Trump e Bolsonaro do “Não Olhe Para Cima” ao “Olhe Para Você Mesmo”

 

Trump, Bolsonaro e elenco principal de “Não Olhe Para Cima” (Montagem: Joseli Mathias)

(A Sidney Poitier, primeiro negro a ganhar o Oscar de melhor ator)

 

— Randall, alguns estão falando que não existe cometa, ou que existe um cometa e isso pode ser bom ou ruim. Estamos confusos. Pode nos esclarecer, ó, sábio cientista? — indaga no talk show “The Daily Rip” (“O Rasgo Diário”) sua apresentadora, Brie Evantee, magistralmente interpretada por Cate Blanchett, maior atriz da sua geração.

— Primeiro de tudo, com certeza o cometa existe. Sabemos que existe um cometa porque nós temos os dados. Tem havido muita preocupação na comunidade científica. O processo de revisão por pares é crucial… — responde o astrônomo Dr. Randall Mindy, entrevistado do programa em outro trabalho de Leonardo DiCaprio a provar que ele é mais, muito mais do que um galã. Com spoiler, sua personagem se preocupa depois que a primeira missão para tentar desviar o corpo celeste em rota de colisão com a Terra foi abortada pelo próprio governo dos EUA, para encampar um plano privado. Bancado pela gigante dos celulares Bash, que quer não mais desviar, mas explodir o cometa. E permitir que ele atinja o planeta em pedaços menores, sem causar nossa extinção, para aproveitar seus estimados US$ 140 trilhões em minerais.

— Se as ações da Bash são um indicador de que a revisão por pares importa, estamos bem. Comprei o máximo de ações que pude. Façam o mesmo! — ironiza Jack Bremmer, o outro apresentador do talk show, em interpretação na medida de Tyler Perry.

— Quero falar uma coisa… — pede DiCaprio, finalmente atingido pelo cometa na boca do estômago, antes da sua queda na Terra.

— Está no lugar certo. Porque gostamos de dizer coisas neste show — segue em sua mendicância por simpatia, e likes, o apresentador de Perry.

— Pode parar com essa porra de ser agradável? Desculpe, mas nem tudo tem que ser espirituoso, encantador ou fofo o tempo todo. Às vezes só precisamos dizer as coisas, ouvir as coisas. Vamos deixar claro, mais uma vez, que tem um cometa enorme vindo em direção à Terra. O motivo de sabermos disso é porque o vimos com os nossos olhos, usando um telescópio. Até tiramos fotos dele, porra! Precisa de mais prova? E se não conseguimos nem concordar com o fato de ter um cometa gigante, do tamanho do Monte Everest, vindo em direção à Terra, então estamos ferrados. O que aconteceu com a gente? Meu Deus! Como é que a gente se comunica? O que nós nos tornamos? (…) Sei que muitas pessoas nem vão me dar ouvidos, porque têm sua própria ideologia política. Mas eu garanto que não estou em nenhum dos lados. Eu só estou dizendo a porra da verdade! — desabafa DiCaprio, na mais visceral tradução do tupiniquim “é verdade este bilhete”.

— Acho que é bom informar que Isherwell (dono da Bash e Monstro de Frankenstein montado com pedaços de Steve Jobs, Mark Zuckerberg, Elon Musk e Jeff Bezos, em mais uma composição soberba de Mark Rylance) e a presidente (Janie Orlean, espécie de Donald Trump de saias encarnada com a maestria de sempre pela diva Meryl Streep) disseram que há benefícios… — tenta intervir Blanchett, em favor do poder econômico e político.

— A presidente dos Estados Unidos está mentindo pra caralho! Sou igual a vocês, rezo para que a presidente saiba o que está fazendo. Torço para ela cuidar da gente, mas a verdade é que eu acho que todo esse governo perdeu completamente a porra da cabeça! — regurgita DiCaprio o cometa que estava entalado em sua garganta.

O diálogo acima é o ponto alto, mas não o único, de “Não Olhe Para Cima” (2021), filme dirigido, roteirizado e produzido por Adam McKay. Lidera a lista dos mais assistidos da Netflix, desde que a líder mundial do streaming lançou seu filme em 24 de dezembro, após curta temporada nos cinemas. Desde então, seu cometa tem sido a Estrela de Belém a reis magos e plebeus céticos, nas rodas de conversa do mundo. É a mais marcante sátira produzida pela sétima arte desde o impactante sul-coreano “Parasita” (2019), de Bong Joon-ho, Palma de Ouro em Cannes e Oscar de melhor filme, direção e roteiro.

