Opiniões

Arthur Soffiati — Três lagoas de Campos e o turismo

 

Lagoa de Cima (Foto: Wellington Cordeiro)

 

Arthur Soffiati, eco-historiador, professor e escritor

Três lagoas de Campos e o turismo

Por Arthur Soffiati

 

Um documento redigido em 1995 por Mônica Miranda Falcão e Verônica da Matta, pesquisadoras da extinta Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (SERLA) mostra que o estado do Rio de Janeiro conta com o total de 105 lagoas, das quais 67 se encontram no recorte que recebeu sucessivamente os nomes de Distrito dos Campos Goytacazes, Comarca de Campos e Região Norte-Noroeste Fluminense (Relação das lagoas do estado do Rio de Janeiro. Superintendência Estadual de Rios de Lagoas, 1995). Embora tenha sido um levantamento superficial, pois baseado apenas na Carta do Brasil 1:50.000, lançada em 1968, e sem confirmação no terreno, trata-se de um levantamento pioneiro que confirmou o norte fluminense como a verdadeira Região dos Lagos. Um levantamento histórico revelaria número maior de lagoas, extintas por drenagem e por aterro.

Provavelmente, não existem mais essas 67 lagoas. Várias já devem ter sido drenadas nos 25 anos que se passaram desde o levantamento das duas pesquisadores. Dentre as lagoas levantadas, pelo menos três apresentam ou apresentavam atrativos turísticos. Entre elas, não está a grande lagoa Feia, que sempre impressionou por suas dimensões, mas não por sua beleza, embora seja bela aos olhos de estudiosos. A mais famosa lagoa com potencial turístico é, sem dúvida, a lagoa de Cima, desde o século XVIII elogiada por sua encanto. Com a serra do Imbé ao fundo e com águas aparentemente cristalinas, a lagoa de Cima fascina.

Em 1992, o prefeito Anthony Garotinho sancionou uma lei que a transformou em Área de Proteção Ambiental (APA), mas ele mesmo favoreceu dois hoteleiros a iniciarem a construção de um hotel em área proibida às margens da lagoa. A iniciativa não foi adiante por pressão dos ambientalistas. Recentemente, o subsecretário de meio ambiente de Campos anunciou que vai encaminhar o plano de manejo da APA da lagoa para debate e aprovação. Quase 32 anos após a criação da APA por lei, ainda não existe um plano de manejo em vigor. Enquanto isso, a faixa marginal de proteção com largura de 300 metros foi invadida por pobres e ricos, que, no interior dela, consolidaram suas edificações.

Agora, um vereador de Campos empenha-se em revogar uma lei estadual através de um deputado do seu partido a fim de reduzir essa faixa para 50 metros. Tomando como base os 30 metros definidos genericamente pelo Código Florestal para todo o Brasil, ele ainda se gaba de aumentar essa faixa mínima em 20 metros. Basta uma enchente igual, menor ou maior que a de 2008-9 para afogar todas as casas construídas numa faixa de 50 metros.

A intenção do vereador é promover o turismo com a permissão de construção de hotéis próximos à lagoa. Segundo ele, Campos não pode desperdiçar a oportunidade de auferir rendas com o turismo, já que a situação econômica e financeira do município é crítica. De fato, Campos perdeu a oportunidade de caminhar com as próprias pernas, montando uma estrutura econômica que lhe desse autonomia quando os recursos dos royalties do petróleo jorravam pelas torneiras. O desperdício foi irresponsável. Foi atitude de um novo-rico que não sabe o que fazer com o dinheiro.

Diante da nova situação, não há de ser a lagoa de Cima nem a atividade turística que vão salvar ou atenuar a situação financeira de Campos. Como já dissemos no artigo da semana passada, a região não apresenta atrativos turísticos que tragam pessoas de outras regiões para cá. A região não tem sequer a capacidade de reunir os governantes municipais para traçar um plano de turismo voltado para o turismo interno regional. Dentro da região, quem tem dinheiro e mora em Campos não sairá de sua casa para se hospedar num hotel às margens da lagoa de Cima. Quem mora em outros municípios da região, visitará a lagoa de Cima e se hospedará num hotel da cidade. Quem é pobre e mora longe vai se contentar com algum atrativo no seu município. O pobre que mora em Campos dispõe, no máximo, de recursos para chegar à lagoa de Cima de ônibus. Hospedar-se em hotel é inviável para ele.

Assim, reduzir a faixa de proteção para atrair hoteleiros é um salto no escuro. Construir hotéis na orla da lagoa é um risco financeiro duplo: o hotel pode ser atingido por uma enchente ou falir por falta de hóspedes.

A segunda lagoa é a do Vigário, a mais conhecida lagoa de tabuleiros de Campos. O plano urbanístico Coimbra Bueno, de 1944, pretendia transformá-la num parque para os moradores da cidade de Campos pelo menos. Para tanto, o escritório de urbanismo previu a sua proteção com um anel rodoviário ligando as margens direita e esquerda do rio Paraíba do Sul. Mas o prefeito José Carlos Vieira Barbosa cortou-a ao meio com um aterro para ligar as duas margens por meio da avenida Salo Brandt, hoje Tancredo Neves. Brandt foi prefeito interventor de Campos e, na sua gestão, foi concebido o Plano Coimbra Bueno.

Hoje, a lagoa foi densamente ocupada por edificações e perdeu qualquer atrativo turístico, por mais que a prefeita Rosinha Garotinho tenha maquiado metade do rosto dela para a recreação local. Faltou falar do Lagamar, mas também faltou espaço.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

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Este post tem um comentário

  1. Nasci em Campos, porém moro em Niterói a uns 30 anos. Quando jovem frequentei com minha família a Lagoa de Cima e era o que mais gostava de fazer no verão. Morava no bairro IPS . Vejo Lagoa de Cima hoje como um lugar que poderia ser mantido lindo porém mais utilizado pelos Campistas como lugar de moradia e lazer se tais medidas fossem tomadas como segue:
    – Auto estrada moderna saindo próximo do Boulevard Shopping até uns 100 m da lagoa;
    – Construção de Canais entrando para o continente, com condomínios nas duas margens onde os moradores pudessem sair de embarcações ou de carros pelo continente.;
    – Podemos tomar como exemplo a Lagoa da Pampulha em Belo Horizonte e também a Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro;
    – Moradores da Cidade de Campos poderiam morar em Lagoa de Cima e trabalhar no centro da cidade todos os dias ou não, haja visto as facilidades de trabalho e estudo remoto atuais. Lembrando que o 5G esta chegando.;
    – Construção de um Aeródromo com heliporto:
    – Estação de Barcas para cruzar as duas principais margens:
    – Construção de um Pequeno Hospital, Posto Policial, Shopping, Mercado de Pescado entre outros;
    – Acho que isso e muito mais pode ser feito de forma sustentável.

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