Se confirmarem o favoritismo, se classificarem em primeiro lugar em seus grupos, Brasil e Argentina só se cruzariam na final da Copa, no Maracanã, em 13 de julho. E caso isso se confirme, quer saber como dois solícitos campistas ajudariam um hermano da terra de Messi e Di Maria a chegar à av. Pelinca para assistir ao jogo histórico? Pois dê uma conferida no hilário vídeo que a rapaziada da WebTV Campos produziu e divulgou aqui, na democracia irrefreável das redes sociais:
Gostou? Pois se quiser conhecer melhor o trabalho dessa criativa galera, confira aquia matéria da jornalista da Folha Talita Barros.
Ruiz corre para confirmar com o bandeirinha seu gol de cabeça, que bateu no travessão e quicou pouco depois da linha, mas seria confirmado pelo juiz
Se a vitória ontem do Uruguai contra a Inglaterra (aqui), por 2 a 1, foi épica, o triunfo da Costa Rica sobre a Itália, agora há pouco, foi histórico. Apontada desde o sorteio das chaves como mera figurante no “Grupo da Morte” (o D), que reunia três ex-campeões mundiais, os costarriquenhos já tinham surpreendido o mundo. Mas se na estreia na Copa, ao derrotar os uruguaios por folgados 3 a 1, a seleção da América Central foi considerada, inclusive (aqui) neste blog, como “zebra”, após o 1 a o de hoje sobre a Itália, com o gol de cabeça do meia Bryan Ruiz, a Costa Rica não só confirmou seu futebol de grande aplicação tática e bom toque de bola, como garantiu a classificação antecipada às oitavas de final e eliminou da Copa a Inglaterra, com quem agora jogará para fechar a fase de grupos na próxima terça (24/06), em Belo Horizonte.
E além de justa, a vitória costarriquenha de hoje poderia ter sido mais ampla, pois poucos minutos antes do gol de Ruiz, no final do primeiro tempo, o zagueiro italiano Giorgio Chiellini fez um pênalti claro no atacante Joel Campbell, não marcado pelo juiz chileno Enrique Osses. Em entrevista após o jogo, demonstrando tanta intimidade com as gírias futebolísticas do país da Copa, quanto já provou ter com a bola, Campbell apostou: “Após vencermos o Uruguai, passamos a ser a ‘zebra’, como vocês dizem aqui no Brasil. Agora, provamos que podemos ser mais”.
Realmente poderão seguir além de qualquer projeção mais otimista, já que os dois primeiros do forte Grupo D pegarão nas oitavas os dois primeiros do fraco Grupo C, o que em tese garante uma passagem menos difícil às quartas de final. Além disso, com sua classificação a Costa Rica abriu a promessa de outro jogo épico e decisivo na disputa pela outra vaga, no confronto direto entre a Itália de Andrea Pirlo, que jogará pelo empate, contra o Uruguai de Luisito Suárez, também na próxima terça, em Natal.
Como diz o lateral-direito Daniel Alves na propaganda televisiva da Adidas: “É, malando, o bicho vai pegar!”
Lula só pensa naquilo. Diante das vaias (normais no ambiente dos estádios) e dos xingamentos (deploráveis em qualquer ambiente) a Dilma Rousseff na abertura da Copa, o presidente de facto construiu uma narrativa política balizada pela disputa eleitoral.
A “elite branca” e a “mídia”, explicou, difundem “o ódio” contra a presidente-candidata. Os conteúdos dessa narrativa têm o potencial de provocar ferimentos profundos numa convivência democrática que se esgarça desde a campanha de ataques sistemáticos ao STF deflagrada pelo PT.
O partido que ocupa o governo decidiu, oficialmente, produzir uma lista de “inimigos da pátria”. É um passo típico de tiranos — e uma confissão de aversão pelo debate público inerente às democracias. Está lá, no site do PT, com a data de 16 de junho (Leia AQUI).
O artigo assinado por Alberto Cantalice, vice-presidente do partido, acusa “os setores elitistas albergados na grande mídia” de “desgastar o governo federal e a imagem do Brasil no exterior” e enumera nove “inimigos da pátria” — entre os quais, este colunista.