Egresso da comédia, McKay já tinha dois filmes “sérios” como diretor e roteirista: o estelar “A Grande Aposta” (2015), sobre a crise financeira global de 2008, no qual levou o Oscar de melhor roteiro; e “Vice” (2018), cinebiografia do poderoso ex-vice-presidente dos EUA nos dois governos George W. Bush, Dick Cheney. Conservadora como o pai, a deputada Liz Cheney é hoje a mais corajosa opositora à supremacia de Donald Trump dentro do Partido Republicano.

 

“A Grande Aposta” e “Vice” (Montagem: Joseli Mathias)

 

McKay nasceu na Filadélfia em 1968, mesma cidade que em 1787 também pariu a primeira e única Constituição dos EUA. A mesma que Trump rasgou em 6 de janeiro de 2021, ao incitar seus militantes a invadirem o Capitólio, por não aceitar sua derrota eleitoral em 2020. Fato que, no 6 de janeiro de 2022 da última quinta, teve seu 1º aniversário lembrado em artigo do filósofo e economista político nipo-estadunidense Francis Fukuyama: “O 6 de Janeiro aprofundou as divisões internas (dos EUA) e terá consequências que ecoarão por todo o planeta nos próximos anos”. Após usar a queda da União Soviética em 1991 para decretar “o fim da História”, o liberal Fukuyama foi atropelado por ela. E não escondeu seu temor de que também a democracia no mundo tenha sido colhida na colisão. Como a de um cometa que alguns ainda fingem não ver.

Peter Sellers brilha em três papéis diferentes em “Dr. Fantástico”

Em seu “retrato de Dorian Gray” do populismo político de extrema-direita, da sua ascensão ao poder na ditadura de ódio das redes sociais e suas fake news, “Não Olhe Para Cima” pode ser olhado para trás, pelos pósteros, como hoje olhamos o clássico “Dr. Fantástico” (1964). Única comédia do mestre Stanley Kubrick, é a melhor sátira política do cinema sobre a Guerra Fria. Que acabou na vida real há mais de 30 anos, mas sobrevive nos delírios personificados durante show musical anunciado por DiCaprio e Jennifer Lawrence, outra a brilhar como a astrônoma Kate Dibiasky. Ambos convidam os espectadores a olharem para o céu e testemunharem a ameaça que já paira iminente sobre a cabeça de todos. Quando um “cidadão de bem” comenta na arte que imita a vida: “Não olhe para cima, puta marxista!”.

 

Com o cowboy cavalgando a bomba atômica, a cena mais icônica de “Dr. Fantástico”, do mestre Stanley Kubrick

 

É Dibiasky quem descobre e batiza o cometa. Em outro spoiler, ela e DiCaprio recorrem à imprensa, após terem como resposta o “vamos esperar e avaliar” de uma presidente mais preocupada com as eleições legislativas do que com a extinção da humanidade. Na sua primeira e única aparição do programa “The Daily Rip”, é a personagem de Lawrence que, antes de seu par masculino na ciência, questiona o óbvio, após mais uma gracinha “fofa” do apresentador:

 

Cate Blanchett e Tyler Perry entrevistam Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence no talk show “The Daily Rip”

 

— Nós não fomos claros? Estamos tentando dizer que o planeta todo vai ser destruído — enfatiza Lawrence.

—  Sabe como é… É o que fazemos. Deixamos as notícias ruins mais leves — banaliza Blanchett.

— Exato. Nós douramos a pílula — reforça cinicamente Perry.

— Talvez a destruição do planeta não devesse ser divertida. Talvez devesse ser algo aterrorizante e perturbador. E deveriam passar a noite chorando, quando há 100% de certeza de que todo mundo vai morrer, porra! — explode Lawrence. Para na sequência constatar, em outro spoiler, que a entrevista anterior do programa, com o reenlace amoroso entre as celebridades musicais Riley Bina (Ariana Grande) e DJ Chello (Kid Cudi), gerou mais engajamento do que o alerta sobre a destruição da Terra. É uma crítica à mídia do tempo das redes sociais para impresso nenhum do tempo de “A Montanha dos Sete Abutres” (1951) botar defeito. Da lavra do ex-jornalista e mestre do cinema Billy Wilder, permanece o melhor filme já feito sobre jornalismo.

