Invasão da Rússia à Ucrânia — O mundo nunca mais será o mesmo

 

“Às vezes, se fala na brutalidade animal do ser humano, mas isso é incrivelmente injusto e insultante para as feras; um animal nunca poderia ser tão cruel como o ser humano, tão artisticamente cruel”

(Fiódor Dostoiévski, em “Os Irmãos Karamazov”)

 

Vladimir Putin, faixa-preta de judô, exibe sessentão o torso atlético sem camisa, como costumava fazer o ditador fascista italiano Benito Mussolini (Foto: Ria-Novosti/AFP)

 

Morto no último dia 15, o cineasta e jornalista Arnaldo Jabor definiu talvez a grande lição sobre os atentados do terrorismo islâmico às Torres Gêmeas do World Trade Center, na Nova York de 11 de setembro de 2001:

— Deus está vivo. E se chama Alá.

 

Nova York, 11 de setembro de 2001 (Foto: Reprodução de TV)

 

Arnaldo Jabor, cineasta e jornalista

Descendente de imigrantes judeus libaneses, educado em colégio de jesuítas e ateu, Jabor alertava que o ataque ao coração do novo Império Romano era a realidade esbofeteando a cara de todo o Ocidente. Soberbo na leitura porca do filósofo alemão Friederich Nietzsche, que no século 19 decretou: “Deus está morto”. Arrogante com o “fim da História” decretada pelo filósofo e economista liberal Francis Fukuyama, logo após a dissolução da comunista União Soviética em 1991.

Para quem passou por Renascimento, Reforma, colonização das Américas e Iluminismo, talvez. A quem, sem passar por nada disso, chegou às mesmas revoluções industrial e digital, não. Cada qual com suas particularidades, são os casos das civilizações Islâmica, Chinesa e Indiana. Que dividem o mesmo mundo e tempo conosco, Ocidente greco-romano-judaico-cristão. Fruto também deste, muito antes de ser a principal herdeira soviética, a Rússia é também um hibridismo geográfico e antropológico: enclave europeu espraiado por toda a latitude gigantesca da Ásia. Nela, é tão eslava, viking e católica ortodoxa, quanto mongol, tártara e islâmica.

As civilizações são diferentes. Como não são iguais os países. Prova disso foi dada na noite de ontem, quando o Conselho de Segurança da ONU, reunido na Nova York capada das Torres Gêmeas, vetou a resolução pela condenação da invasão injustificada da Rússia de Vladimir Putin, na madrugada brasileira de quinta, à vizinha e até então soberana Ucrânia. Dos 15 países votantes, 11 foram a favor, incluindo o Brasil de um Bolsonaro com medo de outubro, três se abstiveram. Como, então, foi reprovada? Simples. Só cinco têm assento permanente no Conselho e o poder unitário de veto: EUA, Grã-Bretanha, França, China e Rússia. Esta, por óbvio, vetou.

 

Embaixador da Rússia no Conselho de Segurança da ONU, Vasily Nebenzya vetou na noite de ontem a resolução pela condenação da invasão injustificada à Ucrânia

 

Glauber Rocha, cineasta baiano

A Ucrânia não é só vizinha da Rússia. É sua irmã mais velha. Está para Rússia como a Bahia ao Brasil. Foi lá que tudo começou. E para quem acha que todo baiano é brasileiro, fica a autodefinição do cineasta Glauber Rocha aos seus anfitriões no tempo de exílio em Cuba, no auge da ditadura militar no Brasil, retratada no documentário “Rocha que Voa” (2002), dirigido por seu filho Eryk Rocha: “Eu não sou brasileiro, eu sou baiano”. A primeira vez que o nome Rússia surgiu nos mapas, na Idade Média do século 9, foi como Rússia de Quieve — e Kiev, desde ontem cercada pelo rápido avanço militar russo, é até hoje a capital da Ucrânia.

