
— E aí? Quer começar por onde? O mundo está de porre? — mandou Leda na mesa do boteco, copo de cerveja já à mão, assim que notou Aníbal se aproximando.
— Já parou pra pensar que o porre pode ter sido o hiato que vivemos entre a queda do Muro de Berlim em 1989 e da União Soviética em 1991, até este ano da Graça de 2026? E que essa ressaca é o estado “sóbrio” da História? — devolveu as indagações Aníbal, sentando à mesa e acentuando as aspas com os dedos médios e indicador das duas mãos. Para deixar só o indicador da direita aberto, esticar o braço e pedir o copo ao garçom para se servir da cerveja já aberta.
— Trump não tem defesa!
— Maduro também não. E, mesmo após 13 anos condenando seu próprio povo à falta de comida e remédios, a milhares de prisões, tortura e assassinatos políticos, à fraude eleitoral comprovada em 2024, ao êxodo de 1/3 dos venezuelanos vivos na Terra, ainda tem gente da esquerda tupiniquim que tenta relativizar.
— Trump é completamente louco.
— Não há nenhuma loucura. Estamos aqui falando de Maduro, não estamos? E não da inflação dos alimentos nos Estados Unidos, reflexo dos tarifaços. Nem do envolvimento cada vez mais evidenciado de Trump com a rede de pedofilia de Epstein, seu ex-parça de balada.
— Sim, de fato, ele dita a pauta. Nos EUA e no mundo.
— A despeito de qualquer juízo moral ou apego à verdade no que diz, é preciso admitir: Trump é um grande comunicador.
— Como Hitler também foi. Só que na era do rádio. Trump é o produto das redes sociais, do algoritmo do ódio. Cujos donos subiram com ele ao poder no segundo mandato de presidente.
— Há diferenças conceituais. O nazifascismo tinha como uma das suas bases o controle estatal da economia. Que, com Trump, fica entregue ao capitalismo sem nenhuma regulação estatal das Big Techs. Mas, sim, há também muitas semelhanças.
— O Maga e o nazismo têm a mesma busca de um passado idealizado e irreal. É o “America First” e o “Deutschland über alles”, o “Alemanha acima de tudo”. E o mesmo critério racial, da polícia de imigração do ICE funcionando como a polícia política da Gestapo.
— Com uma ressalva: a Stasi, polícia política da antiga Alemanha Oriental comunista foi muito maior e durou muito mais tempo que a Gestapo de Hitler. E, não por acaso, veio no pós-II Guerra. Quando começou a bater o porre do mundo, breve, até a queda do Muro de Berlim.
— Você tem sempre que alfinetar minha formação marxista, né? — acusou Leda.
— É maior que isso. Com apoio do PT, de Lula e do Foro de São Paulo que o petróleo da Venezuela ajudou a bancar, não me importa se a ditadura militar de Chávez e Maduro prendeu, torturou e matou mais ou menos do que as ditaduras militares do Chile, Argentina ou Brasil. Todas patrocinadas pelos EUA na Guerra Fria, no mesmo tempo da Stasi e da soviética KGB. Prender, torturar e matar quem pensa politicamente diferente não tem lado do “bem”.
— Se a questão for moral, é o mesmo regime bolivariano de Chávez e Maduro que Trump manteve na Venezuela. Para controlar na cara dura o petróleo do país sul-americano, vizinho do Brasil, que tem as maiores reservas do mundo. Enquanto, nos Estados Unidos, os agentes da ICE matam uma mulher com três tiros na cabeça, à luz do dia. Porque tentou sair de carro, dobrando ao contrário do agente, da abordagem truculenta nas ruas de Minneapolis.
— Sim, na mesma cidade em que um policial local matou George Floyd em 2020, com o joelho sobre sua nuca por minutos, mesmo já algemado e imobilizado de bruços no chão. Que gerou a onda dos protestos do Black Lives Matter nos Estados Unidos e no mundo. Rolou até em Campos, lembra? E ajudou a derrotar Trump nas eleições presidenciais daquele ano.
— E você acha que a execução da Renée Nicole Good, poeta, mãe de três filhos e classificada de “terrorista interna” pelo governo Trump, pode ter o mesmo efeito?
— Na pior das hipóteses, serviu para os estadunidenses natos, brancos e de classe média como Nicole, base do eleitorado de Trump, verem que podem também ser alvo da perseguição do ICE aos imigrantes. Mas, sinto informar, Trump só vai completar um ano do segundo mandato no dia 20 deste mês. Ainda teremos mais três anos disso pela frente.
— Com a América do Sul chamada abertamente de quintal pelo secretário de Defesa de Trump. E com alguns vira-latas sul-americanos aplaudindo.
— Como tem caramelo do lado oposto, que se diz humanista e aplaudiu por 13 anos a ditadura de Maduro. O que a reação à execução de Nicole pode influenciar são as midterms, as eleições de meio de mandato presidencial dos Estados Unidos, em 3 de novembro. Quando serão eleitos todos os novos deputados e mais de 1/3 dos senadores, além de dezenas de governadores.
— Será suficiente?
— Na quinta, dia seguinte à execução de Nicole pelos agentes do ICE de arma na mão e rostos cobertos, como os bandidos dos westerns de John Ford, o Senado dos Estados Unidos aprovou resolução para impedir Trump de tomar novas medidas militares contra a Venezuela sem autorização do Congresso. Com os votos de cinco senadores republicanos, partido de Trump.
— Repito, Aníbal: será suficiente?
— Na marra, como Trump provou ao capturar Maduro e a mulher dentro de um complexo militar de Caracas, não há a menor chance.
— Que falta não faz uma bomba atômica, né?
— É fato. E é a ressaca da realidade. Depois do que os Estados Unidos de Trump fizeram na Venezuela, tem a Rússia de Putin na Ucrânia e no Leste Europeu, a China de Xi Jinping em Taiwan e na Ásia, e o Israel de Netanyahu na Palestina e Oriente Médio. São todos potências nucleares. E devem se sentir no mesmo direito de reinaugurar o imperialismo nos seus… quintais.
— Tem também a Índia do tal Narendra Modi, que é o país cujo PIB mais cresce no mundo, superou a China em população, tem bombas atômicas e tecnologia própria de mísseis.
— Pois é. E por que não pode fazer o mesmo com seu rival regional Paquistão? Porque este também tem bomba atômica. A quem não tem, tem a ressaca de Sartre. Ao testemunhar as tropas nazistas entrarem vitoriosas na sua França em 1940, ele constatou: “O que tínhamos a opor-lhes?” — ecoou Aníbal no boteco. E não achou resposta sóbria.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
