Paula Vigneron — Em cena

Espaço Diego y Frida do Museu Dolores Olmedo, na Cidade do México, 14/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Espaço Diego y Frida do Museu Dolores Olmedo, na Cidade do México, 14/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

A terceira campainha soara. Matheus havia chegado atrasado ao teatro e não conseguia enxergar os rostos que o acompanhariam nas próximas horas de espetáculo. A sinopse da peça chamara a sua atenção: um monólogo no qual um homem falava de suas dores e amores. Sabia que, durante as cenas, viveria momentos de catarse que tornariam mais leve o seu interior. Caminhou vagarosamente entre as cadeiras do espaço. Contou seis pessoas. Sentou-se na segunda fileira, sozinho.

Por cinco minutos, nenhum movimento no palco. Apenas uma cadeira de madeira, pintada de branco, no centro, com uma luz da mesma cor sobre ela. Olhou para trás. Estava aflito. As sombras permaneciam imóveis. Um arrepio percorreu o seu corpo. O vazio do teatro deixava-o ansioso e triste. Virou-se para frente. A cadeira, agora, era ocupada por um homem vestido de preto, com a cabeça baixa e cabelos castanhos caídos no rosto. Matheus se ajeitou e se concentrou. O espetáculo estava prestes a começar.

As respirações dos homens trancados no teatro seguiam o mesmo ritmo. Inspiravam, expiravam, inspiravam e expiravam em conjunto. Os movimentos pareciam premeditados e perfeitamente ensaiados. As luzes se tornaram mais escuras, não sendo possível distinguir as expressões dos rostos ali presentes. Ele se mexia em sua cadeira enquanto observava o ator no palco, que se acomodava melhor. Ambos se olharam por breves minutos. Matheus olhou, também, para os outros. Todos o encaravam. Subitamente, levantou-se. Sua vontade era correr em direção à saída de emergência. A estranheza do espetáculo o apavorou. A propaganda havia sido tão boa, e, de repente, as cenas pareciam grotescas. Passos alternados seguiam os seus. Virou-se para trás. As sombras faziam o mesmo percurso. Somente o ator observava o grupo que andava em busca de uma saída inexistente.

Vencido pela tensão, Matheus se sentou novamente. Todos se acomodaram na mesma fileira. Ele ofegava e transpirava. Não se lembrava de ter vivido momentos tão intensos de angústia. A iluminação do palco clareou o ator, que o olhava atentamente. O rapaz gritou ao enxergar a feição do artista. Era ele. Simultaneamente, as luzes da plateia se acenderam. Olhou ao redor. Os demais não possuíam rostos. Os olhos castanhos percorriam os cantos do teatro. Ansiava por explicações, mas sua voz parecia ter se perdido em um caminho sem volta.

A cadeira branca foi arrastada. O ator escorregou pela madeira e se sentou no chão. A luz estava concentrada nele, que alisava o tablado em um gesto incompreensível. Contrarregras surgiram e modificara m o cenário. Um sofá bege, cujo estofado se assemelhava a veludo, ocupava o lado direito do palco. No centro, um divã azul escuro. Matheus reconheceu o lugar. Levantou-se. Suas pernas tremiam. Temia o que iria encarar. Paradoxalmente, não conseguia desviar o olhar. O homem em cena deitou-se e observou o teto.

Antônia, sua psicanalista, conservava o mesmo aspecto sombrio. Os óculos, sempre tortos, postos sobre a ponta do nariz. O bloco branco e a caneta preta posicionadas para anotar os primeiros devaneios que seriam ditos por Matheus. Ela aguardava as palavras, que ainda se ordenavam dentro do ator. Os pés do homem se chocavam levemente, característica marcante do início das consultas. Inspirou profundamente.

— Conseguiu pensar sobre o que falamos na última consulta? — o ator continuava a encarar o teto enquanto Matheus se preparava para responder. Foi interrompido por um sussurro. “Cabe a ti o silêncio, meu caro.” Não havia ninguém a seu lado. O coração tamborilava com violência.

— Pensei, Antônia. Não concluí nada. Não há definições. Definitivamente, sou a perda de tempo que tanto lastimei em minha vida.

Como o ator poderia falar aquilo tão abertamente? Matheus se sentiu desnudado diante dos olhos da plateia e da psicanalista. Eram seus pensamentos mais profundos. Nunca teria coragem de expô-los em voz alta.

— Você é o que enxerga. Você é o que quer, Matheus. Tantas coisas para fazer, e você, homem, permanece apático e insignificante — ralhou Antônia. “Como ela tem coragem de me falar isso?”, questionou-se o homem, que continuava de pé em frente ao palco, apavorado com a grosseria sincera com que era tratado.

— De que adianta ir à luta? Abandonado por uma mulher adúltera a quem continuo amando. Ela, agora, está deitada na cama de outro. Há três anos, amargo essa derrota. O fracasso de não saber lidar com as novidades que a vida me apresenta. Desaprendi a me relacionar. Perdi a capacidade de recomeçar, refazer e recriar. Mesmo com o dia claro, não passo de um notívago. Sobre mim, a sombra de uma nuvem escura prestes a descarregar — a dor de Matheus acabara de ser, pela primeira vez, verbalizada. Desta vez, não entre quatro paredes. Os conflitos foram revelados a outros.

Teve o ímpeto de avançar sobre o ator, que falava sobre suas falhas. “Nem sequer posso deixar herdeiros. Nasci oco. Sou oco. E morrerei oco”, dizia o cruel artista a Antônia, que anotava os relatos. Os movimentos em direção ao palco foram esquecidos quando Matheus olhou ao redor. As sombras estavam coladas ao seu corpo.

— Quem são vocês? O que é isso que acontece à minha revelia? — a voz embargada preencheu o espaço.  Desvencilhou-se do invisível e alcançou o homem do divã. Suas mãos pousaram sobre o pescoço do ator, apertando-o. Ansiava pela morte do outro Matheus. À medida que apertava, perdia o ar. Os rostos ficaram vermelhos. As sombras e a psicanalista sumiram. Ele era obrigado a se encarar. Folgou os dedos e se sentou no chão. Homem e ator. Realidade e personagem. Morte e vida. Os dois se olharam por incontáveis minutos.

