Carla não fecha porta com Neco em 2014, mas abre janela para voltar em 2016
Embora admita existir perseguição entre os servidores contratados de São João da Barra, na qual enxerga uma “ditadura” a impor pena de exoneração a qualquer um ligado a ela, a ex-prefeita Carla Machado (PT) não acha impossível a reconciliação política com o atual prefeito Neco (PMDB), de quem foi a principal cabo eleitoral nas eleições municipais de 2012. Também pré-candidata a deputada estadual, ela garante não temer retaliações do PMDB fluminense que abandonou, enquanto do ex-aliado Anthony Garotinho (PR), disse só lembrar quando este “enche o saco”. Apesar de centrar foco no pleito de outubro próximo, ela admitiu pela primeira vez que pode voltar a tentar a ser prefeita em 2016.
Folha da Manhã – Você e o prefeito Neco estão rompidos ou não?
Carla Machado – Acredito que o termo “rompimento” não é o mais apropriado. Poucas foram as vezes que estive com o prefeito Neco após a vitória do nosso grupo na eleição de 2012. Após oito anos de trabalho sem férias tenho cuidado um pouco da minha vida, me mantendo ocupada em outras atividades. É perceptível a todos que há algum tempo não mais faço parte do grupo de amigos seletos do atual prefeito e percebi que o mesmo dispensou qualquer tipo de contribuição da minha parte. Solicitei um encontro há nove meses e como ainda não houve a conversa, aguardarei um pouco mais para responder isso definitivamente.
Folha – Comenta-se abertamente em São João da Barra que todos os servidores contratados ligados a Carla estão sendo desligados da Prefeitura. Isso procede? Como você, essas pessoas e a população sanjoanense têm reagido?
Carla – Alguns, sim. Existe hoje uma pressão psicológica para que servidores não se aproximem de mim, sob pena de serem exonerados. O clima em São João da Barra realmente não é bom, parece que a ditadura se instalou aqui.
Folha – Em relação ao professor Antônio Neves, consta tanto que você o teria indicado como chefe de gabinete do prefeito, quanto que ele depois teria exercido papel preponderante no seu processo de desgaste com Neco. Qual a sua leitura?
Carla – O sr. Antônio Neves realmente é uma decepção para mim. Aconselhei o atual prefeito não deixá-lo na secretaria municipal de Educação, devido a eu ter percebido, no fim da minha gestão, a insatisfação da equipe com o mesmo. Como esse senhor tinha experiência, acreditei que poderia ajudar o prefeito em seu início de governo. Infelizmente, há pessoas que deixam de cumprir suas tarefas para perseguir outros e utilizam erradamente o seu tempo com fofocas e intrigas.
Folha – A reeleição de Aluizio Siqueira (PMDB) a presidente da Câmara, com a exclusão de Soninha Pereira (PT) da mesa diretora, foi considerada (aqui) o primeiro golpe aberto de Neco contra você. Publicamente, você disse (aqui) não encarar assim. Por quê?
Carla – Na primeira eleição da mesa diretora, eu tinha o compromisso em fazer com que o Aluizio fosse o presidente, e cumpri. Reuni todos os vereadores que havíamos elegido em nosso palanque e pedi o voto de presidente para ele. Compomos a mesa diretora para 2013/2014, em comum acordo com os demais vereadores, e demos a notícia ao prefeito do resultado. Naquela ocasião havia ficado acordado que os vereadores que hoje não participam da mesa diretora, participariam no segundo biênio. Esse acordo não foi cumprido e credito isso às mudanças que normalmente ocorrem por ocasião das eleições da Câmara. Ressalto que não fui convidada a participar desse processo, e mesmo se fosse, não aceitaria, por este não ser mais um problema meu.
Folha – Eleito presidente por você e reeleito por Neco, Aluizio disse (aqui) enxergar indícios da sua ruptura com Neco e que, caso esta se confirme, ficaria ao lado do prefeito. Como reagiu?
Carla – Ultimamente nada mais me surpreende, estou na plateia observando os acontecimentos. Quanto ao fato do Aluizio, no caso de “ruptura”, preferir ficar com o prefeito Neco, vivemos numa democracia e todos têm livre arbítrio.
Folha – Indagado sobre quais seriam os indícios da ruptura entre você e Neco, Aluizio se referiu (aqui) a “ataques a membros do governo em redes sociais”, que teriam sido feitos por você. Que ataques foram esses? Ativa do facebook, no qual mantém dois perfis, é correto supor que você às vezes acaba desabafando lá o que realmente sente?
