Pixuleka e caixão rosa no desfile do 7 de Setembro

“Pixuleco” e a estreante “Pixuleka” o desfile de 7 de setembro, hoje, em Brasília (foto de André Borges - Estadão Conteúdo)
“Pixuleco” e a estreante “Pixuleka” no desfile de 7 de setembro, hoje, em Brasília (foto de André Borges – Estadão Conteúdo)

 

 

Após um hiato de meses, este signatário voltou ocupar ontem (aqui) o nobre espaço dominical de opinião na Folha da Manhã. No artigo, motivado pela estúpida morte do menino Aylan Kurdi, de três anos, cujo pequeno corpo apareceu na praia turca de Bodrum, após mais um naufrágio de refugiados sírios no Mar Mediterrâneo. Mas o texto também falava dos naufrágios econômicos nos quais campistas e brasileiros se afogam graças à incompetência administrativa e às políticas populistas muito semelhantes entre a prefeita Rosinha Garotinho (PR)  e a presidente Dilma Rousseff (PT), naquilo que o lulopetismo e o garotismo trazem de comum em seus DNAs.

Pois hoje, no dia do desfile da pátria amada, salve, salve, a prefeita e a presidente mereceram protestos da população que governam. Mesmo protegida por tapumes de metal, apelidados de “muro da vergonha”, e forte esquema de segurança para afastá-la do povo, incoerência democrática talvez comparável à de quem lutou contra uma ditadura para tentar implantar outra, Dilma pelo menos teve a coragem de aparecer em Brasília. Ela e o seu boneco inflável gigante, com nariz de Pinóquio pelas mentiras da campanha de reeleição, a estrela do PT rachada e o vestido vermelho e a faixa presidencial enlameados pelos escândalos de corrupção que envolvem seu partido e seu governo.

O boneco de Dilma foi chamado de “Pixuleka”, versão feminina do já popular “Pixuleco”, nome usado por João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, para designar as propinas que cobrava das empreiteiras no cartel das obras da Petrobras, reaproveitado para batizar  uma fase da operação Lava-Jato, assim como o boneco inflável gigante do ex-presidente Lula, vestindo roupa de presidiário e com os números 13 (do PT) e 171 (referente no Código Penal ao trambiqueiro) estampados no peito.

Em Campos, onde quem assistiu ao desfile das arquibancadas do Cepop não teve que passar por revista policial, como em Brasília, Rosinha não compareceu pelo terceiro ano seguido. A prefeita deixou de  ver, pelo menos pessoalmente, as faixas de protesto dos guardas civis municipais desligados desde 2008, mas que cobram direitos não pagos e liberação das suas carteiras de trabalho. Eles também levaram um caixão rosa, tão conhecido do público em Campos, quanto Pixuleco se tornou no Brasil.

 

 

Rosinha mais uma vez não apareceu para ver o tradicional desfile, nem os protestos contra seu governo, que também têm se tornado uma tradição para os campistas (foto de Tércio Teixeira - Folha da Manhã)
Rosinha mais uma vez não apareceu para ver o tradicional desfile, nem os protestos contra seu governo, que também têm se tornado tradição aos campistas (foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

 

Aqui e aqui, o jornalista Ricardo André Vasconcelos foi o primeiro na blogosfera local a noticiar os protestos contra Rosinha e Dilma.

 

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Artigo do domingo — Os náufragos somos todos nós

(Foto de Nilufer Dermi / Dogan News Agency / AFP)
(Foto de Nilufer Dermi / Dogan News Agency / AFP)

 

 

Preenchido em dias de mais sorte pelos artigos semanais de Aluysio Barbosa, o Bom, andei dolosamente fora deste espaço dominical nos últimos meses, cedendo lugar para que outras pessoas publicassem aqui seus textos de opinião. Confesso na primeira pessoa assumida nos primeiros passos, que a gravidade das situações econômicas de Campos e do Brasil, em naufrágios muito semelhantes em origem, no lugar de me motivar a escrever, me afastou.

