Guiomar Valdez — Desconhecido mundo novo: quem são os caminhoneiros brasileiros?

 

 

 

Pois é, muitas coisas ficaram da ‘greve dos caminhoneiros’. Destaco a que mais me afligiu: o desconhecimento tácito da maioria de nós sobre o perfil desses trabalhadores (autônomos ou contratados). Um desafio imenso para a área da sociologia do trabalho em decifrar este enigma para além do senso-comum, que é importante, mas, não suficiente. É claro que muitos e muitos estudos já existem, explicando as mudanças contemporâneas no mundo da produção e do trabalho. É claro que a partir da consistência desses estudos já se desenvolveram formas explicativas dessa nova realidade, onde não caberia mais as ideias da sociedade do trabalho, da História, das classes, dos direitos coletivos, etc. É o que eu costumo resumir em 3 ‘Ds’ as políticas hegemônicas: a DESREGULAMENTAÇÃO (da economia), a DESESTATIZAÇÃO (da economia) e a DESUNIVERSALIZAÇÃO (dos direitos sociais)! Características de algo, para mim muito difuso, denominado de ‘Sociedade do Conhecimento’.

Mas, a lacuna explicativa, neste mundo da produção e do trabalho reestruturado, está em compreender mais profundamente, a situação, a condição, o perfil dos trabalhadores numa sociedade ‘periférica’ neste sistema mundo em que vivemos, onde, ‘tudo que é sólido se desmancha no ar’! O drama, por exemplo, do desemprego estrutural, eu sei que é geral no mundo. Mas aqui, periféricos e provincianos que somos, características das nossas elites políticas e econômicas, a dramaticidade desse fenômeno é muito maior e mais perversa. Por aqui, o ‘atraso’ se combina com o ‘moderno’ em todas as áreas e dimensões, não são opostos! Não há aqui uma incompatibilidade interna nos modelos de crescimento e desenvolvimento já experimentados, entre campo/cidade, centro/periferia, caos/segurança, legal/ilegal, justo/injusto, e, por aí vai! Esta é uma característica fundante da nossa modernidade, urbanidade e industrialização. Lembro do sociólogo Chico de Oliveira, ao fazer contraponto à ideia de atraso no Brasil a partir da visão de uma ‘razão dualista’, que separava estes ‘binômios’. Ao contrário, defendia ele, há é uma relação dialética, uma combinação/articulação, no nosso jeito de ser ‘crescido e desenvolvido’ até aqui. Daí a famosa metáfora ele que faz sobre nós nessa história: somos um ornitorrinco.

Ora, a partir desse contexto caracterizado, algo de específico também, possibilita pensarmos que se passa com o histórico e com a condição da classe trabalhadora brasileira. Isso é que me aproxima para conhecer quem é este trabalhador-caminhoneiro em meu país. Sobre a importância, a dependência e o domínio da logística do transporte rodoviário de cargas na cadeia produtiva do Brasil, não há dúvidas. Em tempos de gestão de ‘não-estoques’ (just-in-time), qualquer ‘parada desse trabalho’ agrava a dependência, e, portanto, os riscos de desabastecimento muito mais rápido. Sobre isso também nenhuma dúvida. O que trago para pensar, é o comportamento dito ‘político-sindical’ dos caminhoneiros (autônomos e contratados). Ele traz novidades, autonomia em relação à hierarquia organizativa ‘tradicional’; pensamentos e ações difusos; e, em especial, uma crítica intensa ao status-quo, onde nada e ninguém está a salvo. Importante ressaltar o distanciamento dessa categoria (e existem muitas mais!) do sindicalismo ‘clássico’. Ou, como ela foi desconsiderada ao longo do tempo da ‘modernização-conservadora’ pelos atores e instituições político-sindicais, num outro provável outro ‘binômio combinado’ em nosso país.

É disso que trata o sociólogo Ruy Braga[1], há pelo menos uma década, em sua investigação para compreender a classe trabalhadora brasileira diante do contexto já explicitado e dos desafios e comportamentos diante da severa crise política e econômica que vivenciamos, em especial, a partir de 2008. É uma ‘luz’ que diminuiu minha aflição diante da greve dos caminhoneiros. Não me conformo, nem nunca me conformarei, com rótulos, ‘palavras de ordem’, discursos e comportamentos que beiram a irracionalidade como forma explicativa da realidade, fatos e de fenômenos sociais. Não dava para ser simplista no desafio de entender o enigma dos caminhoneiros…

Este autor, inicia ressignificando o conceito de PRECARIADO (de tradição francesa) a partir de ‘nós’, onde se vê a possibilidade de contemplar, dentre outras, a categoria dos caminhoneiros neste estudo[2].

Eis alguns destaques:

  1. É parte da classe trabalhadora não é um ‘amálgama’, mas se diferencia dos setores mais qualificados e melhor remunerados. Desde os anos de 1950 já é possível afirmar sua existência no contexto da ‘modernização-conservadora’. Uma ‘fração de classe’ urbana e do campo, portanto, mais mal paga e explorada. Não é quantitativamente pequena, é altamente significativa;
  2. É ‘flutuante’ (entram e saem rapidamente das empresas, marcada pela insegurança), é ‘latente’ (não-industriais à espera de oportunidade para deixar os setores tradicionais), e ‘estagnada ou pauperizada’ (de funções deterioradas, degradadas)
  3. Eles estão no ‘coração’ do próprio sistema, não são subprodutos; SUA PRECARIEDADE É UMA DIMENSÃO INTRÍNSECA AO PROCESSO DE MERCANTILIZAÇÃO DO TRABALHO;
  4. No tempo contemporâneo, apesar de muitas críticas relativas existentes a sua passividade, percebe-se claro descontentamento desses trabalhadores com suas condições de trabalho e um ‘instinto difuso’, ora reformista, ora até reacionário (não predominante), presentes em suas mobilizações, pressionando o ‘sindicalismo lulista’ a “atender suas demandas e romper com o conformismo e a passividade política”.

Eles respondem, também como vítimas, ao possível abandono ou à condição de ‘invisibilidade’ relegada pelo novo sindicalismo às suas questões, em especial, à hegemonia do lulismo, que, ao chegar ao poder, combinou ‘consentimento passivo e ativo’, gerando profunda despolitização e fragmentação dos movimentos sociais. Não é fácil compreender rapidamente, eu sei. Sair do ‘conforto das certezas e das convicções como cárceres’, não é fácil. E no mundo da informação ‘on line’ e on time’ das redes sociais, fica pior ainda! Mas precisamos estar atentos. Um ‘desconhecido mundo novo do trabalho’ está se descortinando e tomando a cena das lutas sociais contra a desigualdade.

“Esse embrião de reformismo plebeu já ameaça mostrar-se impaciente com o conformismo daqueles que se deixaram transformar em instrumentos do atual modelo de desenvolvimento”. A hegemonia lulista destruiu “os músculos da sociedade civil brasileira com uma plataforma internacional de valorização financeira.” (p.226)

É necessário e urgente conhecer este ‘enredo’!

 

[1]  BRAGA, Ruy. A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. São Paulo: Boitempo, 2012.

[2] Sugiro assistir a entrevista de Ruy Braga, no dia 24/05/18, dada ao Programa ‘Diálogos com Mário Sérgio Conti’ na Globonews.

 

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