Gustavo Alejandro Oviedo — The Room

 

 

 

IT’S NOT ART UNLESS IT HAS THE POTENTIAL TO BE A DISASTER. NÃO É ARTE A MENOS QUE POSSA SER UM DESASTRE. A frase que rola pela internet há alguns anos é uma fantástica e precisa definição, pois indica que a audácia e o risco são parte essencial do artista. Audácia e risco para defender sua obra, ainda que ela possa ser incompreendida ou até rechaçada.

Exemplos de artistas corajosos – ou apenas artistas – foram Van Gogh e Picasso, por exemplo. Ambos decidiram romper com as escolas pictóricas dos seus respectivos momentos abraçando novos estilos – Van Gogh com o expressionismo, Picasso com o cubismo. Os dois decidiram, em algum momento de suas vidas, queimar as naves da tradição. Um se deu muito mal, e morreu na miséria; o outro obteve reconhecimento e fortuna desde cedo.

Então, se não é arte a menos que possa ser um desastre, o que acontece quando a obra é efetivamente um desastre? A pergunta me veio à cabeça ao saber que nos Estados Unidos foi lançado, semana passada, o filme The Disaster Artist (Artista do Desastre), de James Franco. O filme conta a historia da realização de outro filme, The Room (2003), que é considerado o ‘Cidadão Kane’ dos filmes ruins, desbancando do pódio o lendário “Plan 9 do Espaço Sideral” de Ed Wood.

‘The Room’ é tão ruim que inevitavelmente fascina. Atuações risíveis, edição tosca, roteiro simplório que conta o melodrama de um triangulo amoroso com pretensões literárias alla Tenessee Williams. Subtramas paralelas à historia principal que são iniciadas, mas nunca tem desfecho. Diálogos impossíveis (após um dos personagens dizer que foi ao hospital visitar uma amiga que foi severamente machucada pelo namorado, o protagonista ri e responde “Oh, what a story, Mark!”).  Não há uma única situação onde os comportamentos dos personagens não contrariem a lógica. É como se o filme tivesse sido criado por um alienígena que acha que sabe como são os humanos – mas não sabe.

O diretor de ‘The Room’ é um sujeito muito singular chamado Tommy Wiseau, que também produz, escreve e protagoniza o filme. Wiseau, cujo sotaque parece indicar que é um imigrante da Europa Oriental, não tinha experiência alguma na indústria do cinema, mas ainda assim cismou em filmar um roteiro derivado de um romance de 500 páginas que ele mesmo tinha escrito. Gastou na realização entre 5 e 6 milhões de dólares, já que fez questão de gravar com duas unidades de filmagem, em 35 mm, e recriar todos os ambientes internos em estúdio, quando podia ter filmado tranquilamente numa casa de verdade, a um custo muitíssimo menor. À época da estreia, Wiseau fez colocar um cartaz do filme num dos outdoors mais caros de Los Angeles (foto acima) a um custo de 5.000 dólares por mês, e o manteve durante 5 anos! The Room arrecadou oficialmente US$ 1.800.

O filme foi massacrado pela crítica. No entanto, Nick Shrager, do site The Daily Beast, resume: “É o ‘ne plus ultra’ do lixo. Uma obra prima do trash”.

Shrager acertou na mosca: uma obra prima do trash. Com o passar de uns poucos anos, The Room se transformou em objeto de apreciação irônica. Virou Cult. Celebridades de Hollywood como Judd Apatow, Paul Rudd, e Kristen Bell promoveram sessões especiais, as quais vem acontecendo às meias noites em muitos cinemas dos Estados Unidos, e onde milhares de fãs criaram a estranha costume de arremessar colheres de plástico para a tela durante os créditos iniciais, para depois rir de cada um dos diálogos daquilo que pretendia ser um drama existencial.

Tommy Wiseau passou a ser uma celebridade. Nas ultimas semanas, apareceu em varias entrevistas junto com James Franco, por ocasião da estreia de ‘The Disaster Artist’. Suas declarações são tão estranhas quando os diálogos do seu filme. Está convencido de The Room é magnífico, e aproveita as ocasiões para promover o seu site (https://www.tommywiseau.com/) onde vende cuecas boxer com o seu nome impresso.

Voltando ao questionamento inicial, pode ser considerado Wiseau um artista, apesar do desastre de sua obra, e do involuntário sucesso posterior? Bem, por minha parte, não tenho dúvidas de que ele o é, da mesma forma de que foram Van Gogh, Ed Wood, Picasso, Andy Warhol ou John Kennedy Toole (o autor da ‘Confraria de Tolos’ que se suicidou depois de não achar editor para seu romance). Para mim, artista é aquele que dá um passo à frente, sem saber se lá adiante há um precipício ou uma estrada.

Um engraçadíssimo trailer/crítica de The Room, legendado, pode ser assistido neste link. Enjoy.

 

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Este post tem um comentário

  1. Silvana

    “the Room é tão ruim que inevitavelmente fascina” é esse fascínio, despertado pelo o que é considerado ruim, sinônimo de diferente, ousado, algo que sai do lugar comum, que chega a incomodar e desperta curiosidade, é aí que reside a arte.
    Muito bem colocado o questionamento, Gustavo.

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