Afinal, se diante da montanha de fatos, quem ainda não se convenceu que o lulopetismo de Dilma e o garotismo de Rosinha puseram a pique, respectivamente, o país e o município, não será mais um artigo a falar sobre isso que terá o poder de transplante de cérebro. E não é nem preciso sair da seara local para observar os incautos que ainda se prestam a tentar defender um e outro governo, e duvidar que mesmo um cérebro novo fosse capaz de trazer luz ao pensamento e às intenções dessa gente. Afinal, como ensinar que a parede branca é branca a quem diz vê-la cor de abóbora?

Opinar pela brancura da parede publicamente pode desagradar a esse daltonismo da razão, cujas manifestações são paridas pelo mesmo radicalismo de quem trocou (ou vendeu) a lógica pela fé, a partir da negação da realidade. E, por certo, atrapalharia a diversão passiva do voyeur que gargalha às lágrimas ao observar quem critica Lula e Dilma e não tem coragem de fazê-lo pelos mesmos motivos com Garotinho e Rosinha, tanto quanto fazem rir os pretensos bem pensantes que descem a lenha nos governantes de Campos, enquanto mantêm acesa a vela no altar onde a estrela do PT permanece pregada no lugar da cruz.

O problema é que, além da parede branca continuar branca a despeito da negação da sua cor, é ser arrastado pelo braço, por quem nega, até a colisão coletiva das caras contra a mesma parede. Daí, em ato contínuo, é só aumentar a carga tributária brasileira, como quer uma presidente alienígena que se nega a cortar gastos, ou vender o futuro de Campos por sabe-se lá quantas gerações, como fizeram na cara dura os Garotinho, com a anuência de 16 vereadores bem atentos ao (laço do) presente.

Em outras palavras, quebraram o país e o município e querem que você e seus filhos paguem a conta. Pior, se julgam em seu legítimo direito, porque foram eleitos pelo voto, mesmo que este seja em sua maioria egresso de currais eleitorais custeados com dinheiro público. E, em nome dos pobres a serem assim mantidos ad aeternum, políticos e empreiteiros fazem fortunas pessoais, como a Lava-Jato demonstrou ocorrer no Brasil, enquanto em Campos se espera infrutiferamente, na Justiça e Ministério Público Estadual e Federal locais, alguém com competência, coragem e o compromisso público próximos aos de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.

Todavia, o que me trouxe de volta a este espaço não foi o que todos já sabem sobre o Brasil e Campos, sobretudo quem ainda finge ignorar. Mas o menino sírio Aylan Kurdi, de três anos, com o corpo inerte e o rosto pálido tombado junto ao cascalho da praia turca de Bodrum. Foi a fotografia que rodou o mundo para fazer valer a máxima: uma imagem vale mais do que mil palavras. Responsável pela viralização da foto no Twitter, a hashtag #naufragiodahumanidade conferiu às redes sociais a profundidade que elas raramente têm.

Chamado pelos antigos romanos de “Mare Nostrum” (“Mar Nosso”), foi no Mar Mediterrâneo que eles equilibraram seu império entre Europa, Ásia e África. E, no fluxo migratório dos dois últimos continentes ao primeiro, foram nas mesmas águas em que Aylan deu cara às mais de 2.300 mortes noticiadas só este ano, num total de dois seres humanos afogados por hora no Mediterrâneo.

Isso sem contar com o drama particular da Síria, vivendo uma guerra civil que já matou 250 mil pessoas, 12 mil crianças como Aylan, e provocando o êxodo de outros 11 milhões, metade da população do país. E para você que pensa estarmos falando sobre algo a um oceano e um mar de distância, bom lembrar que o Brasil já recebeu dois mil desses refugiados sírios, inclusive em Campos, onde alguns já se estabeleceram como comerciantes, evidenciando na planície goitacá a capacidade de reconstrução desse povo.

