Pesquisa Estadual GPP de intenções de voto para o governo do Rio de Janeiro, divulgada nesta segunda-feira (13) mostra o candidato do PMDB, Luiz Fernando Pezão, com 56,8% dos votos válidos, e o candidato do PRB, Marcelo Crivella, com 43,2%.
Com a inclusão dos votos inválidos, Pezão tem 47,8%, Crivella tem 36,3%, brancos e nulos somam 10,5%, e não sabem em quem votar, 5,4%.
No levantamento de intenções de voto por região, Pezão tem 47,2% na capital, 43,5% na região metropolitana, e 53,7% no interior. Crivella tem 33,4% na capital, 42,7% na região metropolitana, e 32,7% no interior.
A pesquisa foi realizada nos dias 6 e 7 de outubro.
Sem nenhuma criatividade, a campanha da reeleição apela, mais uma, vez para o discurso do medo. Totalmente previsível. Como o roteiro é o mesmo há anos, as ameaças não surtem mais efeito. Um governo que desmontou a Petrobras insinuar que a oposição vai privatizar a empresa chega a ser patético.
O terrorismo do momento é a volta ao passado. Mas frente à realidade da estagnação econômica e a certeza de empobrecimento da população, o presente é o verdadeiro perigo real e imediato.
Interessante que a obsessão de Dilma com o passado termina em Fernando Henrique. A memória deve ser curta. Sua fixação no ex-presidente é curiosa, explicável talvez pela enorme admiração que sente. Dilma já registrou em carta aberta seu apreço ao afirmar que FHC foi “o ministro-arquiteto de um plano duradouro e o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica”. Como candidata ignora o que disse como presidente.
Apesar da insistência da campanha, o que está em discussão nesta eleição não são os oito anos de FHC ou Lula, mas o mandato de Dilma. De qualquer forma, não há por que temer o passado. Ele traz lições que ajudam na construção do futuro. É bom retroceder para além de FHC se quisermos especular sobre a política econômica em caso de reeleição.
O modelo atual é semelhante ao dos anos de ditadura militar. Como hoje, havia intervenção na economia e subsídios para setores industriais, que eram poupados da competição externa, faltava transparência nas contas públicas e os preços eram administrados. O resultado é conhecido. Os anos 80 foram de recessão e hiperinflação, período que ficou conhecido como “a década perdida”.
Também vêm do passado os aliados de hoje. Suas políticas podem indicar o que esperar em caso de reeleição. Com Sarney o país quebrou de verdade, não é mentirinha. E, como hoje, preços foram controlados artificialmente e, quando liberados, após as eleições, é claro, a inflação voltou com força. Qualquer semelhança com a defasagem nos preços da gasolina e a intervenção no setor elétrico não é mera coincidência.
Outro aliado de peso da candidata é Collor. Esse não precisa de muitas credenciais, mas, em períodos de memória seletiva, é bom lembrar o que ele fez com nossa poupança.
Milhares de eleitores não viveram essas experiências terríveis. E isso é muito bom. Um futuro melhor é a grande herança dos anos de FHC.
Infelizmente Dilma interrompeu um ciclo de estabilidade e crescimento iniciado há 20 anos atrás. Até os vilões da inflação estão de volta. Ao invés do chuchu, a culpa agora é da carne. E como no passado, a recomendação é a mesma: “Ao povo, ovos”.
O apoio de Marina Silva à candidatura presidencial de Aécio Neves ocorre em torno de propostas de seus respectivos programas de governo, confirmando sua intenção de inaugurar uma “nova política”. Enquanto isso, a ferramenta da delação premiada expõe as vísceras da “velha política”. As empreiteiras superfaturavam contratos com a Petrobras, cujos diretores eram indicados por partidos do governo que cobravam propina então repassada aos políticos. Locupletavam-se todos através dessa colossal engrenagem de corrupção.
