Na mídia nacional, a denúncia da censura ordinária a Nelson pela “bonitinha” Rosinha

Jornalista Artur Xexéo
Jornalista Artur Xexéo

É o que se pode chamar de uma atitude feliciana. O Teatro Municipal Trianon, de Campos de Goytacazes, cancelou a apresentação do espetáculo “Bonitinha mas ordinária”, do Grupo de Teatro Oito de Paus, que estava agendada para agosto. De acordo com um dos atores do grupo, Rodrigo Vahia, a justificativa que a direção do teatro deu por e-mail para o cancelamento da peça de Nelson Rodrigues é que ela “poderia ofender a prefeita Rosinha Garotinho, que é evangélica”. E tem gente que acha que a prefeita é bonitinha.

Publicado hoje, aqui, na coluna do Artur Xexéo, na contracapa do Segundo Caderno, de O Globo.

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Sem vingança, Nahim vai liberar Fábio da Fenorte para manter Kelinho na Câmara

(Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

“Não pratico a política com rancor ou espírito de vingança. Sou um cristão verdadeiro”. Foi assim que o pré-candidato a deputado federal e presidente da Fundação Estadual do Norte Fluminense (Fenorte), Nelson Nahim (atual PPL, mas de malas prontas ao PSD), reagiu à possibilidade de impedir que o suplente de vereador Kelinho (PR) mantivesse uma das 25 cadeiras da Câmara de Campos. Como o Gustavo Matheus explicou aqui, Kelinho só poderia permanecer na vaga do vereador eleito Fábio Ribeiro (PR), com a manutenção da passagem deste à secretaria municipal de Planejamento e Gestão. Para tanto, Nahim precisa liberar Fábio da Fenorte, onde este é funcionário concursado. Em contrapartida, favorecido direto pela liberação do titular, o suplente Kelinho foi um dos vereadores que, na Legislatura passada, fomentou as desavenças entre Nahim e seu irmão, o deputado federal e pré-candidato a governador, Anthony Matheus, o Garotinho (PR), se dizendo “motivado por Deus” para afirmar que o então presidente da Câmara conspirava contra a prefeita Rosinha (PR).

Muito embora tenha em suas mãos o poder de tirar a cadeira na Câmara de quem o acusou em passado recente, Nahim confirmou que amanhã mesmo estará assinando a cessão de Fábio da Fenorte para a secretaria de Rosinha:

— Fábio já foi cedido e Kelinho já assumiu na Câmara. Lógico que a possibilidade de reverter isso, num simples despacho, não deixa de revelar as voltas que o mundo dá. Mas jamais pensaria em agir de tal forma. Isso não faz parte do meu caráter, nem como homem, nem como político; não condiz com a criação que recebi dos meus pais. Desejo, inclusive, sucesso tanto a Fábio, quanto a Kelinho, pois sei da importância dos papéis públicos que os dois terão pela frente. E espero, sinceramente, que eles trabalhem dentro desse mesmo espírito de perdão, sem perseguições pessoais contra os eventuais adversários políticos, que em nada acrescentam.

O blogueiro tentou, durante à tarde e à noite de hoje, vários contatos telefônicos com Kelinho e Fábio, até para comunicar-lhes que, por meio da decisão de Nahim, ambos poderiam ficar onde estão, além de colher suas impressões, mas não obteve sucesso.

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Um dia depois, resposta à denúncia de censura a Nelson por religião de Rosinha

(Arte de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Arte de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

“A Prefeitura de Campos não vai se pronunciar, porque desconhece oficialmente o assunto”. Foi com essa evasiva que a secretaria municipal de Comunicação Social de Campos respondeu por telefone, às 17h34, ao pedido de esclarecimento feito pelo repórter da Folha Celso Cordeiro, em relação à grave denúncia de que a encenação da peça “Bonitinha, mas Ordinária”, de Nelson Rodrigues (1912/80), maior autor da dramaturgia brasileira, que seria apresentada no Trianon pelo grupo carioca de teatro “Oito de Paus”, como chegou a ser programado para 10 de agosto, foi cancelada com a justificativa de que o texto seria “imoral”, teria “muitos palavrões”, o que “poderia ofender a prefeita Rosinha, por ela ser evangélica”.

