Alexandre Buchaul — Quem somos nós?

Escreveria hoje sobre o teatro político eleitoral, a última semana fora repleta de lances interessantes, tivemos as entrevistas dos cinco presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas pela dupla de apresentadores do Jornal Nacional na Rede Globo. Houve, a deveras esperada, decisão do TSE quanto a pitoresca candidatura do Lula (agora negada inclusive sua participação na publicidade). Na Folha da Manhã tivemos entrevistas de presidenciáveis e candidatos a governador, além de perguntas sem resposta que deveriam, ao menos, fazer com que pensasse o eleitor. Afinal, quem, enquanto candidato, não se digna a responder nossas questões, tão pouco o fará se eleito. Entretanto me pego cabisbaixo pela tragédia do Museu Nacional, consumido em chamas.

O desrespeito a nossa história vai além da escrita tendenciosa de quem se arvora o direito de interpretar fatos, como se fossem apenas ficção, para atender a fetiches ideológicos. O pragmatismo da lógica econômica já fez ruir muito de nosso patrimônio arquitetônico e com ele se tornam em entulhos bocados inestimáveis de história. Campos dos Goytacazes, rica em passado, destrói sua memória como se não houvesse futuro. Casarios e solares vêm abaixo pela inércia do poder público aliada a conduta criminosa de alguns proprietários. De prédios que vem abaixo pelo péssimo estado de conservação, vide Hotel Flávio, até aqueles que são derrubados na calada da noite ou nos finais de semana como o Clube do Chacrinha, na esquina das avenidas Treze de Maio e Saldanha Marinho.

Há algum tempo se consumia o Museu da Língua Portuguesa. No domingo foi a vez do Museu Nacional. Quanto de nós mesmos não se perde a cada lasca de história que rui, queima ou se apaga como se jamais tivesse existido?

O futuro se constrói no presente, sobre os alicerces do passado. Sem saber quem somos, não saberemos quem seremos. E como diz o Gato em Alice no País das Maravilhas: “Para quem não sabe aonde quer ir, todos os caminhos servem”. Mesmo os que levam ao desastre.

Conhecer nossa história é essencial para entender quem somos e projetar nosso futuro. Lamento as perdas inestimáveis que sofremos com essas destruições e ainda mais que tais preocupações passem longe do debate político. Líderes que não tem consciência de nossa vocação histórica, que desconhecem o povo que somos e não possuem visão da nação que podemos nos tornar são como cegos querendo ser guias dos demais.

 

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Fogo do Museu Nacional consumiu Luzia e pode queimar mais gente

 

 

Charhe do José Renato publicada hoje (04) na Folha

 

Museu Nacional

Talvez nada exemplifique melhor a decadência do Brasil do que incêndio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, Zona Norte do Rio, entre domingo e segunda. A perda não se restringiu ao patrimônio arquitetônico da antiga residência da família imperial e palco da primeira Constituinte da República. O acervo histórico, antropológico, paleontológico e linguístico consumido pelas chamas jamais será recuperado. Duzentos anos de trabalhos e pesquisas foram transformados em cinzas. Que, como tudo mais no país, serviram de combustível para “coxinhas” e “mortadelas” arderem suas vaidades na fogueira das redes sociais.

 

Mudará?

As causas do fogo ainda não foram definidas. Mas é absurdo se culpar uma reitoria “aparelhada” da UFRJ, responsável pela manutenção do Museu, toda composta por filiados do Psol, PCdoB e PCB. O abandono da instituição era a tônica na administração Michel Temer (MDB). Como foi nos 13 anos anteriores em que o PT comandou o país. Ou antes, nos oito anos da gestão tucana de Fernando Henrique Cardoso. E, se não fosse o incêndio, alguém arriscaria a mão ao fogo para garantir que algo mudaria no próximo governo? Mudará, independente de quem for eleito presidente no próximo mês?

 

O inferno

Em 2004, então secretário estadual de Energia e Indústria Naval, Wagner Victer disse: “O Museu Nacional vai pegar fogo. São fiações expostas, mal conservadas, uma situação de total irresponsabilidade”. A profecia se cumpriu 14 anos depois. Hoje, simbolicamente, Victer é secretário estadual de Educação. A tragédia foi fruto do abandono que se repete em prédios históricos de todo o país, inclusive Campos, como evidencia a Folha Dois desta edição. A responsabilidade não é só do governo, em suas três esferas. É de cada um que assiste passivo para depois querer protestar. O inferno que ardeu no Museu Nacional não são os outros.

 

Extinção de Luzia

Na semana em que o Brasil comemora seus 196 anos de independência, do prédio que abrigou também a assinatura da proclamação de independência, ficou apenas a fachada. Cerca de 90% do acervo do Museu Nacional foi destruído pelas chamas. Entre os poucos sobreviventes, está o meteoro de Bendegó, maior já encontrado no país. Do que foi perdido, está o crânio de “Luzia”, registro fóssil humano mais antigo da América, datado de 12,5 mil a 13 mil anos atrás. Encontrado em Minas Gerais, pertenceu a uma mulher entre 20 a 24 anos. E foi preservado por 130 séculos, até encontrar sua extinção definitiva entre nós.

 

Bolsonaro lidera

Na esperança de que algo possa mudar no país, foi divulgada ontem a primeira pesquisa presidencial após o início da propaganda eleitoral gratuita em TV e rádio, e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) impugnar a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Pelo BTG Pactual, o instituto FSB ouviu 2 mil pessoas por telefone, entre os dias 1 e 2 deste mês. Comparando com a consulta anterior FSB/BTG, feita em 25 e 26 de agosto, Jair Bolsonaro (PSL) não só continua liderando, como cresceu. Na estimulada, ainda que dentro da margem de erro de dois pontos para mais ou menos, ele foi de 24% para 26% das intenções de voto.

 

Ciro, Marina e Alckmin

Na comparação entre as duas pesquisas do mesmo instituto, a grande novidade aconteceu na segunda colocação. Ela passou a ser ocupada por Ciro Gomes (PDT), que pulou de 8% para 12%. Ainda que no empate técnico, o cearense passou Marina Silva (Rede), que caiu de 15% para 11%. Pela margem de erro, Geraldo Alckmin (PSDB) também está no mesmo bolo, mas patinou com pequena queda: foi de 9% para 8%. Substituto de Lula, Fernando Haddad (PT) teve leve crescimento: de 5% para 6%. João Amoêdo (Novo) manteve os mesmos 4%, assim como Álvaro Dias (Pode) repetiu seus 3%.

 

Mudança para onde?

Algumas tendências carecem de confirmação com entrevista de rua, sem vantagem ao último nome citado, como é inevitável na consulta estimulada ao telefone. Se Ciro tiver mesmo passado Marina, será a primeira vez em dois anos de pesquisas. Por outro lado, se a campanha agressiva de Alckmin contra Bolsonaro for um tiro pela culatra, a preocupação pode ser maior, após a reação do filho do ex-capitão. Deputado federal, Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) respondeu ao tucano no Twitter: “Vamos mudar o Brasil, nem que seja na bala”. Se esta for a mudança que o país busca, o fogo que consumiu Luzia pode ainda queimar muito mais gente.

 

Publicado hoje (04) na Folha da Manhã

 

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Paes, Garotinho e Tarcísio sobem. Romário e Indio caem. Rejeição define

 

 

 

Paes e Garotinho sobem, Romário cai

Na matéria da página anterior desta edição, estão publicados os números da última pesquisa a governador do Rio. Divulgada ontem (31), foi feita pelo instituto Paraná, com 1.860 eleitores de 46 municípios, entre os dias 25 e 30 de agosto. Em empate técnico na margem de erro de 2,5 pontos percentuais para mais ou menos, lideram Romário Faria (Pode), com 18,3%; Eduardo Paes (MDB), com 17,3%; e Anthony Garotinho (PRP), com 14,5%. Comparadas com as pesquisas de maio e junho do mesmo instituto, Romário está em queda: vinha de 24,8% e 24,3%. E Paes (vindo de 13,5% e 15,1%) e Garotinho (11,2% e 13,5%) em ascensão.

 

Diferenças e semelhança

Após o fraco desempenho no debate da Band, dia 16, Romário fugiu da sabatina do dia 28, do jornal O Globo. E o resultado parece não ter sido bom. Com mais cancha nesse jogo, Paes e Garotinho foram aos dois, se atacando em ambos. A diferença é que o ex-prefeito do Rio, pela ligação com o ex-governador Sérgio Cabral (MDB), sofre ataque também dos demais adversários. Menos visado, o ex-prefeito de Campos tem penado, além de Paes, apenas com Tarcísio Motta (Psol). Este repetiu, em entrevista exclusiva à Folha, o que pensa sobre Romário, Paes e Garotinho: “todos, de uma forma ou de outra, se aliaram à máfia do Cabral”.

 

Tarcísio sobe, Indio cai

Tarcísio ainda está no bloco de baixo pela disputa ao Palácio Guanabara: em quinto lugar, com 4,4%. Apesar de estarem todos embolados no empate técnico da pesquisa Paraná, quem puxa o pelotão em quarto ainda é Indio da Costa (PSD), que teve 5,5%. Depois dele e do candidato do Psol, vieram: Pedro Fernandes (PDT), com 2,6%; Wilson Witzel (PSC), 2,3%; e Marcelo Trindade (Novo) e Márcia Tiburi (PT), ambos com 1,7%. Também comparado com as pesquisas do mesmo instituto de maio e junho, Tarcísio está em ascensão: vinha de 3,0% e 3,8%. Vindo de 8,2% e 7,2%, Indio está em queda franca, enquanto os demais estão estagnados.

