Charge do José Renato publicada hoje (25) na Folha
Boulos, Garotinho e Bolsonaro
Ontem, uma página inteira da Folha foi desperdiçada numa entrevista de 15 perguntas sem respostas do candidato a governador Anthony Garotinho (PRP). Um dia antes, sabatinado no mesmo equilíbrio de pauta entre contradições e propostas, o presidenciável Guilherme Boulos (Psol) se saiu bem ao responder o mesmo número de perguntas. Hoje, o espaço destinado à entrevista com Jair Bolsonaro (PSL) também não foi preenchido. Sua assessoria informou que ele prefere fazê-lo sempre pessoalmente e ontem passou o dia em campanha pelo interior de São Paulo. Muito embora as perguntas tenham sido enviadas desde terça (21), três dias antes.
Críticas ao jornalismo
Depois que Bolsonaro decidiu fugir dos debates nas grandes redes de TV — após ser flagrado no último levando “cola” não mão, ao ser enquadrado por Marina Silva (Rede) —, sua opção de não priorizar entrevistas não chega a ser uma surpresa. Sobretudo quando constatado que, para parte da sua militância, a mídia brasileira faria parte de um complô “comunista” contra o ex-capitão do Exército. Mas esse é o eleitor que, com o Cabo Daciolo (Patri), assumiu a forma de candidato. O que não quer dizer que não se caibam críticas ao jornalismo. Não só àquele que produz diariamente notícia e opinião, como à sua parcela que dá assessoria aos candidatos.
Cópia indesejada
Na assessoria de Bolsonaro, talvez até pelo ressentimento da candidatura com a mídia, parece haver poucos jornalistas. Estes, quando existem, têm a função de qualquer outro assessor: agregar novas virtudes ao candidato, não repetir seus defeitos. Em tese, é oposto do apresentado por Garotinho e seu assessor Antero Gomes, conhecido na mídia de Campos pela façanha de ser quase tão verborrágico e presunçoso quanto o candidato. O jornalista e ex-secretário de Comunicação Mauro Silva anda fazendo muita falta ao político da Lapa — que já foi estagiário da Folha como repórter.
Espeto de pau
Há casos dignos de elogio, como da assessoria do Psol. E não é preciso ser formado em jornalismo, como o cientista político Vítor Guimarães, para fazer a ponte da candidatura Boulos com a mídia. Como ocorre com o jornalista Guto Pires, assessor do deputado Wadih Damous (PT), em Campos na quarta (22) para debate na Uenf. Independente das ideologias e partidos, é o que se dá também com a Valéria Blanc, assessora do candidato a governador Indio da Costa (PSD). Ele será o entrevistado de amanhã no jornal de Campos com o qual o candidato de Campos não quis falar. Como reza o ditado: “casa de ferreiro, espeto de pau”.
Digital
A Seja Digital, entidade responsável pelo processo de digitalização do sinal de TV no Brasil, estará presente no evento Agosto da Juventude, realizado pela Prefeitura de Campos, na Praça Sol, na localidade de Santa Maria. O objetivo é levar informação sobre o desligamento do sinal analógico de TV, que ocorrerá no dia 28 de novembro. Após essa data, a programação dos canais abertos de televisão será transmitida apenas pelo sinal digital em Campos e em outros 58 municípios do interior do estado do Rio de Janeiro.
Kits grátis
No estande da Seja Digital, os participantes poderão verificar a diferença entre a imagem com sinal analógico e a do sinal digital. Mobilizadores também irão tirar dúvidas sobre o desligamento do sinal analógico e sobre a distribuição de kits gratuitos. Mais de 490 mil kits gratuitos serão distribuídos na região. Quem não sabe se tem direito ao kit, devem ligar gratuitamente no 147 com NIS (Número de Identificação Social) em mãos ou acessar o site sejadigital.com.br/kit para verificar e agendar a retirada dos equipamentos.
Tecnologia agrícola
Empresários de Alagoas, Mato Grosso e São Paulo estiveram em Campos e foram recebidos pelo superintendente de Agricultura, Nildo Cardoso. Eles vieram conhecer a agricultura local e o tipo de terra no município. O próximo encontro já está definido: será em Mato Grosso. Na troca de experiências, Nildo vai conhecer uma tecnologia que transforma batata doce em etanol: “Vai gerar emprego e menos custo do consumidor de etanol. Vamos fazer uma unidade em Campos”, afirma.
Refletindo sobre o que temos aí predominante nas práticas e nas relações no campo das eleições 2018 (local, regional, nacional) – o escancaramento do irracionalismo, cuja face mais visível está nos fundamentalismos de todas as espécies, atentei para um aspecto do nosso tipo de voto. Ele é representativo – ele tem o caráter de ‘mediador’ das relações de poder e das decisões que são tomadas.
Contra toda forma de irracionalismo no presente e num futuro próximo, abro mão temporariamente da minha utopia plebiscitária, em nome da Democracia Liberal Representativa de novo tipo. Isso porque não tenho a ilusão de que sem uma EDUCAÇÃO POLÍTICA E ORGANIZATIVA contínua e sistemática possamos avançar na Democracia Direta. Sem ela não chegamos nem perto dos problemas de fundo, estruturais de nossa sociedade – origem das mazelas de todo tipo e dimensão em nosso país.
Apesar de todas as limitações e fragilidades já detectadas da Democracia Liberal Representativa, pela ótica da maioria esmagadora da população – desorganizada e atomizada, sob o domínio do senso-comum, e, no máximo, de sua empiria, percebo que é possível para o momento repensar a representação política! Não como um ‘atalho’, porque não existem atalhos na História, mas como processo possível na vida política.
Ora, se sabemos que o ‘voto representativo delega poder’, promovendo até aqui em nossa História uma cisão entre quem toma a decisão – o representante e quem delegou através do voto este poder decisório – o representado. Se sabemos até aqui que o representado é praticamente um incapacitado para escolher as agendas, os temas, as alianças, os votos em gabinetes, em plenários, em comissões etc, de seu representante depois de eleito, inclusive para ações de referendo e plebiscito.
Por que não DEMOCRATIZAR A REPRESENTAÇÃO, ativando as potências democratizadoras de realizar as ‘promessas’? Ficar apenas na crítica, mesmo que clara e fundamentada, aguardando um tempo de maturação da consciência para a Educação Política e Organizativa, é aprofundar a debilidade da nossa já frágil Democracia. Penso que deveríamos ‘fazer o caminho, caminhando’.
Vejo como factível duas ações: aprofundar e ampliar os ‘mandatos coletivos’, essas experiências já existentes que criam obstáculos ao paternalismo, ao surgimento de ‘mitos’ e personalismos, roedores do banquete democrático que deveria ser para todos. Simulacros muitas vezes do próprio exercício da Democracia Direta; e, realizar uma revolução na comunicação entre representante e representado, superando o ‘diálogo de uma fala’ (sic!), onde se concretiza apenas os ‘pedidos de uma voz só’, das trocas de favores individuais. O velho e atual clientelismo, ‘possessão do mal’ para qualquer Democracia – alimentando o patrimonialismo, o rebaixamento de toda forma de pensar um Projeto de Nação soberano.
Por que não, institucionalizar os ‘mandatos coletivos’ e avançar do comitê eleitoral, para a criação permanente dos ‘comitês de eleitos e cidadãos’ com caráter deliberativo, de supervisão e prestação de contas?
É isso por hoje. Em tempos de irracionalidade, resisto, não me entrego! Exercito e alimento minha Razão, ainda a dos tempos iluministas. Um dia alcançaremos a harmonia entre Razão e Coração!
