o mestre do blues B. B. King (aqui) e o rei do soul James Brown. No estádio de futebol de Kinshasa, onde seria realizada a luta, os músicos negros estadunidenses se apresentaram para dezenas de milhares de africanos, dançando e cantando juntos como a mesma tribo.

Mesmo de pele mais clara do que Foreman, Ali era adorado pelos africanos muito antes de lá disputar um título de boxe. Na África e no planeta, sua fama já havia conquistado fãs, sobretudo nos países do terceiro mundo, não só pela técnica exuberante do pugilista, mas por conta da sua luta pelos direitos civis dos negros nos EUA, da sua conversão ao islamismo, quando trocou o nome de Cassius Clay para Muhammad Ali, e da sua recusa em lutar na Guerra do Vietnã (1955/75), quando teve seu título de campeão revogado pelo governo dos EUA, quase acabou preso e foi impedido de boxear por três anos e meio. Roubaram aquele que seria o período áureo da carreira de qualquer atleta.

Foi dessa empatia com o povo africano que Ali se valeu, extraindo do coro “Ali, buma ye! Ali, buma ye!” (“Ali, mata ele!”) a força para fazer o impossível, chocando mesmo jornalistas experientes como Norman Mailer e George Plimpton, que dão seus depoimentos no documentário, assim como o cineasta e ativista do movimento negro Spike Lee. Como este diz em determinado momento do filme, independente do tempo em que se viva, é muito difícil se ter a oportunidade de poder conviver com heróis de verdade.

É que quando Ali lutava, dentro ou fora dos ringues, todos éramos reis.

 

Confira nos vídeos abaixo a música de Caetano e o trailer do filme de Leon Gast:

 

 

 

 

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Carol Poesia — Sobre a falta

Michael Keaton desafiando o limite entre a vida e a arte, num palco da Broadway, no filme “Birdamn ou (A inesperada virtude da ignorância), de Alejandro González Iñárritu
Michael Keaton no limite entre a vida e a arte, num palco da Broadway, em “Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância), de Alejandro González Iñárritu

 

 

O psicólogo disse que eu não posso parar de escrever. Ele disse que eu tenho que separar duas horas por dia pra fazer o que eu gosto. Disse que tenho que praticar alguma atividade física para produzir boas substâncias pro corpo. Disse que quatro horas de estudo por dia são suficientes. Que eu preciso me alimentar melhor. Ter horários. Dormir oito horas por noite. Enfim, na primeira consulta ele já quis me transformar em uma pessoa normal. Saudável. Que quer viver. E não foi para isso mesmo que eu o procurei? Para que me ajude a voltar a querer viver? O remédio tem me deixado meio lerda, talvez este texto não fique bom; mas isso não tem nada a ver com o psicólogo. Ele disse pra eu não me preocupar, devo apenas escrever, sem me preocupar. Eu gosto dele, ele fala de um jeito que acalma.

O mundo é feio demais pra mim ou eu que sou frágil demais para suportá-lo? Muita gente vai dizer que isso é falta de sexo… Pode ser… Mas o que veio antes — a falta de sexo ou a falta de vontade de fazer sexo? Isso parece um pouco com aquela questão do ovo e da galinha… Eu fico pensando… Se fosse esse o problema não seria fácil de resolver? Não, né? Enfim… não vou ser besta de discutir com Freud. O fato é que ando sem forças e estou farta disso. Não tenho nenhuma justificativa pessoal plausível — minha família é ótima (“ótima”?), nunca passei necessidades (de nenhuma ordem?), não fui espancada pelo pai (seria traumatizante), nem estuprada pelo padrasto (eu nem tenho padrasto!). Sequer tenho pais separados. E sim — eu transo! Não é nada disso. Trata-se de uma falta permanente, que me acompanha desde… Desde que me lembro… E não me lembro muito bem quando.

Alguém me disse que a falta nos move, acho que é até o nome de uma peça — A falta que nos move —, ou seria um livro? Um filme? Eu não lembro (inferno!). Deve ser o remédio que eu ando tomando. Enfim, se isso for verdade, é muito cansativo e aos 26 anos eu desisto. Não tenho mais força. Não consigo me movimentar. Ponto. Se a falta realmente nos move então que ela me mova sem eu precisar fazer nada, que ela me carregue nos braços pra um lugar bem bonito enquanto eu durmo. Eu sei. Eu sei. É pedir demais. Afinal eu tenho duas pernas, dois braços, todos os sentidos… Por isso sou uma ingrata e Deus deve estar decepcionado comigo. Concordo. E daí? Saber disso não me dá força nenhuma, só culpa e remorso. Você entende? Eu nem sequer quero viver essa vida, que dirá me preocupar com alguma outra. Olha, só de pensar me dá vontade de morrer.

O psicólogo me disse “tanta coisa ainda vai acontecer com vc”. Ele deve ter razão, mas por que eu não sinto que o que vai acontecer seja bom? O que eu sinto, é que tudo de bom que poderia me acontecer já aconteceu — a primeira vez que eu subi no palco, aquele frio na barriga segundos antes de sair da coxia. A estreia. O público riu de mim, riu da minha performance… E era pra rir mesmo, daquela vez era. Eu era tão novinha… Que recompensa imediata, que prazer! O prazer da primeira vez. Talvez por isso o teatro seja tão fascinante! Porque no palco parece que é sempre primeira vez, é vivo, até o de sempre quando repetido muda de hora em hora, de vez em vez. Talvez seja isso — falta de palco, falta de primeira vez.