Neste mundo globalizado pelo fluxo de pessoas, mercadorias e informações, não há nenhuma ilha. E os náufragos somos todos nós.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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“Melhor nome para concorrer a prefeito de Campos é Gil Vianna”

Se, como gênio do futebol, Romário de Souza Faria sempre foi econômico nos toques, a coisa não parece ter mudado para o político, senador da República e presidente estadual do PSB. Pelo menos não nesta entrevista concedida, por e-mail, à Folha, onde Romário preferiu falar pouco para contornar assuntos polêmicos, como a “venda do futuro” de Campos pelo governo Rosinha Garotinho (PR). Mas se foi econômico nas palavras, o “Peixe” manteve a contundência em suas conhecidas tiradas, como ao afirmar que “político morto, para mim, é só no São João Batista ou no Caju”, reforçando sua descrença na decadência do grupo político que há 26 anos governa Campos. Ainda assim, ele aposta na pré-candidatura do vereador “independente” Gil Vianna (atual PR) à sucessão da prefeita Rosinha, em 2016, assim como do ex-prefeito Armando Carneiro (atual PSC) em Quissamã e do deputado estadual Chico Machado (atual PMDB), em Macaé, além da sua própria à Prefeitura do Rio de Janeiro.

 

Romário senador

 

Folha da Manhã – Como foi seu convite (aqui) para o vereador Gil Vianna (atual PR) para ser seu candidato a prefeito de Campos? E por quê?

Romário de Souza Faria – Conheço o Gil desde sua primeira eleição para vereador e sempre estivemos unidos na defesa das mesmas causas. Diante disso, o melhor nome para concorrer à Prefeitura de Campos é o de Gil Vianna, que faz um trabalho que eu posso confiar.

 

Folha – Onde e quando será a filiação dele ao seu PSB? Você estará presente ao evento? 

Romário – Faremos um ato em Campos para marcar a filiação do Gil, no final de setembro ou início de outubro. E eu estarei presente.

 

Folha – Qual a importância de Sérgio Barcelos, secretário geral estadual do PSB, nessa costura? Como campista que já trabalhou com o ex-governador Anthony Garotinho (PR), que visão ele lhe passa da política no município e suas possibilidades para 2016?

Romário – Em função do meu trabalho e das minhas responsabilidades em Brasília. A experiência que o Serginho tem com política e no dia a dia do partido são fundamentais para a construção do partido no Estado.

 

Fol/ha – Em entrevista recente (aqui), Gil apostou no seu apoio para disputar a sucessão da prefeita Rosinha Garotinho. Com todo o respeito ao seu inegável carisma, mas isso basta? Se não, o que mais será necessário?

Romário – Não tenho nenhuma dúvida de que só isso não basta, como também não tenho dúvida de que outras forças irão se unir a favor dos projetos que temos para Campos.

 

Folha – Os pré-candidatos de oposição a prefeito de Campos apostam (aqui e aqui) no apoio do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) para 2016. Da mesma maneira, qualquer candidato governista terá o apoio dos Garotinho para tentar vencer a disputa. Gil terá o seu. Pezão tem a máquina estadual, e os Garotinho, a Prefeitura. Como equilibrar?

Romário – Vamos procurar fazer com o Gil em Campos uma campanha parecida com a minha, que não precisou de máquina, mas teve o que é fundamental, que é o apoio do povo.

 

Folha – Em Campos, você fez 106.953 votos (impressionantes 49,0%) para senador nas urnas de 5 de outubro, mais do que Garotinho e Pezão, que fizeram, respectivamente, 96.584 (39,78%) e 73.035 (30,08%) votos na eleição de primeiro turno a governador. Dá para vencer novamente os dois dentro de Campos?

Romário – Uma das coisas que eu e o Gil conversamos e concordamosé que o nosso projeto para Campos não é contra A, B ou C. Ele é a favor do povo de Campos, isso é o mínimo que eu posso fazer pela população que acreditou e acredita nas minhas propostas e no meu trabalho no Senado.

 

Folha – Se Pezão é evasivo (aqui) sobre seu apoio na sucessão de Rosinha, o presidente estadual do partido dele e da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani, já definiu (aqui) que o candidato do PMDB a prefeito de Campos será o deputado estadual Geraldo Pudim (atual PR). É outro ex-aliado dos Garotinho, como Gil e Alexandre Tadeu (PRB), também vereador e pré-candidato a prefeito. Não são muitos ex contra o grupo original? A debandada indica decadência?

Romário – Não acredito em decadência. E essa história de político morto para mim, é só no São João Batista ou no Caju. Isso quem vai dizer e julgar será a população de Campos. O que eu posso garantir é que, com o Gil Vianna, nós iremos apresentar uma nova alternativa para a cidade.