Segundo divulgou inicialmente aqui o blogueiro Cláudio Andrade, em e-mail enviado pelo diretor do grupo “Oito de Paus”, Luís Felipe Perinei, a versão ao cancelamento da peça lhe teria sido repassada pelo ex-diretor da Fundação Trianon, hoje superintendente do teatro, após a reforma administrativa de Rosinha, João Vicente Alvarenga. Este, de acordo com Luís Felipe, teria se mostrado “indignado” com a decisão, que teria sido tomada pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, nova toda-poderosa da cultura de Campos, presidida pela Patrícia Cordeiro, esposa do cantor baiano Lucas “Cebola” e considerada pessoa do círculo de confiança pessoal da prefeita Rosinha.

“Bonitinha, mas ordinária”, em uma de suas versões para o cinema, de 1981, estrelado por Lucélia Santos
“Bonitinha, mas ordinária”, em uma de suas versões para o cinema, de 1981, estrelado por Lucélia Santos

Não por outro motivo, João Vicente e Patrícia também foram procurados pela reportagem da Folha. No relato criterioso do seu jornalista Celso Cordeiro:

— João Vicente foi procurado, por telefone, às 14h30, mas não se encontrava na presidência do Teatro Trianon. Sua secretária Vânia atendeu e prometeu localizá-lo, tendo o cuidado de saber antes qual era o assunto. Informada, pediu para que entrasse em contato daqui a uma hora. Às 15h35m, durante novo contato disse que ele não se encontrava e que não tinha hora para chegar, mas que o recado foi passado. Quanto a Patrícia Cordeiro, ao ser contactada, às 14h51, também não foi localizada, mas no seu gabinete, a secretária Carla Rocha pediu o telefone do repórter e disse que retornaria. Nesta verdadeira via-crucis telefônica, às 15h10m, o assessor de imprensa da Fundação Oswaldo Lima, Ruan Gomes Barros, ligou à redação da Folha. Pediu que o assunto a ser tratado com Patrícia fosse formalizado através de e-mail e, que logo em seguida, daria a resposta também por e-mail. Às 16h, após o envio do e-mail solicitado, Ruan foi procurado novamente, mas argumentou que Patrícia não havia chegado e que tão logo tivesse a resposta, a enviaria. Diante da observação que a matéria teria horário para ser fechada, disse lamentar mas que nada poderia fazer.

Também integrante do grupo “Oito de paus”, Rodrigo Vahia se manifestou aqui, sendo replicado aqui no blog da editora da Folha Dois, Lívia Nunes, sobre o cancelamento da peça no Trianon, e seus supostos motivos de ordem pessoal e religiosa da prefeita de Campos:

— O fato que vou relatar aqui é GRAVE. Não pelo aspecto financeiro ou pelo descomprometimento. Mas pelo coronelismo e pelo cerceamento ao direito individual de liberdade. Além de, grosseiramente falando, ainda termos pessoas despreparadas e imbecis opinando e interferindo sobre políticas culturais, quando na verdade não deveriam nem estar varrendo rua, que é para não ofender os garis. Mas o fato é que o meu grupo de teatro teve a peça “Bonitinha, mas Ordinária” CENSURADA em Campos, pela Fundação Trianon, após a troca da sua presidência que resolveu rever os projetos já contratados. Simplesmente porque a peça de Nelson Rodrigues poderia ofender a prefeita Rosinha Garotinho, que é evangélica. Em pleno século XXI? Roubo, corrupção, lavagem de dinheiro através de ONGs, isso não ofende a atual prefeita, não é… Coitada, ela não deve saber dessas coisas… Ou deve rezar bastante e seu Deus a perdoa. Afinal, dinheiro não falta para pagar a própria redenção. Mas aí já não cabe a ninguém… Já que trata da individualidade dela. A questão é quando a individualidade de um governante interfere nas escolhas referentes ao coletivo. E é na minha opinião, a menos que eu esteja realmente ficando louco, INADMISSÍVEL, uma peça ser censurada porque pode desagradar esse ou aquele político!!! SE ALGUÉM CONCORDA COMIGO, POR FAVOR, COMPARTILHE ESSA MENSAGEM ATÉ QUE ELA CHEGUE À FUNDAÇÃO TRIANON EM CAMPOS. Não porque eu queira fazer a peça lá agora, porque sinceramente perdi a vontade. Mas porque acho digno mostrar também a essas pessoas que não vivemos mais em um regime absolutista e que não se faz política, nem muito menos arte, com a opinião ou aprovação de quem quer que seja. Nem de Deus. Quiçá de uma rosa.

Atualização às 19h50 para correção de datas.