Quando eu deixei o Rio, fui ao Teatro Luiz Peixoto. Estava vazio. Meia luz. E aquela energia sinistra que só o teatro tem. Aquele santuário de vida e morte — o palco. Subi. Não usei as escadas. Olhei. Vi as cadeiras lotadas, esperando o espetáculo acontecer. Percorri o palco devagar. Em círculos. Senti o peso dos meus pés. Parei. Olhei. Todos esperavam o acontecimento. Continuei andando. Corri. Corri o mais rápido que eu pude durante quase quarenta minutos. Eu suava muito. Suava demais. E não sentia mais nada além de fadiga. A minha roupa molhada e o chão respingado. Continuei correndo em círculos. Eu queria parar mas continuei, como se tivesse que me penalizar por estar deixando tudo aquilo. Até que fiquei completamente tonta, com os sentidos atordoados, bati na parede e caí. As pessoas riram. Eu não as culpo. Com muito esforço eu tentei me levantar. Escorreguei no meu próprio suor. Riram de novo. Finalmente fiquei de pé e disse tudo que vinha à minha cabeça — sobre a vida, sobre a morte, sobre o sexo e a falta dele, sobre os pais, sobre os filhos, as religiões, as opressões, a homossexualidade, a minha sexualidade, a hipocrisia da sociedade, a sexualidade dos outros. Falei da arte, do sentido da arte, do sentido que não tinha a minha vida sem a arte. Da corrupção, da violência, dos maus tratos, do nosso povo sofrido, do filho que eu não tive, da peça que eu não escrevi, do filme que eu não estreei, do dinheiro que eu nunca tive, da preguiça de acordar, da insônia ao dormir, das mentiras que tive que contar, das verdades que não poupei, das atrocidades do mundo, do sofrimento que causei, dos meus ex-namorados, dos comunistas exilados, da padaria do meu avô. Da ditadura, da minha insignificância, do holocausto, da minha infância, das minhas decepções, da minha solidão. Da falta que nos move. Das coisas bonitas. Das coisas bonitas e tristes. Da inviabilidade de ser artista. Da obrigação de permanecer vivo.

 

Foram 104 minutos cravados.

 

Aplausos.

 

Isso foi teatro.

 

Eu sempre fui muito boa em cumprir obrigações.

 

Fui até a coxia, peguei a arma, voltei pro palco e atirei na minha cabeça. O público, que já estava se levantando, ficou paralisado com o barulho e o estrago. Foi lindo. Eu sempre sonhei em morrer no palco. Que ator nunca sonhou? A morte, sem dúvidas, é a melhor cena.

 

Fui embora como se nada tivesse acontecido. E senti na boca, misturado ao sangue, o gosto de primeira vez.  Foi então que pensei: seria brilhante se eu estivesse grávida.

 

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Versos contra o horror

Sobreviventes, parentes e amigos na manhã seguinte à tragédia parida na relação incestuosa entre homofobia e terrorismo (foto: reprodução)
Sobreviventes, parentes e amigos na manhã seguinte à tragédia parida na relação incestuosa entre homofobia e terrorismo (foto: reprodução)

 

 

Na madrugada de sexta para sábado, uma pessoa que respeito e admiro profundamente, me falou do medo de ser mulher. A conversa veio a reboque do estupro recente do IFF, repetido coletivamente no Rio e no Piauí, além, lógico, da condenação de 14 pessoas pelo caso “Meninas de Guarus”.

Como homem, nunca havia pensado nessa perspectiva, que não me saiu da cabeça pelo final de semana. Com boa parte deste passado no plantão da Folha, o massacre na boate gay Pulse, em Orlando, na madrugada de sábado para domingo, me fez ampliar ainda mais a reflexão, a partir dessa união incestuosa entre homofobia e terrorismo.

Após o trabalho, mesmo cansado e com sono, não consegui dormir na madrugada de domingo para hoje, com o frio infiltrado pela proteção inúltil das meias. Enquanto pensava, sozinho no quarto, ouvi gritarem lá fora os gatos em cópula. Desisti de dormir para seguir-lhes o exemplo, me dedicando às preliminares com uma amante há muito negligenciada.

Ao “horror” de Joseph Conrad (1857/1924) encarnado por Marlon Brando (1924/2004) no “Apocalypse Now” da ficção e dos 50 mortos a tiros da minha realidade presente, busquei catarse na poesia. E junto dela vi o sol nascer e inundar o mundo lentamente de luz.

 

 

 

 

o horror

 

o frio mudo entre as meias

finas do dia dos namorados

grita lá fora no coito dos gatos

 

meus pés já não tocam o calor

das vidas calçadas por garras

sangrando a noite de orlando

 

à caça do coito dos gatos

corpos de homens gelados

e cento de pés sem função

 

campos, 13/06/16

 

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Escritora Carol Poesia no “Opiniões”, terça sim, terça não

Bem verdade que com a Paula Vigneron (aqui), este “Opiniões” já tinha garantido, em alto nível, sua voz feminina no time de escritores-colaboradores do blog — ao lado do Fabio Bottrel (aqui), do Guilherme Carvalhal (aqui) e do Ocinei Trindade (aqui). Mas, convenhamos, é pouco. Não por outro motivo, quem se integra ao time a partir de amanhã (14), escrevendo sempre quinzenalmente, é a escritora, atriz, cantora e professora da língua de Luís de Camões que fez da arte deste seu próprio nome: Carol Poesia.

