Ao que tudo indica, o segundo turno das eleições, fora alguma virada extraordinária no posicionamento dos eleitores, será decidida entre dois partidos antagônicos em seus ideais, porém próximos em seu desapego pela liberal-democracia, por razões também opostas. Mas não é isto que a campanha, supostamente apartidária, “#Ele Não” quer nos fazer crer, apontando seu dedo para apenas um dos lados da contenda.
A indignação encarnada por Bolsonaro é velha conhecida, remonta ao período da decadência do regime militar, quando os assassinatos brutais de dois militantes (pacíficos) do PCB, Vladimir Herzog (1975) e Manoel Fiel Fº (1976), fizeram cair a máscara da justificação do AI-5 pela violência da guerrilha. A partir daí, em especial depois das eleições de 1982, o campo da direita sofreria forte abalo, apenas revertido pela reabilitação recente das Forças Armadas (FFAA) como instituição republicana e a ascensão política de Bolsonaro, ambas vinculadas à degeneração do PT no poder, mais precisamente aos escândalso do Mensalão e do Petrolão, que puseram a nu as práticas criminosas do partido e seus aliados, abrindo espaços extraordinários para a rearticulação da direita (vide Os conservadores avançam ) que as forças tradicionais não souberam aproveitar.
De um lado, o PSDB, prisioneiro do corporativismo empresarial e useiro de métodos semelhantes — como se comprovou mais tarde —, abriu mão, junto com seus aliados, de propor o impeachment de Lula em 2005 acreditando que o Brasil se comportaria como SP — que deu a Geraldo Alckmin 54,2% dos votos válidos nas eleições de 2006. De outro, o Centrão fisiológico aproveitou a crise para se fortalecer no rastro da associação PT-PMDB, o que permitiu a Lula não só se reeleger como se blindar de investigações parlamentares contra suas práticas predatórias do setor público (inclusive Petrobras).
É nesse contexto de putrefação do sistema político e de acovardamento/cooptação da oposição, que o petismo fincou raízes nas classes populares por meio de um crescimento econômico expressivo, não obstante ilusório, pois fruto de uma dinâmica externa exuberante que anulou por certo tempo nossas desvantagens competitivas. É nele também que surge uma nova militância liberal, de centro e de direita — órfã dos partidos tradicionais —, que, após 2013, encontraria no antipetismo e na agenda econômica liberal sua plataforma de oposição ao mecanismo petista.
Tal encontro, em si importante para a democracia pela renovação do campo liberal e conservador em chave orgânica com a sociedade — que o elitismo tucano-democrata foi incapaz de realizar —, se dá, todavia, sob a égide eleitoral de uma direita neointegralista, de um lado, e, de outro, prisioneira da ala terrorista do regime militar — representada pela chapa puro-sangue Bolsonaro&Mourão.
O Integralismo, em nossa história, nos anos 1930, foi uma reação ético-cristã à sociedade liberal-urbana que tomava corpo no país. Embora próxima do fascismo, ela recusava a perspectiva da Razão absoluta (hegeliana) no Estado — de caráter desenvolvimentista —, afirmando a dimensão subjetiva e o predomínio da tradição cristã (antimaquiaveliana) na administração dos negócios públicos (fusão entre ética pública e privada). Hoje, o neointegralismo parece uma versão urbana (liberista) da mesma concepção.
Quanto à ala terrorista, trata-se de uma corrente instrumental sem maiores chances de disputar a direção do Estado. Seu perigo, todavia, reside na possibilidade de se transformar em tenentismo civil-militar com base na fórmula hegeliana; o que a não assimilação da ativista liberal Janaína Paschoal à chapa, como vice, parece evidenciar. Aqui entram, em chave positiva, as FFAA e os militares moderados da coalizão, como o Gen. Heleno, que podem servir de freio a esta tendência, ao mesmo tempo que acicates para a recuperação do sentido de missão das elites políticas, desbloqueando a governabilidade capturada pelo neopatrimonialismo parlamentar (vide artigo anterior).
Já quanto ao PT, as incertezas são bem menores pois ele chega às eleições amadurecido por quase 40 anos de trajetória sem seu freio natural, o lulismo, destrambelhado desde o impeachment de Dilma e levado à radicalização como estratégia de sobrevivência.
Neste sentido, a agenda de curto-prazo do petismo, com sua constituinte e “controle social” dos poderes republicanos e da mídia, tem tudo para afastar o país do enfrentamento de seus grandes problemas histórico-estruturais e mergulhá-lo em um nível de polarização política até aqui desconhecido; tanto ao tentar reparar a “injustiça” cometida contra seu líder, quanto para reverter a desigualdade por meio do “aprofundamento da distribuição de renda” — como se fez recentemente na Venezuela, com os resultados catastróficos conhecidos.
O PT radicalizado retoma sua perspectiva revolucionária — como outrora fizera o PCB depois da cassação de seu registro e mandatos, em 1947 — na tentativa de sair das cordas, com isso contribuindo para embaraçar sua própria identidade histórica, construída em oposição ao comunismo totalitário, e a imagem moderada de seu candidato (Haddad), colocando seu futuro governo sob o dilema de trair os seus para governar ou governar traindo seu eleitorado, chafurdando o país na desordem política e institucional.
Para os céticos em relação à nova inclinação petista, o 6º Congresso (2017) não deixa dúvidas quanto aos objetivos que o partido se diz obrigado a perseguir para evitar um “novo golpe”: “(…) apenas a radicalização da democracia, no curso de uma revolução política e constituinte, poderá sedimentar o processo de mudanças que almejamos”, sendo “a via de aproximação para (…) o nascimento do Estado popular, nas condições históricas atuais, (…) a retomada da Presidência da República e a formação de uma maioria parlamentar defensora das reformas estruturais”[i].
Como tal “maioria parlamentar” não é possível, os petistas vislumbram a solução do impasse não numa ampla aliança de forças (união nacional pela democracia) — que eles só valorizam para obter votos, não para pactos programáticos que possam inibir seu poder —, mas na “intensificação da disputa por hegemonia” — não em sentido persuasivo, mas de imposição de uma vontade eleitoral-majoritária — “a partir de medidas político-administrativas que ampliem o poder popular, de pressão permanente e organizada das ruas”, acompanhada, naturalmente, do “desmonte dos monopólios de comunicação, (…) e do desaparelhamento do sistema jurídico-policial”, o que significa, à luz da tradição (stalinista), pensamento único (Pravda) e perseguição política permanente (NKVD) — o que exigiria também “democratizar o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal”, além, é claro, da “reformulação do papel das Forças Armadas”[ii].
Tudo isso apoiado no empoderamento da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo, como antídoto à Operação Lava Jato, que “desempenha papel crucial na escalada golpista” como “instrumento político para a guerra de desgaste contra dirigentes e governantes petistas, atuando de forma cada vez mais seletiva quanto a seus alvos” e funcionando “como mecanismo de contrapropaganda para mobilização das camadas médias” e do “campo reacionário”[iii].
Para quem foi às ruas, no último sábado, exorcizar as trevas do autoritarismo, acreditando que ela tem apenas um lado, o Governo Haddad seria um choque.
[i]Caderno de Resoluções do 6º Congresso Nacional, p. 36 it.s 23-24 (grifos meus); in. <www.pt.org.br/wp-content/uploads/2017/07/6-congresso-pt.pdf>, em 27/09/18.
[iii]Resolução Sobre Conjunutra, de 17 de maio de 2016, do Diretório Nacional do PT, p.1; in. <Resolução-sobre-conjuntura-Maio-2016[impeachment].pdf>, em 29/09/18.
À espera das últimas que serão divulgadas hoje, a grande pergunta é: haverá segundo turno na eleição presidencial? O crescimento de Jair Bolsonaro (PSL) na reta final foi confirmado pelo primeiro instituto que o colocou na casa dos 30% das intenções de voto. Pela Paraná Pesquisas de ontem, o ex-capitão do Exército alcançou os 35% das intenções de voto, mesmo índice apontado no dia anterior pelo Datafolha. Nas duas consultas, Fernando Haddad (PT) patinou nos 22%. Indagado sobre a possibilidade de Bolsonaro ganhar a eleição no primeiro turno, o diretor da Paraná, Murilo Hidalgo, estimou as chances em 30%.
