“Venda do futuro”: desembargador do TRF com procuradores da Câmara e município

 

Sede do TRF-2, no Rio de Janeiro, onde despacharam hoje sobre a “venda do futuro” os procuradores da Câmara e do município de Campos (Foto: Reprodução)

 

 

Antecipada aqui, acabou agora há pouco a audiência do procurador da Câmara Municipal de Campos, Robson Maciel Junior, com o desembargador Marcelo Pereira da Silva, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2). O objeto do encontro foi a “venda do futuro” feita (aqui) em maio de 2016 entre o governo Rosinha Garotinho (PR) e a Caixa Econômica Federal (CEF). Iniciada um pouco antes das 15h, quem também participou da audiência foi o procurador geral de Campos, José Paes Neto. Ele e Robson pediram celeridade ao desembargador, que em 26 de junho liberou (aqui) a CEF para cobrar a “venda do futuro” nos termos dos Garotinho. A preocupação com o tempo é porque a data base para o pagamento dos royalties é no dia 20 (depois de amanhã). Marcelo Pereira da Silva, no entanto, ressalvou que tem audiências no TRF nos dias 19 e 20, e que a questão de Campos é complexa.

Até uma decisão judicial contrária, a única coisa certa é que a Caixa está livre para cobrar nos termos dos Garotinho os royalties e Participações Especiais (cuja próximo pagamento trimestral deve sair no próximo dia 10) de Campos. Mas a audiência no TRF-2 deixou Robson esperançoso no seu pedido de assistência (aqui), visando à intervenção de terceiro (a Câmara) na disputa jurídica entre a CEF e Prefeitura de Campos:

— O questionamento da Câmara é técnico. A própria Caixa alega o tempo todo em sua defesa que fez com a gestão Rosinha uma cessão de crédito, não uma operação de crédito. Só que o dinheiro obtido numa cessão de crédito pode ser usado apenas para dois fins: pagar dívidas com a União ou capitalização de Fundo de Previdência. Quando a Caixa pegou R$ 194 milhões do dinheiro para pagamento de uma dívida aberta pelos antigos gestores, feita em 2015, invalidou o caráter da cessão de crédito. Para pegar seus R$ 194 milhões, a Caixa teria que ter feito uma operação de crédito e só cobrar 10% das receitas da exploração de petróleo e gás, como determinam  a lei municipal 8273/2015, aprovada na Câmara de Campos, e a Resolução Modificativa 002/2015, do Senado. Ou uma coisa, ou outra. Quando expliquei isso ao desembargador, ele disse: “Entendi. Agora entendi”.

Por sua vez, o procurador do município explicou sua prensença na audiência marcada no TRF pelo colega do Legislativo goitacá:

— Vim para o Rio hoje também. Aproveitei e, junto com o Dr. Robson, despachei com o desembargador Marcelo Pereira da Silva. Aproveitamos que já estava marcado e que a Caixa tinha apresentado resposta ontem (17) ao nosso recurso, e despachamos em conjunto. Acho que a gente conseguiu explicar bem a situação ao desembargador, sanar as eventuais dúvidas que ele tivesse. Agora é aguardar a decisão, para saber se os argumentos que apresentamos sensibilizaram o desembargador a ponto dele modificar seu entendimento inicial. Vamos saber nos próximos dias — disse José Paes.

Em entrevista à Folha, publicada no último dia 2, o prefeito Rafael Diniz (PPS) admitiu (aqui):

— Se isso vier acontecer (a “venda do futuro” ser cobrada pela Caixa nos termos estabelecidos pelos Garotinho), será o caos para a nossa cidade. Vou ficar trabalhando só com as verbas federais que já são carimbadas e têm destinação certa e também com a arrecadação própria nossa. Vai ser uma queda absurda. Aí vamos ter que refazer as contas, rever a prioridade da prioridade. Aí é uma situação muito complicada para o município.

Também hoje, o portal do Superior Tribunal de Justiça (STJ) explicou (aqui) a decisão da sua presidente, ministra Laurita Vaz, sobre o caso. No último dia 11, ela negou (aqui) o pedido de suspensão feito pela Prefeitura de Campos contra a decisão do desembargador Marcelo Pereira da Silva, favorável à Caixa:

 

Mantidos repasses de royalties de petróleo de Campos dos Goutacazes (RJ) para a CEF

 

A presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministra Laurita Vaz, indeferiu pedido de suspensão de decisão da Justiça Federal que determinou que o município de Campos dos Goytacazes (RJ) mantenha o repasse à Caixa Econômica Federal de royalties e participações decorrentes da exploração de petróleo e gás natural. O valor do contrato ultrapassa R$1 bilhão.

Por meio do instrumento contratual e em meio à grave crise financeira, o município transferiu à CEF os direitos de crédito referentes à participação na exploração de petróleo e gás, entre 2016 e 2026. Em contrapartida, a Caixa pagou ao município cerca de R$562 milhões.

Posteriormente, tanto o município fluminense quanto a instituição financeira ingressaram com ações na Justiça Federal – o primeiro com o objetivo de declarar a nulidade do contrato; o segundo, para fazer com que o poder municipal cumprisse integralmente as disposições contratuais.

Crise financeira

Após interposição de recurso da CEF (agravo de instrumento), o Tribunal Regional Federal da 2ª Região determinou que o município de Campos dos Goytacazes transferisse ao banco o montante correspondente ao fluxo em barris de petróleo na proporção mensal especificada no contrato.

