Rosinha e seus vereadores — Tão perto e tão longe

Dois fatos separados em espaço, mas ocorridos ao mesmo tempo, idênticos na causa e tão diferentes nas aparentes consequências. Assim podem (e devem) ser entendidos a reunião na sede da Prefeitura, entre Rosinha e boa parte do seu secretariado, e a sessão na Câmara Municipal, ambas na tarde de hoje. O assunto que dominou Executivo e Legislativo foram as denúncias de corrupção em licitações públicas, que seriam praticadas pela empresa Rufolo, segundo denúncia do Fantástico, incluindo no serviço público de Campos.

Na Câmara, enquanto os vereadores de oposição fizeram pedidos de informação e chegaram a propor uma CPI sobre o caso, a justificativa para as negativas da situação foram evasivas, como o leitor pôde conferir por conta própria, em tempo real, aqui, no Blog do Bastos. Enquanto isso, na Prefeitura, o governo cujas satisfações devidas eram negadas na Câmara, mas pressionado pela blogosfera e pela Folha Online, optava por evitar um desgaste maior ao decidir simplesmente anunciar a não renovação do contrato com a Rufolo, que já venceria no próximo dia 30.

Ou seja: os vereadores governistas, cuja defesa da administração Rosinha parece por vezes tão canina (na devoção e na “inteligência” com que é feita), se negaram a dar qualquer satisfação sobre denúncias graves, ecoadas da mídia nacional à local, enquanto Rosinha decidia dar essa mesma satisfação, ainda que velada e minimizada. De qualquer maneira, o que se pode concluir dessa freudiana relação entre a Prefeitura de Campos e seus vereadores, talvez possa ser melhor resumido na inversão do título daquele filme do alemão Win Wenders: “Tão perto e tão longe”…

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Depois de Cabral e Paes, Rosinha rompe com empresa denunciada no Fantástico

A Prefeitura de Campos vai suspender o contrato licitatório com a Rufolo. Passada em primeira mão ao blog por uma fonte do primeiro escalão do governo Rosinha, o anúncio será feito dentro de instantes, numa nota oficial no site da Prefeitura. O motivo, pelo menos o que deve ser alegado, é que a empresa, denunciada por corrupção em licitações públicas pelo Fantástico, prestaria um serviço de qualidade aquém da desejada em Campos. Na verdade, a decisão foi tomada após uma reunião entre a prefeita Rosinha e boa parte do seu secretariado, que como o ex-prefeito e blogueiro Sergio Mendes revelou aqui, durou boa parte da tarde de hoje. Seja pelos motivos que irá alegar, ou pela pressão feita na blogosfera local e pela Folha Online, a partir da denúncia da blogueira Gianna Barcelos, o fato é que Rosinha vai tomar, em relação à empresa denunciada, a mesma atitude do prefeito e do governador do Rio, respectivamente Eduardo Paes e Sérgio Cabral, mas apenas depois destes.

Na dúvida se o contrato, que se encerrara no próximo dia 30, seria mesmo cancelado se não fosse a pressaõ da mídia, fica ao menos uma certeza: tão céleres e contundentes nas críticas a Paes e Cabral, que fizeram aqui a deputada estadual Clarissa Garotinho e aqui o deputado federal Anthony Garotinho, a filha e o marido da prefeita de Campos poderiam usar o episódio para aprender a olhar para o próprio quintal antes de jogar pedra nos vizinhos.

Atualização às 19h39: Como o blog antecipou, a Prefeitura enviou por e-mail uma nota oficial sobre a suspensão dos serviços prestados no município pela Rufolo, que não irá, no entanto, republicar em seu site oficial, talvez para evitar dar ainda mais divulgação ao caso…

“A Rufolo Empresa de Serviços Técnicos e Construções Ltda, como todas outras empresas que prestam serviços à Prefeitura de Campos, foi contratada por um processo transparente de licitação. A Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes informa que no final do ano de 2011, insatisfeita com o desempenho da Rufolo, que sistematicamente atrasava o pagamento de seus funcionários, comunicou a mesma que só manteria o contrato pelos três (03) primeiros meses de 2012, o que significa ao final deste mês de março. No início de março deste ano, a secretaria de Planejamento e Gestão enviou para a Comissão de Licitação o processo nº 2012.100.000017-7-PR, que de lá foi encaminhado para a Procuradoria Geral do Município, aguardando tramitação final para realização do Pregão nº 21/2012, com finalidade da substituição da empresa anterior”.