 

Motivos

Não é novidade a nenhum eleitor a ligação de Cabral com Paes. Mas o fato de que Tarcísio foi até agora o único a corretamente estender esse ônus também a Romário e Garotinho, pode ser o motivo da sua ascensão. Além, lógico, do seu bom desempenho nos debate. Por outro lado, o fato de ter feito escada para Garotinho bater em Paes no debate da Band — denunciada pelo ex-prefeito do Rio como jogada arquitetada por seu sucessor, Marcelo Crivella (PRB) —, parece ser a causa da queda de Índio. No debate de O Globo, ele até tentou também agredir o político de Campos. Mas recebeu deste um aviso velado e se encolheu.

 

Motivo

Já a desidratação contínua de Romário parece não ter muito mistério. Em qualquer frase que precise articular como candidato, expondo seu desconforto na quantidade de vezes em que molha com a língua os lábios secos, ele expõe desenvoltura oposta à que desfilava nos campos — onde se consagrou como um dos maiores atacantes da história do futebol mundial. A experiência administrativa e política que Paes e Garotinho acumularam ao longo dos anos, mesmo quando passível de críticas, dão a ambos grande vantagem no contraste com o ex-craque. Já nas suspeitas que pesam sobre os três, a disputa indica outro “empate técnico”.

 

Na Justiça

Paes teve seu ex-secretário de Obras, Alexandre Pinto, preso pela Lava Jato. Ele foi solto, ao que tudo indica, após contar o que sabe em delação. As consequências parecem esperar a urna, para nelas não interferirem. Garotinho foi preso três vezes ano passado: duas pela troca de Cheque-Cidadão por voto, uma pela denúncia de extorsão de empreiteiros com emprego de arma de fogo. Sem contar sua condenação pelo desvio de R$ 234,4 milhões da Saúde no governo estadual Rosinha, que gerou pedido de impugnação da sua candidatura. Por sua vez, Romário é acusado de ocultar patrimônio para não pagar dívidas em torno de R$ 20 milhões.

 

Na rejeição

Ainda assim, Romário, Paes e Garotinho lideram as intenções de voto. Nelas, a tendência de queda do primeiro e de ascensão dos outros dois parece atender ao desejo da candidatura do DEM. Por conta da sua imensa rejeição, Garotinho é uma espécie de Jair Bolsonaro (PSL) estadual: forte no primeiro turno e fácil de ser batido no segundo. Na Paraná, o campista liderou a rejeição: 69,9%. Assim como ficou à frente no índice negativo da última pesquisa Ibope: 55%. No pleito a governador de 2014, Garotinho não foi nem ao segundo turno. E chegou à urna também liderando a rejeição pelo Ibope: 40%. São 15 pontos a menos do que tem hoje.

 

Publicado hoje (01) na Folha da Manhã

 

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Tarcísio Motta traz propostas para Uenf, Porto do Açu e Paraíba. E faz críticas

 

Por Aldir Sales e Aluysio Abreu Barbosa

Pleito antigo da Uenf, sua autonomia financeira está entre as propostas de Tarcísio Motta, candidato do Psol a governador do Rio. Se eleito, garantiu nesta entrevista que 6% da receita fluminense serão destinados às universidades estaduais. Ele planeja preservar o rio Paraíba do Sul, investindo na captação de água alternativa dos municípios da sua bacia. Tarcísio também fez críticas ao projeto inicial do Porto do Açu — “um delírio absolutamente irresponsável” — e aos adversários que lideram as pesquisas. Sobre Eduardo Paes (DEM), Romário Faria (Pode) e Anthony Garotinho (PRP), frisou: “todos, de uma forma ou de outra, se aliaram à máfia do Cabral”. O candidato defendeu o polêmico governo do Psol no município vizinho de Itaocara.

 

 

Folha da manhã – Perto de Campos, no município de Itaocara, foi eleito em 2012 o primeiro prefeito do Psol no país. Mas Gelsimar Gonzaga teve um governo conturbado. Chegou a ser afastado pela Câmara Municipal, teve o registro indeferido pelo TRE, na tentativa frustrada de reeleição em 2016, e acabou condenado por abuso de poder político e econômico. Que balanço o partido fez da experiência?

Tarcísio Motta – O companheiro Gelsimar foi afastado por ter enfrentado os poderosos de Itaocara, que nunca se conformaram de um ex-cortador de cana, ex-sindicalista, eleger-se prefeito e lutar contra o fisiologismo, tentando mudar a forma de fazer política no município. No dia da votação de seu afastamento, houve uma grande mobilização contra a cassação na cidade e na Câmara de Vereadores, porque o povo reconhece os avanços.Valorizamos o funcionalismo público e melhoramos os indicadores sociais. Buscamos desde o primeiro dia fortalecer a participação popular. Diversos secretários foram escolhidos por eleição direta. Mesmo com toda a adversidade, achamos que ali estavam presentes algumas pistas importantes de como construir um novo modo de governar.

 

Folha – A esquerda fluminense veio com quatro candidatos a governador: o senhor, Marcia Tiburi (PT), Pedro Fernandes (PDT) e Dayse Oliveira (PSTU). Velho pecado da esquerda brasileira, a divisão não deveria ser evitada, sobretudo em meio à onda conservadora no país?

Tarcísio – A necessária unidade no enfrentamento a essa onda conservadora não implica necessariamente em coligações eleitorais. Nossas alianças eleitorais são programáticas. Temos muito orgulho de estar disputando essa eleição ao lado do PCB, do MTST, do PCR, e tantos outros movimentos sociais. Não fazemos alianças simplesmente para obter mais tempo de televisão. É preciso haver convergência no programa. De qualquer forma, o fato de haver diversas candidaturas do campo progressista disputando o pleito não significa que o eleitorado irá se dividir. Nossa campanha não para de crescer. Acredito que na hora do voto os eleitores do campo progressista irão se unir em torno da nossa candidatura para garantir um representante da esquerda no segundo turno.

 

Folha – Inegável que tanto o senhor, quanto o candidato a presidente do Psol, Guilherme Boulos, passaram a adotar um discurso contra a corrupção e até alguns privilégios do setor público. Pelas beiradas, para não tropeçar na prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas não é uma maneira de pegar carona na aprovação popular à operação Lava Jato?

Tarcísio – Tenho críticas à Lava Jato, em especial à forma como garantias constitucionais estão sendo flexibilizadas ou mesmo ignoradas em determinados casos. A luta contra a corrupção é decisiva, porém, ela não pode servir como desculpa para enfraquecermos as instituições democráticas que preservam o devido processo legal. Mas nosso discurso contra corrupção e privilégios nunca foi feito “pelas beiradas”. Pelo contrário: é incisivo. E não ficamos só no discurso, denunciamos aos órgãos de controle o que identificamos como irregular na gestão pública. Em um ano e meio de mandato na Câmara do Rio, por exemplo, entreguei ao Ministério Público análises e documentos que provam que o poder público age em conluio com empresários de ônibus, deixando as tarifas do transporte mais caras para aumentar os lucros indevidos a esses empresários. Foi mais de R$ 3,6 bilhões. E nada disso foi feito de forma tímida, “pelas beiradas”: investigamos, conseguimos provas, fizemos reuniões abertas convocando a imprensa, nos reunimos com Tribunal de Contas, Ministério Público, divulgamos em todos os canais de comunicação possível, inclusive grandes emissoras de TV, democratizando as informações e nossa opinião. Derrotar a máfia da velha política que levou o Estado do Rio para o buraco é uma das nossas missões.

 

Folha – Em 2016, o filósofo Pablo Ortellado, da USP, publicou o artigo “É possível falar de corrupção a partir da esquerda?”. Em entrevistas anteriores, a Folha perguntou (aqui) a Boulos, formado na USP, e (aqui) ao deputado Chico Alencar, candidato do Psol ao Senado, se era possível. O primeiro tergiversou. Mas o segundo admitiu ter lido e disse ser possível. E para o senhor?

Tarcísio – A corrupção precisa ser enfrentada como um problema sistêmico e não tratada como uma patologia individual. Não adianta culpar o rei quando o problema é o trono. A corrupção é uma forma de governar, sem transparência pública, sem participação popular. A corrupção é inimiga da democracia. Onde tem transparência e participação, a fiscalização é feita pelas pessoas e assim combatemos a corrupção. Nós defendemos o fortalecimento da democracia na gestão do governo. Vamos derrotar a velha política do toma-lá-dá-cá mudando tanto o conteúdo quanto a forma de governar. Pra nós, governar é defender os direitos do povo, e não cuidar do privilégio de meia-dúzia. Governando pro povo, e não pra panelinha, o Rio tem jeito.

 

Folha – O senhor foi considerado por muitos o melhor no debate da Band, dia 16. Enquanto candidatos como Garotinho e Eduardo Paes (DEM) se atacaram, um ponto positivo foi a sua solidariedade a Pedro Fernandes, que teve o pai desaparecido em acidente aéreo. Falta essa humanização à política de um país cindido entre “coxinhas” e “mortadelas”?

Tarcísio – Os debates entre candidatos transmitidos pelas emissoras de TV são muito importantes para que os eleitores conheçam as propostas dos candidatos de forma igualitária, já que todos têm o mesmo tempo para expor suas ideias e propostas. É, sem dúvida, um momento de disputa, em que cada um quer comunicar ao expectador aquilo que acredita ser a melhor opção. Mas não podemos esquecer que, antes de sermos adversários políticos, somos seres humanos, e a solidariedade não deve ser abandonada em nome de divergências. Não posso dizer, de forma generalizada, que falta humanização na política. Mas posso falar que me esforço a cada dia para ser um ser humano melhor.

