Anderson e Ali — De canhota, do pedestal dos deuses à lona dos mortais

Desde a madrugada de sábado para domingo, muita coisa já foi dita e escrita sobre a derrota do brasileiro Anderson “Spider” Silva, por conta do nocaute imposto pelo jovem estadunidense Chris Weidman, que lhe roubou o cinturão de campeão dos pesos-médios do Ultimate Fighting Championship (UFC), em Las Vegas, no segundo assalto de uma luta programada para cinco. Para variar, os idiotas sempre em numeroso plantão no Brasil, já lançaram levianamente seus boatos de que Anderson teria entregado a luta. São os mesmos imbecis para quem a Seleção Brasileira entregou a Copa de 1998 para a França de Zidane, o brasileiro Júnior Cigano entregou o cinturão dos pesados do UFC para o estadunidense Cain Velasquez, a presidente Dilma comprou a Espanha de Iniesta para entregar ao Brasil de Neymar a Copa das Confederações, a imprensa que ousa criticar a corrupção e a incompetência do PT é golpista, e os opinadores da mídia que seguem pela mesma linha, enxergando e apontando o óbvio ululante da preocupante realidade nacional, o fazem por terem sido comprados pela Central de Inteligência Americana (CIA).

É correto, no entanto afirmar que, após sete anos e 16 lutas invicto no UFC, recorde insuperável na divisão mais importante das Artes-Marciais Mistas (MMA), Anderson perdeu a luta do último sábado, mais do que o promissor lutador Weidman a ganhou, mesmo que este também esteja invicto no UFC e talvez seja o único na categoria dos médios, além do brasileiro Vitor Belfort, com capacidade física e técnica para endurecer uma luta contra o nosso Spider. A bem da verdade, desde a vitória deste contra o ex-campeão dos meio-pesados Forrest Griffin, em 2009, numa das suas mais brilhantes apresentações; passando depois, em 2010, pelo brasileiro Damien Maia, sua luta mais criticada, e pelo estadunidense Chael Sonnen, num combate em que perdia todos os cinco assaltos, até encaixar um triângulo (golpe de jiu-jítsu) salvador nos momentos finais; pelo japonês Yushin Okami, numa revanche em 2011; e novamente por Sonnen e pelo também estadunidense Stephan Bonnar, outro meio-pesado, nas suas duas boas lutas de 2012; Anderson já vinha demonstrando a mesma arrogância dentro do octógono, baixando a guarda completamente em vários momentos do combate, que o conduziria à sua primeira derrota no UFC, frente a Weidman.

Daquela peleja memorável contra Griffin, em 9 de agosto de 2009, até o nocaute igualmente memorável sofrido em 6 de julho último, quase quatro anos depois, a única luta em que o agora ex-campeão atuou com sobriedade, respeitando o adversário, sem dar sopa ao azar, foi justamente contra Belfort, em 2011, a quem nocauteou com um chute no queixo, ao melhor estilo “Karatê Kid”, num daqueles golpes que se tenta talvez 10 vezes numa carreira de lutador profissional, para se encaixar apenas um, durante toda a vida. Mas ele manteve sua guarda o tempo inteira atenta, por respeitar, com boas razões, a velocidade e a força dos punhos do ex-campeão Belfort. Contra Weidman, que tem uma envergadura (leia-se alcance de golpe com as mãos) tão boa quanto à sua própria, Anderson achou que poderia brincar. Deu no que deu!

Para quem é capaz de enxergar o mundo das lutas, como tudo mais na vida, além daquilo chapado no presente ou no umbigo passado do seu próprio tempo de existência, inegável também que a guarda baixa, quando os golpes do adversário são fintados unicamente com base na superioridade da técnica, dos reflexos e da resposta motora, é uma característica que Anderson herdou de outro fora de série, talvez o maior lutador da história do boxe (uma das principais “pernas” do MMA, ao lado do muay thay, do wrestling e do jiu-jítsu): Muhammad Ali, pugilista campeão de todos os pesos nada menos que três vezes, entre as décadas de 60 e 70 do século passado. E, como Ali, a guarda baixa junto com as provocações verbais durante a luta, faziam parte de uma estratégia pensada, para colocar o adversário num combate psicológico, tirando-o, portanto, do combate real do ringue.

Como homem, não há como se comparar Anderson com Ali — este, um herói na acepção mais plena da palavra, na luta pelos direitos civis que incendiou os EUA no pós-II Guerra Mundial (1939/45), mas desembocaria pacificamente, algumas décadas depois, na eleição de um tal Barack Obama à Casa Branca. Já como lutador, uma distinção pode ser feita no fato de que o combate psicológico sempre proposto pelo legendário campeão de boxe, visava capturar o adversário, não a si, como parece ter acontecido no sábado com o brasileiro considerado o maior lutador de MMA de todos os tempos.

Em relação a Ali, numa analogia pertinente ao momento presente de Anderson, o mesmo pecado do primeiro foi cometido sequer antes do segundo ter nascido, numa noite fria de 8 de março de 1971, no Madison Square Garden, em Nova York. Voltando de um período de três anos de inatividade, no qual lutou contra o Exército e o Poder Executivo dos EUA, que queriam impor-lhe uma convocação militar para servir na impopular Guerra do Vietnã (1959/75), mas na qual derrotaria seus mais poderosos adversários, no ringue da Suprema Corte do seu país, Ali voltou nos braços do povo para enfrentar quem, com a mesma justiça, se fizera campeão mundial peso-pesado de boxe em sua ausência forçada: Joe Frazier (1944/2011), então jovem, promissor e invicto como Weidman.

Também invicto, inebriado pela vitória moral da sua causa e pela popularidade mundial através dela alcançada, além de fiel fervoroso do islamismo, crença pela qual mudou seu nome cristão de Cassius Marcellus Clay para Muhammad Ali, ele passou os 15 rounds com sua direita sempre baixa, soltando seus golpes retos, de alcance mais longo, enquanto repetia incessantemente para Frazier: “Caia, idiota! Caia! Não sabe que Deus quer que eu seja o campeão? Deus quer que você caia!” Ao que Frazier respondeu, no último assalto de um combate equilibrado, com um cruzado de esquerda, seu golpe mais letal, muito parecido com aquele que Weidman desferiu para nocautear Anderson. Como no boxe, diferente do MMA, as regras não permitem se bater no adversário caído, Frazier aproveitou a chance, no entanto, para complementar com o verbo a contundência da sua canhota: “Pois Deus hoje caiu de bunda!”

