Ainda quer mais tempo para prosseguir?

Calvin e Haroldo - autoritarismo

 

Antropólogo Roberto DaMatta
Antropólogo Roberto DaMatta

Autoritarismo

Por Roberto DaMatta

 

Talvez a palavra “autoritarismo” seja a mais adequada para caracterizar a nossa índole política. Veja bem: eu falo em caracterizar, e não em definir. Somos também anárquicos, malandros e lenientes — portanto, antiautoritários em certas situações, e tais comportamentos dependem de ideologias, partidos e pessoas. Sobretudo dos amigos, e daí vem, paradoxalmente, o problema da impunidade que impede castigar delitos flagrantes precisamente porque não julgamos os crimes, mas quem os praticou. Se o autor é um desconhecido, somos implacáveis e fascistas, mas, se é um amigo, ele tem a nossa condescendência e a nossa compaixão.

Afinal, falamos autoritariamente, mas sem perceber: “Este eu conheço! É pessoa de bem, tinha suas razões!”. O crime, como disse um dia o presidente Lula, foi cometido por meros (e inocentes) “aloprados”; e o mensalão foi uma trivialidade num sistema político recheado de corruptos. O problema é que a trama dos favores que une os poderosos é muito densa para não ser descoberta por algum maldito jornalista investigativo ou revelada por alguma rede ou câmara de televisão.

No Brasil, o crime hediondo e depravado é feito por quem não conhecemos; já o crime cometido por quem faz parte do nosso círculo de relações é um erro de cálculo ou um descuido. Donde o inocente e mendaz: “Eu não sabia…” Nosso autoritarismo ainda não entendeu que, numa democracia, somos simultaneamente construtores e habitantes de um mesmo teto!

O dado novo é a desmistificação do governante como uma pessoa predestinada e superior que pode tudo. Sobretudo roubar. E a questão hoje em dia não é mais de ter sido pobre ou das competências de como resolver os problemas, mas do modo pelo qual esses problemas serão resolvidos. No Brasil atual, nem Stalin ou Hitler teriam sucesso, porque o modo de governar está intrinsecamente ligado à roubalheira amistosa, vista como normal, aceitável e inevitável. O governar como um serviço e uma entrega baseada no resgate de valores, mais do que de rotineiras receitas técnicas, é o que está faltando neste nosso Brasil prestes a eleger um novo presidente.

É preciso liquidar com o autoritarismo do “todos fazem” e nós também fizemos, mas, infelizmente, a imprensa reacionária propagou de modo exagerado e ilegítimo o nosso delitozinho, inventando um “mensalão” petista que jamais existiu. O do PSDB é real, o nosso é fantasia reacionária. Por isso, tivemos que lutar para realizar uma revisão de todo o quadro legal e praticamente reformulamos as sentenças e a tese do julgamento.

Contra isso, só um temporal de ética que comece discutindo o personalismo. Esse personalismo que atribui mais responsabilidade às pessoas do que às questões que demandam a cooperação de todos para serem resolvidas.

Quem é a autoridade? Saber quem manda (ou é o “dono da bola”) é, sem sombra de dúvida, a questão que mais nos aflige. Competir com uma pessoa — usando argumentos pífios — é mais importante do que contribuir para resolver um problema crucial. Quando o mandão é obvio, não há problema. Mas, quando não existe consenso sobre quem é o mais importante, ficamos aflitos, e o conflito deflagra os bate-bocas mal-educados, visando à “desconstrução”, que são a primeira consequência do nosso desconforto com a igualdade.

No fundo, sempre achamos que as pessoas são mais importantes que os problemas e é exatamente isso que tipifica o personalismo que leva ao autoritarismo. Nele, o centro é sempre a pessoa, e elas são tão poderosas que frequentemente fazem com que os problemas (bem como as normas e leis) sejam esquecidos ou ultrapassados.

O dinamismo democrático conduz a uma troca de cadeiras. Se não fosse um exagero, eu diria que essa transparência e esse embaralhamento entre o público e o íntimo têm tido um efeito revolucionário de desmistificar precisa e paradoxalmente os revolucionários de plantão. É o que o nosso pífio programa eleitoral tem o dom de revelar. Nele, os batedores de carteira usuais surgem com clareza, mas é fascinante descobrir o fascismo aberto dos candidatos revolucionários para quem todo o mal do mundo é produzido pelos banqueiros. A satanização é um reducionismo absurdo.

