Os pica-paus amarelos

Enquanto africanos e antigos iugoslavos, em nome do pragmatismo, optam por deixar no passado a poesia do seu futebol, segue uma foto que me foi mostrada hoje pelo Antonio Cruz, feita por ele em Macaé, que me lembrou versos gestados e paridos ao vento nordeste de Atafona, uma Copa atrás. Também os reproduzo aqui, numa metáfora com este fim de domingo de início de Copa, já que o blog dedicado à poesia, o Cantos, está com as atividades há algum tempo em recesso…

 

 

 

ornitologia

 

meninos eu vi

nas ruínas da marinha

dois pica-paus amarelos

 

um voou,

o outro ficou

pousado na cerca

 

o que voou

fez seu pouso

em monteiro lobato

 

atafona, 27/07/06 

 

Obs: Texto e foto foram publicados originalmente no blog Folha na Copa (aqui).

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Bobeira da Sérvia, três pontos de Gana

Ao dar meus palpites para esta Copa, no último dia 10 (aqui), disse que as surpresas das anteriores costumavam sair da África ou do Leste europeu, embora tenha ressalvado que, na África do Sul, apostava numa seleção de outro continente para surpreender: os Estados Unidos. Pois se encerrou agora há pouco o primeiro confronto entre um time da África contra outro da Europa oriental: Gana x Sérvia, vencido pela primeira por 1 a 0, gol de pênalti, primeiro do Mundial, convertido aos 39 da etapa final pelo meia Gyan, eleito o melhor em campo.

Todavia, o que poderia ser um embate clássico entre duas escolas marcadas pela habilidade no trato com a bola, foi um jogo chato e de poucas emoções. Gana perdeu muito da qualidade que apresentou na última Copa, quando caiu nas oitavas-de-final, diante do Brasil, com o desfalque por contusão do craque Essien (Chelsea), antes do Mundial, enquanto espera pela recuperação de Muntari (Inter de Milão), que foi à África do Sul na esperança de recuperação, mas ontem ainda não entrou em campo. Por sua vez, desde as Eliminatórias, quando mandou a França à repescagem, a Sérvia optou pelo pragmatismo dos europeus do oeste, deixando de lado o jogo vistoso que sempre aproximou do futebol sul-americano os herdeiros da antiga Iugoslávia.

Num jogo podado em suas possibilidades de virtude, o resultado foi definido em dois erros da Sérvia. O primeiro, do zagueiro Lukovic, que até vinha fazendo boa partida, mas levou o segundo amarelo e foi expulso numa falta boba, aos 28 do segundo tempo, depois de segurar o braço de um adversário, ainda no meio-de-campo, em bola alta lançada em contra-ataque. A falha capital, no entanto, coube ao meia Kuznanovic, que havia entrado aos 16 da última etapa, para reforçar o ataque, mas acabou tirando com o braço outra bola alta, no canto esquerdo da sua área, cruzada em direção a Boateng, que talvez nem chegasse nela.

Com o favoritismo à primeira vaga do Grupo D para a Alemanha, que enfrenta daqui a pouco a zebra Austrália, o blogueiro já havia apostado em Gana na segunda vaga, mas não contava ser endossado por vacilos tão bobos dos sérvios.

 

 

Considerado o melhor em campo, o meia Gyan converteu o pênalti e garantiu a vitória de Gana sobre a Sérvia (foto: Fifa)
Considerado o melhor em campo, o meia Gyan converteu o pênalti e garantiu a vitória de Gana sobre a Sérvia (foto: Fifa)

 

 

GANA

KINGSON — Foi exigido em duas defesas, em chute de Stankovic, aos 38 do primeiro tempo, e de  Krasic, aos 32 da etapa final. NOTA 6.

PAINSTIL — O lateral-direito apoiou o ataque, principalmente em tabelas com Tagoe. Ficou mais na defesa após a entrada de Lazovic, que entrou para jogar na esquerda. NOTA 6,5.

VORSAH — Marcou bem o grandalhão Zigic, centro-avante sérvio. NOTA 6,5.

MENSAH — No mesmo nível do companheiro de zaga. NOTA 6,5.