Já havia externado aqui que “Geni e o Zepelim” é minha música preferida de Chico Buarque. E confesso que, após tê-la ouvido na iterpretação visceral da Carol, num sarau do Sinasefe, passei a considerar sua versão como referência da canção. Abaixo, na prosa de uma das tantas mulheres do Chico, o que aquela chamada Poesia pretende trazer a você, leitor, terça sim, terça não:

 

Carol nos tempos das duas chupetas (foto: arquivo pessoal)
Carol nos tempos das duas chupetas (foto: arquivo pessoal)

 

Minha memória não é boa, mas tenho pais atenciosos que se lembram bem de peculiaridades da infância. Segundo Josué e Ângela, eu costumava ficar calada no berço, com pernas cruzadas, barriga pra cima, olhando pro teto com duas chupetas na boca. Dizem que isso os intrigava — “o que será que ela está pensando?”.

Eu não sei se eu estava pensando, mas desconfio que a poesia já estava rondando… E me convidando para uma abstração tão “inútil” quanto preciosa aos tempos robóticos e materialistas da atualidade. Isso não me garantiu felicidade, e por mais contraditório que possa parecer, garantiu-me realidade; pois o afastar-se do real só é possível aos que o experimentaram de forma consciente.

Olhar pro teto já seria início desse afastamento? Não sei… Não posso saber. Mas arrisco dizer que mais de uma chupeta na boca deve amenizar o vazio de uma atitude tão solitária. Não sei… Talvez eu esteja “romanceando” meu início para que ele soe mais bonito.

O fato é que escrever é solitário. E não existiria melhor forma de reencontro comigo mesma do que um convite à escrita, quinzenalmente, em meio a textos de tantos que admiro. Agradeço ao jornalista Aluysio Abreu pelo convite e espero contribuir para manter o excelente nível que tem caracterizado este espaço. Obrigada!

Por falar em fatos:

Nasci em 1985, na cidade de Campos dos Goytacazes, morei boa parte em Niterói e estudei Letras na Universidade Federal de Ouro Preto, seguido de mestrado em Literatura na Universidade Federal Fluminense. Experimentei teatro, música e, desde sempre, poesia. Escrevi meu primeiro livrinho à mão aos 8 anos, chamava-se “A caneta” (rs) e vendi para minha tia Adelina, irmã mais velha e alfabetizadora do meu pai.

Tive poemas publicados nas coletâneas Mulheres em prosa e verso (Hoje Edições) e 8° Concurso de Poesias da Universidade Federal de São João Del-Rei; artigos nos jornais Aldrava (Mariana – MG), Mídia Participativa (Mariana – MG), Folha da Manhã (Campos dos Goytacazes – RJ) e revista Icarahy (Niterói – RJ). O texto dramático “Inquérito Poético” também veio a público, através dos festivais – Niterói em Cena (texto finalista em 2011), Festival de Esquetes de Cabo Frio (premiado Melhor Texto em 2011), Festival de Esquetes Elbe de Holanda (premiado Melhor Texto em 2011) e Festival Curta Teatro (premiado Melhor Texto em 2014, no Teatro de Bolso – Campos).

Como atriz nas peças Mulheres de Vermelho (SESC de Niterói, 2011), Entre deusas e bofetões, entre parangolés e patrões (Candido Mendes Campos, 2015) e na leitura dramática Gota D´água (SESI Campos, 2014). Como cantora nos shows Geleia Geral (2014), Noite Severina (2015), O fino da bossa (2016) e Som do Vale (2016).

Professora de Português na Universidade Candido Mendes Campos e leitora no projeto Para ler as meninas (2016).

Fã incondicional de Elis Regina e Ney Matogrosso; amor platônico por Leminski; e sensações ainda não nomeadas por Almodóvar. Faço reverência a um bom prato de feijão com arroz e deixo pra outra vida qualquer carne vermelha. Portadora de neuroses. Evito (quando posso) aquilo que me aprisiona. Acredito na arte. Acredito na arte como veículo de humanização, autoconhecimento e liberdade.

 

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Artigo do domingo — O estupro praticado por milhões em rede

Ocinei 07-06-16

 

 

Por Ocinei Trindade(*)

 

Dói sofrer abuso sexual. Em tempos de Internet então, nem se fala, pois há dor da exposição pública também. Há quem não sinta nada, nem se importe com o que os outros pensam e sentem, neste caso alguma vítima. Se você é ou já foi vítima dessa violência (des)humana, conhece bem esta dor.  Se alguém teve a sorte de não ser (ainda) estuprado, torturado, agredido,constrangido, humilhado e ridicularizado por um ou mais agressores, pelo menos já ouviu falar de alguma história envolvendo pessoas que são submetidas a esta situação de escárnio e vergonha. São mulheres, meninas, adolescentes, jovens e idosas. Mas também há homens, meninos, jovens e adultos que também passam pela agressão de ter o corpo abusado, esfregado, socado, machucado por alguém que tem prazer e satisfação em fazer reféns, por conta de suas perversões e perversidades sexuais.