 

Kirk Douglas estrela “A Montanha dos Sete Abutres”, do mestre Billy Wilder

 

Feito para falar do trumpismo, “Não Olhe Para Cima” também fala bastante do seu pastiche abaixo do Equador no bolsonarismo. Levados à Casa Branca pelo Dr. Clayton Oglethorpe, em atuação de classe de Rob Morgan, para comunicarem à presidente a descoberta do cometa e sua ameaça inexorável à Terra, Lawrence e DiCaprio são inicialmente recebidos pelo general três estrelas Themes, na interpretação bonachona de Paul Guilfoyle.

Último spoiler: após tomarem um chá de cadeira de uma presidente tão embananada com a indicação de um dublê de xerife e ex-ator pornô à Suprema Corte, quanto Bolsonaro na de André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal, o general cobra aos três cientistas pelas garrafas de água e pacotes de salgados que leva a eles. Logo depois, se descobre que os mesmos eram oferecidos de graça. Buscada, a explicação não é dada até o final do filme. Fica a impressão de que o militar de alta patente só estava mesmo querendo levantar um troco. Como seus colegas generais da vida real, Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos, todos ganhando acima do teto constitucional no governo brasileiro do “acabou a mamata”.

 

Generais Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos

 

Sem vender sua honra à farda, o contra-almirante e médico Antonio Barra Torres presta bons serviços à pátria no comando da Anvisa. Que liberou desde 16 de dezembro, oito dias antes de “Não Olhe Para Cima” ser liberado na Netflix, a vacinação contra o cometa da Covid-19 para as crianças entre 5 e 11 anos. Nesta faixa etária, até ontem, 308 pequenos brasileiros morreram pela pandemia antes de viver. Na média de uma criança jazida a cada dois dias pela doença no país, até hoje já são 11 as condenadas à morte por sufocamento, de maneira absolutamente desnecessária, por um governo dolosamente infanticida. Quantas mais serão no Brasil governado por um ser humano capaz de publicamente questionar: “Qual interesse daquelas pessoas taradas por vacina”? A “tara” da resposta é óbvia: a vida das crianças! Tanto quanto o interesse luciferino de quem questiona: a morte dessas crianças!

 

 

No filme de McKay, DiCaprio brada em um programa de TV infantil:

— Crianças, me ouçam. Digam a seus pais que a presidente Orlean e Isherwell (empresário síntese daqueles capazes de tentar passar pano até na morte dolosa de crianças) são sociopatas e fascistas! — sentencia, sendo respondido na cena seguinte pela governante negacionista encarnada por Streep, em discurso aos seus apoiadores:

— Sabe por que eles querem que você olhe para cima? Sabem por quê? Eles amam ver você com medo! — diz sob aplausos. Que se transformam em vaias violentas quando a tragédia anunciada finalmente bate à própria porta.

Até por sua firme oposição política a Trump, foi nele que Streep baseou sua presidente. Após abandonar o delírio da Cloroquina ainda em 2020, para vendê-la ao Brasil de Bolsonaro e investir pesadamente na compra de vacinas contra Covid aos EUA, em sua tentativa frustrada de permanecer na Casa Branca, seu ex-inquilino é decididamente mais inteligente do que o autoproclamado “Trump dos Trópicos”.

Já apeado do poder, Trump admitiu recentemente ter tomado as três doses da vacina. No filme, o nosso capitão seria o coronel Ben Drask, na pele de Ron Perlman. Seu final serve de alerta ao que todas as pesquisas indicam a Bolsonaro, após as urnas presidenciais de outubro. Mas o que impressiona é a semelhança de Jason Orlean, vivido pelo talentoso gordinho Jonan Hill, com o 02 brasileiro. Como filho da presidente e seu aspone, com dificuldade de cognição e sempre a carregar a bolsa Hermès da mãe, a personagem lembra muito o vereador carioca Carlos Bolsonaro. Tanto que fica difícil crer em mera coincidência.

Sem outro spoiler, mas só como dica, vale a pena esperar a rolagem de todos os créditos do filme, após seu suposto final, para uma surpresa. E também um novo alerta à humanidade, ao constatar quem dela ficou para “Adão”. A ameaça do cometa metafórico da ficção, se transposto à realidade, talvez mudasse o título: “Olhe Para Você Mesmo”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira abaixo o trailer do filme:

 

 

