Gastos
- Autor do post:Aluysio Abreu Barbosa
- Post publicado:12 de agosto de 2015 - 17:57
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Princípios, senhores, princípios!
Por Ricardo André Vasconcelos
A eleição de 2016 não pode ser resumida a uma disputa do garotismo contra os filhotes do garotismo — sejam eles traidores, arrependidos ou meros oportunistas. Ao contrário, é necessário preparar a cidade para o pós-garotismo, agregando homens e mulheres de boa vontade, mesmo os que comungaram do ideário que se pretende mandar para o lixo da história, desde que atendam às premissas expressas numa Carta de Princípios. Não se dá um primeiro passo rumo à transformação dessa magnitude com lançamentos extemporâneos desse ou daquele nome. Antes dos nomes devem vir os princípios a que esses personagens estão dispostos a comprometer-se. O que vimos até aqui é se quer substituir um chefete por outro, mantendo os esquemas suspeitos de financiamento de campanha e sem qualquer compromisso assumido com a transformação.
Para mudar de verdade é preciso derrubar os paradigmas que norteiam o comportamento do qual discordamos. E Campos está numa situação tão ruim, mas tão ruim, que não basta mudar. E melhorar não é suficiente. É preciso transformar. E para fazer diferente, precisamos ser diferentes. Tanto no discurso quanto na prática. Mudança só de personagens não transforma o estado de coisas que repudiamos. Neste momento em que o município sofre uma queda significativa de arrecadação é justamente a oportunidade de rever as prioridades e implantar mecanismos de gestão adequados à nova realidade. E isso se faz com políticas públicas consequentes e não com o conhecido e repugnante clientelismo que é marca dos últimos governos.
Não basta trocar os gestores, mas os métodos de gestão definidos a partir de princípios pré-estabelecidos, objetivos definidos: Honestidade e transparência na gestão dos recursos públicos para promoção da cidadania. Simples assim.
O que assistimos nos últimos 25 anos foi uma crescente apropriação dos recursos públicos para irrigar projetos pessoais e que redundou na banalização da corrupção, degradação das instituições públicas, escravização das entidades privadas e sequestro do cidadão-eleitor com políticas ilusionistas de distribuição de renda que, na verdade, nunca passaram de compra de voto disfarçada de “promoção social”.
À sombra de lideranças autoritárias vicejam seguidores, uns fiéis por devoção, outros por interesses ocasionais, mas nunca surgem lideranças para a saudável, necessária e benfazeja oxigenação do exercício do poder. O grupo que comanda Campos dos Goytacazes nas últimas décadas chegou a tal grau de personalismo, que a administração da Prefeitura está passando da fase de ação entre amigos para espólio familiar.
Aliás, o primeiro pré-candidato a se lançar à sucessão de Rosinha, o deputado Geraldo Pudim, chega ao cenário da sucessão já com a marca do pecado original do apadrinhamento político. Preterido no grupo que o acolhe e elege há 30 anos, trocou Garotinho por Picciani porque descobriu que no PR, a partir de agora, só há espaço político relevante para quem foi batizado com o sobrenome do chefe. E prole é o que não falta!
O esquema eleitoral de Picciani é diferente do de Garotinho? Então Pudim não mudou de lado. Mudou de dono. Picciani, que teve 34 votos em Campos na última eleição, tem prestígio ou dinheiro para alavancar a campanha do ex-garotista?
Do outro lado, personagens com alguma possibilidade de vestir o figurino transformador, como os vereadores Marcão (PT) e Rafael Diniz (PPS) igualmente caem no mesmo vício de, primeiro buscar patrocinadores, depois definir os princípios, as armas com que pretendem implantar um tempo novo. Apresentam-se como eventuais candidatos da máquina comandada pelo governador Pezão. Mau começo!
A escolha do candidato (a) deve ser precedida de compromissos definidos por uma carta de princípios que poderá ser redigida pelo que sobrou da sociedade civil independente, mas que não pode deixar de fora alguns compromissos, sendo o primeiro deles estimular o financiamento de pessoas físicas através de campanhas de arrecadação junto aos que acreditam que é possível disputar e ganhar uma eleição para administrar uma cidade sem a tutela de empreiteiros e fornecedores. Mas, dentro dos limites da lei, aceitar doações de pessoas jurídicas, porém sem qualquer compromisso de contrapartida e com absoluta transparência para despesas e receitas de campanha.
Fora disso, perdoem o fatalismo, sem princípios o fim é o mesmo!