Em pleno século XXI, os instintos básicos descontrolados por parte de alguns indivíduos revelam o quão bestial ainda somos. Há quem sofra, mas há muitos que se comprazem, se deliciam com o sofrimento alheio. Queremos detalhes, queremos imagens, queremos fotos, queremos vídeos, queremos testemunhos de quem estupra, de quem é estuprado, de quem investiga denúncias desse crime, queremos todas as novidades possíveis para nos satisfazer. Deixamos de evoluir com saudades das cavernas? A libido ainda é o maior combustível para as relações humanas serem movidas e justificadas? O corpo invadido e tomado sem consentimento é um atentado desolador, devastador, é crime.  E crime previsto em leis, mas até que ponto elas funcionam? O estupro é ainda uma das práticas mais comuns, nem sempre veladas por parte da sociedade ou de diferentes culturas e nacionalidades. O estupro tem sido ora fetiche, ora coisa banal na Internet, pois muitas pessoas têm compartilhado de um jeito ou de outro o drama de alguma vítima de violência sexual nas redes, sem se importar ou refletir verdadeiramente sobre o grave problema que é de questão social.

O Brasil e o mundo acompanham pelos noticiários e pelas mídias digitais nas últimas semanas a denúncia sobre a adolescente exposta nas redes sociais que afirmou ter sido violentada por 33 homens em uma favela carioca. Pois é, a Índia também é aqui, além do Haiti. e miséria é miséria em qualquer canto. A maioria de nós já julgou e condenou os envolvidos de algum modo. Alguns especulam que o sexo foi consentido pela garota, outros falam que ela era isso, aquilo e muito além nos termos mais depreciativos e machistas possíveis. É impressionante como muitas mulheres são tratadas com desrespeito quando o assunto é sexo ou prazer sexual. Se elas forem ou não forem recatadas, comportadas, religiosas, legalmente casadas com homens, contidas, o juízo de valor varia para mais ou para menos. Isto depende ainda do tribunal particular de cada acusador e juiz que posta rápida e confortavelmente em seu celular ou computador sentença para punir os outros. O inferno são os outros? Segundo Sartre, a humanidade está condenada a ser livre. Não é a primeira vez que uma notícia sobre estupro feminino ganha as manchetes dos jornais no Brasil e no mundo. Quando acontece, fazem muito barulho, protestam, dizem que vão combater, mas depois da eufórica novidade, o pior é que cai no esquecimento até um novo caso ser revelado e comover as massas. Alguém pode até dizer “que saco, outra história de estupro de mulher” ou “nossa, esses casos de pedofilia já nem dão mais ibope, prefiro ver novelas”. Já ouvi também: “o Brasil e o mundo carecem de orações”. Sim, até concordo, mas acho que estão faltando mais ações, pois a vida tem valido nada.

Vivemos em uma sociedade altamente machista e preconceituosa, mas não devemos esquecer que esse sentimento e essa cultura predominantemente masculinista envolvem também a opinião feminina como formadora. Percebo que muitas mulheres tendem a criticar e a condenar outras mulheres se estas não se enquadrarem em determinados padrões ou conceitos, dando aos homens certos privilégios e concessões. A filha costuma ser mais tolida que o filho, e este ainda conquista muito mais liberdade dentro das famílias que conheço. Tem certas coisas que para “homem pode,”, mas “mulher não pode, não fica bem”. Uma dessas coisas envolvem o sexo. Se muito praticado por eles, é status, prestígio e admiração devido a performances de macho poderoso e viril. Homem tem quer ter pegada, garantem. Entretanto, se elas têm uma vida sexual muito ativa e livre, ser chamada de piranha, safada, puta ou galinha em comentários fechados ou abertos (não esqueçamos a coisa explícita chamada Internet) é fácil, fácil. Já os gays e lésbicas podem ser associados a algum tipo de libertinagem e devassidão pelas mentes mais encaixotadas e preconceituosas. Aliás, preconceito é o que não falta em nossa sociedade online e off line. Tem de todo tipo, gênero, tamanho e cor, além de escrito, filmado, postado e publicado por aí. Preconceito e intolerância andam minando cada vez mais as relações humanas.

Não devemos esquecer que somos criados e educados por mulheres e homens (embora estes ainda não tenham assumido em boa parte, funções com a devida competência no papel de pai educador). Muitas famílias brasileiras são matriarcais e nossas escolas são constituídas em maioria por professoras. Fico curioso para saber como foram educados os 33 homens acusados de estuprar coletivamente a jovem, quais valores e conceitos aprenderam sobre respeito ao próximo, sobre os limites e gestos necessários quando se convive com a mulher, com o velho e com a criança. Culpar as mulheres que os criaram e os educaram é um risco tremendo. Todavia, não seria de todo mal refletirmos como as famílias brasileiras têm se comportado quanto ao cuidado e orientação que dão para seus filhos, independentemente de classe social, escolaridade, etnia ou credo. Sabemos que o Estado tem inúmeras falhas e está praticamente falido; a igreja se esforça, mas não consegue atender as demandas; a escola é outra instituição ameaçada e a saúde pública nem se fala; as polícias e os tribunais de justiça estão sucateados ou sobrecarregados; os parlamentos estão abarrotados de políticos inaptos que fazem leis que pouco servem ou que não servem para nada. Para as famílias sobrará a barbárie? Procura-se um salvador desesperadamente, mas convenhamos, se não nos salvarmos a nós mesmos, dificilmente alguém o fará.

