Qualquer eleição de dois turnos no mundo tem dois eixos: o 1º é uma disputa de pisos, definidos pelas intenções de voto. Da qual os dois maiores pisos, se ninguém fizer 50% + 1 dos votos válidos de cara, passam ao 2º numa disputa de tetos, definida pela rejeição. É ela que limita a capacidade de conquistar novos eleitores no turno final.
Rejeição na Ideia
Na pesquisa Ideia, com até três opções de candidatos em quem o eleitor não votaria de jeito nenhum, Lula liderou a rejeição, com 40,8%. Ele foi seguido de Flávio, com 30%; pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), com 26,1%; e por Tarcísio, com 16,2%.
Rejeição na Quaest
Na pesquisa Quaest, a medição da rejeição foi diferente, associada ao conhecimento do eleitor sobre cada presidenciável. Nela, quem liderou o índice negativo foi Flávio, com 55% de rejeição (25 pontos mais que na Ideia); seguido de Lula, com 54% (13,2 pontos mais que na Ideia); e de Tarcísio, com 43% (26,8 pontos mais que na Ideia).
Flávio diminui rejeição
Diferente da Ideia, que abriu sua série de pesquisas em janeiro na parceria com o Meio, a Quaest faz pesquisas nacionais regularmente desde a eleição presidencial de 2022. Nesta série, se Flávio chega até aqui liderando o índice negativo, o fato é que ele conseguiu cair 5 pontos na rejeição, em relação aos 60% que tinha em dezembro.
(Infográfico: Joseli Matias)
Lula mantém rejeição
Por sua vez, e até por ser o nome mais conhecido dos eleitores entre todos os presidenciáveis (só 3% dizem desconhecê-lo), Lula manteve os mesmos 54% de rejeição nas pesquisas Quaest de dezembro e janeiro. Já Tarcísio conseguiu perder 4 pontos no índice negativo: dos 47% de rejeição que tinha em dezembro aos atuais 43%.
Para qualquer chefe de Executivo candidato à reeleição, a aprovação do seu governo é fundamental para medir suas chances de renovar o mandato na urna. Na pesquisa Ideia, 50% dos brasileiros desaprovam o trabalho de Lula como presidente, com 47% que aprovam e 3% que não souberam responder.
Desaprovação x aprovação (II)
A Quaest registrou quase números quase idênticos: 49% dos brasileiros desaprovam o Lula 3, com os mesmos 47% que aprovam e 4% que não souberam responder. Feitas no mesmo período e com metodologias diferentes, as duas pesquisas revelam a incerteza do empate técnico entre a desaprovação e a aprovação ao atual Governo Federal.
Lula merece ficar?
As duas pesquisas fizeram outra consulta ainda mais específica quanto à possibilidade de reeleição do presidente: “Lula merece ficar?” Na Ideia, 50% dos brasileiros acham que não, com 46,9% que acham que sim e 3,1% que não souberam responder. É a incerteza de outro empate técnico.
(Infográfico: Joseli Matias)
Empate técnico na Ideia
“A real disputa de 2026 ocorre entre os que acreditam que o presidente Lula merece continuar e os que são contra a continuidade. Essa corrida está tecnicamente empatada”, constatou Cila Schulman, CEO do instituto Ideia e coordenadora de comunicação e estratégia de campanhas eleitorais desde 1988.
Maioria acha que não merece na Quaest
Apesar da liderança de Lula nas intenções de voto, os resultados da Quaest foram piores à reeleição. À pergunta “Lula merece continuar mais 4 anos como presidente?”, não houve empate técnico na maioria dos 56% dos brasileiros que acham que não. São 16 pontos acima dos 40% que acham que sim, com outros 4% que não responderam.
Janja e Lula em foto do dia 10, na Restinga da Marambaia, RJ (Foto: Instagram de Janja)
Lula lidera a 1º e 2º turno
Hoje, 17 de janeiro, faltam oito meses e 18 dias para a urna de 4 de outubro. O ano eleitoral de 2026 começou com duas pesquisas presidenciais: a Ideia (confira aqui e aqui), feita com 2.000 eleitores de 8 a 12 de janeiro; e a Quaest (confira aqui), feita com 2.004 eleitores de 8 a 11 de janeiro. Em ambas, o presidente Lula (PT) lidera todos os cenários de 1º e 2º turno.
