Crítica de cinema — Broches e novas dimensões: o futuro em nossas mãos

Bagdá Café

 

 

Tomorrowland

 

Mateusinho 3TOMORROWLAND — Um mundo perfeito: sem guerras, distrações, políticos que possam atrasar a evolução de um espaço. Sem problemas relacionados ao meio ambiente e, também, a questões sociais. Um local em que as pessoas possam viver plenamente e agir em prol da Terra, contribuindo para o seu desenvolvimento. Esta é a realidade desejada no filme “Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível”, do diretor norte-americano Brad Bird (“Os incríveis, 2004; “Ratatouille”, 2007; “Missão impossível – Protocolo fantasma”, 2011). Em comum com as atuais circunstâncias do mundo real, aspectos políticos e conflitos humanos permeiam o filme, destinado ao público infantil, mas recomendado, também, aos adultos.

Em Tomorrowland, uma terra na qual as pessoas possuem conhecimentos acerca do passado, presente e futuro. Casey Newton (Britt Robertson), adolescente cujo pai é engenheiro da Nasa, tem interesse por ciências. Após atacar patrimônios do governo, a jovem é presa. Na saída, entre seus objetos pessoais, ela encontra um PIN — uma espécie de broche — que não lhe pertence. A partir desse PIN, Casey começa a ter visões de outra dimensão, até que a bateria do pequeno aparelho eletrônico chega ao fim.

Em sua busca para consertá-lo, a menina é vítima de armadilhas até conseguir encontrar novamente o local que deseja. Para isso, ela necessita da ajuda de Athena (Raffey Cassidy) e de Frank Walker (George Clooney), que esteve em Tomorrowland durante anos da sua infância, mas foi expulso da dimensão e interpreta a realidade de forma negativa, em oposição ao comportamento positivo de Casey.

Em cena, a união de atores consagrados e novatos chama a atenção dos espectadores. George Clooney e Hugh Laurie, que interpreta o governador vilão David Nix, interagem em nível semelhante com Britt Robertson e Raffey Cassidy, sendo esta, surpreendentemente, o maior destaque da produção norte-americana. A inglesa, de 12 anos, com expressões firmes e entrega ao texto e às cenas, toma plenamente o cenário com interpretação de qualidade, levando o espectador a mergulhar nas partes em que sua personagem aparece. Nas sequências em que atua com o veterano Clooney, Cassidy se destaca pelo brilhante trabalho de atriz e por se tornar tão grande quanto o veterano ator.

Os cenários que compõem “Tomorrowland — um lugar onde nada é impossível” remetem a filmes futuristas, tanto estrangeiros, como “Blade Runner — O caçador de andróides” (1982, dirigido por Ridley Scott) e “Nosso Lar” (2010, de Wagner de Assis — o longa-metragem, apesar do viés espírita, apresenta uma realidade com construções arquitetônicas e aspectos de futuro e tecnologias além das existentes no mundo atual). O dinamismo cênico torna mais agradável e atraente o roteiro, que, se criado a partir de artefatos mais simples, teria mais aspectos repetitivos e negativos do que positivos.

Embora a aventura seja voltada principalmente para o público infantojuvenil, o filme traz, breve e suavemente, questões políticas, sociais e ambientais ao debate — apesar de rapidamente citados em determinados trechos da história. Para livrar Tomorrowland de abusos humanos, o governador David Nix, papel interpretado por Hugh Laurie, se mantém a favor da destruição da Terra, mandando para ela homens que possam fazer com que a dimensão do futuro não seja descoberta. Ele crê que a condenação do planeta esteja ligada ao descaso de seus habitantes que, cientes de todo o mal que causam a si mesmos e à natureza, prosseguem com afã de dar continuidade a seus sonhos e objetivos.