Nas escassas 335 palavras da acusação, o representante do PT não cita frase alguma dos acusados: a intenção não é provar um argumento, mas difundir uma palavra de ordem. Cortem-lhes as cabeças!, conclama o texto hidrófobo. O que fariam os Cantalices sem as limitações impostas pelas instituições da democracia?
O artigo do PT é uma peça digna de caluniadores que se querem inimputáveis. Ali, entre outras mentiras, está escrito que os nove malditos “estimulam setores reacionários e exclusivistas a maldizer os pobres e sua presença cada vez maior nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes”.
Não há, claro, uma única prova textual do crime de incitação ao ódio social. Sem qualquer sutileza, Cantalice convida seus seguidores a caçar os “inimigos da pátria” nas ruas. Comporta-se como um miliciano (ainda) sem milícia.
Os nove malditos quase nada têm em comum. Politicamente, mais discordam que concordam entre si. A lista do PT orienta-se apenas por um critério: a identificação de vozes públicas (mais ou menos) notórias de críticos do governo federal.
O alvo óbvio é a imprensa independente, na moldura de uma campanha de reeleição comandada pelo ex-ministro Franklin Martins, o arauto-mor do “controle social da mídia”. A personificação dos “inimigos da pátria” é um truque circunstancial: os nomes podem sempre variar, aos sabor das conveniências.
O truque já foi testado uma vez, na campanha contra o STF, que personificou na figura de Joaquim Barbosa o ataque à independência do Poder Judiciário. Eles gostariam de governar um outro país — sem leis, sem juízes e sem o direito à divergência.
Cortem-lhes a cabeça! A palavra de ordem emana do partido que forma o núcleo do governo. Ela está dirigida, imediatamente, aos veículos de comunicação que publicam artigos ou difundem comentários dos “inimigos da pátria”.
A mensagem direta é esta: “Nós temos as chaves da publicidade da administração direta e das empresas estatais; cassem a palavra dos nove malditos.” A mensagem indireta tem maior amplitude: no cenário de uma campanha eleitoral tingida de perigos, trata-se de intimidar os jornais, os jornalistas e os analistas políticos: “Vocês podem ser os próximos”, sussurra o persuasivo porta-voz do presidente de facto.
No auge de sua popularidade, Lula foi apupado nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Dilma foi vaiada na Copa das Confederações. As vaias na abertura da Copa do Mundo estavam escritas nas estrelas, mesmo se o governo não experimentasse elevados índices de rejeição.
O governo sabia que viriam, tanto que operou (desastrosamente) para esconder a presidente-candidata dos olhos do público. Mas, na acusação desvairada de Cantalice, os nove malditos figuram como causa original da hostilidade da plateia do Itaquerão contra Dilma!
O ditador egípcio Hosni Mubarak atribuiu a revolução popular que o destronou a “potências estrangeiras”. Vladimir Putin disse que o dedo de Washington mobilizou um milhão de ucranianos para derrubar o governo cleptocrático de Viktor Yanukovich. O PT bate o recorde universal do ridículo quando culpa nove comentaristas pela recepção hostil a Dilma.
Quanto aos xingamentos, o exemplo nasce em casa. Lula qualificou o então presidente José Sarney como “ladrão” e, dias atrás, disse que FHC “comprou” a reeleição (uma acusação que, nos oito anos do Planalto, jamais levou à Justiça). O que gritaria o presidente de facto no anonimato da multidão de um estádio?
Na TV Estadão, critiquei o candidato presidencial José Serra por pregar, na hora da proclamação do triunfo eleitoral de Dilma Rousseff, a “resistência” na “trincheira democrática”.
A presidente eleita, disse na ocasião, é a presidente de todos os brasileiros — inclusive dos que nela não votaram. Dois anos mais tarde, escrevi uma coluna intitulada “O PT não é uma quadrilha”, publicada nos jornais O GLOBO e “O Estado de S. Paulo” (25/10/2012), para enfatizar que “o PT é a representação partidária de uma parcela significativa dos cidadãos brasileiros” e fazer o seguinte alerta às oposições: “Na democracia, não se acusa um dos principais partidos políticos do país de ser uma quadrilha.”