Tamanho da vantagem
A Ideia trouxe cinco cenários estimulados (com a apresentação dos nomes dos possíveis candidatos) de 1º turno e nove de 2º turno. A Quaest trouxe sete cenários de 1º turno e outros sete de 2º turno. Lula liderou em todos, na grande maioria acima da margem de erro de 2,2 pontos para mais ou menos da Ideia e de 2 pontos da Quaest.
Tarcísio é o mais competitivo
Nas duas pesquisas, o único empate técnico de Lula foi no 2º turno da Ideia contra o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP): 44,4% a 42,1%. Na Quaest, embora Lula tenha liderado também no 2º turno contra Tarcísio, este foi o que ficou menos distante: 39% a 44% do petista, apenas 1 ponto acima do limite da margem de erro.
(Infográfico: Joseli Matias)
Escanteado pelo bolsonarismo?
Diretor de jornalismo do Canal Meio, parceiro do instituto Ideia em sua pesquisa, Pedro Doria ressaltou no relatório da consulta: “O primeiro retrato que tiramos deste ano eleitoral mostra que a direita só tem um candidato competitivo: Tarcísio de Freitas. Aquele que o bolsonarismo escanteou”.
De pai para o filho 01
O jornalista se refere ao fato de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) anunciou em 5 de dezembro que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — preso após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado e transferido na quinta (15) para a Papudinha —, escolheu o filho 01 como seu candidato a presidente.
Onde Lula pode perder?
Lula, nas duas pesquisas de 2026 realizadas até aqui, é o favorito à reeleição em outubro. Mas essas mesmas pesquisas mostram flancos matemáticos abertos à sua não reeleição? Quais são? E se Tarcísio também aparece nas pesquisas, desde 2025, como candidato mais competitivo contra Lula, quais seriam hoje as chances de Flávio?
Na pesquisa Quaest divulgada hoje (14), em janeiro do ano eleitoral de 2026, o governo Lula registrou a mesma aprovação de janeiro de 2025: é desaprovado por 49% dos brasileiros e aprovado por 47%. Ainda assim, o presidente liderou, acima da margem de erro de 2 pontos para mais ou menos, todos os sete cenários de consulta estimulada do 1º turno e os outros sete de 2º turno.
(Infográfico: Joseli Mathias)
1º turno e Lula x Flávio — Feita com 2.004 eleitores de 8 a 11 de janeiro, a pesquisa Quaest — 2ª de 2026 após a Ideia (confira aqui e aqui) divulgada ontem (13) — trouxe Lula variando de 35% a 40% de intenção em sete simulações de 1º turno. Nelas, a menor vantagem do petista foi de 7 pontos, em dois cenários contra o senador Flávio Bolsonaro (PL): 39% a 32% e 38% a 31%. Em ambos, sem o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP).
2º turno e Lula x Tarcísio — No entanto, a menor vantagem de Lula nas sete projeções de 2º turno foi contra Tarcísio. A quem o petista bateria por 44% a 39% de intenção, ou 5 pontos, apenas 1 ponto acima da margem de erro. Vantagem que, na série histórica Quaest, caiu pela metade no último mês. Em dezembro de 2025, Lula bateria Tarcísio no 2º turno por 10 pontos: 45% a 35%.
2º turno: Lula x Flávio — Contra Flávio, Lula hoje venceria o 2º turno por 7 pontos: 38% a 45% do petista. Mas a diferença também diminuiu no último mês pela série Quaest. Em dezembro, o petista tinha 10 pontos de vantagem presidencial sobre o senador, a quem bateria em um eventual 2º turno: 46% a 36%.
2º turno: Lula x Ratinho Jr. — Em janeiro, depois de Tarcísio e à frente de Flávio, a menor vantagem de Lula no 2º turno seria contra o governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD). A quem o petista bateria por 7 pontos: 43% a 36%. Na série Quaest, essa diferença também caiu. Em dezembro, Lula tinha 10 pontos de vantagem no 2º turno sobre Ratinho: 45% a 35%.
Rejeição: Flávio lidera, mas cai; Lula mantém — Índice mais importante à definição no 2º turno, a rejeição é liderada por Flávio, com 55% dos brasileiros que o conhecem e não votariam nele. Mas ele caiu 5 pontos na rejeição: em dezembro, eram 60% os que o conheciam e não votavam. Em janeiro, apenas 1 ponto atrás de Flávio, a 2ª maior rejeição é a de Lula: 54% dos brasileiros que o conhecem não votariam nele. Ele manteve o mesmo número negativo de dezembro.