Embora também como homem, além do lutador, Ali estivesse muito próximo ao Divino, ele não era Deus. Ainda assim, derrotaria Frazier nas duas lutas que ambos fariam depois, a última delas em Manila, capital das Filipinas, naquela que é considerada uma das mais violentas da história do boxe. Além disso, reconquistaria o cinturão de campeão duas vezes, contra George Foreman, em Kinshasa, capital do Zaire, em 1974, na luta que marcou seu auge, e diante de Leon Spinks, mesmo já em decadência, na Nova Orleans de 1978.

A lenda Anderson Silva pode ter sofrido uma queda, pode até tê-la buscado inconscientemente como homem, mas mesmo aos 38 anos o lutador ainda possui as ferramentas para derrotar Weidman, desde que resolva lutar sério, na revanche já anunciada por Dana White, big boss do UFC, reconquistar o cinturão dos médios, e depois fazer as tão desejadas super-lutas, tanto com o campeão da categoria abaixo, nos meio-médios, o cerebral canadense George Saint-Pierre, ou o detentor do título da categoria acima, nos meio-pesados, o temível estadunidense Jon Jones. Ganhando ou perdendo esses combates ainda supostos, nada impede que faça outra super-luta, aquela que confessa pessoalmente mais desejar, com regras ainda a serem definidas, contra seu ídolo pessoal no boxe, o estadunidense Roy Jones Junior, outro herdeiro legítimo da técnica refinada de Ali e único na história a conquistar o cinturão dos médios e dos pesados entre os profissionais da nobre arte.

Até lá, como um cruzado de esquerda de Frazier ensinou ao maior pugilista de todos os tempos, que a canhota do agora campeão Weidman faça o maior na história do MMA descer do salto, por meio do dolorido aprendizado de uma velha, batida, mas preciosa lição: cautela, canja de galinha (e guarda alta) nunca fizeram mal a ninguém.

Abaixo, os vídeos das quedas, do pedestal dos deuses à lona dos mortais, sofridos por Ali e por Anderson…

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Noves fora o peleguismo, a voz das ruas do PT de hoje é só uma fotografia na parede

PT — Um retrato na parede

Se você imaginava que o PT se resignaria em ser expulso das ruas pelos manifestantes que convulsionam pedaços das maiores cidades do país, sinto muito, enganou-se. Avalizada por Dilma, a ordem foi emitida pela direção do partido: lustrem as estrelas guardadas junto com antigas lembranças. Espanem a poeira das bandeiras rotas. Dispam-se dos trajes de burocratas. Todos às ruas na próxima quinta-feira.

Pouco importa que o “Dia Nacional de Luta”, que prevê passeatas e greves, tenha sido convocado pelas centrais sindicais e movimentos afins. O PT não amanhecerá menor no dia seguinte só porque pegou carona em ato alheio. De resto, é o governo que tudo financia. Até mesmo o que poderá machucá-lo um pouquinho. O peleguismo renovou-se. Mas não deixou de ser peleguismo.

Que palavras de ordem gritará o PT? O que cobrará por meio de faixas e cartazes? O governo encomendou o apoio à reforma política elaborada por uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva e submetida a um plebiscito. O PT entregará a encomenda. Por absurda, a ideia da Constituinte foi sepultada em menos de 24 horas. O plebiscito naufragou por falta de tempo para que seus efeitos incidissem sobre as eleições do próximo ano.

Dilma esperava lucrar com uma reforma que lhe garantisse melhores condições de concorrer ao segundo mandato. E que levasse o PT a emergir da eleição ainda mais forte. Casuísmo descarado, pois — não a reforma, necessária. Mas a pressa com que seria feita e a tentativa de empurrar goela abaixo do Congresso pontos da reforma destinados a agradar Dilma e o PT.

A insistência com a Constituinte e o plebiscito trai o desejo de Dilma em responsabilizar o Congresso pela reforma que ele não quer fazer. E denuncia o momento confuso e delicado que o governo atravessa. Uma pena o PT não poder dizer aqui fora o que diz quando se reúne no escurinho do cinema. Ou mesmo o que começou a dizer recentemente a Dilma. A coragem muitas vezes é movida pelo medo. E o PT receia perder o poder.

A política econômica está uma droga. A culpa não cabe apenas a Guido Mantega — aquele que Fernando Henrique chamou de “bem fraquinho” quando virou ministro da Fazenda do governo Lula. Cabe também a Dilma — aquela que Lula apresentou como melhor gestora do que ele. Maluf elegeu Celso Pitta prefeito de São Paulo pedindo para não votarem mais nele, Maluf, caso Pitta fracassasse. Pitta fracassou. Lula não foi tão longe em relação a Dilma.

Aumenta a inflação. Diminuem os investimentos. Desequilibram-se as contas públicas. Revisa-se para baixo o Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todas as riquezas do país. O governo carece de uma estratégia compartilhada por seus 39 ministros. Há ministros demais e competência de menos. Em larga medida, o voluntarismo de Dilma é responsável pelo mau desempenho da economia. Seu desprezo pelos políticos só lhe cria problemas.

Lula montou uma gigantesca coligação de partidos para eleger Dilma e ajudá-la a governar. Esqueceu de escalar ministros aptos a cuidarem da articulação política. Apostou suas fichas em Palocci, posto na Casa Civil para escorar Dilma. Descobriu-se que ele se tornara milionário enquanto fazia política. Acabou demitido. A coligação ameaça se esfarelar. A persistir a queda de Dilma nas pesquisas, ela será abandonada.

O PT do passado teria material de sobra para na quinta-feira ecoar a voz das ruas. O de hoje, não. É apenas uma fotografia na parede.