A diferença crucial que me separa dos Cantalices do PT não se encontra em nossas opiniões sobre cotas raciais, “conselhos participativos” ou Copa do Mundo. Nós divergimos, essencialmente, sobre o valor da liberdade política e da convivência democrática.
Se, de fato, como sugere o texto acusatório do PT, o que mais importa é a “imagem do país no exterior”, o “inimigo da pátria” chama-se Cantalice. Nem mesmo os black blocs, as violências policiais ou a corrupção sistemática são piores para a imagem de uma democracia que uma “lista negra” semioficial de críticos do governo.
Leia mais sobre a “lista negra” do PT, aqui, no Blog do Bastos, único jornalista a noticiar o caso na blogosfera goitacá.
Invasão chilena no Maracanã (Foto: Paulo Sergio – Agencia Lancepress)
Governo e Fifa anunciaram que terão de realinhar a operação de segurança da Copa do Mundo. Reuniões foram iniciadas já nesta quinta-feira (19) e, até sexta-feira, um novo esquema será definido.
— É vergonhoso o que ocorreu — declarou Ralf Mutschke, chefe de segurança daFifa.
A Fifa se recusou a dar detalhes sobre o que pode ser mudado. Mas garantiu que tal incidente “não voltará a ocorrer”.
Responsáveis pela operação de segurança da Fifa insistem que os problemas de quarta-feira com a invasão da torcida do Chile no estádio do Maracanã, é de responsabilidade do poder público. Logo após o incidente, a Fifa e o Comitê Organizador Local realizaram uma reunião de emergência no Rio de Janeiro. Nesta quinta, novas medidas de segurança devem ser anunciadas.
Quarenta e cinco minutos antes do início do jogo entre Espanha e Chile, entre 150 e 200 torcedores chilenos invadiram a área de imprensa do Maracanã, quebrando paredes e causando confusão. Parte dos invasores chegou até a arquibancada, enquanto 88 foram detidos e serão deportados. Mas a situação abriu uma crise que exigiu uma reunião de emergência da Fifa.
Fontes que estiveram dentro do encontro revelaram que a percepção é de que a responsabilidade por ter evitado a invasão seria da Policia Militar do Rio de Janeiro.
— O perímetro de fora do estádio é de responsabilidade das autoridades — insistiu uma fonte de alto escalão da Fifa. O grupo de chilenos ficou concentrado na área por pelo menos duas horas, sem ingresso, antes de invadir o estádio.
O que se investiga é porque ninguém atuou para saber o que eles faziam num dos portões do Maracanã sem entradas. O governo tem outra percepção. A falha, segundo Brasília, seria da falta de vigias nas portas do estádio. No domingo, o Ministério da Justiça e Ministério da Defesa mantiveram uma reunião com a Fifa e o governo insistiu que uma solução precisaria ser encontrada para o déficit de vigias nos estádios. A Fifa garantiu que está contratando novos funcionários.
Ibrahimovic ontem no Itaquerão (Foto: reprodução Instagram)
Após sua Suécia perder a vaga para seleção portuguesa de Cristiano Ronaldo, nas eliminatórias europeias, o craque Zlatan Ibrahimovic, bem ao seu estilo marrento, disse que a Copa no Brasil, sem ele, não teria graça. Bem, se esse era o problema, desde ontem, no Itaquerão, a graça sueca abençoou a Copa. Se em campo brilharam os atacantes uruguaio Luisito Suárez e inglês Wayne Rooney, autores dos 2 a 1 que selaram a vitória épica da Celeste, Ibra deixou a marra de lado para assistir a tudo das arquibancadas. Conhecido pela plasticidade dos seus gols e considerado um dos melhores centroavantes do mundo, o sueco é companheiro de clube, no Paris Saint-Germain, de outro grande atacante uruguaio, Edinson Cavani, autor do cruzamento preciso no qual Suárez meteu a cabeça para deslocar o goleiro Joe Hart e abrir o placar.