(Infográfico: Joseli Matias)
Tarcísio também perde rejeição — Como Flávio, quem também diminuiu sua rejeição no último mês foi Tarcísio. Na série Quaest, eram 47% os que o conheciam e não votariam nele em dezembro. Em janeiro, esse número negativo caiu 4 pontos, para os atuais 43%.
William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE
Análise do especialista — Com margem de erro de 2 pontos para mais ou para menos e 2.004 entrevistados, a primeira pesquisa Quaest de 2026 com registro no TSE revela desaprovação e aprovação do governo Lula com empate técnico. Entre o eleitorado com ensino fundamental, Lula alcança 59%, percentual semelhante aos 58% de aprovação entre os eleitores com até 2 salários-mínimos. Por sua vez, entre os beneficiários do Bolsa Família, a aprovação de Lula sobe para 61%. Este cenário, na minha opinião, é fundamental para contextualizar os 5 pontos percentuais de Lula a frente de Tarcísio e os 7 pontos percentuais do petista à frente de Flávio Bolsonaro e Ratinho Jr.
Kleber Mendonça Filho, sua produtora e esposa, Emilie Lesclaux, e Wagner Moura com seus Globos de Ouro, entre outros integrantes do elenco e produção de “O agente secreto”
Em ano de Copa, o Brasil passa a ser conhecido no mundo não pelas conquistas no futebol, mas do seu cinema. Na noite de domingo, na entrega do Globo de Ouro, em Los Angeles, “O agente secreto”, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, ganhou como melhor filme em língua não inglesa. Pouco depois, seu protagonista, o baiano Wagner Moura, também venceu como melhor ator de drama. Os dois prêmios reforçam indicações ao Oscar, que saem no dia 22.
Os dois prêmios foram comemorados como gols e vitórias do futebol do Brasil em Copa do Mundo, em residências e locais públicos de todo o país em que brasileiros se reuniram para torcer durante a premiação, transmitida ao vivo em canais abertos e fechados de TV. Coube à atriz britânica Minnie Driver abrir o caminho da noite. Ao abrir o envelope do Globo de Ouro de filme em língua não inglesa, ela saudou o vencedor em português: “Parabéns!”
Ao subir ao palco para receber o Globo de Ouro com parte do seu elenco e produção presente, Kleber disse, em inglês, que queria dizer olá a todos que estão assistindo no Brasil. E os saudou em português, sendo muito aplaudido por isso pelos gringos: “Alô Brasil!” E encerrou: “Dedico este prêmio aos jovens cineastas. Este é um momento muito importante no tempo e na história para estar fazendo filmes nos EUA e no Brasil. Jovens cineastas americanos, façam filmes!”
No Globo de Ouro de melhor ator de drama, bisando o que Fernanda Torres conquistou em 2025 por sua atuação em “Ainda estou aqui”, Wagner Moura foi beijado por Julia Roberts e subiu ao palco dando uma sambadinha com o ator estadunidense Colman Domingo, que apresentava o prêmio. No discurso, ressaltou que “‘O agente secreto’ é um filme sobre memória, ou a falta de memória e o trauma geracional” (retrata a ditadura militar do Brasil no Recife de 1977).
Wagner também terminou seu discurso de agradecimento falando em Los Angeles ao seu público principal. Ao qual também se dirigiu em português: “Para todo mundo no Brasil que está assistindo isso agora, viva o Brasil, viva a cultura brasileira”. Depois da cerimônia, o ator voltou à dança. E comemorou, com seu Globo de Ouro enquanto as indicações ao Oscar não vêm, caindo no samba de “Não deixa o samba morrer”.
Para tentar entender o significado desses prêmios internacionais ao cinema e à cultura do Brasil, e o que mais pode vir pela frente, a Folha ouviu, em ordem alfabética, a atriz Adriana Medeiros, o crítico de cinema Arthur Soffiati, os cineastas Carlos Alberto Bisogno, Felipe Fernandes e Fernando Souza, a atriz Katiana Rodrigues e o cinéfilo Lucas Barbosa:
Adriana Medeiros, atriz e professora
Adriana Medeiros — “Domingo foi uma noite cheia de holofotes para o Brasil. Momento de celebrar a arte e cultura nacional. Wagner Moura fez e faz história. Sua atuação precisa em ‘O agente secreto’ lhe rendeu o prêmio de melhor ator. Isso não consagra apenas seu talento, mas também a força do cinema brasileiro no cenário internacional. O filme foi reconhecido também como o melhor em língua estrangeira, fazendo os nossos corações vibrarem pelo reconhecimento a nossa arte. Essas são conquistas que honram nossa cultura e reafirmam a potência de nossas narrativas no audiovisual. Axé ao cinema brasileiro!”