Como contrapeso, porém, temos a campanha dilmista falando de um futuro governo aberto às forças do empreendedorismo, do lucro e do mercado que o PT sempre rejeitou, ao lado de uma visão francamente autoritária e contraditória relativamente ao papel da mídia. Ao jornal cabe informar! — diz a presidenta. E nós, na nossa luta para desmistificar o mundo público nacional, livrando-o dos seus sofismas personalistas, familísticos e autoritários, ficamos abestalhados com a revelação da índole (do geist, como diria um sociólogo alemão) deste governo que tem desmantelado o Banco Central, a Petrobras, os Correios e agora um impecável IBGE nesta ultima década, e que ainda quer mais tempo para prosseguir.

 

Publicado aqui na globo.com

 

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Ponto final — Previsão do tempo

Ponto final

 

Atribui-se ao ex-governador mineiro Magalhães Pinto (1909/96) a famosa máxima: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e já mudou”. Dentro deste relativismo, é possível que Anthony Garotinho (PR) ainda vire essa eleição a governador, depois da virada que tomou na pesquisa Ibope divulgada ontem, primeira em que Luiz Fernando Pezão (PMDB) apareceu à sua frente já no primeiro turno.

A apenas 11 dias das urnas de 5 de outubro, Pezão confirma mais uma vez sua tendência de crescimento. Nas três últimas pesquisas Ibope, divulgadas em 2, 9 e 23 de setembro (ontem), ele subiu inicialmente de 19% para 25%, para agora registrar 29%, num impressionante crescimento de 10 pontos percentuais em menos de um mês. Já Garotinho, primeiro caiu de 27% para 26%, índice com o qual ontem se manteve.

Quanto ao segundo turno, do empate exato em 35% na consulta Ibope divulgada dia 2, Pezão passou Garotinho na projeção seguinte em 40% a 33%, abrindo agora consistentes 10 pontos de vantagem: 43% a 33%. Ou seja, o governador cresceu oito pontos, enquanto o deputado federal caiu dois.

Se a estagnação eleitoral parece ser o grande problema de Garotinho, diante do franco crescimento de Pezão, não é o único. Também estacionado, o senador Marcelo Crivella (PRB) se mantém na terceira colocação com os mesmos 17% nas três últimas pesquisas Ibope. Todavia, segundo a divulgada ontem, ele também ganharia o segundo turno de Garotinho pelo governo fluminense com relativa facilidade, por 41% a 33%.

Política é como nuvem. Ao dizer que foi Deus quem quis que ele soubesse da virada no Ibope enquanto estava em Campos, demagogia à parte, o horizonte amplo da planície goitacá ontem reservou poucas nuvens para Pezão, nestes 11 dias até 5 de outubro. Já para Garotinho e sua intrépida trupe, a cada nova espiadela no céu, o clima parece cada vez mais sujeito a ventos fortes, trovoadas e pancadas de chuva. Aguardemos a nova previsão do tempo ainda esta semana do Datafolha.

 

Publicado hoje na Folha.

 

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Porque Marina pode perder, mais do que Dilma pode ganhar

Marina, Dilma e Aécio (foto de Orlando Brito)
Marina, Dilma e Aécio (foto de Orlando Brito)

 

Saulo Queiroz, empresário e ex-deputado federal
Saulo Queiroz, empresário e ex-deputado federal

Perspectivas para o segundo turno

Por Saulo Queiroz

Podem ocorrer mudanças no cenário nestes 15 dias que restam de campanha, mas pouco provável que mudará o desenho de um segundo turno entre Dilma e Marina. A reação de Aécio, tímida se considerarmos o pouco tempo restante, fica comprometida pelo seu desempenho em Minas, muito aquém da expectativa de pelo menos uma maioria em seu berço político. Para entrar no páreo, precisaria avançar pelo menos sete pontos, chegando a 24%. Representa todo o eleitorado do Centro-Oeste, algo em torno de dez milhões de votos. Aécio terá que buscar esses votos só no embornal de Marina. Muito complicado.