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Como empresa denunciada pelo Fantástico começou a atuar em Campos

Desde que o Fantástico levou ao ar no último domingo uma série de denúncias contra as empresas Rufolo, Locanty, Toesa e Bella Vista, em supostos casos de corrupção em licitações públicas, e que a blogueira campista Gianna Barccelos revelou aqui a atuação da Rufolo na administração Rosinha Garotinho (PR), o clima esquentou na blogosfera local, na expecativa de que a Prefeitura de Campos adotasse o mesmo procedimento dos governos da cidade e do Estado do Rio de Janeiro, que suspenderam os contratos com as empresas denunciadas. Da esfera virtual à real, o debate em torno do tema também promete se acolarar na Câmara, cuja sessão se iniciou agora há pouco, depois que o vereador Marcos Bacellar (PDT) também replicou aqui e aqui as denúncias, afirmando que elas ligariam o casal Garotinho a um mesmo interlocutor da Rufolo, cujo nome não teria (ainda) sido revelado pelo Fantástico e que seria também pré-candidato a vereador em Campos.

Sem saber ainda aonde toda essas denúncias vão parar, fica apenas uma retiticação sobre quando e com quem essa polêmica história realmente começou, pelo menos em Campos: como este blogueiro já informou à colega Gianna, o contrato da Rufolo não foi celebrado na gestão interina de Nelson Nahim (PPL) na Prefeitura. Quando o cunhado de Rosinha a substituiu em sua primeira cassação, o que houve foi um termo aditivo, feito em 25 de agosto de 2010, assinado não por Nahim, mas pelo secretário municipal de Administração Fábio Ribeiro. A licitação com a empresa denunciada pelo Fantástico, na verdade, já havia sido celebrada desde 18 de dezembro de 2009, com o serviço passando a ser realizado em 7 de janeiro de 2010, quando Rosinha estava à frente da Prefeitura.

Segundo apurou a Gianna Barcelos nas publicações do Diário Oficial, é ampla a atuação da Rufolo no poder público de Campos:

– Hospital Ferreira Machado

– Secretaria municipal de Administração e RH

– Secretaria municipal de Governo

– Secretaria Municipal de Serviços Públicos

– Secretaria Municipal de Defesa Civil

– Secretaria municipal de Controle e Orçamento

– Secretaria municipal de Família e Assistência Social

– Coordenadoria de Fiscalização e Posturas

– Fundação Municipal  Jornalista Osvaldo Lima

– Secretaria municipal de Cultura

– Secretaria municipal de Finanças

– Fundação Municipal Teatro Trianon

– FIA

– Secretaria municipal de Saúde

– Secretaria municipal de Trabalho e Renda

– Coordenadoria de Desenvolvimento Humano

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Prefeitura de Campos — Possibilidades de outubro para outubro

As possibilidades jurídicas que deixam aberta a eleição para prefeito de Campos em outubro próximo, a despeito da grande probabilidade da reeleição de Rosinha Garotinho, feitas neste blog no sábado e publicadas na edição impressa de hoje da Folha, estão longe de ser novidade. A bem da verdade, ainda quem sem todos os detalhes jurídicos, elas já tinham sido adiantadas desde outubro passado, logo depois do segundo retorno de Rosinha à Prefeitura, em postagem feita aqui no Ponto de Vista do Christiano Abreu Barbosa.

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Papel de Nahim em outubro espera definição jurídica de Rosinha

Qual será o papel do presidente da Câmara de Campos, Nelson Nahim (PPL), nas eleições municipais de outubro próximo? Desde outubro passado, quando rompeu com o irmão e deputado federal, Anthony Garotinho (PR), mesmo com o aumento do número de cadeiras no Legislativo, das 17 atuais, para 25, tudo indica que Nahim terá uma disputa dura para tentar se reeleger vereador. De fato, a continuar as coisas como aparentemente estão, as dificuldades do irmão de Garotinho parecem opostas às facilidades que a esposa deste, Rosinha (PR), teria para tentar sua própria reeleição como prefeita — segundo não só indicam as pesquisas governistas, como é também sugerido por aquelas que os oposionistas prometerem e não fizeram, ou as que prometem ainda fazer, mas não garantem divulgar.