Contra essa decisão, o município apresentou ao STJ o pedido de suspensão, sob o argumento de que a cidade vive a maior crise financeira de sua história, que foi acentuada em virtude da queda de arrecadação das receitas oriundas da exploração do petróleo e seus derivados. A municipalidade alega que, caso mantida a decisão, será ampliado o cenário de caos financeiro generalizado, com riscos de lesão à ordem pública.

Caso complexo

A ministra Laurita lembrou que o município já passava por grave crise financeira à época da formalização do contrato, e agora, novamente sob o argumento de problemas nas contas públicas, busca o cumprimento de suas obrigações de modo diferente daquele acertado em contrato.

“Se, de um lado, a situação de caos financeiro alardeado pelo Município Requerente é notória, de outro, é igualmente evidente que não decorre exclusivamente do cumprimento das obrigações contratuais assumidas com a Caixa Econômica Federal, não se podendo creditar à decisão que se busca suspender, que reconheceu a higidez do negócio jurídico celebrado, a ocorrência de grave lesão à economia pública”, afirmou a ministra.

De acordo com a presidente do STJ, a complexidade do caso envolveria o exame de cláusulas contratuais e da avaliação da incidência das Resoluções 43/2001 e 02/2015 do Senado Federal ao negócio jurídico. Dessa forma, o eventual reconhecimento de lesão aos bens regidos pela legislação demandaria a análise do mérito da causa – ainda em curso na Justiça Federal – para, verificada a nulidade do contrato, sustar o seu cumprimento.

“Trata-se de medida de todo inviável em pedido de suspensão de liminar e de sentença, sob pena de transmudar o instituto em sucedâneo recursal”, concluiu a ministra ao indeferir o pedido de suspensão.

 

Leia a cobertura completa na edição de amanhã (19) da Folha da Manhã

 

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Ocinei Trindade — O vendedor de futuros

 

 

 

Cresci ouvindo um dito popular: “o futuro a Deus pertence”. Em outra expressão, costumamos nos valer da sorte quando pronunciamos “seja o que Deus quiser”. Em algum momento da história, o Brasil foi considerado um país de futuro rico e próspero. Com as descobertas de poços de petróleo na Bacia de Campos, o município fluminense de origem goitacá também entrou no embalo de riqueza e supremacia futuras. Bem, o futuro campista não tem sido assim uma brastemp no presente…

O empréstimo bilionário realizado pela Caixa Econômica Federal ao governo Rosinha Garotinho enquanto prefeita de Campos dá o que falar (uns a favor, outros contrários). O pagamento da dívida, segundo contrato com o banco estatal, parece, foi aprovado sob condições legais e amparado por resolução do Senado Federal, comprometendo parte dos royalties do petróleo que o município recebe da Petrobras. Despesa para os próximos dez anos e para os próximos governos pagarem. A conta chegou e a gritaria tem perturbado muita gente.

O atual governo alega não ter condições de pagar o empréstimo sob os moldes acordados pela gestão anterior, sem comprometer a administração do município que tem despesas altas e atravessa crise financeira. O mesmo ocorre no estado do Rio de Janeiro e no resto do Brasil quando se fala de economia abalada. Como sabemos, quando o assunto é dívida e lucro, instituições bancárias não costumam fazer caridade, nem mesmo a Caixa Econômica Federal. Cliente que não honra dívida, é penalizado de um jeito ou de outro. No nosso caso, toda a população, sobretudo os mais pobres.

Como será o nosso futuro quanto a isto tudo? Apesar de Deus saber de todas as coisas, o Criador não se envolve em esquemas políticos e negociatas financeiras (com ou sem contrato futuro). Então, Ele resolveu não se manifestar. Pelo menos, por enquanto. É que, tanto empréstimo, como intervenção divina, também têm lá seu preço. Querendo ou não, a conta chega. Como pagar? Bem, cada um de nós precisa saber se virar, pois cobrador na porta pode custar muito caro, até mesmo algumas vidas.

É claro que não deveria estar colocando o nome de Deus nesse deboche ou nessa tragédia que se tornou o Brasil. O risco é alto. Deboche e tragédia que se manifestam no estado do Rio de Janeiro inteiro e em Campos dos Goytacazes. Aqui, parece que a coisa soa ainda mais caótica ou ridícula onde vivem cerca de 500 mil pessoas, atingidas diretamente pelas trapalhadas políticas feitas por governantes locais, estaduais e federais. Até quando? Hum, está difícil prever o futuro.

Os acontecimentos recentes no Brasil, Rio de Janeiro e Campos dos Goytacazes às vezes soam como ficção. Tudo parece roteiro cinematográfico por aqui, o que pode colocar no chinelo produções hollywoodianas como O exterminador do futuro (1984), De volta para o futuro (1985), O vingador do futuro (1990), Minority Report- A nova lei (2002), X-Men: dias de um futuro esquecido (2014).

Há também como se inspirar nos padrões brasileiros mais pobres ou modestos de vislumbramentos cinematográficos. É o caso de O homem do futuro (2011) e O vendedor de passados (2015). Sendo este último filme, inspirado no livro do angolano José Eduardo Agualusa.

Não basta ser pessimista ou otimista. É preciso algum futuro ou algum controle remoto nas mãos para mudar canais, mudar governantes, mudar parlamentares, mudar juízes e promotores de justiça. Talvez, em tempos vindouros, teremos mesmo que inventar um passado, pois lidar com o presente e o futuro já comprometeu quase toda nossa imaginação.

 

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Igor Franco — Venda do Futuro: Etapa ou Desfecho?