Atualização às 12h30 de 10/07 para reproduzir a resposta dada só hoje por João Vicente Alvarenga, em nome do Teatro Trianon, publicada aquiaqui, aquiaqui, respectivamente, nos blogs do Ralfe Reis, do Gustavo Matheus, do Alexandre Bastos e da Suzy Monteiro, mas sonegada durante todo o dia de ontem à reportagem da Folha. Apesar de genérica, sem tratar especificamente da versão apresentada publicamente à denúncia de censura da peça, confira abaixo a nota da superintendência do Trianon:

“Cumpre-nos informar que não há nenhuma verdade nas alegações do grupo teatral 8 de Paus. O fato é que em reunião de rotina com diretores e a presidente da FCJOL observei que a peça “Bonitinha, mas ordinária” apresentava inconsistência na documentação apresentada, sugerindo sua análise posterior para aproveitamento no cronograma do Departamento de Literatura da Fundação Cultural, na medida em que não havia compromisso consolidado em contrato.

A prefeita Rosinha não teve acesso à agenda de agosto do Teatro Trianon, que não se encontrava fechada, e, portanto, não se posicionou a respeito de seu conteúdo. Cabe ressaltar que a administração pública é laica e que o fato da Prefeita ser evangélica não nos impediu de pontuar os atos culturais de forma múltipla, diversa, e respeitosa, apoiando realizações como a do Carnaval, grupos de Jongos e Mana Chica (manifestações afro-religiosas), festas tradicionais da Igreja Católica ou eventos por esta religião promovidos, como a da Jornada Mundial da Juventude, entre tantas outras.

Para nós, tanto Nelson Rodrigues, como qualquer outra expressão do teatro, da literatura, das artes em geral, tem sua importância. Entendemos que a palavra ganha no teatro conotações múltiplas através do jogo metafórico que se instaura em cena.

Recebemos no Trianon a comédia “Hermanoteu na terra de Godah”, que conta a história de Hermanoteu, típico hebreu do ano zero, companheiro, bom pastor e obediente. Ele recebe a missão divina de guiar seu povo à terra de Godah, numa sátira à história bíblica de Moisés. A pré estreia de “Maria do Caritó”, protagonizada pela atriz Lilia Cabral e tantas outras obras importantes e consagradas, independente de referências religiosas, ganharam espaço. Tal fato nos conduz a seguinte reflexão: o verdadeiro preconceito e a intolerância podem estar se apresentando de forma invertida.

Atenciosamente,

João Vicente Alvarenga
Superintendente do Teatro Municipal Trianon/FCJOL – Prefeitura de Campos”

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Censura a Nelson Rodrigues por suposto evangelismo de Rosinha cai nas redes sociais

Censura a Nelson Rodrigues em Campos?

Por Lívia Nunes, em 09-07-2013 – 16h12

A censura às peças e livros de Nelson Rodrigues sempre foram atribuídas à “indução ao sexo e à violência” contida em seus trabalhos, mas ele mesmo disse: “Não inventei nenhum dos dois. O sexo e a violência existem e aí estão para quem quiser confirmar. Se tomarmos ao pé da letra esta afirmação dos egrégios censores, tudo poderá ser proibido; assim, Branca de Neve poderia induzir à dissolução da família e à violência, o Pequeno Polegar poderia induzir ao homicídio ou à violência dos menores contra os maiores”.

Mas, quem imaginaria, que em 2013, um ano após o centenário do maior dramaturgo brasileiro, a censura a uma de suas obras viria da prefeitura de Campos? É isso que afirma o Grupo de Teatro Oito de Paus, do Rio de Janeiro. A página do Grupo no Facebook traz um desabafo em denúncia à prefeitura de Campos, que teria censurado a apresentação da peça “Bonitinha, mas Ordinária” em Campos. Os motivos seriam baseados em fundamentalismo evangélico. O assunto foi abordado no Blog do Cláudio Andrade e em Opiniões, de Aluysio Abreu Barbosa, com a reprodução de um e-mail do diretor do Grupo, Luís Felipe Perinei.

Segue o texto postado no Facebook, ontem (8 de julho) às 14h26 e assinado por Rodrigo Vahia, que é membro do Grupo de Teatro Oito de Paus.

“Liberdade? Que liberdade? De expressão, então…

Não costumo postar textos de desabafo por aqui, porque particularmente acho que os problemas de cada um devem ser resolvidos na sua intimidade. Mas o ocorrido está além da minha, ou da intimidade de um grupo de artistas, do qual eu faço parte. Mas de todo um coletivo que acredita na livre troca de informação, produção de ideias e reflexões. Que acredita, mais do que na liberdade de escolha, no direito a escolha. Que acredita na liberdade de expressão.