O caso do estupro coletivo nos conduz direta ou indiretamente à posição de juiz ou algoz. Tendemos a condenar tudo e todos de acordo com nossos ânimos mais exaltados e feridos, e nem sempre corretos. Ter uma filha, irmã, mãe ou esposa estuprada é agressivo demais, porém são elas que sabem exatamente o que isto significa. Ser violentado sexualmente, sendo homem ou mulher, criança ou adulto é desafiador, uma ferida exposta difícil de cicatrizar sem marcas. Penso que os criminosos agressores maculam uma das coisas mais belas e prazerosas que é o ato sexual pleno, feito e praticado em comum acordo por aqueles que se amam, se desejam e se permitem. Para o cantor Erasmo Carlos, o sexo é uma das mais sublimes manifestações e materializações de Deus. Há muitos tabus quanto ao corpo, à nudez e à sexualidade. Os dogmas e as tradições religiosas orientam o máximo de cuidados e regras na conduta sexual de homens e mulheres. O que para muitos tem natureza pecaminosa, já para outros é só prazer e diversão, celebração hedonista. Se os textos sagrados oferecem uma vasta lista de condutas e práticas de “boas maneiras”, nossa legislação deixa brechas em muitas ocasiões sobre como tratar do assunto, julgar e condenar os responsáveis por violência sexual. Qual a pena ideal para quem cometer esse tipo de crime? Pena máxima ou a morte sumária? Quem no Brasil obedece às leis?

Em entrevista à jornalista Renata Ceribelli, a vítima do estupro coletivo disse que se sentiu constrangida e humilhada na delegacia onde prestou depoimento com a presença apenas de policiais homens. A repórter perguntou à jovem o que gostaria de dizer para aquelas pessoas que ali estavam para ouvi-la e não para condená-la, e para a sociedade que a criticou pelo estilo de vida que levava, por ser sido mãe aos 13 anos, por frequentar comunidades ou namorar rapazes suspeitos. A resposta foi: “eu espero que eles tenham uma filha”. O desabafo pode não ser consciente e pleno do ponto de vista de uma adolescente de 16 anos, mas parece ser quase uma sentença de martírio ou morte o fato de se nascer em um corpo feminino, que já estaria condenado por natureza ou destino a sofrer todo o tipo de ameaça. Infelizmente, por não querermos ou não sabermos nos colocar no lugar do outro, o mal que nos causam acabamos desejando o mesmo para os nossos opressores. Só que um erro não pode justificar outro erro.

Tornar público um estupro, denunciar alguém que praticou violência sexual é uma tremenda saga, além de correr mais riscos de retaliações e vinganças por parte dos acusados, de seus familiares e apoiadores. Por incrível que pareça, há quem condene a vítima e defenda quem forçou sexo com alguém. Não consigo achar a menor graça de quem faz piada sobre estupro. As redes sociais que alimentaram o vídeo do estupro coletivo também alimentam memes, gracejos e bromas sobre o caso. Enquanto escrevia este texto, eu mesmo recebi uma mensagem via celular sobre o noticiário falar de estupro no café da manhã e no jantar, além da madrugada na televisão, pois estava enchendo o saco essa notícia velha e requentada. Infelizmente, há quem ache pesado demais o tema e prefira fazer gozações humoradas sobre o assunto. Não rio. Sofro quando isso ocorre na rotina diária e também na ficção.

O dramaturgo Nelson Rodrigues escreveu Bonitinha, mas ordinária, obra que ganhou três versões no cinema brasileiro. A mais conhecida talvez seja a do filme dirigido por Braz Chediak, em 1981, e estrelado pela atriz Lucélia Santos. A cena do estupro coletivo é considerada uma das mais desconfortáveis e revoltantes de nosso cinema, posso arriscar. Outro filme perturbador sobre o drama de uma mulher estuprada é o francês Irreversível (2002), de Gaspar Noé, protagonizado pela italiana Monica Belucci. Já o americano Um sonho de liberdade (1995), de Frank Darabont, o personagem do ator Tim Robbins sofre estupros frequentes dentro da prisão (aliás, dizem que as prisões recebem estupradores com o mesmo tipo de tratamento, e não considero esta a melhor solução, se é que existe solução). Nestes três exemplos ficcionais há apenas um retrato mínimo do que passam as vítimas da vida real. Curiosamente, há quem se excite com isso e tenha esse tipo de fantasia sexual, bastante alimentada pela indústria pornográfica e disponível facilmente no primeiro click pela Internet. A tara gera dinheiro e audiência. Não quero e nem posso ser moralista, mas não deixo de questionar sobre o comércio dos corpos nas revistas como a Playboy, que traz Luana Piovanni em um “novo conceito” da histórica publicação; a altíssima exploração da nudez feminina no Carnaval do Brasil; o uso do corpo da mulher nas propagandas de cervejas excessivamente sexistas. Tudo isso me faz pensar qual é a mulher que de fato nos interessa e o que as mulheres querem ser de verdade. Cada um deve ser responsável pelo próprio corpo e fazer dele o que bem entender, mas já com o corpo do outro não temos a mesma autoridade ou liberdade.