 

 

 

A “venda do futuro” voltou oficialmente aos noticiários nas últimas semanas. Após seguidas derrotas na Justiça do pedido de interrupção e repactuação do pagamento do contrato de antecipação feito na gestão Rosinha, a Prefeitura reforçou a comunicação nas redes sociais sobre o potencial perigo dos descontos continuados sobre a receita municipal.

A tal “venda do futuro” nada mais é do que uma operação de crédito com garantia, com um ente público na ponta devedora e que tem uma instituição financeira como credora. A garantia da operação é a receita obtida ao longo dos anos com os famosos royalties do petróleo. Uma vez que o credor possui uma garantia forte, é possível operar com taxas mais baixas e prazo mais alongado. O recurso tomado não pode ser utilizado para pagamento de despesas como pessoal ativo e inativo, por exemplo. A ideia é que o recurso antecipado não seja consumido com o “giro” da máquina, mas com investimentos e obras públicas — uma destinação produtiva, por assim dizer.

Há um ensinamento informal no mercado financeiro de que “se dívida fosse ruim, ninguém tomaria”. Praticamente toda grande empresa ou país no mundo possui dívidas relevantes. Há justificativas teóricas para isso: gestão de liquidez e risco, incentivos tributários etc. Uma dívida de longo prazo e juros baixos é um paraíso para qualquer devedor. Para os campistas, porém, a “venda do futuro” vem se mostrando um inferno.

As receitas oriundas do petróleo são uma excelente garantia para o credor, mas uma péssima proteção para o devedor. Além de estar envolvida em diversos problemas políticos, há uma oscilação muito grande no preço da commodity. A insegurança jurídica quanto à divisão dos royalties entre os membros da federação brasileira é outra grande ameaça ao pagamento da dívida. Uma previsão de comprometimento de 10% da receita pode se tornar 20, 30, 40%. Isso significa que o nosso município corre um elevado risco de ou perder ainda mais recursos ou tornar-se refém de uma dívida “impagável”, gerando diversas repactuações ao longo do tempo. Num cenário de crise fiscal, a queda da arrecadação por motivos alheios aos do mercado do ouro negro impõe um ônus ainda mais pesado sobre o município.

É importante, contudo, ter ciência de que a “venda do futuro” foi o resultado de um caminhar de muitos anos. Na origem do problema, temos uma grande vocação municipal para a hipertrofia: se a panaceia macaense é a Petrobrás, sem dúvida alguma a heroína da planície chama-se Prefeitura Municipal de Campos. Praticamente os grandes negócios desenvolvidos na cidade possuem uma relação de dependência direta ou indireta com a máquina pública. Temos um número incrivelmente alto de funcionário públicos municipais. Há diversos programas de subsídios sociais ou econômicos que criam uma rede de dependência em torno dos gastos efetuados pela municipalidade.  Para agravar nossa situação, qualquer nível de governo no Brasil tem um histórico fiscal altamente pró-cíclico: crescemos demais as despesas em épocas de bonança e somos obrigados a cortar profundamente os gastos em épocas de crise.

O atual governo age acertadamente ao colocar a eficiência do gasto público como prioridade número um. Implantar métricas de gestão que diminuam desperdício e reduzam o custo operacional da máquina é tão importante quanto aumentar a produtividade dos servidores sem aumentar a despesa com folha. É preciso ser firme na adoção de medidas capazes de reduzir o custo da administração no longo prazo, ainda que impopulares. Tornar a máquina eficiente e financeiramente viável é a única alternativa para que nosso futuro não seja definitivamente penhorado e que a “venda do futuro” não tenha sido apenas mais um capítulo da nossa tragédia.

 

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Fabio Bottrel — O Silêncio dos Tempos

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Shigeru Umebayashi – Yumeji (tema de À Flor da Pele)

 

https://www.youtube.com/watch?v=23oBMOvt85o

 

 

 

 

 

— Não te escutas, velho Pompeu, a dura gente que implora as lágrimas de Deus para molhar como um beijo suave o capim malgrado que agoniza no seco pasto?

— Lázaro, essa buzina pública, longa e injusta, mãe de todas as delongas, ofusca em meus ouvidos os ruídos daqueles pobres meninos a surrupiarem pelas estradas uma esmola de futuro. Longe de não querer escutar, em meus olhos já se veem mergulhados suas mazelas eternas, mas há de concordar, do jeito que está, o que há de mudar?

— Pompeu, quanto desânimo destila ao futuro, verdade seja dita, também não compartilho de ânimos pretéritos. Mas tenho fé nessa caneta e pedaço de papel, aqui mesmo, sentado nesse banco da Praça do Liceu, que se transforme em ferramenta para as gerações futuras não cometerem as atrocidades do passado.

— Que a minha descrença seja perdoada, Lázaro, mas poluído com o vento sem filtro dessa planície, é capaz dessa geração não enxergar a tinta que sai da sua caneta, quiçá entenderá o timbre compositor deste diálogo. Os ouvidos não foram educados, os olhos desconhecem a beleza imperecível da vida, o coração padece sem nunca ter batido. Gostaria de ter me feito poeta, com alma perdida num sorriso enquanto retira das fragrâncias frasais o verdadeiro sentido: que não se ama alguém só pela beleza, é certo que faz desta, uma geração incapaz de amar.

— É com pesar, Pompeu, que não te contesto, outrora havia envelhecido, desde então, me cansa esse sentimento pobre a rondar essa superfície tão grossa, que não se permite enxergar a fundo. Talvez esse seja o envelhecer da natureza, na flacidez das horas, orquestra o silêncio dos tempos.