Estava pensando desde ontem em escrever alguma coisa não só sobre a queda precoce da Espanha na Copa do Mundo. A bem da verdade, em tudo que ela possa ter significado, desde as conquistas da Eurocopa de 2008, da Copa do Mundo de 2010 e da Euro de 2012 — tríplice coroa inédita na história do futebol. Até que li, meio que por acaso, um artigo na UOL. Impressionado pela erudição futebolística e o didatismo do texto, busquei informação sobre seu ator, até localizar nas redes sociais um jornalista com rosto de menino, nascido em 1990, ano em que cobri como jornalista minha primeira Copa.
Na busca de referências de contexto, o jovem cronista foi buscá-las em outras duas grandes seleções europeias do passado: a Hungria de Ferenc Puskás e a Holanda de Johan Cruyff. Embora a analogia se dê na excelência técnica e inovação tática com as quais essas duas legendárias equipes (como a Espanha) também marcaram a história do futebol, o fato é que ambas bateram na trave em finais de Copa: a Hungria, vice-campeã em 1954, tal e qual a Holanda, 20 anos depois. E o que foi feito neste início de séc. 21, não só pela seleção espanhola, mas por sua base clubística do Barcelona, em termos de reinvenção tática, da plástica do jogo, mas sobretudo de conquista de títulos, tem poucos paralelos na história do futebol. Na Espanha ou no Barça, com base no toque e na posse de bola, o tike-taka de Xavi Hernández e Andres Iniesta foi vencedor. E isso sempre incomoda mais.
Na busca de referências brasileiras com os dois maestros espanhóis, pelo que li e ouvi de quem viu jogarem dois outros grandes armadores do passado, sempre achei que Iniesta, pela dinâmica, estivesse mais para Zizinho (Copa de 1950) ; ao passo que Xavi, pela abstração, mais para Didi (1954 e Bicampeão em 58 e 62). Ademais, embora concorde que o estilo que reinventou a Espanha talvez resida na própria reinvenção de Xaxi como jogador, tese na qual o artigo investe com brilhantismo, na minha opinião, desde a Copa passada, vencida pela Espanha com um gol de Iniesta, coube a este assumir o papel do protagonista, até o fracasso de ontem dessa brilhante, mas envelhecida geração.
Sem Xavi e Iniesta, que se despedirão da Copa na próxima segunda-feira, quando a Espanha ainda cumpre tabela contra a Austrália, quem quiser buscar outros armadores com a mesma categoria dos grandes nomes do passado, ainda poderá achá-los em Andrea Pirlo, destaque do Itália 2 x Inglaterra, e Bastian Schweinsteiger, cuja estreia é aguardada no próximo jogo da Alemanha, no sábado, contra Gana. Mas o que interessa aqui é tentar entender o que significou a Espanha no futebol mundial, na bola rolada ao texto de um jovem craque:
Ferenc Puskás, Johan Cruyff e Xavi Hernández. Cada um personifica um estilo que, em determinado momento da história, se sobressaiu sobre o resto e dominou o futebol mundial. A escala, cronológica, representa também uma evolução. Não haveria Xavi se não fosse a Holanda de 1974 de Cruyff. E não haveria Cruyff se não fosse a Hungria da década de 1950, regida por Puskás. É tanta a importância histórica do trio para o futebol que as equipes em que atuaram se tornaram reféns de cada um. Retrato da seleção espanhola na Copa do Mundo de 2014 — uma eliminação com um Xavi ultrapassado, com o tiki-taka estraçalhado no campo e com a certeza de que aquela história que o meia do Barcelona iniciou em 2008 agora está encerrada.