Arthur Soffiati, historiador, professor, escritor e crítico de cinema
Arthur Soffiati — “Nos quatro filmes de Kleber Mendonça Filho, é possível avaliar a evolução do roteirista e diretor recifense. Até o premiado ‘O agente secreto’ com dois Globo de Ouro, seus roteiros pareciam escritos com mão pesada. É o que notei em ‘O som ao redor’ (2012), ‘Aquarius’ (2016) e ‘Bacurau’ (2019). No ‘O Agente Secreto’ (2025), contudo, a realidade se cola mais ao que conhecemos. A reconstituição de época de Recife dos anos 1970 é primorosa e um dos pontos altos do filme. A interpretação de Wagner Moura está estupenda. Todo elenco segue a batuta agora segura de Kleber. Tânia Maria é a grande revelação do filme. Os Globos de Ouro de filme em língua não inglesa e ator de drama confirmam os troféus recebidos no Festival de Cannes.”
Carlos Alberto Bisogno, cineasta e tutor IA em química e física
Carlos Alberto Bisogno — “O histórico bicampeonato do cinema brasileiro no Globo de Ouro, primeiro com Fernanda Torres em 2025 e agora com Wagner Moura em 2026, revela uma indústria que amadureceu ao aprender a contar suas histórias para além da barreira das línguas. Seja em ‘Ainda estou aqui’ ou em ‘O agente secreto’, vemos a aposta corajosa em atuações que se expressam mais no silêncio dos gestos do que no texto falado. É assim que tornam universal a percepção de tramas brasileiras, conectando o público global aos nossos traumas e afetos. A palavra torna-se acessório nestas narrativas que se contam no olhar, escolha que me agrada esteticamente. É a prova definitiva de que nossa cultura, quando fiel à sua essência, não precisa de tradução.”
Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema
Felipe Fernandes — “O sucesso de ‘O agente secreto’, filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que conquistou os prêmios de melhor diretor e melhor ator em Cannes e, agora, venceu o Globo de Ouro de filme de língua não inglesa e melhor ator, com possíveis indicações ao Oscar, consolida o cinema brasileiro entre os mais relevantes do cenário mundial. Fortalece uma indústria sólida que gerou, no Brasil, em 2024, mais de 608 mil empregos, segundo dados da Oxford Economics. Empregou mais do que a indústria automotiva. Tão importante quanto esse reconhecimento internacional é a consolidação junto ao próprio público brasileiro. Ainda que a polarização política inviabilize grande parte do debate, de ambos os lados.”
Fernando Souza, cineasta, diretor da produtora Quiprocó Filmes e do Festival Internacional Goitacá de Cinema
Fernando Souza — “A conquista do Globo de Ouro pelo filme ‘O agente secreto’ e pelo ator Wagner Moura representa um marco histórico para a cultura brasileira. Esse reconhecimento internacional reafirma a capacidade do Brasil de produzir obras audiovisuais de alto nível artístico e técnico, capazes de dialogar com públicos e mercados globais. Chamou atenção o fato do diretor Kleber Mendonça Filho ter deixado um recado para que os jovens façam cinema. Essa é uma fala que dialoga e fortalece a pauta da retomada do projeto da Escola de Cinema da Uenf. Para que tenhamos mais jovens fazendo cinema precisamos de mais investimentos em formação de mão de obra qualificada em todas as partes do Brasil, incluindo o interior.
Katiana Rodrigues, atriz e jornalista
Katiana Rodrigues — “É a arte do Brasil no topo. No discurso, Wagner Moura falou de memória. As memórias do horror de um tempo sombrio e nem tão distante de agora. A premiação de Moura é um reforço da importância da arte da interpretação, da arte de cantar, da arte que só pode ser produzida por nós, humanos, ora desumanos, ora imensos de criatividade, afetividade e poder de mudanças. Foi emocionante, foi incrível. Entender que a arte é transformação, é saber que a vida é incrível, que ‘a vida presta’ e vale a pena ser vivida. Entre Mouras e Fernandas, vamos impressionando. De cadinho em cadinho, dijahojinha foi o Globo de Ouro, e quem sabe, neste ano teremos duas copas do mundo? Da arte e da bola. Que venha o Oscar!”
