(Re)divisão, em cifras, da Saúde Pública de Campos

(Fotos: Silésio Corrêa e Valmir Oliveira / Infografia: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Fotos: Silésio Corrêa e Valmir Oliveira / Infografia: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Ao conversar hoje, pela manhã, com um profundo conhecedor da Saúde de Campos e região, impossível deixar de registrar sua revolta com os dois fatos ligados ao setor, ocrridos ontem e reunidos hoje na primeira dobra da capa da edição impressa da Folha.

O primeiro, dando conta da atitute do secretário de Saúde Paulo Hirano, não só ao negar um atraso no repasse aos cinco hospitais conveniados da cidade (Santa Casa, Beneficiência, Plantadores, Álvaro Alvim, João Viana), como na afirmação de que não seria uma obrigação da municipalidade manter os pagamentos por serviços prestados e acordados em contrato.

O segundo assunto, fartamente noticiado na mídia há três dias, foi a assunção ontem do vice-prefeito, Chicão de Oliveira, da Fundação Municipal de Saúde (FMS), criada para unificar o controle das fundação João Barcelos Martins (antes responsável pelo hospitais Ferreira Machado, São José, de Travessão, de Ururaí, de Santo Eduardo e dos PUs da Saldanha Marinho e de Guarus) e Geraldo Venâncio (do Hospital Geral de Guarus).

Em relação às declarações de Hirano, a fonte da Saúde fez a analogia do inadimplente que não salda em dia suas dívidas e ainda ameaça ao contestar sua obrigação de continuar pagando o previamente acordado.

Já em relação à escolha de Chicão, o questionamentos se dá pela fusão das duas Fundações para legar a uma só pessoa, intimamente ligada ao casal Garotinho, o controle orçamentário — e, por conseguinte, do bolso dos servidores das oito unidades de saúde municipais— que antes cabia a Ricardo Madeira e Edson Batista, agora, respetivamente, apenas diretores do HFM e do HGG.

E, em relação tanto a uma impressão, quanto à outra, a fonte garantiu que são ambas correntes no meio de quem milita com Saúde em Campos.

Mas o que isso tudo quer dizer à nível prático? O blogueiro foi buscar no orçamento aprovado para 2011 e encontrou as previsões de R$ 44,563 milhões à secretaria de Saúde, de R$ 209 milhões à Fundação Municipal de Saúde, de R$ 149,724 milhões à Fundação Barcelos Martins e de R$ 93,067 milhões à Fundação Geraldo Venâncio.

Com base apenas nessas cifras previstas para 2011, sem contar os milionários recursos repassados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), as suplementações aprovadas e a aprovar pela Câmara Municipal e os eventuais remanejamentos orçamentários, significa dizer que, a partir de agora, fica assim: Paulo Hirano controla anualmente R$ 253,563 milhões (secretaria mais Fundo de Saúde), cabendo a Chicão, R$ 242,791 milhões (ou o que restou disso para o resto do ano) pela união das duas Fundações.

Por mais redundante que possa parecer, não custa lembrar que essa divisão quase exata, tirando milhão pra cá, milhão pra lá, é de dinheiro público.

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Sérgio Mendes critica isolacionismo regional do governo Rosinha

Por Thiago Andrade

O ex-prefeito de Campos, Sérgio Mendes, venceu o pleito municipal em 1993 aos 32 anos e saiu do governo em 96, enfrentando duas CPIs capitaneadas pelo ex-aliado Anthony Garotinho. Na época, os dois eram do PDT e caminharam juntos na campanha. Agora, aos 50 anos, Sérgio é presidente do Diretório Municipal do PPS e um dos nomes que fortalecem a Frente Democrática de Oposição na tentativa de impedir que o grupo do atual deputado federal Anthony Garotinho (PR) consiga a sucessão na Prefeitura de Campos. Sérgio define a administração da prefeita Rosinha Garotinho como vazia, de improviso e sem planejamento para o futuro. “Eles não têm prioridades na administração, estão apenas interessados em esculhambar governos alheios para tomar as Prefeituras da região. Com isso, praticam a política do isolacionismo e fazem de Campos um município cada vez mais atrasado”.

 

(Foto de Phillipe Moacyr)
(Foto de Phillipe Moacyr)

 

Folha — Você foi prefeito de Campos de 1993 a 96. Como foi sua administração e qual sua opinião sobre a administração atual?

Sérgio Mendes — Comecei na política ainda nos movimentos estudantis, na década de 80. Participei do primeiro governo do Garotinho, de 89 a 92, como secretário de Governo, presidente da Empresa de Habitação e secretário de Governo. Depois, aos 32 anos, fui eleito prefeito. A arrecadação anual naquela época era de R$ 75 milhões, nos quatro anos foi de mandato foi de R$ 350 milhões. Atualmente, por mês, são R$ 166 milhões, o que dá R$ 5,5 milhões por dia. Tínhamos o ideal, e fizemos, políticas concretas e estruturantes para Campos. Fizemos um movimento para que as empresas que exploravam o petróleo deixassem o ISS em Campos. Elas atuavam aqui, mas o escritório de muitas ficava em outras cidades. Deixamos isso encaminhado, mas os prefeitos que vieram depois não deram continuidade. Além de lutar para que a Petrobras trouxesse o gás para Campos. Outro ponto também foi a implantação da Uenf, em 1993 e rompemos o contrato com a Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos), que abastecia muito mal a cidade, com água de péssima qualidade. Abrimos a concorrência pública e a Águas do Paraíba entrou, com planos e metas para resolver a questão do saneamento. Não tem sentido o que está sendo feito: Campos é o maior município do Rio e não tem planejamento. A cidade cresce verticalmente e no Centro, isso estrangula o município, acaba com a ventilação e com a parte histórica da cidade.