Xavi é daqueles jogadores dos quais só se compreenderá o tamanho daqui a alguns anos. Aquela Hungria do Puskás. Aquela Holanda do Cruyff. Aquela Espanha do Xavi. É só 1,70m em campo. Pouca presença física, sem velocidade, agilidade, força, dribles desconcertantes, mas com uma capacidade de compreensão de jogo única e precisão técnica cirúrgica. E mesmo assim demorou para que ele tivesse os primeiros momentos de glória. A história de Xavi e do tiki-taka se misturam completamente. Xavi é o tiki-taka, e a Copa de 2014 denuncia que o tiki-taka é Xavi. Aquela história da equipe que se torna refém de um jogador…
O Barcelona que venceu o Arsenal na final da Liga dos Campeões da temporada 2005-2006 tinha Victor Valdés, Oleguer, Rafa Márquez, Carles Puyol e Gio Van Bronckhorst; Edmilson, Mark Van Bommel e Deco; Ludovic Giuly, Ronaldinho e Samuel Eto’o. Xavi, aos 26 anos, era reserva. E disputava as entradas no time com o brasileiro naturalizado italiano Thiago Motta. O técnico era o holandês Frank Rijkaard. Xavi já era, na época, peça importante de uma impotente seleção espanhola. Mas não tinha – como nunca teve – o poder de marcação e dinâmica de um Van Bommel, ou o poder de drible e chegada de um Deco. Em 2006 era absolutamente compreensível ver o meia dos bons passes no banco de reservas.
Xavi dependeu de duas pessoas para se tornar um jogador histórico, o marco zero para levar um estilo ao extremo. O primeiro e mais importante, Luis Aragonés, treinador da seleção espanhola que venceu a Eurocopa em 2008 para que a Espanha deixasse de ser impotente, deixasse de ser o time inofensivo, que tremia nos momentos decisivos. Xavi jogou como nunca. Transformou-se no cérebro da equipe e roubou o protagonismo de Fábregas, a estrela emergente, então com 21 anos. Mas houve muito por trás disso. Aragonés percebeu que Xavi tinhas as qualidades para transformar a seleção espanhola, adotando estilo inspirado nos traços do Carrossel Holandês, difundido na Espanha nos anos 70 pelo técnico holandês Rinus Michels, no Barcelona, com Cruyff como protagonista.
Mas não era simples fazer com aquele que dois anos antes era reserva de Deco e Van Bommel se tornasse um dos melhores jogadores do mundo. Para que isso acontecesse, Aragonés cultivou a cumplicidade com o jogador e lhe deu todo o respaldo para apostar na transformação. Viraram amigos, muito próximos. Aragonés morreu há cinco meses, no dia 1 de fevereiro, e motivou uma homenagem de Xavi.
O jogador publicou uma carta no jornal espanhol “El País”. Quis revelar a importância de Aragonés para sua carreira, para que criasse um estilo e levasse a Espanha ao topo do mundo na Copa de 2010. Em trecho, conta: “No pessoal, Luis me fez sentir importante quando a minha autoestima era um desastre. Me deu o comando da seleção quando eu não tinha nem o Barça. ‘Aqui manda você’, me disse. ‘E que critiquem a mim’. Decidi devolver a confiança que ele me deu em campo. Se fui eleito o melhor jogador da Eurocopa foi por causa dele, mesmo que ele sempre negasse. Comigo ele teve detalhes inesquecíveis”, Em outro parágrafo, ilustra o início da relação com o treinador: “Outro dia me lembrei de uma história sobre a primeira vez que ele me chamou para a seleção. Eu não tinha sido convocado em sua primeira lista e, quando cheguei, ele estava me esperando: ‘O que você estava pensando? Que o filho da p… do velho não ia te trazer?’. Eu me apavorei e disse: ‘Não, não, eu nunca pensei isso, senhor’. E ele disse: ‘Sim , sim, sim , vamos conversar’. E nós conversamos naquele dia por mil horas. Luis foi fundamental na minha carreira e na história da seleção. Sem ele, nada teria sido o mesmo, impossível. Com Luis fizemos uma revolução. Trocamos a fúria pela bola, e demonstramos ao mundo que se pode ganhar jogando bem. Foi Luis quem abriu o caminho, quem deu à Espanha o estilo que tem hoje”, escreve Xavi, em outro trecho.
Ao passo que Xavi encontrou em Aragonés a confiança para se tornar o marco histórico de um estilo de jogo, o tiki-taka, teve a sorte de ser a referência para Pep Guardiola – a segunda pessoa de quem seu sucesso dependeu –, ex-companheiro e volante do Barcelona, que começava a carreira como treinador do time catalão na mesma data em que a Espanha conquistara a Euro de 2008. Nascia ali uma das melhores equipes de todos os tempos.
