Interferências do STF e TJRJ na política — Quem finge não ver?

 

No sábado de 23 de maio, na inauguração do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz, Ricardo Couto foi publicamente definido por Lula, por meio dos seus ministros Flávio Dino e Cristiano Zanin no STF, governador do RJ até as eleições de outubro (Foto: Divulgação)

 

 

“Confesso que nunca tinha presenciado uma articulação tão ampla para favorecer uma candidatura uma candidatura num estado, como esta que está acontecendo no Rio de Janeiro”. Foi o que disse na manhã de ontem, em entrevista ao Folha no Ar (confira a íntegra aqui), o estrategista político carioca Orlando Thomé Cordeiro.

“A articulação de Gilmar (Mendes), (Cristiano) Zanin, (Flávio) Dino e (Alexandre de) Moraes está sendo feita (no Supremo Tribunal Federal, STF) para garantir a derrota do grupo ligado a Flávio Bolsonaro (PL) no Rio de Janeiro. E por isso a manutenção do Ricardo Couto (presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, TJRJ, como governador-tampão)”, seguiu Orlando.

“Essas ações (dos ministros do STF citados) não são gratuitas e nem desarticuladas. Não é coincidência o Lula, num ato de governo na Fiocruz (em 23 de maio), dizer que o governador (Couto) vai ficar até o final do ano. Como assim? Já foi julgado (pelo STF)? Será que o Lula está informado que a decisão será essa?”, indagou o estrategista político na Folha FM 98,3.

Quatro dias após a manutenção de Couto como governador do RJ ter sido anunciada por Lula na Fiocruz, a coluna Ponto Final, de opinião da Folha da Manhã, e o blog Opiniões, hospedado no Folha1, publicaram (confira aqui) em 27 de maio:

“Talvez empolgado com as revelações dos contatos próximos entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro (pelo site Intercept em 13 de maio), Lula disse no sábado (23 daquele mês), no Rio, diante do desembargador e governador interino do RJ Ricardo Couto: ‘A Justiça tomou uma decisão que hoje acho correta, de colocar você como governador interino até as eleições.’

Em 15 de abril (confira aqui) e 13 de maio (confira aqui), a coluna alertou sobre a intenção de alguns ministros (STF) ligados a Lula de manter Couto governador até outubro. Para evitar que o presidente eleito da Alerj, Douglas Ruas (PL), assuma como governador-tampão, como reza o Art. 141 da Constituição Estadual do RJ”. E seguiu a coluna de 27 de maio:

“Ruas é o pré-candidato bolsonarista a governador. Que, contra o amplo favoritismo do ex-prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) nas pesquisas, teria mais chance se concorresse ao Palácio Guanabara já nele. Mas a definição da eleição a governador-tampão está parada no STF por decisões dos ministros Flávio Dino e Cristiano Zanin.

Dino é ex-ministro da Justiça de Lula. Zanin é ex-advogado pessoal de Lula. Para tentar se reeleger em 2026, Lula precisa tentar diminuir a vantagem que Bolsonaro teve sobre ele (56,53% a 43,47%) no segundo turno presidencial de 2022 dentro do RJ. Que abriga o terceiro maior colégio eleitoral do país. No qual Lula teria um palanque com Paes.

É legítimo querer um gestor testado como Paes governador do RJ. É legítimo pensar que Couto trabalha para sanear o RJ. É legítimo supor que o grupo do ex-governador Cláudio Castro (PL), alvo de ações da Polícia Federal, é no mínimo suspeito. Mas é ilegítimo, sobretudo por parte do STF, agir politicamente no RJ como admitiu publicamente Lula”, finalizou aquela análise de maio em jornal, blog e site do Grupo Folha.

Dois meses e meio após aquele texto, o estrategista político carioca seguiu a sua análise da manhã de ontem no Folha no Ar. À qual cabe contextualizar que o analista, de 68 anos, hoje social-liberal de centro-esquerda que votou em Lula no 2º turno de 2022, tem formação marxista e foi filiado ao antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), de 1978 a 1988 — sete destes 10 anos ainda durante a ditadura militar.

“Tem aquele ditado: ‘O pior cego é o que não quer ver’. Mais recentemente, um amigo me disse e passei a adotar: ‘O pior cego é aquele que finge que não quer ver’”, redefiniu Orlando, antes de completar sua visão das interferências indevidas do STF e do TJRJ na política eleitoral do RJ e do Brasil:

“Nós temos um cenário montado, articulado pelo Poder Executivo, o Poder Judiciário na sua mais alta Corte e a estadual no TJ para criar condições mais favoráveis para beneficiar uma candidatura. E nesse terreno se inscreve também essa última decisão (confira aqui) que tenta tirar o (ex-governador Anthony) Garotinho (REP) da urna”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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