SARPEI — O lateral-esquerdo apoiou, mesmo com o meia Krasic caindo os 90 minutos pela direita do ataque sérvio. NOTA 6,5.

ANNAN — Atuou como primeiro volante no combate e saída de bola. NOTA 6.

PRINCE BOATENG — Tentou levar seu time à frente, com muita disposição física, mas sem tanta habilidade. NOTA 6. Foi substituído, aos 45 do segundo tempo, por ADDY. SEM NOTA.

AYEW — Atuou na ligação com o ataque, dando duas cabeçadas a gol. NOTA 6,5.

GYAN — Autor do gol de pênalti e considerado o melhor em campo, o meia-atacante ainda acertou duas vezes a trave. NOTA 7. Já nos acréscimos, foi substituído por ABEYE. SEM NOTA.

TAGOE — Sozinho ou em triangulações com Painstil, comandou as ações ofensivas de Gana, sobretudo pela direita. NOTA 6.

AZAMOAH — O meia-atacante buscou o jogo, bateu escanteios e faltas, mas ontem não estava em dia inspirado. NOTA 6. Saiu aos 27 da segunda etapa para a entrada de APPIAH, habilidoso meia, mas que ainda não se mostrou recuperado após sofrer com lesões nas duas últimas temporadas. NOTA 5.

 

SÉRVIA

STJOKOVIC — Até o pênalti, só apareceu num soco, em cobrança de escanteio. NOTA 5.

IVANOVIC — Tentou apoiar, mas teve que se cuidar com as subidas de Sarpei. NOTA 6.

VIDIC — Considerado um dos melhores zagueiros do mundo, falhou em cabeçada de Ayew. NOTA 5.

LUKOVIC — Não vinha mal, até tomar o segundo amarelo, em falta infantil. NOTA 3.

KORALOV — Mesmo com Painstil e Tagoe por seu lado, o lateral apoiou o ataque. Apareceu também em cobranças de falta. NOTA 6,5.

STANKOVIC — Veterano que atua no futebol italiano em todas as posições do meio-campo, hoje jogou atrás, na saída de bola da Sérvia. Depois do 1 a 0, tentou encostar no ataque, mas já era tarde demais. NOTA 5.

MIJILAS — Atuação apagada na marcação e criação. NOTA 4. Foi substituído, aos 16 do segundo tempo, por KUZMANOVIC, autor do pênalti bobo que definiu o jogo. NOTA 2.

KRASIC — Incansável na ligação do meio com o ataque, sempre pela direita. Teve a melhor chance da Sérvia, aos 32 do segundo tempo, mas Kingson defendeu o chute. NOTA 6,5.

JOVANOVIC — Atuou como volante no primeiro tempo e meia-esquerda no segundo. NOTA 5. Após a expulsão de Lukovic, foi substituído por SUBOTIC, para recompor a zaga. NOTA 5.

PANTELIC — Atacante de movimentação, mas não muita habilidade. NOTA 5.

ZIGIC — Com 2,02m, é o típico pivô, que hoje teve dia de poste. NOTA 3. Foi substituído, aos 23 do tempo final, por LAZOVIC, que caiu pela ponta-esquerda, de onde cruzou a bola para o chute de Krasic, na melhor chance da Sérvia. NOTA 6.

 

Obs: O texto foi postado anteriormente no blog Folha na Copa (aqui). 

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ARGENTINA

ROMERO — O ataque da Nigéria deu pouco trabalho. Duas intervenções no primeiro tempo e uma no segundo. NOTA 6.

GUTIÉRREZ — O lateral-direito apoiou mais o no 1º tempo. No 2º, com as entradas de Martins e Odemiwingie, para explorar as pontas, ficou mais preso na marcação. NOTA 6.

DEMICHELIS — Zagueiro pelo lado direito, teve atuação segura, facilitada pela falta de incisão do ataque nigeriano. NOTA 6.

SAMUEL — No mesmo nível do companheiro de zaga. Apresentou-se ao cabeceio na área nigeriana em dois ecanteios. NOTA 6,5.

HEINZE — Jogou como terceiro zagueiro, deixando a lateral-esquerda para Di Maria. Com uma cabeçada forte e precisa, marcou o único gol do jogo. NOTA 7.