No último dia 14, a Folha reuniu representantes locais das candidaturas a presidente da República e governador do Estado. Com a participação deles, foram sorteadas as datas para publicação das entrevistas, no esforço democrático de expor as eventuais contradições e, sobretudo, as propostas de cada candidato. A todos foi comunicado que a ausência de respostas, por parte dos candidatos a governador, implicaria na publicação só das perguntas. O presidente municipal do PRP, Vinícius Madureira, participou da reunião. E a data da publicação da entrevista do seu candidato a governador, Anthony Garotinho, foi sorteada para hoje. Ontem, no lugar de responder às 15 perguntas enviadas, Garotinho só encaminhou por seu assessor Antero Gomes uma afirmação de duas frases, sobre sua litigância contra a Folha. Sem as respostas, que você, leitor, não desconheça as perguntas.
Folha da Manhã – O Ministério Público Eleitoral (MPE) pediu sua inelegibilidade, baseado em sua condenação em segunda instância pelo desvio de R$ 234,4 milhões da Saúde em 2005 e 2006, quando era secretário do governo Rosinha. Ao manifestar-se sobre o pedido, o senhor já sinaliza recursos ao TSE e STF. Concorrer sub judice não traz insegurança ao eleitor?
Anthony Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e se limitou à sua litigância contra o jornal)
Folha – O senhor diz que é vítima de uma perseguição “político-jurídica-midiática” que estaria por trás das operações Chequinho e Caixa d’Água. Porém, muito antes delas, o senhor já foi condenado na Segurança Pública S/A e, agora, na “Pecado Capital”. É possível creditar perseguição a tudo isso?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – O senhor cita que grande parte da “perseguição” da qual se diz vítima seria provocada pelo grupo do MDB, que tem presos seus caciques. Não parece ilógico que, no lugar de tentarem se livrar, eles queiram prender o senhor?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – Antes da divulgação, o senhor chamou a delação do doleiro Lúcio Funaro como “uma das maiores bombas atômicas já disparadas sobre a República”. Mas Funaro afirmou que o senhor participava de um esquema de desvio de dinheiro. Com seu nome citado, passou a afirmar que a delação é “seletiva”. As denúncias são inverídicas somente quando o atingem?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – Recentemente, em entrevista ao site Conjur, o senhor afirmou que “a Justiça do Rio de Janeiro precisa com urgência de uma intervenção do Conselho Nacional de Justiça”. Caso seja eleito, o senhor pretende atuar, de alguma forma, junto ao CNJ para que faça esta intervenção no Judiciário do Estado?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – Dias depois de sua entrevista, o CNJ rejeitou sua representação contra o juiz Glaucenir de Oliveira, que determinou sua prisão nas ocasiões da Chequinho e Caixa d’Água, o senhor afirmou que “prevaleceu o corporativismo”. Afinal, o CNJ teria imparcialidade para uma “intervenção” ou também é seletivo?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – Outra “bomba” alardeada pelo senhor, no caso Chequinho foi a divulgação no SBT, em 30 de abril, de depoimento da ex-delegada da Polícia Federal de Campos, Carla Dolinski, sobre supostos abusos na condução da investigação. O advogado de defesa dela é o mesmo do seu: Carlos Fernando dos Santos Azeredo. Coincidência?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – O senhor se vangloria por ter divulgado fotos em que Sérgio Cabral e seu secretariado apareciam dançando com guardanapos na cabeça em Paris, ao lado do empreiteiro Fernando Cavendish. Mas nunca divulgou a imagem de outro relevante empresário presente ao evento parisiense: Benedicto Junior, ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura, e que assinou o contrato do Morar Feliz com a Prefeitura de Campos. Por que ele foi poupado da divulgação?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – A Segurança Pública, sob intervenção militar do governo federal, é hoje um dos principais problemas do Estado do Rio. Na segunda, dois militares foram mortos em troca de tiros. E os assassinos da vereadora Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes ainda estão soltos. Há solução? Como?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – Além da violência, o Estado do Rio vive também um quadro de insolvência financeira. O senhor já disse ser contra os termos do regime de recuperação fiscal firmado entre os governos Temer e Pezão. O que propõe?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – A face mais cruel da falência financeira do Estado se dá sobre os servidores ativos e inativos. Qual o seu compromisso em honrar esses vencimentos?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – Outra face do caos financeiro se dá sobre o abandono da Uenf e do Colégio Agrícola Antônio Sarlo. No debate da Band, quando perguntados sobre a Uerj, apenas o senhor, Eduardo Paes e Tarcísio Motta lembraram que a Uenf existe. O que pretende fazer para que a mais importante instituição de ensino superior da região continue a existir?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – O senhor sempre fala em reativar o setor naval do Estado. Como isso se encaixa com o Porto do Açu, na questão do desenvolvimento específico do Norte Fluminense?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – Com sua foz em Atafona assoreada, o rio Paraíba do Sul sofre bastante em tempo de estiagem. Há registro de língua salina já em Barcelos. Em seu primeiro mandato como prefeito de Campos, o senhor já falava em captação d’água em Lagoa de Cima. Há vida para Campos sem o rio que a formou? Como recuperá-lo?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Folha – O que Campos, Norte e Noroeste Fluminense devem esperar de Garotinho governador?
Garotinho – (O candidato não respondeu à pergunta e repetiu sua litigância)
Por Aluysio Abreu Barbosa, Arnaldo Neto e Aldir Sales
“Aquecer a economia local e recuperar empregos perdidos, reativando os setores de petróleo e gás, com a reestatização da Petrobras”. É a proposta para Campos, Norte e Noroeste Fluminense do candidato do Psol a presidente e líder do Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos. Por definição em sorteio, na presença de representantes dos partidos, a entrevista exclusiva, feita por e-mail, abre hoje a série que a Folha trará nos próximos dias com os candidatos a presidente da República e governador do Rio. Boulos defendeu a função social da propriedade privada e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT): “é uma pessoa que tem uma história e uma trajetória que precisam ser respeitadas”.
Folha da Manhã – Sua candidatura pelo Psol nasce da sua liderança no MTST, que afirma logo ao início da sua cartilha de princípios: “o capitalismo é nosso inimigo”. Esse discurso ainda tem vez no mundo de hoje? Como e por quê?
Guilherme Boulos – O capitalismo vende que as “oportunidades são para todos”, enquanto sabemos que a desigualdade é condição vital para sua existência. Hoje, o mundo é muito mais desigual do que no século passado, conforme mostrou a Oxfam (Ong internacional, que atua em mais de 90 países). Um regime econômico em que 5% da população brasileira detêm a mesma fatia de renda de 95% e que 6 brasileiros concentram a mesma riqueza de 100 milhões não pode ser considerado um sistema que deu certo. É o capitalismo do 1%, onde os 99% pagam todas as contas.
Folha – Em que sua ação no comando de invasões em imóveis e terrenos privados nas cidades, ao longo de 16 anos no MTST, o credencia a ser presidente da República? Que garantias a propriedade privada teria em seu governo?
Boulos – A Constituição do Brasil assegura o direito à propriedade, mas afirma que todas precisam cumprir sua função social: ociosas, vazias ou abandonadas estão em condição de ilegalidade. Não sou eu que estou afirmando isso: está em nossa lei. No MTST, lutamos para que tanto a função social da propriedade quanto o direito à moradia, ambos previstos na Constituição, sejam assegurados. Morar virou um privilégio que poucos podem arcar. Quem tem que decidir entre colocar a comida na mesa ou pagar aluguel sabe do que estou falando.
Folha – Em 2017, o senhor foi detido por incitação à violência e desobediência, numa reintegração de posse em São Paulo. E a prisão foi chamada de “política”. Condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, a prisão de Lula mereceu igual classificação. Como fugir da impressão de que prisão de alguém da esquerda, para a esquerda, é sempre “política”?
