Opiniões

Garotinhos, Bacellar e Mesa Diretora na história política de Campos

 

Câmara Municipal de Campos, entre os Garotinho e os Bacellar, deve ser presidida por Fábio Ribeiro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Garotinhos, Bacellar e Mesa Diretora na história política de Campos

 

Tinha uma 1ª vice no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma 1ª vice. Quem acha a eleição presidencial do colégio eleitoral dos EUA complexa, é porque nunca acompanhou os bastidores da eleição de uma Mesa Diretora da Câmara Municipal de Campos. Se ninguém tem muita dúvida de que o novo presidente do Legislativo goitacá será Fábio Ribeiro (PSD), as outras quatro vagas tinham sido divididas salomonicamente pelo prefeito eleito Wladimir Garotinho (PSD) e o deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD).

Amarrado pessoalmente por Wladimir e Rodrigo em encontros na quinta (08) e no sábado (10) da semana passada, na cidade do Rio, o acordo dava a 1ª vice-presidência e a 2ª secretaria da Mesa para vereadores dos Garotinho, ficando a 1ª secretaria e a 2ª vice-presidência para os edis dos Bacellar. Que ainda levariam a Companhia de Desenvolvimento do Município de Campos (Codemca) e Fundação Municipal da Infância e Juventude (FMIJ).

Com a Codemca e a FMIJ, Rodrigo tentaria relocar um dos dois edis eleitos do DEM, Rogério Matoso ou Marcione da Farmácia. E poderia cumprir seu acordo com o ex-vereador Marcos Alexandre, cuja esposa Néia, eleita primeira suplente do DEM, assumiria uma cadeira na Câmara. Livrando esta do constrangimento de não ter nenhuma mulher entre seus novos 25 ocupantes. Na mesma Casa do Povo que elegeu ainda nos anos 1970 suas duas primeiras vereadoras: as saudosas Hermeny Coutinho e Antônia Leitão.

Tudo muito bom, tudo muito bem. Estaria pacificada politicamente a cidade, após a eleição de segundo turno a prefeito mais disputada da sua história. E de um primeiro turno em que Rodrigo gravou e veiculou nas redes socias um vídeo com ataques pessoais abaixo da linha da cintura contra Wladimir. O que custou ao primeiro a censura do seu padrinho na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), o presidente André Ceciliano (PT).

Mas vai daí que, na noite de segunda (14), mudou a pedida dos Bacellar. Eles agora queriam a 1ª vice-presidência da Câmara, mais a 2ª secretaria da Mesa. Quem conhece o Legislativo campista, sabe que o cargo de 1º secretário tem mais relevância efetiva na condução dos seus trabalhos do que a 1ª vice. Por que, então, a inversão na pedida no acordo? Elementar, caro leitor!

Caso a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije) por fake news na campanha chegue à inelegibilidade por oito anos contra Wladimir e seu vice, o empresário Frederico Paes (MDB), como foi pedido pelo Ministério Público Eleitoral, assumiria a Prefeitura o presidente da Câmara Municipal. E esta seria assumida por quem? Ele mesmo! Seu primeiro vice-presidente.

Assim, nesta mera conjectura, os Bacellar poderiam tentar emparedar o prefeito dos Garotinho. Como o ex-vereador Marcos Bacellar (SD), pai de Rodrigo e combativo chefe do clã, fez quando presidiu a Câmara e o prefeito era Alexandre Mocaiber (hoje, sem partido). Boa pessoa, seu temperamento dócil arruinaria seu governo, a despeito de legados importantes como a Estrada dos Ceramistas, a ponte Alair Ferreira e parte da avenida Arthur Bernardes.

Fábio Ribeiro tem temperamento bem distinto de Mocaiber. Ainda assim, se governasse com os Bacellar de volta ao comando da Câmara, teria uma enorme pedra no sapato. Se isso hoje não passa de mera conjectura, foi por um mero detalhe técnico, a desincompatibilização fora do prazo de Frederico da direção do Hospital Plantadores de Cana (HPC), que Rodrigo levou a decisão das urnas de Campos ao “terceiro turno” do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Que, nos dois turnos a prefeito, havia contabilizado os votos de Wladimir como sub judice.

Com um olho nas possibilidades do futuro e o outro nos exemplos do passado, os Garotinho negaram no presente a 1ª vice-presidência da Câmara aos Bacellar. Que escolheram o mensageiro mais indicado, seu vereador Helinho Nahim (PTC), primo e amigo de Wladimir, para levar a este uma nova proposta na quarta (16). A pedida não eram mais dois cargos na Mesa Diretora, mas apenas um. Ganha um pote e chuvisco, em calda ou cristalizado, quem disser: a 1ª vice. A fixação no alvo explicitou ainda mais a intenção. E gerou outro não.

Na noite de quinta (17), com a possibilidade de perder os seis vereadores dos Bacellar, os Garotinho reuniram, além dos nove edis que elegeram, outros cinco: Pastor Anderson (Republicanos), Bruno Vianna (PSL), Bruno Pezão (PL), Raphael Thuin (PTB) e o atual presidente da Câmara, Fred Machado (Cidadania). Para definir o próximo, todos se reuniram na tradicional foto em torno de Fábio Ribeiro. Ela só não foi divulgada porque outro vereador esperado, Nildo Cardoso (PSL), não esteve presente.

Enquanto os Garotinho “namoram” outros edis para fechar a conta da Mesa Diretora, sem precisar rachá-la com os Bacellar, estes, que nunca desistem de uma luta antes do fim, têm em Abdu Neme (Avante) seu principal arauto para tentar diminuir a diferença desfavorável. E os alvos, além do Nildo ausente na quinta, são os lá presentes Bruno Pezão e Fred Machado. Este, porém, a despeito do histórico antigarotista, é um político raro, daqueles que não rompem a palavra empenhada.

O ex-deputado federal Paulo Feijó cunhou uma frase que se tornou bordão: “Na política de Campos, só falta boi voar”. Caso nenhum bovino alce voo na planície, Fábio Ribeiro será o presidente da Câmara Municipal. E deve ter como 1º vice-presidente Juninho Virgílio (Pros). Thiago Rangel (Pros) diz também querer o cargo, mas deve se contentar com o Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT). Mais do que de Wladimir, Fábio e Juninho são nomes do pai do prefeito eleito, o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido).

De qualquer maneira, como se tratam dos Bacellar do outro lado, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém. E é sempre bom lembrar que, antes de ser deputado federal por cinco mandatos e cunhar sua frase mais famosa, Feijó derrotou um Garotinho no auge. Foi em 1993, em seu único mandato de vereador, quando o então tucano surpreendeu a todos ao se eleger presidente da Câmara de Campos. E causou problemas ao governo do então prefeito Sérgio Mendes (hoje, Cidadania), um dos tantos garotistas depois feito opositor.

 

Publicado hoje (19) na Folha da Manhã

 

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