Carla – Acho que todos deveriam ser mais sinceros e falar a verdade. Gosto e uso o facebook para interagir com amigos, posto o que acho que devo. As únicas pessoas que critiquei foram o deputado federal Anthony Garotinho, respondendo a diversas calúnias feitas a mim, e ao ex-delegado chefe da Polícia Federal em Campos, dr. Paulo Cassiano, por ter me detido arbitrariamente na semana da eleição, o que posteriormente foi comprovado através da minha absolvição por unanimidade no Tribunal. A única crítica a membro do governo feita por mim foi direcionada ao sr. Antônio Neves, atual chefe de gabinete, por estar usando do seu “cargo” para intimidar servidores, tentando tirar a liberdade deles. Se foi este o motivo alegado pelo vereador para qualquer “ruptura”, vejo como inócuo. Mesmo sendo meu, utilizo as redes sociais de forma responsável.
Folha – Em entrevista à Folha com 14 perguntas, na qual você apareceu como personagem algumas vezes, Aluizio pareceu ter o cuidado de não citar o seu nome nenhuma vez. Acha que foi por acaso ou isso significou algo?
Carla – Prefiro não fazer pré-julgamento.
Folha – Na declaração mais forte na entrevista, sobre a ruptura dele e de Neco com você, Aluizio respondeu: “Se há Judas nessa história, não somos nós”. Há Judas nessa história? Na sua visão, quem seria? E por quê?
Carla – Acho que o único que poderia responder a pergunta seria o próprio Vereador. Judas é chamado quem trai e isso não se aplica a mim. Sempre cumpri meus compromissos. Certa ocasião afirmei que seria eleita, reeleita e que faria sucessor. E fiz! Saí com 88,7% de aprovação de governo após oito anos de mandato e cumpri minhas promessas com o povo de São João da Barra.
Folha – Não acha que sua saída do PMDB para o PT, desde setembro no ano passado, foi precipitada? Por que não esperar mais pela definição do quadro estadual e dar a Neco uma justificativa política para romper com você?
Carla – Não. Deixei a tempo de ser precipitada, penso antes de tomar uma decisão. Quando não nos sentimos satisfeitos numa casa, ou até mesmo agremiação política, o que nos resta é buscar outro espaço. Foi o que fiz. Quanto a esperar para dar justificativa ao prefeito para um rompimento, não vejo dessa forma. Quando se quer arrumar “porquês”, se arruma.
Folha – Consta que o governador Sérgio Cabral (PMDB), assim como seu vice e pré-candidato a sucedê-lo, Luiz Fernando Pezão (PMDB), teriam ficado ressentidos com sua saída para o PT. Como alguém que já esteve à frente da máquina pública, não teme agora ter que enfrentá-la, com força estadual, numa eleição?
Carla – Não existe a palavra medo no meu dicionário. Venho da luta e já passei por muitas coisas… Temor só a Deus!
Folha – Além do desgaste antigo com Jorge Picciani, que bancou o ex-vereador Gersinho no PMDB, mesmo quando ele liderava da presidência da Câmara a oposição ao seu governo, o que mais a levou a trocar de partido?
Carla – Todos estavam cientes, desde o período eleitoral em 2012, que não mais permaneceria no PMDB, porque a nossa executiva municipal não teve o devido respeito da estadual, na questão da liberação do vereador do partido para disputar a vice no PR. Outro motivo foi por achar que no segundo mandato, Sérgio deixou nossa região abandonada e todos nós no fogo cruzado com o ex-governador Garotinho sem o apoio político necessário.
Folha – Você tem muitos eleitores também em Campos (aqui), suficientes, por exemplo, para eleger seu irmão Fred Machado (SDD) a vereador. No PT de Campos, há três nomes que lançaram pré-candidaturas à Alerj: o vereador Marcão, a ex-vereadora Odisséia Carvalho e o professor Alexandre Lourenço. Não é gente demais?
Carla – Por mais que eu pareça e me sinta uma sanjoanense, sou nascida em Campos e morei metade da minha vida lá. No ano passado, por causa da escola do meu filho me dividi entre Campos e São João da Barra, além de ter meu pai, irmãos e outros familiares residindo aí. Minha mãe era sanjoanense. Quando viva morava comigo em São João da Barra. Quanto ao grande número de pré-candidatos do partido, isso é uma verdade. Creio que para o PT da região fazer representantes, seria melhor termos menos candidatos. Porém, todos têm direito à disputa.
Folha – Quando assinou sua filiação ao PT, o senador e pré-candidato a governador Lindbergh Farias disse (aqui) que você seria “tratada como uma princesa” no partido. Tem recebido esse tratamento?
Carla – (Risos) Já passei dessa fase. Tenho tido muito boa relação com o senador Lindbergh e nos falamos bastante o ano passado. Este ano, menos, em virtude de eu estar envolvida com o restaurante Cais do Porto e com outras coisas pessoais. Mas estarei com ele na próxima semana, para conversarmos, e muito breve começaremos a trabalhar com força e determinação.