 

Folha – Também entrevistado por este jornal, o candidato Indio da Costa (PSD), mesmo de perfil liberal, elogiou (aqui) as suas virtudes. Em conversas reservadas, outros candidatos admitem o seu potencial de crescimento. Pela Datafolha, ainda que em empate técnico, o senhor passou Indio: 5% a 3%. Dá para ameaçar os líderes Paes, Romário e Garotinho?

Tarcísio – Nossa eleição é pra valer. Acreditamos que é possível tirar o Estado do Rio do buraco se enfrentarmos essa lógica do toma-lá-dá-cá a que esses políticos estão acostumados. Portanto, seguiremos na campanha para continuar aumentando nossas intenções de voto. Na medida em que as pessoas vão conhecendo nossas propostas, reconhecem que se trata de uma candidatura séria e capaz de enfrentar os problemas do Estado.

 

Folha – O senhor também fez críticas na sua última fala no debate da Band. Sobre Paes: “é cria do Cabral”. Romário: “foi bom de bola, mas votou contra o interesse do trabalhador”. Garotinho: “fez a mesma coisa (que Sérgio Cabral) quando foi governador”. Em seu entender, qual deles representaria o maior retrocesso?

Tarcísio – Que pergunta difícil! [risos] Não consigo escolher um “campeão” no ranking do retrocesso. Os três são páreo duro no quesito “retirada de direitos”. Todos, de uma forma ou de outra, se aliaram à máfia do Cabral que levou o Rio para o buraco.

 

Folha – A Segurança Pública, sob intervenção militar do governo federal, é hoje um dos principais problemas do Estado do Rio. As execuções da vereadora Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março, estão ainda hoje impunes. Ironicamente, o problema é uma das principais bandeiras de um presidenciável como Jair Bolsonaro (PSL). Há solução? Como?

Tarcísio – Não vamos insistir nessa política de segurança falida, que trata a favela como território inimigo e mata pobre todo o dia. Esse modelo não gera segurança. Pelo contrário, gera medo, violência e sofrimento, em especial para a juventude negra que está sendo exterminada. E isso a um custo enorme para os cofres públicos. Só na ocupação da Maré em 2014 foram gastos R$ 600 milhões. E a previsão de gastos para a intervenção esse ano ultrapassa a marca de R$1 bilhão. É preciso mudar o modelo como um todo. Vamos modernizar a gestão, integrar os diferentes órgãos de segurança e priorizar o combate ao tráfico de armas. Os agentes de segurança serão ouvidos e, junto com eles, vamos melhorar suas condições de trabalho. Queremos valorizar o salário dos servidores e garantir planos de carreira dignos. Além disso, vamos aprimorar o controle externo e fazer uma limpa nas instituições para retirar das ruas os agentes envolvidos com grupos criminosos. Nosso objetivo será reduzir os índices de violência, em especial, homicídios e estupros, e construir uma rede pública de apoio, acolhimento e denúncia para familiares e vítimas.

 

Folha – Além da violência, o Estado do Rio vive também um quadro de insolvência financeira. Sobre o regime de recuperação fiscal firmado entre os governos Michel Temer e Luiz Fernando Pezão, o senhor já disse: “não foi socorro, foi agiotagem”. O que propõe?

Tarcísio – Vamos revisar o Regime de Recuperação Fiscal. Faço questão de repetir aqui: o que o governo Temer fez com o Estado do Rio foi agiotagem. Ele simplesmente empurrou a dívida para o próximo governador cobrando juros escandalosos. Isso não é um plano de recuperação. Isso é suicídio fiscal. E não será com cortes na saúde e na educação que vamos conseguir sair do buraco que a máfia do MDB nos enfiou. Precisamos rejeitar as políticas de austeridade fiscal que retiram direitos da população e recuperar as finanças do Governo do Estado investindo na diversificação da matriz econômica, incentivando o adensamento das cadeias produtivas e induzindo a retomada da atividade para ampliar a arrecadação. Além disso, vamos renegociar a dívida do Rio com a União, auditar os contratos, reestruturar a política de isenção fiscal, otimizar o uso dos recursos públicos e garantir a integração dos órgãos estatais de forma que a as ações de governo sejam mais eficientes.

 

Folha – A face mais cruel da falência financeira do Estado se dá sobre os servidores ativos e inativos. Qual o seu compromisso em honrar mensalmente esses vencimentos?

Tarcísio – Nós vamos garantir o pagamento integral e em dia dos vencimentos dos servidores, aposentados e pensionistas. Nenhum servidor, ativo ou inativo vai ficar sem seu dinheiro. Sou professor de escola pública e posso garantir que a valorização do servidor público é uma das nossas principais bandeiras. Somente assim iremos melhorar a qualidade dos serviços públicos e garantir os direitos da população.

 

Folha – Outra face do caos financeiro se dá sobre o abandono da Uenf e do Colégio Agrícola Antônio Sarlo. No debate da Band, quando perguntados sobre a Uerj, apenas o senhor, Paes e Garotinho lembraram que a Uenf existe. O que pretende fazer para que a instituição de ensino superior da região continue a existir?

Tarcísio – A Uenf, assim como Uerj, Uezo e os Institutos Superiores de Educação precisam ser valorizados como importantes centros de formação, pesquisa e inovação. A rede pública de ensino superior do Estado deve servir como um vetor de desenvolvimento estratégico que pode, inclusive, nos ajudar a sair da crise e elaborar soluções criativas para resolver os problemas de desemprego no Rio. Nossa principal medida será garantir autonomia financeira para as universidades estaduais, com a ampliação dos recursos públicos reservados ao ensino, à pesquisa e a programas de extensão, destinando, desde o primeiro ano, 6% da receita do Governo do Estado para as universidades estaduais. Além disso, vamos garantir instalações e equipamentos adequados nas unidades da rede. E vamos expandir o ensino superior estadual público para o interior, garantindo a qualidade da educação, a integração entre ensino, pesquisa e extensão e a ampliação da oferta de vagas em cada região do Estado.

 

Folha – Quais são seus planos para Porto do Açu na questão do desenvolvimento específico do Norte Fluminense?

Tarcísio – Antes de mais nada, precisamos garantir os direitos das centenas de famílias de agricultores familiares e pescadores artesanais no V Distrito do município de São João da Barra que foram removidas para o distrito industrial do empreendimento se tornar uma realidade. O projeto inicial do Porto do Açu foi um delírio absolutamente irresponsável. Mas não será com cortes em investimentos que iremos sair do buraco que a máfia do MDB nos enfiou. Pelo contrário, precisamos investir em setores altamente empregadores, como a indústria portuária, para conseguir sair da crise. Vamos criar um plano estratégico para o setor de minério, óleo e gás no Estado do Rio. Queremos redimensionar a política de adensamento dessa cadeia produtiva no Estado e reduzir os impactos socioambientais dos projetos. Nos últimos anos, o Rio aprofundou a sua dependência em indústrias extrativistas como petróleo e gás. Isso é muito preocupante. Temos que reverter esse quadro buscando soluções economicamente criativas e ambientalmente sustentáveis. Vamos implementar planos regionais de desenvolvimento social em cada região do Estado, considerando o meio ambiente, as culturas locais, a soberania alimentar e a tradição de cada localidade. Nosso objetivo será diversificar a economia, garantir justiça socioambiental e incentivar a inovação. No caso do Norte Fluminense, a agricultura familiar será prioridade: vamos realizar reforma agrária para democratizar o acesso à terra, garantir regularização fundiária para viabilizar o acesso à linha de crédito e isentar a cesta básica de impostos para tornar a comida mais barata. Além disso, vamos investir em obras de construção civil nas áreas de mobilidade urbana e saneamento ambiental para qualificar a infraestrutura das cidades da região, destinando vagas de trabalho para os moradores locais e transformando, assim, os investimentos em obras em uma política de distribuição de renda. 

 

Folha – Com sua foz em Atafona assoreada, o rio Paraíba do Sul sofre bastante em tempo de estiagem. Há registro de língua salina já em Barcelos. Há vida para Campos, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana sem o rio que as formou? Como recuperá-lo?

Tarcísio – É preciso investir na recuperação de manguezais, restingas e matas de encosta e implementar os planos de preservação elaborados pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Médio Paraíba do Sul. Além de construir novas redes de coleta e estações de tratamento de esgoto nas cidades do entorno do Rio Paraíba do Sul e seus afluentes, como Volta Redonda e Barra Mansa: os municípios do Sul do Estado despejam mais de 120 milhões de litros de esgoto in natura por dia no rio. Mas nada disso será suficiente se não enfrentarmos os problemas estruturais relativos ao consumo de água na região, que não foi ampliado adequadamente e continua calcado apenas no aumento da captação da água do rio. Além do desastre natural que representa a superexploração do Paraíba do Sul, a falta de planejamento no abastecimento de água de regiões com grande crescimento econômico e demográfico é uma irresponsabilidade absurda dos últimos governos. O rio não pode continuar sendo a única fonte de abastecimento dessas regiões.

 

Folha – O que Campos, Norte e Noroeste Fluminense devem esperar de Tarcísio governador?

Tarcísio – Nosso programa engloba uma série de ações que irão melhorar a qualidade de vida dessas regiões. Nossas prioridades são reduzir o custo de vida, promover trabalho digno e distribuição de renda para diminuir a desigualdade social, melhorar a qualidade dos serviços públicos para garantir direitos, preservar o meio ambiente e defender a igualdade de todas e todos. Para resolver os problemas na segurança, vamos combater o tráfico de armas, reformar a polícia e investir em inteligência e prevenção, substituindo a lógica do confronto pela investigação. Para superar a crise econômica, vamos reduzir o preço da passagem dos transportes, diminuir o custo com moradia, tornar a comida mais barata e investir em obras que geram emprego, aumentam a infraestrutura das cidades e melhoram a vida das pessoas. O Rio tem jeito, mas não é o das máfias.