Boulos – Não compactuamos com injustiças e todos os dias, infelizmente, vemos um Judiciário que toma lado. São diversos os casos de empresários invadindo terrenos públicos para fins privados e só vemos decisões judiciais contra quem ocupa porque não tem acesso à moradia digna. Enquanto prendem Lula, há provas de sobra para incriminar Aécio Neves (PSDB) e Michel Temer (MDB). O processo que condenou Lula é ilegal do começo ao fim e teve como objetivo impedi-lo de concorrer à presidência, onde, até hoje, é o favorito dos eleitores.
Folha – Antes de Lula ser preso, quatro presidenciáveis estiveram juntos no palanque de São Bernardo do Campo: ele, o senhor, Fernando Haddad (PT) e Manuela D’Ávila (PCdoB). Com o primeiro provavelmente fora do páreo, pela Lei da Ficha Limpa que sancionou quando presidente, como espera disputar o mesmo eleitor contra a chapa reserva dos outros dois?
Boulos – Em primeiro lugar, é importante reafirmar nosso apoio à candidatura e repúdio à injustiça cometida. Até a ONU emitiu comunicado pedindo que seus direitos políticos sejam respeitados. Defendemos unidos a democracia contra uma crescente onda de ódio e violência. Mas, a esquerda tem diferentes pontos de vista, incluindo o jeito de fazer política. É por isso que temos mais de uma candidatura desse campo no primeiro turno. É saudável e democrático. E o eleitor pode decidir pela chapa com propostas mais de acordo com seus princípios.
Folha – Sua imagem sempre foi muito ligada à de Lula. E isso foi questionado por setores do Psol, que nasceu das críticas ao comportamento ético e às alianças do PT. A esquerda brasileira um dia vai sair da sombra do lulopetismo?
Boulos – Lula é uma pessoa que tem uma história e uma trajetória que precisam ser respeitadas. O Brasil avançou muito com políticas sociais dos seus governos. Mas, sempre expressei críticas aos governos do PT, que decidiram se aliar a grandes empresários e partidos que hoje, apoiam Temer e a retirada de direitos da população. Essa opção política profundamente equivocada é questionada pelo Psol desde o início e é por isso que entrei no partido.
Folha – No debate da Band, no dia 9, o senhor lembrou matéria da Folha de São Paulo e perguntou a Jair Bolsonaro (PSL): “Quem é a Wal?”. No dia 13, Walderice Santos da Conceição, assessora parlamentar do deputado, foi flagrada vendendo açaí em Angra dos Reis e acabou exonerada. No dia 18, o Globo noticiou que MPF agora pensa em investigar o caso. Qual é o saldo?
Boulos – Walderice foi contratada com dinheiro público pelo mandato para fins privados: como ele mesmo admitiu, ela cuida de uma de suas casas em Angra dos Reis e é responsável por dar comida aos seus cachorros. Por que Bolsonaro não a paga com seu salário de R$ 33 mil ao invés de demiti-la? Esse caso mostra que Bolsonaro não representa uma alternativa. É a velha política que ninguém aguenta mais. Está há décadas no Congresso, já trocou de partido diversas vezes por pura conveniência política, votou na maioria das vezes contra os interesses dos mais pobres e da classe média, e usa o dinheiro público para seus interesses privados.
Folha – No debate da Rede TV, dia 17, o senhor ficou ao lado de Ciro Gomes (PDT), com quem trocou risos e conversas ao pé do ouvido. Considera a candidatura dele de esquerda? Como viu o isolamento que lhe impôs o PT, que deu a cabeça de Marília Arraes ao PSB de Pernambuco? O que achou dele ter definido a insistência do PT com Lula como “viagem lisérgica”?
Boulos – Existem correspondências entre projetos apoiados pela campanha do Ciro e a minha e nos posicionamos de formas parecidas sobre acontecimentos recentes da política brasileira, com o maior deles tendo sido o golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff. Quanto às movimentações ao redor de sua campanha e da do PT, lembramos que nossa proposta para a sociedade brasileira passa longe da lógica de alianças tradicionais e o modo de operação desse sistema político.
Folha – O senhor é formado na USP. Professor dela, o filósofo Pablo Ortellado publicou em 2016 o artigo “É possível falar de corrupção a partir da esquerda?”. Pelo discurso de combate à corrupção e a alguns privilégios do setor público, que o senhor e o candidato do Psol a governador do Rio, Tarcísio Motta, adotaram nos debates, alguma lição foi aprendida? Qual?
Boulos – A corrupção começa com o financiamento privado de campanha eleitoral. Os vencedores vão atender aos interesses de quem lhes financiou e não de quem votou. Nós não fazemos política assim. Ser de esquerda é governar para os 99% da população e não para uma elite minoritária que paga políticos para ser atendida.
Folha – Inegável que um dos graves problemas do Brasil hoje é Segurança Pública. A pauta é um dos principais motivos dos 20% de intenção de Bolsonaro. Qual é seu projeto para a área, sua opinião sobre a intervenção militar no Estado do Rio e o assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes?
Boulos – Bolsonaro se aproveita do momento crítico que estamos vivendo para vender saídas fáceis e covardes. Armar o povo é ideia de quem não tem competência para resolver o problema. Isso só traria mais violência, mortes e insegurança para toda a população. É dever do Estado atuar e não se abster dessa responsabilidade, fazendo com que os cidadãos se arrisquem. Segurança pública não se resolve com mais militarização, cadeia e armamento e os números alarmantes comprovam isso. Em 2017, o Brasil gastou quase R$ 85 bilhões, o equivalente a 1,3% do PIB. Mas no mesmo ano registrou 7 mortes por hora, um recorde de violência. No Rio de Janeiro, desde o início da intervenção militar, foram gastos mais de R$ 46 milhões apenas do governo federal. Vamos investir inteligência e prevenção, combatendo o mal na raiz. O governo fluminense gastou só R$ 258 este ano em informações e inteligência, segundo o portal da transparência. Vamos construir um sistema de informação para mapear o dinheiro sujo, desmantelar os esquemas de lavagem de dinheiro e colocar fim ao tráfico de armas. Esse investimento é mais baixo e produz resultados diretos, sobretudo na otimização do trabalho das forças de segurança, que são uma das que mais matam e mais morrem no mundo. Vamos impedir que os fuzis que mataram Marielle Franco e Anderson Gomes cheguem às mãos de outros.
Folha – O senhor já declarou que pretende revogar a reforma trabalhista aprovada pelo governo Michel Temer (MDB). E falou em plebiscito. O que colocar no lugar? E como?
Boulos – Menos direitos não geram mais emprego, como alguns candidatos gostam de propagar. Em 2018, o governo planejou a criação de 1 milhão de empregos formais e a meta já caiu para 20% disso. O número de desempregados só cresce. Para a economia voltar a crescer e gerar empregos, devemos mexer nos privilégios do 1% mais rico que deita e rola enquanto o trabalhador tenta sobreviver de bico em bico. Por isso, faremos a reforma tributária para aliviar a classe baixa e média e para que os ricos comecem a pagar imposto no Brasil.
Folha – Outro dos principais problemas do Brasil é o desemprego. São cerca de 13 milhões, dos quais 3,3 milhões simplesmente desistiram de buscar vaga no mercado de trabalho. Como reverter esse quadro?
Boulos – Nenhum país saiu de crise econômica sem investimento público. Em nosso governo, faremos o “Levanta Brasil”: um programa de investimento público direto que vai gerar 6 milhões de vagas diretas e indiretas em apenas 2 anos. Vamos ajudar as pequenas e médias empresas nesse ciclo com programas de crédito adequados a sua realidade. Serão obras de infraestrutura viária, logística e social, sobretudo nas regiões mais atingidas pela crise ou com carência de infraestrutura. Nosso orçamento virá da revisão de exoneração fiscal bilionária concedida às grandes empresas e de uma reforma tributária progressiva, que tire o peso das costas dos trabalhadores e da classe média e faça quem ganha mais, pagar mais.