A confluência da “onda de indignação” em que surfara Marina com a “onda da razão” que se ergueu por Aécio resultou em uma verdadeira tsunami de votos oposicionistas. As pesquisas eleitorais indicam que as intenções de voto em Aécio quase dobraram em apenas uma semana. As simulações indicam, pela primeira vez, sua vitória no segundo turno. Dilma fustiga Aécio por ter se beneficiado do “aparelhamento” da máquina pública ao ser nomeado, aos 25 anos, para uma diretoria da Caixa Econômica Federal. Mas é também fustigada como incompetente ou conivente em sua atuação no Conselho de Administração da Petrobras, diante de toda essa roubalheira. Um observador independente teria mais tolerância com o nepotismo do que com a corrupção sistêmica. Mas registraria que são duas faces de um mesmo fenômeno: a expansão descontrolada de gastos públicos sem qualquer transparência para a sociedade.
O tráfico de influência, o desvio de recursos dos contribuintes e o pagamento de propinas a políticos e partidos configuram o fenômeno da corrupção sistêmica, alimentada por essa ininterrupta escalada dos gastos públicos. O próprio Marx considerava impossível conduzir adequadamente a administração pública sem enfrentar os interesses de grupos empresariais que “governam e legislam por meio da Câmara e que têm no Estado sua principal fonte de enriquecimento”.
Essa associação entre o descontrole dos gastos públicos e a corrupção seria um tema incontornável para uma opinião pública esclarecida. Pois “as enormes somas que passavam pelas mãos do Estado davam oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, suborno, malversações e todo tipo de ladroeira entre os órgãos da administração pública e seus contratados”, fulminava Marx.
Cuidado! Nada de acreditar no que disseram à Polícia Federal e à Justiça Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, e Alberto Youssef, doleiro, sobre o esquema de desvio de R$ 10 bilhões da empresa para beneficiar políticos em geral e alguns partidos em particular – PT, PMDB e PP.
Os dois podem estar mentindo.
Quando comprovada de fato, a verdade deverá ser muito pior. Duvida?
Gaba-se a presidente Dilma Rousseff – e Lula também – da liberdade com que atua a Polícia Federal.
Sempre que se descobre um novo escândalo envolvendo o PT e seus aliados mais fiéis, Dilma corre a exaltar as virtudes republicanas do seu governo e dá a entender que a Polícia Federal só procede assim porque ela deixa. Como se a Polícia Federal fosse um órgão de governo e não de Estado.
Aqui cabem pelo menos duas perguntas.
Se é marca da Era PT o empenho dos governos em colaborar nas investigações de malfeitos por que há sete meses a Polícia Federal tenta ouvir Lula em um processo sobre restos do mensalão e simplesmente não consegue?
Lula está para ser interrogado na condição de eventual testemunha – jamais de réu. Como ex-presidente, escolherá hora e local para depor. Não o faz.
A segunda pergunta: se Dilma repele com veemência a insinuação de que possa não se interessar pelo combate à roubalheira por que então barra qualquer iniciativa das duas CPIs da Petrobras de apurar o que se passou na empresa nos últimos 12 anos?
Só a Polícia Federal pode ser livre? “Eu sou a favor de, doa a quem doer, as pessoas têm que responder pelo que fazem, seja de que partido for”, prega Dilma. Não convence.
Arrisco-me a ser impiedoso com a presidente por entender que o jornalismo não cobra piedade de quem o exerce, mas senso de justiça.
Dilma posa de incorruptível, e deve ser. Nada se conhece que indique o contrário. Quanto a ser conivente com a corrupção…
Ela o é, assim como a maioria dos governantes por toda parte.
Paulo Roberto roubou desde que foi nomeado por Lula diretor da Petrobras. Lula ignorava o que Paulo Roberto fazia por lá a serviço do PP?
O que fazia meia dúzia de diretores nomeados também por ele a pedido do PP, PT e PMDB?
Dois anos antes de se eleger presidente, Dilma convidou Paulo Roberto para o casamento de sua filha. Não sabia que ele era ladrão?
Demitiu-o “a pedido” em 2012. Paulo Roberto deixou a Petrobras cercado de elogios. Dilma desconhecia seu prontuário?
Ora, faça-me o favor!
Na semana passada, Dilma cogitou demitir Sérgio Machado, um economista cearense que há mais de 10 anos preside a Transpetro, subsidiária da Petrobras. Paulo Roberto contou à Justiça que recebeu de Sérgio R$ 500 mil em espécie.