— Eu sou o que você não tem coragem de assumir. Eu sou a coragem presa a um corpo inerte e fracassado. Uma construção de sua mente. Confronte-se. Procure e encontre, sozinho, o que está perdido — as luzes rarearam. Apenas o divã e Matheus continuavam sob o holofote.

Diante do homem, um espelho havia sido colocado. Ele se encarou. Envelhecido, deitou-se no divã à espera de Antônia para mais um dia de consulta.

 

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Terceirizações x Lei Eleitoral — Erros de 2016 repetem os de 2004

Ponto final

 

 

Ironia

Em 28 de maio, o jornalista Alexandre Bastos já havia desnudado (aqui) a ironia da declaração feita no mesmo dia pelo secretário de Governo Anthony Garotinho (PR). Na rádio do seu grupo de comunicação, o ex-prefeito, ex-deputado, ex-governador e ex-candidato a presidente da República disse: “Tem político em Campos que só sabe comprar voto. Não faz obra, não presta serviço, só compra votos”.

 

Farra dos RPAs

Pois na manhã de ontem, exatos 10 dias depois, o vereador e pré-candidato a prefeito Nildo Cardoso (DEM) cobrou informações sobre a contratação de funcionários por Recibo de Pagamento a Autônomos (RPA) pelo governo Rosinha Garotinho (PR) em 2016: “Quantas pessoas foram contratados por RPA neste ano eleitoral? Solicito uma lista com as respectivas lotações de cada funcionário. As contas bancárias para receber estão sendo abertas agora, faltando menos de quatro meses para as eleições”.

 

Siga o dinheiro

Político de base eleitoral na Baixada Campista, Nildo disse poder listar pessoas em seu reduto que estão sendo contratadas como autônomos. O primeiro passo será informar ao Ministério Público Estadual (MPE) e depois ao Santander, banco responsável pelos pagamentos da Prefeitura, para saber sobre a abertura das contas dos RPAs, cuja data não pode retroagir. Na última segunda-feira (06), por exemplo, os RPAs que abriram conta tiveram nela seu depósito, enquanto quem ainda não abriu, recebeu na boca do caixa, a partir da lista enviada pelo governo Rosinha ao banco.

 

Na Justiça do Trabalho

No último dia 12, em audiência na Justiça do Trabalho de Campos, o MPE já havia deixado claro (aqui) que pretende ingressar com ação de improbidade administrativa e pedido de intervenção estadual, caso continue a contratação por RPAs — avolumada neste ano eleitoral. Isto seria um flagrante descumprimento, por parte do governo Rosinha, do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado para substituir terceirizados por servidores concursados no poder público municipal, firmado com o Ministério Público do Trabalho (MPT).

 

Na Justiça Eleitoral

Além das consequências na Justiça comum e do Trabalho, Nildo advertiu que “os erros de 2016 lembram os de 2004”. O vereador se referiu à contratação de terceirizados pelo então governo municipal de Arnaldo Vianna (PDT). Condenada como captação ilegal de sufrágio (compra de voto, pelo art. 41-a da lei 9504/97), a prática custou o mandato do prefeito de Carlos Alberto Campista. Eleito pela máquina municipal em 2004 e cassado pela Justiça Eleitoral em 13 de maio de 2015, ele abandonou a política e nunca mais se elegeu a nada.

 

 

Publicado na coluna “Ponto final”, na edição de hoje (08) da Folha

 

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Diálogo de Sarney, Jucá e Renan com os outros presos na cadeia

Para quem sabe garimpar em meio ao cascalho do maniqueísmo raso e da egolatria abissal das redes sociais, há muita gente fazendo da sua democracia virtual uma ágora ao melhor estilo da antiga Atenas. Cada um ao seu estilo, é verdade. O do jornalista Tom Cardoso, por exemplo, costuma ser o diálogo satírico, pelo qual confere leveza aos assuntos mais graves.

Foi o caso do pedido de prisão do ex-presidente José Sarney (PMDB), do presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB) e do ex-ministro e senador Romero Jucá (PMDB), por tentativa de obstrução da Lava Jato, feito pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot ao Supremo Tribunal Federal (STF) e vazado hoje pela imprensa, como o jornalista Arnaldo Neto foi o primeiro a divulgar aqui, na blogosfera goitacá.

Na visão irônica do Tom Cardoso, confira os ecos da notícia, aqui e na reprodução abaixo:

 

Jucá, Sarney e Renan (foto: reprodução)
Jucá, Sarney e Renan (foto: reprodução)

 

Sarney, Jucá e Renan chegam à cela:

— Ei, você de bigode: vai dormir perto do “boi”.

— Sarney: eu?

— Não, vovô, o outro. Você cuida da faxina. Por que o senhor veio fantasiado?

— É o meu brasão da ABL. Não sou político, sou escritor.

— Essa é velha, vovô. Aqui todo mundo se diz inocente.

— É sério, tenho 70 livros publicados. Trouxe esse aqui para vocês.

— “O Dono do Mar”?

— Sim, um belo romance.

— Boa vovô, mas aqui o dono sou eu. Comece arrumando meu beliche ali em cima. Cuidado pra não cair.

— Sim senhor.

— Ei, você aí?

— Renan: Eu?

— Sim, tira logo essa peruca vermelha. Tem preso que tem alergia.

 

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Cultura com Rosinha e Patrícia — Diário Oficial confirma “Ponto final”

Amizade que consome recursos públicos em nome da cultura de Campos: Patrícia Cordeiro e Rosinha Garotinho (reprodução do blog “Eu penso que...”)
Amizade que consome recursos públicos em nome da cultura de Campos: Patrícia Cordeiro e Rosinha Garotinho (reprodução do blog “Eu penso que…”)

 

Ao falar sobre o Ocupa TB, movimento dos artistas de Campos que obrigou (aqui) o poder público municipal a reformar o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, a coluna “Ponto final”, na edição de hoje da Folha e reproduzida aqui, afirmou sobre a relação entre a prefeita Rosinha Garotinho (PR) e Patrícia Cordeiro, presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), responsável pela cultura de Campos:

— Patrícia não tem intenção ou substância para romper com a política dos shows de pouca qualidade e altos cachês, na prioridade “cultural” dos oito anos de gestão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). Por tragicômico que possa parecer, ter Patrícia ali, para manter as coisas como estão, é uma das poucas coisas que restou a Rosinha dentro do governo Rosinha.