O fato que vou relatar aqui é GRAVE. Não pelo aspecto financeiro ou pelo descomprometimento. Mas pelo coronelismo e pelo cerceamento ao direito individual de liberdade. Além de, grosseiramente falando, ainda termos pessoas despreparadas e imbecis opinando e interferindo sobre políticas culturais, quando na verdade não deveriam nem estar varrendo rua, que é para não ofender os garis. Mas o fato é que o meu grupo de teatro teve a peça “Bonitinha, mas Ordinária” CENSURADA em Campos, pela Fundação Trianon, após a troca da sua presidência que resolveu rever os projetos já contratados. Simplesmente porque a peça de Nelson Rodrigues poderia ofender a prefeita Rosinha Garotinho, que é evangélica. Em pleno século XXI? Roubo, corrupção, lavagem de dinheiro através de ONGs, isso não ofende a atual prefeita, não é… Coitada, ela não deve saber dessas coisas… Ou deve rezar bastante e seu Deus a perdoa. Afinal, dinheiro não falta para pagar a própria redenção. Mas aí já não cabe a ninguém… Já que trata da individualidade dela. A questão é quando a individualidade de um governante interfere nas escolhas referentes ao coletivo. E é na minha opinião, a menos que eu esteja realmente ficando louco, INADMISSÍVEL, uma peça ser censurada porque pode desagradar esse ou aquele político!!! SE ALGUÉM CONCORDA COMIGO, POR FAVOR, COMPARTILHE ESSA MENSAGEM ATÉ QUE ELA CHEGUE À FUNDAÇÃO TRIANON EM CAMPOS. Não porque eu queira fazer a peça lá agora, porque sinceramente perdi a vontade. Mas porque acho digno mostrar também a essas pessoas que não vivemos mais em um regime absolutista e que não se faz política, nem muito menos arte, com a opinião ou aprovação de quem quer que seja. Nem de Deus. Quiçá de uma rosa.

Rodrigo Vahia – Membro do Grupo de Teatro Oito de Paus”

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Fundamentalismo envangélico de Rosinha barrou Nelson Rodrigues do Trianon?

Diretor de teatro noticia que peça de Nelson Rodrigues foi barrada no Trianon por motivos religiosos

Por Cláudio Andrade, em 09-07-2013 – 10h38

Oi Claudio!

Bom dia!

Eu sou diretor do Grupo de Teatro Oito de Paus aqui no Rio de Janeiro e sou primo do Marcelo Rebel como ele falou com você pelo facebook.

Então, vou te explicar o absurdo que aconteceu.

Mais ou menos em maio eu entrei em contato com a Fundação Trianon (presidente João Vicente) e apresentei o projeto da nossa peça que está em cartaz aqui no Rio chamada “Bonitinha, mas ordinária” de Nelson Rodrigues e eles aceitaram. E o que ficou firmado entre nós é que faríamos uma apresentação no Teatro Trianon no dia 10 de agosto. Mandamos a nossa documentação toda certinha, tivemos gastos e etc.

Em junho a Fundação me ligou confirmando. Porém, na semana passada eu recebi um e-mail da Fundação Trianon me informando que a peça tinha sido cancelada porque houve uma mudança de presidência da Fundação Trianon que agora é apenas Teatro Trianon e que agora a Fundação que comanda tudo é a Fundação Osvaldo Lima e a nova presidência tinha cancelado alguns espetáculos. Diante disso, ontem, eu liguei para a Fundação em busca de uma resposta mais concreta do que tinha acontecido.

Liguei e consegui falar com o João Vicente (antigo presidente da Fundação Trianon) que me contou indignado que a nova Fundação (Osvaldo Lima) tinha cancelado a peça porque era Nelson Rodrigues e a peça poderia ofender a prefeita Rosinha Garotinho por ela ser evangélica. Inclusive acham que a peça teria muitos palavrões, que é imoral e etc… Ou seja, a ignorância reina mesmo nessa prefeitura e nessa prefeita que provavelmente não conhece as obras do consagrado autor nacional Nelson Rodrigues pra achar que ele é imoral ou algo do tipo.

Bom, foi isso. Espero que você possa nos ajudar a fazer barulho contra essa absurda espécie de censura pela qual o Grupo passou.

Luís Felipe Perinei

luisfelipeperinei@hotmail.com

Obs: contraditório salvaguardado aos agentes públicos municipais.

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Plebiscito é a resposta de um governo que não tem nenhuma para dar

Jornalista e cineasta Arnaldo Jabor
Jornalista e cineasta Arnaldo Jabor

O plebiscito

Por Arnaldo Jabor

Pai, o que é plebiscito? — assim perguntava o menino, no conto de Artur Azevedo, em 1890. O mesmo aconteceu comigo.