Publicado hoje na Folha da Manhã
Já estão fechadas as cinco próximas exibições e debates do Cineclube Goitacá, sempre a partir das 19h de quartas-feira, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio, na sala 507 do edifício Medical Center, onde funciona a produtora Oráculo. Depois de amanhã, dia 12 de agosto, será a vez do advogado, publicitário e crítico de cinema Gustavo Alejandro Oviedo apresentar o filme “Conspiração” (2001), do estadunidense Frank Pierson (1925/2012), que se baseia em fatos reais para retratar a reunião entre lideranças nazistas que formularam a “Solução final” para exterminar os milhões judeus da Europa durante a II Guerra Mundial (1939/45).

Na quarta seguinte, 19 de agosto, será a vez do clássico “O tesouro de Sierra Madre” (1948), do mestre estadunidense John Huston (1906/87), que será apresentado pelo jornalista, poeta e crítico de cinema Aluysio Abreu Barbosa. Na tela, no México dos anos 1920, dois desocupados vindos dos EUA se unem a um terceiro, mais velho e experiente minerador, para juntos se embrenharem em busca de fortuna pelo interior inexplorado do país, antes de tropeçarem na conhecida ganância humana.

Na última quarta-feira deste mês, dia 27, será a vez do universitário Pedro Henrique Guzzo apresentar e mediar o debate de “Ondas do destino” (1996), do cult dinamarquês Lars von Trier. Na tela, no norte da Escócia, cujo litoral é rico em petróleo como a Bacia de Campos, um trabalhador dinamarquês de plataforma, casado com uma escocesa, sofre um acidente e fica tetraplégico. A partir daí, ele estimula a esposa a ter encontros extraconjugais para lhe contar os detalhes dessas relações.

Na primeira quarta do próximo mês, dia 2 de setembro, caberá a Philipe Netto, outro estudante universitário, comandar a sessão e o debate de “Cronicamente inviável” (2000), do brasileiro Sérgio Bianchi. O filme retrata através das histórias de seis personagens, de classes sociais, formações, opiniões e lugares distintos, a inviabilidade da sociedade brasileira, onde ninguém tem culpa e ninguém se salva.

Já no dia 9 de setembro, é a vez do dono da casa assumir seu papel de anfitrião. Proprietário da Oráculo, além de psicanalista e ator, Luiz Fernando Sardinha apresentar uma visão cinematográfica da maior tragédia do teatro ocidental: “Hamlet” (1990), de William Shakespeare, dirigida pelo italiano Franco Zeffirelli. Num papel icônico da dramaturgia, que já foi desempenhado por atores shakespearianos por excelência, como os britânicos Lawrence Olivier (1907/89) e Kenneth Branagh, o destaque do filme acaba sendo a atuação do astro de ação Mel Gibson como o atormentado príncipe da Dinamarca em busca de vingança pela morte do pai.

QUARTETO FANTÁSTICO — A partir das possibilidades quase ilimitadas da computação gráfica, na última passagem de século, o universo dos super-heróis pôde ser transposto às telas de cinema com a mesma dose de fantástico das páginas das HQs. Se a DC Comics saiu na frente com a franquia do Batman, aberta pelo diretor Tim Burton ainda em 1989, foi com outra exitosa série, aberta por Brian Singer com “X-men — O filme” (2000), que a Marvel Comics passou à frente da concorrente dos quadrinhos também no cinema.
No bojo desse sucesso, outras franquias foram abertas. Entre elas, “Quarteto fantástico” (2005), de Tim Story, que também dirigiu a sequência “Quarteto fantástico e o Surfista Prateado” (2007). O resultado de público não foi de todo ruim, mas ficou aquém de outras séries de super-heróis.
Assim, o Homem Elástico, a Mulher Invisível, o Tocha Humama e o Coisa tiveram que se contentar em observar outras franquias arrebentarem nas bilheterias. Além dos já citados “Batman” e “X-men”, “Homem-Aranha”, “Super-Homem”, “Homem de Ferro”, “Thor”, “Capitão América” e “Vingadores” também foram mais rentáveis.
Neste ínterim, após interpretar Johnny Storm, nome civil do Tocha Humana, nos dois primeiros “Quarteto Fantástico”, o ator Chris Evans depois emplacaria como protagonista de “Capitão América” e, na pele dele, também de “Vingadores”, gerando o problema da duplicidade. Assim, no lugar de louro, como o ator Evans é, e o personagem Storm sempre foi nos quadrinhos, a grande mudança do novo “Quarteto fantástico”, que estreou esta semana nos cinemas de Campos, foi ter o negro Michael B. Jordan na pele “politicamente correta” do Tocha Humana.