 

Folha — A falta de planejamento seria então a principal diferença entre os governos?

Sérgio Mendes — Falta muito planejamento. Por dia, o município recebe mais de R$ 5 milhões. É claro que não tem foco ou visão de futuro. Essa é a verdade. É um governo de improviso e consegue ser assim mesmo com toda experiência que o casal possui. As casas populares têm uma tomada de preço de R$ 357 milhões arredondados. Desse número, foram pagos R$ 235 milhões no ano passado à empresa e só pouco mais de 700 casas entregues, de um total de 5.100. No início da Frente Democrática, no fim do ano passado, apertamos com cobranças e eles entregaram mais algumas. Agora acho que está em torno de 1.100. A alegação é que a infra-estrutura era mais cara, por isso pagaram mais, agora é a parte de alvenaria e seria mais barata, o que não é verdade. O Ministério Público pode entrar em ação. Afirmo, vai chegar na campanha e não entregam todas. Por falta de planejamento financeiro. É inominável o que fazem com a educação de Campos. Ficamos em penúltimo lugar do estado no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Base) no ano passado. O município é rico, mas não adianta reformar prédios se não investirmos na alma da educação e no corpo docente. Os professores estão nas ruas com movimentos pedindo melhorias. Todo mundo sabe dessa situação. Não há determinação nem vontade política. O governo não tem prioridades. O programa Navegar é Preciso, que levaria internet para a população, está parado por que não interessa que o povo tenha acesso à internet. O líder deles sabe que a rede virtual é uma arma na mão do povo e ele quer frear isso. A internet tem força pra fiscalizar os governos, até mais do que os poderes instituídos. Pra quem tem vocação para Hugo Chávez isso não interessa, por isso pararam. Não estão preocupados com o povo, mas sim apenas com obras suntuosas como o sambódromo. Vão dizer que Sérgio Mendes é contra a felicidade do povo, mas temos que ter prioridades como saúde educação em dia.

 

Folha — Você falou em falta de metas e prioridades políticas. Quais os problemas que um governo desse tipo pode acarretar para o município?

Sérgio Mendes — A forma como esse grupo faz política está provocando o isolacionismo da nossa cidade. Não estou aqui defendendo A ou B, mas o casal esculhamba o governo de Carla Machado (prefeita de São João da Barra), mas querem só tomar a cadeira dela. Fazem isso com Quissamã, Macaé, com o governador, mas não estão preocupados com nenhum desses municípios ou com o Rio de Janeiro, querem apenas tomar as cadeiras desses prefeitos e do governador. Uma coisa é a campanha, você tem adversários e quer mostrar para a população as diferenças e o que você pode fazer de bom pela cidade. Acabou a campanha, temos que agir republicanamente, sentar à mesa com todos e discutir parcerias. O Porto do Açu vai ser uma explosão de crescimento para toda a região. Campos poderia liderar um movimento unindo todos, sem política belicosa, baixa, mesquinha. A estrada vai sair de lá e passar pelos municípios, temos que pensar na macro-região que será criada. Falta equilíbrio e serenidade. Isso atravanca nossa cidade, traz prejuízos enormes para nós.

 

Folha — Sobre a Frente Democrática, acha que seu nome pode ser um dos escolhidos para disputar a eleição? Como está a coligação neste momento: fortalecida e coesa ou acha que muita coisa pode acontecer, como um racha, até o ano que vem?

Sérgio Mendes — É importante ressaltar que os partidos políticos constituídos têm obrigação de representar e atuar como a vanguarda da cidade. Longe de mim ter a pretensão de que nós somos os donos da verdade. O que temos é a obrigação histórica de fiscalizar e denunciar os desmandos que estão acontecendo e, paralelamente, temos que ser agentes provocadores de novas discussões sobre: onde estamos, porque estamos caminhando desta forma e para onde queremos levar Campos dos Goytacazes? Muitas vezes, sem querer usurpar o poder de fiscalização da Câmara Municipal, dos Ministérios Públicos Federal e Estadual, temos contribuído para que as irregularidades e/ou ilegalidades administrativas não sejam varridas para debaixo do tapete. O convívio semanal, permanente, com os membros da Frente tem nos fortalecido enquanto grupo, sobretudo, de uma forma democrática, tem nos apontado rumos para caminharmos na mesma direção, em virtude do bem comum, da coletividade.

 

Folha — Alguma idéia do por que o seu nome não está na lista do Precisão? Acha que pode ser uma surpresa nas eleições de 2012 e aparecer como um nome forte contra o casal Garotinho?

Sérgio Mendes — Eu rompi com este grupo que está no poder há 16 anos, ao contrário do que disseram na minha sucessão, na eleição de1996, eu anulei o meu voto porque não acreditava mais em quem estava me sucedendo. Já tinha a convicção, de que aquele pseudo-líder, que estava subindo meteoricamente, tinha um projeto muito mais pessoal do que coletivo. Fui incompreendido, execrado publicamente. Abriram ao longo destes anos, duas CPIs contra nosso governo, e nada, absolutamente nada, ficou provado contra mim. Porém, ele atingiu seu objetivo politicamente, que foi me desgastar perante a opinião pública. Pois bem, feito isto, a vontade dele, era que eu me acovardasse, e saísse da cidade. Mas, sempre tive minhas convicções, e sabia que “a justiça tarda, mas não falha”. Hoje, talvez eu não esteja figurando nesta pesquisa, feita pelo instituto Preci$ão, porque o menino da Lapa, no seu subconsciente, quer ainda me riscar do mapa municipal. Eu, com certeza, sou um dos poucos que rompi e nunca mais voltei a recompor com este grupo. Olha que não foi por falta de convites. Agora, muito mais importante do que ser esse nome forte para a sucessão do casal, é participar da promoção de um debate altivo, discutir idéias, tentar elevar o tom político do nosso município. Precisamos dar uma demonstração de civilidade, de respeito aos adversários.