Segundo turno: 70%
Com 70% de possibilidade, o segundo turno é o mais provável. Mas suas projeções variaram muito de acordo com as pesquisas. Segunda a Paraná de ontem, Bolsonaro venceria Haddad com relativa facilidade, por 47,1% a 38,1%. Mas Datafolha e Ibope projetaram empates técnicos no turno final entre o capitão e o petista. Estes dois institutos trazem hoje mais duas novas pesquisas, as últimas antes da urna de domingo. A da Datafolha, com mais de 17 mil entrevistas, será a mais ampla já feita nesta eleição. Se nela Bolsonaro estagnar, aumentam as chances de segundo turno. Mas elas diminuem se o candidato registrar outro crescimento real.
Ontem e hoje
Desde que o segundo turno foi adotado pela Constituição de 1988, apenas Fernando Henrique Cardoso (PSDB) ganhou a eleição presidencial em turno único. E o fez duas vezes, em 1994 e 1998. Curiosamente, seu principal cabo eleitoral na época foi o Plano Real, que estabilizou a economia do país. Com a recessão criada no governo Dilma Rousseff (PT), a economia voltou a ser um dos principais problemas do Brasil, cujo líder em todas as pesquisas a presidente é alguém que, assumidamente, não entende do assunto. Agora é o antipetismo, cujo papel Bolsonaro roubou do PSDB, que surge como principal cabo eleitoral desta eleição.
Rejeições
Todas as pesquisas indicam que, desde a semana passada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esgotou sua impressionante capacidade de transferência de votos para Haddad. Serviu para consolidar o candidato como segundo colocado, na casa dos 20%. Só que a reação à perspectiva do PT voltar ao poder empurrou Bolsonaro à casa dos 30%. Junto com os votos, Haddad recebeu a rejeição de Lula, igualmente impressionante. Pelo Datafolha e Ibope, o petista já está bem próximo de Bolsonaro no índice negativo. E, na metodologia diferente da Paraná, a rejeição de Haddad (58,5%) já é bem maior que a do capitão (48,6%).
Haddad no ontem
Transferidos o bônus e o ônus de Lula, seria o momento de Haddad buscar seus votos por conta própria. E ele desperdiçou a chance no debate da Globo, entre a noite de quinta e madrugada de sexta, último antes da eleição de domingo. No lugar de centrar fogo em Bolsonaro ausente, o petista perdeu tempo com Geraldo Alckmin (PSDB) para atacar o governo de Fernando Henrique, de 16 anos atrás. Entre várias outras mudanças de paradigma desta eleição, a polarização nacional entre PT e PSDB foi claramente abandonada pelo eleitor. E, em caso de segundo turno, Haddad vai precisar desesperadamente dos votos do tucano.
Ciro se destaca
Pouco depois de Bolsonaro dar entrevista à Record do bispo Edir Macedo, que já fechou apoio da sua popular Igreja Universal ao presidenciável de direita, o debate da Globo provou mais uma vez que Ciro Gomes (PDT) é o candidato mais consistente da esquerda. Foi ele quem se destacou ao cobrar a ausência do líder nas pesquisas. O desempenho do cearense gerou uma reação positiva nas redes sociais ao seu nome, que todas as pesquisas indicam ser o mais difícil de ser batido por Bolsonaro no segundo turno. Mas, à beira da urna, dificilmente será suficiente para reverter os 10 pontos percentuais que separam Ciro de Haddad nas pesquisas.
Referências
Na incerteza sobre o segundo turno presidencial, bem provável entre Eduardo Paes (DEM) e Romário (Pode) a governador do Rio, estas eleições derrubaram referências de pleitos anteriores. Mas algumas sobrevivem. Por exemplo, nunca um candidato a presidente atrás no primeiro turno, venceu o segundo. E, nem com Lula, o PT chegou à presidência com uma chapa puro-sangue de esquerda, como Haddad e Manuela D’Ávila (PCdoB). Outro exemplo? Romário ontem recebeu o apoio de Anthony Garotinho (PRP) que Alckmin, a presidente em 2006, e Marcelo Crivella (PRB), a governador em 2014, também tiveram. E acabram derrotados.
Instituto que antecipou Datafolha e Ibope no registro do crescimento de Jair Bolsonaro (PSL) na reta final da eleição, a Paraná Pesquisas divulgou hoje sua última consulta presidencial antes da eleição de domingo. Nela, o ex-capitão do Exército passou de 31,2% a 34,9% das intenções de voto. Ele foi o único candidato com crescimento real, mas a dois dias da urna, não é o suficiente para definir a eleição no primeiro turno. Seu provável adversário no segundo, Fernando Haddad (PT) oscilou positivamente de 20,2% a 21,8%. Mas a pesquisa apontou a vitória final de Bolsonaro: 47,1% a 38,1% na simulação de segundo turno contra o petista.
A explicação para o favoristismo de Bolsonaro no turno final está na rejeição. Medida de maneira individual pela Paraná Pesquisas, diferente da consulta em disco feita por Datafolha e Ibope, a rejeição registrou uma queda real do capitão: de 51,8% a 48,6%. Diferente dos demais institutos, ele ficou bem abaixo de Haddad no índice negativo. Os eleitores que não votariam de maneira nenhuma no petista tiveram uma ocilação para cima: de 57,6% a 58,5%.
Nas intenções de voto ao primeiro turno, Ciro Gomes (PDT) teve oscilação negativa: de 10,1% a 9,4%. Ele foi seguido por Geraldo Alckmin (PSDB), que ficou estaganado: tinha 7,6% e foi a 7,4% . O cearense e o tucano ficaram abaixo dos que declararam ainda não ter nenhum candidato: eram 11,9% e agora são 10,1% dos eleitores. A margem de erro da consulta é de dois pontos percentuais para mais ou menos. Foram entrevistados 1.080 eleitores entre os dias 2 e 4 de outubro, antes do debate da Rede Globo. A pesquisa está registrada no TSE sob o nº BR-08437/2018.
Em simulação da eleição de domingo entre os profissionais da redação da Folha, cujo resultado foi divulgado dia 1º (aqui) no blog Opiniões, Marcão Gomes (Rede) foi o candidato a deputado federal com mais intenções de voto: foram sete. Wladimir Garotinho (PRP) foi o terceiro, empatado com Marcelo Mérida (PSD), cada um com duas intenções de voto. Isto posto, sem nenhuma interferência na linha editorial do jornal, cabe a afirmação: os ataques mentirosos que Wladimir vem sofrendo nas redes sociais, nesta reta final da eleição, são sórdidos!
Justiça Eleitoral precisa agir
Diretor financeiro e blogueiro da Folha, Christiano Abreu Barbosa escreveu ontem (aqui) no seu Ponto de Vista: “Wladimir Garotinho (…) foi alvo de fake news, espalhada através de WhatsApp (…) A falsa notícia é que ele estaria inelegível e seu votos não seriam contabilizados como válidos nas urnas (…) É mentira que Wladimir esteja inelegível. Ele está perfeitamente elegível. E, pela campanha, deve ter uma bela votação no domingo”. A coluna assina embaixo, não sem expressar o desejo e a cobrança para que a Justiça Eleitoral puna exemplarmente os responsáveis por esse crime contra a democracia.
Bolsonaro continua a crescer
O instituto Paraná foi o primeiro a registrar a tendência de crescimento de Jair Bolsonaro (PSL) na reta final da eleição. Na sua pesquisa divulgada no último dia 26, o ex-capitão do Exército apareceu com 31% das intenções de voto, 10 pontos de vantagem sobre Fernando Haddad (PT). Só nesta semana o Ibope e Datafolha registraram o mesmo movimento, não só de crescimento de Bolsonaro, como de estagnação de Haddad. Pelas consultas Ibope de segunda (1º) e quarta (03), o líder teria parado de crescer. Mas entre as Datafolha de terça (02) e ontem (04), o capitão teve outro crescimento real e agora tem 35% das intenções de voto.