O padrinho de Sérgio é Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, citado por Paulo Roberto como envolvido com a corrupção na Petrobras. Além de cogitar, o que mais fez Dilma?
De volta de um comício em Maceió, onde ao lado do senador Fernando Collor segurou no microfone para que discursasse Renan Filho, governador de Alagoas, Dilma esbarrou na oposição de Renan, o pai, à demissão de Sérgio. E deixou de cogitá-la.
Para demitir Sérgio seria preciso que Dilma conseguisse o afastamento de João Vaccari Neto do cargo de tesoureiro do PT, argumentou Renan. Vaccari é outro emporcalhado pela lama da Petrobras.
Lula disse que está de “saco cheio” com denúncias de corrupção contra o PT feitas às vésperas de eleições.
Não há dinheiro desviado, partido algum recebeu um centavo sequer dos contratos da Petrobras, muito menos o PT. Tudo não passa de ação eleitoreira, da qual o ex Lula está de “saco cheio” e Dilma classifica como “golpe”.
A ordem unida no petismo é bater e rebater esse discurso, acrescido de duras críticas à mídia, responsável pelo “vazamento” das denúncias. Sobre a gravidade delas, nenhum pio.
Diante dos previsíveis danos dos depoimentos do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef à campanha da reeleição, o PT e a candidata Dilma Rousseff não tinham saída: usar e abusar da inversão da culpa, tática que eles tão bem dominam – Lula à frente.
Quem conseguiu transformar compradores de um dossiê falso contra José Serra (PSDB-SP) em “aloprados”, mensalão em caixa dois, mensaleiros em “guerreiros do povo brasileiro”, tudo pode.
Quem tem parceiros como Fernando Collor e Renan Calheiros, com os quais a presidente desfilou em campanha em Alagoas, quem se aliou ao clã dos Sarneys e a Paulo Maluf, pode mesmo afirmar que é o maior combatente contra a corrupção, algo que Dilma passou a enfiar em todos os discursos.
Na sexta-feira, em Porto Alegre, ela repisou na tecla: “Somos aqueles que combateram a corrupção doa a quem doer. Um combate duríssimo. Por isso que nós não concordamos com o uso eleitoreiro de processos de investigação que nós começamos.” Referia-se à Polícia Federal, que ela insiste em dizer que ganhou autonomia para investigar a partir dos governos petistas. Ao mesmo tempo, só investiga a seu mando. Algo difícil de destrinchar.
Mas a maior pérola sobre as revelações da roubalheira na Petrobras veio do líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), para quem Paulo Roberto Costa, ungido por Lula à Diretoria de Abastecimento e que durante seis anos operou a distribuição farta da propina para o PT e aliados (PMDB e PP), é cabo eleitoral tucano. “Esse diretor é apoiador do Aécio, a delação deixou de ser premiada para se transformar em delação eleitoral”, afirmou, sem corar a face.
Com semelhante desfaçatez, Dilma disse que os adversários “destilam ódio e mentiras”, aos quais assegura que responderá com “esperança e verdade”.
Para tal, teria de iniciar outra campanha. De purgar o ódio.
Teria de pedir perdão pelos comerciais sórdidos veiculados para aniquilar Marina Silva; de parar de entoar a cantilena de que Aécio Neves vai acabar com o Bolsa Família, privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa.
Mentira tem pernas curtas, diz o ditado. A campanha de Dilma vai continuar a esticá-las no limite máximo. Ou dá certo, ou arrebentam.
Serão necessários alguns meses para uma melhor análise da eleição parlamentar da semana passada. Mesmo assim, pode-se arriscar o palpite de que, enquanto discutem-se questões do século XXI naquele que seria um Brasil moderno como a Holanda, o eleitorado foi noutra direção, aparentemente conservadora, mas apenas latino-americana.
O deputado mais votado em São Paulo foi Celso Russomanno (PRB, com 1,5 milhão de votos). No Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro (PP, com 464 mil votos). No Paraná, Christine Yared (PTN, 200 mil votos). No Rio Grande do Sul, Luiz Carlos Heinze (PP, 162 mil votos). Em Brasília, o coronel da PM Alberto Fraga (DEM, 155 mil votos). Salvo Yared, que não se definiu em relação ao tema, todos condenam o casamento de homossexuais. Bolsonaro e Fraga não são apenas conservadores, refletem um autoritarismo que vem de outras cepas. O rótulo, contudo, é curto para Russomanno. Yared, por exemplo, notabilizou-se lutando pelas vítimas do trânsito. Seu filho foi morto por um motorista.