Estava na sala e de repente meu filho levanta a cabeça e pergunta:

— Pai, o que é plebiscito?

Eu fechei os olhos imediatamente para fingir que dormia. O menino insiste:

— Papai? O que é?

Não tenho remédio senão abrir os olhos.

— Ora essa, rapaz, tens treze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?

— Se soubesse, não perguntava.

— Plebiscito, meu filho, é quando o governo pergunta ao povo o que ele acha de determinado assunto importante para o país. Voltou à tona depois que houve as manifestações de rua, com mais de um milhão de pessoas protestando contra o caos brasileiro.

— Que pergunta é importante para o Brasil?

— São muitas perguntas meu filho… quer exemplos? Muito bem… vamos a isso:

— Você é contra ou a favor de 15 bilhões para estádios de futebol, dinheiro que dava para fazer 50 hospitais ou 75 quilômetros de metrô em São Paulo? Você é a favor da reforma politica? Você sabe o que é voto distrital comum ou misto? É contra ou a favor? Aliás, você sabe o que é isso, filho?

— Se você explicar…

— Também não sei, filho… mas, vamos lá… Você é contra ou a favor de haver 28 mil cargos de confiança no governo, se a Inglaterra tem apenas 800 e os Estados Unidos, 2 mil? O Brasil tem mais de 5.700 municípios, com prefeitos, vice prefeitos, 513 deputados federais, 39 ministérios. Não dava para cortar tudo pela metade? E o PAC? Que fez o PAC até hoje? Com a corrupção deslavada, o PAC acabou fazendo pontes para o nada, viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, esgotos à flor da pele, tudo proclamado como plano de aceleração do crescimento.

Os melhores economistas do mundo dizem que temos de abandonar a politica econômica de estimular demanda e atentar para o crescimento da oferta, pela redução de gastos do Estado, que se apropria de 36% da renda nacional mas investe menos de 3% e consome grande parte dos recursos para sua própria operação. Você entendeu o que falei? Um dia, entenderá.

Você é contra ou a favor de investigar por que a Petrobrás comprou uma refinaria no Texas por US$ 1 bilhão, se ela vale apenas US$ 100 milhões? Você é contra ou a favor da ferrovia Norte Sul que está sendo construída há 27 anos, com mil roubalheiras e ainda quer mais 100 milhões para cobrir o que a Valec desviou quando o Juquinha, afilhado do eterno Sarney, era o chefão?

— Quem é Sarney?

— É o comandante do atraso.

— Ah, legal…

— Você é contra ou a favor da CPI que fez o Cachoeira sumir do mapa para não criar problemas para o Executivo e suas empreiteiras? Você lembra das operações da Policia Federal, com lindos nomes? Cavalo de Troia, Caixa de Pandora (do Arruda), Anaconda, das mil ambulâncias dos sanguessugas? E tantas outras. Quantos estão presos hoje? Você é contra ou a favor de reforma do Código de Processo Penal? Aliás, por que o PT quer tanto o plebiscito? Ele lucra com isso? Sim ou não?

O Lula sumiu de cena mas já declarou que as manifestações são “coisa da direita”. E o PT? É peronista de direita ou de esquerda? Com a volta da inflação, você é contra ou a favor da correção monetária para o Bolsa Família? Você não acha que é fundamental a privatização (ohhh, desculpe, “concessão”) de ferrovias, aeroportos e rodovias?

Por que uma das maiores secas de nossa história não é analisada pelo governo? Para não criticar os donos da indústria da seca, por motivos eleitorais? Alias, o que aconteceu com o Rio São Francisco, que disseram que iam canalizar? Parou? Sim ou não?

Sem dúvida, Sergio Cabral foi quem mais se queimou nisso tudo. Mas, pergunto, que será do Estado do Rio de Janeiro com o Lindbergh Farias, ex-prefeito de Nova Iguaçu, com o sigilo quebrado pelo STF, governando o Estado até 2018? Será que o Pão de Açúcar fica em pé?

Você acha legal ou não a importação de médicos cubanos para o País?

Você é contra ou a favor do “trem bala” que custará (na avaliação inicial) cerca de 30 bilhões de reais, que davam para renovar toda a malha ferroviária comum? Aliás, nessa velocidade, qual a altura que ele vai voar, quando os traficantes do Rio puserem pedras nos trilhos?

Você acha que os “mensaleiros” ficaram contentes com o fim da PEC 37 que o Congresso, apavorado, rejeitou?