E pensar que a maioria dos casos de violência sexual não é denunciada às autoridades, pois os crimes costumam ser cometidos em grande parte entre familiares, vizinhos ou pessoas conhecidas das vítimas. O estupro é um mal silencioso e quase sempre encoberto, seja por vergonha, medo, condenação pública, pressão religiosa ou moral, entre outras razões que só mesmo quem passa pela terrível experiência pode afirmar. Talvez pareça egoísta ou covarde de minha parte, mas eu não desejo ter filhas, nem filhos. Ainda acho este mundo um lugar muito perigoso, cruel, perverso e injusto para colocar em risco algo tão precioso e caro que é a vida de uma criança que deveria se tornar o adulto de melhor caráter e com a mais completa formação possíveis. Toda sociedade e todos os governos deveriam ter como prioridade cuidar do maior bem que dispomos: a vida. Mas sem amor, respeito e consideração, fica bem mais difícil. Para mim, o mundo faz cada vez menos sentido quando achamos coisa normal crimes e violências. Triste.

 

(*) Jornalista e poeta

 

Artigo publicado aqui, neste “Opiniões”, em 7 de junho, e republicado hoje (12) na Folha

 

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Tendências e uma certeza reveladas por pesquisa eleitoral

Ponto final

 

Pesquisa: tendências (I)

A pesquisa Pro4 encomendada e divulgada (aqui) nesta edição pela Folha revela algumas tendências. A primeira e mais óbvia é que, mesmo que o ex-prefeito Arnaldo Vianna (PEN) não tenha condições legais de concorrer, ele é capaz de fazer de seu filho, Caio, líder na corrida à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR), mesmo sem nunca ter antes concorrido ou sido eleito a nada. O que acendeu (ou deveria) o sinal de alerta ao vereador Rafael Diniz (PPS), filho e neto de políticos proeminentes, que despontou como pré-candidato a prefeito com um perfil aparentemente semelhante ao de Caio: jovem, bem apessoado, leve e articulado.

 

Pesquisa: tendências (II)

Se vinha sendo encarado como o adversário potencialmente mais perigoso para os governistas, Rafael agora se vê no risco de ser ultrapassado por Caio e acabar fora do segundo turno, onde ninguém em sã consciência duvida que a máquina vai impor um candidato governista. Quem será este? A se julgar pelas pesquisas, parece não haver muita dúvida de que o nome teria de ser Dr. Chicão (PR). Os vereadores Mauro Silva (PSDB) e Paulo Hirano também têm chances reais, mas terão que melhorar muito nas pesquisas para conseguirem tirar do vice-prefeito a chance de finalmente encabeçar a chapa.

 

Pesquisa: certeza!

Fontes governistas, as mesmas que apontam Chicão, Mauro e Hirano como pré-candidatos governistas com chance real de disputar a sucessão de Rosinha, dão conta de que também está na rua uma pesquisa do antigo instituto Precisão. Se for divulgada, veremos que números trarão. Se não for, é porque o presente está realmente ruim ao governo. Mas, já por essa última Pro4, com os 73,1% de indecisos na consulta espontânea, reforçados nos dois cenários estimulados pelos mais de 30 pontos percentuais entre eleitores sem candidato, ou dispostos a votar em branco ou anular, só há uma certeza: nada está definido.

 

Publicado hoje (12) na coluna “Ponto final”, da Folha da Manhã

 

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Pro4: Caio Vianna lidera sucessão de Rosinha na espontânea e estimuladas

(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Se ninguém tinha dúvida da popularidade do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PEN), mas muitos questionavam sua capacidade de transferência ao filho Caio Vianna (PDT), esta deve começar a ser levada a sério pelos analistas da corrida pela sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). Com seu próprio nome, sem nenhuma menção a Arnaldo, Caio liderou as consultas espontânea e duas estimuladas feitos pelo instituto Pro4, sob encomenda da Folha da Manhã, ouvindo 620 pessoas entre 8 e 10 de junho. Na espontânea, Caio apareceu com 4,4% das intenções de voto, seguido do vereador Rafael Diniz (PPS), com 3,4%; de Arnaldo Vianna (que ainda diz ser pré-candidato, mas saber estar impedido pela legislação eleitoral), com 2,9%; da própria Rosinha (também impedida de concorrer), com 2,7%; e do vice-prefeito Dr. Chicão (PR), em quinto, com 1,5% e como candidato governista aparentemente mais consolidado junto ao eleitor.

Líder na espontânea, Caio continua a sê-lo nos dois cenários apresentados nas consultas estimuladas. Nestas, como a pré-candidatura do vereador governista Mauro Silva já está confirmada pelo PSDB, ela foi apresentada na pesquisa independente das definições garotistas. Sobre estas, diante da dificuldade de apresentar simulações com cada uma das outras nove pré-candidaturas governistas, A Folha se baseou em fontes do próprio governo Rosinha e escolheu duas para representar o PR nas simulações eleitorais: a de Chicão e a do vereador Paulo Hirano.

Assim, quando entra na disputa estimulada, Chicão se consolida como pré-candidato governista, hoje, de maior popularidade. Com 8,4% ele ficou em quarto lugar. Mas dentro da margem de erro de 3,9% para mais ou menos, alcançou o empate técnico junto a Rafael, terceiro, com 11,3%; ao vereador “independente” Tadeu Tô Contigo (PRB), em segundo com 13,4%; e ao líder Caio, com 15,2%.

Já quando entra Paulo Hirano e sai Chicão, os governistas ficam fora do empate técnico entre os mesmos três líderes: Caio na frente, com 15,5%; seguido por Tadeu, com 14,0%, e Rafael, com 11,8%. Último dos 10 pré-candidatos governistas a entrar no jogo, Hirano não foi além do 1,1%, empatado em penúltimo com o ex-vereador Rogério Matoso (PPL). Mantido em ambas as consultas, Mauro Silva também não foi bem, ficando com 1,9% tanto com Chicão, quanto com Hirano na disputa.