 

Página 2 da edição de hoje (01) da Folha

 

Publicado hoje (01) na Folha da Manhã

 

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Ciro, Bolsonaro, Alckmin, Marina e Globo na berlinda. Lula hoje no TSE

 

 

Sabatinas do JN

Depois de Ciro Gomes (PDT), na segunda, e Jair Bolsonaro (PSL) na terça, quarta e ontem foram os dias do Jornal Nacional sabatinar, respectivamente, Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede). A ordem foi definida por sorteio entre os cinco candidatos mais bem colocados na última pesquisa Datafolha. Primeiro colocado em todas, mas preso desde 7 de abril pela Lava Jato e proibido pela Justiça de dar entrevistas, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva (PT) não pôde participar.

 

Alckmin

A coluna já tratou (aqui e aqui) das entrevistas de Ciro e Bolsonaro. Sempre cobrado por seu destempero, o cearense foi contido. Já o ex-capitão do Exército pareceu à vontade com a pauta politicamente correta que lhe foi mais uma vez oferecida. Por sua vez, Alckmin foi equilibrado e insosso como sempre. Justificou o apelido “Picolé de Chuchu”, cunhado pelo jornalista José Simão há 16 anos. Ainda assim, mostrou mais uma vez ser um candidato muito mais preparado do que Bolsonaro, com quem disputa os numerosos votos do antipetismo. O problema é que o tucano está atrás do adversário nas pesquisas até em São Paulo, que governou quatro vezes.

 

Erro primário

Se já tinha sido criticado pelas perguntas previsíveis a Bolsonaro, foi com Alckmin que o Jornal Nacional cometeu seu maior erro. Renata Vasconcellos afirmou que o tucano estaria sendo apoiado pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello, numa aliança com a legenda deste: o PTC. Alckmin a desmentiu no ato. E foi até educado ao revelar o erro primário de checagem na pauta do mais popular programa jornalístico da TV brasileira. Na verdade, o partido de Collor apoia Álvaro Dias (Pode) a presidente. Se fosse com Bolsonaro, este poderia especular que Renata ganha menos que William Bonner não pelo gênero, mas por ser falha como jornalista.

 

Marina

Após tantos equívocos, ontem foi a vez do Jornal Nacional fechar sua série de entrevistas com Marina. Como Ciro e Alckmin, seu desempenho foi morno. Ainda assim, a candidata da Rede não deixou de observar a incoerência da pauta: começou lhe cobrando liderança e capacidade de aglutinar, para ter condições de governar se eleita, e depois passou a questionar as alianças estaduais do seu partido. Diferente das demais sabatinas, Bonner e Renata pareceram menos à vontade para interromper Marina, talvez pelo fato de ser uma mulher. Se foi, seria mais um fruto do politicamente correto que já tinha rolado a bola a Bolsonaro na terça.

 

“Besta-fera”

Antes da entrevista de Marina, um experiente jornalista publicou ontem, na revista Veja, artigo (aqui) sobre a atitude dos colegas da Globo. José Roberto Guzzo escreveu: “As cruzadas da mídia fazem parte do problema. Dezenas de milhões de cidadãos se sentem agredidos, há anos, por uma visão da sociedade, da política e da vida que afronta diretamente os seus valores e convicções. Acabaram achando que a defesa do seu mundo depende das posturas mais extremadas que circulam na praça. A besta-fera do radicalismo, que tanto assusta hoje, estava apenas hibernando. Tiraram o bicho da toca e agora fica complicado se livrar dele”.

 

Lula hoje?

Hoje à noite começa a propaganda eleitoral em TV e rádio, com os candidatos a governador. Amanhã, estreiam os presidenciáveis. Também hoje, às 14h30, haverá sessão extraordinária no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ministro relator dos pedidos de liminar para que Lula não participe da campanha e das ações de impugnação da sua candidatura, Luís Roberto Barroso está inclinado a levar as questões ao plenário. Virtualmente inelegível pela Lei da Ficha Limpa que aprovou quando presidente, o prazo para defesa de Lula se encerrou às 23h59 de ontem. A definição pode ser hoje. A ver…

 

Via crucis

No último dia 14, a Folha reuniu representantes locais dos candidatos a governador e presidente. Com a participação deles, fez um sorteio de datas para publicação de entrevistas. A de hoje ficou reservada ao presidenciável Henrique Meirelles (MDB). No dia 20, o contato da assessoria do candidato foi cobrado ao representante que assinou a ata do sorteio. E novamente no dia 24, quando finalmente a ponte foi feita. De Brasília, o retorno também foi lento: só no dia 27, já após a ter sido pauta enviada. E não foi respondida. Depois dessa via crucis com sua equipe, é difícil saber por que Meirelles patina em 1% em todas as pesquisas?

 

Publicado hoje (31) na Folha da Manhã

 

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José Roberto Guzzo — As cruzadas da mídia fazem parte do problema

 

(Foto: Sergio Zalis – TV Globo)

 

Jornalista José Roberto Guzzo

Caras e bocas

Por Josá Roberto Guzzo

 

Quando alguém se coloca no papel de Deus no dia do Juízo Final, disposto a dar sentenças sem possibilidade de recurso, é bom saber o está fazendo, porque o emprego de Deus não é assim tão fácil como se pensa. Mas aí é que está: hoje em dia qualquer um se nomeia Padre Eterno, sem pensar durante meio minuto se está qualificado para a função. Acredita seriamente que é capaz de tirar de letra a tarefa de separar céu de inferno, não se prepara para o serviço e o resultado acaba sendo uma lástima. É o que o público acaba de ver, nos últimos dias, no processo divino e penal instaurado por jornalistas de televisão contra os atuais candidatos a presidente da República. Não estão previstas absolvições nesse tribunal. As únicas sentenças disponíveis são as de condenação. Nada do que os réus dizem, quando conseguem dizer alguma coisa, é levado em consideração; é uma surpresa, na verdade, quando recebem a permissão dos inquisidores para completar uma resposta. O resultado final é que ninguém acredita que os moços e as moças da tela sejam mesmo um Deus legítimo. Ficam com cara de Rolex paraguaio. Não assustam mais os acusados. Fazem o público ficar torcendo contra eles e a favor dos candidatos. Provocam o riso.

Ninguém parece estar fazendo isso tão bem quanto a Rede Globo, embora este seja um campeonato em aberto na mídia, com muito jogo ainda pela frente. Seus entrevistadores vão para cada programa com um propósito acima de qualquer outro ─ em vez de fazer perguntas aos candidatos, fazem acusações. Não é, em nenhum momento, uma entrevista: é um interrogatório policial, onde os inquisidores não ouvem as respostas do inquirido, não se obrigam a colocar um mínimo de inteligência nas suas questões e só se interessam em exibir para o público o quanto admiram as suas próprias virtudes. Aumentam o tom de voz cada vez que o acusado abre a boca para falar alguma coisa. Arregalam os olhos. Ficam de dedo em riste. Fazem caras e bocas. Se enervam o tempo todo. A última coisa que os preocupa é levar alguma informação a quem está assistindo ao programa. Ao fim do espetáculo, a maior parte do público já esqueceu a maçaroca de números, nomes e datas, frequentemente desconexos, incompreensíveis ou tolos, que os acusadores jogaram em cima de todos. Praticam, em suma, um jornalismo de emboscada de baixa qualidade, em que se satisfazem plenamente em ouvir o barulho dos tiros que disparam. Acham que isso é o bastante para revelar sua independência diante dos candidatos. Conseguem, no fim, mostrar apenas o quanto podem ser neurastênicos.

O resultado mais frequente disso tudo têm sido o exato contrário do que os programas pretendem. Os jornalistas conseguem, sim, desfilar na tela no papel de mocinhos e deixar os candidatos na posição de bandidos ─ o problema, porém, é que acabam levando o público a torcer pelo bandido. Como ser diferente? À certa altura de um dos recentes inquéritos, por exemplo, os entrevistadores colocaram a si próprios na posição de sustentar perante a plateia que a dramática queda na taxa de homicídios de São Paulo nos últimos dez anos era uma obra do PCC. Aí fica realmente difícil. Da mesma maneira, perderam o controle da própria capacidade de pensar durante os confrontos com o seu monstro preferencial, o candidato Jair Bolsonaro. É perigoso fazer isso em briga de rua. Acabaram, por duas vezes seguidas, permitindo que o deputado dançasse um sapateado flamengo em cima de si próprios e da emissora que os emprega.

Não é um “problema deles”, como se poderia dizer. Os episódios cada vez mais inquietantes de perversidade, fanatismo e grosseria por parte de tantos eleitores, um sinal particular da atual campanha para a Presidência, são consequência inevitável do extremismo que passou a comandar o ambiente político brasileiro. As cruzadas da mídia fazem parte do problema. Dezenas de milhões de cidadãos se sentem agredidos, há anos, por uma visão da sociedade, da política e da vida que afronta diretamente os seus valores e convicções. Acabaram achando que a defesa do seu mundo depende das posturas mais extremadas que circulam na praça. A besta-fera do radicalismo, que tanto assusta hoje, estava apenas hibernando. Tiraram o bicho da toca e agora fica complicado se livrar dele.

 

Publicado aqui na Veja

 

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Guilherme Carvalhal — Um breve minuto

 

 

Apaixonaram-se tão intensamente que logo foram tomados pelo receio de verem esse amor se extinguir com o cotidiano. Pretendiam que a chama dos primeiros encontros se mantivesse sempre acesa, que quando estivessem juntos parecesse que não se viam há séculos.