Folha – Seu economista, Marco Antonio Rocha, declarou recentemente que “a Previdência não é a fonte do nosso atual problema fiscal e será um problema apenas no médio prazo”. A reforma da Previdência está descartada no seu governo?
Boulos – Conseguimos barrar a reforma da Previdência nas ruas e somos totalmente contra esse modelo que quer que o trabalhador se aposente em seu túmulo. É muito fácil apontar o déficit da Previdência, quando o dinheiro que deveria ir para ela está sendo retirado e direcionado para os mais ricos. Temos R$ 450 bilhões de estoque de dívida de grandes empresas com a Previdência no Brasil. Além disso, hoje, 30% do total da arrecadação por meio da DRU (Desvinculação das Receitas da União) é desviado de sua finalidade original para pagar juros da dívida pública.
Folha – A exploração de petróleo na Bacia de Campos é a principal fonte de orçamento de muitos municípios da região. Qual é a sua posição sobre a possibilidade de privatização da Petrobras? E sobre as privatizações, de modo geral?
Boulos – Privatizar serviços essenciais não faz parte do meu programa. As empresas públicas não têm que dar lucro para acionistas, mas sim universalizar direitos com qualidade para toda a população. Na Petrobras, desde o ano passado, Temer subordinou o preço interno do combustível ao preço do barril de petróleo internacional. Prioriza-se o lucro dos investidores ao bem-estar da população, que vê o preço da gasolina e do botijão subir cada vez mais. Além de vender a preço de banana a participação na exploração de campos da Petrobras, ainda aprovou isenção, durante 20 anos, para multinacionais do petróleo e autorizou a importação de combustível. Esse “presente” dado de mão beijada pode chegar a R$ 1 trilhão.
Folha – Aprovada no Congresso Nacional, a partilha dos royalties do petróleo entre estados e municípios produtores com todos os demais da União está pendurado desde 2013 por uma liminar da ministra Carmem Lúcia, do STF. Qual a sua posição a respeito?
Boulos – Temos que separar duas questões diferentes sobre a partilha dos royalties do petróleo. Em primeiro lugar, defendemos que para os campos do pré-sal seja mantida a proposta original do projeto de lei apresentado no governo Dilma que previa o repasse de 75% dos royalties do pré-sal para educação e 25% para saúde. A segunda questão é sobre a mudança no regime de partilha entre estados e municípios produtores e não produtores e a União. A estimativa é que a arrecadação com os royalties para 2018 alcance cerca de R$ 40 bilhões. É um volume significativo, mas a capacidade de se utilizar os royalties para políticas que tenham efeitos significativos para a população depende de uma certa centralização desses recursos. A mudança da partilha, favorecendo estados e municípios não produtores, ainda que ofereça alguma folga fiscal em um momento de queda de arrecadação de estados e municípios, torna os recursos mais dispersos. Uma outra questão é que entendemos também que os recursos dos royalties devem estar relacionados com a reparação de impactos negativos eventualmente criados pela exploração do petróleo, que incluem além de possíveis acidentes ambientais, o crescimento urbano desordenado e os efeitos sobre a especialização da estrutura econômica da região em uma commodity de alta volatilidade de preços no mercado internacional. Por isso, entendemos que deve se manter maior centralidade sobre a arrecadação destes recursos, mas ao mesmo tempo, os recursos devem ser aplicados em fundos para a diversificação econômica das regiões produtoras, para que não fiquem reféns das receitas do petróleo apenas. E também em políticas voltadas ao desenvolvimento de regiões não produtoras de petróleo.
Folha – Somos um jornal regional. O que Campos, Norte e Noroeste Fluminense devem esperar de Guilherme Boulos presidente?
Boulos – Vamos aquecer a economia local e recuperar empregos perdidos, reativando os setores de petróleo e gás, com a reestatização da Petrobras, e também de infraestrutura, com o programa “Levanta Brasil”. Paralelamente, vamos apoiar com uma linha especial de crédito do BNDES micro, pequenas e médias empresas, além de produtores rurais locais.
Após o Ibope, na segunda (20), ontem (22) foi a vez da Datafolha divulgar suas consultas para governador do Rio e presidente da República. Entre os dois institutos de pesquisa mais conceituados do país, houve muitas similaridades e algumas diferenças. Na disputa ao Palácio Guanabara, a liderança de Romário Faria (Pode), que já não era isolada no Ibope, não existe mais no Datafolha. Na estimulada deste, Eduardo Paes (DEM) teve 18%; Romário, 16%; e Anthony Garotinho (PRP), 12%. O político de Campos só fica em empate técnico na liderança se forçada ao máximo a margem de erro de três pontos percentuais para mais ou menos.
Rejeição a governador
No pelotão intermediário a governador, outra diferença entre Ibope e Datafolha. O primeiro instituto colocou Tarcísio Motta (Psol), com 5%, à frente de Indio da Costa (PSD), com 3%. Enquanto o segundo transformou o empate técnico em absoluto: Tarcísio e Indio estariam com os mesmos 3%. Definidoras do primeiro turno, as intenções de voto são sempre limitadas no segundo pela rejeição. E, no índice negativo, o líder isolado nos dois institutos é Garotinho: após bater impressionantes 55% no Ibope, ele registrou 45% no Datafolha. Neste, foi seguido à distância na rejeição a Paes (32%), Romário (23%), Indio (19%) e Tarcísio (10%).
Recordar é viver
Entre as duas pesquisas ao Palácio Guanabara, a comparação entre os três líderes no empate técnico indica uma curva descendente de Romário e outra ascendente, de Paes. Garotinho está na briga pelo primeiro turno, mas sua enorme rejeição indica dificuldades no eventual segundo, contra qualquer adversário. É um limitador que ele encara desde 2014, quando chegou a liderar a corrida, mas morreu na praia, ficando fora do turno final entre o governador Luiz Fernando Pezão (MDB) e Marcelo Crivella (PRB). Este hoje apoia o político campista, mas sofre grande desgaste como prefeito do Rio.
Voto de Lula
De governador do Rio a presidente do Brasil, Ibope e Datafolha apontam a liderança isolada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Se, na estimulada do primeiro, ele bateu 37%, subiu ainda mais no segundo: 39%. Preso desde 7 de abril e virtualmente inelegível pela Lei da Ficha Limpa que sancionou quando presidente, é favorecido pela condição de vítima. Nas fatias dos institutos, seu eleitor tem o perfil delineado: é sobretudo feminino, tem 45 anos ou mais, cursou só o fundamental, ganha até dois salários mínimos e se concentra no Nordeste e Norte. Afirmar que o pobre de pouco estudo vota em Lula, além do maniqueísmo, tem critério estatístico.
Capitão pró e contra
Sem Lula na disputa, como todos os institutos registram há dois anos, o líder isolado é Jair Bolsonaro (PSL). Ele teve 18% na estimulada do Ibope e 22%, no Datafolha. Salvo o imponderável, como a gravação do presidente Michel Temer (MDB) pelo empresário Joesley Batista, tudo indica que o ex-capitão do Exército estará no segundo turno. Mas uma vez lá, pelas simulações do Datafolha, seria batido por quase todos os principais adversários: 34% a 45% por Marina Silva (Rede), 33% a 38% por Geraldo Alckmin (PSDB) e 35% a 38%, por Ciro Gomes (PDT) — empate técnico na margem de erro de dois pontos para mais ou menos.