Sem bola de cristal, mas com base na observação por vezes penosa da realidade, esta se confirmou também hoje, no Diário Oficial do município. Nele, como informou aqui o jornalista Alexandre Bastos, foram publicadas novas suplementações determinadas por Rosinha, com recursos da terceira “venda do futuro” de Campos, para agraciar a FCJOL da amiga Patrícia.

Como Bastos informou, com o decreto de hoje, a prefeita Rosinha destinou cerca de R$ 450 mil para eventos. Como o empréstimo vai ser parcelado até 2026, as próximas três gestões vão pagar pela festa.

Show do Milhão – Em três meses a FCJOL contou com suplementações que, somadas, chegam a quase R$ 1 milhão (aquiaqui, aqui).

 

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Artistas de Campos — Um passo atrás para dar dois à frente

Ponto final

 

 

Passo atrás?

“Um passo atrás para dar dois à frente”. Pelo conceito de Vladimir Ilitch Lênin (1870/1924), líder maior da Revolução Russa de 1917, deve ser entendida a decisão dos artistas de Campos em desocupar o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, após 27 dias. Como conta (aqui) a matéria na capa da Folha Dois desta edição, o acordo foi firmado na manhã de ontem (6), numa reunião no Trianon, com a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Patrícia Cordeiro.

 

As coisas como são

Bem verdade que os artistas só conseguiram agendar a reunião após a intervenção do vereador e pré-candidato governista a prefeito Mauro Silva (PSDB). Como não é mentira que Patrícia não tem intenção ou substância para romper com a política dos shows de pouca qualidade e altos cachês, na prioridade “cultural” dos oito anos de gestão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). Por tragicômico que possa parecer, ter Patrícia ali, para manter as coisas como estão, é uma das poucas coisas que restou a Rosinha dentro do governo Rosinha.

 

Erros

Prefeito de fato, o secretário de Governo Anthony Garotinho (PR), quando esteve por três vezes (aqui, aqui e aqui) na ocupação do TB, que ele mesmo ocupou em 1982 para se lançar na política, não causou boa impressão — sobretudo ao tentar aplicar sobre os artistas a manjada tática de “dividir para conquistar”. Bem verdade que os artistas também erraram ao pretenderem definir o debate numa pauta de 11 itens (aqui), protocolada na Prefeitura, cujo foco fugiu do TB. Mas, no fim, alguém pode culpar quem se encheu de ouvir Garotinho, sem ser pago para lhe servir de claque?

 

Salva de palmas

Menos nomes do que fatos, o importante é que a promessa de reabrir o Teatro de Bolso seja cumprida. Não apenas aos que participaram dessa sua última ocupação, ou aos amigos do rei que conquistou sua coroa a partir da ocupação de 34 anos atrás. Segundo o responsável da Planetec Terraplenagem e Pavimentação, que assumiu ontem (6) a tarefa de instalar o novo ar-condicionado do TB, o prazo do trabalho é de 60 dias. Por ora, com um olho do calendário e outro no palco, as mãos ficam livres à salva de palmas devida aos artistas de Campos.

 

 

Publicado na coluna “Ponto final”, na edição de hoje (07) da Folha

 

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Ocinei Trindade — O estupro praticado por milhões em rede

Ocinei 07-06-16

 

 

Dói sofrer abuso sexual. Em tempos de Internet então, nem se fala, pois há dor da exposição pública também. Há quem não sinta nada, nem se importe com o que os outros pensam e sentem, neste caso alguma vítima. Se você é ou já foi vítima dessa violência (des)humana, conhece bem esta dor.  Se alguém teve a sorte de não ser (ainda) estuprado, torturado, agredido,constrangido, humilhado e ridicularizado por um ou mais agressores, pelo menos já ouviu falar de alguma história envolvendo pessoas que são submetidas a esta situação de escárnio e vergonha. São mulheres, meninas, adolescentes, jovens e idosas. Mas também há homens, meninos, jovens e adultos que também passam pela agressão de ter o corpo abusado, esfregado, socado, machucado por alguém que tem prazer e satisfação em fazer reféns, por conta de suas perversões e perversidades sexuais.

Em pleno século XXI, os instintos básicos descontrolados por por parte de alguns indivíduos revelam o quão bestial ainda somos. Há quem sofra, mas há muitos que se comprazem, se deliciam com o sofrimento alheio. Queremos detalhes, queremos imagens, queremos fotos, queremos vídeos, queremos testemunhos de quem estupra, de quem é estuprado, de quem investiga denúncias desse crime, queremos todas as novidades possíveis para nos satisfazer. Deixamos de evoluir com saudades das cavernas? A libido ainda é o maior combustível para as relações humanas serem movidas e justificadas? O corpo invadido e tomado sem consentimento é um atentado desolador, devastador, é crime.  E crime previsto em leis, mas até que ponto elas funcionam? O estupro é ainda uma das práticas mais comuns, nem sempre veladas por parte da sociedade ou de diferentes culturas e nacionalidades. O estupro tem sido ora fetiche, ora coisa banal na Internet, pois muitas pessoas têm compartilhado de um jeito ou de outro o drama de alguma vítima de violência sexual nas redes, sem se importar ou refletir verdadeiramente sobre o grave problema que é de questão social.