Haddad patina
Na Datafolha de ontem, Haddad permaneceu com 22% das intenções de voto. Nas três últimas pesquisas do instituto, ele oscilou no mesmo patamar. Tinha 22% em 28 de setembro, foi a 21% em 2 de outubro e, ontem, voltou aos 22%. Por sua vez, Bolsonaro avança consistentemente em crescimentos reais. Nas mesmas três consultas, ele saiu de 28% para 32% e, dois dias depois, pulou a 35%. A única coisa em que o petista teve crescimento relevante foi na rejeição. Ele saiu de 32% para depois patinar entre 41% e 40% no índice negativo. Está bem próximo do capitão, que estagnou sua rejeição em 45%.
Mais provável
Entre os líderes de intenções de voto e rejeição, a simulação do segundo turno da Datafolha foi Bolsonaro 44% a 43% Haddad. É um empate técnico na margem erro de dois pontos para mais ou menos. Mas com o crescimento consistente do capitão na reta final da eleição, a pergunta mais ecoada é: haverá segundo turno? Ainda é o mais provável, mas o candidato do PSL chegou a 39% dos votos válidos. Ele já é o segundo no Nordeste e lidera em todas as demais regiões. Lidera também entre as mulheres, mesmo acusado de machista e misógino, e avança até entre os mais pobres e menos escolarizados, tradicionais eleitores de Lula.
Antipetismo
Até aqui, o grande definidor do voto desta eleição parece ser o antipetismo. Foi a reação à entrada de Haddad na casa dos 20% de intenções voto, na semana passada, que empurrou Bolsonaro, à casa dos 30%. Na Datafolha do dia 2, foi revelado que 59% dos brasileiros querem que Lula cumpra sua condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A maioria expressiva da população considera o ex-presidente culpado. E gritar “Lula livre”, sem fazer autocrítica, só encontra eco entre os já convertidos da minoria. Na prática, tem se revelado a maneira mais eficaz de eleger quem melhor encarnou o anti-Lula nesta eleição.
O possível
Muitas são as diferenças entre Jair Bolsonaro e Rafael Diniz (PPS). Mas, entre 2016 e 2018, há semelhança entre campanhas por partidos pequenos, com pouco tempo de TV, calcada nas redes sociais e focada na oposição a um líder complicado com a Justiça. Ao chegar ontem aos 35% das intenções de voto, avançando no eleitorado mais pobre, o crescimento do capitão lembra muito o desempenho do candidato a prefeito de Campos de dois anos atrás. Na última pesquisa Pro4, 7 dias antes do pleito, Rafael bateu 37,7% das intenções de voto. Se Bolsonaro alcançar algo hoje parecido na Paraná, a possibilidade do mesmo desfecho deixa de ser delírio.
Foz do rio Paraíba no Pontal de Atafona, em 3 de janeiro de 2017 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
“Por volta dos meus 20, 21 anos, a tragédia, a bárbara, que se abateu sobre essa nação no golpe de 64… Na verdade, eu nunca pensei, na minha vida, que fosse ver isso de novo. Nunca pensei (…). Sem nenhum exagero, sem nenhum tom de tragédia, eu afirmo a vocês que, para viver uma nova ditadura, eu prefiro morrer. Não vale a pena viver aquilo tudo de novo.”
Ao microfone, na praça São Salvador, Centro de Campos, vestindo uma blusa roxa com dizeres sobre o voto em que a respeita, a professora Beth Araújo estava entre mulheres e homens em coro uníssono. Centenas, que se dividiam entre palavras de ordem, palmas e celulares para registros. Do outro lado, na avenida, outros homens em carros sinalizavam seus posicionamentos contrários: gestos de armas e buzinas provocativas.
Pouco antes, ela ouvira o barulho, as vozes, os carros. Teve certeza: eram opositores ao ato que acontecia a poucos metros dali. Arrepiou-se. Em sua cabeça, um filme: Vlados, Zuzus, Stuarts. Marias e Clarices no solo do Brasil. Mães, pais, filhos, tantos que partiram em rabos de foguetes. O horror estampado nas vozes e rostos em histórias contadas anos e anos depois dos fatos, quando reconquistado o direito à liberdade de expressar e relatar os dias de chumbo.
Quatro anos antes, assistira a um evento sobre os 50 anos do golpe militar. Entre as atividades, a exibição do documentário “Vlado: 30 anos depois”, sobre o jornalista Vladimir Herzog, morto durante a ditadura. À época, registros oficiais afirmaram que ele se matou. Enforcado. O corpo foi encontrado dentro de uma cela. As pernas do homem estavam dobradas sobre uma cadeira enquanto uma corda contornava o seu pescoço, presa à parte superior do espaço. Enforcado?
Lembrou-se das palavras ditas à mesa: “Nossa democracia é muito jovem, frágil. Tem 30 anos. Precisamos ficar atentos”. Considerou, aos 21 anos de idade, um exagero. Não vivera um período que não fosse democrático. Não sabia o que era não se expressar. Não conhecera os tempos sombrios aos quais se referiam tantos que acompanharam aqueles anos, que pareciam distantes, tão distantes.
Sempre ouvira falar sobre o período ditatorial. Relatos de pessoas próximas, que precisaram sair do país, e por meio de livros, filmes, músicas. Conhecera, ainda na infância, a Angélica de Chico Buarque. Sentia, mesmo sem ter noção do sentir, a dor de uma mãe que busca por seu filho sequestrado. Torturado. Morto. Nunca encontrou o corpo do rapaz. Em uma emboscada, ela também foi morta, sem poder lembrar, agasalhar e embalar o filho, “que mora na escuridão do mar”. Assassinada em um suposto acidente no túnel do Rio de Janeiro que leva o seu nome: Zuzu Angel.
Os dias tão distantes parecem espreitar de todos os cantos. Escondidos em gestos, atos, crenças. Travestidos em busca de paz e valores éticos e morais. Escancarados em debates, deboches, discussões. Negação de si, do outro, da própria história. Mesclados a palavras aparentes de bom senso e lógica. Ilógico. O passado tão recente, presente de ontem, assombra. Retrocessos. Excessos. Buzinas e brados e gritos e brigas; cegos e surdos e mudos; noites em dias: com quantas Angélicas se faz uma democracia?
Charge do José Renato publicada hoje (04) na Folha
Paes e Romário lideram sem Garotinho
Mesmo sem Anthony Garotinho (PRP), barrado no TSE pela Lei da Ficha Limpa, a eleição a governador do Rio terá segundo turno. Foi o que mostrou a pesquisa Ibope divulgada ontem, primeira sem a presença do político de Campos. Eduardo Paes (DEM) liderou com 26% das intenções de voto, seguido de Romário Faria (Podemos), com 19%. Considerados apenas os votos válidos, o primeiro teria 33%, com 24% para o segundo. Na simulação do segundo turno, fora da margem de erro de dois pontos para mais ou menos, Paes venceria Romário por 40% a 33%. A rejeição dos dois candidatos é praticamente a mesma: respectivamente, 34% e 33%.
Indio, Witzel e Tarcísio
Com Garotinho ainda no páreo, a pesquisa Ibope anterior tinha sido divulgada em 25 de setembro. Nela, Paes tinha 24% e Romário, 16%. Aparentemente, eles herdaram poucos votos do político campista: o primeiro cresceu dois pontos, com três para o segundo. As maiores alterações vieram no pelotão de baixo. Indio da Costa (PSD) cresceu quatro pontos e apareceu ontem na terceira colocação, com 10% das intenções de voto. Ele foi seguido de Wilson Witzel (PSC), com 7%, e Tarcísio Motta (Psol), com 6% — ambos tinham os mesmos 4%.
