
O que há de abstrato e concreto entre Flávio e Lula
No artigo do último sábado (10), a posição de parte da primeira-dama Janja e de parte dos eleitores de Lula que ela tão bem representa foi posta (confira aqui) em analogia. No caso, com a postura arrogante e desinteligente do bolsonarista Neymar:
“Que, aos 10 minutos dos descontos do 2º tempo, após converter um pênalti no jogo que o Brasil era derrotado por 2 a 1, dando adeus à última Copa do Mundo nas oitavas de final, perdeu tempo… discutindo com o goleiro norueguês Nyland”.
Nem todos os eleitores de Lula leram o artigo e sua analogia. Mas, coincidência ou não, boa parte deles reagiu no dia seguinte. Com manifestações de rua orgânicas, não do PT, para apoiar Lula em mais de 70 cidades do país no último domingo (11).
Tentar reagir enquanto o tempo de jogo ainda corre, com as chuteiras amarradas às veias, virou certeza no eleitor lulista. O problema é que muitos deles, caídos do salto alto com que deliraram com a vitória de Lula já no 1º turno, confundem a tentativa de reação no 2º turno com a virada do placar. E ela, pelo menos até aqui, não se deu.
Flávio Bolsonaro, de fato, teve 1,87 ponto de vantagem nos votos válidos sobre Lula no 1º turno de 4 de outubro. E, desde as manifestações em apoio ao petista no domingo de 11 de outubro, nenhuma pesquisa deu a ele liderança numérica na corrida.
Há, por parte do eleitor de Lula, a sensação de superioridade moral sobre o eleitor de Bolsonaro. O que é uma questão tão recíproca quanto abstrata. E que, sob o prisma da esquerda, foi melhor definida pelo artigo do cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos, enviado por ele e publicado (confira aqui) na quinta (15) no blog Opiniões:
“Em entrevista concedida ao jornal Folha da Manhã (confira aqui) após o primeiro turno das eleições de 2026, Anthony Garotinho foi enfático: ‘Flávio é franco favorito’, referindo-se ao segundo turno da disputa presidencial (…) No máximo, falávamos em ‘favoritismo moderado’ em um Brasil moralmente dividido”, preambulou George.
“Vou colocar em outros termos o que o professor Marcos Nobre está dizendo: trata-se do que consideramos justo. Vivemos na sociedade pós-Constituição de 1988. Nobre argumenta que os valores que orientam a CF-88 têm por trás um substrato moral que legitima direitos de diferentes naturezas. E essa Constituição (…) não é propriamente hegemônica em todos os grupos sociais brasileiros”, seguiu o professor.
“Há brasileiras e brasileiros que abominam cotas raciais. Consideram-nas injustas, imorais. Há quem considere que amar deva ser determinado pelo sexo biológico. Há aqueles que acham que a natureza está aí para atender a seus desejos de curto prazo. Há outros que consideram que a fé alheia os ofende”, colocou o cientista político.
“Nobre argumenta que não estamos polarizados. Estamos divididos em caminhos moralmente inconciliáveis. E, desde 2018, após três rodadas de eleições gerais, esse é o debate de fundo”, caminhou o professor da UFF-Campos à conclusão.
Coincidentemente, na mesma quinta, alguns minutos após a publicação do artigo do George no blog Opiniões, através de WhatsApp chegou (confira aqui) outro artigo. Que, a reforçar a coincidência, vinha da pena de outro cientista político: Bruno Soller, CEO do instituto de pesquisa Real Time Big Data.
Sem abstração moral, o especialista em eleições e seu acompanhamento através de pesquisas usou a Quaest (confira aqui) divulgada na quarta (14) para tentar tratar da questão concreta. De como a eleição estaria nos números das intenções de voto, em desenrolar totalmente aberto à definição pelo voto de fato no dia 25:
“A principal novidade das pesquisas é a ausência de novidade. A Quaest mostra Flávio com 46% e Lula com 44% (nos votos válidos: 51,11% a 48,88%). Na última simulação antes do primeiro turno, eram 44% e 42%, respectivamente. Os dois cresceram na mesma proporção e a distância permaneceu exatamente igual”, resumiu Soller.
“Há empate técnico, mas não há (…) sinal de aproximação do presidente (que passaria a haver com — confira aqui — as pesquisas Datafolha de quinta, PoderData e Futura de sexa). Confundir crescimento de intenção de voto com redução de desvantagem é um equívoco básico de leitura eleitoral”, ressaltou o CEO do Big Data.
“A pesquisa mantém a disputa aberta, mas oferece pouco fundamento à narrativa de virada. A distância na série da Quaest permaneceu igual, a migração dos principais candidatos eliminados favorece a oposição e a vantagem de Lula entre ausentes, brancos e nulos é estreita diante da tarefa a cumprir”, projetou o especialista eleitoral.
“Flávio começa essa etapa à frente e encontra, nas transferências declaradas, espaço para ampliar seu saldo. Lula precisa combinar preservação da própria base, conquista de adversários e mobilização de quem não deu voto válido no primeiro turno”, comparou o cientista político.
“É possível. Mas os números apresentados até aqui mostram que essa virada continua sendo uma necessidade da campanha governista, ainda sem demonstração nas pesquisas”, finalizou Bruno Soller.
Desde o domingo do dia 11, os lulistas pararam de perder tempo discutindo com o goleiro da Noruega. E, em nome da sua abstração moral, partiram para tentar a reação. Mas a virada nos números do 1º turno não se concretizou além do empate técnico ou exato nas pesquisas do 2º turno até o sábado de hoje (17), a oito dias do apito final.
“Os cientistas procuram atribuir os desdobramentos históricos a fatores econômicos e demográficos objetivos. Isso casa melhor com seus métodos matemáticos e racionais. No caso da história moderna, os acadêmicos não podem evitar levar em consideração fatores não materiais, como ideologia e cultura”, leciona o historiador israelense Yuval Noah Harari em seu “Sapiens — Uma breve história da humanidade”.
Pela ideologia e a cultura, um Jair Bolsonaro presidente do Brasil imitando brasileiros morrendo sufocados aos milhares durante a pandemia da Covid é imoral. Como também é o “fazer o diabo na hora de eleição” de Dilma Rousseff em 2014. Que desceu um círculo do inferno com Jair em 2022. E outro abaixo com Lula neste 2026.
Os debates da Band neste domingo (18) e da Globo na sexta no dia 23, a dois dias da urna, podem virar o placar? Podem! A tendência das pesquisas de quinta e sexta nas intenções de voto, abstração até a urna do 2º turno, parece abrir sorriso de nesga de boca a Lula? Sim! Mas a pequena vantagem concreta do voto no 1º turno é de Flávio.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