 

Folha — Já fez ou pretende fazer algum tipo de pesquisa de opinião para saber a aceitação do seu nome entre a população de Campos? Teme algum tipo de rejeição que possa derrubar sua candidatura antes mesmo dela nascer?

Sérgio Mendes — Esta não pode ser efetivamente a nossa preocupação, nem a tônica do nosso comportamento. Temos que entrar neste jogo democrático, conforme afirmei na resposta anterior, com espírito público, com vontade de contribuir para políticas públicas de qualidade. De uma forma, ou de outra, vamos olhar nos olhos dos nossos adversários, do nosso povo, e afirmar que é possível andar por um caminho de desenvolvimento econômico, social, sobretudo com sustentabilidade, de uma forma absolutamente responsável. Feito isto, já estaremos cumprindo o nosso papel histórico. Por último, devo afiançar que qualquer pesquisa quantitativa, hoje, é muito prematura. O importante neste momento é uma pesquisa qualitativa, que vai nos dar uma idéia do sentimento de todas as camadas sociais da população. Ela sim poderá nortear os nossos rumos. No mais, o que se divulgou recentemente, no meu ponto de vista, é marketing dos desesperados.

 

Folha — O deputado federal Anthony Garotinho disse que “a Frente cabe toda dentro de uma van”. O senhor acredita que a coligação pode levar a melhor sobre o casal Garotinho? E quanto aos vereadores? Garotinho disse que a oposição vai fazer “apenas quatro ou cinco”.

Sérgio Mendes — A sabedoria popular me encanta muito, e ela diz: “Ninguém atira pedras em árvores que não dá bons frutos”. Dito isto, devo aconselhar ao menino da Lapa, sem querer ser pretensioso, que aprendi com as lições da vida, que a arrogância, a soberba, a presunção, cegam os homens, de bem, é claro. Todos têm o direito de arriscar palpites, faltando um ano e três meses para as eleições, porém política não é matemática exata. Talvez serenidade e bom senso não sejam o forte desse pseudo-líder tupiniquim.

 

Folha — Garotinho disse que sua administração foi a pior dos últimos tempos em Campos. Qual sua relação com o deputado e qual a opinião sobre as administrações dele na município?

Sérgio Mendes — Respeito profundamente a opinião dele. Como dizia o saudoso Nelson Rodrigues: “toda unanimidade é burra”. Mas, no meu ponto de vista, ele deveria estar mais preocupado com o governo da prefeita cantora. Temos acompanhado a falta de planejamento estratégico e financeiro deste governo. Estratégico, porque da forma que eles se comportam, geram  o isolamento total da nossa cidade. Infelizmente, seu “sonho de consumo” é mesmo ser o Hugo Chávez regional. Até porque a ambientação é muito propícia, na medida em que os municípios produtores de petróleo poderiam, com certeza, figurar hoje, na Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo). Só que devo lembrar a este cidadão, que Hosni Mubarak (ex-ditador do Egito) já está no banco dos réus, Pinochet no Chile já teve o mesmo caminho, Sadam Husseim teve um final mais trágico, enfim, todos os ditadores foram para a lata de lixo da história. Financeiro, porque é inadmissível que uma cidade que arrecada quase R$ 2 bilhões esteja experimentando amargamente atraso nos pagamentos de entidades sociais. Da mesma forma, empreiteiras parando obras porque não recebem suas medições, inclusive com a afirmação do Presidente do Sindicato da Construção Civil, de demissão de mais de 2.000 trabalhadores. Onde está esse dinheiro? Com a palavra a prefeita cantora. Ela nos deve esta satisfação pública, sincera, sem tergiversar. Ou talvez os Ministérios Públicos Estadual e Federal possam dirimir nossas indagações. Gostaria de deixar para nossa reflexão, uma estrofe da “Marcha da Quarta-Feira”, composta pelo poetinha Vinícius de Moraes e Carlos Lira: “E no entanto é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar, é preciso cantar e alegrar a cidade”. Talvez seja este o pensamento da prefeita cantora.

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Gersinho fala em lançar candidatura alternativa à Prefeitura de SJB

Após sua importante vitória na votação e aprovação da LDO, no último dia 28, a prefeita sanjoanense Carla Machado abriu aqui, no blog do Esdras, a possibilidade de diálogo com a oposição na Câmara, sobretudo com Gersinho, presidente da Casa, que pertence ao seu partido. O blogueiro se interessou em conhecer a resposta, estendida nas circunstâncias apresentadas pelo vereador, inclusive às possibilidades dele se lançar por outro partido, numa candidatura alternativa à Prefeitura, em 2012…

 

(Foto de Mariana Ricci)
(Foto de Mariana Ricci)

 

Diálogo com Carla  — A Câmara sempre pregou o diálogo. Nós dois somos do mesmo partido, mas isso pode tanto unir, quanto às vezes impedir. O que ela sinalizou para o Esdras, a Câmara já vem sinalizando para ela há muito tempo. 