O Brasil e o mundo acompanham pelos noticiários e pelas mídias digitais nas últimas semanas a denúncia sobre a adolescente exposta nas redes sociais que afirmou ter sido violentada por 33 homens em uma favela carioca. Pois é, a Índia também é aqui, além do Haiti. e miséria é miséria em qualquer canto. A maioria de nós já julgou e condenou os envolvidos de algum modo. Alguns especulam que o sexo foi consentido pela garota, outros falam que ela era isso, aquilo e muito além nos termos mais depreciativos e machistas possíveis. É impressionante como muitas mulheres são tratadas com desrespeito quando o assunto é sexo ou prazer sexual. Se elas forem ou não forem recatadas, comportadas, religiosas, legalmente casadas com homens, contidas, o juízo de valor varia para mais ou para menos. Isto depende ainda do tribunal particular de cada acusador e juiz que posta rápida e confortavelmente em seu celular ou computador sentença para punir os outros. O inferno são os outros? Segundo Sartre, a humanidade está condenada a ser livre. Não é a primeira vez que uma notícia sobre estupro feminino ganha as manchetes dos jornais no Brasil e no mundo. Quando acontece, fazem muito barulho, protestam, dizem que vão combater, mas depois da eufórica novidade, o pior é que cai no esquecimento até um novo caso ser revelado e comover as massas. Alguém pode até dizer “que saco, outra história de estupro de mulher” ou “nossa, esses casos de pedofilia já nem dão mais ibope, prefiro ver novelas”. Já ouvi também: “o Brasil e o mundo carecem de orações”. Sim, até concordo, mas acho que estão faltando mais ações, pois a vida tem valido nada.

Vivemos em uma sociedade altamente machista e preconceituosa, mas não devemos esquecer que esse sentimento e essa cultura predominantemente masculinista envolvem também a opinião feminina como formadora. Percebo que muitas mulheres tendem a criticar e a condenar outras mulheres se estas não se enquadrarem em determinados padrões ou conceitos, dando aos homens certos privilégios e concessões. A filha costuma ser mais tolida que o filho, e este ainda conquista muito mais liberdade dentro das famílias que conheço. Tem certas coisas que para “homem pode,”, mas “mulher não pode, não fica bem”. Uma dessas coisas envolvem o sexo. Se muito praticado por eles, é status, prestígio e admiração devido a performances de macho poderoso e viril. Homem têm quer ter pegada, garantem. Entretanto, se elas têm uma vida sexual muito ativa e livre, ser chamada de piranha, safada, puta ou galinha em comentários fechados ou abertos (não esqueçamos a coisa explícita chamada Internet) é fácil, fácil. Já os gays e lésbicas podem ser associados a algum tipo de libertinagem e devassidão pelas mentes mais encaixotadas e preconceituosas. Aliás, preconceito é o que não falta em nossa sociedade online e off line. Tem de todo tipo, gênero, tamanho e cor, além de escrito, filmado, postado e publicado por aí. Preconceito e intolerância andam minando cada vez mais as relações humanas.

Não devemos esquecer que somos criados e educados por mulheres e homens (embora estes ainda não tenham assumido em boa parte, funções com a devida competência no papel de pai educador). Muitas famílias brasileiras são matriarcais e nossas escolas são constituídas em maioria por professoras. Fico curioso para saber como foram educados os 33 homens acusados de estuprar coletivamente a jovem, quais valores e conceitos aprenderam sobre respeito ao próximo, sobre os limites e gestos necessários quando se convive com a mulher, com o velho e com a criança. Culpar as mulheres que os criaram e os educaram é um risco tremendo. Todavia, não seria de todo mal refletirmos como as famílias brasileiras têm se comportado quanto ao cuidado e orientação que dão para seus filhos, independentemente de classe social, escolaridade, etnia ou credo. Sabemos que o Estado tem inúmeras falhas e está praticamente falido; a igreja se esforça, mas não consegue atender as demandas; a escola é outra instituição ameaçada e a saúde pública nem se fala;  as polícias e os tribunais de justiça estão sucateados ou sobrecarregados; os parlamentos estão abarrotados de políticos inaptos que fazem leis que pouco servem ou que não servem para nada. Para as famílias sobrará a barbárie? Procura-se um salvador desesperadamente, mas convenhamos, se não nos salvarmos a nós mesmos, dificilmente alguém o fará.

O caso do estupro coletivo nos conduz direta ou indiretamente à posição de juiz ou algoz. Tendemos a condenar tudo e todos de acordo com nossos ânimos mais exaltados e feridos, e nem sempre corretos. Ter uma filha, irmã, mãe ou esposa estuprada é agressivo demais, porém são elas que sabem exatamente o que isto significa. Ser violentado sexualmente, sendo homem ou mulher, criança ou adulto é desafiador, uma ferida exposta difícil de cicatrizar sem marcas. Penso que os criminosos agressores maculam uma das coisas mais belas e prazerosas que é o ato sexual pleno, feito e praticado em comum acordo por aqueles que se amam, se desejam e se permitem. Para o cantor Erasmo Carlos, o sexo é uma das mais sublimes manifestações e materializações de Deus. Há muitos tabus quanto ao corpo, à nudez e à sexualidade. Os dogmas e as tradições religiosas orientam o máximo de cuidados e regras na conduta sexual de homens e mulheres. O que para muitos tem natureza pecaminosa, já para outros é só prazer e diversão, celebração hedonista. Se os textos sagrados oferecem uma vasta lista de condutas e práticas de “boas maneiras”, nossa legislação deixa brechas em muitas ocasiões sobre como tratar do assunto, julgar e condenar os responsáveis por violência sexual. Qual a pena ideal para quem cometer esse tipo de crime? Pena máxima ou a morte sumária? Quem no Brasil obedece às leis?

Em entrevista à jornalista Renta Ceribelli, a vítima do estupro coletivo disse que se sentiu constrangida e humilhada na delegacia onde prestou depoimento com a presença apenas de policiais homens. A repórter perguntou à jovem o que gostaria de dizer para aquelas pessoas que ali estavam para ouvi-la e não para condená-la, e para a sociedade que a criticou pelo estilo de vida que levava, por ser sido mãe aos 13 anos, por frequentar comunidades ou namorar rapazes suspeitos. A resposta foi: “eu espero que eles tenham uma filha”. O desabafo pode não ser consciente e pleno do ponto de vista de uma adolescente de 16 anos, mas parece ser quase uma sentença de martírio ou morte o fato de se nascer em um corpo feminino, que já estaria condenado por natureza ou destino a sofrer todo o tipo de ameaça. Infelizmente, por não querermos ou não sabermos nos colocar no lugar do outro, o mal que nos causam acabamos desejando o mesmo para os nossos opressores. Só que um erro não pode justificar outro erro.