A temporada de 2008-2009 foi, indiscutivelmente, a melhor da carreira de Xavi. Nasceu para o mundo. O tiki-taka estava embalado em um rótulo com sua face e a de Guardiola. As ideias de um eram executadas pelos pés do outro. Xavi, Barcelona e Espanha começaram, então, a se misturar. O técnico agora era Vicente Del Bosque, e a filosofia de jogo envolvente, de passes curtos e total domínio da posse de bola, estava impregnada. Se aquilo dava tão certo no Barcelona, bastava convocar os espanhóis comandados por Guardiola que o sucesso se repetiria na seleção.
Bastou. O sucesso se repetiu na Copa do Mundo de 2010. A Espanha foi um Barcelona sem o argentino Lionel Messi. Marco histórico para um país que, à época, estava assolado pela crise financeira, com índice assustador de desemprego. País marcado por históricos movimentos separatistas, na Catalunha, de Xavi, e no País Basco. País com uma monarquia meramente ilustrativa. País sem tanto nacionalismo, por tanta desunião e instabilidade política, mas que teve no futebol um momento para celebrar em conjunto. O que eles faziam em campo, com a bola nos pés, virou modelo. Eram os melhores do mundo no futebol após décadas de fracasso. Tudo por conta de Xavi e um novo estilo de jogo, instaurado dois anos antes por Aragonés.
Xavi já tinha 30 anos quando a Espanha venceu o mundo. Até então, ele não sofria com a idade porque seu futebol nunca precisou das características que se vão com o tempo. Xavi pensa, fala, cria. Características que ele desenvolveu e aprimorou intensamente enquanto via velocidade, agilidade, força e resistência decaírem lentamente – deu 563 passes naquela Copa, líder absoluto no quesito. E mais uma vez, em 2012, levou a Espanha à glória na Eurocopa. Isso sem falar no sucesso pelo Barcelona. Só não foi eleito o melhor jogador do mundo porque é filho da mesma época que os inatingíveis Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Mas passou perto. Messi sempre defendeu que “o difícil é fazer o que faz o Xavi”. Bem sabe a Espanha de 2014.
A decadência física começou a afetar o futebol de Xavi na temporada passada, 2012-2013. Fez 48 jogos pelo Barcelona. Foi substituído 11 vezes, e em outros sete jogos saiu do banco de reservas. Na última temporada, 2013-2014, o número de saídas aumentou na mesma proporção que o futebol do Barcelona desapareceu. Xavi jogou 47 jogos e só terminou 30 partidas. Pela primeira vez em anos, ele foi criticado, assim como o Barça. Onde estava o substituto de Xavi? As categorias de base do Barcelona, que trabalham pela autossuficiência e são reconhecidas como as melhores do mundo, não foram capazes de criar um jogador que pudesse ocupar o lugar de Xavi quando ele parasse de jogar? Claro que não. Assim como não houve substituto de Puskás ou de Cruyff. Apenas escudeiros, de mesmo nível e compreensão. Andrés Iniesta, para Xavi, e Johan Neeskens, para Cruyff.
Xavi e o tiki-taka duraram 90 minutos na Copa do Mundo de 2014. Foram destruídos pela Holanda de Louis Van Gaal na Arena Fonte Nova, em Salvador. Talvez lá fiquem sepultados. O meia, aos 34 anos, não conseguiu reproduzir seus melhores momentos, assim como não conseguiu durante os últimos 12 meses pelo Barcelona. Viu o jogo que criou ser massacrado em campo: 5 a 1, com requintes de crueldade, falhas individuais e a velha impotência da Espanha pré-2008. Na crítica, ainda pior. Após o vexame, Xabi Alonso e Cesc Fàbregas – outras importantíssimas referências da equipe – pediram publicamente o fim do tiki-taka. Lembram-se do que era Xavi antes do tiki-taka? O reserva de Deco e Van Bommel. Podem até nem ter percebido, mas pediram Xavi fora do time. Ele não é imortal: ficou óbvio que sua presença, anos depois de tanto sucesso, agora atrapalhava. O técnico Vicente Del Bosque retrucou, discordou da dupla e disse que não perderia a identidade, mas atendeu. Tirou Xavi. E tentou jogar o tiki-taka sem seu artista principal, sua maior referência.