DI MARIA — Mais preso à marcação, se apresentou no apoio em bela triangulação com Messi, aos 35 do 2º tempo. NOTA 6. Quatro minutos depois, foi substituído por BURDISSO, que entrou para garantir o 1 a 0. SEM NOTA.

MASQUERANO — Jogou como volante fixo, para liberar Verón à armação. NOTA 6.

VERÓN — Comanda a saída de bola do time de Maradona. Ontem, contudo, não estava em dia inspirado. NOTA 6.  

TEVEZ — A raça de sempre, sem se intimidar com o porte físico avantajado dos nigerianos, se alternado com Higuaín entre o meio e a direita do ataque. NOTA 6,5.

MESSI — Finalmente uma atuação no nível das do Barcelona, atuando pela esquerda do ataque. Só precisa regular a pontaria, pois teve seis chances para marcar, sempre passando perto ou esbarrando no goleiro Enyeama, o outro destaque da partida. NOTA 7,5.

HIGUAÍN — Perdeu três gols feitos, dois no 1º tempo e um no 2º. NOTA 4. Foi susbtituído, aos 33 da etapa final por MILLITO (SEM NOTA), para quem começa a abrir espaço na disputa por uma vaga no time titular.

MARADONA — Armou a seleção para jogar em função de Messi, como a Argentina de 1986,  que conduziu como jogador à conquista da Copa. Criticado pela mídia argentina, seu esquema defensivo deve ter, na próxima quinta, diante da rapidez da Coréia do Sul, um teste que a Nigéria não soube ser. NOTA 6,5.   

NIGÉRIA

Com várias defesas salvadoras, o destaque nigeriano foi o goleiro ENYEAMA. NOTA 8.

 

Obs: o texto foi postado inicialmente no blog Folha na Copa (aqui)

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Argentina — Acomodação ofensiva e teste defensivo à frente

Abraçado por Messei, Heinze comemora o seu gol de cabeça (foto Fifa)

 

Deu para ganhar da Nigéria pelo placar mínimo, marcar os três pontos necessários nesta primeira fase de grupos e, enfim, para que Messi tivesse com a camisa da seleção uma atuação do mesmo nível que mantém no Barcelona, mas ficou faltando para credenciar a Argentina do técnico Maradona como candidata à campeã da Copa. Talvez a grande atuação do goleiro nigeriano Enyeama (do Hapoel Tel Aviv, de Israel), grande nome do jogo ao lado de Messi, com pelo menos cinco defesas salvadoras, tenha impedido que os argentinos apresentassem um desempenho mais convicente.Todavia, a impressão que ficou, sobretudo no segundo tempo, foi de que los hermanos preferiram administrar o 1 a 0, no lugar de ampliar o placar, evidenciando uma acomodação que não costuma compor o perfil dos campeões.

Além da disputa no ataque entre Higuaín (do Real Madrid), que perdeu dois gols feitos, e Millito (da Inter de Milão, que o substituiu aos 33 da etapa final), por um lugar ao lado de Messi e Carlito Tevez, que também jogou bem, o próximo confronto da Argentina, na próxima quinta-feira, dia 17, diante da rapidez da Coréia do Sul, do perigoso atacante Jing-Sung Park (do Manchester United), que hoje bateu a Grécia por 2 a 0, será um bom teste para o esquema defensivo de Maradona, tão criticado pela mídia de seu país, e sobre a qual ele se recusou a falar, na coletiva de hoje, após o jogo com a Nigéria.