Briga pelo espólio de Bolsonaro
Mais que a ausência de Garotinho, Indio e Witzel devem o crescimento à força de do voto em Jair Bolsonaro (PSL) a presidente, apoio que os dois candidatos a governador passaram a disputar acirradamente nos debates. O ex-capitão do Exército lidera entre o eleitorado fluminense, com mais que o dobro das intenções de voto de Fernando Haddad (PT). Desde que começou a fazer campanha junto com o candidato a senador Flávio Bolsonaro (PSL), filho de Jair, Witzel saiu do 1% que até então tinha nas pesquisas. Adepto da campanha do “ele não”, Tarcísio foi ultrapassado pelos adversários que passaram a pregar com fervor o “ele sim”.
PT a pé no RJ (I)
Quando prefeito do Rio, Paes foi aliado dos ex-presidentes petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Político experiente, ele não só conseguiu se isolar da condição de aliado próximo do ex-governador Sérgio Cabral (MDB), como se esquivou das tentativas de aproximação do PT para fornecer um palanque forte para Haddad no Rio. Com a negativa de Paes, que se manterá neutro na disputa presidencial, o PT passou a cortejar Garotinho. O partido chegou a repassar R$ 700 mil à campanha de Clarissa (Pros) a deputada federal. Mas a Ficha Limpa que já tinha vetado Lula, barrou também Garotinho e enviuvou o “namoro”.
PT a pé no RJ (II)
Case o domingo confirme o segundo turno entre Paes e Romário, a campanha de Haddad terá sério problema no Estado que já votou duas vezes nas eleições presidenciais de Lula e outras duas, nas de Dilma. Político experiente, nada demoverá Paes da neutralidade, com a qual só tem a lucrar e nada a perder. Do outro lado, Romário tem como candidato a vice-governador o deputado federal Marcelo Delaroli (PR), que já manifestou apoio a Bolsonaro. Escolha pessoal de Lula e considerada a candidata mais fraca que o PT já apresentou para governar o Rio, Márcia Tiburi se despede no domingo. E não deixará saudade nem dentro do partido.
Ibope a presidente
O Ibope também divulgou ontem sua nova pesquisa presidencial. De diferença à de dois dias antes, Bolsonaro e Haddad oscilaram para cima nas intenções de voto: o primeiro de 31% a 32%; e o segundo, de 21% a 23%. Oscilaram para baixo Ciro Gomes (PDT), de 11% para 10%; e Geraldo Alckmin (PSDB), de 8% para 7%. A projeção do segundo turno entre o capitão e o petista registrou um empate técnico: 41% a 43%. Ambos apresentaram oscilações negativas nas rejeições: Bolsonaro, de 44% a 42%; e Haddad, de 38% a 37%. Menos mal ao candidato de Lula, que parece ter estancado seu salto recente no índice negativo.
Paraná e Datafolha
Até a véspera do pleito, as pesquisas presidenciais serão diárias. Mais oito estão registradas no TSE. Mas para quem se guia pela razão, não pelo desejo, duas delas devem retratar com mais precisão o cenário real de domingo: a Paraná que será divulgada na sexta (05) e a Datafolha, no sábado (06). A primeira será do instituto que registrou antes de todos o crescimento recente de Bolsonaro. Já a do dia seguinte será sobre o maior universo pesquisado até a consumação das urnas: mais de 17 mil eleitores.
Ontem foi a vez da Datafolha registrar o crescimento de Jair Bolsonaro (PSL), que foi de 28% a 32% das intenções de voto. A apenas quatro dias das urnas de domingo, ele está agora a 11 pontos à frente de Fernando Haddad (PT), que oscilou negativamente e está com 21%. Na segunda-feira (01), o Ibope já tinha colocado essa vantagem em 10 pontos (31% a 21%). Nas duas pesquisas, mais que o crescimento real de Bolsonaro nas intenções de voto, o que mais impressionou foi o salto da rejeição de Haddad nos últimos dias: 9 pontos na Datafolha (32% a 41%) e 11 pontos no Ibope (27% a 38%). É o preço salgado do antipetismo.
Voto contra
Bolsonaro ainda lidera a rejeição nos dois institutos. Tem 45% no Datafolha, onde se manteve estabilizado, e 44% no Ibope, onde oscilou negativamente. Mas diante da polarização consolidada, é quase certo que vá enfrentar no turno final o segundo candidato mais rejeitado: o do PT. Nas projeções de segundo turno, o capitão ficou em empate técnico com Haddad no Datafolha (44% a 42%) e em empate exato no Ibope (42% a 42%). O Brasil nunca teve dois presidenciáveis com níveis tão altos de rejeição disputando o segundo turno, desde que essa forma de disputa foi adotada pela Constituição de 1988. Este é o pleito do voto contra.
O anti-Lula
A primeira eleição direta a presidente após a ditadura militar (1964/85) foi em 1989. E desde lá sempre houve o anti-Lula. O primeiro, Fernando Collor de Mello, bateu o petista no segundo turno. E talvez seja o que mais se aproxime de Bolsonaro como fenômeno eleitoral. Fernando Henrique Cardoso foi o único a derrotar o PT duas vezes no primeiro turno, a reboque da estabilização da economia com o Plano Real. Mas desde que Lula chegou ao poder em 2002, até o PT ser dele deposto em 2016, pela corrupção eviscerada na Lava Jato e a recessão econômica criada por Dilma, ninguém encarnou o antipetismo tão bem quanto Bolsonaro.
Os planos de Lula
Preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro em 7 de abril, Lula continuou liderando todas as pesquisas presidenciais e articulando politicamente. Na fase de definir candidaturas e apoios, ele ordenou da cadeia a intervenção no PT de Pernambuco para impedir a candidatura de Marília Arraes a governadora em Pernambuco. A cabeça da neta de Miguel Arraes foi trocada com o PSB, que governa aquele Estado, pelo isolamento nacional de Ciro Gomes (PDT). Ao mesmo tempo, Lula emplacou seu aliado Guilherme Boulos como candidato a presidente do Psol, impedindo que partido oferecesse uma opção fora da sua área de influência.
As ações de Lula
Sempre seguido por Bolsonaro, Lula continuava liderando as pesquisas a presidente, até ser barrado 1º de setembro pela Lei da Ficha Limpa que sancionou quando presidente. Assim mesmo, retardou até o limite a sua substituição por Haddad, consumada no dia 11. Foi o suficiente para afetar diretamente todos os candidatos competitivos alternativos da esquerda. Dois ex-ministros de Lula, Marina Silva (Rede) desidratou rapidamente, enquanto Ciro teve seu crescimento paralisado. Em contrapartida, Haddad cresceu rapidamente, impulsionado pelos votos de Lula entre os mais pobres, os menos escolarizados e no Nordeste.
O resultado: Bolsonaro acima dos 30%
As opções de esquerda foram isoladas, Geraldo Alckmin (PSDB) não conseguiu crescer sobre Bolsonaro e este parecia ter batido seu teto. Tudo parecia correr com os planos de Lula. Na última semana, pela Ibope e Datafolha, Haddad ficou a apenas seis pontos do líder. Mas o instituto Paraná esticou essa vantagem. Sua pesquisa divulgada na quarta (26) registrou o capitão com 31%, 11 pontos acima do petista. No último sábado (29), a coluna registrou seu estranhamento com essa diferença nos números. Coincidência ou não, no início da semana Ibope e Datafolha se aproximaram da Paraná e também registraram Bolsonaro acima dos 30%.
O anti-Lula cresce
A transferência de votos de Lula a Haddad veio primeiro. Mas aparentemente bateu teto na semana passada. Nesta veio a rejeição. Por sua vez, Bolsonaro cresceu com os apoios da reta final: da bancada ruralista, de lideranças evangélicas e dos partidos do centrão. Ele também capitalizou com a reação antipetista à possibilidade do PT voltar ao poder. Líder nas demais regiões do Brasil, o capitão já é o segundo no Nordeste, atrás apenas de Haddad. Lidera também no voto feminino e avança sobre outro reduto lulista: os mais pobres e menos escolarizados. A quatro dias da urna, o candidato de Lula parou. E o anti-Lula voltou a crescer.