Tornar público um estupro, denunciar alguém que praticou violência sexual é uma tremenda saga, além de correr mais riscos de retaliações e vinganças por parte dos acusados, de seus familiares e apoiadores. Por incrível que pareça, há quem condene a vítima e defenda quem forçou sexo com alguém. Não consigo achar a menor graça de quem faz piada sobre estupro. As redes sociais que alimentaram o vídeo do estupro coletivo também alimentam memes, gracejos e bromas sobre o caso. Enquanto escrevia este texto, eu mesmo recebi uma mensagem via celular sobre o noticiário falar de estupro no café da manhã e no jantar, além da madrugada na televisão, pois estava enchendo o saco essa notícia velha e requentada. Infelizmente, há quem ache pesado demais o tema e prefira fazer gozações humoradas sobre o assunto. Não rio. Sofro quando isso ocorre na rotina diária e também na ficção.

O dramaturgo Nelson Rodrigues escreveu Bonitinha, mas ordinária, obra que ganhou três versões no cinema brasileiro. A mais conhecida talvez seja a do filme dirigido por Braz Chediak, em 1981, e estrelado pela atriz Lucélia Santos. A cena do estupro coletivo é considerada uma das mais desconfortáveis e revoltantes de nosso cinema, posso arriscar. Outro filme perturbador sobre o drama de uma mulher estuprada é o francês Irreversível (2002), de Gaspar Noé, protagonizado pela italiana Monica Belucci. Já o americano Um sonho de liberdade (1995), de Frank Darabont, o personagem do ator Tim Robbins sofre estupros frequentes dentro da prisão (aliás, dizem que as prisões recebem estupradores com o mesmo tipo de tratamento, e não considero esta a melhor solução, se é que existe solução). Nestes três exemplos ficcionais há apenas um retrato mínimo do que passam as vítimas da vida real. Curiosamente, há quem se excite com isso e tenha esse tipo de fantasia sexual, bastante alimentada pela indústria pornográfica e disponível facilmente no primeiro click pela Internet. A tara gera dinheiro e audiência. Não quero e nem posso ser moralista, mas não deixo de questionar sobre o comércio dos corpos nas revistas como a Playboy, que traz Luana Piovanni em um “novo conceito” da histórica publicação; a altíssima exploração da nudez feminina no Carnaval do Brasil; o uso do corpo da mulher nas propagandas de cervejas excessivamente sexistas. Tudo isso me faz pensar qual é a mulher que de fato nos interessa e o que as mulheres querem ser de verdade. Cada um deve ser responsável pelo próprio corpo e fazer dele o que bem entender, mas já com o corpo do outro não temos a mesma autoridade ou liberdade.

E pensar que a maioria dos casos de violência sexual não é denunciada às autoridades, pois os crimes costumam ser cometidos em grande parte entre familiares, vizinhos ou pessoas conhecidas das vítimas. O estupro é um mal silencioso e quase sempre encoberto, seja por vergonha, medo, condenação pública, pressão religiosa ou moral, entre outras razões que só mesmo quem passa pela terrível experiência pode afirmar. Talvez pareça egoísta ou covarde de minha parte, mas eu não desejo ter filhas, nem filhos. Ainda acho este mundo um lugar muito perigoso, cruel, perverso e injusto para colocar em risco algo tão precioso e caro que é a vida de uma criança que deveria se tornar o adulto de melhor caráter e com a mais completa formação possíveis. Toda sociedade e todos os governos deveriam ter como prioridade cuidar do maior bem que dispomos: a vida. Mas sem amor, respeito e consideração, fica bem mais difícil. Para mim, o mundo faz cada vez menos sentido quando achamos coisa normal crimes e violências. Triste.

 

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Artistas acordam com Patrícia Cordeiro desocupação do Teatro de Bolso

Ocupa TB 4

 

Numa reunião na manhã de hoje, no Teatro Trianon, entre representantes Ocupa TB e a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patrícia Cordeiro, foi acordada a desocupação temporária do Teatro de Bolso Procópio Ferreira. Após ocuparem o TB desde o último dia 9 (relembre aqui), os artistas aceitaram sair, desde que possam acompanhar e fiscalizar as intervenções do poder público municipal, como a dedetização do prédio (aqui) e a instalação do novo sistema de ar condicionado, cujo serviço já foi publicado (aqui) em Diário Oficial (DO).

Segundo os participantes da ocupação, os problemas estruturais do prédio começaram a se agravar na última quinta (02), quando os ralos começaram a apresentar refluxo. Neste mesmo dia, os artistas tentaram ligar algumas vezes para Patrícia Cordeiro, sem sucesso, mandando depois uma mensagem por whatsapp para o vereador e pré-candidato governista a prefeito Mauro Silva (PSDB), que intermediou (aqui, aqui e aqui) a primeira reunião (aqui) do secretário de Governo Anthony Garotinho (PR) com os artistas, acompanhando-o nas outras duas. Só no dia seguinte ao contato com Mauro, na sexta (03), Patrícia retornou aos artistas, quando o encontro com representantes foi agendado para a segunda (06).

Na segunda reunião entre os artistas e Garotinho, este garantiu (aqui) a reabertura num prazo de 45 dias. Como a promessa foi feita em 13 de maio, o prazo termina no final deste mês. Todavia, o responsável pela empresa Planetec Terraplenagem e Pavimentação, após assumir o serviço hoje, confessou aos artistas que não deve ficar pronto em menos de 60 dias, ampliando o prazo para o começo de agosto. A pauta de 11 itens protocolada (aqui) pelo Ocupa TB, em 17 de maio, junto ao governo Rosinha Garotinho (PR), não foi discutida na reunião entre os artistas e Patrícia Cordeiro.