Obs: Texto e foto foram postados inicialmente no blog Folha na Copa (aqui)

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Palpites para a Copa (antes dela começar)

Na véspera da bola rola na Àfrica do Sul, no blog Folha na Copa (aqui) dei meus palpites (aqui) sobre o favoritos para levantar a Copa, sobre quem será a surpresa do Mundial e os times que passarão da primeira fase. Infelizmente, com a lentidão da net anteontem, por obra e graça da Via Cabo, acabei não reproduzindo o post no mesmo dia, o que faço agora, antes tarde do que nunca, até porque parte das previsões começam a se desenhar com apenas dois dias de Copa…

 

Palpites

Por aluysio, em 10-06-2010 – 19h20

Como em época de Copa, todo mundo se julga credenciado a dar palpites, mesmo um idiota que não sabia quem era Ramires (ex-Cruzeiro e atual Benfica) até os seus dois gols no amistoso recente contra a Tanzânia, aqui vão alguns palpites do blogueiro:

Candidatos ao Título: A Espanha tem o melhor time, o Brasil o melhor retrospecto e a Argentina, apesar de Maradona, os melhores jogadores. A Holanda, com a recuperação do atacante Arjen Robben (Bayer de Munique), e a Inglaterra, com a consistência dos times treinados por Fabio Capello, aparecem correndo por fora.

Candidatos a supresa: Costumam surgir do Leste Europeu ou da África. Nesta Copa, a Eslováquia e a Eslovênia, que se classificaram à Copa no mesmo grupo das Eliminatórias, e a Sérvia, que abriu mão do jogo criativo em nome da competitividade, já surprenderão se chegarem às oitavas. Quanto aos times africanos, Gana seria a candidata mais forte do continente, mas a ausência de Michel Essien (Chelsea), por contusão, e a dúvida quanto a Sulley Muntari (Inter de Milão), complicaram as coisas. Se Didier Drogba estiver em condições e se o treinador sueco Sven-Goran Eriksson (ex da Inglaterra) conseguir transformar bons jogadores num time, a Costa do Marfim poderá fazer bonito, mas pegou o “Grupo da Morte”, com Brasil e Portugal. Só Samuel Eto’o (da Inter), que já viveu melhores dias, deve ser muito pouco para Camarões, que ainda assim disputará com a Dinamarca a segunda vaga no grupo da Holanda. A Nigéria, assim como o atacante camaronês, também não vive seu melhor momento, embora tenha chances na disputa com Coréia do Sul e Grécia pela segunda vaga no grupo da Argentina. Time da casa, a África do Sul de Parreira (que já dirigiu Arábia Saudita, Emirados Árabes e Kwait, mas só venceu jogos em Copas com o Brasil) está no Grupo A, o mais equilibrado do Mundial, junto com França, Uruguai e México. Por fim, a Argélia, representante da África árabe, tem pouquíssimas chances no grupo da Inglaterra, cuja segunda vaga deve ficar com os Estados Unidos. Muito embora deva pegar a Alemanha nas oitavas, a equipe estadunidense é o palpite para supresa do Mundial. Único time a derrotar a Espanha nos últimos anos, na semi-final da Copa das Confederações — sendo derrotado pelo Brasil na final, mas de virada, após marcar 2 a 0 —, os EUA lembram muito o Botafogo campeão estadual: um time limitado tecnicamente, mas sólido na defesa, perigoso no contra-ataque e muito aplicado taticamente, com um pivô alto e forte na frente (Jozzy Altidore, do Villareal da Espanha, que lembra o uruguaio Loco Abreu) e um meia de ligação habilidoso (Landon Donovan, do Los Angeles Galaxy, ao estilo Lúcio Flávio).

Classificados às oitavas: O Grupo A, como já foi dito, é o mais equilibrado. Os palpites vão para França e México, mas pode muito bem dar Uruguai e África do Sul, ou qualquer outra variante. No Grupo B, como também já foi falado, a Argentina é favorita. Na segunda vaga, o palpite é a Nigéria, muito embora possa dar Coréia do Sul. No Grupo C, qualquer resultado que não seja a classificação de Inglaterra e EUA será uma surpresa. No Grupo D, a Alemanha deve ficar com a primeira vaga. Quanto à segunda, na disputa entre Gana e Sérvia, o palpite é africano. No Grupo E, como também foi adiantado, a primeira vaga da Holanda é quase certa, sendo Camarões o palpite na disputa pela segunda com a Dinamarca. No Grupo F, a coisa é parecida, com o franco favoritismo para a Itália e palpite sul-americano a favor do Paraguai, na disputa com a Eslováquia pela segunda vaga. No Grupo G, com a primeira vaga para o Brasil (e é bom ficar, porque o segundo deve pegar a Espanha nas oitavas), o palpite pende mais para Drogba do que para Cristiano Ronaldo, na disputa entre Costa do Marfim e Portugal pela segunda vaga. Por fim, no Grupo H, com a primeira vaga praticamente garantida à Espanha, muito embora o Chile seja favorito para a segunda vaga, o palpite vai para a Suíça.