Lucas Barbosa, cinéfilo e graduando em letras
Lucas Barbosa — “Considerado o maior número de indicações para ‘Foi apenas um acidente’ (filme iraniano de Jafar Panahi, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes) e ‘Valor Sentimental’ (filme dinamarquês/norueguês de Joachim Trier), o longa brasileiro não era o favorito ao Globo de Ouro. Que produziu uma nova narrativa. E os discursos de Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura contribuem para isso: ‘Um filme sobre memória, ou sobre a falta dela’ atrai atenção. Não acho que o prêmio faça o longa brasileiro favorito ao Oscar de filme em língua não inglesa, mas o põe em nível de igualdade. Quanto a Wagner, o Globo de Ouro o cacifa a uma indicação ao Oscar. Mas o favorito ainda é outro vencedor do Globo de Ouro, Timothée Chalamet.”
Hoje, a oito meses e 22 dias da urna de 4 de outubro, Lula parece favorito (confira aqui) à reeleição. Sobretudo se Flávio Bolsonaro for o nome da direita ungido da cadeia pelo pai. Mas a pesquisa Ideia também revelou caminhos abertos à derrota de Lula: 50% dos brasileiros não acham que ele merece continuar presidente, contra 46,9% que acham que sim. Outros 3,1% não sabem.
Merece ou não ser reeleito?
“A real disputa de 2026 ocorre entre os que acreditam que o presidente Lula merece continuar e os que são contra a continuidade. Essa corrida está tecnicamente empatada”, constatou Cila Schulman, CEO do instituto Ideia e coordenadora de comunicação e estratégia de campanhas eleitorais desde 1988.
Lula 3 desaprovado por 50%
Os brasileiros que acham que Lula merece ou não continuar presidente têm números quase idênticos aos que aprovam ou não o seu governo. Na pesquisa Ideia, o Lula 3 apareceu desaprovado por 50% do eleitorado, com 47% que aprovam e 3% que não souberam opinar.
Eleição será definida por 3 pontos?
“A pesquisa mostra a estreita margem de manobra das campanhas presidenciais em 2026. Acreditamos que essa eleição será decidida por 3 pontos percentuais do eleitorado”, apostou Mauricio Moura, economista, pesquisador da George Washington University e fundador do instituto Ideia.
Lula lidera rejeição: 40,8%
Outro levantamento da pesquisa Ideia que revela o terreno movediço sob a liderança de Lula nas intenções de voto. Ele também lidera o índice negativo da rejeição, considerado decisivo em um eventual 2º turno: 40,8% dos brasileiros não votariam no atual presidente de maneira nenhuma.
(Infográfico: Joseli Matias)
Ranking da rejeição
Atrás de Lula na rejeição, vêm Flávio (30%), Michelle (26,1%), Tarcísio (16,2%). Governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) tem 12,8%, seguido de Ratinho (12,5%) e do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), com 12,1%. Entre os nomes de oposição mais cotados a presidente, Caiado tem a menor rejeição: 10,5%.
Na 1ª pesquisa do ano eleitoral de 2026, realizada pelo instituto Ideia, o presidente Lula (PT) apareceu liderando cinco cenários de consulta estimulada ao 1º turno e nove de 2º turno. Neste, o único que ficaria em empate técnico com o petista, na margem de erro de 2,2 pontos para mais ou menos, seria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP).
“Direita só tem um candidato competitivo” — Feita de 8 a 12 de janeiro e divulgada hoje (13), com 2 mil eleitores e registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-06731/2026, a pesquisa Ideia foi feita em parceria com o Canal Meio. Diretor de jornalismo deste, Pedro Doria traduziu os números: “A direita só tem um candidato competitivo: Tarcísio de Freitas. Aquele que o bolsonarismo escanteou.”
No 1º turno — Nos cenários estimulados de 1º turno, Lula ficou à frente de Tarcísio por 7,5 pontos (40,2% de intenção de voto a 32,7%) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) em dois cenários, com demais adversários diferentes. Nos dois, o petista lidera sobre o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por 13,2 pontos (39,7% a 26,5%) e por 12 pontos (39,6% a 27,6%).