Um recuo de Marina Silva em relação à união civil de homossexuais tisnou-lhe o encanto da “nova política”. Num país em que os principais candidatos a presidente fogem da discussão sobre o direito das mulheres de abortar (um tema do século XX), fica-se com a impressão de que a legalização da maconha e o reconhecimento dos direitos dos homossexuais estão no topo da agenda nacional. A demarcação das terras indígenas é sem dúvida um tema relevante, mas aceita-se com certa naturalidade que nas terras da periferia das grandes cidades a polícia mate um cidadão e diga que ele era um “suspeito”. A agenda holandesa num país latino-americano provoca uma dissonância: discute-se uma coisa, e o eleitor vota em outra.
No Brasil latino-americano, o cidadão paga impostos e não tem Saúde Pública. Compra o plano privado, não consegue marcar um procedimento contratado, e o Congresso aprova uma anistia para as multas aplicadas às operadoras. (Felizmente, a doutora Dilma vetou esse mimo.) As pessoas morrem no trânsito, e o ministro da Fazenda tenta aliviar a exigência legal de colocação de airbags nos carros novos. Fecha-se a maior faculdade de Medicina privada do país, e ninguém pergunta como a Gama Filho tornou-se um descalabro. Um bandido mata um pai de família, é posto em liberdade, mata outro, e do Judiciário ouve-se que a lei foi cumprida.
Pode-se flertar com uma explicação fácil: Russomanno tem o apoio da Igreja Universal, Yared e Heinze são evangélicos. A bancada dessa denominação cristã cresceu 14%, chegando a 70 deputados, empatando com a do PT. Quem olha para o Templo de Salomão, em São Paulo, e vê nele um monumento à manipulação da fé do andar de baixo converte ignorância em demofobia (frequentemente, são pessoas que dão preferência a evangélicos quando contratam empregados para trabalhar em suas casas.) Há dois anos, Celso Russomanno parecia uma barbada na eleição para a prefeitura de São Paulo. Tem um programa de televisão no qual defende os direitos dos consumidores. Propôs uma tarifa diferenciada para os ônibus (quanto mais tempo o sujeito ficasse no engarrafamento, maior a tarifa). Perdeu 270 mil votos em duas semanas e não chegou ao 2º turno.
Atribuir grandes votações à ingenuidade popular livra a pessoa da necessidade de perceber que sua agenda não é a do povo. O Brasil Maravilha não existe, e a eleição de domingo passado mostrou isso num simples episódio. Em 2006, esse Brasil do futuro entrou na era espacial quando o tenente-coronel Marcos Pontes, da FAB, passou nove dias na órbita da Terra a bordo da nave russa Soyuz. Voltou, foi para a reserva e candidatou-se a deputado federal em São Paulo. Afinal, John Glenn, o primeiro americano a entrar em órbita, elegeu-se senador. O “Astronauta Marcos Pontes”, número 4077 pelo PSB, não se elegeu. Por quê? Porque o Brasil não tem programa espacial, e o povo sabe disso.
Terceira colocada na disputa presidencial, Marina Silva (PSB) anunciou hoje seu voto e seu apoio, “como cidadã”, a Aécio Neves. Citada várias por Marina em seu discurso, a carta divulgada ontem, emblematicamente na Recife do falecido Eduardo Campos, na qual o candidato tucano assumiu seu compromisso com a inclusão social e com o desenvolvimento autossustentado, foi fundamental ao posicionamento de Marina, assumido agora há pouco. Ela comparou a necessidade de alternância de poder na presidência nesta eleição em 2014, com o mesmo processo ocorrido no país em 2002, quando Lula (PT) sucedeu dois governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Agora, para pôr fim a um “projeto patrimonialista de poder pelo poder”, na visão de Marina, essa alternância no comando do Brasil é novamente necessária, a partir da eleição de Aécio Neves no segundo turno do próximo dia 26.
