Com Bolsonaro de cabo eleitoral, Lula tem desafio maior que a urna

 

Lula da Silva e Jair Bolsonaro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Instituída no Brasil pela Constituição de 1988, nas disputas a presidente, governador e prefeito de municípios com mais de 200 mil eleitores, o segundo turno visa eleger o chefe do Executivo pelo mínimo de 50% mais um dos votos válidos. O que, nas pesquisas Ipec (antigo Ibope), Datafolha e CNT/MDA divulgadas esta semana, torna a reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL) aritmeticamente impossível, no eventual segundo turno de 2022. O capitão teve 55% de rejeição na Ipec, 60% na Datafolha e 59,2% na CNT/MDA. Descontada a margem de erro dos três institutos, o resultado é o mesmo: o número de brasileiros que não votariam de maneira nenhuma em Bolsonaro hoje é maior do que o máximo de eleitores que ele poderia ter.

Se o que define no primeiro turno são as intenções de voto dos candidatos, no segundo entre os dois mais votados, o vencedor final é definido pela rejeição, que fixa o teto de crescimento de cada um. Hoje, o único que aparece com chance real de fechar a fatura no primeiro turno é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Líder isolado da corrida, ele apareceu com 48% de intenções de voto na Ipec, 47% no Datafolha e 42,8% na CNT/MDA. Pelas três, descontados os votos brancos, nulos e ainda indecisos, Lula seria eleito presidente em turno único. No segundo lugar, também isolado, Bolsonaro bateu 21% de intenções de voto na Ipec e Datafolha, com 25,6% na CNT/MDA. A semelhança entre todos os números atesta seu retrato presente da realidade.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

As três novas pesquisas da semana colocaram freio no crescimento rápido do ex-juiz federal e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, Sergio Moro (Podemos). Que passou a ocupar o terceiro lugar isolado em quase todas as pesquisas anteriores, tão logo entrou na corrida no final de outubro. A Genial/Quaest, feita entre 2 e 5 de dezembro, ouvindo 2.037 eleitores, deu Lula com 46%, Bolsonaro com 23%, Moro com 10% e Ciro Gomes (PDT) com 5%. A Exame/Ideia Big Data, feita entre 6 e 9 de dezembro, ouvindo 1.200 eleitores, deu Lula com 37%, Bolsonaro com 27%, Moro com 10% e Ciro com 6%. Ambas foram divulgadas na semana passada.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Divulgadas nesta semana, a Ipec foi feita entre 9 e 13 de dezembro, ouvindo 2.002 eleitores. E deu Moro com 6%, em empate técnico com Ciro, que teve 5%. A Datafolha foi feita entre 13 e 16 de dezembro, ouvindo 3.666 eleitores. E deu Moro com 9%, em empate técnico com Ciro, que teve 7%. Por sua vez, a CNT/MDA foi feita entre 9 e 11 de dezembro, ouvindo 2.002 eleitores. E deu Moro com 8,9%, e Ciro com 4,9%. Ainda que nesta o ex-juiz tenha ficado fora do empate técnico com o ex-governador do Ceará, registrado apenas na Ipec e Datafolha, nas três o ícone da Lava Jato ficou abaixo do simbolismo “mágico” dos dois dígitos nas intenções de voto.

Apesar da impossibilidade matemática de se reeleger, Bolsonaro surge claramente como o eixo da eleição de 2022. Que tende a ser um plebiscito do seu governo, como foi do governo Donald Trump a eleição presidencial dos EUA em 2020. Para terem uma chance, as opções de terceira via no Brasil têm que focar suas baterias contra Bolsonaro, esquecendo de um Lula que tudo indica já estar no segundo turno. O último tiro do atual presidente para tentar reverter sua rejeição é o Auxílio Brasil de R$ 400,00, aprovado por um Congresso comprado com os R$ 17 bilhões do Orçamento Secreto. Entre agosto e dezembro de 2020, enquanto era pago o Auxílio Emergencial de R$ 600,00, foi o único período em que a aprovação popular de Bolsonaro superou a reprovação.