Como ele continua irmão de Sue Storm, a Mulher Invisível interpretada por Kate Mara, mantida tão loura quanto nas HQs, a solução foi colocá-la como filha adotada do Dr. Storm. Personagem inexistente nos quadrinhos, no novo filme ele surge interpretado por Reg E. Cathey. Além de adotar Sue, que passou a ser uma refugiada de Kosovo, em outra pitada politicamente correta, Storm pai reuniu dois jovens gênios da ciência: Reed Richards (Miles Teller), mais conhecido como Homem Elástico, e Victor Von Doom (Toby Kebbell), O Dr. Destino, que está para o Quarteto Fantástico como o Coringa ao Batman.
No lugar da nave espacial dos quadrinhos, repetido no filme original de 2005, o que confere os poderes aos quatro super-heróis é uma máquina de teletransporte, na qual todos trabalham em conjunto. Junto com Doom e Storm filho, Reed chama seu amigo e parceiro de projetos de infância, Ben Grimm (Jamie Bell), o Coisa, para uma viagem a outra dimensão. Lá, eles acabam deixando Doom para trás, sendo resgatados por Sue. A viagem de retorno acaba numa explosão, a partir da qual os quatro desenvolvem seus poderes.
O governo dos EUA se interessa pelo projeto e tenta recriá-lo, enquanto mantém sob custódia os quatro jovens, ajudando-os a controlarem seus poderes, visando utilizá-los em missões militares. Reed foge, mas acaba recapturado com a ajuda do Coisa, ressentido por sua nova aparência e por ter sido deixado para trás pelo amigo. Novamente juntos, eles reconstroem a máquina, a partir da qual Doom, agora transformado no Dr. Destino, volta à Terra só para tentar destruí-la. E a única esperança do planeta, lógico, passa a ser encarnada pelo Quarteto Fantástico.
Embora assine como produtor executivo, esse foi o primeiro filme baseado na mitologia da Marvel no qual seu criador, Stan Lee, não fez uma ponta como ator. E o veterano editor de 92 anos, que protestou contra muitas alterações, não deixa de ter razão. Efeitos especiais sempre impactantes à parte, o filme do jovem diretor Josh Trank consegue ser tão chato quanto o politicamente correto que adulterou a história dos quadrinhos às telas.
Publicado hoje na Folha Dois
Confira abaixo o trailer do filme:

Por Fernando Leite Fernandes
Geraldo Pudim é o quadro mais bem preparado para governar esta Capitania de São Tomé, depois da passagem do exército do pequeno Átila, que nem gramínea deixou sobre o chão. Se não é o mais preparado, é um dos raros que ocupa a cena política local. O que há contra Pudim é o estigma por sua longeva lealdade ao líder espiritual dos povos. O que, invariavelmente, deveria ser visto como virtude, diante das atuais circunstâncias, se transformou em pesado fardo político.
Sem querer faltar com respeito ao Garotinho — já disse que um dia a história lhe fará justiça — ele, no tempo presente, encarna a metáfora cruel do lixo atômico, aquele que contamina os que estão à sua volta a anos luz de distância. As consultas dos institutos de pesquisa de opinião não deixam dúvidas. Escolha qualquer um do seu entorno e o resultado será o mesmo. O Garotinho não tem companheiros ou correligionários, têm seguidores. Sua ação ultra personalista e voluntariosa transcende os limites da civilidade dos partidos e beira às raias da cegueira das seitas.
A sucessão municipal que se aviziinha, revela uma reação nunca vista no pacífico e ordeiro povo de Campos. O eleitorado é um nervo exposto. Um expressivo segmento, ouso dizer que amplíssima maioria, não votará por dever ou escolha ou indignação cívica, mas por raiva. Aliás, esta, talvez seja a mais hercúlea realização da administração de plantão: uma monumental catedral de ódio sobre a cidadania. Convenhamos, a sociedade sempre perde quando elege um gestor ou parlamentar pelo deboche ou pelo ódio. É uma satisfação momentânea, é um sinal, mas não é uma alternativa.
O deputado Geraldo Pudim sabe que há entre ele e o eleitorado uma couraça que precisa ser rompida. E como fazê-lo? É sua equação mais desafiadora. Tem em seu favor um acervo invejável: 30 anos de vida pública e nenhum escândalo de natureza política contabilizado, nenhuma acusação de improbidade administrativa, tem vida modesta, o que na realidade atual é indispensável salvo conduto, uma vez que a mãe das crises política e econômica é a devastadora crise moral.
