
Faltam exatos 15 dias para a urna do 2º turno presidencial. Se Flávio Bolsonaro (PL) saiu da urna do 1º turno no último domingo (4) com 1,87 ponto de vantagem sobre Lula nos votos válidos (47,03% a 45,16%), essa diferença encerra a seguinte em crescimento. Nas últimas pesquisas PoderData, Datafolha e AtlasIntel (confira aqui), a vantagem de Flávio sobre Lula hoje vai de 4 a 6 pontos. No mínimo mais que dobrou ou até triplicou em poucos dias.
O motivo foi antecipado no artigo de análise intitulado (confira aqui) “Lula demanda 4 pontos de gordura no 1º turno para bater Flávio”. Que foi publicado no blog Opiniões, hospedado no site Folha1, e na Folha da Manhã em 26 de setembro, oito dias antes da urna do 1º turno falar no domingo:
“Para Lula vencer o provável 2º turno contra Flávio Bolsonaro terá que passar no 1º turno não só à frente, mas com gordura. Para ser favorito, teria que levar o 1º turno por 5 pontos de vantagem nos votos válidos. Com 4 pontos, seria cara ou coroa. Por 3 pontos a menos de vantagem, o favorito ao turno final seria Flávio.
Se Flávio ficar à frente de Lula no 1º turno, por um voto que seja, o 2º turno poderá ser só para cumprir tabela. Fundamentalmente porque os demais candidatos a presidente que pontuam são Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo). E estão todos à direita, em espectro próximo a Flávio.”
Comparados os números da urna do 1º turno com os das três pesquisas presidenciais feitas depois dela, a projeção até aqui se cumpre. Flávio herdou a maior parte dos votos (confira aqui) não só de Cury, Caiado e Zema, que declararam apoio ao candidato de oposição numa frente ampla às avessas de 2022, mas também de Renan. Que, ainda na noite do dia 4, disse que não apoiaria ninguém e liberou seus eleitores ao 2º turno; mas projetou: “Flávio já ganhou essa eleição”.
A pesquisa PoderData divulgada na quinta (8) deu Flávio 53% a 47% Lula, 6 pontos atrás, de intenção de voto válido ao 2º turno. Na Datafolha também divulgada na quinta: Flávio 52% a 48% Lula, 4 pontos atrás. Na AtlasIntel divulgada na sexta (9): Flávio 52,8% a 47,2% Lula, 5,6 pontos atrás. Parece se repetir no Brasil efeito Chile, como também foi projetado naquele artigo de 26 de setembro:
“Mesmo que Lula fique à frente por 3 pontos a menos dos votos válidos no 1º turno, e mesmo que nunca um candidato a presidente do Brasil em 2º lugar no 1º turno tenha virado depois a eleição, Flávio poderia repetir aqui o efeito Chile. Onde o ultradireitista José Antonio Kast se elegeu presidente no 2º turno, em 2025, mesmo atrás da comunista Jeanette Jara no 1º turno.
No turno inicial do Chile, Jara liderou com 26,85% dos votos válidos, contra 23,92% de Kast, 2,93 pontos atrás. Ocorre que, na disputa do turno final, ele herdou a maioria dos votos dados a outros candidatos de direita: Franco Parisi (19,71%), Johannes Kaiser (13,94%) e Evelyn Matthei (12,46%).
Diferente do Chile, nenhum presidenciável da 3ª via no Brasil tem dois dígitos nas pesquisas. Por isso Flávio não chegará perto dos 16,32 pontos de vantagem (58,16% a 41,84%) com que Kast varreu Jara no 2º turno. A nascente aqui seria bem menor, mas a direção da afluência seria a mesma. Só uma vantagem mínima de 4 pontos de Lula no 1º turno poderia barrá-la.”
Como se sabe, a vantagem no 1º turno foi de Flávio. E foi a sua gordura que aumentou nestes primeiros seis dias de campanha ao 2º turno. Nos quais a ex-senadora e coordenadora de Lula no Tocantins teve a coragem de dizer publicamente o óbvio, na terça (6), sobre a campanha de reeleição: “Mais Alckmin e menos Janja”. E foi aplaudida de pé, por quem pensa e desejaria dizer o mesmo, na reunião de cúpula do PT para debater o resultado do 1º turno.
Qual foi a reação de Janja? Respondeu na quarta (7), em nota, a assessoria da primeira-dama: “Independente do que falem, Janja seguirá na campanha”, dizendo ainda que a participação dela é “legítima e sempre respaldada pelo presidente Lula”. Ao que Katia Abreu indagou em tréplica na quinta (8): “Qual é a prioridade: aparecer ou eleger o marido?”
A atitude deslumbrada de Janja, não é de hoje, tem a mesma arrogância de parte dos eleitores de Lula que, noves fora o gênero, delirava com a vitória no ainda 1º turno do domingo. Do qual saíram, com a dor de corno da “traição” da realidade latejando na testa, em pregação lacrimogênea de demofobia contra quem dizem defender: “O povo não sabe votar”.
Janja e a porção dos eleitores de Lula que ela tão bem representa lembram, na arrogância e narcisismo, o bolsonarista Neymar. Que, aos 10 minutos dos descontos do 2º tempo, após converter um pênalti no jogo que o Brasil era derrotado por 2 a 1, dando adeus à última Copa do Mundo nas oitavas de final, perdeu tempo… discutindo com o goleiro norueguês Nyland.
A diferença é que Neymar, como Lula, um dia já bateu um bolão. Depois de enfrentar em eleições presidenciais jogadores como Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro, o maior líder popular do Brasil desde Getúlio Vargas agora corre o risco real de perder, além do Congresso, a reeleição. Muito mais do que Flávio, adversário que o PT desejou, pode ganhar.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