O vilão afirma que “as pessoas são movidas pela selvageria”. Problemas como epidemias, obesidade, fome, catástrofes são apresentados, em “Tomorrowland”, como consequências do mau comportamento dos humanos, possibilitando que o público — crianças, jovens e adultos — reflita sobre os rumos que tem seguido o Planeta Azul e possa evitar ações nocivas que, diariamente, colaboram para os males terrestres.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

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Crítica de cinema: Tomorrowland — Um lugar onde nada é impossível

Cinematógrafo

 

 

Tomorrowland

 

Mateusinho 2TOMORROWLAND — Ao assistir “Tomorrowland”, lembrei de um filme B que ironizava as aventuras do espião 007. Um homem do bem ou do mal, não me lembro mais, é preso por outros e colocado num helicóptero que o conduz para um lugar distante no mar. Lá, ele é atirado da aeronave, mergulha e é retido por outros homens que o atiram numa jaula submarina em que se encontra separado de um tubarão por uma grade divisória. Suspensa a grade, o tubarão o devora. A intenção era satirizar as mortes rebuscadas dos filmes de espiões, que poderiam ser resolvidas com um mero tiro ou com um golpe forte. Mas, ao sofisticá-las, parece que a trama se torna mais atraente.

“Tomorrowland” (Estados Unidos, 2015), filme saído dos estúdios da Disney, até começa de maneira promissora com uma discussão sobre utopia e distopia entre Frank Walker (George Clooney) e Casey Newton (Britt Robertson). Toda sociedade, na Modernidade, cria concepções de futuro. Nos séculos XVI e XVII, na Europa, foram numerosas as utopias, a começar pela de Thomas Morus. Nelas, há uma esperança nos seres humanos, na ciência e nas tecnologias, que podem construir um mundo melhor do que aquele em o autor da utopia vive.Já nos séculos XX e XXI, o avanço das tecnologias e a decadência moral estimularam autores como Aldous Huxley e George Orwell a vislumbrarem distopias, ou seja, futuros sombrios. Atualmente as distopias pululam por toda parte, mas as utopias ainda persistem. “Tomorrowland” começa com uma discussão entre um homem de meia idade pessimista e uma jovem otimista. Logo em seguida, o filme parece se perder, com idas ao passado e ao futuro.

Brad Bird, seu diretor, tem, a seu crédito, três sucessos de bilheteria: “Os incríveis”,  “Ratatouille” e “Missão impossível: protocolo fantasma”. Mas, em “Tomorrowland”, ele se perdeu, não apenas como diretor. Com Damon Lindelof, ele é criador da ideia original, colaborador no roteiro e roteirista. Qual a diferença entre criador da ideia original, colaborador do roteiro e roteirista? Por que não se é roteirista apenas, que já embute a ideia original? Seja qual for a diferença, a verdade é que o roteiro é confuso para um adulto estudioso de utopias e distopias quanto mais para um jovem, público a que o filme se dirige.

Perguntei a meu neto, de 11 anos, o que ele compreendeu. Resposta: é um filme em que as pessoas buscam um futuro melhor do que o presente. Até aí, tudo bem. As locações são deslumbrantes, os efeitos especiais são caríssimos, mas as ideias parecem confusas. Parece que tudo gira em torno de um boton, espécie de passaporte para o passado, para o presente e para o futuro. Com ele, visita-se a terra do amanhã ou um lugar onde nada é impossível, dois subtítulos do filme. Com ele, encontra-se tanto com Thomas Edison, Nikola Tesla, Júlio Verne e Gustave Eiffel quanto com robôs exterminadores. A Torre Eiffel é tanto uma atração turística quanto uma base se lançamento de naves espaciais. Seria ótimo se um simples boton conduzisse governantes, empresários e cientistas para um mundo futuro, além da modernidade, da globalização e da economia de mercado. Parodiando o poeta brasileiro Paulo Henriques Brito, não se pode deixar as ideias meio soltas. É preciso domesticá-las.

 

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Crítica de cinema — Torcendo por avanços nas comédias cinematográficas

Colyseu

 

Qualquer gato vira-lata 2

 

Mateusinho 2QUALQUER GATO VIRA-LATA 2 — Quando se transforma em sucesso de bilheteria, um filme aclamado por público raramente fica sem uma continuação. Em alguns casos, as sequências não passam de caça-níqueis que acabam sendo ignoradas.

O cinema brasileiro, pelo menos nas produções de comédias românticas, vem enfrentando um momento de crise criativa, daí é muito mais fácil e seguro apostar em investimentos certeiros na busca pelo grande público. Só assim para explicar a enorme quantidade de sequências que foram lançadas nos últimos tempos e que não agradaram.