A Hungria que se tem notícia é aquela de Puskás, e nada mais. A Holanda que ficou famosa é aquela de Cruyff. Só não houve outra porque Xavi fundou a versão moderna em 2010. E a Espanha que provavelmente se terá notícia pelos próximos anos é a de Xavi. Porque, como ele disse, foi em 2008 que a Fúria trocou a fúria pela bola. E agora, devolve à bola à fúria – Xabi Alonso justificou o fracasso: “respondemos com o coração, e não com a cabeça”. Porque a cabeça não está mais em campo.
Ídolo na Inglaterra e heróis do Uruguai, Suárez é abraçado pelos companheiros da Celeste (foto de Ben Stansall – AFP)
Quem julgava o fantasma de 1950 exorcizado nesta Copa do Mundo sediada no Brasil, 64 anos depois da primeira, terá que esperar pelo menos por mais um jogo. O nome daquele encerrado agora há pouco no Itaquerão, em São Paulo, foi um ídolo do futebol inglês. Mas não o incansável meia
Dúvida para a Copa após fazer uma artroscopia no joelho, o craque uruguaio comemorou seu primeiro gol com o fisioterapeuta Walter Ferreira (foto de Matt Dunham – AP Photo)
atacante do time da rainha, Wayne Rooney, que finalmente marcou seu primeiro gol em Copas. Quem roubou a tarde e início da noite brasileira foi o uruguaio Luisito Suárez, artilheiro e melhor jogador do campeonato inglês, que hoje marcou os dois gols na vitória da sua seleção sobre o English Team. O primeiro de cabeça, após cruzamento preciso do seu parceiro de ataque, EdinsonCavani. O segundo, num contra ataque pela direita, finalizado com um chute cruzado, como foi aquele desferido por outro uruguaio, que selou outra Copa no Brasil, 64 anos atrás.
Se é ainda muito cedo sequer para se falar em classificação do Uruguai às oitavas, projetá-lo nas finais com uma seleção tão pobre em criação no meio de campo, seria ilógico. Todavia, se pela razão o Holanda 5 x 1 Espanha, o Itália 2 x 1 Inglaterra e o Alemanha 4×0 Portugal foram jogos tecnicamente superiores, difícil pensar em outro mais épico nesta Copa, pelo menos até aqui, do que esse Uruguai 2×1 Inglaterra. Quem hoje ouviu os gritos em castelhano ecoados pela torcida Celeste incendiada por Suárez, nas mesmas arquibancadas que xingaram em português uma presidente, não pôde deixar de ouvir em sussurro a advertência de Miguel de Cervantes: “No creo en brujas, pero que las hay, las hay”.
O ministro Gilberto Carvalho, porta-voz das desculpas oficiais, deixou ontem com cara de tacho os bajuladores, que atribuíram as vaias no Itaquerão à “elite branca”. Ele disse que estava lá e a vaia foi geral.
O professor de dança Tibúrcio entre os craques alemães Neuer e Schweinsteiger, ontem, nas areias da Bahia (foto de Victor Canedo)
Não só pelo melhor futebol apresentado até aqui nesta Copa do Mundo, mas também pela simpatia junto ao povo brasileiro, os alemães vem fazendo fãs. Tidos entre os melhores do mundo em suas posições e titulares inquestionáveis da sua seleção, o goleiro Neuer e o volante Schweinsteiger já tinham feito sucesso com nas redes sociais, e com apaixonada torcida do Bahia, num vídeo em que vestiram as camisas e cantaram versos do hino do clube, acompanhado de populares (relembre aqui), mesmo antes de golearem a seleção portuguesa de Cristiano Ronaldo por 4 a 0.
Enquanto se preparam no paradisíaco litoral sul da Bahia, que escolheram para sua sede nessa primeira fase da Copa, para enfrentar a seleção de Gana no próximo sábado, em Fortaleza, ontem Neuer e Schweinsteiger acharam tempo para inovar nos treinamentos. Orientados cerca de uma hora pelo brasileiro Tibúrcio, animador de plateia do programa Domingão do Faustão, os dois ensaiaram coreografias de samba e pagode, incluindo a coqueluche “Lepo, lepo”, por cerca de uma hora, à beira mar.