Criaram um acordo para preservar essa paixão primordial. Decidiram se ver apenas uma vez por semana, durante um minuto. Ela passava em frente ao seu apartamento às segundas pela manhã, ele a encontrava, trocavam rápidos beijos e palavras, se despediam e seguiam seus rumos.

O longo tempo sem se verem, sem terem notícias, deixava ambos na expectativa pela próxima segunda. Durante o trabalho, no trânsito, na fila do mercado, a imagem do outro passava pelas suas cabeças, gerando um desejo imenso, a ponto de explodirem.

A relação gerou uma imensa e constante necessidade de se quererem. Alimentavam a paixão com a saudades, e no fim das contas nunca de fato deixavam suas pulsões fluírem. O sentimento se tornou uma constante repressão, e aquele amor inicial se converteu em martírio.

Cada um na sua redoma pensava em mudar os termos do acordo. Queriam se ver frequentemente, passar horas juntos conversando sobre os assuntos mais superficiais, contanto que valesse a pena. Pensavam nas cenas imaginárias compartilhadas, em viagens, no cinema e em todos os locais onde poderiam estar.

Certa segunda-feira, ele desceu para vê-la e ela não passou. Imaginou que talvez estivesse doente. Queria telefonar para saber como ela está, mas o acordo incluía não saberem o telefone um do outro. Na segunda seguinte ela também não apareceu e logo ele constatou que tudo havia terminado.

Os meses passaram e ele não teve mais contato com ela, até que um dia, no parque, a viu de longe de mãos dadas com um cara. Vigiou-os anonimamente por algumas minutos. Eles riam entre si, se abraçavam, conversavam como se nada mais existisse em todo mundo. Então ele descobriu que o medo de matar o amor também mata o amor.

 

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Na pauta politicamente correta, jornalismo joga o jogo de Bolsonaro

 

 

Sem paixão

A cobertura jornalística de Copas do Mundo é um eficaz condicionante para que a análise crítica se sobreponha à paixão do torcedor. Qualquer um que se propuser a fazê-lo, constatará que Jair Bolsonaro (PSL) não foi mal na sabatina de terça (28) no Jornal Nacional. Mesmo que fosse, isso não faria diferença para quem trata o presidenciável por “mito”. Como não faria nenhuma para quem, de antemão, considera o candidato machista, racista e homofóbico.

 

Placar prévio

Bolsonaro tem cerca de 20% do eleitorado — o que corresponde a quase 30 milhões de brasileiros. Mas o ex-capitão do Exército também aparece nas pesquisas como líder de rejeição. No Datafolha, quase 40% dos eleitores não votariam nele de jeito nenhum. Os números indicam aproximadamente 60 milhões de brasileiros. Para essas duas relevantes parcelas da população, Bolsonaro já tinha ido bem e mal mesmo antes da sabatina.

 

Desinteligência

Sobram os outros 60 milhões que vivem no mesmo país e também elegerão o próximo presidente. Para estes, se a pauta do Jornal Nacional girasse sobre saúde, educação e economia, teria muito mais serventia na formação de opinião do que insistir no politicamente correto como eixo das perguntas. Impressiona a desinteligência dessa insistência, após o golpe que o jornalismo brasileiro aplicou sobre si mesmo, no Roda Viva com Bolsonaro de 30 de julho.

 

Força do hábito

Pai do pensamento ocidental, Aristóteles ressalvava antes de Cristo: “Somos o que repetidamente fazemos. A excelência, portanto, não é um feito, mas um hábito”. Ainda que provavelmente Bolsonaro e seus eleitores nunca tenham lido o filósofo grego, o fato é que o candidato a presidente está no embate contra o feminismo, a defesa dos direitos dos negros e índios, além das questões de gênero, há quase 30 anos. Goste-se ou não das suas opiniões, necessário admitir: pelo hábito, isso é o que ele faz melhor.

 

Constrangedor

Bolsonaro, por certo, tem muitos defeitos. Mas como qualquer outra pessoa também tem virtudes, independente do juízo de valor que delas se faça. Quem dúvida tiver, que seja sincero ao dizer como se sentiu quando o candidato quis exibir um livro que atribuiu ao projeto “Escola sem Homofobia”, chamado pejorativamente de “kit gay”, em pleno Jornal Nacional. Não era, mas se material semelhante tinha como objetivo a distribuição entre crianças e adolescentes, até ser barrado em reação da bancada evangélica surfada pelo deputado, por que não poderia ser mostrado nas telas de TV de todo o Brasil?

 

EUA tiram dúvida

O constrangimento da Globo só não foi maior do que quando ecoou, pela boca do ex-capitão, as palavras de Roberto Marinho em apoio ao golpe civil-militar de 1964. Salvo o imponderável, como uma gravação de Joesley Batista, Bolsonaro deve estar no segundo turno. Bem verdade que, pelas pesquisas, lá ele perderia para quase todos os concorrentes. Mas tratá-lo como aberração, não candidato competitivo, dá provas sobre provas de ser a melhor maneira de fortalecê-lo. Está aí Donald Trump, no cargo mais importante da Terra, para dirimir quaisquer dúvidas.

 

No páreo

A visita do candidato a governador Romário (Pode) a Campos na segunda-feira (27) foi acompanhada de perto por Caio Vianna (PDT). Como registrado no blog do Arnaldo Neto, e nesta coluna, o nome do filho de Arnaldo Vianna não aparecia entre os postulantes pedetistas a nenhum cargo. Mas, na última atualização do sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ontem (29), Caio surge como candidato a deputado federal. Em 2016, o filho de Arnaldo chegou a liderar as pesquisas a prefeito de Campos, mas desidratou quando perdeu o apoio do pai e acabou se aliando a Anthony Garotinho (PRP).

 

Com o jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

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Romário, Paes, Indio, Garotinho, Tarcísio, Ciro, Bolsonaro e morte em Atafona

 

 

 

Debate a governador

Com menos candidatos a governador do Rio do que no debate da Band, dia 16, algumas coisas foram diferentes e outras se repetiram no debate promovido na manhã de ontem (28), pelos jornais O Globo e Extra, além da revista Época. Transmitido pelas redes sociais, só foram convidados os cinco candidatos mais bem colocados na última pesquisa Ibope: Romário Faria (Pode), Eduardo Paes (DEM), Anthony Garotinho (PRP), Tarcísio Motta (Psol) e Indio da Costa (PSD). Romário não foi. Mas, a julgar por seu péssimo desempenho na Band, sua ausência ontem poderia ser definida por aquilo que o ex-craque já falou de Pelé: “calado, é um poeta”.

 

Paes, alvo preferencial

Época de eleição é como de Copa do Mundo. Quem entente pouco ou nada do assunto se julga no direito de emitir opinião, confundindo torcida com argumento, e argumento com fato. Diuturnamente, estão aí as redes sociais para dirimir qualquer dúvida do nível rasteiro desse debate. No que foi promovido pelas Organizações Globo, não erra quem disser que serviu menos para discutir propostas ao Estado do Rio, do que para ataques entre os candidatos. Alvo preferencial por conta da sua ligação com o ex-governador Sérgio Cabral (MDB), Paes voltou a ser o alvo preferencial. Mas ontem, diferente da Band, ele se empenhou nos contra-ataques.

 

Indio e Garotinho

Para quem tem capacidade de interpretação, algumas coisas se revelaram além do óbvio. Indio tentou se desligar da imagem de “escada” para Garotinho bater em Paes, que ficou no debate da Band. E perguntou ao campista como ele poderia voltar a ser governador e dirigir o sistema penitenciário do Estado, tendo sido dele “hóspede” duas vezes no ano passado. E o político da Lapa sutilmente ameaçou revelar o grau da sua real intimidade com Indio, ao dizer que foi este quem ligou para lhe dizer que não poderia não poderia ser impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa. Seu relator como deputado federal, Indio ouviu e se encolheu.

 

Preocupação com Tarcísio

Conhecido pela expressão facial de satisfação consigo mesmo após encerrar cada intervenção, Garotinho também revelou sua preocupação com o crescimento de Tarcísio. Para quem sabe ler nas entrelinhas, isso ficou claro quando o candidato do PRP disse em sua última fala: “uns não tem nenhuma experiência (…) falam muito, fazem piadinha, são engraçadinhos (…) mas não têm conteúdo (…) o importante nessa eleição é você não cair no risco de votar em candidato despreparado”. Referiu-se ao candidato do Psol, o melhor nos dois debates. O motivo? Ainda distantes, Garotinho e Tarcísio são, respectivamente, o 3º e o 4º nas pesquisas.

 

Ciro e Bolsonaro no JN

Já foram duas as entrevistas da semana com os presidenciáveis no Jornal Nacional. Na segunda (27), com receio de confirmar seu destempero, Ciro Gomes (PDT) aceitou ser parcialmente contido pelo estilo assertivo de William Bonner. Já Jair Bolsonaro (PSL) não mostrou medo e foi para cima. Teve uma boa resposta da jornalista Renata Vasconcelos, que se impôs na questão da diferença salarial entre gêneros. Só que a insistência da pauta no politicamente correto favorece a Bolsonaro. Na experiência de muitos anos, ele se tornou bom nisso. Mas é só. Impressiona como a grande mídia brasileira parece incapaz de aprender com seus erros.

 

Morte e repercussão

O assassinato em Atafona do jovem Layron da Silva Costa, de 24 anos, durante ação policial na noite domingo (26), gera revolta e protestos. No sepultamento, ontem (28), amigos da vítima cobravam por Justiça. Layron pilotava uma moto quando foi baleado na cabeça. O caso foi registrado por policiais como auto de resistência. Grande parte da imprensa de Campos e SJB — a Folha é uma das poucas exceções — chegou a chamar a vítima de bandido, apostando em informações desencontradas e sem a checagem dos fatos, ato primordial no exercício do jornalismo. A família comprovou que o jovem não tinha antecedentes criminais.