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Os melhores

Em meu primeiro texto no blog Folha na Copa (aqui), no último dia 24, não por acaso intitulada “Apresentação”, comecei dizendo: “Em filme, música, literatura, listas dos melhores não são exatamente uma novidade. Tampouco nos esportes, de modo geral. Seja em relação aos autores ou suas obras, todos têm suas opiniões para dar, do mais embasado crítico ao entusiasta casual e linear. Só podem ser consideradas besteira quando têm pretensão de verdade absoluta. Noves fora o óbvio, é também uma maneira de se listar, na mão oposta, os predicados mais relevantes à vista de quem opina, do seu tempo, sua gente, sua índole e seus conceitos — além, é claro, do seu conhecimento”.

Acerca da Copa que se inicia amanhã, na África do Sul, disse também que nossas únicas certezas poderiam ser extraídas daquilo que vimos nas Copas anteriores, bem como entre elas, período que costuma se alongar como hiato para muito entusiasta cometa, daquele que só surge de quatro em quatro anos, numa expressão mais de nacionalidade do que amor ao futebol. Da minha parte, disse naquele primeiro texto e repito agora: “Acompanho futebol desde 1980 e Copas do Mundo desde a de 82”.

É dentro, pois, deste período de observação de três décadas, duas delas atuando profissinalmente na cobertura jornalística de Copas, que agora passo ao prazeroso exercício de listar minhas preferências, posição a posição, daquilo que vi entre as quatro linhas de um gramado de futebol. No lugar dos 11 que se enfrentam de lado a lado, as listagens se farão sobre 10 nomes em cada função executada pelos jogadores em campo.

“O meio campo é o lugar dos craques / Que vão levando o time todo pro ataque”. Ecoemos os versos do Skank como nosso apito inicial…

Dos 10 meias listados acima, só um deles jogará na África do Sul: o argentino Lionel Messi. Atrás apenas dos três maiores jogadores do futebol mundial no período analisado, num quarto lugar bastante promissor para quem ainda tem 23 anos incompletos, o menino-prodígio do Barcelona é cobrado nesta Copa em relação a um dilema que perpassará não só a listagem que ele integra, mas todas as demais: Por que não joga na seleção o mesmo que joga no clube? Será que este paradoxo será finalmente equilibrado nesta Copa, como desejam os argentinos?Na dúvida, não custa lembrar: mesmo que a resposta permaneça negativa em 2010, Messi deve ter ainda outras duas, quem sabe três Copas ainda pela frente…

Embora tenha jogado duas e se sagrado campeão numa delas (em 2002, no Penta do Brasil), o outro jogador ainda em atividade da lista não estará presente na África, perene vítima do mesmo dilema clube/seleção: Ronaldinho Gaúcho, que deve sua inclusão, na sexta posição, justamente pela fase esfuziante que viveu, em seus tempos de Barça, como companheiro de Messi. 

Segundo colocado na lista, Zico é o maior ídolo do time da maior torcida do mundo, na qual modestamente me incluo na condição de seu súdito, antes mesmo de (ou talvez por isso) rubro-negro. Ao contrário do que pregam seus pretensos críticos, ele jogou bem, sim, na Seleção Brasileira, sendo seu terceiro maior artilheiro, com 66 gols em 89 partidas, ficando atrás apenas de Pelé, de quem foi considerado sucessor, além daquele que o sucedeu como grande jogador brasileiro: Romário. Deste, seu assumi-do desafeto, partiu a consideração mais isenta para avaliar a dimensão exata do Galinho: “Em clube, foi o maior jogador que já vi”. E não creio que nenhum italiano da região de Friuli, torcedor do Udinese, diga diferente. Se Zico não ganhou Copa nas que disputou em 78, 82 e 86, como bem definiu o cronista Fernando Calazans: “Azar o da Copa!”