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“Padrão Fifa” para alguns e padrão burocrático-governamental à maioria

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, escritor e ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, escritor e ex-presidente

Tempos difíceis

Por Fernando Henrique Cardoso

Já se disse tudo, ou quase tudo, sobre os atos públicos em curso. Para quem acompanha as transformações das sociedades contemporâneas não surpreende a forma repentina e espontânea das manifestações.

Em artigo publicado nesta coluna, há dois meses, resumi estudos de Manuel Castells e de Moisés Naím sobre as demonstrações na Islândia, na Tunísia, no Egito, na Espanha, na Itália e nos Estados Unidos. As causas e os estopins que provocaram os protestos variaram: em uns, a crise econômico-social deu ânimo à reação das massas; em outros, o desemprego elevado e a opressão política foram os motivos subjacentes aos protestos.

Tampouco as consequências foram idênticas. Em algumas sociedades onde havia o propósito específico de derrubar governos autoritários, o movimento conseguiu contagiar a sociedade inteira, obtendo sucesso. Resolver uma crise econômico-social profunda, como nos países europeus, torna-se mais difícil. Em certas circunstâncias, consegue-se até mesmo alterar instituições políticas, como na Islândia. Em todos os casos mencionados, os protestos afetaram a conjuntura política e, quando não vitoriosos em seus propósitos imediatos, acentuaram a falta de legitimidade do sistema de poder.

Os fatos que desencadeiam esses protestos são variáveis e não necessariamente se prendem à tradicional motivação da luta de classes. Mesmo em movimentos anteriores, como a “revolução de maio” em Paris (1968), que se originou do protesto estudantil “por um mundo melhor”, tratava-se mais de uma reação de jovens que alcançou setores médios da sociedade, sobretudo os ligados às áreas da cultura, do entretenimento, da comunicação social e do ensino, embora tivesse apoiado depois as reivindicações sindicais. Algo do mesmo tipo se deu na luta pelas Diretas-Já. Embora antecedida pelas greves operárias, ela também se desenvolveu a partir de setores médios e mesmo altos da sociedade, aparecendo como um movimento “de todos”. Não há, portanto, por que estranhar ou desqualificar as mobilizações atuais por serem movidas por jovens, sobretudo das classes médias e médias altas, nem, muito menos, de só por isso considerá-las como vindas “da direita”.

O mais plausível é que haja uma mistura de motivos, desde os ligados à má qualidade de vida nas cidades (transportes deficientes, insegurança, criminalidade), que afetam a maioria, até os processos que atingem especialmente os mais pobres, como dificuldade de acesso à educação e à saúde e, sobretudo, baixa qualidade de serviços públicos nos bairros onde moram e dos transportes urbanos. Na linguagem atual das ruas, é “padrão Fifa” para uns e padrão burocrático-governamental para a maioria. Portanto, desigualdade social. E, no contexto, um grito parado no ar contra a corrupção – as preferências dos manifestantes por Joaquim Barbosa (ministro presidente do Supremo Tribunal Federal) não significam outra coisa. O estopim foi o custo e a deficiência dos transportes públicos, com o complemento sempre presente da reação policial acima do razoável. Mas se a fagulha provocou fogo foi porque havia muita palha no paiol.

A novidade, em comparação com o que ocorreu no passado brasileiro (nisso nosso movimento se assemelha aos europeus e norte-africanos), é que a mobilização se deu pela internet, pelos twitters e pelos celulares, sem intermediação de partidos ou organizações e, consequentemente, sem líderes ostensivos, sem manifestos, panfletos, tribunas ou tribunos. Correlatamente, os alvos dos protestos são difusos e não põem em causa de imediato o poder constituído nem visam questões macroeconômicas, o que não quer dizer que esses aspectos não permeiem a irritação popular.

Complicador de natureza imediatamente política foi o modo como as autoridades federais reagiram. Um movimento que era “local” — mexendo mais com os prefeitos e governadores — se tornou nacional a partir do momento em que a presidenta chamou a si a questão e a qualificou primordialmente, no dizer de Joaquim Barbosa, como uma questão de falta de legitimidade. A tal ponto que o Planalto pensou em convocar uma Constituinte e agora, diante da impossibilidade constitucional disso, pensa resolver o impasse por meio de plebiscito. Impasse, portanto, que não veio das ruas.

A partir daí o enredo virou outro: o da relação entre Congresso Nacional, Poder Executivo e Judiciário e a disputa para ver quem encaminha a solução do impasse institucional, ou seja, quem e como se faz uma “reforma eleitoral e partidária”. Assunto importante e complexo, que, se apenas desviasse a atenção das ruas para os palácios do Planalto Central e não desnudasse a fragilidade destes, talvez fosse bom golpe de marketing. Mas, não. Os titubeios do Executivo e as manobras no Congresso não resolvem a carestia, a baixa qualidade dos empregos criados, o encolhimento das indústrias, os gargalos na infraestrutura, as barbeiragens na energia, e assim por diante.

O foco nos aspectos políticos da crise — sem que se negue a importância deles — antes agrava do que soluciona o “mal-estar”, criado pelos “malfeitos” na política econômica e na gestão do governo. O afunilamento de tudo numa crise institucional (que, embora em germe, não amadurecera na consciência das pessoas) pode aumentar a crise, em lugar de superá-la.

A ver. Tudo dependerá da condução política do processo em curso e da paciência das pessoas diante de suas carências práticas, às quais o governo federal preferiu não dirigir preferencialmente a atenção. E dependerá também da evolução da conjuntura econômica. Esta revela a cada passo as insuficiências advindas do mau manejo da gestão pública e da falta de uma estratégia econômica condizente com os desafios de um mundo globalizado.

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“Cabruncos” lutam não por si, mas por toda Campos

Do impresso ao blog: Uma só marcha

Por Gustavo Matheus, em 07-07-2013 – 16h18

Artigo publicado, hoje, na edição impressa da Folha.

Médicos, catadores e estudantes, unidos em uma só marcha. Se as diferenças são enormes, com quilômetros abismais entre as classes sociais que habitam, e ideologias bem distintas, os mesmos mostraram que, de fato, o povo é um só, assim como seu desejo; ter sua voz ouvida por quem a ignora.