 

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Dicas do blog para o final de semana: Breja Blues & Jazz e Sarau das Preta

 

A partir desta noite, não estarei em Campos. E o motivo não poderia ser mais feliz: o aniversário de 18 anos do meu filho. Mas, antes de rumar à Pasárgada, lá onde reina minha amiga Iemanjá, deixo a dica de dois programas que não perderia acaso ficasse por aqui.

 

 

O primeiro já começou às 18h de hoje, nos jardins do Teatro Trianon. E se repete a partir das 14h, no sábado (15) e domingo (16): o Breja Blues & Jazz Festival. Reunindo exposição e venda de cerveja artesanal, cada vez mais popular entre os campistas;  boa música, com direito à comemoração dos 30 anos da tradicionalíssima Blues Band Vidro; e foodtruck, outra moda que tem se consolidando na planície; o evento promete esquentar o final de semana, apesar do céu nublado.

 

 

O outro programa que não perderia, se não estivesse pronto para seguir o Paraíba do Sul rumo à sua foz, seria o “Sarau das Preta”, neste sábado, às 20h, no Teatro do Sesi. No palco, cinco mulheres talentosas da terra plana pretendem apresentar o universo feminino e negro através da música, poesia, conos e lendas de autores africanos e brasileiros. Compõem o elenco as atrizes e cantoras Adriana Medeiras, Vânia Navarro, Michelle Belcanto, Lua Monteiro e Ellen Correa. Os ingressos podem ser comprados no próprio teatro: R$ 10,00 a inteira e R$ 5,00, a meia.

Para saber maiores informações na demcoracia irrefreável das redes sociais, basta acessar aqui e aqui. Bom final de semana!

 

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“Venda do futuro” — Procuradores da Câmara e de Campos vão ao TRF-RJ

 

Marcão Gomes, Robson Maciel Junior e José Paes Neto tentam audiências no início da semana no TRF-RJ (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Anunciada como caos administrativo da cidade, a “venda do futuro” feita (aqui) pelo casal Garotinho (PR) com a Caixa Econômica Federal (CEF) terá um início de semana que pode ser decisivo para o destino de quase meio milhão de milhão de campistas. Ainda a depender de confirmação na segunda (17), está pré-agendada para a próxima terça (18) uma audiência no Tribunal Federal do Estado do Rio de Janeiro (TRF-RJ), do procurador e o presidente da Câmara de Campos, respectivamente os advogados Robson Maciel Junior e Marcão Gomes (Rede), com o desembargador Marcelo Pereira da Silva. Para a mesma terça, ou na quarta seguinte (19), quem também está tentando outra audiência no TRF-RJ como o desembargador é o procurador geral de Campos, José Paes Neto.

Foi o desembargador Marcelo Pereira da Silva quem derrubou (aqui), em 26 de junho, a liminar da 14ª Vara Federal do Rio de Janeiro, dada em abril pelo juiz Julio Abranches, que vinha permitindo ao governo Rafael Diniz (PPS) pagar apenas 10% dos royalties do petróleo pelo dinheiro tomado pelos Garotinho com a CEF. Na última terça (11), o Legislativo goitacá entrou (aqui) no TRF-RJ com um pedido de assistência, visando à intervenção de terceiro na disputa jurídica entre a Caixa e Prefeitura de Campos. Coincidentemente, foi no mesmo dia em que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou (aqui) o pedido de revisão de liminar feito pela procuradoria municipal de Campos contra a decisão suspensiva do desembargador Marcelo Pereira da Silva.

O questionamento feito pela procuradoria da Câmara é técnico: a CEF argumenta em sua defesa que realizou com os Garotinho uma cessão de crédito, não uma operação de crédito. Nesta, estaria limitada a só cobrar os 10% das receitas da extração de petróleo e gás, segundo a lei municipal 8273/2015, aprovada na Câmara de Campos, e a Resolução Modificativa 002/2015, do Senado Federal. Já numa cessão de crédito, pela Resolução 43/2001 (artigo 5º, inciso 6º, alínea A e parágrafo 2º) do mesmo Senado, o dinheiro só poderia ser usado em duas finalidades: pagamento de dívida com a União e/ou capitalização de Fundo de Previdência. Só que a própria CEF subtraiu R$ 194 milhões, por conta de uma dívida feita pelos Garotinho em 2015, do novo valor entregue ao casal em 2016.

— Por isso, o contrato (da ‘venda do futuro’ de Campos) celebrado pelo casal Garotinho com a Caixa Econômica Federal é simulado e fraudulento. Por isso, A Câmara de Campos entrou na briga para que ele seja declarado nulo — asseverou Marcão.

O procurador da Câmara de Campos deu base jurídica às palavras fortes do presidente Marcão:

— O dinheiro não poderia ser usado para pagar os R$ 194 milhões que ficaram em aberto da cessão anterior feita com a Caixa. Ao fazer isso, é certo que, de acordo com a Resolução de 2001 do Senado, a Caixa invalidou o caráter da cessão de crédito. Para pegar seus R$ 194 milhões, teria que ter feito uma operação de crédito e só cobrar 10% das receitas da exploração de petróleo e gás. Para cobrar mais, os recursos de uma cessão de crédito só poderiam ser usados pelo município para pagar dívidas com a União ou capitalizar o PreviCampos, não para pagar dívidas anteriores com uma insituição financeira que, apesar de estatal, agia como banco — explicou Robson.

Indagado sobre a iniciativa legislativa em defesa dos interesses de Campos, o procurador geral do município pareceu aprovar:

— Posso afirmar genericamente que o ingresso da Câmara no processo é importante. Sobretudo para demonstrar ao Judiciário o espírito da lei aprovada (8273/2015) e os limites impostos pelo legislador, ignorados pela antiga gestão municipal e pela Caixa — disse José Paes.

