Arthur Soffiati — A trama das árvores em “Sonhos de trem”

 

 

Arthur Soffiati, historiador, professor, escritor e crítico de cinema

“Sonhos de trem” — A trama das árvores

Por Arthur Soffiati

 

Estamos no interior dos Estados Unidos, mas não há caubóis. “Sonhos de trem” não é o melhor título para este filme, mas não importa tanto. O que vem ao caso é o tom intimista e sereno que domina o filme do princípio ao fim. Um homem gosta de uma mulher e a mulher gosta de um homem. Simples assim. É o quanto basta. Nada de paixão arrebatada. Ambos se casam e constroem sua casa. Têm uma filha.

Ele é lenhador. Fica longe de casa por longos períodos. Vai derrubar árvores para abrir caminho às ferroviais. Aparece em casa de vez em quando. É um bom marido e um bom pai. Sem estardalhaços. No seu trabalho, trava contato com homens rudes e chineses. Um negro aparece uma única vez para vingar o assassinato do irmão por um dos trabalhadores da ferrovia. Os demais tiros são destinados a animais caçados.

Entre os lenhadores, encontra-se um de meia idade que respeita as árvores. São seres antigos e sábios que merecem respeito. Mas este homem morre com um grande galho que cai sobre ele. Robert Grainier (Joel Edgerton), o artista principal, ouve as palavras do sábio morto por uma árvore. Ele é amigo de um índio, já aculturado. Mais uma vez, a floresta ataca. Agora, um grande incêndio mata sua mulher e sua filha. Robert é um estoico. Sofre mas supera as perdas.

Aposenta-se de seu trabalho e conhece uma cientista que cuidará das florestas em sua área. Ambos viúvos quando se encontram. Pelo esquema dos filmes estadunidenses, supõe-se que ambos ficarão juntos. Mas nada acontece. Robert quer apenas a experiência de voar de avião antes de morrer.

Clint Bentley e Greg Kwedar rediriam o roteiro com base em novela homônima. O primeiro é diretor. Além das falas dos personagens, existe um narrador universal que aparece de vez em quando. A fotografia do brasileiro Adolpho Veloso confere um tom intimista ao filme. Ele usa apenas iluminação natural.

A apologia discreta ao mundo natural evocou-me o romance “A trama das árvores”, de Richard Powers (2019). Mas a novela em que se baseia o filme data de 2011. “Sonhos de trem” concorre ao Oscar. Talvez seja esquecido, como tantos outros filmes, mas ele destoa do padrão estadunidense. Talvez sobreviva.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira o trailer do filme, disponível na Netflix:

 

0

Deixe um comentário