Outro dado relevante, que evidencia como o quadro está ainda indefinido e sujeito a alterações até o pleito de outubro, é o grande número de eleitores indefinidos. Eles chegam a impressionantes 73,1% na espontânea, a apenas quatro meses das urnas. Mas mesmo nas consultas estimuladas, quando somado aos que pretendem votar branco e nulo, o número de quem ainda não tem nenhum candidato chegou a mais de 30 pontos percentuais, em ambos os cenários.

Dado considerado tão importante quanto intenção de voto, no quesito negativo da rejeição o líder além da margem de empate técnico foi Geraldo Pudim, com 15,8%. Entre os que lideraram as consultas espontâneas, quem colheu a maior rejeição foi Tô Contigo, terceiro no placar geral, com 6,5% ; seguido de Chicão, com 6,3%; e Caio, com 4,8%. Já Rafael Diniz teve apenas 1,5% dos entrevistados declarando que não votariam nele de jeito nenhum, com a segunda menor rejeição entre os 12 pré-candidatos apresentados, à frente de Matoso, com 0,2%.

 

(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Página 2 da edição de hoje (12) da Folha da Manhã
Página 2 da edição de hoje (12) da Folha da Manhã

 

 

Publicado hoje (12) da edição da Folha da Manhã

 

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Ressaca do mar interdita estrada Farol/Barra do Furado

Erosão do mar ameaça interditar estrada municipal que liga Barra do Furado ao Farol (foto: Secom)
Erosão do mar ameaça interditar estrada municipal que liga Barra do Furado ao Farol (foto: Secom)

 

 

A Coordenadoria Municipal de Defesa Civil interditou na noite de sábado (11) a estrada que liga Farol de São Thomé a Barra do Furado, no município de Quissamã. O mar avançou e suas areias já se encontram no mesmo nível da estrada. A informação é do diretor Executivo do órgão, major Edison Pessanha.

Caso se confirme a previsão da Marinha, de ressaca do mar com de ondas superiores a 3 metros para essa noite de sábado, há risco de rompimento do asfalto. Nova sinalização está sendo colocada no local, que fica próximo ao bairro Gaivota.

Duas equipes da Defesa Civil estão no local. Uma do lado de Campos e outra do lado de Quissamã para avaliar a situação e alertar os motoristas. O major Edison orienta que todos evitem trafegar pela via.

 

Fonte: Assessoria da Defesa Civil de Campos

 

Abaixo, confira os vídeos enviados pela assessora da Defesa Civil, jornalista Jane Nunes:

 

 

 

 

Atualização às 02h21

 

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Caio, Tadeu, Rafael e Chicão em empate técnico pela Prefeitura

Pro4 logo

 

Caio Vianna (PDT) lidera a corrida à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR) na consultas espontânea e estimulada. Ambas foram feitas pelo instituto Pro4, entre 8 e 10 de junho, ouvindo 620 pessoas, registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número 00696/2016.

Dentro da margem de erro de 3,9% para mais ou menos, Caio aparece em empate técnico na estimulada com os vereadores Tadeu Tô Contigo (PRB), em segundo, e Rafael Diniz (PPS), em terceiro, assim como com o vice-prefeito Dr. Chicão (PR) — quarto colocado quando colocado como candidato do PR.

Na estimulada, foram apresentados dois cenários ao eleitor: um com Chicão como candidato do PR, outro com este lugar ocupado pelo vereador Paulo Hirano. Pré-candidato assumido pelo PSDB, o vereador e também governista Mauro Silva esteve presente, à parte as opções do PR, nos dois cenários. Em ambos, o número de indecisos, somado às intenções de votar em branco ou nulo, supera os 30 pontos percentuais.

Já no quesito negativo da rejeição, quem lidera com folga, além de qualquer empate técnico, é o deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB).

 

Leia amanhã o resultado da pesquisa na matéria da Folha da Manhã

 

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Fabio Bottrel — O silêncio de quem parte

 

Sugestão para escutar enquanto lê: SacredSpirits- Ly O Lay Ale Loya

 

 

 

 

(Reprodução)
(Reprodução)

 

 

“A terra é profunda e a sua sabedoria é grande. Escute as pedras e escute o vento. Se todos fizessem algo pelos outros, não haveria ninguém necessitado em todo o mundo.” — Palavras de um índio Lakota registrada no livro Nem Lobo, Nem Cão — Por caminhos esquecidos com um índio ancião de Kent Nerburn.

 

O silêncio de quem parte é tão doloroso, que ecoa dentro d’a gente e faz pensar o sentido da vida. Nesse momento estou sentado num banco frio, com os pés sobre a grama úmida, tentando tragar os sentimentos do mundo enquanto olho a fumaça do cigarro se esvair pela noite acima de mim, ao lado meus amigos Marcelo Sampaio e Yoná Alves escutam o silêncio de um homem que caminha para a eternidade. Agora, estamos longe dos que confundem riqueza e alma.