Vale, por isso, uma avaliação de potencial das duas candidatas na disputa de segundo turno. Comecemos por Dilma. Primeira observação importante é distinguir a eleição em que não há um candidato a reeleição daquela em que um dos contendores busca a manutenção do poder. Neste caso, onde se encaixa Dilma, a escolha do eleitor tem um caráter plebiscitário: quero ou não quero que ela continue no cargo.

Desde as convenções, seu desempenho nas várias listas do Ibope e Datafolha se manteve em uma variação pequena, entre 34% e 39%. Durante todo esse tempo, cerca de 60% do eleitorado estão dizendo que não querem reeleger a presidente. É o caráter plebiscitário.

Todavia, na simulação de segundo turno contra Marina, Dilma tem avançado bem e os números já mostram uma situação de equilíbrio. Mas isso não basta para ganhar.

O detalhe é que para o segundo turno todas as variáveis são desfavoráveis à presidente. Não há perspectivas de receber apoio de partidos que perdem no primeiro turno, caso de PSDB, DEM e PTB, que tenderão a caminhar com Marina.

Os resultados das eleições estaduais tendem a favorecer Marina.

No Rio Grande do Sul, haverá segundo turno entre Ana Amélia e Tarso Genro. Por conta da polarização natural, Ana Amélia, em nítida vantagem, deve apoiar Marina. No Paraná, existe a perspectiva de Beto Richa vencer no primeiro turno, devendo apoiar Marina no segundo. Raimundo Colombo em Santa Catarina deve também vencer no primeiro turno e apoiará a reeleição da presidente no segundo turno.

No Sudeste, o PT deve ganhar no primeiro turno em Minas e o PSDB em São Paulo. Em Minas, no segundo turno Marina poderá contar com o PSDB de Aécio, o que poderia equilibrar a disputa, e em São Paulo, se houver empenho do PSDB, Marina pode consolidar uma grande vantagem.

O segundo turno na eleição do Rio, entre Garotinho e Pezão, não ajuda Dilma, porque o atual governador é favorito e não deverá se empenhar pela reeleição da presidente. No Espírito Santo, Dilma praticamente não tem ninguém, como não tem agora.

No Nordeste, os adversários de Dilma nos dois maiores colégios eleitorais, Bahia e Pernambuco, devem vencer no primeiro turno e poderão atuar no segundo turno com muita força, de forma a reduzir ainda mais a vantagem que Dilma tem hoje na região, que é de apenas 13 pontos percentuais (53% a 40%). Nos demais estados, o resultado do primeiro turno não mudará o cenário favorável a Dilma, que deve ganhar em todos eles.

No Norte o quadro é muito favorável para a presidente nos três principais estados (Pará, Amazonas e Tocantins). No segundo turno ela deve manter nítida vantagem, bem acima de 60% dos votos válidos.

No Centro-Oeste, a vantagem de Marina no segundo turno deverá ser ampliada, porque, com exceção de Mato Grosso do Sul, seus parceiros que disputarão o governo terão desempenho nitidamente superior no segundo turno, como mostram pesquisas de Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal.

Marina, aparentemente entra no segundo turno agregando duas vantagens importantes: a simetria no horário eleitoral e o possível apoio de partidos políticos importantes, mal-sucedidos no primeiro turno, caso de PSDB e DEM, mas com vitórias importantes no primeiro turno na eleição de governador, caso de São Paulo, Paraná e Bahia. Depois a oportunidade de, com tempo de televisão reforçado, poder realmente dizer ao país o que pretende e, o que é vital.

Neste final de primeiro turno, por conta de equívocos que se repetiram, seus adversários estão conseguindo desqualificar seu preparo para o cargo e a impossibilidade de atrair quadros competentes para compor seu governo e garantir maioria confiável no Congresso. Se quiser ganhar a eleição, ela terá que desmistificar, com ações concretas, estas duas questões.

Em algumas questões terá, por isso, que arbitrar entre suas convicções pessoais e de seu partido e o senso comum da população e as regras da lei, como chamou a atenção Roberto Rodrigues no caso do Código Florestal.