Para além, do comportamento político, Pudim estudou e aprendeu a lição sobre o município de Campos dos Goytacazes. Sua história rica e soberana, sua geografia singular, sua economia mutante — já estamos na curva descendente da exploração de petróleo na Bacia Campista — seus desafios emergentes, a pressa de uma cidade que se transforma em metrópole e não tem ainda arcabouço para mudança tão radical. Pudim sabe que não é mais posssível repetir o passado, governar empiricamente, sem planejamento e sem aliar nossa mais rica reserva, o saber intelectual, com o poder político democrático e moderno.
Escolher, com raiva, alguém que seja capaz de derrotar o Garotinho, é nada.
Não me move outro sentimento que não seja o de discutir, madura e civilizadamente, o processo eleitoral de 2016. De contribuir para que tenhamos uma indispensável conversa coletiva sobre noso futuro, ao invés de uma briga de rua, tão ao gosto dos agentes mandatários do poder. Os mesmos que minimizam o debate e o engessam numa surrada cantilena de medição de forças entre ricos e pobres. A sociedade, senhora de seu desttino, não pode se apequenar e deixar escapar as grandes causas.
Por fim, imagino que na hora própria, Pudim responderá pelo que se compromete em fazer e não perca tempo com o enjoado bolero da traição do sempre traído, que há de ser a marcha fúnebre deste governo. O novo prefeito de Campos tem que cumprir duas missões basilares: elaborar um plano de emergência para os primeiros 100 dias e providenciar cirúrgica auditoria nas contas públicas.
E se me cabe dar algum conselho ao próximo prefeito, repito o que disse o saudoso Austregésilo de Athaíde, quando lhe perguntaram que primeira medida tomaria se fosse presidente do Brasil: “amarrar a chave do cofre no cós da calça”.
Publicado hoje na Folha da Manhã
Por Aluysio Abreu Barbosa e Alexandre Bastos
Onde foram aplicados os R$ 250 milhões recebidos na antecipação de R$ 300 milhões de receitas futuras de Campos, feita pelo governo Rosinha Garotinho (PR) junto ao Banco do Brasil (BB), no ano passado? E qual será o destino do R$ 1,2 bilhão que o mesmo governo quer também antecipar, vendendo o futuro do município? Segundo o vereador Gil Vianna (PR, de malas prontas para o PSB), todo o campista busca um resposta a essas perguntas, assim como para outra: “Quem quebrou Campos?”. Na dúvida, ele tem certeza ao afirmar que a manobra governista na Câmara Municipal para autorizar a “venda do futuro” foi o principal motivo para abandonar o barco rosáceo. Fora dele, seu destino é o PSB do senador Romário, pelo qual pretende disputar a sucessão de Rosinha, em 2016, como cabeça de chapa ou compondo-a ao lado de “grandes homens e políticos” da oposição.
Folha da Manhã – Você já adiantou (aqui) que, após dois mandatos consecutivos como vereador, não disputará a reeleição ao cargo ano que vem. E se não sair a janela para transferência de partido na reforma política, impossibilitando sua candidatura a prefeito pelo PSB?
Gil Vianna – No momento certo e no prazo legal, independente ou não da janela de transferência, estarei deixando a legenda do PR, migrando para a legenda do PSB, o que não me impossibilitará de me colocar à disposição do PSB para uma pré-candidatura nas próximas eleições pela nossa querida cidade.
Folha – Você também já garantiu que não vai ficar no PR. Caso a janela não saia em setembro, não teme ter que deixar o mandato de vereador com o partido?
Gil – Não tenho receio algum de deixar a legenda do PR, caso não venha a ser contemplado pela janela de transferência, tendo em vista que, no decorrer do meu mandato, me certifiquei de vários documentos, informações e pessoas, o que na seara jurídica constitui uma justa causa para minha desfiliação partidária.
Folha – Você foi eleito em 2014 primeiro suplente para deputado estadual na coligação PR/Pros. Como deputados devem se candidatar em 2016 a prefeito, caso algum deles se eleja, a cadeira fica vaga na Assembleia Legislativa. Fora do PR, não seria mais difícil ocupá-la?
Gil – Sim, sabemos que o TSE já teve a oportunidade de se manifestar a respeito do assunto, salientando que, no atual quadro jurídico, o mandato pertence ao partido. Estando eu fora do PR, ou seja, no PSB, seria ilógico eu assumir a vaga de suplência da Alerj. Mas, como fui diplomado suplente de deputado estadual pelo PR, caso haja vacância de uma vaga na Alerj, poderia eu regressar ao PR e assumir a vaga de deputado, o que claro, seria uma derrogação de meus planos junto ao PSB. É muito provável que isso não ocorra.
