Machado de Assis há 113 anos por Euclides da Cunha

 

Machado de Assis

No conceituado grupo de WhatsApp que este blog divide com o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, sou lembrado pelo advogado Cléber Tinoco que hoje se completam 113 anos da morte de Machado de Assis. A lembrança é necessária, inclusive para contrastar o que o Brasil já foi capaz de produzir com as trevas que hoje comandam o país.

Em memória ao nosso luminoso Mulato, republiquei no grupo e, agora, também neste blog, a crônica “A última visita”. Que Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”, escreveu sobre a morte do nosso maior prosista, publicado no Jornal do Comércio a 30 de setembro de 1908. Particularmente, considero o texto mais belo entre os que já li no jornalismo brasileiro.

Astrojildo Pereira

A título de curiosidade, o adolescente anônimo da crônica era Astrojildo Pereira. Autodidata, depois reconhecido como um dos maiores estudiosos da obra de Machado e fundador do Partido Comunista Brasileiro (PCB, atual Cidadania), batiza hoje Fundação homônima. Com a qual o Grupo Folha, por intermédio do cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf, promoveu os debates nacionais “A política econômica do desenvolvimento: de Vargas aos nossos dias”, em 30 de maio, e “A questão militar: do Império aos nossos dias”, em 30 de julho. Que tiveram transmissão ao vivo na Folha FM na PlenaTV.

Abaixo, os últimos momentos de Machado de Assis e o ainda anônimo Astrojildo Pereira, “menino” e “maior homem da sua Terra”, na “precisão integral do termo” por Euclides da Cunha. E, se depois de lê-la, que a animação sirva que você leia também “Dom Casmurro”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Esaú e Jacó”, “O Alienista” e “Páginas Recolhidas”. Se for pela primeira vez, não sabe a inveja danada que tenho de você.

 

 

Euclides da Cunha

A última visita

Por Euclides da Cunha

 

Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o desenlace de sua enfermidade. Na sala de jantar, para onde dizia o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras — ontem meninas que ele carregara no colo, hoje nobilíssimas mães de família — comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados em álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a placidez era completa no recinto, onde a saudade glorificava uma existência, antes da morte.

No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranquilos.

E compreendia-se desde logo a antilogia de coração tão ao parecer tranquilo na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incomparável e emocionante em que ia a pouco e pouco extinguindo-se o extraordinário escritor. Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se a pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbrava em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo da sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranquila e soberana.

E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heroico na morte…

Mas aquela placidez aguda despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Otávio, comentários divergentes. Resumia-os um amargo desapontamento.

De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu outras vidas, assimilando-as através de análises sutilíssimas, para no-las transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas — que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional.

Era pelo menos desanimador tanto descaso — a cidade inteira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade sua existência complexa, quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem quarenta anos de literatura gloriosa…

Neste momento, precisamente ao enunciar-se este juízo desalentado, ouviram-se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada.

Abriram-na. Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 a 18 anos no máximo. Perguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia, por sua vez, ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus livros, que o encantavam. Por isto ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo tivera o pensamento de visitá-lo. Relutara contra essa ideia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograra vencê-la. Que o desculpassem, portanto. Se não lhe era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas do seu estado.

E o anônimo juvenil — vindo da noite — foi conduzido ao quarto do doente.

Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.

À porta José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lho.

Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino dessa criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo — no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis — aquele menino foi o maior homem de sua Terra.

Ele saiu — e houve na sala há pouco invadida de desalentos uma transfiguração.

No fastígio de certos estados morais concretizaram-se às vezes as maiores idealizações. Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade.

 

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