A classe médica caminhou até a Praça São Salvador, onde se uniu ao grupo jovem “Cabruncos Livres”, assim como os catadores da Codin, para depois seguirem, como um só corpo, não por eles, mas pela própria população que vive nesta planície, até a Câmara de vereadores.

Os fanfarrões de plantão, do alto de seu comodismo financeiro, bem egocêntrico, daqueles que nunca se viram sem a mamadeira regada com leitinho do Executivo, seja rosa ou vermelho, não interessa a cor, tentam, novamente, diminuir o movimento. Obviamente, o número de manifestantes decresceu bastante. Mas por outro lado, o grupo ganhou em qualidade. O momento modinha dos protestos está acabando, aqueles que haviam despertado voltam a pregar os olhos, só quem nunca dormiu segue lutando. Os grandes ativistas de Facebook voltam aos tópicos mundanos, recheados em futilidade, ditados por quem, até pouco, criticavam e expulsavam dos manifestos.

Quem disse que o movimento perdeu força não soube avaliar bem os fatos. Um grupo, com cerca de 500 pessoas, não coagidas ou manipuladas, foi às ruas. Dentre os manifestantes estavam diversos estudantes de medicina, médicos renomados e recém-formados, os “Cabruncos Livres”, basicamente formado por estudantes da UFF (Universidade Federal Fluminense), além dos catadores e simpatizantes das causas em gerais. Uma mescla única! Pode-se dizer, até, inédita. E outra; o grupo conseguiu marcar uma reunião com o presidente do Legislativo campista, o vereador Edson Batista.

Apesar de todos estes méritos já citados, certos anciões, peritos no caminhar com a batuta, o poder, insistem com seus discursos grisalhos, na tentativa vil e baixa de desmoralizar um movimento de âmago nobre, que vem, dia após dia, conquistando seu espaço, além, é claro, dos corações que habitam nesta planície. Os “Cabruncos”, “Lamparões” e “Garrotilhos” devem seguir lutando, não por eles, mas por toda Campos.

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As lições do papa Francisco aos fariseus de Brasília e do Brasil

Jornalista e escritor Elio Gaspari
Jornalista e escritor Elio Gaspari

Francisco lavará a alma do Brasil

Por Elio Gaspari

Faltam duas semanas para a chegada do Papa Francisco ao Rio. Ele mostrará ao mundo um Brasil de fé, solidariedade, alegria e paz. Será a primeira viagem de um Pontífice que, em quatro meses de reinado, deu as seguintes lições:

1) Pagou a conta da casa de hóspedes que o abrigou em Roma durante o conclave. (Alô, doutores Henrique Alves, Garibaldi Alves e Renan Calheiros com seus jatinhos da Viúva.)

2) Dispensou o apartamento pontifício de dez aposentos e continuou na Casa Santa Marta, onde ficam os bispos que passam por Roma. (Alô, Eduardo Paes, que em 2010 queria comprar para a prefeitura o palacete dos Guinle na Rua São Clemente. Os donos pediam R$ 10 milhões.)

3) Livrou-se dos paramentos do regalismo medieval de Bento XVI e dos medonhos sapatos vermelhos de seus antecessores.

4) Nomeou uma comissão de cardeais para limpar a estrutura da Cúria e faxinou o Banco do Vaticano.

5) Confessou-se um pecador. (Alô, Lula.)

Homem de Cristo, Francisco beija os pés de um prisioneiro de Roma
Francisco beija os pés de um prisioneiro de Roma, com outro prisioneiro de Roma crucificado ao seu pescoço

O Papa Francisco chega ao Brasil com uma Igreja livre de grandes divisões. Não vem hostilizar prelados esquerdistas e, se há na hierarquia brasileira discretos muxoxos (sobretudo por causa da faxina no Banco do Vaticano), eles serão dissimulados.

Se governantes estão com medo do que significará sua visita, ainda têm tempo para ler a inutilidade do mal-estar dos comissários poloneses quando João Paulo II anunciou sua visita a Varsóvia.

Centenas de milhares de peregrinos hospedados em casas alheias celebrando a fé serão uma santa lição num país onde o andar de baixo sabe dividir o que tem, enquanto no de cima não querem nem pagar passagem de avião.

Durante alguns dias, acreditou-se que as multidões que foram às ruas nas últimas semanas prenunciavam apenas badernas. Viu-se, contudo, que o povo como perigo é apenas uma velha fantasia. Francisco mostrará o tamanho da fraternidade nacional, sem caviar no camarote das autoridades.

Nos últimos dias, autoridades federais, estaduais e municipais que torraram bilhões de reais na construção de estádios informaram que não têm dinheiro para cobrir um buraco de R$ 90 milhões para custear despesas da Jornada Mundial da Juventude. Gastaram R$ 1,2 bilhão no Coliseu do Rio.

A viagem da doutora Dilma a Roma para a coroação de Francisco custou perto de meio milhão. Pode-se estimar que o governo federal torre perto de R$ 1 milhão por mês só na JetFAB. De Brasília, saiu o temor de que Francisco seja hostilizado por manifestações de evangélicos. É difícil, pois não há entre os evangélicos o sectarismo dos comissários.

Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, é um homem de boa paz. Se tivesse na alma a lâmina sertaneja de D. Eugenio Salles, mandaria um recado a Brasília, ao governador Sérgio Cabral e ao prefeito Eduardo Paes: “Coletarei a ajuda do povo na esquina da Avenida Rio Branco com Rua do Ouvidor.”

(Bastou uma palavra de D. Eugenio a Fernando Henrique Cardoso para que fossem retirados soldados armados das calçadas por onde passava João Paulo II.)

Os dias do Papa no Brasil serão jornadas de distensão, beleza e fraternidade, sem comércio ou patrocínios. Acima de tudo, serão grátis. Cobrarão apenas fé para aqueles que a têm.

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Se Lula ainda é “o mais preparado”, o gigante Brasil não acordou, só falou dormindo

Jornalista e escritor Guilherme Fiúza
Jornalista e escritor Guilherme Fiúza

O gigante fala dormindo

Por Guilherme Fiúza

O Brasil deu para dizer a si mesmo que mudou. Que nada mais será como antes das manifestações de rua, que agora vai. Que se os governantes e os políticos em geral não entenderem o recado das ruas, estão fritos. É um fanfarrão, esse Brasil.