 

Folha – Segundo Gil, o motivo pelo qual ele, Tadeu e outros vereadores abandonaram a bancada governista na Câmara foi a antecipação de receitas do município, na ordem de até R$ 1,2 bilhão, aprovada a mando dos Garotinho em sessão de 10 de junho, julgada ilegal pela Justiça, mas aprovada novamente no último dia 17. Chamada pelo povo de “venda do futuro”, a operação foi reprovada (aqui) por 88,7% dos campistas, em pesquisa do instituto Pro4, rejeição muito próxima à registrada em enquetes da Folha Online (85%) e da InterTV (90%). Qual sua opinião sobre o assunto?

Romário – Dos outros vereadores eu não posso dizer, mas em relação ao Gil sei que ele votou com a sua consciência.

 

Folha – Sobre Pudim, Gil também observou que o maior desafio do deputado será convencer o eleitor não ser um plano B dos Garotinho. Como fazer o campista acreditar que o próprio Gil , dentro do mesmo raciocínio, não é um plano C?

Romário – O único plano que eu conheço é o de telefone, que na maioria das vezes é caro e não funciona. O que nós temos é um projeto com a pré-candidatura de Gil Vianna à Prefeitura de Campos.

 

Folha – Até que ponto essa imagem de Gil como “Cavalo de Tróia” é reforçada (aqui) pelos movimentos do senador Aécio Neves (PSDB/MG) de estímulo à sua candidatura a prefeito do Rio pelo PSB, com a deputada federal Clarissa Garotinho (atual PR) como vice, após migrar ao PSDB?

Romário – Já tenho mostrado para vocês que muitos veículos publicam o que querem… E isso não passa de mais uma simples nota de jornal. Ponto!

 

Folha – Essa aproximação com Clarissa já gerou reações do eleitor. E não só em Campos. Após postar em seu perfil do Facebook uma foto com a deputada, no início de julho, apesar das mais de 22 mil curtidas, você colheu (aqui) vários comentários como o do Pepê Cesarim: “Nãooooo!!!! Isso só pode ser montagem!! Qual foi Romário?? Vai perder todo o seu conceito e respeito comigo e com um monte de gente! Família Garotinho é…! Sai dessa!!”. Se valeu como teste para 2016, qual o resultado?

Romário – Sou um senador da República, meu gabinete está aberto não só para os parlamentares do Rio de Janeiro, como também de outros Estados. Estou te falando isso, porque a deputada Clarisse foi ao meu gabinete juntamente com o deputado Júlio Delgado (PSB/MG) me fazer uma visita para discutirmos alguns projetos, nos quais a minha participação poderia ser útil, tanto para o Rio de Janeiro, como para Minas Gerais.

 

Folha – Acha que saiu fortalecido do episódio com a revista Veja, que publicamente (aqui) desmentiu a notícia e lhe pediu desculpas, após noticiar em julho que você tinha uma conta não declarada no banco BSI, da Suíça, no valor de R$ 7,5 milhões? Se isso foi a 15 meses da eleição de prefeito do Rio, o que pode vir caso confirme a candidatura? O atacante nunca teve medo de catimba, cara feia e pontapé de adversário. E o político?

Romário – Você já terminou a pergunta respondendo por mim, realmente nunca tive medo de catimba, cara feia e pontapé. Em relação ao episódio da Veja, se o objetivo da matéria era me enfraquecer, não deu certo.

 

Folha – Em seu blog, o jornalista Ricardo Noblat foi bem explícito (aqui) ao colocar a denúncia da Veja na conta do prefeito carioca Eduardo Paes (PMDB), cujo candidato à sua sucessão é seu chefe da Casa Civil, o deputado federal Pedro Paulo (PMDB). Vê algum fundamento?

Romário – Isso quem vai dizer é a justiça, mas com certeza a verdade irá aparecer e os envolvidos irão pagar, e caro.

 

Folha – Em relação a Campos, é correto supor que você se empenharia mais numa candidatura a prefeito de Gil, caso decida não concorrer a prefeito do Rio, ou é indiferente? E em relação às sempre complicadas, mas necessárias montagens das nominatas, como estão as costuras aqui e aí?