Ressentimentos antigos — Nas duas vezes que tentei ser presidente da Casa, meu diálogo com Carla não adiantou, e ela fez o Neco (na Legislatura passada). Na primeira (2005/06), até entendi, porque ela tinha uma dívida política com o Neco, mesmo que eu tenha sido o vereador mais votado, critério que tínhamos combinado para definir o presidente. Mas na segunda (2007/08), que ela havia combinado que seria eu, Carla antecipou a eleição da Mesa Diretora, com votação na véspera do Carnaval, sem avisar a mim ou ao Alexandre, e fez o Neco de novo.

Revanche — Na eleição municipal de 2008, depois do resultado, quando já sabia que tinha sido o candidato mais votado, Neco quis fazer uma lei para usar isso como critério oficial da escolha do presidente do biênio seguinte (2008/09), para ficar pela terceira vez. Eu e Alexandre derrubamos isso na Justiça.

Da situação à oposição — Fizemos uma reunião com os vereadores (da situação) Jonas (PMDB) e Aluizio Siqueira (PTB), propondo o sorteio para definir o presidente, mas sem o Neco, que já tinha sido duas vezes. Carla não aceitou. Aí, eu e Alexandre nos juntamos aos vereadores da oposição: Franques (PDT), Kaká (PDT) e Camarão (PPS). 

Oposição sistemática — Elegemos Alexandre (2009/10), mas mesmo assim, dissemos que não iríamos fazer oposição sistemática à prefeita. Ela não aceitou porque disse que era uma vitória de Alexandre, não dela. Aí, viramos oposição mesmo.

Enfim, a presidência — Nós cinco havíamos combinado que eu seria o presidente no biênio seguinte (2011/12), já que os outros três da oposição, diferentes de mim e de Alexandre, eram vereadores de primeiro mandato.

Ressentimentos recentes — Em 2011, os vereadores governistas entraram com um requerimento para me destituir do cargo de presidente. Agora, entraram no Ministério Público contra mim por improbidade administrativa. Para qualquer evento oficial da Prefeitura, eu não sou convidado, mesmo sendo presidente da Câmara e do mesmo partido.

Possibilidade de reconciliação — Não diria que é impossível, mas que é difícil, é. Eu jamais ficaria a favor do que foi feito nas desapropriações com o pessoal do 5º distrito, que é meu reduto eleitoral. Não há mais confiança. Grupo político é como casal: se não há confiança, que se separe. Pode até se reconciliar, mas desde que volte a confiança.

Candidatura à Prefeitura — Todo jogador sonha em chegar à Seleção. Acho que tenho chances, sim, de ser candidato (a prefeito) pelo PMDB (em 2012). Há cerca de 15 dias, estive com (Jorge) Picciani (presidente estadual do PMDB), no Rio, e fui muito bem recebido e tratado.

Candidatura a prefeito por outro partido — Sou fiel ao PMDB, como fui fiel ao PDT no passado. Temos que esperar as coisas acontecerem. Minha decisão pode ser tomada até 6 de outubro. Até lá, são mais de dois meses. O PP do (senador Francisco) Dornelles pode ser uma opção, entre vários outros partidos.

Oposição na Câmara com candidatura alternativa — Li no seu blog que Wladimir fechou com Betinho para prefeito. Assim mesmo, Kaká e Camarão ficariam fechados comigo. Franques, embora do grupo, realmente é mais ligado a Betinho.

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Odisséia: “Makhoul é nome de consenso dentro do PT”

(Foto de Silésio Corrêa)
(Foto de Silésio Corrêa)

“Se Makhoul aceitar o convite que lhe fizemos, lógico que eu abro mão, em favor dele, da candidatura do PT à Prefeitura em 2012. Meu projeto não é pessoal, mas de partido. E Makhoul é um nome de consenso dentro do PT”. Foi o que a vereadora Odisséia Carvalho garantiu agora há pouco ao blogueiro, confirmando tanto a possibilidade de disputar a reeleição na Câmara em 2012, quanto a revelação do convite petista ao seu ex-candidato nas eleições majoritárias de 2004 (33.628 votos, em 4º lugar) e 2006 (na 3ª posição, com votação de 23.508,)

A vereadora considera que Makhoul não só é um nome novo entre aqueles que vinham sendo especulados na oposição, como também agrega um patamar eleitoral já consolidado pelas recentes corridas à Prefeitura que disputou, característica que divide com Arnaldo Vianna (PDT) e Odete Rocha (PCdoB). Um dos três pré-candidatos do PPS, Sérgio Mendes também já disputou (e conquistou) o Executivo municipal, mas na década retrasada (1992/96), com residual bem mais remoto na mente do eleitorado.

Segundo revelou Odisséia, o contato inicial com Makhoul partiu do advogado Edinho Rangel, sendo depois participado a ela, ao presidente Eduardo Peixoto, ao Marcão (líder do grupo de Renato Barbosa) e ao Hélio Anomal. Posteriormente, a vereadora e Eduardo conversaram pessoalmente com o ex-petista, reiterando o convite ao seu retorno com vistas à mais uma disputa para prefeito.