Dependendo de como as coisas correrem no segundo turno, é perfeitamente possível que a vontade de mudar perca para o temor do imponderável. A atriz principal desse filme se chama Marina Silva.

 

Publicado aqui, no globo.com

 

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Ponto Final — A bela e o lindinho

Ponto final

 

Mais de uma pessoa já constatou que a deputada estadual Clarissa Garotinho (PR) herdou o talento político do pai; com vantagens contadas por arroba na silhueta. Ontem, por exemplo, em matéria publicada na página 5 da edição de hoje, ao ser indagada sobre as fortes declarações do senador Lindberg Farias contra seu pai, Clarissa usou a ironia para bater de volta não só no candidato petista ao governo do Rio, como em quem aconselhou este a fazer de Garotinho de alvo preferencial: o ex-presidente Lula.

Em entrevista exclusiva aos jornalistas Dora Paula Paes e Arnaldo Neto, publicada na Folha do último domingo (aqui), Lindberg quis desconversar a pergunta sobre sua fama de não cumprir acordos, exemplificada com uma acusação do político da Lapa, respondendo: “Garotinho não tem autoridade moral para atacar ninguém”. Pois ontem, em matéria do jornalista Alexandre Bastos, publicada hoje na página ao lado (aqui), Clarissa respondeu: “Eu entendo o senador. Está querendo criar uma onda na reta final, mas até agora nem uma marolinha!”

No caso, a deputada estadual do PR e candidata a campeã de votos como deputada federal menosprezou a intenção de Lindberg de tentar criar uma onda eleitoral de última hora ao governo do estado. E ao dizer que a tal “onda” não é nem “marolinha”, Clarissa bateu também em quem mandou Lindberg bater em Garotinho. Ainda presidente, em 2008, Lula chamou de “marolinha” a mesma crise mundial que agora, seis anos depois, corrói a economia do país e afeta as chances de Dilma Rousseff continuar presidente nos próximos quatro anos.

 

Publicado hoje, na edição impressa da Folha.

 

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Artigo do domingo — Acabou o milho, acabou a pipoca?

 

Até as últimas duas semanas, quem julga entender algo de política afirmava, sem medo de errar, que o pleito para governador do Rio neste ano repetiria a eleição à Prefeitura de Campos, em 2004, e a suplementar, em 2006. Em ambas, hoje deputado estadual do PR em busca de reeleição, Geraldo Pudim só venceu o primeiro turno para refugar no segundo, vencido por Carlos Alberto Campista e depois por Alexandre Mocaiber.

No caso, o deputado federal Anthony Garotinho (PR) repetiria Pudim se confirmasse sua própria liderança ao primeiro turno do governo do estado em outubro próximo, mas acabasse superado nas urnas de novembro pelo segundo colocado do mês anterior. E é exatamente o que as pesquisas projetam tanto se seu adversário no segundo turno for o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), quanto o senador Marcelo Crivella (PRB).

Na última consulta Ibope da corrida ao Palácio Guanabara, divulgada no dia 9 deste mês, Garotinho ainda mantinha a dianteira no primeiro turno, com 26% das intenções de voto, mas já em empate técnico com Pezão, que apareceu apenas um ponto percentual atrás, enquanto Crivella manteve seus 17%. Todavia, na mesma amostragem, o político da Lapa perderia de 40% a 33% para Pezão no turno final — no qual não passaria do empate técnico de 34% a 33%, caso o adversário fosse Crivella.

Quanto à pesquisa Datafolha, liberada no dia 10, Pezão já apareceu em empate exato com Garotinho, ambos com 25%, para o pleito de outubro, ao qual Crivella registrou 19%. E no segundo turno? Garotinho tomaria um vareio tanto de Pezão (35% a 47%) quanto de Crivella (33% a 45%), perdendo para ambos pela mesma considerável diferença de 12 pontos percentuais.