No último sábado (29), esta coluna havia registrado seu estranhamento com a diferença nos números entre três pesquisas presidenciais divulgadas no correr da semana. Ibope e Datafolha deram seis pontos de vantagem ao líder Jair Bolsonaro (PSL) sobre o segundo colocado Fernando Haddad (PT). Enquanto o instituto Paraná registou em 11 pontos a diferença entre os dois candidatos. Pois ontem, a apenas seis dias das urnas, a nova consulta divulgada pelo Ibope se aproximou da Paraná: Bolsonaro teve crescimento real de quatro pontos, foi de 27% a 31% e abriu 10 de vantagem sobre Haddad, que patinou nos mesmos 21% anteriores.
Capitão apanha e cresce
A semana passada terminou aparentemente desfavorável a Bolsonaro. Ainda no sábado, mulheres tomaram ruas e praças de várias cidades do Brasil, incluindo Campos, no movimento “#elenão”. Manifestações ao seu favor também ocorreram, mas sem a mesma adesão. No domingo, a nova pesquisa CNT/MDA pôs o petista em empate técnico com o ex-capitão do Exército: 25,2% a 28,2%. Na manhã de ontem, a nova pesquisa BTG/FSB, que vinha dando os melhores índices de intenção de voto a Bolsonaro, registou sua oscilação para baixo (33% a 31%) e para cima de Haddad (23% a 24%). Mas à noite veio o contravapor com a nova Ibope.
PT: após os votos, a rejeição
As notícias ruins a Haddad não vieram só da sua estagnação e do crescimento de Bolsonaro nas intenções de voto. Se este é o índice que determinará o primeiro turno, naquele que definirá o segundo, o petista teve um revés ainda pior. Após aparecer na última Ibope, divulgada no dia 26, com 27% rejeição, ele cresceu nada menos que 11 pontos: agora são 38% os brasileiros que não votam de jeito nenhum no candidato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na margem de erro de dois pontos para mais ou menos, Haddad já está em empate técnico na rejeição com Bolsonaro, que manteve seus 42% anteriores.
Empate no segundo turno
Se a impressionante capacidade de transferência de votos de Lula a Haddad aparenta ter encontrado seu teto, a rejeição igualmente impressionante do ex-presidente parece estar agora apresentando sua fatura. Não por outro motivo, a simulação Ibope do segundo turno entre Bolsonaro e o candidato petista resultou em empate numérico: 42% a 42%. Segundo todas as pesquisas, não parece mais ser possível haver outro segundo turno. Na disputa do primeiro pelo Ibope, Ciro Gomes (PDT) permaneceu bem atrás na terceira posição, oscilando negativamente de 12% para 11%, enquanto Geraldo Alckmin manteve os 8% anteriores.
Competitividade talhada à faca
Ciro permanece como candidato potencialmente mais forte ao segundo turno. Se conseguisse passar Haddad para chegar lá, o cearense bateria Bolsonaro por 45% a 39%. Alckmin ficaria numericamente à frente do capitão no turno final, mas em empate técnico: 42% a 39%. Quinta colocada na corrida, Marina Silva (Rede) continua a sangrar. Ontem, oscilou negativamente de 6% para 4%. Mas caso chegasse ao segundo turno, ela perderia por 38% a 43% para Bolsonaro. Candidato inicialmente forte apenas no primeiro turno, ele se tornou competitivo também no segundo, após o episódio da facada em 6 de setembro, em Juiz de Fora.
Mais pesquisas
Também na noite de ontem, uma pesquisa RealTime Big Data/Record deu uma vantagem menor de Bolsonaro para Haddad nas intenções de voto: 29% a 24%, cinco pontos de diferença, metade da registrada pelo Ibope. Nesta reta final da eleição, as pesquisas serão diárias: O Datafolha divulga novas amanhã (02), na quinta (04) e no sábado (06); o Ibope, na quarta e no sábado (06); e o Paraná na sexta (05). Outros institutos menos cotados também divulgar novas consultas, incluindo o Vox Populi no sábado, véspera da eleição, quando deve voltar a produzir números favoráveis ao PT.
Voto feminino
O Vox Populi não é o único a subverter a ética para tentar interferir no pleito. Ontem, o juiz federal Sérgio Moro arriscou seu prestígio ao suspender, a seis dias das urnas, o sigilo sobre a delação do ex-ministro petista Antonio Palocci, com denúncias de corrupção contra Lula, Dilma Rousseff e José Dirceu. Por sua vez, como um Hamilton Mourão do PT, Dirceu declarou que “é preciso tirar todos os poderes do Supremo”. Enquanto isso, mesmo contestado pelas mulheres que foram democraticamente às ruas, Bolsonaro cresceu também no voto feminino, onde já liderava: de 18%, foi a 24%. Pelo Ibope, uma entre cada quatro brasileiras votará no capitão.
Além da minha declaração pessoal de votos para 7 de outubro, exposta na postagem abaixo, a redação da Folha simulou antecipadamente o pleito, na semana passada, entre os seus profissionais. O resultado não tem nenhuma influência na linha editoral do jornal, que se busca isenta em meio à polarização que divide a sociedade brasileira.
Mas entendemos ser honesto com você, leitor, expressar publicamente também o conjunto das opções eleitorais dos editores, repórteres, fotógrafos, colunistas, diagramadores e motoristas que, diariamente, produzem o noticiário e a opinião do maior jornal de Campos, Norte Fluminense e interior do Estado do Rio.
A deputado estadual, os profissionais da redação da Folha votarão em:
A deputado federal:
A senador:
A governador:
E a presidente:
Atualização às 16h55 para corrigir erro do infográfico na votação de Chico Alencar
Iniciada a semana da eleição, é o momento de declarar meus votos para 7 de outubro. Os mais convictos são para uma disputa à qual a maioria ainda não parece ter acordado. Votarei em dois homens de bem, experientes, honestos, preparados e capazes de representar o Estado do Rio com dignidade no Senado: Chico Alencar (Psol), nº 500, e Miro Teixeira (Rede), nº 188.
Para deputado federal, enquanto o Brasil não tiver voto distrital misto, penso ser fundamental eleger um representante da região. Sem voz na Câmara Federal, Campos e Norte Fluminense serão deixados de lado pelo centralismo da cidade do Rio, que pretende resumir as questões fluminenses apenas nas cariocas. Meu voto é de Marcão Gomes (PR), nº 2277.
Para deputado estadual, vale o mesmo raciocínio da escolha do federal. Confesso ter ficado em dúvida entre duas opções locais. Mas acabei me decidindo pelo equilíbrio não só ao conjunto dos meus votos, como também da política regional. Neste sentido, votarei pela reeleição de Bruno Dauiare (PRP), nº 44888.
Outro voto que me trouxe dúvida foi a governador. Entrevistei quase todos os candidatos para a Folha e três me pareceram mais preparados que os demais, inclusive por conhecerem a fundo questões locais como rio Paraíba do Sul, Uenf e Porto do Açu. Entre os três, após refletir sobre o passado de cada um e suas propostas, sobre a decadente realidade fluminense e suas causas, optei por Marcelo Trindade (Novo), nº 30.
Por fim, meu voto a presidente. Em meio ao turbilhão que tomou o país desde as “Jornadas de Junho” de 2013, passando pelo pleito de 2014 e o impeachment de 2016, é uma eleição marcada pela irracionalidade entre os opostos. Que dificilmente acabará com o segundo turno de 28 de outubro. Tinha outra opção, mas mudei para quem reúne mais condições de furar a polarização que ameaça levar o Brasil à conflagração. Meu voto será de Ciro Gomes (PDT), nº 12.
Suponha, leitor, que alguém considere Luiz Inácio Lula da Silva, Jair Bolsonaro e Anthony Garotinho políticos populistas. Lula e Bolsonaro, faces opostas da mesma moeda cunhada ao ferro do dogma e ao fogo da paixão; enquanto Garotinho, um troco da metade do valor.