Tarcísio e Michelle à frente de Flávio — Ainda no 1º turno, Lula também bateria a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) em dois cenários de consulta estimulada: por 11 pontos (40% a 29%) e 10,4 pontos (40,1% a 29,7%). Se pior que o desempenho de Tarcísio contra Lula, ela pontuou melhor que Flávio, escolhido por Bolsonaro como pré-candidato a presidente do seu grupo em 5 de dezembro.
No 2º turno — Nas 9 simulações de 2º turno, só Tarcísio teve empate técnico com Lula: 44,4% do petista contra 42,1% do governador paulista, 2,3 pontos de vantagem. Que chega a 10,2 pontos de Lula sobre Flávio, a quem bateria no 2º turno por 46,2% a 36%. De novo, Michelle pontuaria melhor que o enteado no 2º turno contra Lula: 39% a 46% do petista, 7 pontos de vantagem.
Ratinho e Caiado também à frente de Flávio — Além de Tarcísio e Michelle, outros dois nomes da direita teriam desempenho melhor que Flávio num eventual 2º turno contra Lula. No qual o governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), perderia por 9 pontos do petista: por 37% a 46%. Governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União) perderia o 2º turno para Lula por 9,8 pontos: 36,5% a 46,3%.
Historiador, professor e crítico de cinema da Folha, Arthur Soffiati é o convidado do Folha no Ar desta terça, ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.
Ele falará dos dois Globos de Ouro conquistados na noite de domingo (11) pelo cinema brasileiro. De melhor filme de língua não inglesa a “O agente secreto”, do diretor Kleber Mendonça Filho, e de melhor ator de drama ao seu protagonista, Wagner Moura.
Do cinema ao filme da História em tempo presente, Soffiati também analisará a captura do ex-ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, dentro de um complexo militar de Caracas, na madrugada do último dia 3, pelos EUA de Donald Trump. E da nova ordem, com base em áreas de influência impostas pela força, que o mundo parece reinaugurar nestes primeiros dias de 2026.
Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
Renée Nicole Good, poeta e mãe de três filhos, morta na quarta com três tiros na cabeça disparados por agentes do ICE de Trump, na cidade de Minneapolis
— E aí? Quer começar por onde? O mundo está de porre? — mandou Leda na mesa do boteco, copo de cerveja já à mão, assim que notou Aníbal se aproximando.
— Já parou pra pensar que o porre pode ter sido o hiato que vivemos entre a queda do Muro de Berlim em 1989 e da União Soviética em 1991, até este ano da Graça de 2026? E que essa ressaca é o estado “sóbrio” da História? — devolveu as indagações Aníbal, sentando à mesa e acentuando as aspas com os dedos médios e indicador das duas mãos. Para deixar só o indicador da direita aberto, esticar o braço e pedir o copo ao garçom para se servir da cerveja já aberta.
— Trump não tem defesa!
— Maduro também não. E, mesmo após 13 anos condenando seu próprio povo à falta de comida e remédios, a milhares de prisões, tortura e assassinatos políticos, à fraude eleitoral comprovada em 2024, ao êxodo de 1/3 dos venezuelanos vivos na Terra, ainda tem gente da esquerda tupiniquim que tenta relativizar.
— Trump é completamente louco.
— Não há nenhuma loucura. Estamos aqui falando de Maduro, não estamos? E não da inflação dos alimentos nos Estados Unidos, reflexo dos tarifaços. Nem do envolvimento cada vez mais evidenciado de Trump com a rede de pedofilia de Epstein, seu ex-parça de balada.
— Sim, de fato, ele dita a pauta. Nos EUA e no mundo.
— A despeito de qualquer juízo moral ou apego à verdade no que diz, é preciso admitir: Trump é um grande comunicador.
— Como Hitler também foi. Só que na era do rádio. Trump é o produto das redes sociais, do algoritmo do ódio. Cujos donos subiram com ele ao poder no segundo mandato de presidente.
— Há diferenças conceituais. O nazifascismo tinha como uma das suas bases o controle estatal da economia. Que, com Trump, fica entregue ao capitalismo sem nenhuma regulação estatal das Big Techs. Mas, sim, há também muitas semelhanças.