Em 2011 a produtora Buena Vista lançou “Qualquer gato vira-lata” baseado na peça “Qualquer gato vira-lata tem uma vida sexual mais sadia do que a nossa”, de Juca de Oliveira, a comédia romântica foi um inesperado sucesso de bilheteria, levando mais de um milhão de espectadores aos cinemas sem nenhum nome de grife do gênero — o mais próximo era o coadjuvante Álamo Facó, que participou do seriado “A grande família” (2009-2010) e do besteirol “Totalmente inocentes” (2012).

Sem nenhuma surpresa nos chega em 2015 “Qualquer Gato Vira-Lata 2” (107min) com a direção de Roberto Santucci, realizador de todas as comédias campeãs de bilheteria no atual cenário nacional. São dele, por exemplo, os recentes “O candidato honesto” (2014) e “Loucas para casar” (2015). O roteiro é de Paulo Cursino, que assinado o de quase todas as outras comédias realizadas no país nos últimos anos, como “De pernas para o ar” (2010) e “Odeio o dia dos namorados” (2013). “Qualquer Gato Vira-Lata” contava a história de uma bela moça (Cléo Pires) que, apesar de estar apaixonada por um rapaz todo careta e certinho (Malvino Salvador), ficava balançada pelo jeito malandro e desapegado de um ex-namorado (Dudu Azevedo). Pois sua continuação recente narra exatamente a mesma série de eventos. A única diferença é o cenário, deixa-se de lado o Rio de Janeiro original e muda-se para uma ilha paradisíaca do Caribe.

É a mesma fórmula empregada, por exemplo, em “De pernas para o ar 2” (2012), do mesmo diretor e roteirista. Dessa vez, o casal protagonista está meio de férias e meio a trabalho para o lançamento do livro dele, mas quando ela o pede em casamento, ao invés dele aceitar de imediato, fica em dúvida e “pede um tempo para pensar”. A crise começa, e o antigo concorrente ressurge, colocando tudo em suspense mais uma vez.

Cléo Pires continua tão linda quanto seus colegas masculinos (embora desajeitados), e a verdade é que ela não convence muito como par de nenhum dos dois. Malvino exagera nas caras e bocas, evidenciando uma falta de direção mais atuante, enquanto que Azevedo é o que mais sofre com a inconsistência do seu personagem  — a sub trama com a filha postiça chega a ser risível, e é constrangedor perceber que a menina Mel Maia está muito melhor preparada do que ele nestas cenas.

As novas aquisições da franquia são bem vindas. Mel Maia (“Avenida Brasil”) interpreta Julia, uma garota subornada por Marcelo para se passar por sua filha e amolecer o coração da amada. No viés dramático do enredo, Fábio Jr. (“Tal pai, tal filho”) faz uma participação especial como o pai de Tati. A cena claramente mistura emoções da vida real com a história ficcional e cria um momento tocante.

No final das contas, “Qualquer Gato Vira Lata 2”  só pode ser considerado um saldo positivo na medida em que há melhorias evidentes na qualidade da produção. Os romances/comédias cinematográficos estão longe de acabar. Então, é melhor torcer pelos avanços do gênero.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

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Artigo do domingo — Muito a fazer pela Saúde de Campos, não por um grupo político

Saúde doente

 

 

Jornalista Rodrigo Gonçalves
Jornalista Rodrigo Gonçalves

Saúde doente

Por Rodrigo Gonçalves

 

Há quase três meses, utilizei este mesmo espaço de domingo para falar sobre uma sucessão de acontecimentos que deixavam expostas as feridas da Saúde de Campos. Na ocasião, já alertava que os defensores do governo até diriam que são situações pontuais, mas, ao que tudo indica, incuráveis, e que precisam ser revistas, principalmente neste momento de crise. Na última semana, conforme foi mostrado pela Folha em reportagem (aqui) feita pelo jornalista Alexandre Bastos, a Saúde de Campos foi examinada durante audiência pública na Câmara de Campos e recebeu dois diagnósticos. Se os gestores e vereadores ligados ao governo apontam progressos, sem a necessidade de grandes intervenções, a oposição afirma que “a Saúde está na UTI”.