FHC e Lula panfletando juntos no 1º de maio de 1978, em plena ditadura militar, a favor da democracia
Jornalista Júlia Maria Assis
O discurso radical da militância e a postura pragmática dos candidatos
Por Júlia Maria Assis
Quem acompanhou essa semana na Globo News o debate entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o ex-presidente do Banco Central no governo FHC, Armínio Fraga, chega a duas conclusões antagônicas: se por um lado é claro que há diferenças pontuais entre os projetos sociais e econômicos para o país defendidos pelo PT e pelo PSDB, por outro os caminhos a percorrer para manter a inflação sob controle e promover o desenvolvimento não são lá tão distintos assim. As divergências de cada um dos grupos que disputa a vaga no Planalto estão mais no passado recente de transição entre os dois partidos, em 2002, e na forma como encaram a suposta crise mundial do que nas conquistas e retrocessos do presente. Para ambos é preciso corrigir as falhas e seguir em frente. Cada um com seus projetos, ambos com discursos quase convergentes.
A impressão que fica que é esse climão pré-eleitoral cheio de ofensas, informações manipuladas e mentiras — por sinal, absurdamente potencializadas pelo escudo das redes sociais — é exagerado e desnecessário. Quem viveu e/ou tem o mínimo de informação sobre o período obscuro do regime de exceção que massacrou e envergonhou o Brasil sabe que de lá para cá a democracia — ainda cheia de falhas, com a devida mea culpa do eleitorado — foi de fato consolidada. Quem vota em Dilma Rousseff ou deixa de votar justificando seu perfil socialista está anos luz da realidade; o mesmo sobre quem vota ou deixa de votar em Aécio Neves colando nele a imagem da representação de um projeto de direita.
Não há nenhum extremista de esquerda ou de direita na disputa, nenhuma ameaça de fato à democracia, nenhum risco, ao menos severo, de retrocesso para algumas de nossas principais conquistas em relação aos avanços sociais e às liberdades individuais. Há diferenças sim entre PT e PSDB. Mas comparando os discursos, essas diferenças são mais sutis do que alguns defensores raivosos fazem parecer.
É desonesto deixar de creditar ao governo do PSDB a estabilização da economia com o real e o início dos programas de distribuição de renda, por iniciativa de Ruth Cardoso. Como o é negar que o governo do PT consolidou essas conquistas, atuou de forma muito mais positiva no cenário econômico, inclusive destacando internacionalmente o Brasil, e tirou milhões e milhões de brasileiros da linha da pobreza. Mais com Lula que com Dilma, pode até ser, mais ainda assim uma marca petista indiscutível.
É possível ficar ao lado do PT reconhecendo suas falhas. A militância cega e apaixonada é injusta não só com o adversário, mas com o país. Para muitos eleitores petistas o que pesa mais — ainda — é o princípio ideológico da esquerda — se é isso que isso ainda existe. Mas o modelo é de uma esquerda capitalista. Fato. Na outra ponta, o discurso elitista velado do PSDB, apesar de inegável, não é de forma alguma sinônimo de ameaça à democracia. Retrocesso sim, a volta do pesadelo definitivamente não.
No final das contas, quem radicaliza a coisa toda são alguns eleitores do PT e do PSDB. Infinitamente mais que os próprios candidatos, tão pragmáticos e evasivos em seus discursos, porque o que interessa é conquistar os votos de gregos e troianos. Para eles, é o resultado das urnas que importa e pronto.
O fato é que nem Dilma nem Aécio e muito menos as estruturas políticas e econômicas distintas (ou não) que sustentam suas candidaturas estão por aí defendendo nada assustador. É manter o que está bom e melhorar o que não está. Não é uma disputa de Jean Wyllys contra Bolsonaro. Longe disso.
Foi cara a cara, longe do país das maravilhas com que o PT bombardeou o Brasil na propaganda eleitoral, que Aécio Neves enfrentou Dilma Rousseff. É possível que esses poucos minutos do último debate na Globo tenham mudado a história do Brasil. A inesperada votação de Aécio não é alheia à maneira como ele quebrou o gesso dos marqueteiros e, descontraído, desestabilizou Dilma, que sobraçava um calhamaço de colas e procurava respostas nos manuais de João Santana.
