
“Nazistas” e “obrigação moral”
Na terça, com a presidente Dilma Rousseff (PT) a tiracolo, o ex-presidente Lula comparou “eles” (os tucanos) a “nazistas” e os classificou de “intolerantes, mais que Herodes quando mandou matar Jesus Cristo”. Não satisfeito, ontem, em Porto Alegre, sem nenhuma distinção entre nordestinos e sulistas tão ao gosto petista, Lula disse que “eleitor de Marina tem obrigação moral de votar em Dilma” (confira os dois episódios aqui).
O pior se revela
Como foram dois dias distintos, imagina-se que com algum sono no meio, não daria nem para atribuir todas as declarações à eventualidade do mesmo porre. Mas seria melhor se fosse, pois se encaradas como fruto de uma mente sóbria de álcool, ou é delírio psicótico, ou pior das possibilidades: revela-se o sujeito mais megalômano, irresponsável, autoritário e inescrupuloso que nas últimas três décadas usou a faixa presidencial no Brasil, desde que ela passou a ser envergada por civis, em 1985.
Ridículo e ridículo e meio
Para uma pessoa normal, talvez bastasse contrapor o ridículo de quem acusa o adversário de nazista num dia, para no outro pretender “obrigar” toda uma coletividade, publicamente, a votar em quem quer que seja. Mas a coisa se torna especialmente mais ridícula diante de qualquer eleitor de Marina, alvo de toda sorte de ataques mentirosos e levianos no primeiro turno, da parte do mesmo Lula e da mesma Dilma que agora se acham no direito de exigir, na cara dura, os votos dados a quem se uniram para caluniar, levar às lágrimas e ainda tripudiar destas, classificando-as como sinal de fraqueza.
Escolha de Aécio
Mas não foi apenas por maldade que Lula fez e mandou fazer com Marina o que agora acusa Aécio Neves (PSDB) de fazer com Dilma, depois que o tucano passou a ser também atacado e reagiu. Numa longa conversa na noite anterior ao primeiro turno (veja aqui), o presidente nacional do PT, Rui Falcão, disse preferir Marina no segundo turno, enquanto Lula queria Aécio. Por isso mandou centrar fogo em sua ex-ministra no primeiro turno e reservar a munição contra o tucano, que já quis levar ao PMDB para fazer dele seu próprio candidato a presidente da República — Aécio recusou.
Escolhas de Lula
Por isso, talvez, o descontrole de Lula nestes poucos dias que nos separam do segundo turno. Foi ele quem escolheu Dilma em 2010 como sua sucessora, dizendo que ela seria melhor administradora do que ele, mas acabou por conduzir o Brasil à sua pior recessão desde que Fernando Henrique Cardoso, ainda ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, estabilizou a economia ao implantar, em 1994, o Plano Real — no qual o PT votou contra. Assim como, 20 anos depois, foi Lula quem apostou e trabalhou para ter Aécio como adversário de Dilma no pleito do próximo domingo.
Sem Herodes ou Cristo
Em outras palavras, Lula escolheu sua jogadora, escolheu seu adversário, passou por cima de várias regras e, aparentemente insatisfeito com o desenrolar do jogo próximo ao resultado final, agora parece disposto chutar o tabuleiro do próprio país, quer ganhe ou perca. Assim como Aécio, PSDB, Marina, PSB, Eduardo Campos, ou qualquer outra pessoa ou partido que se colocarem como opção ao PT, na alternância de poder tão necessária à democracia, jamais se transformarão por isso em “Herodes”, certamente Lula e Dilma não são Jesus Cristo.
Com Hitler?
Já em relação ao nazismo, representado por um partido político sem nenhuma vergonha de apelar ao radicalismo, mas que chegou ao poder na Alemanha pelo voto popular, antes de se converter na ditadura que mergulhou o mundo na II Guerra Mundial (1939/45), ao custo final de 60 milhões de vidas humanas, talvez não seja irrelevante saber o que pensava sobre seu Führer (“Líder”), Adolf Hitler (1889/1945), um certo dirigente sindical brasileiro, ainda inexperiente como líder político: “O Hitler, mesmo errado, tinha aquilo que eu admiro num homem, o fogo de se propor a alguma coisa e tentar fazer (…) O que eu admiro é a disposição, a força, a dedicação”.
Sua escolha
A entrevista de Lula a “Playboy”, título da revista com que agora acusa o estilo de vida pessoal de Aécio, foi publicada em julho de 1979. Oxalá esse “fogo” de Hitler tão admirado por quem depois seria eleito duas vezes presidente do Brasil, não termine por queimar a todos nós, antes ou depois de 26 de outubro. Até porque, numa democracia, as únicas “disposição”, “força” e “dedicação” que merecem qualquer admiração são as suas, leitor, livre para escolher na urna o seu destino e do seu país. Que eles sejam de mais paz do que quem escolheu Hitler.
Publicado hoje na Folha