Independente de opiniões, nos fatos, a Saúde tem se mostrado doente, tendo em vista não só os acontecimentos que antecederam a audiência na Câmara, mas também os que vieram depois, inclusive virando caso de polícia após registro de ocorrência feito por um deficiente visual que não conseguiu uma consulta específica de emergência nas três principais unidades de Saúde da rede municipal, na última sexta-feira. Neste mesmo dia, pacientes também denunciaram o caos em busca de atendimento no PU de Guarus, onde, na parte da tarde, só haveria um clínico geral para todas as consultas e faltavam remédios na farmácia. Ainda anteontem, o Sindicato dos Médicos de Campos (Simec) divulgou um comunicado em que veio “a público denunciar o colapso do sistema de Saúde do município”. Segundo a nota, “devido ao atraso nos repasses hospitalares, médicos da rede conveniada à Prefeitura estão com o pagamento atrasado há cinco meses. Nesta semana, parte dos profissionais recebeu os salários referentes à produção de novembro do ano passado. Em outras unidades, o pagamento é referente ao mês de dezembro. Como suporte a esta estrutura, a cidade possui uma rede conveniada com Sistema Único de Saúde (SUS) de quatro hospitais gerais que integram o sistema de atendimento à população, não só de Campos, mas de toda a região. A parcela de cidadãos que depende do sistema público para o tratamento de alguma patologia não é pequena: cerca de 85%”.

O sindicato denunciou, ainda, a “rede básica ineficaz, postos 24 horas sem as estruturas físicas e técnica para dar cabo às demandas da população. Muitos pacientes não fazem, sequer, os exames mínimos de urgência: ECG, RX e exames laboratoriais. Com isso, a maioria dos casos é encaminhada ao Hospital Ferreira Machado e Hospital Geral de Guarus, criando a sobrecarga ao atendimento nestes hospitais, além de descaracterizar os casos que deveriam ser realmente atendidos nestas unidades hospitalares”.

A sobrecarga nestas unidades e outras da rede municipal também já foi constatada recentemente, inclusive em vistorias do Ministério Público Federal (MPF), que ficou de tentar, junto à Prefeitura, um acordo para sanar vários problemas encontrados.

Infelizmente, seja qual for o Governo, a Saúde é um calcanhar de Aquiles. No artigo que escrevi há quase três meses, ressaltava o quanto foi importante o vice-prefeito Chicão assumir a secretaria municipal de Saúde em um momento em que o setor também sofria desgaste, credenciado, principalmente, pelo excelente médico que é. Como disse anteriormente, é verdade, também, que muitos problemas foram amenizados e que avanços são notórios, como a volta do antigo Programa Saúde da Família (PSF), agora Estratégia Saúde da Família (ESF). No entanto, hoje, o desgaste, mais uma vez, fala mais alto. Naquele, mesmo artigo eu já citava Chicão como um dos nomes mais cogitados para suceder Rosinha, mas ressaltava, também, que, com os cortes na Saúde que inviabilizam qualquer gestão, já dava para duvidar se ele é realmente a vontade do seu “grupo” político. O que já se sabe é que o atual secretário e vice-prefeito nunca foi unanimidade quando está em jogo a sucessão em 2016 e que o desgaste hoje enfrentado por ele pode fazer a diferença, principalmente na decisão final do “grupo”. Mas, ainda há tempo para se fazer muito pela Saúde de Campos, não por interesses políticos de um “grupo” que quer se manter, a qualquer custo, no poder, mas sim porque a população precisa, merece e exige.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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“Rombo” no primeiro governo Rosinha gera inquérito e indiciamento

Rombo Rosinha 4
Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

 

Denunciada pelo vereador Marcão (PT) desde 25 de novembro de 2014 ao Ministério Público Estadual (MPE), o rombo de R$ 109.819.539,37 nos cofres públicos de Campos, segundo auditoria interna determinada pela prefeita Rosinha Garotinho (PR) sobre sua primeira gestão municipal (do início de 2009 ao final de 2012), rendeu um inquérito civil público e o posterior indiciamento do ex-secretário de Finanças de Campos, Francisco Esquef. As iniciativas foram de Marcelo Lessa, titular da 2ª Promotoria de Tutela Coletiva da comarca. Ele, no entanto, isentou a prefeita de responsabilidade no que chamou de “supostas operações ilegais e prejudiciais ao erário”. Por sua vez, Esquef negou qualquer ilegalidade nas operações, garantindo ainda que estas deram retorno financeiro positivo aos cofres do município, esclarecimentos que ele disse já ter prestado com documentos, em maio deste ano, à Comissão de Tomada de Contas do Município.