Romário – Não só na de Gil, mas também na do Armando Carneiro, em Quissamã e Chico Machado, em Macaé. No que se refere a Campos, o vereador Gil Vianna está com total autonomia não apenas para montar a nominata, mas também para dar uma nova cara ao PSB. Assim como no Rio está sendo feita pela nossa presidente municipal, Aspásia Camargo.

 

Folha – Novamente no paralelo entre Rio e Campos, entre sua pré-candidatura e a de Gil, até onde uma e outra trabalham com a possibilidade de composição de chapa? Para você, que lidera todas as pesquisas internas dos partidos, seria a cabeça de chapa ou nada? E para Gil?

Romário – Hoje a minha prioridade é construir o PSB em todo estado. Essa discussão se dará mesmo, creio eu, a partir do ano que vem. Mas não posso negar que desde já o meu nome, no Rio, e o de Gil, em Campos, estão à disposição do partido para a disputa das eleições de 2016. Queria agradecer ao jornal Folha da Manhã pela oportunidade da entrevista e aproveitar para agradecer ao povo de Campos pela confiança depositada em mim, que honrarei até o último dia do meu mandato.

 

Página 3 da edição de hoje da Folha
Página 3 da edição de hoje da Folha

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Poema do domingo — O camaleão e o pugilista

Atafona, agosto de 2014
Atafona, agosto de 2014 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

Era o final de uma manhã de sol em Atafona, já no outono, com temperatura ainda de verão. Por volta de meio-dia, ele já havia corrido, pulado corda, levantado pesos, feito abdominais e treinado pêndulo (esquivas e contragolpes de boxe), antes de encerrar mais de duas horas de atividade física tirando o saco de areia para dançar. Enquanto alternava jogo de pernas e sequências de socos na garagem, guarda sempre alta com os braços já pesados, rufava no último volume da TV da sala a faixa “São Gonça” do DVD de Seu Jorge e Ana Carolina. Na consonância do ritmo da música, dos movimentos do corpo e do saco de areia indo e voltando ao impacto de cada murro, à beira do esgotamento por todo o esforço feito até ali, permitiu-se um clinch com seu oponente passivo.

Foi abraçado ao saco de areia, desidratado e tentando recuperar o fôlego durante preciosos segundos, que avistou o camaleão no chão da entrada da garagem, ao sol a pino do meio-dia. Diferente dele, o bicho apreciava o calor com seu corpo imóvel, mexendo apenas a cabeça em convulsão, como se num orgasmo múltiplo e intermitente. Ao notar a sombra do crânio arrefecendo o cimento quente do chão, o homem quis mais que tudo se abrigar sob o seu frescor, em inveja e comunhão com o animal de sangue frio. Olharam-se nos olhos por um instante, pupilas redondas e elípticas, antes que o dono destas partisse para sempre, na explosão muscular súbita dos répteis. Depois, como membro perdido de um lagarto, brotaram versos, pontuados ao final na pretensão cabralina:

 

 

 

 

o pugilista e o camaleão

 

(i)

seco dos socos flechados

no saco,

 

banhado pelo que mina dos poros

em sal,

 

o pugilista lagarteia a sombra

de seta,

 

da cabeça convulsa do camaleão.

 

 

(ii)

da temperatura do réptil, o sangue frio

a ritmar todo seu corpo em instinto,

 

seu dilema entre predador e presa,

mais a condição do movimento medido,

desmedida à demanda de improviso,

 

lagarteia no camaleão o pugilista.

 

 

(iii)

cada golpe na ponta da língua,

dois punhos no lugar de um rabo,

sua investida em dissimulação,

 

mais a fervura do sangue de bicho

já desmamado de seio e de sol,

 

lagarteia no pugilista o camaleão.

 

campos, 08/04/09

 

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Sete balas, 32 contos — Paula Vigneron lança livro hoje no Sinasefe

Aos 22 anos, Paula Vigneron lança hoje seu primeiro livro, com contos que escreve desde os 15 (foto de Tércio Teixeira - Folha da Manhã)
Aos 22 anos, Paula Vigneron lança hoje seu primeiro livro, com contos que escreve desde os 15 (foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

 

Sete balas ao luarPor Aluysio Abreu Barbosa

 

“Compartilhando segredos, aventuras, paixões tão passageiras quanto um sopro de vento”. Desde o seu primeiro conto, “Solidão”, escrito por uma adolescente de 15 anos, Paula Vigneron impressiona pela maturidade da prosa ao compor o prefácio que não há para o seu livro de estreia, cujo lançamento com noite de autógrafos acontece hoje, às 20h, no Espaço Cultural Fulinaíma do Sinasefe, na rua Álvaro Tâmega, nº 132, Centro. Reunidos em ordem não cronológica pela editora carioca Autografia, são 32 contos escritos entre 2008 e 2015, fechados com aquele que, pela força do título, a autora escolheu para batizar também seu livro: “Sete balas ao luar”.