Voto de Bolsonaro
As projeções ruins no segundo turno têm motivo simples: 39% do eleitorado não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum. Líder de rejeição, ele é seguido por Lula (34%), Alckmin (26%), Marina (25%) e Ciro (23%). Embora Fernando Haddad, candidato estepe do PT, tenha rejeição só de 21%, é o único de quem o ex-capitão ganharia no segundo turno: 38% a 29%. O eleitor padrão de Bolsonaro também é descrito pelo Datafolha: masculino, entre 35 e 44 anos, ensino superior, ganha mais de 10 mínimos e se concentra no Sul do país — única região onde supera até Lula, por 28% a 25%. Seu voto majoritário é do homem rico que fez faculdade.
Debate na Uenf
Quem esteve ontem em Campos, para participar de um debate da Uenf, foi o deputado federal Wadih Damous (PT). Ex-presidente da OAB-RJ, ele tem também atuado na defesa de Lula. Após a exibição do documentário “O processo”, dirigido por Maria Augusta Nunes, Damous participou de um debate na sala de cinema da universidade, com o jornalista Marcel Silvano e a professora Luciane Soares, presidente da Aduenf. Lançado em 2018, o filme narra o processo de instabilidade política do país iniciado em 2013, culminando no processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), concluído em 2016.
Guilherme Boulos, candidato a presidente pelo Psol (Foto: reprodução de Facebook)
“Vamos aquecer a economia local e recuperar empregos perdidos, reativando os setores de petróleo e gás, com a reestatização da Petrobras, e também de infraestrutura, com o programa ’Levanta Brasil’. Paralelamente, vamos apoiar com uma linha especial de crédito do BNDES micro, pequenas e médias empresas, além de produtores rurais locais.”
Foi o que o candidato a presidente Guilherme Boulos (Psol) prometeu fazer por Campos, Norte e Noroeste Fluminense, se eleito ao Palácio do Planalto. A entrevista exclusiva com o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) será publicada nesta quinta (23). E será a primeira da série que a Folha da Manhã fará com os candidatos a presidente da República e governador do Rio.
As datas das publicações foram sorteadas (aqui) na sede da Folha, com presença dos representantes locais das candidaturas. Todos foram convidados. A última tem públicação prevista para 30 de setembro, no domingo anterior às urnas de 7 de outubro.
Conheça a ordem das entrevistas definidas em sorteio:
Leia a íntegra da entrevista de Guilherme Boulos na edição desta quinta (23) na Folha da Manhã
Nazista 1: – O senhor também estudou Direito. Como o aplica?
Nazista 2: – Me serve para desconfiar das palavras. Uma pistola nunca é mal interpretada.
Diálogo do Filme ‘Conspiração’, de Frank Pierson.
Por 3 votos a 2, a segunda turma do STF decidiu ontem que José Dirceu pode aguardar em liberdade o julgamento do seu recurso especial perante o Superior Tribunal de Justiça. Dirceu foi condenado pelo TRF-4 a mais de 30 anos de prisão, por lavagem de dinheiro, organização criminosa e corrupção passiva, e esse tribunal tinha determinado o cumprimento imediato da pena, conforme permissão do Supremo Tribunal Federal.
Os ministros Toffoli, Mendes e Lewandoski — a maioria da 2ª turma — entenderam que havia ‘plausibilidade jurídica’ de que a condenação fosse revisada no Tribunal Superior, e por isso revogaram a prisão provisória, confirmando o Habeas Corpus que Toffoli tinha concedido de ofício, isto é, por própria iniciativa, sem provocação da defesa de Dirceu.
Para o leigo, tudo isto pode parecer complicado de entender. Se esse é seu caso, fique tranquilo: para quem conhece de Direito, também é confuso.
Na prática, quase todo recurso mais ou menos bem fundamentado tem ‘plausibilidade jurídica’ de ser concedido. Como também tem plausibilidade de ser negado. Para definir isso é que existe o julgamento dele, que neste caso cabe ao STJ. Quando o trio de ministros garantistas do STF diz que ‘há plausibilidade’ está fazendo um prejulgamento que não lhe compete. Estão nos lembrando, em palavras simples, ‘não gostamos da prisão a partir da segunda instância’. Essa opinião já era conhecida, pois eles, junto com o ministro Marco Aurélio, foram muito eloquentes na ocasião em que o plenário do Supremo discutiu o assunto. Mas perderam.
Afinal, se é possível adiantar a pena, ainda havendo possibilidade de recurso aos tribunais especiais, é lógico que sempre existirá a chance, por pequena que for, de modificar a condenação. No entanto se, raciocinando como os ministros fazem, a pena não deve ser cumprida porque poderia haver eventual modificação, logo não é possível adiantar nunca a pena — contrariando justamente o que a maioria do Supremo tinha permitido.
Não há necessidade de notório saber jurídico para compreender que se trata de uma artimanha lógica, onde a vontade se antepõe ao Direito. Ou seja, onde o parecer jurídico de um ministro se amolda a uma preferência prévia. É o famoso ‘salto triplo carpado hermenêutico’, expressão do ex ministro Ayres Britto.
Aparentemente, o ser humano, por razões diversas, primeiro gosta ou desgosta (de uma coisa, uma pessoa, ou atitude) e só depois tenta criar uma estrutura lógica que se ajuste a esse gosto/desgosto. Muitas vezes essa justificativa posterior não é suficiente para sustentar o que sentimos, e podemos ser facilmente refutados. No entanto, dado que somos teimosos, seguimos em frente: complicamos o raciocínio, trocamos inteligência por astúcia e dizemos “não é tão assim, é mais complexo, etc”. É uma espécie de catimba intelectual.
Quando a catimba intelectual é utilizada por aqueles que deveriam se ajustar ao Direito, estamos em problemas. Isso pode, Arnaldo?
Após dois debates entre os candidatos a presidente e um a governador, o clima de campanha esquentou de vez com a divulgação de três pesquisas ontem. Também foram duas ao Palácio do Planalto e uma ao Guanabara. Na primeira disputa, as consultas CNT/MDA e Ibope colocaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) bem à frente dos demais. Mas preso desde 7 de abril e virtualmente inelegível pela Lei da Ficha Limpa, Lula teve grande diferença na capacidade de transferência de votos pelos dois institutos. A governador, o Ibope apontou um empate técnico entre Romário (Pode), Eduardo Paes (DEM) e Anthony Garotinho (PRP).
Igual e (bem) diferente
Com Lula como opção, os números CNT/MDA e Ibope foram muito parecidos. O líder petista liderou nos dois, respectivamente, com 37,3% e 37%; seguido de Jair Bolsonaro (PSL), 18,3% e 18%; Marina Silva (Rede), 5,6% e 6%; Geraldo Alckmin (PSDB), 4,9% e 5%; Ciro Gomes (PDT), 4,1% e 5%; e Álvaro Dias (Pode), 2,7% e 3%. Mas a consulta que a realidade projeta é sem Lula. E nela a diferença foi abissal entre os dois institutos. Enquanto, para o CNT/MDA, o ex-presidente transfere 17,35% de intenções de voto ao seu substituto Fernando Haddad (PT), este não passou dos 4% no Ibope.
47 dias (I)
Assim, os petistas que no almoço comemoraram o desempenho de Haddad no CNT/MDA, tomaram uma ducha de água fria no jantar, quando o Ibope revelou seus números. Sem Lula, Bolsonaro segue líder, com 20%, acompanhado de Marina, 12%; Ciro, 9%; e Alckmin, 7%. Atrás do tucano, Haddad (4%) só ficou à frente de Álvaro Dias (3%). Além de Eymael (DC), Henrique Meirelles (MDB), João Amoêdo (Novo), Cabo Daciolo (Patri), Vera (PSTU) e João Goulart Filho (PPL), todos com 1%. A diferença se deu porque o CNT/MDA colocou Haddad como “candidato de Lula”. Ligação mais difícil de ser feita a cada dia, nos 47 que ainda separam eleitor e urna.