 

Ucrânia e Rússia de hoje nasceram juntas na Rússia de Quieve, juntando eslavos orientais e vikings suecos no século 9 (Mapa: Wikipédia Brasil)

 

No tempo dos czares de todas as Rússias, do século 18 à Revolução Russa de 1917, Rússia e Ucrânia formaram o mesmo país. E continuaram juntas na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que chegou ao fim em 1991. Foi justamente quando três destas repúblicas se tornaram independentes: Ucrânia, Rússia e Bielorússia (ou Belarus). Esta, hoje governada pelo autocrata tresloucado Aleksandr Lukashenko, aliado de Putin e chamado de “o último ditador da Europa”, que franqueou o caminho para os russos a Kiev. Confiante na fraternidade ancestral da sua relação com a Rússia, a Ucrânia se separou e passou a ela todo o arsenal nuclear instalado em seu território pela URSS. Quando o fez, de bom grado, a Ucrânia era a terceira potência atômica do mundo, atrás apenas da Rússia e dos EUA.

 

Após sair da União Soviética como terceira potência atômica do mundo, a Ucrânia desmontou seus silos de mísseis nucleares nos anos 1990, passando-os para a Rússia

 

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia

Se a Ucrânia tivesse mantido seu arsenal nuclear, do qual era tão herdeira quanto a Rússia, Putin hoje desinflaria o peito de pombo, arrulhando enquanto finge rosnar. O país foi ingênuo há 31 anos. Como foi ingênuo seu ainda presidente, o ex-comediante Volodymyr Zelensky. Por acreditar que, sem pertencer à Otan, o Ocidente viria em sua ajuda na guerra contra o Golias que a Ucrânia enfrenta sozinha. Como Davi, mas sem as mesmas virtudes bélicas do rei da Antiga Israel, Zelensky é judeu. E é acusado por Putin, ex-agente da Gestapo soviética da KGB, de ser neonazista. Se a URSS perdeu 20 milhões de vidas para derrotar a Alemanha Nazista na II Guerra, 8 milhões dessas almas eram ucranianas. Foi às margens do mesmo rio Dniepre que os tanques russos cruzam agora na Ucrânia, que os avôs dos antagonistas de hoje, juntos, derrotaram os nazistas em 1943, numa das maiores batalhas de blindados da História.

 

Avôs dos soldados que hoje se enfrentam em lados opostos, russos e ucranianos atravessam juntos o rio Dniepre na Ucrânia de 1943, para vencer o nazismo na II Guerra

 

Capaz de matar dissidentes russos envenenados até na Inglaterra, de proibir que as russas deem queixa se agredidas fisicamente pelos maridos e de agora reprimir com a polícia as centenas de manifestações na Rússia contra sua invasão à Ucrânia, Putin é moralmente indefensável. A Rússia, não. Após a queda do Muro de Berlim em 1989, os EUA e a Alemanha temiam que a URSS fosse reagir militarmente, como fez na invasão da Hungria em 1956 e da ex-Tchecoslováquia em 1968. Último presidente soviético, Mikhail Gorbatchov ouviu o pedido, feito em 1990 por James Baker, então secretário de Estado dos EUA no governo George Bush pai, e pelo então chanceler da Alemanha, Helmut Kohl, de não intervir na reunificação germânica. A URSS prometeu não se meter. E cumpriu. Em troca, Gorbachov pediu que a Otan não agregasse países da área de influência soviética. Os EUA não cumpriram. Onze países do extinto Pacto de Varsóvia, feito pela URSS em resposta à Otan, hoje integram esta.

 

James Baker, secretário de Estado dos EUA, discute em 1990 a reunificação da Alemanha com o último presidente soviético, Mikhail Gorbachov (Foto: The Baker Institute)

 

Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia

Os interesses geopolíticos da Rússia são moralmente justos. Os métodos de Putin, não. Mas, ainda que seja um canalha amoral, ele também mostrou ser uma águia geopolítica nestes seus 22 anos no poder. Como seu ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, tem só meio século de experiência. Com uma aliada China para chamar de sua e o recorde de US$ 630 bilhões em reservas cambiais, a Rússia guardou gordura para sobreviver às sanções econômicas do Ocidente sem passar fome no inverno da guerra. Esta sempre tem por característica a imposição cruel da realidade esbofeteando a face das idealizações.