Os procuradores da Câmara e do município de Campos têm pressa em suas audiências com o desembargador do TRF-RJ que permitiu a Caixa cobrar a “venda do futuro” nos termos celebrados pelos Garotinho, no apagar das luzes do governo Dilma Rousseff (PT). O dia 20 do mês, data base para o pagamento dos royaties, é na próxima quinta-feira.

 

 

Em maio de 2016, Garotinho, Rosinha e a presidente da Caixa de Dilma, Miriam Belchior, quando venderam o futuro de Campos até 2036 (Foto: Folha da Manhã)

 

Leia a cobertura completa na edição de amanhã (15) da Folha da Manhã

 

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Luciane Silva — Deixar morrer como política de governo: os aposentados e servidores do Rio de Janeiro como um mero aborrecimento.

 

 

 

“os atrasos não configuram vexame, sofrimento ou humilhação, não interferem no psicológico dos servidores. O simples descumprimento de dever legal ou contratual, por caracterizar, mero aborrecimento, em princípio não configura dano moral, salvo se da infração advém circunstância que atenta contra a dignidade da parte”.

Sentença judicial sobre ação individual por não recebimento de salário, Rio de Janeiro, 2016/2017

 

“o direito, a paz, as leis nasceram no sangue e na lama das batalhas”

Michel Foucault, Em defesa da sociedade, 1999

 

Dona Maria fez uso da palavra por volta das 10:30 da manhã do dia 10 de julho, na avenida Presidente Vargas, cercada por policiais militares armados com fuzis. Uma população de aproximadamente 150 pessoas, em sua grande maioria, servidores públicos, acompanharam sua declaração. Com sua cesta de amendoins, contou-nos sobre o que tem vivido nos meses recentes. Voz firme, lúcida e forte. Ela faz parte dos milhares de aposentados e pensionistas do estado do Rio de Janeiro que não recebem seus salários e seu décimo terceiro.

Não é preciso ter formação jurídica para compreender a posição do Judiciário fluminense. Na mesma sentença citam que  “os atrasos não configuram vexame, sofrimento ou humilhação, não interferem no psicológico dos servidores” ou seja, os atrasos não geram problemas estruturais no cotidiano dos servidores. Mas a sentença é encerrada com a ressalva de que os processos merecem outro desfecho se “da infração advém circunstância que atenta contra a dignidade da parte”. Que malabarismo tortuoso e canhestro é este?

Não costumo apresentar em meus textos situações dramáticas que possam produzir adesão dos leitores. Primo por argumentações de outra ordem. Então creio que posso fazer uso da descrição dos fatos desta segunda para enviar ao Judiciário uma outra possibilidade de pensar sofrimento, humilhação e dignidade.

Tenho participado destes atos desde fevereiro de 2016. E o que havia de diferente nesta segunda? Em primeiro lugar a percepção da intensidade do crime praticado por este governo e estampado nos jornais e entrevistas com o mote de crise e incerteza do pagamento da folha de maio. E os depoimentos que exemplificam o sofrimento vivido. Sofrimento este que os juízes dizem não ocorrer. Cada um dos servidores que fizeram uso da voz, apresentaram um caso de morte em hospitais (por infarto e outras doenças que têm se agravado nos meses recentes), depressão e em alguns casos, tentativa de suicídio. Na fala de Dona Maria, particularmente, pela crueza de sua situação, alguns não puderam conter as lágrimas. Foram abraçá-la!

As 12:30 aproximadamente, um grupo de 5 pessoas foi recebido na secretaria de Fazenda para uma conversa com Gustavo Barbosa que enviou um preposto que tentou comprar todos os pacotes de amendoim de Dona Maria. Esta, se negou a vender, como forma de demarcar que sua dignidade não estava à venda.

No dia 13 de julho em entrevista ao G1, Gustavo Barbosa foi enfático sobre a decisão de pagar algumas categorias (como Educação e Segurança, e claro, Justiça): “atualmente o Estado não tem capacidade de liquidar totalmente a folha de servidores e tem de fazer escolhas. É uma decisão de estado”.

São decisões de Estado que levam carpinteiros de 65 anos a procurarem seus direitos e enfrentarem toda a burocracia estatal desumana, como Daniel Blake, filme que os amigos do Cine Marighella exibem no dia 29 deste mês. Em tempos de Reforma Trabalhista, este é um filme obrigatório. No Reino Unido, na França, nos Estados Unidos, a burocracia estatal deixa morrer e faz  viver de acordo com suas decisões. É o caso do furacão Katrina que causou 1836 mortes diretas em agosto de 2005. É a crise humanitária vivida na União Européia que tenta “distribuir” os refugiados entre os países membros como um “custo” com o qual todos devem arcar.

Para fechar este texto voltemos ao século XVII no reinado de João Carlos V. A cena: João governando com a espada, o povo, subserviente atendendo aos seus desejos e desmandos. Era não só o soberano mas tinha sob seu poder a terra, a lavoura, os bens e as vidas. A espada, sempre visível, caía sobre as cabeças que seu soberano escolhesse. Vidas nuas. Vivam aqueles que obedeciam, morriam os demais.