Você acha normal que o Brasil cobre R$ 36 de impostos sobre cada R$ 100 produzidos? Você não acha o Palocci muito melhor que o Mantega? Por que não chamam o Palocci? Quem é? É o melhor cara do PT, que impediu a destruição do Plano Real durante os quatro anos do primeiro mandato do Lula.

Você entende, meu filho, o governo do Brasil tenta com sua ideia de mudança constitucional transformar problemas administrativos em problemas institucionais. Você não acha que querem disfarçar sua incompetência administrativa? Afinal, quem governou o país nos últimos dez anos? Agora, parece que descobriram que o país precisa de reformas, que o PT não fez nem deixou fazer por 10 anos. Agora, gritam todos: reforma! Por isso, pergunto: será que os intelectuais não veem que a democracia conquistada há 20 anos está sendo roída pelos ratos da velha política? Você acha que a Dilma está com ódio do Lula, por ter finalmente descoberto o tamanho da herança maldita que deixou para ela? Mas Lula não liga. “Ela que se vire…” — le pensa, em seu egoísmo, secretamente até querendo que ela se dane, para ele voltar em 2014. Você acha, meu filho, que o Lula vai ser candidato de novo? E será eleito como “pai do povo” , para salvar o País que ele destruiu?

E que você acha de todas essas perguntas, filho? Qual a sua opinião?

— Pai, o povo já respondeu a todas essas perguntas. Então, para que perguntar de novo?

— É técnica de marketing, meu filho. Ideia do Lula, para dar a impressão de que o governo não sabia de nada. Como ele nunca soube.

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Anderson e Ali — De canhota, do pedestal dos deuses à lona dos mortais

Desde a madrugada de sábado para domingo, muita coisa já foi dita e escrita sobre a derrota do brasileiro Anderson “Spider” Silva, por conta do nocaute imposto pelo jovem estadunidense Chris Weidman, que lhe roubou o cinturão de campeão dos pesos-médios do Ultimate Fighting Championship (UFC), em Las Vegas, no segundo assalto de uma luta programada para cinco. Para variar, os idiotas sempre em numeroso plantão no Brasil, já lançaram levianamente seus boatos de que Anderson teria entregado a luta. São os mesmos imbecis para quem a Seleção Brasileira entregou a Copa de 1998 para a França de Zidane, o brasileiro Júnior Cigano entregou o cinturão dos pesados do UFC para o estadunidense Cain Velasquez, a presidente Dilma comprou a Espanha de Iniesta para entregar ao Brasil de Neymar a Copa das Confederações, a imprensa que ousa criticar a corrupção e a incompetência do PT é golpista, e os opinadores da mídia que seguem pela mesma linha, enxergando e apontando o óbvio ululante da preocupante realidade nacional, o fazem por terem sido comprados pela Central de Inteligência Americana (CIA).

É correto, no entanto afirmar que, após sete anos e 16 lutas invicto no UFC, recorde insuperável na divisão mais importante das Artes-Marciais Mistas (MMA), Anderson perdeu a luta do último sábado, mais do que o promissor lutador Weidman a ganhou, mesmo que este também esteja invicto no UFC e talvez seja o único na categoria dos médios, além do brasileiro Vitor Belfort, com capacidade física e técnica para endurecer uma luta contra o nosso Spider. A bem da verdade, desde a vitória deste contra o ex-campeão dos meio-pesados Forrest Griffin, em 2009, numa das suas mais brilhantes apresentações; passando depois, em 2010, pelo brasileiro Damien Maia, sua luta mais criticada, e pelo estadunidense Chael Sonnen, num combate em que perdia todos os cinco assaltos, até encaixar um triângulo (golpe de jiu-jítsu) salvador nos momentos finais; pelo japonês Yushin Okami, numa revanche em 2011; e novamente por Sonnen e pelo também estadunidense Stephan Bonnar, outro meio-pesado, nas suas duas boas lutas de 2012; Anderson já vinha demonstrando a mesma arrogância dentro do octógono, baixando a guarda completamente em vários momentos do combate, que o conduziria à sua primeira derrota no UFC, frente a Weidman.

Daquela peleja memorável contra Griffin, em 9 de agosto de 2009, até o nocaute igualmente memorável sofrido em 6 de julho último, quase quatro anos depois, a única luta em que o agora ex-campeão atuou com sobriedade, respeitando o adversário, sem dar sopa ao azar, foi justamente contra Belfort, em 2011, a quem nocauteou com um chute no queixo, ao melhor estilo “Karatê Kid”, num daqueles golpes que se tenta talvez 10 vezes numa carreira de lutador profissional, para se encaixar apenas um, durante toda a vida. Mas ele manteve sua guarda o tempo inteira atenta, por respeitar, com boas razões, a velocidade e a força dos punhos do ex-campeão Belfort. Contra Weidman, que tem uma envergadura (leia-se alcance de golpe com as mãos) tão boa quanto à sua própria, Anderson achou que poderia brincar. Deu no que deu!