Em outros casos, contudo, não há como desconsiderar as Copas. Muito pelo contrário, foi justamente pelo que fizeram nelas que Diego Maradona e Zinedine Zidane são, por ordem, o primeiro e terceiro colocados da lista. Por mais que tenham brilhado em clubes, o argentino no Napoli e o francês na Juventus e Real Madrid, ambos se consagraram como gênios na história do futebol mundial ao conduzirem suas seleções, respectivamente, às conquistas das Copas de 86 e de 98 — além dos vice-campeonatos seguintes de 90 e 2006. Maradona, em 86, nas quartas-de-final contra a Inglaterra, e Zidane, na mesma fase, mas contra o Brasil e 20 anos depois, deram as maiores exibições individuais já registradas entre as sete últimas Copas.  

Com traços de índio, o produto da periferia pobre de Buenos Aires concentrou na canhota uma habilidade que ninguém em seu tempo, ou depois dele, foi capaz de igualar com as duas pernas. Já o filho de imigrantes argelinos, nascido e criado na zona portuária de Marselha, foi o jogador mais cerebral que já vi, capaz como nenhum outro de ler o jogo e reescrevê-lo com uma classe também sem pararelo nestas três últimas décadas. No Olimpo do futebol, onde Maradona encarnou Dionísio, Zidane foi Apolo. Se Zico está entre ambos, é porque sua bola de meia das ruas de Quintino sempre se equilibrou, sem padecer de vertigem, entre o improviso milongueiro de um gênio e o descortino blasé do outro.

Michel Platini nunca foi tudo que os europeus achavam, talvez por carência de um filho do Velho Mundo capaz de se equiparar, nos anos 80, aos sul-americanos Maradona e Zico. Ainda que uma oitava abaixo destes, bem como do compatriota Zidane, seu toque refinado, aliando visão de jogo e faro de gol, conduziu a França às semi-finais das Copas de 82 e 86, além do Juventus à fase mais gloriosa talvez já vivida pelo clube de Turim.

Chamado de “Maradona dos Cárpatos”, o apelido de George Hagi se dava pela cordilheira de montanhas que corta sua Romênia natal, bem como pela cirúrgica precisão da sua perna canhota. Dentro do dilema ensejado na composição da lista, ele configura uma curiosa inversão: talvez tenha jogado mais na seleção do que em clubes. Vitorioso no romeno Steua Bucareste, no início de carreira, e no Galatasaray, na Turquia, onde se aposentou, Hagi, no entanto, não conheceu o mesmo sucesso no Real Madrid e Barcelona. Entre as passagens pelos dois gigantes espanhóis, foi o maior meia da Copa de 94, conduzindo a Romênia (da qual foi maestro também em 90 e 98) até o time cair nos pênaltis, nas quartas-de-final, diante da Suécia.

Junto com Zico, quem também está no melhor time de todos os tempos de Romário, é Michael Laudrup, ao lado de quem o Baixinho formou o grande Barcelona dos anos 90. Maior jogador da história da Dinamarca, surgiu para o mundo ainda com 22 anos, como destaque da seleção que se tornaria sensação na primeira fase da Copa de 86, quando ficou conhecida como “Dinamáquina”. Naquela mesma década, Laudrup brilharia na grande fase do Juventus, ao lado de Platini. Foi para o Barcelona e depois ao Real Madrid, igualando o sucesso como o controle da bola com as duas pernas, antes de encerrar a carreira no Ajax, da H0landa. Viking poeta, fez seu último jogo pela seleção dinamarquesa na Copa de 98. Em suas palavras: “Despedi-me com a braçadeira de capitão, numa quarta-de-final de Copa do Mundo, em jogo duro diante do Brasil. Como poderia ser melhor?”