O Estado moderno, a partir de suas políticas de fazer viver, controla as epidemias, controla a natalidade, fecha a fronteira aos refugiados, ordena ações nos morros e áreas indígenas. Mas também precisa de braços para manter sua burocracia.  E no Rio de Janeiro, opta por deixar morrer os aposentados, tal qual João Carlos. E seu instrumento de ação é o Judiciário que sentencia à morte milhares de pessoas quando sequer reconhece como crime, o não pagamento dos salários e ainda ironiza os servidores. Para o Estado, isto não passa de mero aborrecimento.

 

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Guilherme Carvalhal — Na sala de espera

 

 

 

Por mais que contasse os minutos, os mesmos relutavam em se adiantar. Ponteiros teimosos atrasando os passos, estendiam o elástico da espera ao máximo da tensão — a quase arrebentar.

O garoto com celular nas mãos e fones no ouvido tamborilava os dedos no braço de alumínio da cadeira. Sua mãe o acompanhava e folheava uma revista, com velocidade de quem passa os olhos sem nada ler.

Aturdia-me. Sonhava com uma fuga, pelo fim desse momento de agonia. A saída, a porta principal, reluzia obstruída, um empecilho existente com exclusividade na minha mente.

Por que essa senhoras falam tanto em morte? Juvenal estava tão bem do nada morreu. É mesmo? O Sílvio foi do mesmo jeito, um catiripapo sem mais nem menos, caiu mortinho voltando da feira. E teve endemoninhado que levou sua sacola de mamão.

Claustrofobia. Cheiro asséptico de consultório médico. Detergente de lavanda. Música ambiente com quatro notas musicais se alternando. Uma secretária ociosa lixando as unhas. Eu suava.

A moça limpava coriza. Saía aquele muco esverdeado pela narinas após uma pressão em seu respirar. Assoou: o ruído sugeria pedaços de pulmão escapulindo pela traqueia. Gerava piedade, e uma das senhoras correspondeu e perguntou qual problema a acometia.

Meus instintos internos me impulsionavam a levantar e partir. Por outro lado, eu me envergonhava por ter de realizar quaisquer gestos bruscos diante desse público adoentado e imerso em lástimas. Próximo deles, eu queria manter uma postura de integridade. Doença não me abala, consulta médica não passa de coisa rotineira.

A porta se abre. Sai um sujeito meio em choramingos. Notícia ruim? Deu-lhe uma semana de vida? Ninguém se importou; se aliviaram pela certeza da fila de espera diminuir.

Eu batia os pés, ansioso. Aquela demora me levava por um longo suplício. Eu encarava uma forçosa solidão, restrito em meio a gente estranha, e por serem estranhas, para mim eram desagradáveis. Eu as encarava, pouco afável, quase furioso. Queria lhes dizer o quanto me incomodavam, o quanto me irritavam suas meras existências, agravadas pela proximidade. Elas, tão assépticas quanto o azulejo, me remetiam a nada, e por serem nada, evidenciavam minha solidão.

Eles me retribuíam o olhar. Cada um funcionava como espelho aos demais, eu compreendia. Assim como eu, todos se sentiam de alguma maneira solitários. E agonizávamos conjuntamente de nossa solidão.

 

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“Venda do futuro” — Câmara entra no TRF e Marcão dispara: “contrato foi fraude”

 

Presidente e procurador da Câmara de Campos, Marcão Gomes e Robson Maciel Junior (foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

“O contrato (da ‘venda do futuro’ de Campos) celebrado pelo casal Garotinho (PR) com a Caixa Econômica Federal (CEF) é simulado e fraudulento. A Câmara de Campos entrou na briga para que ele seja declarado nulo”. As palavras fortes são do presidente do Legislativo goitacá, vereador Marcão Gomes (Rede). Para sustentá-las, o procurador da Câmara Municipal, Robson Maciel Junior, entrou ontem no Tribunal Federal do Estado do Rio de Janeiro (TRF-RJ) com um pedido de assistência, visando à intervenção de terceiro na disputa jurídica entre a CEF e a administração Rafael Diniz (PPS), que luta para não pagar mais do que os 10%  das receitas oriundas da exploração de petróleo e gás — royalties e Participações Especiais (PEs).

Sem tocar na questão social do caos no município, caso vinguem os critérios determinados pelos Garotinho à “venda do futuro” de Campos, o questionamento jurídico da Câmara é técnico: em todas as defesas da Caixa, ela alega que sua ação foi uma cessão de crédito, não uma operação de crédito. Esta estaria sujeita à cobrança limitada em 10% das receitas do petróleo e gás, como determina a lei municipal 8273/2015 aprovada na Câmara de Campos e a Resolução Modificativa 002/2015, do Senado Federal. Já a cessão de crédito não precisaria obedecer esse limite. No entanto, pela Resolução 43/2001 (artigo 5º, inciso 6º, alínea A e parágrafo 2º), também do Senado, a cessão de crédito teria que ter apenas duas finalidades: pagamento de dívida com a União e/ou capitalização de Fundo de Previdência.

— E foi aí, neste ponto, que a fraude aconteceu. Pois a Caixa se utilizou desse mesmo contrato de maio de 2016 para amortizar uma dívida de R$ 194 milhões, que estava em aberto com o governo Rosinha, ainda da cessão anterior, feita também com a Caixa em 2015. Como a Resolução do Senado de 2001 determina o dinheiro da cessão de crédito tem que ser aplicado, mas não impõe a fiscalização de quem cedeu por quem pagou, Rosinha e Garotinho ficaram livres para usar os recursos como bem entendessem — apontou Marcão.