Para quem é capaz de enxergar o mundo das lutas, como tudo mais na vida, além daquilo chapado no presente ou no umbigo passado do seu próprio tempo de existência, inegável também que a guarda baixa, quando os golpes do adversário são fintados unicamente com base na superioridade da técnica, dos reflexos e da resposta motora, é uma característica que Anderson herdou de outro fora de série, talvez o maior lutador da história do boxe (uma das principais “pernas” do MMA, ao lado do muay thay, do wrestling e do jiu-jítsu): Muhammad Ali, pugilista campeão de todos os pesos nada menos que três vezes, entre as décadas de 60 e 70 do século passado. E, como Ali, a guarda baixa junto com as provocações verbais durante a luta, faziam parte de uma estratégia pensada, para colocar o adversário num combate psicológico, tirando-o, portanto, do combate real do ringue.

Como homem, não há como se comparar Anderson com Ali — este, um herói na acepção mais plena da palavra, na luta pelos direitos civis que incendiou os EUA no pós-II Guerra Mundial (1939/45), mas desembocaria pacificamente, algumas décadas depois, na eleição de um tal Barack Obama à Casa Branca. Já como lutador, uma distinção pode ser feita no fato de que o combate psicológico sempre proposto pelo legendário campeão de boxe, visava capturar o adversário, não a si, como parece ter acontecido no sábado com o brasileiro considerado o maior lutador de MMA de todos os tempos.

Em relação a Ali, numa analogia pertinente ao momento presente de Anderson, o mesmo pecado do primeiro foi cometido sequer antes do segundo ter nascido, numa noite fria de 8 de março de 1971, no Madison Square Garden, em Nova York. Voltando de um período de três anos de inatividade, no qual lutou contra o Exército e o Poder Executivo dos EUA, que queriam impor-lhe uma convocação militar para servir na impopular Guerra do Vietnã (1959/75), mas na qual derrotaria seus mais poderosos adversários, no ringue da Suprema Corte do seu país, Ali voltou nos braços do povo para enfrentar quem, com a mesma justiça, se fizera campeão mundial peso-pesado de boxe em sua ausência forçada: Joe Frazier (1944/2011), então jovem, promissor e invicto como Weidman.

Também invicto, inebriado pela vitória moral da sua causa e pela popularidade mundial através dela alcançada, além de fiel fervoroso do islamismo, crença pela qual mudou seu nome cristão de Cassius Marcellus Clay para Muhammad Ali, ele passou os 15 rounds com sua direita sempre baixa, soltando seus golpes retos, de alcance mais longo, enquanto repetia incessantemente para Frazier: “Caia, idiota! Caia! Não sabe que Deus quer que eu seja o campeão? Deus quer que você caia!” Ao que Frazier respondeu, no último assalto de um combate equilibrado, com um cruzado de esquerda, seu golpe mais letal, muito parecido com aquele que Weidman desferiu para nocautear Anderson. Como no boxe, diferente do MMA, as regras não permitem se bater no adversário caído, Frazier aproveitou a chance, no entanto, para complementar com o verbo a contundência da sua canhota: “Pois Deus hoje caiu de bunda!”

Embora também como homem, além do lutador, Ali estivesse muito próximo ao Divino, ele não era Deus. Ainda assim, derrotaria Frazier nas duas lutas que ambos fariam depois, a última delas em Manila, capital das Filipinas, naquela que é considerada uma das mais violentas da história do boxe. Além disso, reconquistaria o cinturão de campeão duas vezes, contra George Foreman, em Kinshasa, capital do Zaire, em 1974, na luta que marcou seu auge, e diante de Leon Spinks, mesmo já em decadência, na Nova Orleans de 1978.

A lenda Anderson Silva pode ter sofrido uma queda, pode até tê-la buscado inconscientemente como homem, mas mesmo aos 38 anos o lutador ainda possui as ferramentas para derrotar Weidman, desde que resolva lutar sério, na revanche já anunciada por Dana White, big boss do UFC, reconquistar o cinturão dos médios, e depois fazer as tão desejadas super-lutas, tanto com o campeão da categoria abaixo, nos meio-médios, o cerebral canadense George Saint-Pierre, ou o detentor do título da categoria acima, nos meio-pesados, o temível estadunidense Jon Jones. Ganhando ou perdendo esses combates ainda supostos, nada impede que faça outra super-luta, aquela que confessa pessoalmente mais desejar, com regras ainda a serem definidas, contra seu ídolo pessoal no boxe, o estadunidense Roy Jones Junior, outro herdeiro legítimo da técnica refinada de Ali e único na história a conquistar o cinturão dos médios e dos pesados entre os profissionais da nobre arte.