Qual é mesmo o recado das ruas? Vamos falar a verdade: ninguém sabe. Nem as ruas sabem. Ou melhor: não há recado. O gigante continua adormecido em berço esplêndido — o que se ouviu foi um ronco barulhento, misturado com palavras desconexas. Esse gigante fala dormindo.

Há alguns anos, a imprensa vem contando aos gritos o que está acontecendo com o gigante, sem que ele mova um músculo. E o que está acontecendo é devastadoramente simples: em uma década, o ciclo virtuoso do país foi jogado fora pela indústria do populismo.

A crise das tarifas de ônibus (estopim dos revoltosos) é só uma unha do monstro: o descontrole inflacionário causado pelo derrame de dinheiro público. País rico é país com 40 ministérios.

A economia estabilizada nos anos 90, e a posterior enxurrada de capital para os países emergentes, deram ao Brasil sua grande chance. E ela foi queimada por um governo que investiu tudo numa máquina eleitoral sem precedentes.

Planejamento zero. Investimento quase zero. Infraestrutura abandonada em terra, mar e ar, com trem-bala, Belo Monte e outras assombrações bilionárias encobrindo a realidade: o PAC entregue à pirataria da Delta e quadrilheiros associados. A CPI do Cachoeira chegou a levantar esse véu, mas o gigante não acordou e a CPI foi assassinada (pelo PT e seus sócios).

Os governos Dilma e Lula bateram todos os recordes de arrecadação, com impostos escorchantes (entre os maiores do mundo) que empobrecem os brasileiros e enriquecem o império do oprimido. Nem um gemido das ruas sobre isso.

Dilma anuncia um “pacto” sem nada dentro, e ainda diz que para bancar o recheio do pastel de vento terá que aumentar impostos. É o escárnio. E não aparece nenhum Robespierre da Candelária para mandar a presidente engolir o seu deboche.

Enquanto isso, a maquiagem das contas públicas vai bem, obrigado — com mais um truque contábil no incesto entre o BNDES e o Tesouro, para forjar superávit e legalizar a gastança. É pedra na vidraça do contribuinte, que nada ouve e nada vê. Deve estar na passeata, exigindo cidadania.

Pensando bem, foi o governo popular quem melhor entendeu o recado das ruas: os cães ladram e a caravana passa. Ou talvez: os revoltados passam e a quadrilha ladra.

Para checar se o gigante estava dormindo mesmo, o estado-maior petista chamou um dos seus para ir até o ouvido dele e chamá-lo de otário, bem alto. Assim foi feito.

Como primeira reação oficial às passeatas, Dilma escalou Aloizio Mercadante para dizer ao povo que ele ia ganhar um plebiscito. E que com esse plebiscito, ele, o povo, ia fazer a “reforma política” (o Santo Graal dos demagogos). Claro que o governo sabia que isso era uma troça, uma piada estilo “Porta dos fundos”. Tanto que caprichou nos ingredientes.

Para começar, a escolha criteriosa do porta-voz. No governo da “presidenta”, cercada de ministras mulheres por todos os lados, a aparição do ministro da Educação — cuja pasta não tinha nada a ver com nada (nem reforma política, nem plebiscito, nem transportes, nem orçamento, nada) — já seria impactante.

E não era qualquer ministro. Era o famoso Mercadante, figura tostada em casos como o dossiê dos aloprados e a “renúncia irrevogável” da liderança do PT no Senado, quando o partido decidiu acobertar o tráfico de influência de Sarney (Mercadante revogou sua própria renúncia em menos de 24 horas).

E o porta-voz foi logo anunciando um “plebiscito popular”, só faltando dizer que era uma decisão de “governo governamental”. Enfim, um quadro de “Zorra total”.

Com toda essa trágica palhaçada gritada em seu ouvido, o gigante permaneceu estático. Sono profundo. Nem um “basta”, nem um “#vem pra rua”, nem um “que m… é essa”. Depois daquele incrível ensaio de Primavera Árabe (ou seria Inverno Tropical?), com milhões nas ruas em todo o território nacional, o Brasil revolucionário mordeu a isca como um peixinho de aquário. E está até agora discutindo, compenetradamente, o plebiscito popular e irrevogável do Mercadante. Contando, ninguém acredita.

O país se zangou, foi para as ruas, tuitou, gritou, quebrou e voltou para casa sem nem arranhar quem lhe faz mal. O projeto de privatização política do Estado, que corrói a sociedade e seu poder de compra, está incólume. A prova disso? A popularidade de Dilma caiu, mas quem surgiu nas pesquisas para 2014 vencendo a eleição no primeiro turno, e escolhido “o mais preparado para cuidar da economia nacional”? Ele mesmo: Luiz Inácio, a nova esperança brasileira.

Ora, senhor gigante: durma bem! Mas, por favor, ronque baixo. E pare de bloquear as ruas com seus espasmos inconscientes.

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Dilma mira nos médicos brasileiros, mas cospe contra o vento

Em sua coluna no último domingo (30/06), após ressalvar que aqueles, como a presidente Dilma Rousseff (PT), hoje se maquiam de “ex-combatentes da causa democrática”, na verdade “lutavam contra uma ditadura, em busca de outra”, nas décadas de 60 e 70 do século passado, o jornalista Elio Gaspari concluiu que tudo que fora publicado em seu espaço semanal de meia página, seria “de pouco valia se fosse comparado com o texto ‘O dia em que a presidente Dilma em dez minutos cuspiu no rosto de 370.000 médicos brasileiros’”. Publicado originalmente aqui, em 21 de junho, pela cirurgiã carioca Juliana Mynssen, na democracia irrefreável das redes sociais, seu testemunho já foi endossado por 63 mil pessoas, com direito a mais de mil comentários, antes de ser transcrito abaixo…

O dia em que a Presidenta Dilma em 10 minutos cuspiu no rosto de 370.000 médicos brasileiros
Há alguns meses eu fiz um plantão que chorei. Não contei à ninguém (é nada fácil compartilhar isso numa mídia social). Eu, cirurgiã-geral, “do trauma”, médica “chatinha”, preceptora “bruxa”, que carrego no carro o manual da equipe militar cirúrgica americana que atendia no Afeganistão, chorei.