A amizade é o que possuo de mais valioso na vida, procuro nelas alguém para chamar de família,por isso pude sentir o odor da dor de meus amigos ao velar o corpo de quem lhes é querido, Geraldo Gamboa. Por mais valente que desejamos ser, esse será o fim mesmo da vida mais bela, mas na minha breve existência percebi, ninguém viveu a vida que desejou viver. Reflita sobre isso e me diga, se não é indubitável o maior bem da vida estar no intocável? “O mesmo homem que passa tantos dias e tantas noites cheio de cólera e de desespero por ter perdido um cargo, ou por alguma ofensa imaginária à sua honra, sabe também que vai perder tudo com a morte, sem que por isso se inquiete ou se comova. É uma coisa monstruosa ver, num mesmo coração e ao mesmo tempo, essa sensibilidade pelas menores coisas e essa estranha insensibilidade para as maiores.” Já observava Blaise Pascal no século XVII.Amontoados de escravos modernos trabalham sem o direito de perguntar qual o sentido, sem direito ao desejo, fazendo da sua vida o encosto de outrem, disputando a maior relevância quanto mais explora o próximo, passando pela vida como um sopro: parafusos de uma engrenagem enferrujada.

Com o abraço do vento pelo tempo cheguei à casa com a esperança banhada em lágrima. Havia uma vida na geladeira, a ser bebida em goles esparsos na eterna calma dos seus lábios, em palavras aladas que buscam o sentido de uma alma preenchida de vazios. Usando da loucura como antídoto de uma sociedade doente, a solidão se torna a multidão mais densa, gritando a voz rouca de quem já nasceu velho, enganando a mim mesmo como se enganasse o destino, fingindo não saber ser apenas um instante na eternidade, um piscar de olhos entre a vida e a morte. Sentei em frente ao papel e escrevo agora esse texto, minhas mãos dormentes de frio desenhamsem vida os cuspes do meu peito, a cada palavra que sai, sai também uma parte de mim. Ao lado, meus ouvidos respiram as músicas sacras dos indígenas enquanto meus olhos esbarram em alguns dizeres em espanhol do livro de Kent Nerburn, Ni LoboNi Perro – Por Senderos Olvidados con un Anciano Indio, expressando a sabedoria dos índios Lakotas sobre o silêncio, amputada pela engrenagem enferrujada e jamais percebida pelos escravos modernos.

“WakanTanka, Grande Mistério,

Ensina-me a confiar em meu coração, em minha mente, em minha intuição, em minha sabedoria interna, nos sentidos do meu corpo, nas bênçãos do meu espírito. Ensina-me a confiar nessas coisas para que eu possa entrar no meu espaço sagrado e amar além do meu medo, e assim caminhar em equilíbrio com o passo de cada glorioso sol e gloriosa lua.”

(Traduzido do espanhol para português por Fabio Bottrel)

Lá embaixo, o som de funk disputa uma menina para uma selvageria sexual com os berros de um pastor para uma fiel temerosa de um julgamento celestial, se consigo escutá-lo desse lado do rio, penso que Deus deve ser mais surdo que eu. Lá embaixo não há silêncio, não há paz, não há liberdade. Sinto cada vez menos vontade de descer, mas a pureza de Tango, meu cachorro, espera o sol nascer todos os dias para correr atrás dele e o sol se pôr para correr atrás da lua.

Continuo escutando a música sacra, em uma língua que não consigo entender, mas posso sentir perfeitamente. Minhas mãos pararam de escrever por um instante e de novo me veio o pensamento de quando a natureza humana foi corrompida, olho para Campos e pergunto quando a cultura deixou de criar vida e dar espaço para a máquina criar o cimento oco humano. Teatros vazios, cineclubes vazios, mentes vazias, ruas lotadas de bêbados, de badernas, de estupidez.  Se a cultura é a mãe de todas as instituições, mas somente a política pode salvá-la dela própria, ao olhar para os nossos políticos, não preciso terminar essa frase.

Observando a ganância dos homens pelo poder a ponto de arruinar toda uma sociedade, me veio de imediato a carta do chefe dos índios Duwamish, que habitavam a região onde se encontra hoje o estado americano Washington, endereçada ao presidente dos Estados Unidos Franklin Pierce, em 1854, quando este tentava comprar as terras onde habitava sua tribo.

“O grande chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.

Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano.

Minha palavra é como as estrelas – elas não empalidecem.

Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho.

O homem branco esquece a sua terra natal, quando – depois de morto – vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia – são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem – todos pertencem à mesma família.

Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.

Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar d’água é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mãe – a terra – e seu irmão – o céu – como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou miçanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.

Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.

Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou rescendendo a pinheiro.

O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum – os animais, as árvores, o homem.

O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores campestres.

Assim, pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.

Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós – os índios) matamos apenas para o sustento de nossa vida.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.

Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra – fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.

De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.

Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias – eles não são muitos. Mais algumas horas, mesmos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques sobrará para chorar sobre os túmulos um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver, de uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios desejos.

Porém, ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados, pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.

Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.

Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. “Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse”: E com toda a tua força o teu poder e todo o teu coração – conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.”*

Após ler a carta, decidi plantar minhas palavras nesse texto como sementes na alma e permiti crescerem na voz soberana, além do nosso alcance… a voz do silêncio de quem parte banhado nas mudas lágrimas dos que ficaram no caos da engrenagem enferrujada.

 

 

* traduzido da publicação americana original do Dr.Henry Smith-1887. Fonte: http://www.geocities.com/rainforest/andes/8032/page16.html

 

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