47 dias (II)
Enquanto o PT finge que Lula será candidato, a maior herdeira dos seus votos é uma ex-petista. Sem o ex-presidente, de quem foi ministra, Marina pula de 6% a 12%. Seu quinhão de seis pontos percentuais do eleitorado lulista supera os 4 que ganham Haddad e Ciro, ou dos 2 que sobram até para Alckmin e Bolsonaro. Na margem de erro de dois pontos para mais ou menos do Ibope, que ouviu 2.002 pessoas de 17 a 19 de agosto, Marina teve empate técnico em segundo com Ciro. Mas o fato é que Bolsonaro e ela só ficam atrás de Lula nas pesquisas. Não apenas ontem, mas há dois anos. Os demais têm 47 dias para mudar o jogo.
Líderes no RJ
A disputa também é acirrada ao governo do Rio. Divulgada ontem, a pesquisa Ibope ouviu 1.204 eleitores, entre 17 e 20 de agosto. Em empate técnico, na margem de erro de três pontos para mais ou menos, lideram Romário Faria (Pode), com 14%; Eduardo Paes (DEM) e Anthony Garotinho (PRP), ambos com 12%. Além da queda de Romário, que liderava a com folga, surpreendeu o crescimento de Tarcísio Motta (Psol), com 5%, superando Indio da Costa (PSD), com 3%. Mesmo no empate técnico, parece reflexo do debate da Band, no dia 16, onde Tarcísio teve bom desempenho, enquanto Indio fez escada para Garotinho bater em Paes.
Todos juntos…
A inelegibilidade de Lula parece certa. E a possibilidade de outra assombra um dos principais concorrentes ao Palácio Guanabara. Ontem, o Ministério Público Eleitoral (MPE) pediu a impugnação de Garotinho, baseado em sua condenação em segunda instância pelo desvio de R$ 234,4 milhões da Saúde em 2005 e 2006, quando era secretário do governo Rosinha. Isso depois dele ter afirmado no debate da Band, em tabela com o ex-juiz federal e também candidato Wilson Witzel (PSC), que estavam para sair os mandados de prisão advindos da delação de Alexandre Pinto, ex-secretário de Obras de Paes na Prefeitura do Rio.
…E misturados
Numa disputa entre os líderes da corrida ao governo do Rio, um dia depois do debate da Band, na sexta (17) foi divulgado que Romário teve um Porsche apreendido em sua casa, para pagamento de dívidas. O ex-craque alegou que o veículo avaliado em R$ 350 mil era da sua irmã e ele apenas “usava emprestado”. Por sua vez, Garotinho se defendeu do pedido de inelegibilidade do MPE: “Criaram a figura do enriquecimento ilícito de terceiros. A Lei da Ficha Limpa diz que tem que ter enriquecimento ilícito do agente público. Até agradeço ao MPE por ter reconhecido minha honestidade, já que não houve enriquecimento ilícito meu”.
Somos bombardeados por tantas informações vindas de nossos sentidos que o cérebro precisa filtrar aquilo que considera mais importante a fim de evitar uma pane. Seríamos sobrecarregados e impossibilitados de racionalizar não fosse por isso. Os filtros estabelecidos pelo cérebro com base em experiências passadas, expectativas e desejos eliminam tudo o que não importa muito a nós.
Um exemplo disso é quando desejamos comprar um determinado modelo de carro e como num passe de mágica, eles se multiplicam pelas ruas e passam a ser vistos a todo o momento. Outro exemplo se dá quando dois indivíduos narram uma cena e, ao ouvinte, parecem se tratar de cenas completamente diferentes.
Após o debate dos presidenciáveis na Rede TV na última sexta-feira, 17 de agosto, Bolsonaro e Marina protagonizaram o diálogo mais repercutido nas redes, ao menos para os meus filtros, e, não estranhamente, seus admiradores parecem ter assistido a dois filmes diferentes. Para os bolsonáticos foi um massacre ter enquadrado Marina como evangélica de araque por cogitar plebiscito para questões como aborto e legalização de drogas. Para os marináticos o enquadramento foi inverso, ao Marina ter retrucado, citando Provérbios e dizendo ser o Estado laico e que Bolsonaro ensinaria as pessoas a ganhar no grito e ainda teria “corrompido” uma criança ao ensiná-la a fazer gesto com a mão imitando uma arma.
O episódio nos revela que debates talvez não sejam mais que inúteis, que são incapazes de persuadir o eleitor a mudar de opinião e que, talvez, não sirvam a mais que fazer decisões já tomadas serem ainda mais consolidadas e a polarização se tornar ainda mais forte. Mas… isso pode ser apenas o meu filtro.
“Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele”
(Provérbios de Salomão, 22:6)
Muito se tem discutido sobre a imposição da pauta politicamente correta no Brasil. Independente da opinião pessoal que se tenha sobre cotas raciais, feminismo e questões de gênero, inegável que a reação do cidadão médio a esses temas é uma das principais causas ao avanço do conservadorismo no país. E ninguém soube surfar essa onda melhor do que o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL). Não por outro motivo, a exatos 50 dias das urnas, ele hoje detém razoável folga na liderança de todas as pesquisas ao Palácio do Planalto sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Embora as mesmas pesquisas também indiquem que Bolsonaro bateu seu teto de intenções de voto, com cerca de 20% delas, ele caminha a passos largos para tentar garantir uma das duas vagas ao segundo turno. Numa eleição pulverizada, com quatro ou cinco candidaturas competitivas, é provável que um presidenciável com 20% dos votos em 7 de outubro esteja novamente como opção ao eleitor nas urnas do dia 28 do mesmo mês. Se candidatos como Geraldo Alckmin (PSDB), João Amôedo (Novo) e Henrique Meirelles (MDB) não avançarem juntos pelo menos 10 pontos percentuais no numeroso voto conservador e antipetista, tudo indica que seu candidato final será o ex-capitão do Exército.
Para entender o que acontece agora, necessário recuar um pouco no tempo. Em 2011, junto com a bancada evangélica, Bolsonaro liderou a reação contra o projeto “Escola sem Homofobia”. Pejorativamente chamado de “kit gay”, pretendia levar a discussão, exemplificada em material didático, às salas de aula de crianças e adolescentes em todo o país. Curiosamente, quem estava à época no comando do ministério da Educação era Fernando Haddad, hoje candidato a presidente estepe do PT. E o capitão foi vencedor daquela contenda, depois que o estreante governo Dilma Rousseff (PT) desistiu de distribuir o material. Com o apoio, inclusive, de mães e pais progressistas que se acharam no devido direito de restringir aos seus lares esse tipo de debate com seus filhos.
A visão crítica do atrelamento do “politicamente correto” às esquerdas do Brasil, e do mundo, não é exclusividade da direita. Ministro dos governos Lula e Dilma, aos quais serviu como principal elo entre PT e PCdoB, Aldo Rebelo hoje está no Solidariedade. Em entrevista à BBC Brasil, em maio deste ano, ele admitiu:
— Entrei no PCdoB em busca da realização de ideias que julgava importantes na minha juventude, quando o nacionalismo era muito forte. Queria lutar por um país mais equilibrado e justo. Mas os tempos e as agendas mudaram. A questão nacional passou a ter peso pequeno na agenda das esquerdas. As agendas identitárias e o multiculturalismo passaram ter muito mais importância. Isso me levou a um afastamento dessa esquerda moderna, do politicamente correto.