Jornalista e crítica de cinema, lidas desenvolvidas como ramos da mesma raiz de escritora em semeadura precoce, Paula apresenta muitas influências em seus contos; e não só literárias. Do cinema, por exemplo, a jovem escritora assumidamente ecoa do sueco Ingmar Bergman (1918/2007) e do estadunidense Woody Allen — o diretor de drama, não o comediante — alguns questionamentos existenciais primários da humanidade: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Quanto tempo tenho? Que diabos estou fazendo aqui?

Com a cara de Woody Allen impressa às máscaras opostas (e complementares) da comédia e da tragédia, é esta segunda o alvo dos disparos de “Sete balas ao luar” — inclusive no conto que dá nome ao livro, ambientado no sertão de Sergipe, com as bênçãos de “São Lampião”. Quase sempre ácido, algumas vezes mórbido, há humor aqui e ali. Mas é a realidade na qual Virgulino Ferreira da Silva foi executado a tiros que prevalece na ficção de vida e morte de Zé do Cangaço:

— Segurou, novamente, as munições que trazia em seu bolso. Pediu a Lampião que não precisasse usá-las contra si na tentativa desesperada de calar os gritos interiores (…) Ao seu lado, colocaram a sua carabina e sete balas, em forma de cruz, para protegê-lo nas noites de luar.

E mesmo “lá para as terras do Sudeste”, onde “a forte estiagem havia atingido a todos, independente de classe e cor”, a coisa não parece não independer tanto assim. Algumas páginas antes, em cenário talvez familiar aos campistas, um menino de rua se levanta e deita no papelão, “seu companheiro de dias e noites assustadoras”, para encarnar o “Invisível” dentro de uma sociedade que desfila sua ânsia de consumo no “calçadão do Centro da cidade” — qual seria?

Se o final feliz passa longe das histórias de fôlego curto e pegadas fundas de Paula Vigneron, a leveza bate ponto em seu processo de criação, quase sempre emprenhado de música. Da MPB de Chico Buarque, Elis Regina e Milton Nascimento ao suingue jazzístico de Frank Sinatra. Este, aliás, conhecido como “A Voz”, tem a sua vencendo o limite entre realidade e ficção ao entoar “The way you look tonight”, no conto “A primeira dança”.

Além de inspiração, quem também dá as caras como personagem é Woody Allen. O cineasta novaiorquino faz uma ponta no conto “1975”, quando pisca à protagonista atônita. Vinda de uma viagem no tempo e no espaço para uma Manhattan imaginária, ela baila sem respostas ao som de “Cause I was Born to the blue”, após ser convencida pelo conselho do seu par:

— Pare de se questionar, querida. Você pensa muito. Sinta mais e reflita menos.

Recurso utilizado desde o primeiro conto adolescente, a narrativa retroativa em flashback bate ponto em boa parte do livro. A partir dela, um passado geralmente mais feliz é contraposto ao presente de desencanto, causado por alguma perda ou traição, algum tipo de tragédia humana quase sempre fadada a gerar outra, tão grave ou mais, ao final. E, única certeza da vida, a morte parece estar à espreita nas esquinas dos parágrafos.

Todavia, no lugar de ponto final, é posta a possibilidade de (re)começo. Em “Condenados”, terror e humor negro se misturam numa história deliciosa de voyeurismo e vendeta:

— Sem dúvida, a vingança é um prato que se come frio. Frio, assim como meu corpo inerte que, agora, apodrecia sob a terra (…) Permaneceríamos juntos como juráramos diante do padre quando nos casamos. Na alegria e na tristeza. Na saúde e na doença. Na riqueza e na pobreza. Mas nem a morte nos separa.