 

Versão contestada

Amigos e familiares do Layron demonstraram revolta com a imprensa, o que se justifica devido à forma como o caso foi abordado. Na primeira versão, que está na narrativa policial, a vítima estava dando carona a um suposto chefe do tráfico e houve troca de tiros. Mas existe outra versão, ainda não oficializada, de que sequer o carona teria envolvimento com o tráfico. Seriam dois jovens que saíam de um churrasco no Balneário de Atafona e teriam sido perseguidos e abordados a tiros. A Corregedoria da Polícia Militar já atua no caso. A sociedade precisa de uma resposta imediata sobre as circunstâncias e a motivação dessa morte.

 

Com o jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (29) na Folha da Manhã

 

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Ataque dos militantes de Bolsonaro endossa crescimento de Amoêdo

 

 

Amoêdo é a surpresa

Após as pesquisas Datafolha e Ibope ao Palácio do Planalto e Guanabara, na semana passada, a que se iniciou ontem trouxe a divulgação de uma nova amostragem, mas só a presidente. Por telefone, o BTG Pactual ouviu 2 mil eleitores, entre os dias 25 e 26 de agosto. Na margem de erro de erro de dois pontos para mais ou menos, nenhuma novidade na liderança: com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como opção, ele tem 35% na consulta induzida. Nela, foi seguido por Jair Bolsonaro (PSL), 22%; Marina Silva (Rede), 9%; Geraldo Alckmin (PSDB), 6%; Ciro Gomes (PDT), 5%; e a grande surpresa: João Amoêdo (Novo), com 4%.

 

Votos de Lula

Como Lula está preso desde 7 de abril e virtualmente inelegível pela Lei da Ficha Limpa que sancionou quando presidente, é sem ele a consulta induzida mais relevante. Nela, Bolsonaro liderou com 24%; acompanhado de Marina, 15%; Alckmin, 9%; Ciro, 8%, Fernando Haddad (candidato estepe do PT), 5%; e Amoêdo, 4%. Como no Datafolha e Ibope, no BTG Marina também foi a maior herdeira dos votos de Lula: seis pontos percentuais. Para receio dos petistas, Haddad ganhou apenas cinco pontos. Ciro e Alckmin levaram três, cada um. E até Bolsonaro herdou dois pontos dos votos de quem trata como “bandido condenado”.

 

Votos do antipetismo

Com os mesmos 4%, com ou sem Lula, as intenções de voto de Amoêdo parecem ser ideologicamente coerentes, mesmo antes de registrarem seu maior crescimento em pesquisas.  Os ataques recentes nas redes sociais, dos militantes de Bolsonaro contra o presidenciável do Novo, evidenciam como este preocupa o ex-capitão. Os dois dividem o mesmo voto antipetista com Alckmin e Henrique Meirelles (MDB) — que não sai de 1% em nenhuma consulta. E, sobre Bolsonaro, Amoêdo tem uma vantagem: ele é de fato um liberal, não convertido de última hora, após sete mandatos de deputado federal como estatista.

 

As chances

O fato de ter 19% na consulta espontânea, abaixo de Lula (26%), mostra como o voto de Bolsonaro está consolidado. E, numa eleição pulverizada, qualquer candidato com 20% dos votos tem grande chance de ir ao segundo turno. Marina, Ciro e Haddad terão a sorte definida na disputa pelo espólio de Lula. O presidenciável substituto do PT, aliás, só tem isso. Alckmin depende de virar o jogo contra Bolsonaro, sobretudo no Estado de São Paulo, que governou quatro vezes. Mas é na espontânea que a consistência do voto em Amoêdo também impressiona: com 3%, ele está bem atrás de Bolsonaro e Lula, mas apenas deles.

 

Surpresa?

Do planalto à planície, o blog do Arnaldo Neto registrou ontem outras novidades. Candidato ao Palácio Guanabara, Romário (Pode) esteve na segunda em Campos, acompanhado de Caio Vianna. Ele está no PDT, por onde não concorre a nada em 2018, mas que tem candidato próprio a governador: Pedro Fernandes. Só não surpreende se analisada a curta trajetória política do filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna: chegou a liderar as pesquisas a prefeito de Campos em 2016, mas desidratou quando perdeu o apoio do pai e acabou se aliando a Anthony Garotinho. Arnaldo apoia sua esposa Edilene Vianna (MDB) a deputada estadual.

 

Violência

Os recentes números da violência têm assustado bastante a população da nossa região, principalmente com Campos, que aparece entre as cidades mais violentas do mundo. Porém, o que causa mais espanto é o fato de essa violência chegar também aos locais que, para muitos, sempre foi um reduto de paz e tranquilidade. E foi assim no último fim de semana em Atafona, litoral de São João da Barra. O jovem Layron da Silva Costa, de 24 anos, morreu, ontem, com tiros na cabeça. Já uma adolescente de 17 anos denunciou no domingo que foi estuprada no dia anterior.

 

Respostas

Duas investigações que precisam ser esclarecidas logo. No caso do estupro, que teria acontecido na frente de outra menor, grávida, de 14 anos, as respostas logo deverão surgir com os exames do Instituto Médico Legal (IML). No caso do Layron, parece ser mais complexo. E a revolta foi grande por parte da população de Atafona, que já realizou protestos e está inconformada com o fato de a suspeita recair sabre a polícia, que registrou o episódio como auto de resistência. Delegado titular da 145ª DP, Carlos Augusto Guimarães assegura que tudo será analisado. E o que se espera é que também seja, logo, elucidado.

 

Com o jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (28) na Folha da Manhã

 

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Igor Franco — O PT e o #MortadelaGate

 

 

Desde o “Escândalo dos Aloprados” na eleição presidencial em 2006, quando integrantes do PT foram presos com centenas de milhares de dólares e reais em espécie para a compra de um suposto dossiê contra o candidato tucano José Serra, parece fatal descortinar-se um novo escândalo petista envolvendo campanhas a cada eleição presidencial. Em 2014, a personagem Dilma Bolada fez grande sucesso nas redes, com postagens engraçadinhas que, disfarçadamente, promoviam promessas de campanha e feitos (???) da ex-presidente. Posteriormente, descobriu-se que o criador da página era muito bem remunerado por uma agência de propaganda envolvida em desvio de dinheiro público para abastecer campanhas do Partido dos Trabalhadores.

Desbaratado ao longo do final de semana após a denúncia de uma ex-participante, a jornalista Paula Holanda, o mais recente escândalo promovido pelos asseclas do presidiário-candidato já foi batizado de “Mensalinho do Twitter” ou “MortadelaGate”. O esquema consistia em postagens descentralizadas para promover candidatos do partido a partir de perfis simpáticos à esquerda que tivessem muitos seguidores. A contratante da mão-de-obra, uma agência de publicidade vinculada ao deputado Miguel Corrêa Junior (PT-MG), enviava uma pauta diária para os contratados seguirem. Com a aparência de uma manifestação espontânea, diversos perfis disparavam mensagens parecidas enaltecendo o candidato à reeleição no Piauí Wellington Dias, a candidata à Câmara Gleisi Hoffman, dentre outros ilustres conhecidos das páginas policiais.

Os chamados digital influencers, uma espécie de blogueiros descolados da nova geração das redes sociais são um dos grandes enclaves da esquerda na internet. Eles estão nas diversas redações dos grandes jornais, fazem parte de start-ups tecnológicas, colaboram para campanhas de marketing bonitinhas que prometem salvar o mundo através da venda de produtos, são donos de páginas de memes em favor do aborto, droga e políticas identitárias. Se fossem pobres coitados sem perspectiva, receberiam um sanduíche com mortadela por sua colaboração à causa. Como a pecha de descolados lhes confere maior pedigree, a compra de suas consciências partia de R$ 1.500,00 ao mês. Em resumo, os digital influencers de aluguel se converteram numa releitura da antiga blogosfera progressista, rede de sites mantida até alguns anos atrás por pesada propaganda de governos petistas e aliados.

Após a divulgação de todo o esquema, os mensaleiros virtuais passaram a adotar diferentes linhas de defesa: uns dizem que, apesar do acordo verbal, não chegaram a receber qualquer valor; outros se apressaram a bloquear ou excluir os seus perfis; a maioria, porém, dedicou-se a acusar de alcagueta a delatora. Paula Holanda, de membro da trupe progressista, passou a ser chamada de “x9” e sofreu ameaças virtuais dos inconformados pela revelação do esquema criminoso. A preocupação tem sua justificativa: além de imoral, a venda de propaganda eleitoral de maneira implícita é crime (Resolução 23.551 do TSE, art. 23, IV, b), além de levantar a suspeita sobre origem do dinheiro para financiamento desse tipo de esquema.

Como ocorreu durante a eclosão do Mensalão e de diversos outros escândalos menores até o desbaratamento da joia da coroa da corrupção nacional, trazida à luz pela Lava Jato, o PT, seus simpatizantes e seus porta-vozes na imprensa decidiram ignorar toda oportunidade de autocrítica e elevação de seus padrões. Para o PT e seus asseclas, a única e verdadeira batalha da política se dá em torno do poder e todo e qualquer meio para a tomada do mesmo.