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PMDB de Carla e PT de Odisséia querem Makhoul

(Fotos: Folha da Manhã / Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Fotos: Folha da Manhã / Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Sempre bem informado, o jornalista e blogueiro Saulo Pessanha revelou aqui que a vereadora petista Odisséia Carvalho, no lugar de uma candidatura à Prefeitura de Campos, vai mesmo tentar a reeleição na Câmara Municipal em 2012. Usando do mesmo pragmatismo que deu ao seu grupo a hegemonia no PT de Campos, a decisão não está incorreta, ao declinar da condição de franco-atiradora no enfrentamento direto contra a prefeita Rosinha, optando pelas chances menos arriscadas de manter em seu partido um mandato legislativo que, segundo Geraldo Pudim afirmou aqui, foi conquistado com os votos pessoais do saudoso vereador Renato Barbosa.

Embora a vaga na disputa da Prefeitura, caso o PT decida mesmo lançar candidatura própria, baste para reacender os delírios natimortos dos aloprados locais do partido, no plano real de quem tem garrafas para vender, sobem as chances de Hélio Anomal, candidato a vice de Arnaldo Vianna em 2008. Todavia, o mesmo nome que Carla Machado já havia convidado para ingressar no PMDB de Campos, também já foi sondado por Odisséia e seu marido, Eduardo Peixoto, para ingressar nas hostes petistas, com o mesmo objetivo: dotar a legenda de um nome com residual eleitoral na disputa majoritária.

A pedido da fonte, o blogueiro havia mantido seu anonimato, mesmo após confirmar desde a última sexta (aqui), com Carla Machado, o convite que ela lhe fez. Com a informação desse outro convite, feito também pelos petistas, a autorização devida foi dada para nomear essa outra possibilidade, não de ingresso, mas de REingresso. O fato é que o PMDB de Carla e o PT de Odisséia e Eduardo querem Makhoul Moussalém.

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Governo Rosinha já gastou em oito meses a grana que tinha que durar mais cinco?

 

Atrasos no pagamento de obras, nos repasses aos hospitais conveniados e às instituições assistenciais? Prefeitura de orçamento bilionário e sem dinheiro? Qual o motivo possível?

Ainda as emendas individuais que teriam sido concedidas generosamente aos vereadores, apaziguados em uníssono na gestão interina de Nelson Nahim na Prefeitura? Algo a ver com a saída ainda nebulosa de Francisco Esquef da secretaria municipal de Finanças? Tentativa de fazer caixa para gastar em dobro em 2012, ano em que a prefeita tentará a reeleição?

Segundo uma fonte do primeiro escalão da administração Rosinha, nada disso! O motivo real, londe das atenuantes farsescas que os governistas encenam aos olhos do povo e da mídia, é muito mais elementar: a Prefeitura simplesmente já teria gasto praticamente todos os R$ 1,9 bilhão previstos para durar por ainda mais cinco meses.

É a mesma fonte que diz não entender porque o governo ao qual integra simplesmente não admite isso diante do dono de fato da grana: nós, o respeitável(?) público.

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Arnaldo Mattoso: Não serei vice, nem candidato a vereador

“Uma coisa é certa: vice eu não serei. Muito menos candidato a vereador, o que romperia meu compromisso com os pré-candidatos ao Legislativo que me apoiaram internamente”. Foi o que garantiu ao blogueiro o ex-prefeito e atual secretário de Educação de Quissamã, Arnaldo Mattoso (PMDB), preterido pela vereadora petista Fátima Pacheco na disputa interna da pré-candidatura da situação à eleição majoritária de 2012, a partir da pesquisa do IBPS, que teve alguns números revelados no post anterior.

Confirmando o que prefeito Armando Carneiro havia dito antes ao blog, Arnaldo reagiu com aparente elegância diante da definição interna desfavorável:

— Reconheço o resultado e tenho um compromisso com Armando. E este compromisso pressupõe que eu apóie a candidata definida pelo grupo a partir da pesquisa. Participei da definição deste critério e acompanhei todo o processo. Se não questionei antes, não posso fazê-lo agora. O momento requer muita tranquilidade — disse Mattoso, revelando ainda desconhecer a informação de que a primeira dama e secretária de Saúde de Quissamã, Alexandra Moreira, tenha tido qualquer interferência no processo de escolha.

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Quissamã: Armando revela números de Fátima e Arnaldo na pesquisa que Octávio lidera

Em relação à pesquisa do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS), coordenada pelo cientista político Geraldo Tadeu, professor da Uerj, ouvindo mil pessoas em Quissamã, nos dias 18 e 19 de julho, visando o pleito majoritário de 2012, o blogueiro teve acesso a alguns números, passados por telefone pelo prefeito daquele município, Armando Carneiro (PSC). Embora só tenha revelado os percentuais atingidos por seus então dois pré-candidatos, a veredora Fátima Pacheco (PT) e o ex-prefeito e secretário de Educação Arnaldo Mattoso (PMDB), que fizeram definir seu apoio desde já pela primeira, Armando admitiu que o ex-prefeito Octávio Carneiro (PP) lidera as amostragens espontânea e estimulada. Abaixo, o que foi revelado ao blog…

 

(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na verdade, através da sua assessoria, Armando Carneiro entrou em contato com o blogueiro para questionar alguns pontos da matéria publicada hoje, na edição impressa da Folha, noticiando a definição de Fátima Pacheco como sua pré-candidata em 2012, a partir da pesquisa do IBPS. A ressalva do prefeito se centrou, sobretudo, na informação que creditava a escolha também a uma opção pessoal da secretária de Saúde e primeira dama daquele município, Alexandra Moreira.