Em alguns contos, personagens e autora parecem unidos por laços semelhantes. Em “Ilhas”, difícil não pescar algo de autobiográfico na Marina, em quem Fábio acaba por fim acreditando ter “deixado marcas nas terras quase intocáveis em que a doce garota estava escondida e isolada pelas águas furiosas que a atormentavam”.

Neste istmo capaz de transformar qualquer ilha em península, ligando-o a outra ilha ou ao continente, também é possível avistar a prosista real refletida no fictício escritor Daniel, na maré baixa do conto “Comunhão literária”:

— As palavras eram suas companheiras. Refugiava-se nelas para encontrar o destino que lhe cabia (…) acreditava na independência delas e suas ações. O rapaz, no fundo, era guiado pelas letras (…) Comovia-se com a dor do outro, que passava a ser sua até conseguir transformá-la em palavras.

Do lado de cá das páginas, a moça também!

 

Folha Letras de hoje, na contracapa da Folha Dois
Folha Letras de hoje, na contracapa da Folha Dois

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

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Poemas do domingo — Homem culpado de ser homem

“O que menos fazia vida literária, o mais retirado, aquele que fazia uma poesia mais independente de qualquer modismo (…) Ele vivia para a poesia no sentido de viver em poesia, e não no sentido de se dar a conhecer como poeta. Ele era sob certo ponto de vista, vamos dizer, moral, o poeta puro por excelência”.

 

“A popularidade nada tem a ver com a poesia. A popularidade pode acontecer. Mas um grande poeta também pode passar despercebido. Temos um poeta de quase noventa anos que mora em Petrópolis e ninguém o conhece. Ele é da geração modernista, um grandíssimo poeta. Chama-se Dante Milano”.

 

 

Dante Milano por Candido Portinari
Dante Milano por Candido Portinari

 

Ambas referentes ao mesmo poeta, quando levado em consideração que a primeira declaração é de João Cabral de Melo Neto (1920/99), e a segunda, de Carlos Drummond de Andrade (1902/87), é possível projetar não só o valor do verso de Dante Milano (1899/1991), como antecipar algumas das suas principais características. Carioca, de formação autodidata, trabalhou na imprensa do Rio de Janeiro, antes que as relações de amizade e admiração por sua poesia e traduções lhe rendessem um emprego público, destino seguro à subsistência da maioria dos grandes poetas brasileiros da época.

Recluso desde que morava no Rio, de onde acompanhou o Modernismo de 1922 à distância, ele se exilaria em Petrópolis a partir de 1985, quando um acidente de automóvel lhe custou uma fratura no fêmur. Embora amigo de outros grandes poetas modernistas, como Manuel Bandeira (1886/1968) e Ribeiro Couto (1898/1963), também nunca foi de frequentar círculos literários, embora fosse neles conhecido e admirado por seus contemporâneos. Avesso à fama, justificava-se em prosa e verso:

 

“A fama tira a sua privacidade. Não gosto de ser apontado na rua, não gosto que ninguém me reconheça. Quanto à glória, é uma ilusão, é algo que muda como mudam as folhas de uma árvore. Um dia você é famoso, daqui a pouco não é mais (…)  A glória é, ou era, a ambição de ser admirado por toda a humanidade. A admiração da humanidade por um indivíduo exigiria uma correspondente admiração do indivíduo pela humanidade, falsa, porque a humanidade não é digna de admiração mas de piedade”.

 

“Tanto rumor de falsa glória

Só o silêncio é musical,

Só o silêncio,

A grave solidão individual,

O exílio em si mesmo,

O sonho que não está em parte alguma”.

 

Conhecido como a maior “vocação póstuma” de toda a literatura brasileira, só seria publicado pela primeira vez já perto de completar os 50 anos, e à sua inteira revelia. Um amigo, Queirós Lima, pediu-lhe emprestado os originais e levou-os por conta própria à Imprensa Nacional. Dois meses depois, voltou com as provas, comunicou a Dante e pediu-lhe que fizesse as emendas. Mas estas foram tantas que a Imprensa Nacional declinou da publicação. Um ano depois, em 1948, o livro foi finalmente lançado pela editora José Olympio, tornando-se o acontecimento literário daquele ano e rendendo ao seu autor o prêmio Filipe de Oliveira, espécie de Jabuti da época.