Ora, que o PT seja capaz de utilizar meios ilegais e insidiosos para manipular eleições através da utilização de recursos escusos não deve assustar ou constranger ninguém. Também é certo que os eleitores do partido não se abalarão com essa nova ilegalidade, afinal, numa escala de gravidade, o desvio sistemático de recursos públicos para abastecer o caixa do partido e a riqueza pessoal de seus membros figura numa posição muito mais grave e, mesmo assim, continuamos a assistir o presidiário candidato figurando no topo das intenções de voto. Entretanto, não deixa de ser curiosa a sistemática propensão dos petistas a delinquir e, aparentemente, relegarem a mero detalhe o fato de tratar-se de uma prática criminosa promovida com dinheiro tirado sabe-se lá de onde e buscarem o linchamento virtual de quem ousou delatar o partido (alguém aí lembra do companheiro Palocci?).

A fantasia descolada e moderninha dos novos porta-vozes só engana os mais incautos: por dentro, as velhas práticas mofadas mostram que a corrupção no PT só sai de cena para mudar de figurino.

 

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Indio da Costa: Governo do Estado não pode ser pautado só pela capital

 

Por Aldir Sales e Aluysio Abreu Barbosa

 

“O Estado do Rio de Janeiro não pode ser pautado pelos interesses exclusivos da capital”. Foi o que observou Indio da Costa, deputado federal e candidato do PSD a governador do Rio, nesta entrevista. Nela, além das propostas, ele fez críticas pesadas aos adversários na disputa pelo Palácio Guanabara. Reafirmou as que já havia feito a Anthony Garotinho (PRP) e mirou também em Romário (Pode) e Eduardo Paes (DEM). Afirmou que o primeiro é “malandro demais para governar o Estado”, e que o segundo “está no jogo para manter o poder nas mãos do Cabral”. Do candidato com quem disputa a quarta posição nas pesquisas, porém, Indio reconheceu virtudes: “não se deve menosprezar a força do Psol, a capacidade mobilizadora deles, além das qualidades pessoais do Tarcísio”.

 

 

Folha da Manhã – Em entrevista à Folha publicada (aqui) em 6 de agosto de 2016 uma frase sua gerou a manchete daquela edição: “A política de Garotinho é manter o pobre na pobreza”. A revista Veja (aqui) e o jornal O Dia (aqui) repercutiram aquela entrevista. Dois anos depois, mantém a declaração ou algo mudou?

Indio da Costa – Mantenho e reafirmo. E nisso está uma questão essencial: a maneira como se entende a população. Ela precisa dos serviços públicos, precisa do trabalho dos governos, sem dúvida, mas não como um ato de caridade ou voluntarismo dos governantes. A população precisa dos serviços e paga por eles, numa situação em que o pobre paga mais que todos, se considerarmos o que ele recebe de volta e o que deixa para os governos. Todos, indistintamente, pagam. A receita mais representativa do Estado é de ICMS, um imposto que incide sobre o pão, sobre a carne, sobre as passagens, sobre tudo o que é mercadoria e serviços. Garotinho usa os serviços públicos como se fossem atos de voluntarismo pessoal e político. Isso é uma fraude na informação.

 

Folha – No debate da Band, dia 16, o senhor falou da situação em que pegou a secretaria de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação do governo Marcelo Crivella (PRB) do Rio, herdado de Eduardo Paes (DEM), e rolou a bola a Garotinho, perguntando como a filha dele, Clarissa, havia achado a secretaria de Desenvolvimento, Emprego e Habitação. Garotinho emendou tão forte em Paes, que gerou direito de resposta. Dá para acreditar que não foi jogada ensaiada?

Indio – Não foi jogada ensaiada. Entre todos os candidatos presentes, só dois poderiam esclarecer os eleitores sobre a qualidade da gestão do Paes na Prefeitura: eu e Garotinho. Pedro Fernandes esteve na Prefeitura, mas com nenhuma preocupação com o assunto. Eu e a Clarissa participamos de inúmeras reuniões com a secretária de Fazenda, com o prefeito, com os outros secretários, em cima das contas do município. Por isso, fiz a pergunta ao Garotinho. Fundamental é esclarecer aos eleitores que a gestão do Paes na Prefeitura foi desastrosa. Ele assinou contratos sem capacidade de pagamento. Para fugir à Lei de Responsabilidade Fiscal, ele anulou os empenhos com matrícula fantasma e deixou um estouro de caixa de mais de R$ 1 bilhão. Isso precisa ser esclarecido ao eleitor, que terá o desafio de escolher um governador que terá que lidar com uma crise financeira.

 

Folha – No direito de resposta de Paes, que gerou outro a Garotinho, o ex-prefeito do Rio disse que tinha sido alvo da tabela entre o senhor e o político de Campos. E que isso havia sido arquitetado diretamente por Crivella. Foi? Não pode parecer ao eleitor uma briga da patota do ex-governador Sérgio Cabral (MDB), representada em Paes, contra a patota do Crivella?

Indio – Quando o Cabral é referência, não se pode falar de patota. Será mais justo chamar de quadrilha e Eduardo Paes é membro da quadrilha. Ele se diz inocente nas propinas do ex-secretário de obras dele (Alexandre Pinto). Quem conhece o jeito de governar do Eduardo Paes sabe que ele é centralizador e que todas as decisões na gestão dele, são dele. Dizer que nas barbas dele, o secretário da principal pasta pagou propinas, separou dinheiro para o Cabral, sem que ele soubesse, é ingenuidade. A minha relação com Crivella sempre foi pública e transparente. Quando eu aceitei o convite para apoiá-lo no segundo turno, apresentei a ele um documento, uma carta-compromisso, que ele assinou. Ela é pública. Dois pontos amarram o nosso compromisso. Não ter o Garotinho no governo e não colocar a Prefeitura a serviço da Igreja. Garotinho não participou do governo. Minhas relações com a Clarissa no governo Crivella foram difíceis com dificuldades reconhecidas publicamente, inclusive aqui em Campos.

 

Folha – Sobre a reunião secreta de 4 de julho, em que Crivella ofereceu isenção de IPTU e cirurgias a pastores e líderes evangélicos, o senhor disse no dia 6: “Foi um erro, ninguém ganha nada com isso. Essa reunião não foi boa para a sociedade”. O episódio gerou até pedido de impeachment do prefeito, negado pela Câmara do Rio. Mas, em 18 de julho foi definido o apoio do PRB, pelo qual trabalhava, foi dado a Garotinho. Arrepende-se? Por quê?

Indio – Não me arrependo. Pilar central do meu acordo com Crivella no segundo turno da eleição de 2016 era a Prefeitura não ser colocada à serviço da Igreja. Eu defendo o Estado laico. Defendo que toda a população, sem intermediários, tenha acesso aos serviços públicos. Poucas horas antes da reunião do prefeito com os pastores ser do meu conhecimento, num almoço em Brasília, firmamos a aliança entre o PSD e o PRB, presentes os presidentes nacionais dos dois partidos, o Ministro Kassab e o Pastor Marcos Pereira. Mas, o PRB entendeu que a minha opinião era um obstáculo à aliança. Paciência. Mantive o princípio que firmou o meu acordo com o PRB no segundo turno da eleição passada. Respeito muito o PRB, como respeito Crivella e tenho carinho por ele, mas há pontos que discordamos.

 

Folha – Cabral, de quem o senhor é crítico, está sendo processado, entre várias outras coisas, pelo uso particular de helicópteros do Estado. Em julho, o jornal O Globo denunciou sua utilização de helicópteros da Prefeitura do Rio, quando era secretário de Crivella, para fazer pré-campanha a governador. Há diferença? Qual?

Indio – Na sua pergunta, está uma das diferenças essenciais. Eu não fiz uso particular do helicóptero. Fiz uso em serviço. Não usei pra fazer pré-campanha. Veja você que eu deixei o cargo de secretário e reassumi o mandato de deputado federal três meses antes do prazo legal para desincompatibilização. Se fosse minha intenção usar a Prefeitura na pré-campanha, eu teria permanecido, como permaneceram todos os demais secretários que hoje são candidatos. Estão aí, por exemplo, Clarissa e Pedro Fernandes. Outra diferença entre mim e Cabral é fundamental ressaltar: ele é ladrão. Eu, não. Ele está com Eduardo Paes, eu, não; apesar dos apelos insistentes que me fez Eduardo para ser vice dele.

 

Folha – Em tempos em que se cobra transparência e lisura dos gestores públicos, o senhor levanta essa bandeira e exalta o fato de ter sido relator da Lei da Ficha Limpa. Dentro disso não é incoerência o fato de ter nomeado à Prefeitura do Rio seu sócio num estacionamento em Niterói e tesoureiro do PSD, Cyro Beltrão Filho, com salário mensal de R$ 12 mil?

Indio – A nomeação foi transparente, até porque não poderia ser diferente. Ela foi, como todas nomeações, publicada no Diário Oficial. Sou mesmo relator da Lei da Ficha Limpa, com a autoridade moral de ser um ficha limpa. Quem tiver dúvida consulte um aplicativo bem bacana que está a disposição de todos, o detector de corrupção. Veja lá como eu apareço e como aparecem, por exemplo, Eduardo Paes e Garotinho, donos de ficha corrida. Cyro não foi nomeado meu assessor por ter sido meu sócio numa das minhas empresas, como quis dizer o jornal O Globo, que já se sabe, faz abertamente, a campanha do Eduardo Paes. Cyro me acompanha desde o meu primeiro momento na política, há mais de 20 anos, tempo em que era funcionário do Banerj. Foi meu orientador em muitas questões. Já esteve comigo em outras passagens minhas pela Prefeitura. Por eu confiar nele, ele foi meu assessor na secretaria, é o tesoureiro do partido sob a minha presidência, foi meu sócio nas minhas empresas. Hoje, está se distanciando das atividades, para o que ele chama de “merecido descanso”. E é mesmo. Ele tem sido uma pessoa importante na minha vida. Ante-sala em muitas decisões que tomei ao longo da vida.