O que isso significa foi bem contrastado em duas noites/madrugadas recentes. De quinta (16) para sexta (17), se deu o primeiro debate entre os candidatos a governador do Rio. Promovido pela Band, nele a petista Márcia Tiburi evidenciou como um partido que até recentemente foi o maior do cenário político nacional, hoje se reduziu a um palanque de defesa de Lula — naquilo que o presidenciável Ciro Gomes (PDT) batizou de “viagem lisérgica”. Como descrito na coluna “Ponto Final”, em sua edição ontem (18):
— Professora de filosofia, Tiburi tem boa articulação verbal, mas se revelou militante travestida de candidata. Não por usar camisa e colar com as imagens do ex-presidente Lula, mas pelo caráter meramente panfletário das suas intervenções. No último bloco resumiu as perspectivas reais da sua candidatura: “Lula vai vencer e eu também”. Depois, concluiu com sua proposta: “fazer um Rio de Janeiro feliz para as pessoas”. A petista lembrou ser a única mulher entre os candidatos. E ressalvou não haver entre eles nenhum negro. Romário reivindicou a cota e disse que o negro ali era ele. Pelo que ambos mostraram no debate, as condições para governar o Estado não dependem de gênero ou raça.
Hasteado como bandeira pelos dois candidatos a governador do Rio mais fracos do debate, o politicamente correto teve o auxílio do Rei Salomão para que Bolsonaro recebesse sua primeira enquadrada num debate presidencial. Coincidência ou não, a tarefa coube a uma mulher negra, Marina Silva (Rede), no evento da Rede TV entre sexta e sábado (18).
Talvez preocupado com a candidata que todas as pesquisas sem Lula apontam estar em segundo lugar na corrida, e projetam ser a mais difícil de ser batida num eventual segundo turno, o ex-capitão leu uma cola na palma da mão esquerda para escolher a ambientalista, chamá-la ao centro do palco e, em pé diante dela, perguntar:
— (…) Armamento, eu sou favorável que o cidadão de bem tenha posse de arma de fogo. A senhora concorda com isso ou não?
— Não. Antes que queria te dizer uma coisa, Bolsonaro. Você disse que a questão dos salários menores para as mulheres é uma coisa que a gente não precisa se preocupar porque já está na CLT. Só uma pessoa que não sabe o que significa uma mulher ganhar um salário menor do que um homem e ter as mesmas capacidades, a mesma competência (…) Porque quando se é presidente da República, a gente tem que fazer cumprir o artigo 5º da Constituição, que diz nenhuma mulher deve ser descriminada. Não fazer vista grossa (…) Tem que se preocupar, sim. Um presidente da República está lá para combater injustiça.
Visivelmente constrangido pelo “sermão” de Marina, que recebeu evitando encará-la, enquanto aparentemente buscava com os olhos a orientação de um assessor fora do plano da câmera, Bolsonaro foi ao ataque na réplica. E, finalmente olhando para a adversária, disse:
— Temos aqui uma evangélica que defende um plebiscito para aborto e para maconha. E quer agora defender a mulher. Você não sabe o que é uma mulher, Marina, ter um filho jogado no mundo das drogas. (…) Eu defendo a mulher. Inclusive defendo a castração química para estupradores. (…) No tocante a arma de fogo, eu defendo, sim, que a mulher inclusive, caso queira, a mulher de bem, a mulher preparada, que tenha a posse de uma arma de fogo dentro de casa para se defender, se assim ela o desejar.
— Você acha que pode resolver tudo no grito, na violência. Nós somos mais. (…) A coisa que uma mãe mais quer é ver seu filho ser educado para ser um cidadão de bem. Você fica ensinando aos nossos jovens que tem que resolver as coisas na base do grito, Bolsonaro. Você é um deputado, você é pai de família. Você um dia desses pegou uma mãozinha de uma criança e ensinou como é que se faz para atirar. Você sabe o que a Bíblia diz sobre ensinar uma criança? “Ensina a criança no caminho em que deve andar. E até quando for grande, não se desviará do caminho”. (…) E, numa democracia, o Estado é laico.
Dificilmente definirá a eleição, mas essa vitória da moral sobre o moralismo foi o melhor momento do debate. E lavou a alma de muitas mães e filhos Brasil afora.
Se é verdade, como vimos no artigo anterior, que a social-democracia fracassou em seu intuito original de reformar a sociedade capitalista em sentido socialista — onde os arranjos produtivos fossem diversificados e institucionalizados sob a direção de novas forças sociais, quer sob a forma estatal de uma tecnocracia socialmente orientada, quer sob a forma pública de uma tecnoestrutura[i] produtiva autogerida, no nível mais alto da produtividade social —, é certo que ela alcançou um nível de democratização social inédito, no velho continente, por meio do direcionamento direto das políticas públicas em prol das necessidades sociais e não indireto por meio do mercado (lucro) como no passado.
Quem costuma minimizar a importância desse construto ecumênico entre liberais e socialistas, deveria olhar para a reação dos liberais dissidentes da nova ordem, como Joseph Schumpeter (1883-1950), e suas críticas à “Marcha para o Socialismo” na Europa, onde os assuntos econômicos emigravam “da esfera privada para a esfera pública” sob a égide de “uma vasta máquina burocrática administrando os processos (…) produtivo e distributivo” em nome de “órgãos democráticos como os que hoje conhecemos (…), escolhidos pelo voto” no seio do Estado[ii].
É nesta tradição regulacionista — hoje majoritariamente rechaçada pelos liberais ocidentais por sua necessária proteção cambial e de capitais — que podemos ancorar a possibilidade de um programa mínimo da esquerda, buscando a retomada do desenvolvimento econômico em proveito da estabilidade democrática e social.
Embora “mínimo”, tal programa, sobretudo em países da periferia capitalista, como o Brasil, está longe de ser tímido ou menor, visto que em nossa história republicana tal desiderato se viu em divórcio persistente na realidade, tanto sob os governos populistas (era Vargas), como dos nacionalistas de direita (período militar), para não falarmos no recente fracasso/desastre do período lulo-petista — onde o divórcio, eludido pela exuberância do comércio internacional, de um lado, e pela capilaridade da venalidade política, de outro, mostrou-se em sua inteireza na pior recessão da nossa história.
É certo também que, para tal, precisaremos forjar um novo ecumenismo liberal-progressista em torno da nossa própria tradição regulatória (ou da superação dela), o nacional-desenvolvimentismo, cujo esgotamento não pode ser confundido com impertinência ou fracasso. Ao contrário da social-democracia, cuja origem está numa proposta radical de transformação social, o nacional-desenvolvimentismo — não obstante ter obtido a adesão comunista na Declaração de Março de 1958 — sempre foi um projeto de liberal-democrático de consolidação da “revolução burguesa”, que entre nós tangenciou a democracia política e evitou o quanto pode a social.
A dificuldade não está só no fato de que, também aqui, o apoio liberal ao desenvolvimentismo parece ter refluído depois da crise do regime militar, mas também no fato de que a esquerda latino-americana acabou tragada pelo regressismo engendrado pelo apoio acrítico à prometida e malograda transformação socialista da ilha cubana (1959) — da qual o bolivarianismo é o filho dileto —, onde a perspectiva da distribuição/equalização suplantou largamente a da produção engendrando uma estagnação que só agora, quase 60 anos depois, com a morte de Fidel Castro, parece ser admitida e, finalmente, enfrentada pela elite comunista.
Embora os herdeiros do guevarismo entre nós tenham abraçado tardiamente o nacional-desenvolvimentismo, o fizeram sem levar em conta os percalços e equívocos do populismo — do qual o nacional-desenvolvimento foi, de certa forma, refém ao longo dos anos 1950-60 —, que, ao longo da história, desperdiçou as conquistas teóricas dos pensadores nacionalistas, consolidada nos debates regionais no âmbito da CEPAL, e esterilizadas em posturas político-eleitorais inconsequentes, como a majoração de 100% do salário mínimo, em 1954, o ataque ao Plano Trienal, em 1963, e a própria radicalização (“reformas na lei ou na marra!”), em 1964, que fez a hora para a direita conservadora.