Na frente da sala da sutura tinha um paciente idoso internado. Numa cadeira. Com o soro pendurado na parede num prego similir aos que prendemos plantas (diga-se: samambaias). Ao seu lado, seu filho. Bem vestido. Com fala pausada, calmo e educado. Como eu. Como você. Como nós. Perguntava pela possibilidade de internação do seu pai numa maca, que estava há mais de um dia na cadeira. Ia desmaiar. Esperou, esperou, e toda vez que abria a portinha da sutura ele estava lá. Esperando. Como eu. Como você. Como nós. Teve um momento que ele desmoronou. Se ajoelhou no chão, começou a chorar, olhou para mim e disse “não é para mim, é para o meu pai, uma maca”. Como eu faria. Como você. Como nós.

Pensei “meudeusdocéu, com todos que passam aqui, justo eu… Nãoooo….. Porque se chorar eu choro, se falar do seu pai eu choro, se me der um desafio vou brigar com 5 até tirá-lo daqui”.

E saí, chorei, voltei, briguei e o coloquei numa maca retirada da ala feminina.

Já levei meu pai para fazer exame no meu HU. O endoscopista quando soube que era meu pai, disse “por que não me falou, levava no privado, Juliana!”

Não precisamos, acredito nas pessoas que trabalham comigo. Que me ensinaram e ainda ensinam. Confio. Meu irmão precisou e o levei lá. Todos os nossos médicos são de hospitais públicos que conhecemos, e, se não os usamos mais, é porque as instituições públicas carecem. Carecem e padecem de leitos, aparelhos, materiais e medicamentos.

Uma vez fiz um risco cirúrgico e colhi sangue no meu hospital universitário. No consultório de um professor ele me pergunta: “e você confia?”.
“Se confio para os meus pacientes tenho que confiar para mim”.

Eu pratico a medicina. Ela pisa em mim alguns dias, me machuca, tira o sono, dá rugas, lágrimas, mas eu ainda acredito na medicina. Me faz melhor.

Aprendo, cresço, me torna humana. Se tenho dívidas, pago-as assim. Faço porque acredito.

Nesses últimos dias de protestos nas ruas e nas mídias brigamos por um país melhor. Menos corrupto. Transparente. Menos populista. Com mais qualidade. Com mais macas. Com hospitais melhores, mais equipamentos e que não faltem medicamentos. Um SUS melhor.

Briguei pelo filho do paciente ajoelhado. Por todos os meus pacientes. Por mim. Por você. Por nós. O SUS é nosso.

Não tenho palavras para descrever o que penso da “Presidenta” Dilma. (Uma figura que se proclama “a presidenta” já não merece minha atenção).

Mas hoje, por mim, por você, pelo meu paciente na cadeira, eu a ouvi.

A ouvi dizendo que escutou “o povo democrático brasileiro”. Que escutou que queremos educação, saúde e segurança de qualidades. “Qualidade”… Ela disse.

E disse que importará médicos para melhorar a saúde do Brasil….

Para melhorar a qualidade….?

Sra. “presidenta”, eu sou uma médica de qualidade. Meus pais são médicos de qualidade. Meus professores são médicos de qualidade. Meus amigos de faculdade. Meus colegas de plantão. O médico brasileiro é de qualidade.

Os seus hospitais é que não são. O seu SUS é que não tem qualidade. O seu governo é que não tem qualidade.

O dia em que a Sra. “presidenta” abrir uma ficha numa UPA, for internada num Hospital Estadual, pegar um remédio na fila do SUS e falar que isso é de qualidade, aí conversaremos.

Não cuspa na minha cara, não pise no meu diploma. Não me culpe da sua incompetência.

Somos quase 400mil, não nos ofenda. Estou amanhã de plantão, abra uma ficha, eu te atendo. Não demora, não. Não faltam médicos, mas não garanto que tenha onde sentar. Afinal, a cadeira é prioridade dos internados.

Hoje, eu chorei de novo.

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Pressão popular pela moralidade faz Renan recuar e devolver R$ 32 mil

Para quem ainda acha, ou finge achar, que o Brasil ter saído às ruas, para exigir moralidade de seus representantes políticos, não valeu a pena, ou não gerou efeitos práticos, até nosso impoluto presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB/AL) se dobrou à pressão popular, recuou da sua empáfia inicial e anunciou hoje que vai devolver aos cofres públicos os R$ 32 milhões referentes à utilização de avião da Força Aérea Brasileira (FAB), no último dia 15 de junho, para uma viagem particular.

Leia abaixo a o trecho da reportagem do G1 (aqui, na íntegra) sobre o caso:

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), anunciou nesta sexta-feira (5) que devolverá aos cofres públicos R$ 32 mil referentes à viagem que fez em 15 de junho em avião da Força Aérea Brasileira (FAB) entre Maceió, Porto Seguro e Brasília, “objeto de dúvidas levantadas pelo noticiário”, segundo nota assinada pela Secretaria de Imprensa da Presidência do Senado.

No texto da nota, Renan não se manifestou sobre o motivo da viagem nem se viajou com acompanhantes. De acordo com o jornal “Folha de S.Paulo”, ele foi a Porto Seguro a fim de participar, em Trancoso (BA), da festa de casamento de uma filha do senador Eduardo Braga (PMDB-AM), líder do governo no Senado. A assessoria de imprensa do Senado confirmou nesta sexta a informação do jornal.

Na quinta (4), ao ser indagado por jornalistas se pagaria pela viagem, o presidente do Senado respondeu: “Claro que não“. Ele também disse que usou o avião porque, como presidente do Senado, exerce um cargo de representação. “Deixa eu explicar. O avião da FAB usado por mim é um avião de representação. E eu o utilizei como tenho utilizado sempre, na representação como presidente do Senado”, declarou na ocasião.

O presidente da Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) também usou um avião da FAB, para viagem de ida e volta com seis acompanhantes entre Natal e o Rio de Janeiro, entre os últimos dias 28 e 30 de junho. Nesse período, ele disse que teve encontro com o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB-RJ) e assistiu à final da Copa das Confederações, entre Brasil e Espanha, no Maracanã. Depois da divulgação da viagem, Alves anunciou a devolução de R$ 9,7 mil, como valor equivalente ao preço das passagens em voo comercial.