Dejan Savicevic jogou as Copas de 90 e de 98, pela antiga Iugoslávia, com lampejos de seu gênio na primeira e prejudicado por contusão na última. Astro maior do Estrela Vermelha de Belgrado, foi comprado pelo Milan em 92, quando substituiu o ídolo holandês Rudd Gullit. Em 94, na decisão da Liga Européia, destruiu com sua canhota de exceção o favoritismo do Barcelona, humilhado com uma goleada de 4 a 0. O terceiro do Milan, de Savicevic, figura entre os mais belos gols da história do torneio, culminando a maior atuação individual que já vi em clubes. Como foi com ela que eclipsou completamente Romário, estrela do Barça, que apenas algumas semanas depois seria o maior nome da Copa de 94, no Tetra do Brasil, instiga a imaginação pensar no que o montenegrino poderia ter feito nos gramados dos EUA, caso a Fifa não tivesse excluído a Iugoslávia, punida pela sangrenta guerra civil após a dissolução do país. Neste caso, o dilema entre clube e seleção ficou por conta da estupidez humana…

Apelidado de “El Príncipe” por seus compatriotas, o que dizer de um jogador que levava a torcida argentina do River Plate a cantar a plenos pulmões  “U-ru-guayo!”, toda a vez que entrava em campo? Não bastasse, Enzo Francescoli foi o grande ídolo de Zinedine Zidane, que o assistiu conduzir o Olympique de Marselha ao título nacional francês, em 1990. Introvertido fora dos campos, Zizou não teve reservas ao batizar seu filho de Enzo, além de usar a camisa de Francescoli, trocada na final do Mundial Interclubes de 96, entre River e Inter de Milão, por baixo da camisa da França, na final da Copa de 98, em que marcaria dois dos três gols sofridos pelo Brasil. Vestindo ele próprio a camisa 10 da Celeste, Francescoli não teve a mesma sorte nas Copas do Mundo que disputou, em 86 e 90. Todavia, à nível continental, seu brilho individual se sobrepôs à decadência do futebol do Uruguai, vencendo três (83, 87 e 95) das quatro Copas América que disputou.

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Espanha de Pedro Rodriguez — Promessa é realidade

Apesar da fraqueza da Polônia, a Espanha se despediu hoje da sua torcida com um vasto repertório de gols, jogadores e jogadas para a África do Sul (foto: Fifa)
Apesar da fraqueza da Polônia, a Espanha se despediu hoje da sua torcida com um vasto repertório de gols, jogadores e jogadas para a África do Sul (foto: Fifa)

 

Tudo bem! Depois de ficar em quinto em seu grupo nas Eliminatórias à Copa, à frente apenas da diminuta república de San Marino, a Polônia de hoje está muito longe daquele time de Lato, que empolgou o mundo nas décadas de 70 e 80, conquistando o terceiro lugar nas Copas de 74, diante do Brasil de Rivelino, e de 82, batendo a França de Platini. Todavia, o 6 a 0 que a Espanha acabou de completar em cima da atual seleção polonesa, não deixam de ratificar a Fúria como principal candidato europeu ao título mais cobiçado do mundo, que começa a ser disputado daqui a três dias, na África do Sul.

Antes de cruzar o Mediterrâneo rumo às savanas africanas, na segunda etapa da partida disputada em Múrcia, província mais pobre da Espanha, a Fúria se despediu dos seus torcedores ostentado uma riqueza não só de gols, como de opções, já que todos foram marcados por jogadores diferentes, os três últimos saídos do banco. Depois que os atacantes Villa, aos 11, e Silva, aos 13, abriram a porteira na etapa incial, a goleada foi confirmada no tempo final. Aos 6, foi a vez do volante Xabi Alonzo, cujo chute de fora da área contou com a casualidade do desvio na defesa, após a cobrança de falta ensaiada de Xavi. Aos 13, foi o meia Fabregas, que burlou a linha de impedimento adversária e apareceu livre para marcar, em passe de Xabi Alonzo. Aos 30, o atacante Fernando Torres provou que valeu a pena esperar por sua recuperação, ao completar, de chapa, o cruzamento da esquerda da jovem promessa Pedro Rodriguez.

Por fim, aos 35, após uma confusão do goleiro e um zagueiro poloneses com Torres, dentro da área, foi a vez do mesmo Pedro Rodriguez dar números finais ao placar, num lindo toque de cobertura. Como seu time, o jovem atacante se despediu hoje das terras de Espanha disposto a provar na África que a promessa é realidade.

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