Artigo do domingo — Não é cristão quem persegue ou agride por causa da religião

Não se pode julgar o todo por um, pela parte
Por Arnaldo Neto
O Brasil é o país da diversidade cultural. Talvez, atrás de “o país do futuro”, esse seja o chavão mais utilizado para definir a terra tupiniquim. A liberdade religiosa é, pelo menos no papel, plena. Alguns fatos recentes vêm por em xeque o direito de expressar a crença, principalmente se ela não for de alguma das ramificações que têm como base o cristianismo. Os seguidores das religiões de matrizes africanas são as principais vítimas de intolerância. Dois casos recentes e distintos exemplificam isso: uma menina de 11 anos que levou uma pedrada na cabeça quando saía de um culto de candomblé no último domingo, no Rio de Janeiro; e uma menina de 7 anos que morreu supostamente durante um rito de umbanda em Campos.
No Rio de Janeiro, a intolerância religiosa ficou explícita quando um grupo saía de um rito de candomblé e foi agredido — a pedradas — por dois homens que supostamente traziam Bíblias nas mãos. Eles acertaram a cabeça de uma menina de 11 anos. A perseguição seria “em nome de Jesus”. O contraditório nisso é que o maior líder da história da humanidade, Jesus Cristo, segundo relatos da própria Bíblia que os agressores traziam nas mãos, livrou uma pecadora do apedrejamento e pregava o amor ao próximo como um dos maiores mandamentos.
Em Campos, a vida de uma menina teria sido ceifada durante um rito de umbanda, como aponta a investigação, em andamento, da Polícia Civil. O fato é lastimável, inadmissível. Assim que o inquérito apontar os culpados, eles devem pagar pelo crime. Não existe ritual religioso que possa justificar a morte de alguém, ainda mais de uma criança. No entanto, a forma como o caso foi explorado por alguns veículos midiáticos alimenta o ódio pela religião e causou revolta em seguidores da crença. De ritual macabro a sacrifício satânico, a suspeita de a morte ter ocorrido em um terreiro, durante uma celebração, ganhou todo tipo de qualificação e pré-julgamento.
Se comprovada que a morte aconteceu dentro do terreiro, durante algum rito executado de forma inexplicável para os que conhecem a umbanda, é natural que a revolta popular recaia sobre os envolvidos. Isso aconteceria com seguidor de qualquer religião, ou até de um ateu, que tirasse a vida de uma criança. É um fato que comove, que normalmente revolta. O que não pode acontecer é se utilizar da circunstância para alimentar qualquer tipo de intolerância religiosa.
Dizer que todo “macumbeiro” — expressão chula para definir qualquer seguidor da umbanda ou do candomblé —, espírita ou seguidor adepto a qualquer crença que não seja cristã é ligado a rituais malignos, é assumir contra a própria religião que os clichês “padre pedófilo” e “pastor ladrão” são verdadeiros, quando não os são. Não se pode julgar o todo por um, pela parte.
É inadmissível que exista perseguição religiosa neste país. Os extremistas islâmicos, por exemplo, matam e perseguem devido a uma crença. E não é disso que o Brasil precisa. Mas o que se assiste é a morte misteriosa de um líder espírita no Rio de Janeiro, na última sexta, e a depredação do túmulo de Chico Xavier em Uberaba, Minas Gerais. Por outro lado, o arcebispo do Rio, cardeal Dom Orani Tempesta, deu exemplo ao receber a menina de 11 anos que foi vítima de intolerância para um café da manha, junto a líderes candomblecista. Dom Orani decretou o que todos deveriam saber: quem persegue e agride por causa de religião, não pode ser considerado cristão.
O Brasil é um Estado laico, graças a Deus. E que permaneça assim sempre — com o respeito à diversidade cultural e à liberdade religiosa —, se Deus quiser.
Publicado hoje na Folha da Manhã




