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Este post tem 5 comentários

  1. Caro Aluysio boa tarde. Parabenizo sua análise sobre o filme. O roteiro é ótimo e profundamente oportuno. Avaliando tecnicamente creio que o filme peca um pouco ao enfatizar a relação entre a âncora e o cientista. Poderia ter abordado mais a posição do general mau caráter. Não sei se ganha Oscar de melhor filme, mas é um filme muito necessário. Será lembrado no futuro por mostrar a tristeza destes tempos. Bem, isso se puderem ver esses filmes no futuro. Espero que sim. Mas estou achando tudo perigoso. Mais pelos adeptos de Trump, muito resilientes, do que pelos copiadores destas bandas. Esse filme mostra que tem gente vendo o que acontece e tenta mostrar. A Folha publicou o meu conto “Cor”, há alguns anos. Sei que o nobre confrade tem sempre muito trabalho a fazer. Mas leia, se possível, só o final do conto. Veja como ele se parece com o final da personagem do filho da presidente. O que me tirou um sorriso, ainda que envolto em sombras, foi ver que outros percebem o que eu percebo. Sabe, confrade, “O conto de inverno”, de Shakespeare, mostra que, após a estátua da rainha ganhar vida, perdoando a atitude louca de ciúmes do rei, a alegria retorna, mas ela vem cheia de sombras. O filho do rei permaneceu morto. Uma vitória não apaga a dor. Eu olho para o mundo e minhas alegrias têm sombras. A pandemia e a insanidade nublaram as estrelas do céu. Poderia escrever mais. Peço desculpas ao confrade pelo texto longo. Parabenizo seu texto e agradeço porque ele me deixa menos sozinho neste louco mundo. Saudações fraternas.

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Caro Carlos Augusto de Souza Alencar,

      Em primeiro lugar, diante de um texto extenso como o meu, vc não tem porque se desculpar pela extensão do seu comentário. Que não foi, abolutamente, prolixo, como rogo para que não tenha sido meu misto de crítica de cinema e artigo de política. Isto posto, creio que a ênfase no relação entre a jornalista e o astrônomo, embora eu não tenha me detido nela, tenha, sim, seus fins. Como escreveu Nuria Labari ao El País: “Mesmo no fim do mundo poderemos nos apaixonar, assim como o astrônomo Leonardo Di Caprio e a jornalista Cate Blanchett tentam fazer no filme. Não se engane, corrige o diretor. Em um mundo que olha para baixo, há espaço para sexo e romance, mas o amor está perdido”. Já o general do filme tem paralelo, sim, nos generais-ministros brasileiros Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos. Mas não faz jus à digna posição do general Mark Milley, chefe do Estado-Maior dos EUA desde 2019. E que, em 2020, pediu desculpas aos seus concidadãos por te se deixado usar politicamente, mesmo que sem dolo, pelo então presidente Donald Trump. Que, sim, continua mais popular em seu país do que o seu pastiche bolsonarista no nosso. Por fim, peço, por favor, que me envie seu conto “Cor”. Mas na íntegra, não só o final.

      Abç e obrigado pela generosidade do seu comentário!

      Aluysio

  2. Aluysio Abreu Barbosa

    Cao Cesar Peixoto, comentarista das 9h45 de hoje,

    Vc é um dos comentaristas mais assíduos do blog. O que não lhe dá o direito de propagar fake news contra vacinação aqui, como fez em seu último comentário, por este motivo barrado na moderação.

    Sinceramente, penso que vc deveria ter vergonha de colocar a paixão política por seu “mito” à frente das vidas das crianças brasileiras por ele dolosamente ameaçadas. Como aconselha o final do texto que vc usou de fake news para tentar comentar: “Olhe Para Você Mesmo”.

    Grato pela chance do lembrete!

    Aluysio

  3. Caro jornalista Aluysio Barbosa com todo respeito e admiração que eu tenho a sua pessoa,mais eu como avó de cinco netos e dois filhos menores de doze anos,eu tenho as minhas dúvidas sobre a eficácia dessas vacinas nas crianças.Eu não tenho fanatismo por político nenhum assim também como no futebol,apenas eu gosto de dar a minha opinião.

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Caro César Peixoto,

      Com todo o respeito, suas dúvidas importam tanto à ciência quanto se vc acreditasse que a Terra é plana. Não é uma questão de “opinião”, mas de fato. Diante deste, a dúvida: vc também questiona a eficácia das vacinas BCG-ID, contra Hepatite B, Tetravalente (DTP + Hib), VOP (contra a poliomielite, Sabin), VORH (contra rotavírus humano), antipneumocócica 10 valente conjugada, antimeningocócica C conjugada, contra febre amarela, SRC (tríplice viral, MMR), que todas as crianças brasileiras têm que tomar até os 10 anos? Ou só contra a Covid, por conta do seu “mito” político dolosamente infanticida?

      Grato pela chance da indagação lógica!

      Aluysio

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