Sempre com acréscimo de novos poemas e depois também das suas traduções e parte da sua prosa jornalística, o livro seria reeditado em 1958, 71, 79 e, de maneira realmente póstuma, em 94. Em 98, na coleção “Melhores Poemas” da editora Global, uma sua coletânea foi reunida e prefaciada por Ivan Junqueira (1934/2014), outro grande poeta, jornalista e tradutor. Foi com este último livro que pude me aprofundar na obra de Dante Milano, cujo contato inicial, através do marcante poema “Imagem”, havia travado em outra coletânea: “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século”, em compilação do professor e crítico Italo Moriconi, editado pela Objetiva em 2001.

Poeta de sólida formação clássica, tinha como mestres os antigos romanos Virgílio (70 a.C./ 19 a.C.) e Horácio (65 a.C./ 8 a.C.); o português Luís de Camões (1524/80); os italianos Dante Alighieri (1265/1321), Francesco Petrarca (1304/74) e Giacomo Leopardi (1798/1837); e os franceses Stéphane Mallarmé (1842/98) e Charles Baudelaire (1821/67). Aliás, do seu xará autor de “A Divina Comédia”, além de admirador, Milano traduziu “Três Cantos do Inferno”, lançados em 1953 e considerados pela crítica a mais precisa versão em português que o pai da língua italiana já teve de um brasileiro.

Alguns anos depois, em 1988, o poeta reuniria em outra tradução uma coletânea de Mallarmé e Baudelaire, destacados nomes do simbolismo e do pré-modernismo na França e no mundo. No mesmo ano, receberia o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, conferido pela Academia Brasileira de Letras, onde, como Drummond e Manoel de Barros (aqui, aqui, aqui e aqui), sempre se recusou em ocupar uma cadeira.

Junto dessa herança clássica, os 141 poemas que Dante Milano publicou em vida eram também frutos de uma dicção moderna, marcada pelo ritmo semântico, ditado não só pelo som, mas pelo sentido. Quase sempre apoiado no tripé temático “morte/amor/sonho”, com preocupação formal manifesta na cinzelagem de cada consoante e vogal, em busca do Absoluto e sem tempo para o lirismo do cotidiano, a poética milaneana apresenta uma unidade inconfundível, talvez melhor definida pelo amigo Manuel Bandeira:

 

“Exemplo singularmente raro em nossas letras, parece o poeta escrever seus versos naquele inconfundível momento em que o pensamento se faz emoção”

 

Ou, no dito do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902/82), pai do Chico:

 

“Em outras palavras, seu pensamento é sua forma”

 

E se a vida é tempo perdido, não percamos mais o nosso deste domingo de sol com tanta prosa, caminhando o quanto antes aos versos de um homem culpado de ser homem:

 

Coletânea de Dante Milano reunida e prefaciada por Ivan Junqueira

 

 

Cantiga

 

A vida é tempo perdido.

O que se ganha é bem pouco.

Que vale ao morto o vivido?

Que vale ao vivo, tampouco?

 

E nunca me sai do ouvido

Esse rumor incessante:

“A vida é tempo perdido”…

Oh, que marulho distante,

 

Voz de sepultos oceanos

Num caracol aturdido.

Longos dias, breves anos.

A vida é tempo perdido.

 

 

Atafona, pôr do sol de 29/08/15
Atafona, pôr do sol de 29/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Tercetos

 

Eu sou um rio, a água fria de um rio.

Profundo, cabe em mim todo o vazio,

Um reflexo me causa um calafrio.

 

Sou uma pedra de cara escalavrada,

Uma testa que pensa, e sonda o nada,

Uma face que sonha, ensimesmada.

 

Sou como o vento, rápido e violento,

Choro, mas não se entende o meu lamento.

Passo e esqueço meu próprio sofrimento.

 

Sou a estrela que à noite se revela,

O farol que vê longe, o olhar que vela,

O coração aceso, a triste vela.

 

Sou um homem culpado de ser homem,

Corpo ardendo em desejos que o consomem,

Alma feita de sonhos que se somem.

 

Sou um poeta. Percebo o que é ser poeta

Ao ver na noite quieta a estrela inquieta:

Significação grande, mas secreta.

 

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