Folha – Qual foi o principal motivo da sua saída da bancada de Rosinha: a falta de apoio à sua campanha para deputado estadual, ou sua posição contrária à “venda do futuro” de Campos pelos Garotinho, aprovada numa manobra governista na Câmara Municipal, na polêmica sessão (aqui) de 10 de junho?
Gil – Diversos fatores contribuíram ao longo do meu mandato para minha saída da bancada de apoio à prefeita Rosinha, mas o fator culminante foi a manobra na Câmara Municipal para venda do futuro da nossa cidade.
Folha – Como você e os demais vereadores que votaram contra a “venda do futuro” enxergam sua esmagadora reprovação popular. Na pesquisa Pro4 feita entre 18 e 22 de junho, 88,7% dos campistas foram contra (aqui), rejeição muito próxima à registrada nas enquetes da Folha Online (84,8%) e da InterTV (90%). Quem votou a favor terá que pagar o preço nas urnas?
Gil – O sentimento não é só dos vereadores que votaram contra a “venda do futuro”, mas sim a população, que hoje está politizada demostrando a insatisfação nas pesquisas acima. Sobre quem votou a favor, o povo que vai decidir o que será melhor para nossa cidade.
Folha – Após aprovar um empenho de R$ 300 milhões de receitas futuras, no final do ano passado, junto ao Banco do Brasil, para receber apenas R$ 250 milhões, o governo Rosinha não disse em que gastou o dinheiro. A ausência de destinação, naquele empréstimo e nesse autorizado na sessão de 10 de junho, estimado em até R$ 1,2 bilhão, foi o motivo alegado por você e os demais vereadores independentes para votar contra. Afinal, para onde vai tanto dinheiro?
Gil – É verdade. O primeiro empréstimo de R$ 300 milhões de receitas futuras vai ser pago dentro do atual governo, e o outro empréstimo estimado em até R$ 1,2 bilhão, aprovado pelos vereadores da base do governo, será pago pelos futuros prefeitos de nossa cidade. Quanto ao destino de todo esse dinheiro, é uma pergunta que todos nós campistas queremos saber.
Folha – Num ato público de desagravo por conta de mais uma decisão judicial desfavorável ao seu governo, Rosinha disse (aqui) no último dia 20: “Não fui eu quem quebrou a Prefeitura”. Campos está quebrada? E se não foi Rosinha, quem seria o responsável?
Gil – Boa pergunta. Nos últimos sete anos a Prefeitura recebeu aproximadamente R$ 12 bilhões. E agora ela disse que a cidade está quebrada? Quem será o responsável? Eu também gostaria de saber.
Folha – Já correm boatos de que há vereador independente arrependido, querendo voltar à base governista. Vê algum sinal disso em você, Jorge Magal (PR), Albertinho (Pros), Genásio (PTC), Dayvison (PRB) ou Alexandre Tadeu (PRB)? E do lado de quem ficou, há quem queira seguir os passos de vocês?
Gil – Como já falei nas primeiras perguntas, não ficarei no PR. Estou criando novas perspectivas de futuro na política e chega num certo momento na vida pública que temos de escolher caminhos diferentes. Quanto aos demais vereadores independentes não vejo arrependimento por parte de nenhum dos companheiros. Já do lado de quem ficou, a decisão de ficar ou sair vai na consciência de cada um, mas quem quiser se unir ao bloco dos independentes será muito bem vindo.
Folha – Inegável o carisma do senador Romário (PSB), que lhe fez o convite para entrar no PSB e concorrer pela legenda a prefeito de Campos em 2016. Mas, como deve estar ocupado com sua própria candidatura a prefeito do Rio, que tipo de ajuda real o “Baixinho” e sua legenda poderiam lhe dar?
Gil – Queria primeiro agradecer ao senador Romário pelo convite de fazer parte do próximo pleito eleitoral nas eleições majoritárias pelo PSB. É inegável seu carisma, fazendo quase 5 milhões de votos no Estado do RJ e, em Campos, aproximadamente 110 mil votos. Isso demostra a força do apoio que teremos em 2016.
Folha – Se sua meta em 2016 é o Executivo, qual a possibilidade de você vir a compor chapa com, por exemplo, o vereador Rafael Diniz (PPS) ou o ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT)? E com o deputado estadual João Peixoto (PSDC), ao lado de quem começou sua carreira política?
Gil – Ainda é muito cedo para definir as posições, mas se por ventura isso vier a acontecer, será uma honra participar ao lado de grandes homens e políticos de nossa cidade.