A inapetência da velha esquerda (PTB nacionalista e PCB) em elaborar programas de governo efetivos, portanto, capazes de sustentar alianças políticas e econômicas sustentáveis, à moda do reformismo europeu, não medrou entre nós mesmo com as importantes mudanças produzidas pelo aparecimento do PT no campo progressista.
Isto pode ser explicado por variados motivos, dentre eles: o desinteresse da jovem militância no debate teórico o significado das mudanças, a persistência de segmentos populares e sindicais com elevado déficit de escolaridade e sem intimidade com a linguagem literária, a renovada influência doutrinária religiosa tendente ao milenarismo, e a prioridade das elites dirigentes petistas em amalgamar correntes ideológicas e estratos sociais muito distintos — como o trotskismo e a socialdemocracia dos intelectuais, o stalinismo e o maoísmo dos quadros organizadores, e o socialismo cristão popular das CEBs e o ambientalismo da classe média verde, entre outras denominações e segmentos sociais —, ao mesmo tempo em que perseguia a conquista do poder de Estado nos velhos moldes exclusivistas do bolchevismo, embora sem revolução à vista; tudo isso afastando o PT da solução positiva da tradição programática derrotada em 1964 e antropofagicamente resgatada pelo nacionalismo de direita.
Antes de discutir, num próximo artigo, a prometeica perspectiva atualizadora do Prof. Bresser Pereira (novo desenvolvimentismo), que no PSDB, outrora, não encontrou eco, é necessário sublinhar a oportunidade perdida pelo PT, em 1989, quando se tornou o partido líder da esquerda brasileira, desbancando o nacionalismo de Leonel Brizola (PDT), sem colocar de pé a alternativa programática (reformista-democrática) que seus antecessores não foram capazes de equacionar, em termos políticos, entre 1961-1964, não obstante os alertas e esforços de San Thiago Dantas, Celso Furtado, Armênio Guedes e Marco Antônio Coelho, dentre outros — os dois últimos na semilegalidade.
O PT “resolveu” o impasse programático de 1989 elaborando uma narrativa abstrata de mudanças que, de um lado, não ofendesse a percepção anticapitalista da maioria de seus dirigentes e militantes, e, de outro, não assustasse a sociedade, as instituições republicanas e os potenciais aliados liberais-moderados, ao mesmo tempo que permitia aos dirigentes ampla margem de arbitragem em um eventual governo. Uma “solução” que manteve o partido unido e em rota de ascensão, mas o impediu de não só conquistar o governo na ocasião, como de poder exercê-lo depois da Carta aos Brasileiros (2002), quando Lula se comprometeu a seguir as linhas mestras do Plano Real tucano, numa perspectiva mais inclusiva, corrigindo apenas em parte o problema das bases materiais da inclusão sustentável — como se pode ver pela radicalização fiscal-populista do período Dilma.
[i] Para a discussão do papel da tecnoestrutura na moderna produção industrial, ver John Kenneth Galbraith, O Novo Estado Industrial, ed. Abril Cultural/SP, 1982.
[ii]Capitalismo, Socialismo e Democracia, ed. FC&Ordem Livre, 1961, p. 475.
Final do primeiro debate entre os candidatos a governador do Rio, encerrado na madrugada de hoje
Acabou nesta madrugada o primeiro debate entre os candidatos a governador, promovido pela Band. E o desempenho dois oito presentes não foi exatamente o mesmo das intenções de voto reveladas no dia anterior. Pela sondagem estimulada do instituto Real Time Big Data, Romário (Pode) tem 25%; Eduardo Paes (DEM), 19%; Anthony Garotinho (PRP), 14%; Indio da Costa (PSD), 6%; Tarcísio Motta (Psol), 3%; Márcia Tiburi (PT), 3%, Pedro Fernandes (PDT), 3%; e Wilson Witzel (PSC), 1%. Líder na pesquisa, Romário foi pouco atacado no debate. Ainda assim, o ex-craque se juntou à petista Tiburi na disputa pelo desempenho mais fraco na Band.
Romário teve dificuldades em articular quase todas suas respostas. E mais ainda quando teve que perguntar. Quando instado a falar das finanças falimentares do Estado, demonstrou ignorar economia ainda mais que o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). Seu incômodo e nervosismo foram fisicamente denunciados durante todo o debate, na quantidade de vezes em que teve usar a língua para molhar os lábios. Com a boca seca, o “Peixe” estava claramente fora d’água.
Professora de filosofia, Tiburi tem boa articulação verbal, mas se revelou militante travestida de candidata. Não por estar usando uma camisa e um colar com as imagens do ex-presidente Lula, mas pelo caráter meramente panfletário das suas intervenções. No último bloco resumiu as perspectivas reais da sua candidatura: “Muitos candidatos aqui falam em prender e arrebentar e daqui a pouco acabam eles presos (…) Lula vai vencer e eu também”. Depois, concluiu com sua proposta de governo: “fazer um Rio de Janeiro feliz para as pessoas”.
Tiburi lembrou ser a única mulher entre os candidatos. Mas ressalvou que entre eles não havia nenhum negro. Romário reivindicou a cota e disse que o negro ali era ele. Pelo que ambos mostraram, as condições para governar o Estado não dependem de gênero ou raça.
Se não restou dúvida dos piores desempenhos da noite/madrugada, é difícil falar em melhores. Certamente, Tarcísio, Garotinho e Indio mostraram traquejo adquirido com experiência. Que também não falta a Paes, mas ele foi a Geni do debate, por conta da ligação com o ex-governador Sérgio Cabral. Se já era de se esperar, o que surpreendeu foi a dobradinha entre Garotinho e Indio para bater no ex-prefeito carioca. Sobretudo porque, em entrevista à Folha da Manhã publicada (aqui) em 6 de agosto de 2016, repercutida na mídia carioca (aqui e aqui), Indio declarou: “a política de Garotinho é manter o pobre na pobreza”.
Na primeira oportunidade que teve no debate, Índio rolou a bola com açúcar e afeto a Garotinho, ao lhe perguntar como Clarissa tinha encontrado a Prefeitura do Rio herdada de Paes, na condição de secretária de Marcelo Crivella (PRB). O político de Campos bateu com tanta força que gerou direito de resposta. Nele, o candidato do DEM disse que Garotinho havia levado até Rosinha à cadeia, “numa das três ou quatro vezes que foi preso”. Em seu direito resposta, o ex-governador alegou que sua esposa foi desrespeitada por Paes, porque este convive com agressor de mulher, em referência ao deputado federal Pedro Paulo (DEM).
Em nível bem mais elevado, se mostrou Tarcísio. Ao ser perguntado por Pedro Fernandes sobre o destino dos palácios do governador, o candidato do Psol primeiro se solidarizou com o adversário, cujo pai desapareceu recentemente num acidente de aviação. Tarcísio foi quem melhor atingiu em Garotinho, dizendo e dando exemplos de como este, quando governador, não foi diferente de Cabral. Mas, pelo bom papel que fez como candidato a governador em 2014, seu desempenho no primeiro debate de 2018 não surpreendeu.
As novidades positivas ficaram por conta de Fernandes e Wilson Witzel. O pedetista demonstrou sinceridade ao propor austeridade e exemplifica-la nos benefícios de que abriu mão como deputado estadual. Por sua vez, com a carreira de juiz federal que abandonou para ser candidato, Witzel mostrou embasamento e, sobretudo, firmeza em suas propostas contra a corrupção. Pareceu estar falando bastante sério quando as assumiu como tentativa de estender a experiência da Lava Jato ao governo do Estado do Rio.
Com 2% de intenções de voto na pesquisa, Marcelo Trindade (Novo) não participou do debate porque seu partido não ocupa o mínimo de cadeiras no Congresso Nacional.