Abaixo, o texto feito pelos artistas da cidade para comunicar aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, a desocupação do Teatro de Bolso:

 

Ocupa TB 3

 

COMUNICADO:

Boa tarde, gente.
Estamos arrumando as coisas para suspender a nossa ocupação.
Levamos, hoje de manhã, para a Senhora Patrícia Cordeiro um documento onde nos colocamos como pessoas que acompanharão as obras de manutenção e restauro do ar-condicionado do Teatro de Bolso.
Gostaríamos de dizer que o saldo foi positivo, que teremos o teatro funcionando como deve ser e que as outras demandas estudaremos a partir de agora.
Compreendemos que algumas pessoas não concordaram com o que fizemos, mas precisávamos recuar um pouco e garantirmos a nossa vitória.
Gostaríamos também de agradecer imensamente a todas as pessoas que nos apoiaram levando um pouquinho de conforto, palavras de incentivo e arte durante todos esses 27 dias em que moramos no teatro.
Ocupamos, resistimos, aguentamos, mas não poderíamos deixar esse grito parado no ar.
Estamos negociando. Acordamos isso mesmo sabendo e respeitando a opinião contrária de alguns.
Sejamos valentes e continuemos na luta.
Prazer em estarmos juntos, em sermos muitos.
Gratidão!

ps.: A Assembléia de hoje para tratar da Associação proposta na pauta, será adiada. Em breve marcaremos uma nova data aqui.

‪#‎OcupaTeatrodeBolso‬

 

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Artigo do domingo — Nos versos do campeão

 

“Muhammad Ali chocou o mundo. E o mundo é melhor por causa disso. Nós somos melhores por isso”.

(Barack Obama)

 

 

Ali: “Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca, que prefere viver no mundo como ele está, em vez de usar o poder que tem para mudá-lo, melhorá-lo. Impossível não é um fato. É uma opinião. Impossível não é uma declaração. É um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário. O impossível não existe”.
Ali: “Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca, que prefere viver no mundo como ele está, em vez de usar o poder que tem para mudá-lo, melhorá-lo. Impossível não é um fato. É uma opinião. Impossível não é uma declaração. É um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário. O impossível não existe”.

 

 

Na sexta, o editor de esportes da Folha, Antunis Clayton, me disse que Muhammad Ali havia sido internado em Phoenix, no Arizona, onde residia, por conta de problemas respiratórios. No sábado, acordei tarde com o registro de várias ligações do meu filho, Ícaro, perdidas no celular. Retornei a ele para saber que a perda era pessoal: ainda na noite anterior, Muhammad Ali havia morrido, aos 74 anos.

Ex-campeão olímpico (meio pesado, em Roma-1960) e profissional (peso pesado em 1964, 74 e 78) de boxe, era considerado o maior pugilista de todos os tempos. Com seu jeito todo próprio de lutar, sua onipotência técnica só seria depois reeditada dentro do boxe pelo campeão peso médio Sugar Ray Leonard e, no MMA, pelo campeão brasileiro Anderson Silva. Mas Ali teve um cartel respeitável também como ativista político. Lutou pelos direitos civis dos negros e minorias nos conturbados anos 1960/70 — sobretudo depois que teve seu cinturão roubado pelo governo dos EUA e quase acabar preso. Recusou-se a lutar na Guerra do Vietnã (1955/75).

Na dimensão trágica dada à palavra pelos antigos gregos, que também inventaram o pugilato, Ali foi um herói. Apesar da geração distinta, foi também o meu, legado por outro, meu pai. Desde criança, ele me contava, com o entusiasmo de devoto de tempo presente, cada gesto ousado das suas muitas lutas, dentro e fora dos ringues. Bonito, inteligente, articulado, audaz, divertido, defensor do seu povo, amante de lindas mulheres, viril e feminino, Ali foi o maior lutador de todos os tempos. E, nesta condição, derrotou o maior poder de todos os tempos — seu próprio país — quando se recusou a lutar.

Vários de seus combates têm lugar cativo na antologia do boxe. A vitória por nocaute técnico sobre Cleveland Williams (aqui), em 14 de novembro de 1966, considerada tecnicamente como a mais perfeita da história, porque não errou ou levou um soco sequer em seus três assaltos de duração. A vitória por pontos na luta seguinte, em 6 de fevereiro de 1967, contra Ernie Terrell (aqui), a quem surrou da maneira mais cruel, com dolo de ferir sem derrubar, enquanto perguntava “Wat’s my name?” (“Qual é meu nome?”), depois que o adversário o chamou de Cassius Clay, seu nome cristão de batismo, trocado por Muhammad Ali na conversão ao islamismo. A derrota (aqui) para Ken Norton, em 31 de março de 1973, por decisão médica, considerada fenômeno de resistência, por ter lutado 12 assaltos mesmo após ter o maxilar quebrado no primeiro.

E o que dizer das três lutas titânicas contra o também campeão Joe Frazier (em 1971, 74 e 75, aqui, aqui e aqui), seu maior adversário (relembre aqui), nas quais Ali perdeu a primeira e venceu as duas outras, numa trilogia violentíssima da qual ambos levariam consequências neurológicas para o resto das suas vidas? Como o Parkinson contra o qual Muhammad lutou por três décadas e que acabou por derrotá-lo na noite de sexta.

Mas se Ali tivesse que ser lembrado por uma única luta, talvez seja “The rumble in the jungle” (“A luta na selva”), realizada (aqui) em 30 de outubro de 1974. O título promocional fazia referência ao local da peleja, em Kinshasa, capital do então Zaire, atual República Democrática do Congo. Magistralmente registrado no documentário “Quando éramos reis”, de Leon Gast, o evento foi emblemático: primeiro título mundial peso pesado de boxe, esporte majoritariamente dominado por atletas negros, a ser disputado no coração da África, em plena selva equatorial.

Já aos 32 anos, Ali não era o campeão, mas desafiante do dono do cinturão de 25, sete anos mais novo. Não fosse apenas isso, George Foreman, dono do direto de direita mais devastador da história do boxe, havia antes massacrado Joe Frazier, a quem nocauteou cinco vezes ao lhe roubar o título, e Ken Norton. E Frazier e Norton haviam derrotado Ali, muito embora este tivesse vencido a ambos nas revanches.