Foi também no cara a cara que Luciana Genro pôde explicar a Levy Fidelix que a homofobia deveria ser crime pois, se já fosse, ele sairia dali algemado. O contraste entre a intensidade do debate e a propaganda pré-fabricada mostrou o quanto, sendo enganosa, ela distorce a democracia. Moral da história, quanto menos marqueteiro mais verdade, quanto mais verdade mais democracia. O debate cara a cara decidirá a eleição.
Marina não estará lá. Apesar de derrotada, é uma presença incontornável. Se não conseguiu, literalmente do dia para a noite, improvisar uma candidatura à Presidência, se teve que gastar seus parcos minutos na televisão apenas para se defender de ataques, nem por isso deixou de ter plantado suas sementes. Dilma não contará com o seu apoio. Está colhendo os frutos do veneno que sua campanha destilou.
Se Marina apoiar Aécio, levará consigo um pacote de compromissos que, metabolizados, trarão frescor e audácia à sua plataforma, a exemplo da escola de tempo integral e da diversificação das fontes energéticas. O voto de 22 milhões de brasileiros já inscreveu o ideário da sustentabilidade na agenda do país.
Aécio e Dilma estão, agora, cara a cara. A candidata do PT não poderá continuar a se referir a vagos malfeitos quando questionada sobre crimes como o assalto à Petrobras. Os depoimentos de Paulo Roberto Costa e do doleiro Youssef puxam o fio de uma meada que enreda e vai estrangular o projeto do PT de se eternizar no poder. A corrupção desvelou a face perversa de um partido que, infiltrado no Estado até a medula, confundiu-se com ele e instaurou a comunhão de bens. A candidatura petista continuará a ser assombrada pelo que sussurram os delatores, diretores de empresas e doleiros, nos gabinetes do Ministério Público.
Um partido que se quis exemplar jogou na roleta da corrupção seu capital ético, do qual nada sobrou. Vive dos dividendos de suas políticas sociais de transferência de renda, um capital político investido, muito justamente, nos mais pobres, que ainda são tantos e precisam do governo para progredir.
Há um contraste no país entre os polos mais avançados e escolarizados e aqueles mais dependentes de políticas assistenciais. Esses, concentrados nas regiões Norte e Nordeste, ou espalhados pelo país em bolsões de pobreza, graças às políticas que lhes trouxeram alento, deram um respeitável lastro de votos a Dilma. Os outros, com maior autonomia, exigem mais serviços e de melhor qualidade. São os 60% que votaram pela mudança. O mapa eleitoral conta a história desses Brasis diversos que, ambos, movem-se, felizmente, numa trajetória constante de melhoria que vem de duas décadas e que só tende a se acelerar.
É cara a cara que o PT deverá ouvir que mente quando só fala dos seus sucessos, não aceita críticas e desqualifica os adversários. A mentira está inscrita no autoritarismo dos que falam em nome do povo, arvoram-se em seus defensores enquanto se autoabsolvem de crimes comuns como o desvio de dinheiro público. A mentira foi, desde que o PT assumiu o poder, um instrumento de governo.
O PT mente quando quer controlar a mídia porque a teme — e a teme porque ela diz que ele mente — mas diz que o faz porque ela é “parcial” ou “vendida”. Parcial é o jornalista que discorda do seu modo de governar ou investiga suas transações.
Quer controlar a sociedade, porque a teme — e a teme porque ela aprendeu, por si mesma, a cobrar direitos — mas diz que quer “incentivá-la” a participar em conselhos que seu governo nomearia. Sabe o que é bom para a sociedade e quem deve representá-la. Não admite que a sociedade é múltipla, dinâmica e, exatamente porque mais informada, rebelde aos controles e censuras. Já é participativa, não precisa de “incentivos”, como mostraram as manifestações de rua e como mostra, nas esquinas virtuais, o efervescente interesse pelas eleições.
Escolher entre Dilma e Aécio não é uma escolha entre pessoas. É uma escolha da sociedade em que queremos viver. Ao autoritarismo retrógrado do PT, prefiro os desafios e o ar fresco de uma sociedade aberta.