Todavia, condenada em decisão plenária do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), em 27 de maio de 2010, numa Ação de Impugnação de Mandato Eletivo (Aime), cujo recurso ainda aguarda julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e condenada também por decisão monocrática de primeira instância, a 28 de setembro de 2011, numa Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije), cujo recurso também aguarda novo julgamento do TRE, as perspectivas de Rosinha parecem mais certas no voto do eleitor campista, do que nos colegiados dos dois Tribunais. Em tese, um ou outro podem não só cassá-la uma terceira vez, como impedir sua candidatura pela Lei do Ficha Limpa, mesmo que lhe seja permitido cumprir até o final o mandato conquistado em 2008, na eleição que gerou as duas ações.

No primeiro caso, com uma nova cassação de Rosinha, ou pela Aime no TSE ou pela Aije no TRE, Nahim seria sem sombra de dúvida o maior benificiado, pois não só assumiria a Prefeitura, como poderia disputar a eleição ao cargo, sem ter concorrendo contra ele nenhum parente, como é o caso, por exemplo, de Wladimir (presidente municipal do PR), da deputada estadual Clarissa (que já se comprometeu em disputar a Prefeitura do Rio, como vice na chapa encabeçada pelo deputado federal Rodrigo Maia, na dobradinha com o DEM), ou do próprio Garotinho.

Já caso o TRE ou o TSE entendam que a prefeita não deva mais uma vez ser afastada, por estar já no término do mandato e se tratar de um ano eleitoral, mas confirmem suas condenações de inelegibilidade, a cotação de Nahim também subiria. Muito embora não pudesse se candidatar à Prefeitura, com esta ocupada pela cunhada, o apoio do presidente da Câmara passaria a pesar muito mais, sendo favorável ou contrário a uma candidatura governista alternativa, que se cogita nos bastidores, diante do impedimento de qualquer outro nome da família Garotinho, ser o caso de Geraldo Pudim, ex-secretário de Governo de Rosinha e derrotado nessa mesma disputa em 2004 e 2006.

Embora não negue nenhuma dessas possibilidades, Nahim se limitou a dizer que se encontra apenas concentrado na formação da nominata do seu PPL à eleição proporcional, na qual admite poder se coligar com o PPS do vereador Rogério Matoso ou com o PRP de Fabrício Lírio — duas legendas de oposição aos Garotinho. “Para a majoritária, tanto eu, como meu partido temos até junho, prazo para as convenções para tomar uma posição. Não há motivo para fazermos isso agora”, justificou.

No lugar de adiamento, no entanto, a estratégia de Nahim de evitar, por ora, qualquer posicionamento sobre a sucessão de Rosinha, pode ser entendida como uma maneira de ganhar tempo, pelo menos até que as questões jurídicas ainda abertas definam o quadro político real de outubro. Do mesmo modo, embora não admita publicamente nenhuma outra opção, que não a candidatura de Rosinha à reeleição, o fato de Garotinho ainda permitir a Nahim manter várias indicações no governo da esposa, indica que o presidente estadual do PR também tem seus motivos, talvez mais jurídicos que pessoais, para ainda não ter queimado todas as pontes com seu próprio irmão.

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Do blues à ópera, a humanidade

Depois da empáfia machista proposta na letra de “Hoochie Coochie Man”, seja cantada por Muddy Waters (1915/83) ou Eric Clapton, o equilíbrio mais próximo à realidade de todos os homens cruza a ponte do blues à ópera, dois estilos tão distintos, embora siameses na mesma passionalidade com que expõem sentimentos em música. Do bluseiro William Dixon (1915/92) passemos, pois, à ópera “Pagliacci” (“Palhaço”) do italiano Ruggero Leoncavallo (1857/1919).

Na voz do tenor espanhol Placido Domingo, a ária que conclui o primeiro ato da ópera é a minha preferida entre todas, como era coincidentemente também a do meu avô paterno, Domingos Barbosa, o “Capitão”, ele próprio um tenor amador, que infelizente não cheguei a conhecer. Em “Vesti la Giubba”, Canio, o chefe de meia idada da trupe de atores, após descobrir que sua jovem esposa (Nedda) o traíra, é obrigado a deixar os sentimentos momentaneamente de lado, para se maquiar e dar vida ao palhaço que seu público espera ansioso do outro lado das cortinas.

Nessa contradição entre a mais profunda angústia pessoal e a necessidade de fazer rir, antítese realçada pela capacidade dramática do grande tenor (e ator), o dó de peito vem ecoado desde o início dos tempos por tudo aquilo que nos faz homens.