Mas se Garotinho é derrotado em quase todas as simulações do segundo turno estadual em 2014, nos dois principais institutos de opinião brasileiros, por que não se cumpriria a analogia com a derrota final de Pudim nas eleições municipais de 2004 e 2006? Simples: Garotinho corre o risco não só de perder a liderança da corrida ao governo fluminense para Pezão, ainda no primeiro turno, como de acabar fora do segundo, sendo ultrapassado na reta final também por Crivella.

Menos conceituado do que Ibope e Datafolha, que não soltaram novos números ao governo do Rio na última semana, o Gerp divulgou no dia 16 a pesquisa mais recente da disputa. Nela, Garotinho (23%), Pezão (21%) e Crivella (20%) apareceram quase juntos na escadinha do empate técnico no primeiro turno. No segundo, o político de Campos também perderia as simulações tanto com Pezão (30% a 32%), quanto com Crivella (30% a 35%).

Com 12% das intenções de voto no Datafolha e 9% no Ibope e no Gerp, o senador Lindberg Farias (PT) ainda parece distante dos líderes na corrida a governador registrada pelas pesquisas. Fora delas, no entanto, o petista tem dado as demonstrações mais recentes de que Pezão hoje parece ter mais garantias de acesso do segundo turno do que Garotinho.

Não bastasse ter abertamente trocado o governador do PMDB pelo deputado do PR como principal alvo das suas críticas, seguindo o conselho que recebeu pessoalmente do ex-presidente Lula, o próprio Lindberg deixou clara sua análise do atual quadro eleitoral, em entrevista exclusiva publicada hoje na Folha (aqui): “Garotinho está caindo nas pesquisas e não tem força para enfrentar Pezão. Tenho condições de crescer e tirar Garotinho do segundo turno”.

Pelo menos em relação à primeira afirmação, o petista parece prenhe de razão na comparação das duas últimas pesquisas de cada instituto, na qual o crescimento de Pezão e a queda de Garotinho surgem como tendências inequívocas. O primeiro subiu pelo Ibope (19% a 25%), Datafolha (23% a 25%) e Gerp (15% a 21%), enquanto o segundo caiu nos três: 27% a 26% (Ibope), 28% a 25% (Datafolha) e 25% a 23% (Gerp). Fungando ao cangote de ambos, apesar de ter mantido os mesmos 17% nas duas últimas consultas do Ibope, Crivella cresceu pelo Datafolha (de 18% para 19%) e pelo Gerp (de 18% para 20%).

Leitor de pesquisas como poucos, ninguém está mais ciente da realidade do que Garotinho. Não por outro motivo, após ficar sem postar em seu blog por quase 24h, entre os dias 10 (quando foi divulgada a última pesquisa Datafolha) e 11, além de cancelar vários compromissos nos dias seguintes, sob alegação de “virose”, o candidato do PR ressurgiu bem ao seu estilo, no dia 18, numa entrevista ao vivo no RJ TV, onde disparou sua conhecida metralhadora giratória contra as Organizações Globo.

Na aparente impossibilidade retórica de responder às perguntas da jornalista Mariana Gross sobre processos contra ele e Rosinha, por conta da administração desta no governo do estado, Garotinho “respondeu” acusando a Globo de sonegação fiscal na compra dos direitos de transmissão dos jogos da Copa do Mundo de 2002. Para quem só é capaz de enxergar o mundo pelos antolhos do maniqueísmo, foi uma reação contundente (e merecida) contra a toda poderosa “Vênus Platinada” dos irmãos Marinho, ao estilo do ex-governador Leonel Brizola (1922/2004).

Todavia, para quem tem capacidade de enxergar o dois somado ao outro, e projetar o quatro como resultado final da equação, soa meio óbvia a lembrança de que as denúncias de Garotinho no RJ TV já vinham sendo feitas, não é de hoje, pela Rede Record, principal concorrente da Globo e propriedade de Edir Macedo, tio de Crivella. Nem é preciso estar tomado da onisciência do espírito santo para identificar o sinal terreno.

Na melhor das hipóteses, se estiver no segundo turno com Pezão, Garotinho tenta construir uma ponte “evangélica”, senão capaz de conquistar o apoio declarado de Crivella, suficiente ao menos para que este libere os fieis eleitores da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Na hipótese menos boa, caso não consiga estancar sua queda e acabe fora do segundo turno, só restará a Garotinho orar para lá estar o mesmo Crivella, que passaria a ser sua possibilidade de salvação do limbo político no estado do Rio.