Pelo retrospecto, a verdade é que ninguém, nem mesmo entre os segundos de Ali, achava que ele tivesse chance contra Foreman. Muitos temiam inclusive que, pelo seu destemor, ele acabasse morto no ringue pelo jovem e hercúleo campeão. Julgava-se que sua única alternativa seria tentar dançar em torno do adversário, sua arte (aqui), evitando o combate franco.

Soado o gongo inicial, Ali surpreendeu a todos e partiu para dentro do “monstro”. Na franqueza de uma briga de rua, se valeu da sua técnica exuberante para acertar 12 diretos de direita na cara do campeão. Uma dúzia exata e certeira do soco mais forte que um pugilista destro é capaz de desferir. E Foreman só virou o rosto após cada um deles, como se nada tivesse acontecido.

Certo de que, na briga, não teria chance, aquele intervalo entre o primeiro e segundo assaltos é a única vez na carreira de Ali que se pôde ver o medo estampado em sua face. Temor pior do que o de quem apanhou: a paúra de quem bateu com tudo que tinha e viu que não fazia qualquer diferença. Depois, quem temeu disse ter olhado o objeto do seu medo, no canto oposto do ringue, e mentalizado:

— Você é mais jovem do que eu, maior, mais forte, mais rápido. Mas você está disposto a quebrar costelas, seios da face, dentes, maxilar? Está disposto a morrer aqui, dentro deste ringue? Porque eu estou! E, se não estiver, você vai perder!

Após ter refeito sua convicção em si, o desafiante se virou para os 100 mil africanos que torciam declaradamente por ele e regeu o coro: “Ali, buma ye! Ali, buma ye!” (“Ali, mata ele!”).

Se tinha espantado a todos ao partir para o combate franco no primeiro assalto, Ali voltou a surpreender do segundo ao quinto, quando foi para as cordas, fechou-se na guarda e aceitou passivamente ser o saco de pancadas para o pugilista mais forte que já existiu. Isso, enquanto provocava o tempo inteiro, no combate psicológico que sempre impunha aos adversários:

— Ei, George, me disseram que você batia forte! Assim você me decepciona! Você não quebra nem amendoim assim, George! Cadê sua força, garoto?

Qualquer um que já tenha lutado, sabe que bater cansa muito mais do que apanhar. Tanto mais na umidade do clima de uma selva equatorial. Confiante no seu encaixe — no jargão do pugilismo, a capacidade de absorver golpes —, Ali foi minando as reservas do gigante, esvaído em golpes fortíssimos, como faz o mar com as construções humanas em Atafona. A partir do quinto round, o desafiante voltou também a agredir, até que numa sequência certeira de golpes no oitavo, um Foreman exausto e cambaleante desabou em câmara lenta, como um prédio.

Feito o impossível, diante do mundo que deixou mais uma vez atônito, Ali subiu nas cordas e ergueu os dois punhos à multidão reunida onde a espécie humana nasceu. E, naquele exato segundo de epifania coletiva entre o campeão e seu povo, como numa cena bíblica do Velho Testamento, desabaram as monções africanas.

Ali era disléxico. Por isso, fez uso da rima e da métrica, como um precursor dos rappers, para se tornar um grande aforista. Seu lema era: “float like a butterfly sting like a bee” (“voar como borboleta e picar como abelha”).

Certa vez, na universidade de Harvard, quando passou a viver de palestras, após ter sido impedido de boxear por três anos e meio por conta da recusa em lutar na Guerra do Vietnã, os estudantes lhe pediram em coro:“Give us a poem!” (“Dê-nos um poema”).

Após pensar um segundo, o campeão disse: “Me, we” (“Eu, nós”).

Com a humanidade a reboque, difícil pensar numa vida tão bem resumida em verso. E, como meu pai me ensinou, eu o amei por isso.

 

 

“virá impávido que nem muhammad ali

virá que eu vi”

(caetano veloso)

 

 

paixão a palo seco

 

o punho esquerdo vivo, arauto ativo

da direita dissimulada em guarda baixa,

guardada ao avessar da face que o encara

pendularmente, lado a lado, pela cartilha,

não para frente e trás, como seria

recuar nos trilhos do trem que avança,

só não alcança quando lá está ali,

feminino nos gestos de um felino.

 

a delicadeza florescida em oposição,

por oposto o soco ao giro da ponta do pé,

na lona plantado à picada da abelha,

mas de raiz aérea, de vôo de borboleta

— belo ao reinventar o mundo que abalou,

ao derrubar homens e se arrogar rei,

negou ser soldado de matar alguém,

para afirmar sua raça: homens também;

eu, nós, nos versos do campeão.

 

campos, 22/03/07

 

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Fabio Bottrel — Dona d’um Coração Surrealista

Sugestão para escutar enquanto lê:

 

 

 

 

Ilustração de Ben Gossens
Ilustração de Ben Gossens

 

 

Está escuro, aqui, no alto do Imbé.

Lá embaixo um pedaço do rio é iluminado pela lua.

Com o peito nu abro os braços para a imensa escuridão…

Consegue sentir?

O sussurro dos ventos nos meus ouvidos, os poros se arrepiarem de dor, o peito se abrir em flor?

Com a pele dilacerada veja meu pulmão deixar o meu corpo, bem à minha frente, iluminado pela lua, cai n’água de forma brusca.

Não consigo respirar, corro para a beira do abismo enquanto a poeira se levanta com o batuque dos meus pés, pulo, mergulho, soturno, para dentro de mim, perfuro a gota do oceano diluída na multidão de uma pessoa só.

¡Nado, nado, nado a braços largos, meu pulmão iluminado pela lua do fundo do oceano se afasta cada vez mais de mim, se não conseguir alcançá-lo em pouco tempo morrerei asfixiado. Chego até a areia do fundo e quase consigo pegá-lo, mas logo se enfiou entre os grãos se batendo como meu coração. Cavei até sair em um campo com gramas verdes e úmidas, ao longe, meu pulmão voa, corro, mas minhas pernas já estão cansadas pela falta de oxigênio.