Abaixo, a tradução em português de “Vesti la Giubba” e sua comovente interpretação por Placido Domingo, xará em nome e tom de voz do meu avô…

Vesti La Giubba

Recitar,
enquanto tomado pelo delírio
não sei mais aquilo que digo
e aquilo que faço.

Todavia é necessário. Esforça-te! Vai!
És tu talvez um homem?
Ah! ah! ah! ah! ah!
Tu és Palhaço.

Veste o casaco
e a cara enfarinha.
O povo paga
e quer rir aqui.

E se Arlequim
te rouba a Colombina,
ri Palhaço
e cada um aplaudirá.

Muda em piadas
o espasmo e o choro,
numa careta o soluço
e a dor.

Ah! Ri Palhaço,
sobre o teu amor partido.
Ri da dor
que te envenena o coração!

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Calcinhas, blues e rock and roll

Um meeiro negro e pobre do Mississipi, que migrou para Chicago e lá descobriu que o violão acústico, perfeito para ecoar seu lamento nas amplidões silenciosas do meio rual, não era mais suficiente para fazer prevalecer sua música em meio ao caos sonoro de um grande centro urbano, levando-o a amplificar o blues com uma guitarra elétrica. Esse foi Muddy Waters (1915/83), cujo verso “pedras que rolam, não criam limo”, da música “Catfish Blues” (literalmente “Blues do Bagre”), seria depois usado por alguns garotos brancos da Inglaterra para batizar sua banda, uma tal de Rolling Stones.

A música mais famosa do repertório de Muddy, “Hoochie Coochie Man”, curiosamente não é dele, embora escrita para ele por outra lenda do blues egressa do Mississipi: Willie Dixon (1915/92). Nela, na descrição do fascínio sobre as mulheres que o mestre bluseiro exercia, já estão todos os elementos que mais tarde um outro negro, Chuck Berry, descoberto por Muddy, misturaria ao country para fundar o rock and roll — e os garotos brancos como Elvis (1935/77) ficarem com o crédito.

A diferença, como gostava de definir Dixon, muito antes do nosso Wando (1945/2012), é relativamente simples: “A primeira vez que uma moça tirou a calcinha e a jogou no palco, foi por causa de um sujeito que cantava blues, mas quando as brancas também começaram a fazê-lo, virou rock and roll”.

Para conhecer essa rica gênese da música que mudaria o mundo entre os anos 50 e 70 (no Brasil, notadamente nos 80), uma boa dica é se assistir ao filme “Cadillac Records”, de Darnell Martin, que conta um pouco da história de Muddy, Dixon, Berry, entre outras lendas como Little Walter (1930/68), Howllin’ Wolf (1910/76) e Etta James (1938/2012), todos reunidos no período áureo da Chess Records. Para quem assina a Sky, as próximas exibições estão programadas para às 14h50 do dia 14 e às 9h30 do dia 24, sempre no canal 77 e, em HD, no 277.

Abaixo, a tradução em português e a execução por Muddy Waters, em seu auge, da música que Willie Dixon fez para descrevê-lo, sempre viva no repertório dos grandes mestres atuais do gênero, como Eric Clapton, que a entoou em um dos pontos altos da sua última apresentação no Rio, na HSBC Arena, em outubro passado…

 

(Eu Sou Seu) Homem Hoochie Coochie

A cigana disse à minha mãe
Antes de eu nascer
Eu tenho um garoto vindo
Ele vai ser um filha da mãe
Ele vai fazer garotas bonitas
Pular e atirar
Então o mundo quer saber
sobre o que é isso tudo
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Bem você sabe que eu sou o homem hoochie choochie
Todo mundo sabe que eu sou ele

Eu tenho um osso preto de gato
Eu tenho um mojo também
Eu tenho o conkeroo do Johnny
Eu vou mexer com você
Eu vou pegar suas garotas
Leve-me pela minha mãe
Então o mundo irá saber
O homem hoochie coochie
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Oh você sabe que eu sou o homem hoochie coochie
Todos sabem que eu sou ele

Na sétima hora
No sétimo dia
No sétimo mês
Os sete médicos disseram
Ele nasceu por boa sorte
E que você verá
Eu tenho setecentos doláres
Não mexa comigo
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Bem você sabe que eu sou o homem hoochie coochie
Todo mundo sabe que eu sou ele

 

 

 

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