 

Folha – Nas duas últimas pesquisas ao governo do Rio, o senhor ficou pela primeira vez atrás de Tarcísio Motta (Psol), ainda que em empate técnico: 3% a 5%. O empate foi absoluto no Datafolha: 3% a 3%. Acha que foi efeito de debate da Band, onde Tarcísio foi bem? Como desgrudar dele e ameaçar Romário (Pode), Paes e Garotinho, líderes na intenção de voto?

Indio – A decisão, a escolha, cabe ao eleitor no dia da eleição. As pesquisas retratam um momento. Não acredito que tenham sido só reflexo do debate, que foi frio. Sobre Tarcísio, não se deve menosprezar a força do Psol, a capacidade mobilizadora deles, além das qualidades pessoais do Tarcísio. Diante do eleitor do Estado estará o desafio de escolher quem irá, pelos próximos 4 anos, carregar a responsabilidade de reequilibrar as contas e encontrar meios de dar solução ao crime e ao desemprego. Quem, entre os candidatos, estaria mais preparado e apto para cumprir o papel. Romário? Ele teria as condições? Prestem atenção à vida pessoal dele. O cara não paga as contas que faz. Portanto, rouba os credores. Não paga impostos, portanto, rouba o Estado. É indisciplinado. Malandro demais para governar um estado que tem os problemas que temos. Eduardo Paes? Esse é membro de uma quadrilha que assaltou o Estado. Está sustentado numa aliança que não dará a ele a menor liberdade para governar. Ele está no jogo para manter o poder nas mãos do Cabral, do Picciani e de todos os ladrões que assaltaram o estado. Eduardo Paes quebrou a Prefeitura do Rio. Enganou o povo com uma Olimpíada comprada a preço de ouro para justificar as obras que aumentaram a fortuna da quadrilha e do bando.

 

Folha – Sem um conservador forte nas pesquisas, o senhor e o ex-juiz federal Wilson Witzel (PSC) vêm com discurso duro na Segurança. No debate da Band, ambos falaram que, em seus governos, o policial teria autorização para atirar em bandido armado. Não é uma tentativa de se apropriar da pauta do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL)? Aceitaria o apoio dele?

Indio – Há uma diferença essencial entre o que eu proponho e o que propõe Bolsonaro: ele quer armar a população para que ela se vire na luta contra o crime. Eu, não. Eu defendo que se dê todas as condições às polícias para que elas resolvam o crime. É estupidez e loucura querer fazer segurança sem polícia como se tem feito no Estado. As polícias estão sucateadas por conta disso. As milícias nasceram, porque os governos viraram as costas para as polícias. Polícia se faz com policiais. Ou seja, é preciso que o Estado compreenda as dificuldades pessoais dos policiais. Entenda que eles estão nas ruas e no serviço colocando em risco a própria vida. Quando morrem na luta contra o crime, o que acontece com as famílias deles?  A investigação é elemento forte na minha proposta. O sistema de investigação da Polícia Civil está sucateado, por isso, os crimes acontecem e se repetem e se multiplicam.

 

Folha – Sob intervenção militar do governo federal, a Segurança é hoje um dos principais problemas do Estado do Rio. Na segunda, dois militares das Forças Armadas foram mortos em troca de tiros com bandidos. E os assassinos da vereadora Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes ainda estão soltos. Há solução? Como?

Indio – A intervenção teve motivação política. O Exército Brasileiro é um patrimônio de coragem, disciplina, ordem, que deveria ser preservado nas mobilizações da política. E não foi. Paga um preço alto por isso. Em vez de intervenção, o governo federal deveria investir no trabalho de investigação da polícia. Quem sabe agir contra o crime é a polícia. O mais grave entrave ao sucesso das políticas de Segurança Pública no Estado do Rio é a importância zero que se dá aos policiais.

 

Folha – Além da violência, o Estado do Rio vive também um quadro de insolvência financeira. O que pensa sobre o regime de recuperação fiscal firmado entre os governos Michel Temer e Luiz Fernando Pezão, ambos do MDB. Propõe algo diferente?

Indio – O Plano de Recuperação Financeira tem uma causa essencial: criar as condições para que o Estado paga as dívidas que tem com a União. Mas, ninguém se questionou sobre a razão das dívidas terem se acumulado. A razão foi roubo e irresponsabilidade. Mas, assinou-se um Plano de Recuperação sem punir o maior responsável pelo problema, o governador Pezão, cúmplice confesso da quadrilha que tomou o estado de assalto e que quer permanecer no comando sob o governo Paes. O Plano engessa a gestão estadual de tal forma que a crise na segurança, saúde e etc será cada dia maior se a ideia prevalecer. Minha intenção é rever o Plano, para esticar os prazos de pagamento e desengessar os investimentos. Assumir isso com responsabilidade. Não como um ato de irresponsabilidade fiscal. Ter tempo para estancar a evasão fiscal, recuperar as polícias e a moral baixa dos servidores, destravar o desenvolvimento econômico e produzir dinheiro novo para pagar as dívidas velhas.

 

Folha – A face mais cruel da falência financeira do Estado se dá sobre os servidores ativos e inativos. Qual o seu compromisso em honrar mensalmente esses vencimentos?

Indio – Compromisso de quem já esteve na gestão de um quadro de servidores públicos com o peso que tem a folha da Prefeitura do Rio. A Previdência do Estado, esta sim, é um problema enorme a resolver. O Estado em 2017 precisou colocar R$ 11 bilhões no fundo de previdência, dinheiro tirado da saúde, da segurança e de todos os serviços públicos, para pagar inativos e pensionistas. Eu já administrei o PreviRio, quando fui secretário de Administração da Prefeitura do Rio. Sei como lidar com o problema, mas vou constituir um grupo de especialistas para encontrar uma saída. Mas, o meu compromisso é não atrasar os salários e fazer com que eles sejam elementos essenciais para gerar empregos e desenvolvimento. Sim, porque o servidor, ao receber em dia, consome e paga impostos. Parte do que o Estado paga em forma de salários, recebe em seguida, de volta, em forma de impostos. Uma equação que dá pra mexer.

 

Folha – Outra face do caos financeiro se dá sobre o abandono da Uenf e do Colégio Agrícola Antônio Sarlo. No debate da Band, quando perguntados sobre a Uerj, apenas Garotinho, Paes e Tarcísio lembraram que a Uenf também existe. O senhor, não. Por quê?

Indio – Garotinho lembrou, porque é obra dele, numa atitude bem comum na gestão pública: criar estruturas que precisam de despesas correntes sem pensar nelas. Quando se cria uma universidade, uma escola ou um batalhão, é preciso lembrar que para funcionarem precisam de recursos para pagar as despesas mensalmente. As universidades públicas podem, sim, gerar recursos que ajudem a cobrir as despesas correntes. No debate deixei isso claro. Com relação a todas as universidades do estado e aos colégios que têm o perfil do Colégio Agrícola Antônio Sarlo. É, sim, possível, ao Governo Estado, criar atividades econômicas que abram espaço para que as universidades e escolas encontrem o caminho da auto sustentação. Transformar projetos em protótipos onde o professor, o aluno, a universidade e o estado ganhem com essa produção de inteligência, com a possibilidade de o aluno, em vez de sair em busca do primeiro emprego. Ele já sai dali podendo empreender a partir da sua ideia. No caso do Colégio Agrícola Antônio Sarlo, acredito que há espaço para o fortalecimento da educação no campo, mas primeiro tenho que ouvir as pessoas para poder planejar uma retomada.

 

Folha – Quais são seus planos para Porto do Açu na questão do desenvolvimento específico do Norte Fluminense?

Indio – O Porto já é uma realidade econômica, não percebida pelo Governo do Estado, como estratégica para o desenvolvimento econômico. A intermodalidade para escoamento da produção é um gargalo, que o governo do estado pode resolver. O Governo do Estado pode fazer com que o Porto do Açu seja um polo de discussão e de recuperação do setor portuário. Ele é a oportunidade para fazer com que o estado ocupe um papel de líder no segmento. Para isso, é imprescindível o investimento que otimize a conexão entre os portos e as empresas que exploram suas instalações.

 

Folha –  Com sua foz em Atafona assoreada, o rio Paraíba do Sul sofre há bastante tempo em período de estiagem. Há registro de língua salina já no distrito de Barcelos. Há vida para Campos, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana sem o rio que os formou? Como recuperá-lo?

Indio – Não há vida. A bacia abrange 184 municípios, sendo 88 no Estado de Minas Gerais, 57 no Estado do Rio de Janeiro e 39 no Estado de São Paulo. Então, o papel do governador como líder político regional será fundamental para o debate sobre o Paraíba do Sul. Nesse quesito, o Estado do Rio só perdeu nos últimos anos, desde Brizola. Tivemos alguma oportunidade de um debate a nosso favor, nos tempos do Marcello Alencar. Depois, não mais. Eu quero assumir o papel de articulador das soluções. Com base nesse papel, constituir grupos de trabalho que encontrem soluções para a bacia e para o Paraíba do Sul que sejam vantajosas para o nosso Estado.

 

Folha – O que Campos, Norte e Noroeste Fluminense devem esperar de Indio governador?

Indio – Muito trabalho, com a compreensão que o Estado do Rio de Janeiro não pode ser pautado pelos interesses exclusivos da Capital, como tem sido nos últimos anos. Os governadores do estado têm sido gestores concorrentes do Prefeito do Rio. Mesmo, os governadores com perfil político vinculado ao interior, como foram Moreira, Garotinho e Rosinha. Eu tenho a exata compreensão que parte grande dos problemas do Estado e da capital tem como origem e causa a mania dos governadores de governarem de costas para o interior

 

Pàgina 2 da edição de hoje (26) da Folha

 

Publicado hoje (26) na Folha da Manhã

 

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