Folha – Recentemente, você disse que acreditava na sinceridade do rompimento do deputado estadual Geraldo Pudim (PR, de malas prontas ao PMDB) com Garotinho, mas que faltava a população acreditar. O que ele, assim como você, terão que fazer até 2016 para o eleitor não considerar um e outro como um plano B (e C) do garotismo?
Gil – Quanto ao deputado Geraldo Pudim, eu acredito no rompimento, sim. Mas ele terá que realmente provar nas ruas. Quanto a mim, quem me conhece sabe do meu histórico como pessoa e como político. Sempre fui firme em minhas decisões e palavras, estou muito tranquilo com minha consciência.
Folha – Farol é conhecida como seu reduto eleitoral. No último domingo, numa rádio comunitária de lá, Garotinho disse que ele e Josias Quintal (PSB), ex-secretário estadual de Segurança e hoje prefeito de Pádua, teriam interferido para evitar uma punição a você, quando era policial militar. Do que ele poderia estar falando?
Gil – Não sei a que esse senhor se refere, porque isso nunca aconteceu. Ele continua dissimulado e mentindo o tempo todo, tentando denegrir a imagem das pessoas no âmbito pessoal. Sou e sempre fui uma pessoa do bem e nada disso me abala.
Folha – O secretário de Governo e esposo da prefeita também disse que sua maior obra no Farol, enquanto vereador, teria sido a reforma da sua casa. Se os ataques já estão nesse nível a 15 meses da eleição, o que esperar até lá?
Gil – Primeiro, que quem faz obra pública não é vereador, é o prefeito ou a prefeita. E quanto a minha casa no Farol, não foi reforma, foi construção. Afinal, não tenho nada a esconder. Fiz minha casa na única praia campista, onde tenho laços familiares, de amizade e políticos. Pior é seu tivesse construído em outros balneários famosos, como muitos por aí.
Folha – Depois da enquadrada que levou (aqui) do deputado federal Ronaldo Caiado (DEM) em pelo Congresso Nacional, ficou notório que Garotinho afina quando confrontado diretamente, sem a distância segura do blog ou do microfone de rádio. Falta na política de Campos quem desempenhe esse papel, como fez em passado recente o ex-vereador Marcos Bacellar (SD)?
Gil – Falta diálogo entre os representantes do Executivo para com a sociedade campista. A sociedade roga para interagir com os representantes do Executivo, sem lograr êxito. Um bom administrador deve ser aquele que presa a honestidade, a ética. Mas estes atributos devem ser de todo ser humano. Sendo assim, cada um tem seu perfil político. Precisamos ter mais compromisso, pois compromisso é fundamental. Temos que ter vontade de mudar, ser humanizado e trabalhar junto e para o povo. Sobretudo, não se pode mais simplesmente perseguir os que não concordam com seu governo. Enfim, ter uma vida firmada em valores éticos e morais e possuir competência para tomar decisões em favor do próximo, da coletividade e do povo.
Publicado hoje na Folha da Manhã

Nome destacado do alto modernismo dos EUA na poesia, Elizabeth Bishop (1911/79) ficou mais conhecida no Brasil que tanto conheceu ao ser interpretada pela atriz australiana Miranda Otto, no filme “Flores raras” (2013), do diretor brasileiro Bruno Barreto. Na vida real das décadas de 50 e 60 do século passado transposta à tela, a poeta estadunidense viveu nestas terras de Vera Cruz uma paixão fulminante (literalmente) por outra mulher, a arquiteta e paisagista autodidata Lota de Macedo Soares (1910/67), que por sua vez concebeu e construiu o Parque do Aterro do Flamengo para o então governador Carlos Lacerda (1914/77). No cinema, o papel de Lota coube a Glória Pires.
Sobretudo em seu início, Bishop foi discípula literária de Marianne Moore (1887/1972), principal poeta do modernismo dos EUA, ao lado de Erza Pound (1885/1972) e T.S. Eliot (1888/1965), além de maior influência assumida pelo pernambucano João Cabral de Nelo Neto (1920/99). Não por acaso, Cabral seria depois traduzido por Bishop ao inglês, além de ser, ao lado de Carlos Drummond de Andrade (1902/87) e Vinicius de Moraes (1913/80), um dos poucos poetas brasileiros que a estadunidense chegou a admirar em suas três décadas de convívio tupiniquim. Aliás, com Vinicius, após alguns encontros em Ouro Preto regados a whisky escocês e cachaça mineira, a convivência de Bishop, mesmo sendo lésbica, teria chegado à cama.