Até lá, como um cruzado de esquerda de Frazier ensinou ao maior pugilista de todos os tempos, que a canhota do agora campeão Weidman faça o maior na história do MMA descer do salto, por meio do dolorido aprendizado de uma velha, batida, mas preciosa lição: cautela, canja de galinha (e guarda alta) nunca fizeram mal a ninguém.

Abaixo, os vídeos das quedas, do pedestal dos deuses à lona dos mortais, sofridos por Ali e por Anderson…

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Noves fora o peleguismo, a voz das ruas do PT de hoje é só uma fotografia na parede

PT — Um retrato na parede

Se você imaginava que o PT se resignaria em ser expulso das ruas pelos manifestantes que convulsionam pedaços das maiores cidades do país, sinto muito, enganou-se. Avalizada por Dilma, a ordem foi emitida pela direção do partido: lustrem as estrelas guardadas junto com antigas lembranças. Espanem a poeira das bandeiras rotas. Dispam-se dos trajes de burocratas. Todos às ruas na próxima quinta-feira.

Pouco importa que o “Dia Nacional de Luta”, que prevê passeatas e greves, tenha sido convocado pelas centrais sindicais e movimentos afins. O PT não amanhecerá menor no dia seguinte só porque pegou carona em ato alheio. De resto, é o governo que tudo financia. Até mesmo o que poderá machucá-lo um pouquinho. O peleguismo renovou-se. Mas não deixou de ser peleguismo.

Que palavras de ordem gritará o PT? O que cobrará por meio de faixas e cartazes? O governo encomendou o apoio à reforma política elaborada por uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva e submetida a um plebiscito. O PT entregará a encomenda. Por absurda, a ideia da Constituinte foi sepultada em menos de 24 horas. O plebiscito naufragou por falta de tempo para que seus efeitos incidissem sobre as eleições do próximo ano.

Dilma esperava lucrar com uma reforma que lhe garantisse melhores condições de concorrer ao segundo mandato. E que levasse o PT a emergir da eleição ainda mais forte. Casuísmo descarado, pois — não a reforma, necessária. Mas a pressa com que seria feita e a tentativa de empurrar goela abaixo do Congresso pontos da reforma destinados a agradar Dilma e o PT.

A insistência com a Constituinte e o plebiscito trai o desejo de Dilma em responsabilizar o Congresso pela reforma que ele não quer fazer. E denuncia o momento confuso e delicado que o governo atravessa. Uma pena o PT não poder dizer aqui fora o que diz quando se reúne no escurinho do cinema. Ou mesmo o que começou a dizer recentemente a Dilma. A coragem muitas vezes é movida pelo medo. E o PT receia perder o poder.

A política econômica está uma droga. A culpa não cabe apenas a Guido Mantega — aquele que Fernando Henrique chamou de “bem fraquinho” quando virou ministro da Fazenda do governo Lula. Cabe também a Dilma — aquela que Lula apresentou como melhor gestora do que ele. Maluf elegeu Celso Pitta prefeito de São Paulo pedindo para não votarem mais nele, Maluf, caso Pitta fracassasse. Pitta fracassou. Lula não foi tão longe em relação a Dilma.

Aumenta a inflação. Diminuem os investimentos. Desequilibram-se as contas públicas. Revisa-se para baixo o Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todas as riquezas do país. O governo carece de uma estratégia compartilhada por seus 39 ministros. Há ministros demais e competência de menos. Em larga medida, o voluntarismo de Dilma é responsável pelo mau desempenho da economia. Seu desprezo pelos políticos só lhe cria problemas.

Lula montou uma gigantesca coligação de partidos para eleger Dilma e ajudá-la a governar. Esqueceu de escalar ministros aptos a cuidarem da articulação política. Apostou suas fichas em Palocci, posto na Casa Civil para escorar Dilma. Descobriu-se que ele se tornara milionário enquanto fazia política. Acabou demitido. A coligação ameaça se esfarelar. A persistir a queda de Dilma nas pesquisas, ela será abandonada.

O PT do passado teria material de sobra para na quinta-feira ecoar a voz das ruas. O de hoje, não. É apenas uma fotografia na parede.

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