Embora não assinada, a matéria foi apurada e redigida pelo editor de Política da Folha, Cilênio Tavares, profissional da maior competência e seriedade, com passagem de destaque em outros jornais, como os extintos A Cidade e Monitor Campista, além do carioca O Dia. Sigilo de fonte, como o blogueiro explicou ao prefeito, é uma garantia constitucional. De qualquer maneira, ao ter o cuidado de colocar a susposta intervenção pessoal de Alexandra na condicional, o repórter abriu a devida margem ao contraditório, reforçada hoje não só pela negação veemente de Armando, como no desconhecimento dessa versão por parte do próprio Arnaldo Mattoso, também ouvido pelo blog.

Em relação à pesquisa, o prefeito esclareceu que, embora a alternância entre Fátima e Arnaldo, nos números entre espontânea e estimulada, aponte para o equilíbrio, o que definiu a escolha da primeira pré-candidata foram as possibilidades de crescimento de ambos a partir dos índices de rejeição, na qual o secretário de Educação apareceu com diferença negativa de 10,1% em relação à concorrente. Ainda segundo Armando, este foi o raciocínio do cientista político Geraldo Tadeu na exposição da pesquisa feita ao vice-governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e ao ministro da Pesca, Luiz Sérgio (PT), que levou os quatro a se definirem conjuntamente pela vereadora do PT.

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Opiniões de poesia — João Cabral de Melo Neto

Na transição da política à poesia, momento sempre mais prazeroso das quartas-feiras, segue a reprodução neste “Opiniões” de textos originalmente escritos pelo blogueiro para o “Cantos” (aqui), inativo há algum tempo. Precisa como na tacada de sinuca ou no passe de Zidane, a bola da vez é…

João Cabral de Melo Neto — Poeta diamante

Por aluysio, em 07-11-2009 – 2h49

 

 

João Cabral de Melo Neto

 

Cronologicamente, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920/1999) pertenceu à Geração de 45, ano do fim da II Guerra Mundial e inicial da Guerra Fria. A ela, coube a difícil missão de suceder à Geração de 30, talvez a mais profícua na história da poesia brasileira, com valores como um Carlos Drummond de Andrade (1902/1987), um Murilo Mendes (1901/1975), um Mário Quintana (1906/1994), uma Cecília Meireles (1901/1964), um Augusto Frederico Schmidt (1906/1965), um Emílio Moura (1902/1971), um Jorge de Lima (1895/1953) e um Vinícius de Moraes (1913/1980). Por sua vez, foi a qualidade destes autores que solidificou o Modernismo no Brasil, inaugurado pela transgressora Geração de 22, de Mário de Andrade (1893/1945), Oswald de Andrade (1890/1953), Cassiano Ricardo (1895/1974), Raul Bopp (1898/1984), Ribeiro Couto (1898/1963) e do maior poeta entre estes pioneiros, ainda que modernista tardio: Manuel Bandeira (1886/1968), que, aliás, era primo de João Cabral.

Todavia, todo esse preâmbulo geracional, talvez didático e certamente enfadonho, se desvanece diante da afirmação do próprio Cabral: “Eu não sou de 45”. Cronologias à parte, não afirmava isso desprovido de razão, posto ter inaugurado uma póetica diametralmente oposta ao confessionalismo e à metafísica que marcaram seus contemporâneos.

Curiosamente, é uma toada de claras cores surreais, influência certamente do amigo Murilo Mendes, que vai ditar o primeiro livro de João Cabral, “Pedra do sono”, de 1942. A direção inicial, no entanto, seria realinhada pelo compasso e esquadro com os quais acabaria por sedimentar sua obra, tomados de empréstimo não de um poeta, mas de um arquiteto, o francês de origem suíça Le Corbusier (1887/1965):

— Quem mais influência exerceu sobre mim, teoricamente, foi o arquiteto Le Corbusier. Por muitos anos, ele significou para mim lucidez, claridade, construtivismo. Em resumo: o predomínio da inteligência sobre o instinto — admitiria o próprio Cabral.

Essa influência das artes visuais não se restringiria ao grande arquiteto, se espraiando também sob os traços do pintores holandês Piet Mondrian (1872/1944), do francês André Masson (1896/1987) e dos espanhóis Pablo Picasso (1881/1973) e Joan Miró (1893/1983), sobre quem chegou a escrever um livro em prosa e com quem chegou a conviver em sua carreira diplomática na Espanha — cuja Andaluzia, como seu Nordeste natal, está tão impressa em seus versos. Na poesia em si, ironicamente, quem mais marcou o vate pouco afeito ao canto das musas foi uma mulher: a estadunidense Marianne Moore (1887/1972), que “em vez de lápis,/ emprega quando escreve/ instrumento cortante:/ bisturi, simples canivete”, como ele descreve logo à estrofe inicial de “O sim contra o sim”,  poema do livro “Serial”, de 1961.

Identificados na gênese do “verso cicatriz” de Moore, a analogia óbvia desse “bisturi” e desse “canivete” com a “faca” e a “lâmina” que rasgam presença em boa parte da obra cabralina evidencia bem o autor marcado a fio de navalha pela imagem, auto-destinado à coisificação da poesia. Afinal, como diagnosticou nos versos de “Psicologia da composição”, poema que batiza o livro publicado em 1947: “São minerais/as flores e as plantas,/as frutas, os bichos/quando em estado de palavra.”

Poeta da concisão e da contenção, do “seco”, avesso ao lirismo fácil, ao derramamento sentimental que o grande público costuma associar aos poetas,  João Cabral está para a poesia brasileira como Graciliano Ramos (1892/1953) para a prosa. Elevado pelos concretistas a ponto de partida de uma nova estética, é o principal referencial ao fazer poético de lá ao Brasil dos nossos dias, mais que qualquer outro poeta do Modernismo, incluindo Drummond.