— O Maga e o nazismo têm a mesma busca de um passado idealizado e irreal. É o “America First” e o “Deutschland über alles”, o “Alemanha acima de tudo”. E o mesmo critério racial, da polícia de imigração do ICE funcionando como a polícia política da Gestapo.
— Com uma ressalva: a Stasi, polícia política da antiga Alemanha Oriental comunista foi muito maior e durou muito mais tempo que a Gestapo de Hitler. E, não por acaso, veio no pós-II Guerra. Quando começou a bater o porre do mundo, breve, até a queda do Muro de Berlim.
— Você tem sempre que alfinetar minha formação marxista, né? — acusou Leda.
— É maior que isso. Com apoio do PT, de Lula e do Foro de São Paulo que o petróleo da Venezuela ajudou a bancar, não me importa se a ditadura militar de Chávez e Maduro prendeu, torturou e matou mais ou menos do que as ditaduras militares do Chile, Argentina ou Brasil. Todas patrocinadas pelos EUA na Guerra Fria, no mesmo tempo da Stasi e da soviética KGB. Prender, torturar e matar quem pensa politicamente diferente não tem lado do “bem”.
— Se a questão for moral, é o mesmo regime bolivariano de Chávez e Maduro que Trump manteve na Venezuela. Para controlar na cara dura o petróleo do país sul-americano, vizinho do Brasil, que tem as maiores reservas do mundo. Enquanto, nos Estados Unidos, os agentes da ICE matam uma mulher com três tiros na cabeça, à luz do dia. Porque tentou sair de carro, dobrando ao contrário do agente, da abordagem truculenta nas ruas de Minneapolis.
— Sim, na mesma cidade em que um policial local matou George Floyd em 2020, com o joelho sobre sua nuca por minutos, mesmo já algemado e imobilizado de bruços no chão. Que gerou a onda dos protestos do Black Lives Matter nos Estados Unidos e no mundo. Rolou até em Campos, lembra? E ajudou a derrotar Trump nas eleições presidenciais daquele ano.
— E você acha que a execução da Renée Nicole Good, poeta, mãe de três filhos e classificada de “terrorista interna” pelo governo Trump, pode ter o mesmo efeito?
— Na pior das hipóteses, serviu para os estadunidenses natos, brancos e de classe média como Nicole, base do eleitorado de Trump, verem que podem também ser alvo da perseguição do ICE aos imigrantes. Mas, sinto informar, Trump só vai completar um ano do segundo mandato no dia 20 deste mês. Ainda teremos mais três anos disso pela frente.
— Com a América do Sul chamada abertamente de quintal pelo secretário de Defesa de Trump. E com alguns vira-latas sul-americanos aplaudindo.
— Como tem caramelo do lado oposto, que se diz humanista e aplaudiu por 13 anos a ditadura de Maduro. O que a reação à execução de Nicole pode influenciar são as midterms, as eleições de meio de mandato presidencial dos Estados Unidos, em 3 de novembro. Quando serão eleitos todos os novos deputados e mais de 1/3 dos senadores, além de dezenas de governadores.
— Será suficiente?
— Na quinta, dia seguinte à execução de Nicole pelos agentes do ICE de arma na mão e rostos cobertos, como os bandidos dos westerns de John Ford, o Senado dos Estados Unidos aprovou resolução para impedir Trump de tomar novas medidas militares contra a Venezuela sem autorização do Congresso. Com os votos de cinco senadores republicanos, partido de Trump.
— Repito, Aníbal: será suficiente?
— Na marra, como Trump provou ao capturar Maduro e a mulher dentro de um complexo militar de Caracas, não há a menor chance.
— Que falta não faz uma bomba atômica, né?
— É fato. E é a ressaca da realidade. Depois do que os Estados Unidos de Trump fizeram na Venezuela, tem a Rússia de Putin na Ucrânia e no Leste Europeu, a China de Xi Jinping em Taiwan e na Ásia, e o Israel de Netanyahu na Palestina e Oriente Médio. São todos potências nucleares. E devem se sentir no mesmo direito de reinaugurar o imperialismo nos seus… quintais.
— Tem também a Índia do tal Narendra Modi, que é o país cujo PIB mais cresce no mundo, superou a China em população, tem bombas atômicas e tecnologia própria de mísseis.