Em novembro de 2014, Marcão conseguiu cópias da auditoria, concluída desde 15 de julho de 2013, assinada por Salvadora Maria Ribeiro de Souza, Denilson Amaro Barcelos Paravidino, Roberto Landes da Silva Júnior, Marcos André Hauaji Leal, Otávio Amaral de Carvalho, Calos Augusto Loureiro Martins e João Batista de Oliveira. Ao ser alertado (aqui) pelo blog “Opiniões”, numa postagem de 24 de novembro do ano passado, de que o rombo no primeiro governo Rosinha, identificado por sete auditores nomeados por ela, seria revelado na tribuna da Câmara, o impacto da notícia entre os governistas foi tanto que seus vereadores esvaziaram a sessão do dia seguinte (aqui). O vereador da oposição se empenhou, então, numa romaria para desvendar o rombo de quase R$ 110 milhões na Prefeitura, levando a denúncia documentada da auditoria de Rosinha ao MPE, ao Ministério Público Federal (MPF), à Polícia Federal (PF), aos Tribunais de Contas do Estado (TCE) e da União (TCU), além da Controladoria Geral da União (CGU).

Por enquanto, o único órgão fiscalizador a se manifestar oficialmente sobre o caso foi o MPE, que em 25 de maio mandou oficiar Marcão da abertura do inquérito civil público, aberto em portaria de 13 de janeiro, e do indiciamento de Francisco Esquef, feito num despacho de 20 de maio. O vereador viu com bons olhos a iniciativa por enquanto solitária de investigar, mas fez ressalvas ao entendimento do promotor sobre a responsabilidade da prefeita no rombo identificado por sua auditoria:

—  A denúncia se transformou em inquérito civil público. Isso significa que o parquet (promotoria) entendeu que há indícios de autoria e materialidade de crimes praticados contra o erário público municipal, dentro do governo Rosinha Garotinho. Mas o promotor entendeu que a prefeita não tem responsabilidade, do que eu discordo frontalmente.

Para endossar sua discordância, Marcão lembrou as recomendações finais à prefeita feitas pela por sua própria auditoria: “Recomendamos abertura de tomada de contas para apuração de responsabilidades e inscrição dos valores de possíveis danos aos cofres do tesouro municipal, e posterior envio ao TCE-RJ para apreciação e demais órgãos competentes, visando o ressarcimento ao erário e resguardo de responsabilidade da prefeita Rosangela Rosinha Barros Assed Matheus de Oliveira pela administração financeira do município”.

— Como Rosinha não apurou responsabilidades, não correu atrás do ressarcimento dos danos aos cofres públicos, nem tampouco enviou o caso ao TCE e demais órgãos competentes de fiscalização, coisa que só foi ser feita por mim, quase um ano e meio depois da conclusão da auditoria realizada por determinação dela, me parece óbvio que a responsabilidade da prefeita não ficou resguardada — concluiu o vereador do PT

Além do raciocínio de Marcão com base nas recomendações da auditoria aparentemente não cumpridas, na tentativa de isentar Rosinha de responsabilidade, Marcelo Lessa cometeu um grave erro cronológico em sua justificativa. Como pode ser visto ao lado (abaixo), o promotor alegou que a auditoria determinada pela prefeita “levou à exoneração imediata do Secretário (de Finanças)”. Na verdade, Francisco Esquef foi exonerado em 20 de maio de 2011, enquanto a auditoria só foi concluída em 15 de julho de 2013, mais de dois anos depois.