A presidente Dilma Roussef, candidata do PT à reeleição, afirmou nesta sexta-feira (10) durante discurso em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, que existe uma tentativa da oposição de “dar um golpe” às vésperas da eleição. A declaração foi dada um dia após o ex-diretor das Petrobras Paulo Roberto Costa informar à Justiça sobre suposto esquema de propina repassada a PT, PMDB e PP por meio de contratos da Petrobras.
Ao se referir aos governos anteriores ao do PT, a presidente disse ter havido um “aparelhamento” da Polícia Federal, responsável por investigações em âmbito federal. “Eles jamais investigaram, jamais puniram, jamais procuraram acabar com esse crime horrível, que é o crime da corrupção. Agora, na véspera eleitoral , sempre querem dar um golpe. Estão dando um golpe. [Com] Esse golpe, nós não podemos concordar”, disse.
“Eles aparelharam a Política Federal, por isso a Polícia Federal investigou pouco [em governos anteriores], descobriu pouco, prendeu pouco, e julgou pouco o Judiciário em relação a políticos corruptos e corruptores”, declarou. “A Polícia Federal, ela passou a ser o órgão de investigação a partir dos nossos governos”, completou.
Nesta quarta-feira (8), o ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, preso em regime domiciliar no Rio, afirmou em depoimento à Justiça Federal do Paraná, que parte da propina cobrada de fornecedores da estatal era direcionada para atender a PT, PMDB e PP, e foi usada na campanha eleitoral de 2010. O doleiro Alberto Youssef também deu depoimento à Justiça na quarta e disse que o ex-presidente Lula teve de ceder à pressão de agentes políticos para nomear Paulo Roberto Costa.
O presidente nacional do PT, Rui Falcão, divulgou nota na quinta-feira na qual diz repudiar “com veemência e indignação” as declarações “caluniosas” do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. “O PT desmente a totalidade das ilações de que o partido teria recebido repasses financeiros originados de contratos com a Petrobras”, diz a nota.
O PMDB e o PP informaram que não vão se manifestar. Em nota, a Petrobras afirmou ser “vítima” do processo que investiga o suposto esquema de pagamento de propina que envolve áreas da estatal.
Aécio Neves
Mais cedo, em entrevista coletiva no Palácio do Alvorada, Dilma Rousseff classificou de “muito estranho e muito estarrecedor” o fato de o teor dos depoimentos de Costa e Youssef terem sido divulgados para a imprensa durante o processo eleitoral. Ela disse considerar “incorreto divulgar parcialmente” o conteúdo dos depoimentos em plena campanha.
O candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, criticou nesta sexta o posicionamento de Dilma sobre o fato de o teor dos depoimentos à Justiça Federal terem sido divulgados para a imprensa durante o processo eleitoral.
“Nesta sexta ficou clara a diferença de posição entre a candidata e a presidente, que disse ser estarrecedor o vazamento dos depoimentos dos envolvidos do petrolão. Considero estarrecedor os depoimentos, esses crimes que foram cometidos de forma contínua. Assaltaram a maior empresa brasileira nas barbas desse governo, sem reação desse governo”, disse Aécio.
“Engavetador”
Em Canoas, sem se referir diretamente às denúncias relacionadas à Petrobras, Dilma afirmou fazer “combate durríssimo” à corrupção. “Nós somos aqueles que combateram a corrupção, doa a quem doer. Um combate duríssimo. Por isso que nós não concordamos com o uso eleitoreiro do processo de investigação que nós começamos, que nós fizemos e nos envolvemos”, disse
Dilma também voltou a criticar o papel da Procuradoria-Geral da República no governo do PSDB. “Tem uma pessoa que é o procurador-geral da República. Ele é quem tem o poder de mandar investigar, mandar o processo pra frente e fazer com que os crimes sejam punidos. O que acontecia com este senhor que apelidaram de engavetador? Ele engavetava”, disse.
Comecei no jornalismo em 1967, com 22 anos, sem diploma, como estagiário do “Jornal do Brasil”, onde trabalhei por um ano como repórter de arte e cultura, até ser chamado por Samuel Wainer para assinar uma coluna diária sobre juventude na “Ultima Hora”. Era muito poder para um jovem apaixonado por música, cinema e política, mas desde o início, por meu temperamento tolerante e contrariando o espírito jornalístico tradicional, decidi que nunca perderia um amigo para não perder uma notícia.