Atual inimigo público nº 1 do Concretismo, o poeta Alexei Bueno sequer considera os concretistas como pares, mas “artistas gráficos”, e denuncia ruidosamente o monopólio que os seguidores do movimento passaram a exercer no eixo Rio/São Paulo, a partir dos anos 1950 e do encastelamento nas universidades, sobre a produção e crítica da poesia brasileira. Mas ao radiografar esta numa obra de fôlego, “Uma história da poesia brasileira” (de 2007), ele ainda assim não se furtou em classificar Cabral “entre seus maiores criadores”.  Ou seja, embora critique o que chama de “seita” — o Concretismo e os neo-concretistas —, Bueno reverencia o “messias”.

Para o bem ou para o mal dos olhos de quem lê, a “pedra” que Cabral atirou no leito da poesia brasileira tem suas ondas de impacto refletidas até hoje. E sem margem ainda à vista…

Vários são os poemas que poderiam ser escolhidos para tentar sintetizar sua obra neste blog. “O cão sem plumas”, “Uma faca só lâmina”, “A educação pela pedra” e “Morte e vida severina” certamente estão entre eles. Todos pertencem a livros homônimos, publicados, respectivamente, em 1950, 1955 e, os dois últimos, em 1966. Para muitos, sua grande obra seria “Estudos para uma bailadora andaluza”, que abre “Quaderna”, de 1960. Também deste livro, a escolha, no entanto, acabou recaindo sobre outro poema:“‘Cante a palo seco’”.

O título do livro, pela etimologia, remete ao latim quaterna: “que são em número de quatro; que são quatro a quatro”, na definição do Houaiss. Muitas vezes pelos motivos errados, considerado um poeta complexo, o fato do pernambucano ter a quadra como sua estrofe de eleição é  fruto da influência direta que assumidamente sofreu da poesia popular nordestina. No poema “O número quatro”, do livro “Museu de tudo”, de 1975, ele dá sua razão: “O número quatro feito coisa/ ou a coisa pelo quatro quadrada,/ seja espaço, quadrúpede, mesa,/ está racional em suas patas”.

Se todos os poemas de “Quaderna” são compostos em estrofes de quatro versos, é em “‘Cante a palo seco’” que a exatidão da forma vem na numeração exata: quatro movimentos, cada um de quatro conjuntos com o divisor do quatro (dois) por número de estrofes. E, ao quadrado ou vezes quatro, quatro é conta sempre precisa de 16.

Dedicado ao poeta espanhol Rafael Santos Torroella — que apresentou a Drummond e que traduziu este ao castelhano —, o poema é também onde Cabral mais brilhantemente rascunha, em versos, o seu próprio fazer poético, onde o anti-confessional melhor confessa sua arte diante de si e do leitor, nesse difícil “ser-se ao meio-dia”. Entre os maiores imagéticos da poesia brasileira e universal, ele faz isso utilizando metáforas de musicalidade, despindo-a em suas rimas toantes ao quase silêncio; mas só quase, como  “esse fio/ quando sem qualquer pássaro/ dá o seu assovio”.

A música, que costumava chamar de “menos desagradável dos ruídos”, foi a sua chave para negá-la.

Poeta mais apolíneo da Literatura brasileira, João Cabral de Melo Neto foi pintado em “Retrato, à sua maneira”, por Vinícius de Moraes, nosso maior dionisíaco: “Adiante Ave/ Camarada diamante!”

Bem sabia o Poetinha que a pedra mais dura é também a que mais brilha.

 

“A Palo Seco”

A R. Santos Torroella

 

1.1

Se diz a palo seco

o cante sem guitarra;

o cante sem; o cante;

o cante sem mais nada;

 

se diz a palo seco

a esse cante despido:

ao cante que se canta

sob o silêncio a pino.

 

1.2

O cante a palo seco

é o cante mais só:

é cantar num deserto

devassado de sol;

 

é o mesmo que cantar

num deserto sem sombra

em que a voz só dispõe

do que ela mesma ponha.

 

1.3

O cante a palo seco

é um cante desarmado:

só a lâmina da voz

sem a arma do braço;

 

que o cante a palo seco

sem tempero ou ajuda

tem de abrir o silêncio

com sua chama nua.

 

1.4

O cante a palo seco

não é um cante a esmo:

exige ser cantado

com todo ser aberto;

 

é um cante que exige

o ser-se ao meio-dia,

que é quando a sombra foge

e não medra a magia.

 

2.1

O silêncio é um metal

de epiderme gelada,

sempre incapaz das ondas

imediatas da água;

 

a pele do silêncio

pouca coisa arrepia:

o cante a palo seco

de diamante precisa.

 

2.2

Ou o silêncio é pesado,

é um líquido denso,

que jamais colabora

nem ajuda com ecos;

 

mais bem esmaga o cante

e afoga-o, se indefeso:

a palo seco é um cante

submarino ao silêncio.

 

2.3

Ou o silêncio é levíssimo,

é líquido sutil

que se coa nas frestas

que no cante sentiu;

 

o silêncio paciente

vagaroso se infiltra,

apodrecendo o cante

de dentro, pela espinha.

 

2.4

Ou o silêncio é uma tela

que difícil se rasga

e que quando se rasga

não demora rasgada;

 

quando a voz cessa, a tela

se apressa em se emendar:

tela que fosse de água,

ou como tela de ar.

