
“Confesso que nunca tinha presenciado uma articulação tão ampla para favorecer uma candidatura uma candidatura num estado, como esta que está acontecendo no Rio de Janeiro”. Foi o que disse na manhã de ontem, em entrevista ao Folha no Ar (confira a íntegra aqui), o estrategista político carioca Orlando Thomé Cordeiro.
“A articulação de Gilmar (Mendes), (Cristiano) Zanin, (Flávio) Dino e (Alexandre de) Moraes está sendo feita (no Supremo Tribunal Federal, STF) para garantir a derrota do grupo ligado a Flávio Bolsonaro (PL) no Rio de Janeiro. E por isso a manutenção do Ricardo Couto (presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, TJRJ, como governador-tampão)”, seguiu Orlando.
“Essas ações (dos ministros do STF citados) não são gratuitas e nem desarticuladas. Não é coincidência o Lula, num ato de governo na Fiocruz (em 23 de maio), dizer que o governador (Couto) vai ficar até o final do ano. Como assim? Já foi julgado (pelo STF)? Será que o Lula está informado que a decisão será essa?”, indagou o estrategista político na Folha FM 98,3.
Quatro dias após a manutenção de Couto como governador do RJ ter sido anunciada por Lula na Fiocruz, a coluna Ponto Final, de opinião da Folha da Manhã, e o blog Opiniões, hospedado no Folha1, publicaram (confira aqui) em 27 de maio:
“Talvez empolgado com as revelações dos contatos próximos entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro (pelo site Intercept em 13 de maio), Lula disse no sábado (23 daquele mês), no Rio, diante do desembargador e governador interino do RJ Ricardo Couto: ‘A Justiça tomou uma decisão que hoje acho correta, de colocar você como governador interino até as eleições.’
Em 15 de abril (confira aqui) e 13 de maio (confira aqui), a coluna alertou sobre a intenção de alguns ministros (STF) ligados a Lula de manter Couto governador até outubro. Para evitar que o presidente eleito da Alerj, Douglas Ruas (PL), assuma como governador-tampão, como reza o Art. 141 da Constituição Estadual do RJ”. E seguiu a coluna de 27 de maio:
“Ruas é o pré-candidato bolsonarista a governador. Que, contra o amplo favoritismo do ex-prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) nas pesquisas, teria mais chance se concorresse ao Palácio Guanabara já nele. Mas a definição da eleição a governador-tampão está parada no STF por decisões dos ministros Flávio Dino e Cristiano Zanin.
Dino é ex-ministro da Justiça de Lula. Zanin é ex-advogado pessoal de Lula. Para tentar se reeleger em 2026, Lula precisa tentar diminuir a vantagem que Bolsonaro teve sobre ele (56,53% a 43,47%) no segundo turno presidencial de 2022 dentro do RJ. Que abriga o terceiro maior colégio eleitoral do país. No qual Lula teria um palanque com Paes.
É legítimo querer um gestor testado como Paes governador do RJ. É legítimo pensar que Couto trabalha para sanear o RJ. É legítimo supor que o grupo do ex-governador Cláudio Castro (PL), alvo de ações da Polícia Federal, é no mínimo suspeito. Mas é ilegítimo, sobretudo por parte do STF, agir politicamente no RJ como admitiu publicamente Lula”, finalizou aquela análise de maio em jornal, blog e site do Grupo Folha.
Dois meses e meio após aquele texto, o estrategista político carioca seguiu a sua análise da manhã de ontem no Folha no Ar. À qual cabe contextualizar que o analista, de 68 anos, hoje social-liberal de centro-esquerda que votou em Lula no 2º turno de 2022, tem formação marxista e foi filiado ao antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), de 1978 a 1988 — sete destes 10 anos ainda durante a ditadura militar.
“Tem aquele ditado: ‘O pior cego é o que não quer ver’. Mais recentemente, um amigo me disse e passei a adotar: ‘O pior cego é aquele que finge que não quer ver’”, redefiniu Orlando, antes de completar sua visão das interferências indevidas do STF e do TJRJ na política eleitoral do RJ e do Brasil:
“Nós temos um cenário montado, articulado pelo Poder Executivo, o Poder Judiciário na sua mais alta Corte e a estadual no TJ para criar condições mais favoráveis para beneficiar uma candidatura. E nesse terreno se inscreve também essa última decisão (confira aqui) que tenta tirar o (ex-governador Anthony) Garotinho (REP) da urna”.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