Me apoio ofegante numa grande árvore colorida, lá em cima ele está parado, brilhando com a luz do sol, se enchendo e esvaziando. Subo a árvore e ao sair do amontoado denso de folhas percebo que o verde se transformou em branco das nuvens, além do céu meu pulmão voa enquanto pulo de nuvem em nuvem tentando alcançá-lo, mas ao pisar forte em uma grande e carregada nuvem de chuva, afundo, fundo, caio sem paraquedas com a cidade inteira abaixo de mim, meus cabelos arrepiados, minhas bochechas querendo deixar o corpo de tanto vento, vejo meu pulmão ao lado, mas o vento me impede de chegar até ele.

Corto o ar com braçadas fortes, como se estivesse nadando, mas já não há tempo, estou caindo e o chão é próximo. Bato tão forte na terra que paro no meio da Terra, em meio as lavas procuro meu pulmão, mas não consigo enxergar nada, dentro de um vulcão em erupção sou expelido para fora como um jato de lava e ao me pôr em pé na superfície do planeta, vejo que já não caibo mais nele, se tornou do tamanho de uma bola de futebol, me equilibrando com apenas um pé, olho para cima e vejo meu pulmão já perto de plutão, pego impulso e pulo em sua direção. Já se passou um minuto e meio e estou roxo, talvez não aguente chegar até o final do sistema solar, até o final do sistema solar… Pedras, meteoros me impedem de chegar, me seguro em Júpiter, tentando alcançar, meu pulmão, o final do sistema solar…mas já não há mais tempo, não consigo mais segurar, continuo tentando alcançar…

Tentando alcançar

Tentandoalcan

Tentan

Tent

Te

 

te-te-te

 

A

Até

Até mim

Até mim ele

Até mim ele veio

Até mim ele veio, entrou em meu peito e consegui novamente respirar.

…::…                …::…                …::…                …::…                …::…                …::…

Abismo alto, aqui, escuro está

Lua iluminando o rio d’um pedaço lá embaixo.

Escuridão imensa, braços abro nu peito

Sentir, consegue?

Flor abrir-se em meu peito, de dor arrepiarem-se os poros, ouvidos meus nos ventos dos sussurros?

Brusca forma no rio cai…

Uma pessoa só de multidão, diluída na gota de um oceano, perfura soturna, mergulha, pula pés de batuque enquanto levanta a poeira na beira do abismo corre respirar, mas falta oxigênio pelas cansadas pernas, corre, voa pulmão longe nas úmidas e verdes gramas em um campo meu coração batendo como os grãos no fundo da areiaasfixiado se não conseguir alcançá-lo em pouco tempo, de mim afasta-se cada vez mais oceano, fundo de lua iluminando meu pulmão de largos braços dona, dona, dona!

 

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Guilherme Carvalhal — Faits Divers

Carvalhal 02-06-16

 

 

Diante da coleção de recortes de jornais da vovó Margarida, Lucinha perguntou que que era aquilo e levou um tapa na mão do pai para que soltasse. Não, não deixaria as caduquices da velha afetarem a filha — influência do bicho ruim, explicou-lhe o pastor. Bom pai que era, não permitiria à sua pequena amaldiçoar-se pela coletânea de almas aprisionadas pelas palavras.

Bem, pelo menos assim ele interpretou. Captava naquelas descrições de homicídios, suicídios, acidentes e demais fatalidades histórias não concluídas de personagens não plenamente emigrados, permanecendo em um espaço fronteiriço entre vida ou morte. E sua mãe, com aquelas pastas pretas de folhas plásticas, impedia os fantasmas de alcançarem seu descanso — ou danação — eterno. Sua vontade era de tacar fogo, mas sabia como a mãe o condenaria, e sabia também que conjuração materna tinha poder do outro lado.

Ninguém entendia ao certo porquê Margarida começou a se interessar com afinco pelas notícias fatais nos jornais. Um dia a flagraram com a tesoura a destacar a notícia de uma mulher que tacou chumbinho na comida do marido ao descobrir sua infidelidade conjugal (anotada a caneta hidrocor com o número 1), e desse dia em diante compareceu religiosamente às bancas logo ao amanhecer para comprar uns quatro exemplares distintos, sem querer deixar escapar nenhum fato. Não lia quase nada dos jornais, apenas as notícias policiais e o obituário. O restante servia para embrulhar comida antes de guardar no congelador.

Os volumes se acumulavam e alguns curiosos pegavam para revirar, algo a orgulhar a senhora à semelhança de exibir medalha por algum feito. Ela recontava muitas das histórias existentes ali, criando uma epopeia pessoal a partir da reconstituição das muitas tragédias arquivadas. Narrava histórias de amor terminadas em morte (as preferidas), latrocínios (as piores por deixar a vida à mercê dos bens materiais), suicídios (os mais reflexivos, por querer entender o que leva alguém a esse ato de desespero), entre outras fatalidades. Uns levavam aquilo com graça diante de uma aposentada ocupando o tempo ocioso, outros entendiam como a construção de um museu mórbido e preferiam se distanciar. Ela apenas dava um passo atrás quando perguntada sobre o porquê dessa atividade; se esquivava e mudava de assunto rapidamente.

Pouco após aquele contato, Lucinha caiu com forte febre. Silvano se enfureceu e deixou de lado quais restrição e, à despeito das vontades maternas, catou aquela papelada toda, levou ao quintal e tacou fogo em tudo. A senhora veio desesperada chorando como se tivessem imolado um filho a fogueira. Ao tentar pegar água para reduzir o estrago, o filho tomou o balde da sua mão enquanto chamava o nome de Deus expulsando demônios.

Ela correu e se ajoelhou, queimando-se nas brasas. Chorava em desalento, chamando as pessoas inscritas em todas aquelas histórias. Saíam nomes e lamentos, Manoela, cuidado com o trânsito na Via Dutra, Sebastião, não beba dessa água, pois tem veneno, Lívia, sua operação de cálculo renal vai desencadear em graves complicações, e se debatia no chão desolada.

Silvano então se compadeceu e solidarizou. Arrependeu-se imediatamente, porém não havia tempo de voltar atrás. Admirou-a caída, suja de terra e cinzas, e apenas assim compreendeu que, em toda sua solidão na face da terra, ela acabou por encontrar apenas a morte por companhia.

 

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