— O certo é que o dinheiro não poderia ser usado para pagar os R$ 194 milhões que ficaram em aberto da cessão anterior feita com a Caixa. Ao fazer isso, é certo que, de acordo com a Resolução de 2001 do Senado, a Caixa invalidou o caráter da cessão de crédito. Para pegar seus R$ 194 milhões, teria que ter feito uma operação de crédito e só cobrar 10% das receitas da exploração de petróleo e gás. Para cobrar mais, os recursos de uma cessão de crédito só poderiam ser usados pelo município para pagar dívidas com a União ou capitalizar o PreviCampos, não para pagar dívidas anteriores com uma insituição financeira que, apesar de estatal, agia como banco — explicou Robson.

Por coincidência, ontem, no mesmo dia em que a Câmara Municipal ingressou com seu pedido de assistência na disputa jurídica da “venda do futuro”, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou (aqui) o pedido de revisão de liminar feito pela procuradoria geral de Campos contra a decisão suspensiva favorável à CEF, dada (aqui) em 26 de junho pelo desembargador Marcelo Pereira da Silva, do TRF-RJ. Foi a ele que o procurador da Câmara enviou sua “intervenção de terceiro”, assim como ao juiz Julio Abranches, titular da 14ª Vara Federal do Rio de Janeiro, que tinha dado em abril uma decisão liminar favorável a Campos.

Segundo Robson, ele fará contato telefônico amanhã (13) com o desembargador Marcelo Pereira da Silva. Dependendo da agenda deste, ainda esta semana será marcado uma audiência no TRF-RJ, na qual o procurador da Câmara exporá seu entedimento sobre o caso.

 

Confira a cobertura completa na edição de amanhã (13) da Folha da Manhã

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — O perigo da certeza

 

 

 

 

Ontem, terça feira, um grupo de senadoras do PT e do PCdoB ocupou a mesa diretora do Senado tentando impedir que seja aprovada a reforma trabalhista.

A atitude resultou inútil. Depois de algumas horas e de alguns intentos de negociação, a presidência da casa reocupou a mesa e o projeto de lei foi aprovado.

Não é minha intenção discutir aqui a qualidade da reforma trabalhista, mas a atitude das parlamentares que, sabendo que iam perder a votação, decidiram, simplesmente, evitar que a votação acontecesse.

O escritor francês Emmanuel Carrère lançou ano passado um romance chamado ‘O Reino’. Nele, Carrère reflete sobre as origens do cristianismo, mas também sobre a sua própria crise como católico. Ao falar da fé, componente indispensável para o sucesso de todo culto, conclui: “O contrário da verdade não é a mentira, mas a certeza”.

As senadoras possuem uma certeza: a reforma da CLT não é boa. Basta isso para habilita-las moralmente a violar as regras democráticas, e impedir o tratamento parlamentar de um projeto de lei.

Quando América Latina sofria golpes de estado, aqueles que os produziam, militares e civis, também tinham a certeza de que interromper um governo democrático era justo.

Acreditar piamente que estamos no lado certo, como dogma de fé, significou ao longo da historia o sofrimento de milhares de pessoas. Quem morria de fome no Grande Salto Adiante de Mao Tse Tung se sacrificou em nome da convicção que o líder chinês tinha do sucesso final do comunismo. Peguem qualquer outro grande ditador e verão a mesma segurança para produzir massacres, pois o fim justifica os meios.

Felizmente, o autoritarismo das senadoras não passou de um evento um tanto ridículo. Mas foi revelador do perigo que se esconde atrás da confiança cega daqueles que se acham com a verdade: para que debater, para que votar, se afinal EU é que tenho razão?

A Democracia, ou pelo menos a nossa democracia liberal, implica a coexistência com aqueles que discordamos, assim como o risco de que se possa perder uma discussão, ao ficarmos numa posição minoritária. Desde que se respeitem os parâmetros da Constituição, não há certo ou errado. Há apenas aquilo que a maioria decide, repito, segundo as regras e os princípios do Direito.

Se as senadoras não conseguiram derrubar a reforma trabalhista, deveriam pensar que, talvez, falharam em demonstrar a seus pares que a CLT, como está hoje, dá segurança e estabilidade aos trabalhadores, ou que é capaz de fomentar novos empregos e que elimina a informalidade.

No entanto, se por acaso acham que o seu fracasso de deve simplesmente ao fato da maioria dos parlamentares serem pessoas ‘do mal’ (isto é, ignorantes, evangélicos, conservadoras e/ou neoliberais, etc.), não parece ser uma boa tática espernear e se aferrar a uma mesa aguardando que um milagroso “Deus ex Machina” progressista venha a resolver o impasse, por mais certeza que possam  ter de que são as mocinhas da política.

Afinal, já o dizia Mark Twain: “Ter fé é acreditar numa coisa que você sabe que não é verdade”.

 

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Campos mais perto do caos: STJ nega pedido da Prefeitura na “venda do futuro”

 

Garotinho, Rosinha e a presidente da Caixa de Dilma, Miriam Belchior, quando venderam o futuro de Campos até 2036 (Foto: Folha da Manhã)

 

 

A “venda do futuro” de Campos feita (aqui) pelo casal Garotinho (PR) com a Caixa Econômica Federal (CEF) em maio de 2016, no apagar das luzes do governo Dilma Rousseff (PT), ficou mais perto de conduzir o presente da cidade ao caos.  O Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou hoje o pedido de revisão de liminar feito pela procuradoria municipal de Campos contra a decisão suspensiva ao agravo favorável à CEF, dada (aqui) em 26 de junho pelo desembargador Marcelo Pereira da Silva, do Tribunal Federal do Estado do Rio (TRF-RJ).