Seria juízo por certo distinto do que fazem os numerosos seguidores dos três líderes políticos. Mesmo que não seja feito sem reconhecer, entre outras qualidades, a genialidade política do petista, o senso de oportunidade do ex-capitão do Exército e a determinação do radialista.
Suponha ainda que esse alguém seja defensor do Judiciário, do Ministério Público e da imprensa. E que veja nas críticas às três instituições o reflexo nítido da bipolaridade dos críticos. Como enxerga, na cara de cada representante das três esferas legislativas, o rosto sem maquiagem de quem votou para ser — e é — representado.
Ainda assim, e se esse alguém também encarasse os últimos acontecimentos com Lula, Garotinho e Bolsonaro à luz da razão? E visse na censura prévia do ministro do STF Luiz Fux à entrevista do ex-presidente à Folha de São Paulo um exercício desvelado e deslavado de autoritarismo?
Base do Iluminismo, da democracia representativa, da separação dos poderes e da não supressão do direito do indivíduo entre eles, onde colocar a batida máxima de Voltaire: “posso não concordar com uma palavra do que diz, mas lutarei até a morte pelo seu direito de dizer”? Data vênia, máxima vênia, onde rezar sua missa de corpo presente?
Pode ser que esse alguém não tenha questionado a condenação de Garotinho, na 4ª Vara Criminal Federal do Rio, como chefe de quadrilha armada por sua atuação no governo estadual Rosinha. Não questionou em 18 de agosto de 2010, quando saiu a sentença. Nem quando o filme “Tropa de Elite 2”, baseado naqueles bárbaros crimes de Estado, foi lançado.
Mas talvez até o Eremildo, idiota criado pelo jornalista Elio Gaspari, indagasse: por que o TRF-2 só julgou e confirmou a condenação em 4 de setembro de 2018? Passados mais de oito anos da decisão de primeira instância, o que mudou na celeridade da segunda, além das urnas a governador do mês seguinte?
Adiante dos motivos aparentemente insondáveis da Justiça, e se esse alguém também encarasse o último extremo da grande mídia brasileira? Mais precisamente, a veiculação da matéria sobre a separação de Bolsonaro da sua ex-esposa Ana Cristina Valle, que estava sob segredo de Justiça na 2ª Vara de Família da Barra da Tijuca.
No limite muitas vezes tênue entre interesse público e interesse do público, fica cada vez mais difícil saber qual é o observado pela imprensa. Mas expor as vísceras de uma separação litigiosa com disputa de bens e guarda de filho, sem prova de nenhum crime que não acusações passionais sepultadas pelo tempo, deveria referenciar alguma fronteira ética.
Independente do resultado da agrimensura, serve para resguardar a vida pessoal de quem fez a matéria e de quem a leu. Nem mais, nem menos do que a de um candidato a presidente líder em todas as pesquisas a pouco mais de uma semana da eleição.
Não gostar de Lula, Bolsonaro e Garotinho é um direito. E, convenhamos, os três deram e dão motivos para isso. Mas até onde são capazes de ir a Justiça e a imprensa com quem elas não gostam, ou não gostamos nós, é a medida a ser adotada com cada cidadão que gere contragosto — inclusive conosco.
Goste-se ou não de futebol, quem assistiria a uma partida em que juiz, bandeirinhas, VAR, comissões técnicas, gandulas, maqueiros e crônica esportiva passassem a ser protagonistas sobre os jogadores do campo? Sejam estes craques, ou pernas de pau enganadores, ao gosto das torcidas.
Quando Judiciário, Ministério Público e imprensa avançam sobre seus papeis institucionais, dão liberdade a outros entes para também fazê-lo. Para quem ainda não percebeu, as Forças Armadas, humilhadas em uma intervenção desastrosa do governo Temer na Segurança do Rio, voltaram a entrar no campo civil. E tinham abandonado esse jogo por W.O. desde 1985.
De volta ao nosso hipotético alguém do início deste texto, a sete dias da eleição, ele é o sujeito que despertou à realidade do seu país afunilada entre Bolsonaro e Haddad. E com uma única opção concreta para ainda tentar fugir da polarização e buscar o centro: Ciro Gomes.
Diante do cearense como derradeira alternativa ao equilíbrio nacional, o dilema remete à máxima de outro filósofo, que revelava a verdade pelo humor. Foi Marx — o Groucho, não o Karl — quem disse: “nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio”.
Eduardo Paes (DEM) já era líder isolado em todas as pesquisas quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) impugnou a candidatura de Anthony Garotinho (PRP), na última quinta (27), com base na Lei da Ficha Limpa. Mas as perguntas desta entrevista foram enviadas antes do fato, cujas consequências sobre o pleito do próximo domingo ainda não foram medidas. O ex-prefeito do Rio falou abertamente sobre seus próprios problemas com a Justiça e de alguns dos seus ex-secretários. Mais importante, apresentou suas propostas ao Governo do Estado à Segurança Pública e aos servidores, aos quais acenou com a possibilidade de reajuste. Sobre o Norte Fluminense, ele reafirmou seu compromisso com a Ponte da Integração, a Uenf e o Porto do Açu. E foi além: “considero Campos a segunda capital do Estado”.
Folha da Manhã – Talvez seu maior feito na campanha tenha sido suplantar, aos olhos do eleitor, sua ligação com o ex-governador Sérgio Cabral, o atual, Luiz Fernando Pezão, e o ex-presidente da Assembleia, Jorge Picciani, todos do MDB. Foi isso ou o fato de seus principais concorrentes nas pesquisas, Romário e Garotinho, terem defeitos considerados ainda piores?
Eduardo Paes – Como prefeito do Rio trabalhei em parceria com o então governador Sérgio Cabral. E lamento profundamente que ele tenha ido pelo caminho que resolveu percorrer. Está pagando caro por isso e respondendo pelos seus crimes. Eu respondo pelos meus atos. Fui aliado dos três governadores e dos três presidentes que passaram por mim, mas não posso responder por eles. E sendo governador, vou ser aliado dos 92 prefeitos do estado e do próximo presidente da República. A meu favor eu tenho o meu trabalho de oito anos como prefeito do Rio. Enquanto o Estado já estava em crise, decretando estado de calamidade pública, na Prefeitura estávamos assumindo dois hospitais estaduais, as Bibliotecas Parque e os servidores municipais continuaram a receber os salários em dia, as nossas contas estavam sendo pagas e as obras sendo entregues.
Folha – Como vê a sobrevivência de Cabral, Picciani e do ex-presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (MDB), nas candidaturas dos seus filhos a deputado federal: respectivamente Marco Antônio Cabral, Leonardo Picciani e Danielle Cunha, todos do MDB e em sua coligação? Na manutenção de oligarquias políticas, como essas candidaturas se diferem das de Clarissa (Pros) e Wladimir Garotinho (PRP), também candidatos a deputado federal?
Paes – Eu não posso criminalizar as pessoas, os crimes não são hereditários. O que nós sabemos é que quem cometeu crimes está pagando por eles.
Folha – Como avalia os dois governos Cabral e o de Pezão? O que neles serve como exemplo a ser seguido e a ser evitado? Sendo o mais sincero possível, que influência os dois, além de Picciani e Cunha, teriam em seu governo?
Paes – Eu quero olhar pra frente. Apresentar propostas do que precisa ser feito para que o nosso Estado possa avançar. Agora, mesmo tendo sido do PMDB, você nunca viu estes personagens mandando no meu governo, na Prefeitura do Rio. Se não foi assim quando eu era do partido, agora não será diferente.
Folha – O senhor e o deputado federal Pedro Paulo (DEM) foram condenados em dezembro de 2018, no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), a oito anos de inelegibilidade, por abuso de poder político e econômico na eleição municipal de 2016. Em abril deste ano, seus direitos políticos foram restituídos em decisão liminar do ministro Jorge Mussi, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Concorrer sob liminar não transmite insegurança ao eleitor?