O professor de dança já conhecia o goleiro e o volante desde a Alemanha, quando visitou o país a convite do lateral-direito brasileiro Rafinha, companheiro de clube dos dois no Bayer de Munique. E desde então, mesmo sem falar nada de alemão ou inglês, ele já tinha ensinado alguns passos tipicamente brasileiros aos craques. Após as novas aulas de ontem, Tibúrcio disse que os alemães pediram para ele ensinar algumas coreografias brasileiras para usar numa possível comemoração de gol. Como Neuer é goleiro, ficará mais difícil. Mas para um volante que, além de armar jogadas, costuma chegar como elemento surpresa na área adversária, como é o caso de Schweinsteiger, quem sabe ainda não teremos nesta Copa um gol alemão ao ritmo do “Lepo, lepo”?
Abaixo, as aulas de dança brasileira, aos craques alemães nas belas praias da Bahia:
Maracanã, enfeita de bandeiras tuas arquibancadas que hoje é dia de festa no futebol. Encomenda um céu repleto de estrelas. Convida a lua (de preferência, a lua cheia). Veste roupa de domingo nos teus gandulas. Põe pilha nova no radinho do geraldino. E, por favor, não esquece de regar a grama (de preferência, com água-de-cheiro).
Avisa à multidão que ninguém pode faltar. É despedida do Zico e estou sabendo, de fonte limpa, que, hoje à noite, ele vai repartir conosco a bela coleção de gols que fez nos seus vinte anos de Maracanã. Eu até já escolhi o meu: quero aquela obra-prima, o segundo gol do Brasil contra o Paraguai nas Eliminatórias do Mundial de 1986. Lembro-me como se fosse hoje. Zico recebe de Leandro um passe de meia distância já na linha média dos paraguaios. Um efeito imprevisto retarda a bola uma fração de segundo. Zico vai passar batido — pensei. Pois sim. Sem a mais leve hesitação, sem sequer baixar os olhos, ele cata a bola lá atrás com o peito do pé, dá dois passos e, na mesma cadência, acerta o canto esquerdo do goleiro paraguaio.
Passei uma semana vendo e revendo no teipe aquele instante mágico de um corpo em harmonioso movimento com o tempo e com o espaço. E a bola, coladinha no pé, parecia amarrada no cadarço da chuteira. Um gol de enciclopédia. Se o amável leitor aceita uma sugestão, dou-lhe esta: escolha um dos gols que Zico fez graças à sua arte singular de chutar bola parada.
Chutar a bola de falta à entrada da área é um talento que Deus lhe deu mas não de mão beijada, como imaginam os desavisados. Zico trabalhou seriamente, anos e anos, para alcançar a perfeição dos efeitos sublimes. À tardinha, quando terminava o treino, ele costumava ficar sozinho no campo do Flamengo — ele, uma barreira artificial, uma bola e uma camisa caprichosamente pendurada no canto superior das traves. A camisa era o alvo.
Zico passava horas sem fim, chutando rente à barreira e derrubando a camisa lá de cima das traves. Chegava o domingo, na cobrança da falta, a bola já estava cansada de saber onde ela tinha que entrar. Não tenho dúvida em dizer que tardará muito até que apareça alguém que domine como Zico o dom de cobrar falta ali da meia-lua.
Celebremos, querido torcedor, a última noite do maior artilheiro da história do Maracanã. Será uma despedida de apertar o coração. Se te der vontade de chorar, chora. Chora sem procurar esconder a pureza da tua emoção. Basta uma lágrima de amor para imortalizar o futebol de um supercraque.
Cantemos, Maracanã, teu filho ilustre, relembrando em comunhão os dribles mais vistosos, os passes mais ditosos, os gols mais luminosos desse fidalgo dos estádios que tem uma vida cheia de multidões.
Louvemos o poeta Zico que jogava futebol como se a bola fosse uma rosa entreaberta a seus pés.