Atualização às 16h29 para correção.

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Otimistas ao futuro por pessimistas ao passado, quem faz beicinho aos jovens na rua?

Jornalista e escritor Arthur Dapieve

Retomada de bola

Por Arthur Dapieve

Deixei de ganhar uma bolada em março. Enquanto se especulava sobre quem seria o sucessor de Bento XVI, eu torcia, quase rezava, por um papa argentino. Tivesse mais fé, e pecasse apostando, embolsaria o fruto de minhas preces. Nada contra os cardeais brasileiros — tenho certeza de que eles seriam, e eventualmente serão, ótimos papas — e sim contra o ufanismo que os botava nas alturas, barbadas no conclave.

Os jornais brasileiros só faltavam dizer que a chaminé do Vaticano iria inovar e soltaria fumaça verde e amarela quando os cardeais reunidos na Capela Sistina vissem a luz e elegessem um patrício nosso. Eu pensava “pré-sal, Copa do Mundo, Olimpíadas, Jornada Mundial da Juventude e papa brasileiro?!” Seria uma congestão de patriotismo do tipo nunca-antes-na-história-deste-país. Não, por favor. Melhor um argentino.

O simpaticíssimo Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, saiu melhor que a encomenda. Um amigo tuitou que era a primeira vez que via as palavras “argentino” e “humilde” na mesma frase. Modéstia dele, que é argentino. Acho que você sabe que brasileiro é ridicularizado no resto da América Latina pela megalomania. Tudo aqui é o maior, o melhor, do mundo, da galáxia, “Obina joga mais do que Eto’o” levado a sério.

Dá para imaginar, portanto, a divisão dos meus sentimentos na Copa das Confederações, ainda mais na hora em que os gastos públicos com o futebol são mui justamente questionados nas ruas. Menos mal — na verdade, ótimo — que claro já estava que a galera não ia mais se deixar enganar pelo quique da bola. Como diria o pensador Luciano do Valle, “uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa”. Tetra das Confederações? Beleza. Continuamos querendo prestação de contas, saúde, educação e transporte. Queremos ser tratados como cidadãos, não como meros torcedores.

No pontapé inicial da competição, eu declarava no botequim que estava indeciso entre a Itália, por razões familiares, e o Uruguai, por razões clubísticas. Na final, porém, a Patroa já estava me castrando no sofá: “Você está torcendo pelo Brasil!” Méritos de Felipão, que em pouco tempo montou uma equipe de marcação feroz e contra-ataque rápido. Pode-se não gostar do estilo de jogo, mas ela sobrou no torneio. Fred, os cabeças de área, a zaga, Júlio César e, afinal, Neymar foram muito bem com a amarelinha.

Também nunca me agradou o tal tique-taque espanhol, aquele joguinho de passes curtos e intermináveis. Parecia-me um amante que exagerasse nas preliminares e na hora de meter — a bola, a bola — para dentro já tivesse se desinteressado do esporte e fizesse o gol só para cumprir tabela. A estreiteza dos placares espanhóis atesta a falta de apetite da seleção que, um dia, numa galáxia distante, foi conhecida como “a Fúria”.

Na verdade, o tal tique-taque espanhol me parece uma versão emasculada do estilo de jogo do Barcelona, este sim vistoso e matador. A diferença, mais uma vez, está num argentino: Messi e sua vocação para (muitos) gols. Oxalá Neymar aprenda com o camisa 10 do Barça que pega mal cair em toda e qualquer disputa de bola. A encenação que ele fez pouco antes de ser substituído contra o Uruguai recordou-me aquele boato sobre o fim do Bolsa Família. Lembra? Em maio, o governo rolou no gramado segurando o tornozelo, acusou a oposição de sabotagem e, no final das contas, tinha apenas tropeçado nas próprias pernas burocráticas. Hoje não se fala mais disso.

Bem, o Brasil merecidamente ganhou. Contudo, fiel a meus princípios, acho que esta é a pior coisa que poderia ter-nos acontecido com vistas ao ano que vem. Não por nenhum tabu do tipo “seleção que leva as Confederações fracassa na Copa seguinte” e sim porque voltarão a bater forte os tambores do ufanismo, no peito da “pachecada”, dos publicitários, dos jornalistas e, claro, dos políticos. Estes, aliás, são craques em acreditar no marketing que pagam para criarem em torno deles mesmos. Não fosse assim não teriam sido pegos pelas manifestações com as cuecas na mão.

Dia desses, li algo bonito e interessante em “Marx estava certo”, do crítico cultural inglês Terry Eagleton, traduzido para a Nova Fronteira por Regina Lyra: “Theodor Adorno certa vez observou que os pensadores pessimistas (ele tinha em mente Freud, e não Marx) servem melhor à causa da emancipação humana do que os imaturamente otimistas, pois dão testemunho de uma injustiça que grita por redenção e que poderíamos, de outro jeito, esquecer. Ao nos recordar de quão ruins são as coisas, eles nos impelem a consertá-las. Eles nos impelem a dispensar o ópio.”

A indignação do último mês só pode ser “extraordinariamente otimista quanto ao futuro” — algo que Eagleton diz de Marx — porque é “extraordinariamente pessimista quanto ao passado”. O Brasil está mais maduro, ainda que certas pessoas em Brasília façam beicinho porque os jovens marcaram por pressão e retomaram a bola.

Publicado hoje, na edição impressa de O Globo.

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Sem medo da rainha Dilma, jovens das ruas querem distância do antigo PT

Jornalista e escritor Nelson Motta
Jornalista e escritor Nelson Motta

Os Jovens do Restelo

Por Nelson Mota

Há dois meses, a presidente Dilma comparava os que criticavam o governo ao Velho do Restelo, de Camões, como símbolo do derrotista agourento. Hoje a rainha está nua. E ninguém ousa lhe contar. O mito da grande gestora ruiu: como mostrou a reportagem de José Casado, seu governo não conseguiu gastar em 2012 nem metade das verbas do orçamento para Saúde, Educação e Transporte — o que desmoraliza qualquer gestão. E também é a prova cabal de que não falta dinheiro para investir, mas capacidade de usá-lo em benefício da população.