Se até 15 dias atrás o que Garotinho mais tinha a temer era ser o Pudim de uma década atrás, ele tem só mais duas semanas, até 5 de outubro, para tentar exorcizar de si e dos seus um medo muito maior: ser o Paulo Feijó de 2004, quando o deputado federal hoje no PR liderou boa parte da corrida à Prefeitura de Campos, mas foi atropelado na reta final e acabou fora do segundo turno.

Por ora, diante da expectativa de virada de Pezão já nas próximas pesquisas, o clima reinante nas hostes do PR goitacá e fluminense é o de “acabou o milho, acabou a pipoca”.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

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Artigo do domingo — Não passarão?

Guermica, de Pablo Picasso, pintado em Paris, em 1937
Guermica, de Pablo Picasso, pintado em Paris, em 1937

 

 

“No, la pintura no está hecha para decorar las habitaciones. Es un instrumento de guerra ofensivo y defensivo contra el enemigo” (“Não, a pintura não está feita para decorar apartamentos. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo”). As palavras duras de Pablo Picasso (1881/1973) só não são mais fortes do que as imagens monocromáticas do famoso painel “Guernica”, considerado uma das suas obras primas, assim como do próprio movimento cubista do qual o pintor espanhol foi o principal expoente.

Cidade do País Basco, província ao norte da Espanha, Guernica foi completamente destruída pelo bombardeio da Luftwaffe, a força aérea de guerra da Alemanha nazista, que usou a Guerra Civil Espanhola (1936/39) como tubo de ensaio para sua tática da blitzkrieg (guerra relâmpago), com a qual conquistaria quase toda a Europa, antes de ser derrotada na II Guerra Mundial (1939/45). O horror de uma guerra mecanizada e sem pudores contra populações civis indefesas, que quedou dos céus sobre Guernica em 1937, foi o que Picasso retrataria no mesmo ano, como prenúncio daquilo que se abateria sobre todo o mundo, literalmente, nos anos seguintes.

Com o mesmo empenho com que Picasso se opunha ao massacre de Guernica e aos fascistas que o perpetraram, outro pintor de menos talento, Adolf Hitler (1889/1945), feito Führer (“Líder”) da Alemanha nazista após fracassar como artista, apoiava o general espanhol Francisco Franco (1892/1975) no golpe militar contra o governo eleito democraticamente pelo povo da Espanha.

Com um oceano, um hemisfério, um continente e alguns anos de diferença, outra democracia de sangue latino vai também definindo seus quadros às vésperas de outras eleições. No Brasil, a presidente Dilma Rousseff (PT) mostra ainda ter lenha para queimar. Não só suportou a “blitzkrieg” eleitoral de Marina Silva (PSB), como já apresenta sinais de recuperação junto ao eleitor.

Se no Ibope da semana anterior, divulgado em 3 de setembro, Dilma tinha 37% das intenções de voto, contra 33% da principal concorrente, na nova amostragem do instituto, liberada no dia 12, a presidente cresceu dois pontos, aparecendo com 39%, enquanto Marina caiu para 31%, perdendo os mesmos dois pontos. E a vitória clara de Marina no segundo turno, prevista pelo Ibope anterior (46% diante dos 37% da presidente), se transformou num empate quase absoluto, no qual Marina hoje tem 43% (queda de quatro pontos) contra 42% de Dilma, que subiu consideráveis cinco pontos no mesmo curto espaço de tempo.

Esse movimento de recuperação de Dilma e queda de Marina também foi registrado no Datafolha. Na comparação das duas últimas pesquisas do instituto, divulgadas em 3 e 10 de setembro, se o empate técnico entre as duas ex-ministras de Lula ficou mantido no primeiro turno (Dilma tinha 35% contra 34% de Marina, e agora tem 36% contra 33%), a vitória antes folgada da candidata do PSB no segundo turno (48% contra 41% da presidente) se transformou em dúvida exata, com as duas apresentando agora os mesmos 47% de intenções de voto.