 

Presidentes da Rússia e da China, respectivamente, Vladimir Putin e Xi Jinping (Foto: Sputnik/Ramil Sitdikov/Kremlin via Reuters)

 

Em se tratando de um combate, olhar para Putin e Lavrov em um canto do ringue e, no outro, um Emmanuel Macron preocupado com as eleições presidenciais da França em abril, um Boris Johnson aliviado por desviar as atenções dos comes e bebes que promoveu enquanto determinava à Grã-Bretanha isolamento social na pandemia da Covid, um Olaf Scholz que acabou de assumir como chanceler da Alemanha sob a sombra densa da sua antecessora Angela Merkel, e um Joe Biden humilhado pela retirada desastrosa dos EUA do Afeganistão, quem apostaria contra os dois primeiros? Biden, que derrotou nas urnas de 2020 um Donald Trump aliado de Putin, parece ser o adversário perfeito para este. Aos 79 anos, é moderado, empático, defensor da energia limpa, das minorias étnicas e de orientação sexual.

 

Emmanuel Macron, Boris Johnson, Olaf Scholz e Joe Biden (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Assertivo, frio, exportador do gás que aquece o resto da Europa durante o inverno rigoroso deles, pragmático com as minorias étnicas e perseguidor da sua população LGBT, na defesa da “família tradicional”, Putin ainda assim consegue ser defendido por parte da esquerda mundial. Que é viúva, como a própria Rússia, do Muro de Berlim e da URSS. Na paráfrase de Jabor, a figura e os atos do autocrata russo bradam:

— O macho alfa está vivo. E se chama Putin.

 

Irmãos ucranianos e campeões mundiais peso pesado de boxe profissional, Vitali e Wladimir Klitchsko dominaram o esporte por mais de duas décadas

 

Ao se alistarem heroicamente na defesa armada do seu país contra a invasão russa, os irmãos e ex-campeões Vitali e Wladimir Klitschko dominaram o mundo do boxe peso pesado profissional entre os anos 1990 e 2010. Vitali é o prefeito de Kiev. Seja na política ou no ringue, os dois sabem bem que luta não é briga. A contagem já está aberta. Na lona, como depois do 11 de setembro, o mundo que se levantar nunca mais será o mesmo.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Helinho Nahim fecha a semana do Folha no Ar nesta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (25), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador de oposição Helinho Nahim (PTC). Ele falará sobre a anulação e a inevitável judicialização da eleição de Marquinho Bacellar (SD), no dia 15, a presidente da Câmara.

Helinho também analisará qual será agora o caminho político da oposição no Legislativo goitacá. Por fim, ele dará sua projeção às urnas de outubro a deputado estadual e federal, governador do RJ e presidente da República.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Os 98 anos de vida de Aída Siqueira pela filha Silvana

 

Dona Aída da Rocha Siqueira faleceu no último sábado, dia 19, mesmo dia em que completou 98 anos. Fez a passagem em casa, como queria e onde toda a estrutura hospitalar tinha sido instalada. Após uma infecção por Covid — para a qual tinha tomado as três doses de vacina — cerca de um mês antes de morrer, ela não resistiu à falência múltipla dos órgãos. Foi velada e sepultada na tarde de domingo (20), no Campo da Paz.

Dona Aída deixou os filhos Francisco Roberto, Sebastião José, Jayme Cézar, Silvana Dorotéa e Sheilla Siqueira; 15 netos e 16 bisnetos. E o legado de uma vida digna. Que hoje foi lembrado por sua filha Silvana, a SilSiqueira, amiga muito querida e escritora, em texto que segue abaixo na transcrição pungente do que foi e permanecerá sendo a sua mãe:

 

Silvana e Aída Siqueira (Foto: Arquivo de Família)

Mãe

Foi num dia de domingo, como cantava Tim Maia, de quem ela era fã.

Foi depois de uma vitória por 3 x 0 do Fluminense, “o melhor time”, como ela dizia.

Praticante de yoga até os seus 90 e poucos anos, colecionava imagem do Ganesha e lia sobre a vida de Yogananda. Fomos a San Diego, nos Estados Unidos, para ela visitar a casa onde o Yogue passou os seus últimos dias. Um sonho realizado.