 

Em 7 de narço de 2020, em Mar-a-Lago, na Flórida, Jair Bolsonaro e o então presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Alan Santos/PR)

 

A partir das pesquisas de março de 2022, após o Carnaval, talvez já se tenha ideia se o Auxílio Brasil conseguirá diminuir a rejeição hoje impeditiva de Bolsonaro. É preciso ter dúvidas. Afinal, R$ 600,00 não são R$ 400,00, cujo valor real na comparação direta será, na verdade, R$ 280,00, descontados os 20% da inflação acumulada nos dois últimos anos. São fruto da grave crise econômica que, segundo todos os economistas, vai piorar ainda mais no próximo ano. Consequência do calote nos precatórios — dívidas transitadas em julgado de pessoas físicas e jurídicas a receber da União —, furo do teto de gastos e irresponsabilidade fiscal para bancar um programa populista e eleitoreiro. De um governo que se elegeu em 2018 como “liberal” na economia.

Tampouco ajuda a diminuir a rejeição de Bolsonaro sua guerra particular às vacinas contra a Covid. Não bastassem as centenas de milhares de compatriotas adultos que matou ao atrasar dolosamente a compra de imunizantes, o presidente agora quer colocar em risco a vida das nossas crianças de 5 a 11 anos. Parece ignorar que sua “guerra” a favor da pandemia está perdida, graças à cultura vacinal do povo brasileiro. Não fosse o orgulho boçal por não ter lido nenhum livro nos últimos três anos, poderia descobrir que a Revolta da Vacina já foi lutada e vencida no Brasil, pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz, desde 1904. Que contou à época com o apoio de militares comprometidos com o país, como é o contra-almirante e médico Antonio Barra Torres, presidente da Anvisa.

 

Charge da época de Leonidas Freitas retrata o sanitarista Oswaldo Cruz no enfrentamento à Revolta da Vacina, na cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, em 1904

 

Bolsonaro age para tentar cristalizar sua base fanatizada, entre 20% e 25% dos brasileiros, com medo de perder a vaga no segundo turno. Mas, ao fazê-lo, cristaliza também a rejeição que torna impossível para ele se reeleger.

Com inteligência política ainda muito acima dos potenciais adversários de outubro, ou dos que creem ser ele a “a alma viva mais honesta neste país”, Lula nunca teve um cabo eleitoral tão poderoso quanto Bolsonaro. Se hoje cata décimos de voto como arroz para tentar vencer no primeiro turno de 2022, e finalmente se igualar a Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1994 e 1998, o petista os soma sabiamente. Sejam da centro-direita, numa possível chapa com o ex-tucano Geraldo Alckmin; sejam da centro-esquerda, na solidariedade pública a Ciro, após este ter sido alvo de operação no mínimo estranha de uma Polícia Federal aparelhada politicamente pelo bolsonarismo.

 

Ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula firmaram pacto pela democracia no Brasil, em almoço na casa do ex-ministro de ambos e do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, em 12 de maio deste ano (Foto: Divulgação)

 

Se confirmar seu favoritismo nas pesquisas, Lula sabe que o mais difícil será governar um Brasil dividido desde as suas famílias. Que não se unirá com sua eventual volta ao poder. Para tentar superar uma crise econômica agravada pela incompetência de Bolsonaro e Paulo Guedes, mas aberta pelos petistas Dilma Rousseff e Guido Mantega. Sem poder surfar mais uma vez as “vacas gordas” das commodities internacionais, teria que provar que tipo de presidente pode ser nas “vacas magras”. Com parte das Forças Armadas disposta a exercer o papel inconstitucional de “Poder Moderador”. E que não estaria disposta a aceitar passivamente um novo assalto “companheiro” à Petrobras.

 

Publicado na Folha da Manhã de hoje.

 

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