 

3.1

A palo seco é o cante

de todos mais lacônico,

mesmo quando pareça

estirar-se um quilômetro:

 

enfrentar o silêncio

assim despido e pouco

tem de forçosamente

deixar mais curto o fôlego.

 

3.2

A palo seco é o cante

de grito mais extremo:

tem de subir mais alto

que onde sobe o silêncio;

 

é cantar contra a queda,

é um cante para cima,

em que se há de subir

cortando, e contra a fibra.

 

3.3

A palo seco é o cante

de caminhar mais lento:

por ser a contrapelo,

por ser a contravento;

 

é cante que caminha

com passo paciente:

o vento do silêncio

tem a fibra do dente.

 

3.4

A palo seco é o cante

que mostra mais soberba;

e que não se oferece:

que se toma ou se deixa;

 

cante que não se enfeita,

que tanto se lhe dá;

é cante que não canta,

cante que aí está.

 

4.1

A palo seco canta

o pássaro sem bosque,

por exemplo: pousado

sobre um fio de cobre;

 

a palo seco canta

ainda melhor esse fio

quando sem qualquer pássaro

dá o seu assovio.

 

4.2

A palo seco cantam

a bigorna e o martelo,

o ferro sobre a pedra,

o ferro contra o ferro;

 

a palo seco canta

aquele outro ferreiro:

o pássaro araponga

que inventa o próprio ferro.

 

4.3

A palo seco existem

situações e objetos:

Graciliano Ramos,

desenho de arquiteto,

 

as paredes caiadas,

a elegância dos pregos,

a cidade de Córdoba,

o arame dos insetos.

 

4.4

Eis uns poucos exemplos

de ser a palo seco,

dos quais se retirar

higiene ou conselho:

 

não o de aceitar o seco

por resignadamente,

mas de empregar o seco

porque é mais contundente.

 

João Cabral de Melo Neto, em João Cabral de Melo Neto — Obra completa (1994), Editora Nova Aguilar, Quinta reimpressão da 1ª edição (2006), págs. 247 a 251

 

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Entre as adivinhações e a lógica de SJB, Betinho aposta em ser o nome da oposição

Confirmado no post abaixo, pelo presidente do PR em Campos, como nome do grupo de Garotinho para disputar a Prefeitura de São João da Barra em 2012, o ex-prefeito Betinho Dauaire reagiu com ironia à descrença em sua candidatura, manifestada aqui pela prefeita Carla Machado (PMDB):

— Acho que Carla está com a síndrome do final de governo. Ela agora quer ser vidente. Mas se ela não consegue nem adivinhar quem será seu candidato, como quer adivinhar o candidato que a oposição vai ter? — indagou Betinho, desconsiderando que a prefeita já externou aqui sua preferência pessoal por Neco (PMDB), vereador eleito e seu secretário de Promoção Social, muito embora também mantenha aberta as possibilidades de candidatura dos vereadores Aluizio Siqueira (PDT) e Alexandre Rosa (PPS).

À ironia do ex-prefeito, o blogueiro engatou algumas perguntas de pretensão mais séria, feitas e respondidas na transcrição abaixo…

 

 

 

 

Blog — O que você chama de exercício de adivinhação de Carla reside no raciocínio dela de que problemas com a Justiça vão impedi-lo de se candidatar. Há este risco?

Betinho — Como já disse ao seu blog anteriormente (aqui), ela quis adivinhar a mesma coisa na eleição de 2008. E o fato é que eu me candidatei e concorri normalmente, sem nenhum problema com a Justiça.

 

Blog — Mas se a previsão dela foi equivocada em relação à sua candidatura, não foi precisa em relação à vitória final dela sobre você?

Betinho — Pode ter sido, assim como foi anteriormente errada em 2000, quando concorreu contra mim, disse que iria vencer, mas perdeu.

 

Blog — Das adivinhações para aquilo que de lógico as confirma ou não, a diferença parece ser quem está no poder. Em 2000, você estava e ganhou. Em 2008, ela estava e você perdeu. Em 2012, como ela estará, isso não fará novamente a diferença?

Betinho — Com uma diferença básica: Em 2000, eu venci quando tentei a reeleição; em 2008, ela me derrotou quando se reelegeu. Ocorre que Carla, agora, mesmo estando no poder, não pode mais tentar se reeleger, vai ter que escolher um candidato. Neste processo, usando mão da lógica levantada por você, todos sabem que a transferência de votos está longe de ser uma ciência exata.

 

Blog — Você questiona as “adivinhações” de Carla. Mas ao apostar em conseguir a vaga no PR de Garotinho, não pode você estar fazendo uma adivinhação arriscada?

Betinho — Isso não é adivinhação, é compromisso. Em 2009, fiz a aliança com Garotinho e meu filho (Bruno Dauaire) assumiu a vice-presidência do partido em São João da Barra. Em 2010, apoiei no município as candidaturas de Garotinho para deputado federal e de Clarissa para deputada estadual, e ambas foram muito bem votadas (mas atrás, respectivamente, de Arnaldo Vianna (PDT) e João Peixoto (PSDC), apoiados por Carla). Até a segunda quinzena de agosto, assinarei minha filiação ao PR, quando estaremos também inaugurando a nova sede do partido em São João. Ou seja, todos os compromissos têm sido rigorosamente mantidos de parte a parte. Apostar que eles continuem sendo até 2012, não tem nada de adivinhação. Como você disse, é a lógica.

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