Paes – Não. Esta decisão se refere ao planejamento estratégico que deixamos pronto para o governo que me sucederia. Ao longo dos oito anos do meu governo fizemos os planejamentos estratégicos dos dois mandatos (2009-2012 e 2013-2016). Esses planejamentos estratégicos nortearam as nossas ações e obras. Preparei o planejamento estratégico para o governo que me sucederia porque é natural que se busque uma continuidade das políticas públicas. A população está cansada de projetos que não têm continuidade. Então, à luz do que já tinha sido feito, propusemos discussões com a sociedade civil organizada. Isso durou semanas, foi amplamente divulgado e o resultado virou um documento que foi publicado. Uma vez público, ele poderia ter sido usado por qualquer candidato. O Pedro Paulo era o candidato da situação, que representava a continuidade dessas políticas públicas que fizemos. Não adotar aquelas propostas como base seria um contradição.
Folha – No primeiro debate entre os candidatos a governador, promovido pela Band em 16 de agosto, Garotinho (PRP) falou da prisão pela Lava Jato do seu ex-secretário de Obras na Prefeitura do Rio, Alexandre Pinto, e perguntou ao candidato Wilson Witzel (PSC): “Vem mais uma delação aí?”. Ex-juiz federal, ele confirmou a delação e garantiu que os mandados dela advindos estão para sair. Isso preocupa após a eleição? Por quê?
Paes – Eu sempre digo que tenho delações negativas. Oito delatores foram claros em dizer que não pedi propina ou qualquer outro benefício pessoal no trato da coisa pública. Um deles relata inclusive ter sido questionado por mim se alguém na prefeitura adotava esse tipo de prática. Não tem nenhum agente privado ou delator que tenha feito referência à cobrança de propina, desvio, aditivo na máquina pública da prefeitura com a minha participação. Problemas aconteceram no governo. São públicos e notórios. Inclusive não era um quadro político. Era um quadro técnico. Eu assumo a responsabilidade por ter escolhido esse quadro técnico. E fico triste de não ter um sistema de controle ainda mais efetivo que permitisse detectar isso. Esse é um cuidado que eu quero reforçar ainda mais no governo do estado. No meu plano de governo, proponho mecanismos mais modernos e eficientes de combate à corrupção.
Folha – No debate, do SBT em 19 de setembro, um jornalista o questionou pela prisão de Alexandre Pinto e pelas acusações contra seus ex-secretários de Saúde Hans Dohmann e Daniel Soranz, por falta de fiscalização nos contratos com a OS Biotech, mesmo após o Tribunal de Contas do Município ter apontado indícios de fraude e superfaturamento. O senhor lavou as mãos no primeiro caso, mas defendeu com firmeza os outros dois acusados. Por que a diferença de atitude?
Paes – Eu não lavei as mãos em caso algum. O caso do Alexandre Pinto foi comprovado, houve uma confissão, e muito me entristece saber que tomou esse caminho, porque era um quadro técnico que eu considerava de qualidade. Meus secretários de saúde, diferentemente do que a pergunta aponta, não estão respondendo a qualquer denúncia criminal. Não há o que desabone a idoneidade de Daniel Soranz e Hans Dohmann. Imediatamente, quando houve a suspeita de fraude na OS, cancelaram os contratos e bloquearam os repasses de recursos. Hoje os donos da instituição estão presos e respondem aos danos causados. Eu pedi o afastamento imediato dos gestores e punição exemplar à quadrilha. A Biotech também foi descredenciada na SMS e desqualificada para não participar de outro chamamento público.
Folha – Líder em todas as pesquisas, sua presença parece estar garantida no segundo turno. Lá, nas simulações feitas nas últimas pesquisas Ibope e Datafolha, o senhor dá uma lavada em Garotinho: respectivamente, por 41% a 24% e 43% a 25%. Venceria também Romário, mas no empate técnico da margem de erro de três pontos para mais ou menos: 37% a 31% na Ibope, e 38% a 32%, na Datafolha. Por ter uma rejeição menor (22% contra seus 31% na Ibope, e 29% contra seus 34%, no Datafolha), o senador seria seu adversário mais difícil em 28 de outubro?
Paes – Não falo sobre pesquisa. Deixo a análise política para os analistas políticos. Eu não sou analista político. Eu faço campanha. Claro que fico feliz com pesquisa. Mas não visto salto alto quando é boa e nem me deprimo quando é ruim. Então sigo trabalhando, apresentando as minhas propostas para o estado. Discutindo, tentando mostrar na televisão, nos debates, nas entrevistas aquilo que a gente quer fazer pelo estado.
Folha – Na última terça (25), Pezão visitou as obras da Ponte da Integração, entre São João da Barra e São Francisco de Itabapoana. A despeito de todas as promessas dele, a ponte não será concluída em seu mandato. Compromete-se em fazê-lo no seu? Seria capaz de fixar prazo?
Paes – Essa ponte é fundamental para a economia do Norte Fluminense, pois além facilitar o escoamento da produção da fruticultura e das usinas de cana de açúcar, essa ligação ajudará a incrementar o turismo e outras atividades econômicas da região. Garanto que, no meu governo, não haverá obra parada, pois vou arrumar as finanças do Estado para investir fortemente em infraestrutura. Tenham certeza que a ponte de São João da Barra será uma das minhas prioridades na região.
Folha – O senhor tem dito que mesmo depois de encerrada a intervenção federal no Estado, com o Exército no comando da Segurança Pública, vai pedir ao próximo presidente que apoio das Forças Armadas continue. Qual a sua avaliação da intervenção? E o que mais pretender fazer para solucionar a explosão da criminalidade na capital e no interior fluminense?
Paes – Eu sempre digo que não tem essa de ser contra ou a favor da intervenção. Ela era necessária pelo momento atual do Rio. De certa maneira, havia uma falta de comando no estado e a intervenção acabou sendo necessária. Ela se encerra em 31 de dezembro, mas, se eleito, vou pedir ao próximo presidente que as Forças Armadas continuem trabalhando conosco sob uma nova estratégia de ação e sob o comando do governador. A Segurança Pública é o grande desafio que temos e a solução não vai ser a curto prazo, mas podemos ter resultados rápidos investindo no que é fundamental. Sou candidato a governador para cuidar da Segurança Pública. Será minha responsabilidade. Precisamos recuperar o nosso direito de ir e vir. Mas não tem solução mágica. Tem, sim, trabalho, esforço, planejamento, novos modelos de policiamento e gestão. Nossa prioridade será reduzir as mortes violentas e os roubos. Isso se faz com mais policiais nas ruas. Essa ausência de paz não é mais algo exclusivo da Região Metropolitana. Queremos reduzir a violência nas ruas de forma significativa já no primeiro ano de governo, implantando um novo modelo operacional para o patrulhamento territorial. Vamos criar os Centros de Operações Policiais (C.O.P.) para integrar as atividades das forças de segurança, coordenando a vigilância nas ruas, o patrulhamento tático-ostensivo e as atividades de investigação criminal. O estado do Rio tem hoje cerca de 44 mil policiais e muitos deles não estão nas ruas. Parte do efetivo está afastada, cedida ou em atividades administrativas. É preciso remanejar pessoal, aumentar o efetivo que faz o patrulhamento das ruas para reduzir os indicadores de roubos e de homicídios. Vamos instituir também a Força da Paz, uma força-tarefa de inteligência e operação integrada contra o Crime Organizado, com a participação da Polícia Civil, da Receita Federal e da Secretaria de Fazenda. O foco do trabalho é levantar e cruzar informações para asfixiar as fontes de financiamento do tráfico e da milícia. O maior investimento em inteligência vai nos permitir atuar de forma mais cirúrgica contra as organizações criminosas e com isso, evitar esse número absurdo de tiroteios nas comunidades. Tem muito policial, morador, gente inocente morrendo. Vamos restabelecer um sistema de corregedoria independente, coordenada com o Ministério Público e a Polícia Federal, para juntas atuarem no combate à corrupção policial e a Penitenciária.