O teor da decisão do STJ  só será publicado e conhecido nesta quarta (12), mas o fato é que a decisão anterior do TRF-RJ está mantida. Com ela, a Caixa pode cobrar bem acima dos 10% dos royaties, além da integralidade das PEs, que foi estabelecido como teto tanto na autorização da Câmara Municipal de Campos para a então prefeita Rosinha Garotinho realizar a operação, quanto na resolução do Senado Federal que a autorizou. Isso comprometeria o funcionamento da máquina pública de uma cidade de quase meio milhão de habitantes. Em entrevista à Folha, publicada no último dia 2, o prefeito Rafael Diniz (PPS) admitiu (aqui):

— Se isso vier acontecer (a “venda do futuro” ser cobrada pela Caixa nos termos estabelecidos pelos Garotinho), será o caos para a nossa cidade. Vou ficar trabalhando só com as verbas federais que já são carimbadas e têm destinação certa e também com a arrecadação própria nossa. Vai ser uma queda absurda. Aí vamos ter que refazer as contas, rever a prioridade da prioridade. Aí é uma situação muito complicada para o município.

Ouvido hoje à noite pelo blog, o procurador-geral de Campos, José Paes Neto disse que enquanto não se conhecer o teor da decisão do STJ, ainda não sabe se caberá recurso ou não. De qualquer maneira, ele destacou que ainda há os embargos declaratórios que o município deu entrada no TRF-RJ, junto ao desembargador Marcelo Pereira da Silva. Este deu prazo para que a Caixa se manifeste até a próxima segunda, dia 17.

A partir daí, o desembargador não tem prazo definido para decidir, mas a procuradoria goitacá vai trabalhar para que a decisão do TRF-RJ saia antes do dia 20 (quinta da semana que vem), data base para o pagamento dos royalties. Já as PEs devem ser depositadas a partir do dia 10 do próximo mês. Se na conta de Campos ou da Caixa, como empenharam os Garotinho, os próximos dias dirão.

 

Confira a cobertura completa na edição de amanhã (12) da Folha da Manhã

 

Atualização às 18h09 de 12/07/17 para postar abaixo o vídeo do prefeito Rafael Diniz, postado hoje, sobre a decisão de ontem do STJ:

 

 

 

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Carol Poesia — Pensamentos-pílula ou doses diárias

 

(Foto: Amanda Erthal)

 

 

 

27 de janeiro de 2013, às 19h26min

Quando eu era adolescente, o meu nariz me incomodava muito, ele era grande e ficava vermelho de tanta alergia. Depois o nariz parou de me incomodar e eu comecei a detestar meus pés, eles eram horríveis, grandes demais, magros, compridos, desproporcionais. Na faculdade, nem meu nariz nem meu pé me incomodavam mais, eu queria mesmo era ter seios fartos, os meus eram pequenos e separados. Hoje, a alergia passou e meu nariz tá legal… Até gosto dos meus pés. E meus seios… Hum… Tenho dúvidas se vale a pena mexer neles… Agora o que ta difícil mesmo de aceitar é a minha alma.

 

24 setembro de 2013, às 15h

Estava morrendo de cólica, então me dei ao luxo de parar um pouco de corrigir prova e de assistir televisão deitada. Estava passando um filme simples e delicado — “Três vezes amor”. O final é meio piegas, mas os desencontros são perfeitos. Fiquei com vontade de pedir perdão ao meu passado e aos meus desafetos. É tão fácil estragar tudo. Fiquei chorosa e aquela e aquela solidão agulhenta, da qual fujo como o diabo foge da cruz (“diabo” é com letra maiúscula? fiquei na dúvida… preciso voltar a ler a bíblia), me deu uma lambida (a solidão, não o diabo; mas no fundo é quase a mesma coisa). Fiquei lagrimosa, enxovalhada. Me deu vontade de prostração… Aquela vontade vontadezinha de quase-morte… Foi aí que eu recebi um torpedo lembrando da reunião no meu trabalho. Faltam 40 min. Não é à toa que dizem que o trabalho dignifica. E não é à toa que associam poeta a vagabundo. Discordo. Já estou chegando aí.

 

9 de março de 2012, às 23h53min

(Para Mateus Siqueira de Souza e Bárbara de Oliveira)

Hoje, um aluno, um notável aluno estava perceptivelmente abatido. Eu cheguei perto dele e perguntei “O que houve?”. Ele levantou a cabeça, me olhou profundamente e com uma sinceridade constrangedora disse “Falta. Falta alguma coisa… Sabe, professora?”. Sei, eu sei (imediatamente pensei). Sei sim… Eu sei… Pobrezinho… Descobriu tão cedo… E na descoberta não se pode voltar atrás. Eu disse apenas “melhora essa carinha hein!”.

 

25 de março de 2012, às 20h

Uma das coisas bacanas em amadurecer é se preocupar menos em agradar todo mundo, é relaxar quanto ao que os familiares e amigos esperam de você. Perceber que você deixou de ser o foco é muito saudável! É um alívio poder SER! Quando a gente é nova a gente tem medo de decepcionar alguém próximo e deixar de ser amada por pai, mãe, familiares etc. Quando adulto, isso muda. Sinto uma sincera tranquilidade em fazer escolhas de acordo com o que eu acho, penso e assumo como estilo de vida. Certamente nem sempre agradarei a todos que amo, mas a relação que tenho com essa certeza hoje é muito mais equilibrada. Tem gente que não “esquenta a cara” desde sempre, são felizes. Tem gente que envelhece abrindo mão de SER, por causa dos outros. E tem gente que É o que É, e, finalmente, sem culpa. Enfim… estou me sentindo muito bem hoje.

 

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