Deu certo, em quase 50 anos de jornalismo só fui ganhando amigos, e eles sempre me deram em primeira mão as melhores notícias… rsrs
Depois da redemocratização também decidi que jamais perderia um amigo por causa de política. Nem os que apoiaram Collor quando fiz campanha para Mário Covas. Acho que a vida é tecida por relações entre pessoas, indivíduos diferentes, e, como dizia Vinicius de Moraes, “é a arte do encontro — embora haja tanto desencontro pela vida”.
As próximas semanas serão de sangue, suor e lágrimas entre os candidatos e seus partidos, num vale-tudo no rádio, televisão, jornais e internet, que pode ter consequências desastrosas para vencedores e vencidos, rachando o país. Com essa ameaça, é preciso ser muito burro para chegar a romper amizades por paixão política — a mais nefasta de todas as paixões, que faz heróis de ontem vilões de amanhã, e do “nós” de hoje o “eles” de ontem.
A menos que alguém esteja defendendo um candidato ou partido em causa própria, porque depende deles — quando qualquer discussão é inútil — todas as outras são possíveis, desde que não se atribua ao outro falhas de caráter, intenções malignas ou interesses escusos por defender seu candidato. Isso não é política, é estupidez.
Pode até parecer ingenuidade, mas é só o óbvio ululante: se o PT reconhecesse as conquistas econômicas dos governos FH, e o PSDB o resultado de programas sociais petistas, e seguissem adiante, já seria uma grande economia de tempo (e de lama ) para começar a discutir o que realmente interessa: como crescer e distribuir renda, com melhores serviços públicos e menos impostos.
Mais um escândalo abala a República e, como no caso do mensalão, Lula nada sabia. Nem Dilma
Por Ricardo Noblat
No caso do mensalão, nenhum dos acusados disse à Justiça que Lula sabia da existência do esquema de pagamento de propinas a deputados federais para que votassem no Congresso como o governo mandava.
Com o processo adiantado, e tendo perdido a esperança de ser salvo pelo PT, o ex-publicitário Marcos Valério, um dos operadores do mensalão, afirmou que Lula sabia, sim, da existência do esquema.
Mas já era tarde. De resto, Valério não apresentou sequer indícios convincentes para sustentar o que dizia. A Justiça também não se mostrou interessada em investigar a participação de Lula no escândalo.
No caso da roubalheira na Petrobras para financiar políticos e partidos, Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da empresa, e o doleiro Alberto Youssef revelaram indiretamente que Lula sabia de tudo. Ou de quase tudo.
Lula cedeu à pressão de políticos para entregar-lhes diretorias da Petrobras, segundo Paulo Roberto. Foi assim que ele, por indicação do PP, acabou na diretoria de Abastecimento. Lula chamava Paulo Roberto de Paulinho.
Algum ingênuo poderá alegar que Lula jamais imaginou que Paulo Roberto ou qualquer outro diretor patrocinado por partidos teria como uma de suas missões roubar e deixar que roubassem. Santa ingenuidade.
O que ambiciona um partido ao emplacar um ocupante de cargo na administração pública? Conseguir por meio de ele colaborar com o presidente da República? Provar que dispõe de bons quadrados? Empregar alguém?
Na melhor das hipóteses, na mais sadia das hipóteses, contar com alguém no governo para arrancar de fornecedores doações capazes de fazer face a despesas de campanhas. O famoso Caixa 2.
É possível que Paulo Roberto e Yousseff tenham mentido à Justiça. Provável, porém, não é. Os dois querem escapar de condenações pesadas. Sabem que se mentirem, a delação premiada irá para o buraco. Não são suicidas.
Quanto a Lula… Preferiu não comentar nada. Apenas se disse de “saco cheio” com esse tipo de denúncia. Compreensível. Entra eleição, sai eleição, e o PT permanece na berlinda mergulhado em lama.
Quanto a Dilma… Ela não sabe de nada. Ela nunca soube de nada. Como gestora, a se acreditar em Lula, sempre foi uma gestora exemplar. Nem por isso bem informada sobre o que acontecia ao seu redor.