Folha – Além da violência, o Estado do Rio vive também um quadro de insolvência financeira. O que pensa sobre o regime de recuperação fiscal firmado entre os governos Michel Temer e Pezão, ambos do MDB, seu ex-partido. Propõe algo diferente?
Paes – Recuperar as finanças do Estado é tão importante quanto resolver o problema de Segurança. Porque precisamos retomar urgentemente os serviços básicos para a população. É preciso fazer o chamado feijão com arroz, que é colocar a saúde e a educação para funcionarem, dar aos servidores as condições mínimas de trabalho. Um dos meus primeiros atos depois de eleito será procurar o presidente eleito e rediscutir o Regime de Recuperação Fiscal. Ele foi importantíssimo para que o Estado pudesse voltar a pagar os servidores em dia, garantir o mínimo de prestação de serviço, mas precisamos ajustar as contas, fazer o dever de casa, para depois poder repactuar, porque terminado o período do regime, a conta continuará muito alta. Só assim conseguiremos avançar. O governador que assume tem a obrigação de ajeitar as contas do estado. Eu vou ajeitar as contas do estado. Não vou ficar preso a acordo de recuperação fiscal. Ele era necessário porque o estado não cumpria com a sua obrigação. Então foi um puxão de orelha do governo federal. Uma situação momentânea, conjuntural, que a gente vai resolver.
Folha – A face mais cruel da falência financeira do Estado se dá sobre os servidores ativos e inativos. Qual o seu compromisso em honrar mensalmente esses vencimentos?
Paes – Vou recorrer à minha experiência à frente da prefeitura do Rio para responder essa. Quando assumi o município, o país também estava em crise. E na minha gestão arrumei a casa, saneei as contas da prefeitura, renegociei contratos, ampliei a arrecadação do município, fiz economia. Nos meus 8 anos de gestão paguei os funcionários em dia, até o segundo dia útil do mês. Honrei com 13º salário, adiantando parte dele no meio do ano. E ainda fiz com os servidores de cada secretaria acordos de resultados que, uma vez cumpridos, garantia um 14º salário ao servidor. No estado, quero adotar esse mesmo caminho. A gente tem que chegar e arrumar a casa. Tem espaço pra isso. Não estou dizendo que é simples. Mas tem caminho. Exige conhecimento, profissionalismo. Eu aprendi a cuidar das finanças, nesses anos de muita crise, a prefeitura manteve seus servidores em dia e a capacidade de investimento. Isso que a gente pretende fazer no governo do estado. Portanto, não vamos sacrificar o servidor pela incompetência do estado. Se for possível, ajeitando as contas do estado, quero dar aumento, reajustar servidor. Eu fiz isso na prefeitura, quando reajustava servidor anualmente, pelo menos pelo índice da inflação.
Folha – Outra face do caos financeiro se dá sobre o abandono da Uenf e do Colégio Agrícola Antônio Sarlo. No debate da Band, quando perguntados sobre a Uerj, apenas o senhor, Garotinho e Tarcísio lembraram que a Uenf também existe. O que planeja para a mais importante instituição de ensino superior da região?
Paes – Já visitei a Uenf nesta campanha e me reuni com seus diretores. Na ocasião, firmei compromisso de, se eleito, garantir os repasses constitucionais de recursos, os duodécimos, tanto para a Uenf como para a Uezo e a Uerj. Me comprometi ainda a garantir recursos à Faperj. Eu considero que as universidades podem ser importantes aliadas na recuperação econômica do Rio, por serem berço de inovação do conhecimento e de geração de novas vocações econômicas. A Uenf tem um papel fundamental no desenvolvimento do estado. Para mudar a matriz econômica, o estado do Rio tem que encontrar vocações que vão além da matriz óleo e gás, que tenham a ver com a sociedade do conhecimento, com a inovação, com a pesquisa. A universidade cumpre com esse papel fundamental. Então eu assumi um compromisso com o reitor e os docentes de que nós vamos ajeitar as contas do estado e viabilizar os recursos necessários: não só os 2% para pesquisa da Faperj, como também garantir os duodécimos para as universidades. Elas não podem ficar reféns da má gestão e da incompetência do governo. Eu vivi uma experiência interessante como vice-presidente para a América Latina de uma empresa chinesa de novas energias, que começou a partir de uma universidade, onde um químico desenvolveu um novo modelo de bateria e hoje é a maior fabricante de veículos elétricos do mundo. A partir da inovação e pesquisa, de uma experiência universitária, dei o exemplo da China que começa a acertar em inovação. Olhe para a Califórnia, nos EUA. A economia daquele estado é só conhecimento, inovação. Tem indústria, mas o grande ativo, quando se olha para a economia do estado da Califórnia, é isso. E eu acho que essa é vocação do Rio. A gente tem o estado mais educado do Brasil. O capital humano fantástico e é a segunda economia do país e localização excepcional.
Folha – Quais são seus planos para Porto do Açu na questão do desenvolvimento do Norte Fluminense?
Paes – O porto do Açu é um empreendimento fantástico, enorme, que vai gerar muito emprego, e que precisa ter sua ligação com a malha ferroviária do Sudeste. É necessário que o próximo governador negocie com o governo federal a concessão de uma ferrovia que atenda o escoamento de produção do Porto do Açu. O governo federal está renovando concessões de ferrovias. E essa outorga a gente tem que puxar para essa ligação ferroviária, para não ir para outras prioridades. E nessa hora a força política conta. Por isso defendo a eleição de senadores com grande capacidade de articulação política, para que possamos atrair recursos e oportunidades para o Rio. O momento não é para amadores e nem para gente que não esteja comprometida com o desenvolvimento do estado.
Folha – Com sua foz em Atafona assoreada, o rio Paraíba do Sul sofre em período de estiagem. Há registro de língua salina já no distrito de Barcelos. Há vida para Campos, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana sem o rio que os formou? Como recuperá-lo?
Paes – A localidade sofre com um problema grave de erosão. É preciso fazer um estudo hidráulico da região, que é uma área muito importante. A partir de um projeto executivo detalhado, vamos buscar recursos, seja estadual ou federal, para que este problema possa ser definitivamente resolvido.
Folha – O que Campos, Norte e Noroeste Fluminense devem esperar de Eduardo Paes governador?
Paes – Eu considero Campos a segunda Capital do estado, por sua importância econômica, política e social. Nesta campanha, já visitei inúmeras vezes a região, onde reafirmei o compromisso com a recuperação das finanças do estado, cuja crise se faz sentir de forma mais dramática no Interior do Rio. Me comprometi ainda com a retomada do desenvolvimento econômico do Norte e Noroeste fluminense e dos serviços básicos de Saúde, Educação e Segurança Pública da região. Vamos trabalhar junto com as prefeituras locais para resgatar os serviços à população. Faço questão de afirmar o meu compromisso com o Interior. O governo do estado é muito mais importante para as cidades do Interior. Nós vamos botar a máquina do estado para funcionar e ajudar as prefeituras a atender a população. A gente precisa de gestão. Gosto de andar por aí. Eu sou um cara feliz governando. O desafio não me assusta. Os problemas não me assustam. Eu acordo com disposição e orgulho e eu vou caminhar muito por aqui. Vocês vão ter um governador presente, que vai ajudar muito o Interior. O Norte Fluminense é muito forte, a nossa indústria do óleo e gás tem um papel fundamental a cumprir, mas precisa ter mais apoio do governo do estado e ter suas vocações econômicas ainda mais desenvolvidas. O Norte Fluminense é uma joia de nossa coroa. É uma área do estado muito forte, com um potencial econômico enorme e que precisa se desenvolver para que a gente possa gerar emprego. Precisamos ainda melhorar as condições para que o produtor rural possa trabalhar. Temos que melhorar as condições de infraestrutura e logística, recuperar as estradas, que estão em péssimas condições. A gente não precisa aceitar certas coisas como estão. E essa indignação, além da certeza do que a gente é capaz de fazer, que me move a disputar essa eleição.