Católica, devota de São José, contribuía religiosamente com a Canção Nova. Também lia a sorte no tarô e via o futuro na bola de cristal. Era múltipla!

Considerava o mundo um celeiro de oportunidades no qual deveríamos estar abertos ao conhecimento e às novas experiências.

Corajosa. Independente. Ousava!

Nos anos 60 montou um estúdio de beleza na casa da rua do Gás onde atendia às amigas: limpeza e tratamento da pele. Vendia Avon. Sempre foi muito vaidosa.

Academia de ginástica, musculação, pilates. Era puro movimento!

Quando menina, tinha sonho de ser bailarina. Mas a família desaprovava: moça direita não dança.

Um cafezinho era sempre bem-vindo. Só não podia ser “café rosita” — uma das expressões criadas por ela para designar um café frio. Criou outras, que somente a família entendia: chapelão, amara, catatau, caboio, balançou a roseira, Chico Russo, entre tantas.

Comia pouco. No passado foi adepta da alimentação macrobiótica e nos ensinou que açúcar e sal não são benéficos à saúde.

Não gostava de sol. Afirmava que envelhecia. E se besuntava de cremes e mais cremes, chapéu, óculos escuros para proteger e preservar a beleza da pele. Ir à praia era um sacrifício para ela.

Por onde passava deixava um rastro de alegria. Era um espírito livre de preconceitos, muito humana, sempre acolheu as pessoas sem rotular, sem julgar.

Carregava uma bondade inocente.

Tinha alma de artista! Tinha talento nato.

Começou a desenhar quando ainda era muito pequena; usando carvão queimado, ensaiava os primeiros traços. Saltou do carvão para os pincéis e deixou um acervo magnífico de porcelanas e telas assinadas com muito orgulho.

Com o passar dos anos foi perdendo a audição, mas não a vaidade. Aparelho auditivo? Apenas intra-auricular. E, contrariando todas as premissas, comprou um violão e contratou um professor particular. Sonhava tocar “Como é grande o meu amor por você”.

Ficou viúva aos 83 anos. Viveu o luto honrando o grande parceiro de vida. Deu a volta por cima dedicando-se aos filhos, netos, bisnetos e, principalmente, a si mesma.

Viajou meio mundo. Do calor de Corumbá ao frio da  Suíça, aproveitou cada oportunidade.

“Esquenta a cabeça, não!” era quase que um mantra. Muito otimista, tinha sempre uma palavra suave, um conselho sábio, uma saída certeira para um problema que nos afligisse.

Era detentora da sabedoria das crianças.

Deixou no cavalete uma tela inacabada. São rosas que não falam, mas exalam o perfume da pessoa maravilhosa que foi.

Finalizo com o trecho de uma canção que eu costumava cantar para ela:

“ Não se admire se um dia, um beija-flor invadir a porta da sua casa, te der um beijo e partir … fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo, faz tempo que eu não te vejo, ai que saudade d’ocê”.

 

SilSiqueira, fevereiro de 2022

 

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Vereador governista analisa Câmara no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta (24), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador governista Juninho Virgílio (Pros). Ele falará sobre a eleição do oposicionista Marquinho Bacellar (SD) a presidente da Câmara e da sua confusão seguinte com o edil Maicon Cruz (PSC), que encerrou aquela sessão do dia 15.

Juninho falará também da suspensão da eleição do resto da Mesa Diretora e de como isso tem deixado a Câmara sem sessões, como ocorreu ontem (22) e hoje (23). Por fim ele dará sua projeção às urnas de outubro a deputado, governador do RJ e presidente da República.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Minha história e a de Campos com o cineasta Geraldo Sarno

 

Geraldo Sarno na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em 2020 (Foto: Leo Lara/Universo Produção)

 

“Eu sou baiano. Lógico que também adoro Castro Alves. Mas não dá para escrever poesia, como os românticos do século 19, à beira do século 21. Você tem que ler o João Cabral, tem que ler o João Cabral. Aqui, aqui, pegue e leia, pegue e leia”. Naquela primeira metade dos anos 1990, foi o que me disse o cineasta Geraldo Sarno, em seu apartamento no edifício Salete, tomado por prateleiras de livros até nos banheiros. Falou com seu acento baiano e repetindo as palavras, como fazia quando queria reforçar a importância do que dizia, enquanto me dava para ler, página do livro aberta, o poema “O Cão Sem Plumas”, do mestre pernambucano João Cabral de Melo Neto. Foi meu primeiro contato com o grande poeta modernista brasileiro. Depois do qual meus versos e minha vida, então com pouco mais de 20 anos, nunca mais seriam os mesmos.