 

Defesa da legalidade e retorno das operações

“Soube da auditoria pela imprensa, assim como é através de vocês que agora sei desse inquérito civil público e do meu indiciamento. Concordo que quem ocupa função pública tenha que dar satisfação dos seus atos e estou muito tranquilo, pois todos os meus, enquanto estive à frente da secretaria de Finanças de Campos, não só foram absolutamente dentro da legalidade, como geraram retorno financeiro positivo ao município, num total de R$ 34 milhões, dos quais R$ 8 milhões foram especificamente na compra e venda de títulos públicos”. Foi o que garantiu Francisco Esquef, ex-homem das Finanças de Rosinha.

Ele disse que no início de maio foi procurado pela Comissão de Tomada de Contas da Prefeitura, a qual teria prestado no final do mesmo mês todos os esclarecimentos, facilitados pelo hábito de quem ressaltou “guardar as cópias das cópias de tudo aquilo que faço”. No raciocínio sempre lógico e sereno do ex-secretário, essas explicações devem ser repassadas ao TCE-RJ, o que em seu entendimento será suficiente para encerrar a questão. Ele, no entanto, se colocou à disposição do promotor Marcelo Lessa e do vereador Marcão, que ressaltou estarem cumprindo seus papeis, para prestar qualquer esclarecimento sobre o caso:

— A auditoria partiu de pressupostos errados para chegar a conclusões equivocadas. Desses quase R$ 110 milhões, cerca de R$ 100 milhões são de administrações passadas. O resto se refere à primeira administração Rosinha. Até o momento em que dela saí, em 20 de maio de 2011, por um processo de desgaste natural, deixei retorno financeiro positivo. Nessas operações de compra de títulos públicos, que você me diz terem sido citadas pelo promotor, a auditoria se limitou a comparar os preços da compra e da venda dos títulos, se esquecendo de contabilizar os rendimentos, objetivo primário de qualquer investimento. É relativamente fácil explicar.

 

Rombo Rosinha 1

 

 

Rombo Rosinha 2

 

 

Rombo Rosinha 3

 

 

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Poema do domingo — Os gritos

O despertar de um pesadelo na madrugada o imprime como tormenta pelo resto do dia, até que a poesia o exorcize em catarse. Nele, pareceram claramente impressas a memória de um filme, “Alien, o oitavo passageiro” (1979), do inglês Ridley Scott, e de um livro, “A metamorfose”, publicado a primeira vez em 1915, do tcheco Franz Kafka (1883/1924), que tanto marcaram uma adolescência curiosa de cinema e literatura. Depois, trocando ideia com um amigo, a lembrança ainda que inconsciente, mas como deve ser no terreno dos sonhos, ao quadro “O grito”, pintado em 1893 pelo expressionista norueguês Edvard Munch (1863/1944), pareceu também oportuna.

E assim, no meio de tantas leituras para tentar racionalizar o pavor de um pesadelo, ficou o poema:

 

“O grito”, óleo sobre tela de Edvard Munch (1893)
“O grito”, óleo sobre tela de Edvard Munch (1893)

 

 

os gritos

(p/ gregor samsa)

 

acharam dois gritos dentro do corpo

por apêndices sobre cada pulmão

se os cortassem, matariam o resto

do hospedeiro em científica ficção

 

os gritos tinham metástase em ecos

aprisionados na mão errada da boca

mudos de fora, foram cristalizados

como duas vidas internas da outra

 

a memória do cérebro foi apagada

ao vaticínio do último pensamento:

enquanto o corpo num grito sumia,

os gritos assumiam forma de corpo

 

atafona, 18/05/15

 

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Crítica de cinema — Espiã(o) sem panfletarismo feminista politicamente correto

Cinefilia

 

 

A espiã que sabia demais

 

 

Mateusinho 3A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS — A modificação de títulos originais de filmes estrangeiros no Brasil é uma tradição tão antiga quanto reprovada por críticos. Em alguns casos, até se baseia, de certo modo, no conteúdo da produção — como em “Noivo neurótico, noiva nervosa”, para “Annie Hall”, de Woody Allen, considerando as muitas associações entre quase toda a obra do diretor e a psicanálise; ou em “Os brutos também amam”, para “Shane”, de George Stevens, porque na trama um estrangeiro misterioso e durão mostra-se sutilmente atraído pela mulher casada do sítio no qual se instala, mas não se envolve com ela. Em outros, revela-se um desastre, porque, apesar de tentar indicar de que trata a narrativa, contribui para o público formar ideia equivocada a respeito dela. É o que ocorre com “A espiã que sabia de menos” (“Spy”),  uma das estreias da última quinta-feira no Kinoplex Avenida e do Multiplex Boulevard Shopping.