Folha – Recentemente, você se negou (aqui) a se retratar numa audiência de conciliação, num processo movido pelo deputado federal e pré-candidato do PR a governador, Anthony Garotinho, desabafando depois sobre isso no facebook. A coisa entre vocês dois virou pessoal? Enfrentar ele, Neco, Cabral e Pezão, ao mesmo tempo, não é muita coisa?
Carla – Verdade. Eu já pedi desculpa a algumas pessoas e todos nós somos passíveis de erros. Me neguei a me retratar com o deputado Garotinho, por entender que quem deve se retratar com muita gente é ele. Infelizmente a legislação protege alguns políticos que se utilizam da imunidade parlamentar para caluniar pessoas de bem. Na verdade, não me lembro da existência do nobre Deputado até ele me “encher o saco”. Mas acho que vocês estão me superestimando. Apesar de eu incomodar alguns, graças a Deus, tenho a confiança e apoio do meu povo. Além de ter bons amigos, peço ao Pai para me dar sabedoria para conduzir minha vida e me livrar das maldades. Temos que acreditar no sonho, correr atrás e… vamos que vamos!
Folha – A pré-candidatura à Alerj de Bruno Dauaire pelo PR (aqui) pode ser uma das armas de Garotinho para tentar neutralizá-la. Como está preparada para enfrentá-la? E a pré-candidatura do vereador Kaká (PT do B), pode também incomodar?
Carla – Não acredito. E me preocupo com minha candidatura e não com outras. Tenho serviço prestado e é só comparar currículos e avaliar o comprometimento de cada um com a população. Tenho certeza que tudo dando certo, que saberei representar o povo de São João da Barra, Campos, São Francisco e demais municípios da toda região Norte e Noroeste na Alerj.
Folha – Na quase certeza de que Neco não vai apoiá-la em outubro, cogita-se que ele possa apoiar a tentativa de reeleição do presidente da Alerj, Paulo Mello (PMDB), ou até o próprio Bruno, num movimento mais ousado contra você. Qual movimento causaria mais danos em sua pré-candidatura?
Carla – Não sei. O que sei é que estarei lutando para alcançar os nossos objetivos. Após oito anos como prefeita, saí com 88,7% de aprovação de governo, sendo que 73% da população considerou nosso governo bom e ótimo. Tenho o carinho do povo amigo de São João da Barra, o que me orgulha muito.
Folha – Em sua entrevista, Aluizio também disse que “com o rompimento todos perdem”. Há maneira de você e Neco voltarem a caminhar juntos? Consumada a separação, não ficaria aberto um espaço desnecessário para uma via alternativa, sobretudo em 2016, como Bruno?
Carla – Com certeza. Política é dinâmica e não se diz “nunca”. O povo de São João da Barra me conhece bem. Tenho trabalho realizado, não tenho apenas discurso bonito e vazio.
Folha – Sobre 2016, você já chegou a ser cogitada, em 2012, como candidata a prefeita em Campos, e se considera quase certa sua candidatura, sobretudo se conseguir se eleger deputada estadual, na próxima eleição a prefeito de São João da Barra. Sem esquecer outubro próximo, o que projeta hoje para daqui a dois anos?
Carla – Fico feliz quando os campistas falam que eu deveria me candidatar a prefeita de lá. Ano passado eu não tinha a menor pretensão em voltar a ser prefeita, mas hoje estou repensando. Sei que o que quero no momento é representar nossa região na Assembleia Legislativa, para trazer mais oportunidades e qualidade de vida para a população das regiões Norte e Noroeste fluminense. Depois pensaremos juntos outras metas.
Folha – Pelo temperamento assertivo, pela agressividade com os adversários, mas também pela entrega e capacidade de trabalho, mais de uma pessoa já disse que você é um “Garotinho de saias”. O que a difere e a aproxima do deputado?
Carla – Cruz credo!!!… Sou Carla de saia, de calça ou de vestido. Trabalho muito e sou determinada no que me proponho a fazer. A política que pratico é progressista e não perseguidora. Só não fujo a um bom combate.
Folha – Também mais de uma pessoa já disse que você, por enquanto, está muito quieta. Quando a Carla Machado aguerrida, sem medo do combate, começará a aparecer de vez nessa eleição e na vida política de São João da Barra?
Carla – Agora entendi (risos). O meu silêncio é que tem preocupado mais… Aprendi que tudo tem o tempo certo. Há tempo de falar e há tempo de calar. Mesmo quieta, nunca fiquei ausente da vida política de São João da Barra pois “aqui é o meu lugar”!
Publicado hoje na edição impressa da Folha.


