Após os anos iniciais de idílio no sítio de Lota em Samambaia, na região de Petrópolis, Bishop se mudou a contragosto para o Rio. Junto da companheira mergulhada no projeto do Parque do Aterro, a poeta passou a viver numa cobertura do Leme, na av. Atlântica. E foi de lá, em abril de 1963, que ela testemunhou um fato real que mobilizou a crônica policial de então: a tentativa de prisão e morte do bandido “Micuçu”, nome popular de uma cobra da região Norte do Brasil, cujo veneno é mortal. A saga dos morros cariocas foi retratada pela estrangeira numa balada aparentemente tradicional, onde as estrofes iniciais são repetidas ao final, naquilo que parece confirmar o senso comum politicamente correto: o crime é fruto da miséria, por sua vez semeada pelo êxodo rural com destino às grandes cidades.
Todavia, ao desconstruir a potencial saga épica numa tragicomédia lírica, onde os erros dos policiais e do bandido se atropelam, a ambiguidade moral dá o tom ao explorar justificativas menos “nobres” para uma vida de crimes, seja dada pela tia do bandido (“Eu criei ele direito,/ Com carinho, com amor./ Mas não sei, desde pequeno/ Micuçu nunca prestou”), ou por um anônimo frequentador de birosca no Morro da Babilônia: “Ele era um ladrão de merda./ Foi pego mais de seis vezes”.
Do alto daquele enclave natural entre Leme, Copacabana, Urca e Botafogo, o contraste entre o destino trágico do morro e o cotidiano dionisíaco da orla marinha, também está lá: “Ele via as praias brancas,/ Os banhistas bem dormidos,/ Com barracas e toalhas./ Mas ele era um foragido.”
A ambiguidade não se dá apenas na moral, mas na narrativa do poema, iniciada na segurança impessoal da terceira pessoa, mas depois assumida pelo próprio Micuçu, acentuando seu drama até o momento da sua morte. E isso em meio aos sons vivos de um Rio de Janeiro que não existe mais, preservados em eco no canto de Bishop: “Micuçu ouviu o pregão/ Do vendedor de barraca,/ E o homem do amendoim/ Rodando sua matraca”.
Tão lírica quanto o Chico Buarque de “O meu guri” e antes dele, a calvinista Elizabeth Bishop soube tratar o mesmo tema com sensibilidade semelhante, mas sem o maniqueísmo sociológico do compositor, para quem só a idealização da culpa católica parece ser explicação permitida. Ao fim e ao cabo, desde muito antes de 1963 e para muito ainda depois de nós, tudo que salta aos olhos estrangeiros e nativos nos morros cariocas talvez possa ser melhor resumido em sua expressão de crença descida em gravidade ao asfalto: “Fé em Deus e nas crianças da favela”.
Ou nos versos de Luís de Camões (1524/80) que abrem o livro “Questões de viagem”, dedicado a Lota e terceiro de Bishop, editado pela primeira vez em 1965, do qual o poema “O ladrão de Babilônia” faz parte: “…O dar-vos quanto tenho e quanto posso,/ Que quanto mais vos pago, mais vos devo”.
Abaixo, para saldar quaisquer dívidas neste domingo de sol, a música de Chico e o poema de Bishop, na tradução cuidadosa do também poeta Paulo Henriques Britto:
O ladrão da Babilônia
Nos morros verdes do Rio
Há uma mancha a se espalhar:
São os pobres que vêm pro Rio
E não têm como voltar.
São milhares, são milhões,
São aves de arribação,
Que constroem ninhos frágeis
De madeira e papelão.
Parecem tão leves que um sopro
Os faria desabar
Porém grudam feito liquens
Sempre a se multiplicar,
Pois cada vez vem mais gente.
Tem o morro da Macumba,
Tem o morro da Galinha,
E o morro da Catacumba;
Tem o morro do Querosene,
O Esqueleto, o do Noronha,
Tem o morro do Pasmado
E o morro da Babilônia.
Micuçu era ladrão,
Assassino, salafrário.
Tinha fugido três vezes
Da pior penitenciária.
Dizem que nunca estuprava,
Mas matou uns quatro ou mais.
Da última vez que escapou
Feriu dois policiais.
Disseram: “Ele vai atrás da tia,
Que criou o sem-vergonha.
Ela tem uma birosca
No morro da Babilônia”.
E foi mesmo lá na tia,
Beber e se despedir:
“Eu tenho que me mandar,
Os home tão vindo aí.
“Eu peguei noventa anos,
Nem quero viver tudo isso!
Só quero noventa minutos,
Uma cerveja e um chouriço.
“Brigado por tudo, tia,
A senhora foi muito legal.
Vou tentar fugir dos home,
Mas sei que eu vou me dar mal”.