Longa-metragem que inicialmente teria o título de Susan Cooper, “Spy” é sobre a promoção dessa personagem, interpretada por Melissa McCarthy, de agente “de gabinete” à espiã que vai a campo. Funcionária da CIA há anos, Susan abandonou o magistério e ingressou na agência com a expectativa de atuar como os heróis da espionagem. Mas, mulher e gorda, foge aos padrões deles, limitando-se, portanto, a acompanhar as missões arriscadas de seu colega Bradley Fine (Jude Law), monitorado à distância por ela, por meio de um programa de computador que permite identificar a presença de inimigos nos locais invadidos pelo investigador, com quem se comunica por ponto eletrônico e por quem nutre uma paixão recolhida. Em busca de uma ogiva nuclear em poder da bela Rayna Boyanov (Rose Barnes), arma que esta pretende vender para o terrorista Sergio de Luca (Bobby Cannavale), Fine é morto, deixando Susan culpada por falhar como sua monitora. Menos visada que outros integrantes da CIA, como o supostamente valentão Rick Ford (Jason Statham), Cooper convence sua superior Elaine Crocker (Allison Janney) a enviá-la como espiã no caso não resolvido por Bladley. E, embora conheça um registro em vídeo mostrando as habilidades de Cooper com armas e luta corporal, Elaine é incisiva quanto à missão de sua subordinada: esta deve apenas colher informações sobre a negociação da ogiva. Como Rick Ford, desligado da CIA, interfere de forma desastrada no caso, acaba fazendo com que a protagonista se envolva mais do que deveria com os vilões.

Parceiro, atrás das câmaras, da atriz Melissa McCarthy em “Missão madrinha de casamento” (“Bridesmaids”, 2011) e “As bem-armadas” (“The Heat”, 2013), nos quais ela atou como coadjuvante, Paul Feig joga, de novo, com questões de gênero, tanto no sentido cinematográfico (filme de espionagem) quanto no social (masculino/feminino).

Fã desse tipo de produção desde criança, Feig brinca com ela sem a obviedade da paródia. Trata-se mais de uma comédia de ação que de uma gozação com o estilo, questionando a atividade de espionagem como exclusivamente masculina. Daí a armadilha do título no Brasil: “Spy”, em inglês, é substantivo comum de dois gêneros; a protagonista domina bem (sabe demais e não de menos) as funções de gabinete e da rua, sendo tão hábil e tão desastrada – humana, portanto – quanto seus pares homens. Mas o faz de uma forma que certamente oscila bastante entre sutileza e grosseria. Usa não só uma referência refinada ao tema musical de 007, como, de forma atualizada, apela ao recurso manjado de mostrar onde se desenrolarão sequências a partir de planos gerais por tomadas aéreas de cidades de várias partes do mundo, com seus nomes indicados por inserção de créditos digitados sobre as imagens. Surpreende – mas não muito – ao mostrar um personagem de Jason Statham que não simplesmente desconstrói seu estereótipo de ator de filme de ação (algo já bem explorado nas cinesséries “Adrenalina” e “Os mercenários”) e não só aparece quase em toda parte, como em “Velozes e furiosos 7”, mas é um mero contador de vantagens desastrado. Destaca a cumplicidade feminina e os preconceitos dirigidos a mulheres gordas e fora dos padrões de beleza, mas também os incorporados por elas, além dos utilizados pela protagonista contra homens afetados.

Trata-se, ao que parece, de táticas arriscadas de conquistar o grande público, que se limita à superficialidade das piadas e da escatologia, e os cinéfilos, que podem ir mais fundo, buscando as referências cinematográficas e a complexidade da guerra dos sexos, sem  panfletarismo feminista politicamente correto. Mas também de uma boa combinação de entretenimento e reflexão no escurinho do cinema. Se fosse possível, ganharia três Matheusinhos e meio.