Diferente de Dilma, quem tem demonstrado dificuldades em reagir ao avanço rápido do principal adversário, é o deputado federal Anthony Garotinho, candidato do PR contra o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB). Entre as duas últimas pesquisas do Ibope, liberadas respectivamente aos dias 2 e 9 deste mês, Pezão cresceu impressionantes seis pontos, passando de 19% a 25%, enquanto o político da Lapa, para não dizer que está estagnado, perdeu um ponto: tinha 27% e caiu para 26%. E, mais grave, o empate exato em 35% que o Ibope apontava no segundo turno entre ambos, se transformou em previsão de vitória final relativamente fácil para Pezão, que subiu para 40%, enquanto Garotinho agora só tem 33%.

No Datafolha, entre as pesquisas divulgadas em 4 e 10 de setembro, o quadro se desenha ainda mais desanimador ao candidato do PR. No primeiro turno, Pezão cresceu dois pontos, passando de 23% a 25%, enquanto o campista caiu de 28% para 25%. Mas é nas simulações de segundo turno que a situação se agrava para Garotinho, que caiu de 36% para 35%, enquanto o atual governador subiu de 45% para 47% das intenções de voto, abrindo uma considerável diferença de dois dígitos na decisão final.

De fato, o impacto da última projeção do Datafolha foi tão forte, que o próprio Garotinho, no mesmo dia 10 em que a pesquisa foi divulgada, pareceu atordoado ao ficar sem postar nada em seu blog, desde o final da manhã daquele dia, só voltando a emitir sinal virtual de vida quase 24 horas depois, quando foi obrigado a admitir publicamente o crescimento de Pezão. E os sinais de desânimo, bem como as ameaças para tentar conter a debandada no grupo, não passaram despercebidos nas expressões e discursos do comício de anteontem na praça São Salvador, quando Garotinho entregou sua campanha “em primeiro lugar a Deus e, em segundo, ao povo”.

Na incerteza do Divino, quanto ao povo, apesar de ter sido bravateada a presença de mais de 15 mil pessoas na praça, ninguém que lá esteve foi capaz de enxergar, com muito boa vontade, no máximo um quinto disso.

Garotinho, então, é carta fora do baralho, como se arriscam a já apregoar alguns? Longe disso! Marcelo Crivella (PRB) que aparece com 17% no Ibope e 19%, pelo Datafolha, ainda pode ser fator surpresa, tanto no primeiro, quanto no segundo turno. Muito embora em sua entrevista exclusiva publicada hoje na Folha, o sobrinho de Edir Macedo deixe nas estrelinhas da última resposta a indicação de que, num segundo turno entre Pezão e Garotinho, caminharia com o primeiro. E não é nem preciso ser mais inteligente do que Aécio Neves (PSDB), aliado de Dilma na desconstrução de Marina, para projetar isso.

Inteligência é o que nunca faltou a Garotinho. Tampouco ao generalíssimo Francisco Franco, que recebeu o apoio de Hitler para vencer a Guerra Civil Espanhola, mas nunca retribuiu o favor na II Guerra Mundial.

O resultado? O líder da Alemanha se mataria no fundo de seu bunker, em abril de 1945, numa Berlim posta de joelhos pela ex-União Soviética com tanta lenha para queimar quanto Dilma e Pezão demonstram ter agora. Enquanto isso, Franco continuou governando a Espanha até bem perto de morrer, de causas naturais, em 1975, dentro dos mesmos princípios fascistas derrotados 30 anos antes, nos campos de batalha da II Guerra.

Mesmo que Garotinho perca a disputa ao governo do estado, só um tolo pode supor que seu candidato à sucessão de Rosinha, independente do nome, não entre na disputa como favorito em 2016. Da mesma maneira, só outro tolo acreditaria que a oposição local não vá mais uma vez dividir sua força já inferior em várias candidaturas ainda menores, exatamente como fizeram na Guerra Civil Espanhola os defensores do estado democrático de direito. Foi quando popularizaram no mundo o inspirador lema “!No passarán!” (“Não passarão!”), antes dos coturnos franquistas passarem sobre suas cabeças.

 

Publicado hoje, na edição impressa da Folha.

 

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