Paula Vigneron — Memórias

Atafona, 2 de março de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, 2 de março de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Mataram minhas lembranças.

Drenaram-nas de mim a pouco custo. Barato. Por quase nada. Arrancaram sonhos, ilusões, tempestades que me eram caras. Levaram os prantos, os risos e os cantos. De todos os cantos. Sorrindo, invadiram espaços, tetos, sobrados. Sombras. Lendas e histórias. As vozes, silêncios. As vezes. Trás, frente. Das costas, os idos. Os regressos. Fatos e dados. Comeram narrativas jamais criadas. Casos não contados. Vidas não vividas. Recordações de um passado ainda desconhecido e pronto a ser desbravado.

Mataram minhas lembranças.

Tiraram de minha boca o gosto de um doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância. Era parte de mim. Metade. Uma das mais importantes construções do meu ser. Derrubaram os tijolos que me ergueram. As paredes formadas por tatos e retratos de alguém que já não sei. Quem? Ninguém. Entre outros tantos que, de mim, fizeram abrigo. Destruíram os desejos, anseios. Até os medos. Os pavores da menina que temia as noites escuras. Que não suportava os dias de sol. Que admirava o cinza do céu nublado. Gargalharam a cada face transfigurada. Desfigurada. Remodelada. De cada risada deixada na estrada. Vícios perdidos em esquinas tortas. Vias mortas. Amores, ardores.

Mataram minhas lembranças.

Apossaram-se de nomes e sobrenomes. Sem autorização. Em atos vis, mortais, infames. Imorais. Regaram mato em vez de flores. Todos secaram. Ansiaram por dominar. Ambicionaram. Sem resgates. Tomaram como suas cada parte de minha estrada. Tombaram muros, pedras, casas. Mitos. Fito-os, agora, com ares longínquos. Estranhos a mim.

Estranhos.

Mataram minhas lembranças.

E eu? O que fiz?

E eu, que sou o que fizeram de mim?

E eu?

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Savio

    Que texto! Cada vez mais me impressiona a qualidade literária dos textos da Paula Vigneron. Ela mergulha fundo nos confins da alma!

    A escolha da primorosa foto, se atrela perfeitamente ao texto: escritora e fotógrafo-escritor são impregnados pela linguagem cinematográfica. Leio a Paulinha associada ao zoom fotográfico e vejo a cena toda.
    __Obrigado!

  2. Bravo !!! Lindo texto ,forte vigoroso . Deslumbrante .Obrigada querida um primor.

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