— Pois é. E por que não pode fazer o mesmo com seu rival regional Paquistão? Porque este também tem bomba atômica. A quem não tem, tem a ressaca de Sartre. Ao testemunhar as tropas nazistas entrarem vitoriosas na sua França em 1940, ele constatou: “O que tínhamos a opor-lhes?” — ecoou Aníbal no boteco. E não achou resposta sóbria.
André Ceciliano, Lula e Cláudio Castro (Montagem: Joseli Matias)
Ceciliano à sucessão de Castro?
A eleição indireta da Alerj a governador passou a interessar diretamente a eleição a presidente da República. Com as pesquisas a governador no Nordeste apontando um quadro menos favorável a 2026 do que lhe foi em 2024, o PT vai precisar mais do RJ para tentar reeleger Lula. Por isso o partido lançaria seu nome a suceder Castro: André Ceciliano, ex-presidente da Alerj.
Pragmatismo dos dois lados
Como Garotinho, o PT também tem um pé atrás na possível aliança com Paes. Que, com a maioria bolsonarista entre os fluminenses nas eleições presidenciais de 2018 e 2022, realmente teria mais chances a governador sem abraçar Lula. Pragmatismo de um lado e do outro, Ceciliano no governo pós-Castro garantiria ao presidente o palanque no RJ.
Aliado de Bacellar, até que este exonerou (confira aqui) o ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis (MDB) da secretaria estadual de Transportes em 3 de julho, o próprio governador Cláudio Castro (PL) receia o que pode estar nos celulares apreendidos. Pré-candidato a senador bem cotado nas pesquisas, para se candidatar, teria que se desligar do governo do RJ até 4 de abril.
Miccione como governador-tampão?
Como o blog noticiou na última terça (7), Castro quer (confira aqui) fazer seu secretário da Casa Civil, Nicola Miccione (PL), governador-tampão até 2027. Mas tem algumas pedras no meio do caminho.
Vacância na sucessão
Thiago Pampolha (MDB) deixou o cargo de vice-governador para ir (confira aqui) ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), em 19 de abril, como o blog detalhou (confira aqui) 10 dias antes. Em dezembro, com o afastamento de Bacellar da presidência da Alerj, quem a assumiu foi o deputado Guilherme Delaroli (PL). Mas, por ser interino, ele está fora da linha de sucessão a governador.
Força com e sem a cadeira
Quem assumiria com a renúncia de Castro seria (confira aqui) o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), desembargador Ribeiro de Castro. Que teria até 30 dias para realizar a eleição indireta a governador na Alerj. Para eleger Miccione, a força de Castro durará enquanto ele estiver na cadeira de governador. Trinta dias depois, essa força é da Alerj.
E Bacellar? Como ele e seu grupo irão para as eleições de outubro? Esta semana, foi especulado por sites cariocas que ele poderia concorrer em outubro a deputado federal, para fortalecer a nominata do União. Mas, dele ou de seus aliados, ninguém confirma a intenção.
Revés com Moraes
Preso em 3 de dezembro (confira aqui, aqui e aqui) pela Polícia Federal (PF), acusado de vazar informações da prisão do ex-deputado TH Joias em 3 de setembro, por ligação deste com o Comando Vermelho, Bacellar foi solto (confira aqui) em 9 de dezembro. Mas saiu afastado da presidência da Alerj, entre outras medidas cautelares impostas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
Licença estratégica
Em 10 de dezembro, Bacellar pediu licença do mandato de deputado estadual. Como a coluna explicou (confira aqui) no dia 13: a licença poderia ser de até 120 dias, mas foi pedida de apenas 10 para emendar com o recesso parlamentar até o carnaval, em fevereiro.
Celulares e prisões
Foi (confira aqui) o celular de TH Joias que gerou a prisão de Bacellar. Cujos celulares geraram a prisão, no dia 16, do (confira aqui) desembargador federal Macário Júdice Neto. Que teria passado ao então presidente da Alerj a informação da prisão do deputado faccionado. Celulares de Macário também foram apreendidos pela PF, assim como (confira aqui) do campista Rui Bulhões, ex-chefe de gabinete de Bacellar.
Eleitoral espera jurídico
Até que se saiba se todos esses celulares apreendidos gerarão ou não mais operações da PF no RJ, como a Zargun, a Unha e Carne e Unha e Carne 2, Bacellar não tomará nenhuma decisão. Seu futuro político e eleitoral vai esperar sua situação jurídica ficar mais clara.