Com os assessores e aliados que tem, que se borram de medo dela, a presidente não tem pior adversário do que seu temperamento autoritário, mesmo sendo uma democrata. Um exemplo é a recente sugestão, crítica jamais, do ministro Gilberto Carvalho à presidente, em reunião ministerial para aplacar os protestos: “Temos que estar mais junto dos movimentos sociais. Esta meninada que está nas ruas antigamente estava com a gente. Não está mais.”

Por que será? rsrsrs

Uma pista: 74% dos petistas consultados pelo Datafolha são a favor da prisão imediata dos mensaleiros condenados. Eles também se sentem traídos. Como estar mais junto de movimentos sociais espontâneos, sem lideranças nem manadas domesticadas, que não podem ser cooptados com verbas e cargos? Será que ele não entendeu que as jovens multidões estão contra os privilégios, a corrupção e a incompetência dos governos, do PT e dos demais partidos? Ou tem medo de dizer e a rainha gritar “cortem-lhe a cabeça”?

Na mesma reunião, a ministra Maria do Rosário diagnosticou que “houve um afastamento do governo das demandas dos movimentos sociais. O governo está longe do PT antigo”.

Mas os movimentos sociais da ministra estão longe das ruas, não estão demandando nada além do de sempre, se contentam com verbas e afagos do ministro Gilberto. A UNE, os sindicatos amestrados e os movimentos sociais estatizados não estavam na rua. Quem estava eram os Jovens do Restelo, a classe média, a antiga e a nova, que paga a conta. Para eles, do PT antigo de Zé Dirceu, João Paulo e Genoino, quanto mais longe, melhor.

Publicado hoje na edição impressa de O Globo.

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Apertem os cintos — Governo Dilma programa radar para não enxergar mais o chão

Rogério Furquim Werneck, economista e professor da PUC-Rio
Rogério Furquim Werneck, economista e professor da PUC-Rio

Depois da queda

Por Rogério Furquim Werneck

Entre março e junho, a aprovação da presidente Dilma Rousseff caiu de 65% para 30%. Com o benefício da visão retrospectiva, pode-se dizer que o mais surpreendente não foi propriamente a extensão da queda e, sim, o fato de ela ter demorado tanto, tendo em vista o lamentável desempenho que o governo vem mostrando já há muitos meses.

Como bem notou José Roberto de Toledo, no “Estado de S. Paulo” de 1º de julho, a lógica dessa queda tão vertiginosa de aprovação parece análoga à das avalanches. Pouco a pouco, acumula-se enorme tensão na montanha. E, quando essa tensão afinal atinge um ponto crítico, basta um pequeno choque para que seja deflagrado gigantesco deslizamento.

Ao longo dos últimos 30 meses, vêm-se acumulando evidências de crescente descompasso entre promessas e realizações do governo Dilma Rousseff. Em meio a sinais inequívocos de inoperância, particularmente claros na calamitosa gestão dos programas de investimento público, o que se vê é crescimento econômico pífio, inflação estourando o teto da meta, contas públicas desacreditadas e contas externas cada vez mais desequilibradas.

O governo vinha alimentando a fantasia de que nada disso afetaria a aprovação da presidente, desde que a taxa de desemprego permanecesse baixa. E a aposta era a de que, não obstante toda a deterioração do quadro econômico, seria possível preservar o desemprego baixo até outubro de 2014. O Planalto agora se deu conta de que a travessia dos próximos 15 meses não vai ser tão fácil.

Porta-vozes do governo apressaram-se a lembrar que, logo após a eclosão do escândalo do mensalão, em 2005, a aprovação do ex-presidente Lula também chegou a nível tão baixo quanto o que hoje tem Dilma. E que isso não impediu sua reeleição em 2006.

Salta aos olhos que o paralelo não faz sentido. O que permitiu a Lula recuperar sua popularidade no fim do seu primeiro mandato foi o bom desempenho da economia. Dilma Rousseff não poderá contar com nada remotamente parecido. Muito pelo contrário. O mais provável é que o desempenho da economia nos próximos meses seja fator de agravamento da sua perda de popularidade.

Tudo indica que os segmentos mais lúcidos do governo já notaram que o que foi pretensiosamente rotulado de “nova matriz macroeconômica” redundou em retumbante fracasso. Mas a avaliação da cúpula do governo é que já não há mais tempo para uma “guinada” na política econômica. De um lado, porque, a esta altura, a admissão do fracasso seria muito custosa. De outro, porque os benefícios da “guinada” custariam muito tempo para se fazer sentir. Tendo em conta a proximidade da eleição, o governo parece convencido de que o máximo que poderá ser feito, agora, “é administrar a vantagem no braço e tentar chegar na frente” (“Estado”, 16/6).

Nesta semana, o Planalto deixou mais do que claro o quão longe está disposto a ir para “administrar no braço” a situação. Já sem qualquer preocupação com dissimulação, publicou decreto que amplia, de forma escancarada, as possibilidades de manipulação das contas fiscais, para geração de superávit primário fictício por meio da simples movimentação circular de recursos entre o Tesouro e o BNDES.

O artifício é uma espécie de pedra filosofal das finanças públicas, que supostamente transforma emissão de dívida pública em superávit primário. O Tesouro emite dívida e repassa os recursos ao BNDES, que, por sua vez, devolve os recursos ao Tesouro na forma de dividendos, propiciando aumento do superávit primário.

O problema é que essa mutreta estava restrita pelo montante de lucros do BNDES passíveis de serem distribuídos como dividendos. O novo decreto, um verdadeiro escárnio, simplesmente afrouxa essa restrição.

Trata-se de medida emblemática, porque evidencia de forma cabal a falta de seriedade da proposta de “pacto pela responsabilidade fiscal” feita pela presidente há poucos dias. É bom não ter ilusões. O que vem aí são 15 meses de mais do mesmo. Ou pior, de muito mais do mesmo. Apertem os cintos.

Publicado hoje, na edição impressa de O Globo.

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