 

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Publicado hoje na Folha Dois

 

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Crítica de cinema — Idas, vindas e trocas: misturas que não deram certo

Bagdá Café

 

 

trocando os pés

 

Mateusinho 2TROCANDO OS PÉS – De filmes de comédia a terror, como “Se eu fosse você” (1 e 2; 2004 e 2008), de Daniel Filho, e “A chave mestra” (2005), de Iain Sofltey, a criação de roteiros nos quais os personagens trocam de corpos, espécies e personalidade é uma das formas interessantes e atraentes de explorar o mundo da ficção e da fantasia, tanto em cinema quanto nas artes cênicas e literatura. No rito de passagem para novas realidades, o protagonista, geralmente, enfrenta situações adversas que o levam a modificar sua identidade, seja por repetição de palavras – como ocorre nos filmes dirigidos por Daniel Filho – ou pelo uso de fórmulas mágicas, tal como acontece em cenas da obra literária e cinematográfica “Stardust – O mistério da estrela” (2007), escrita por Neil Gaiman e dirigida por Matthew Vaughn. O mais recente longa-metragem que segue o estilo é “Trocando os pés”, estrelado por Adam Sandler e dirigido por Thomas McCarty.

Sapateiro de Nova York, o judeu Max Simkin vive dos lucros gerados por uma pequena loja no Lower East Side. Herdado do pai, o comércio resume o cotidiano do homem, que passa grande parte do seu dia no local. Em casa, onde vive com a mãe idosa, ele passa por momentos carregados de maior densidade dramática do que de comédia e leveza, diferentemente de outros filmes protagonizados por Adam Sandler, como “Zohan – o agente bom de corte” (2008). Abandonados por Abraham Simkin, interpretado por Dustin Hoffman, mãe e filho vivem entre memórias deixadas pelo pai. O único amigo do protagonista é Jimmy (Steve Buscemi), barbeiro que trabalha na loja vizinha à de Max.

Certo dia, durante o horário de expediente, a máquina de costura de sapatos de Max quebra. Com uma encomenda para as horas seguintes, ele se lembra de outra, deixada pelo pai. Ele contava ao filho, quando criança, que aquele objeto era especial e, por isso, só deveria ser usado em poucas ocasiões. A máquina foi dada por um homem sem-teto a seu bisavô, que o abrigou e alimentou. O presente foi uma retribuição ao carinho recebido. Devido ao problema, Max opta por utilizar o aparelho e descobre, a partir de seu funcionamento, que pode vivenciar histórias diferentes das suas e descobrir novas realidades ao usar os sapatos consertados por ela.

Com a troca de personalidades e corpos, Mas vive prazeres e se sente mais vivo à medida que passa por experiências nunca imaginadas. Em cena, Adam Sandler, mais voltado, neste papel, ao drama do que à tradicional comédia, traz fortes expressões faciais e aparência levemente envelhecida e abatida, cabendo adequadamente ao personagem, cujas características vagam entre tristeza e solidão e que atraem mais a atenção do espectador em comparação a outros pontos do filme.

A exploração e mistura de aspectos cômicos e dramáticos, em muitos momentos, deixa confusa, para os espectadores, a real intenção do filme. A trilha sonora, cujo uso se adéqua mais a cenas de comédia, é erroneamente utilizada em passagens de drama. Em uma sequência filmada na casa de Max, o protagonista questiona a mãe sobre o almoço. A idosa responde que está dentro do microondas, basta o homem esquentar a refeição. Ao abrir o aparelho, ele encontra a bolsa dele. Nesse momento, a expressão de Sandler e a canção instrumental são completamente opostas e atrapalham o envolvimento do público com a situação de drama – a mãe idosa e com problemas de memória – pela qual passa o personagem. Devido a esses usos equivocados de recursos, “Trocando os pés” abre diversas portas e se esquece de fechá-las, deixando no espectador a sensação de que o enredo ainda não foi concluído.

 

Mateusinho viu

 

 Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

 

 

Leia aqui a crítica do Gustavo Alejandro Oviedo sobre o mesmo filme

 

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