Encontrou uma mulata
Logo na primeira esquina.
“Se tu contar que me viu
Tu vai morrer, viu, menina?”
Lá no alto tem caverna,
Tem esconderijo bom,
Tem um forte abandonado
Do tempo de Villegaignon.
Micuçu olhava o mar
E o céu, liso como um muro.
Viu um navio se afastando,
Virando um pontinho escuro,
Uma mosca na parede,
Até desaparecer
Por detrás do horizonte.
E pensou: “Eu vou morrer”.
Ouvia berro de cabra,
Ouvia choro de bebê,
Via pipa rabeando,
E pensava: “Eu vou morrer”.
Urubu voou bem baixo,
Micuçu gritou: “Péra aí”,
Acenando com o braço,
“Que eu ainda não morri!”
Veio helicóptero do Exército
Bem atrás do urubu.
Lá dentro ele viu dois homens
Que não viram Micuçu.
Logo depois começou
Uma barulheira medonha.
Eram os soldados subindo
O morro da Babilônia
Das janelas dos barracos,
As crianças espiavam.
Nas biroscas, os fregueses
Bebiam pinga e xingavam.
Mas os soldados tinham medo
Do terrível meliante.
Um deles, num acesso de pânico,
Metralhou o comandante.
Três dos tiros acertaram
Os outros tiraram fino.
O soldado ficou histérico:
Chorava feito um menino.
O oficial deu suas ordens,
Virou pro lado, suspirou,
Entregou a alma a Deus
E os filhos ao governador.
Buscaram depressa um padre,
Que lhe deu a extrema-unção.
— Ele era de Pernambuco,
O mais moço de onze irmãos.
Queriam parar a busca,
Mas o Exército não quis.
E os soldados continuaram
A procurar o infeliz.
Os ricos, nos apartamentos,
Sem a menor cerimônia,
Apontavam seus binóculos
Pro morro da Babilônia.
Depois, à noite no mato,
Micuçu ficou de vigília,
De ouvido atento, olhando
Pro farol lá longe, na ilha,
Que olhava pra ele também,
Depois dessa noite de insônia
Estava com frio e com fome,
No morro da Babilônia.
O sol nasceu amarelo,
Feio feito um ovo cru.
Aquele sol desgraçado
Era o fim de Micuçu.
Ele via as praias brancas,
Os banhistas bem dormidos,
Com barracas e toalhas.
Mas ele era um foragido.
A praia era um formigueiro:
Toda a areia fervilhava,
E as pessoas dentro d’água
Eram cocos que boiavam.
Micuçu ouviu o pregão
Do vendedor de barraca,
E o homem do amendoim
Rodando sua matraca.
Mulheres que iam à feira
Paravam um pouco na esquina
Pra conversar com as vizinhas,
E às vezes olhavam pra cima.
Os ricos, com seus binóculos,
Voltaram às janelas abertas.
Uns subiam nos telhados
Para assistir mais de perto.
Um soldado — ainda era cedo,
Oito horas, oito e dez —
Fez mira no Micuçu
E errou pela última vez.
Micuçu ouvia o soldado
Ofegando, esbaforido,
Tentou se embrenhar no mato:
Levou uma bala no ouvido.
Ouviu um bebê chorando
E sua vista escureceu.
Um vira-lata latiu.
Então Micuçu morreu.
Tinha um revólver Taurus
E mais as roupas do corpo,
Com dois contos no bolso.
Foi tudo que acharam com o morto.
A polícia e a população
Respiraram aliviadas.
Porém na birosca a tia
Chorava desesperada.
“Eu criei ele direito,
Com carinho, com amor.
Mas não sei, desde pequeno
Micuçu nunca prestou.
“Eu e a irmã dava dinheiro,
Nunca faltou nada, não.
Por que foi que esse menino
Cismou de virar ladrão?
“Eu criei ele direito,
Mesmo aqui, nessa favela”.
No balcão os homens bebiam,
Sérios, sem olhar pra ela.
Mas já fora da birosca
Comentou um dos fregueses:
“Ele era um ladrão de merda.
Foi pego mais de seis vezes”.
Hoje está chovendo fino
E estão de volta os soldados,
Com fuzis metralhadoras
E capacetes molhados.
Vieram dar mais uma batida,
Só que é outro criminoso.
Mas o pobre Micuçu —
Dizem — era mais perigoso.
Nos morros verdes do Rio
Há uma mancha a se espalhar:
São os pobres que vêm pro Rio
E não têm como voltar.
Tem o morro do Querosene,
O Esqueleto, o do Noronha,
Tem o morro do Pasmado
E o morro da Babilônia.