 

Poetas baiano Castro Alves e pernambucano João Cabral de Melo Neto (Montagem; Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Glauber Rocha, diretor de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964)

Soube na manhã de hoje pela imprensa nacional que Geraldo morreu na noite de ontem (23) aos 83 anos, por complicações de Covid, no Hospital Copa D’Or, no Rio. Amigo, conterrâneo, contemporâneo e camarada em armas de Glauber Rocha, a quem considerava o único gênio que conheceu em vida, era ele mesmo considerado o maior cineasta documentarista do Cinema Novo, movimento dos anos 1960 e 1970 que, influenciado pelo neorrealismo italiano de a Nouvelle Vague francesa, buscava romper com a influência do cinema comercial de Hollywood para retratar e discutir nas telas as abissais diferenças socioeconômicas do Brasil. Em uma entrevista, o diretor Héctor Babenco, argentino naturalizado brasileiro, revelou que decidiu sair da Argentina ao Brasil após assistir ao curta de documentário “Viramundo” (1965), de Geraldo, que trata da migração dos nordestinos como ele ao centro-sul do país.

Confira abaixo “Viramundo”, com direção e narração de Geraldo Sarno:

 

 

Darcy Ribeiro, antropólogo e idealizador da Uenf

Enquanto trabalhou na Uenf, de 1993 a 1998, Geraldo também marcou a história recente de Campos. E, talvez irrelevante, a minha. Ele meio que meio que me “adotou” como filho quando trabalhamos juntos na Uenf. Pouco depois que a universidade idealizada pelo antropólogo Darcy Ribeiro se instalou em Campos, prestei concurso para auxiliar de fonoteca naqueles tempos pré-Spotfy, para a Casa de Cultura Villa Maria. Cinéfilo, minha intenção era, uma vez dentro, tentar me aproximar do projeto do Escola Brasileira de Cinema e Televisão (EBCTV). Do qual Geraldo era figura de proa e ao qual o Solar do Colégio, primeira construção de Campos, no século 17, pelos jesuítas, seria reformado no governo estadual Marcello Alencar (PSDB). A ideia era reproduzir aqui o modelo de internato da Escola de Cinema de Cuba. Muito antes de abrigar o Arquivo Público Municipal, estive presente na inauguração da reforma do prédio histórico. Como teria a chance de visitá-lo em várias outras oportunidades.

 

Arquivo Público de Campos, instalado no Solar do Colégio, construído pelos jesuítas no séc. 17 e reformado nos anos 1990 para abrigar a Escola Brasileira de Cinema e Televisão (EBCTV) da Uenf (Foto: Folha da Manhã)

 

Joca Muylaert, jornalista e ex-diretor da Villa Maria

Dos canaviais cubanos aos campistas, eram três vagas incialmente. E fiquei em quarto lugar, entre algumas centenas de candidatos. Alguns meses depois, cruzei por acaso com o hoje falecido jornalista e amigo Joca Muylaert no Oásis, numa parada entre Campos e o Rio de Janeiro. Diretor à época da Villa Maria e sabendo que eu havia prestado o concurso, raspando na aprovação, ele me disse que estava pensando em reconvocar mais pessoas para trabalhar. O que se cumpriu pouco depois, facultando minha entrada na Uenf.

Orlando Senna, cineasta, ex-diretor da Escola de Cinema de Cuba e da EBCTV

Aproximei-me do Geraldo, que frequentava a Villa Maria. Por coincidência, ele estava buscando realizar lá vários cursos preparatórios aos candidatos campistas para a vinda da Escola de Cinema, em áreas como direção, produção, roteiro, montagem, iluminação, fotografia, interpretação. Para os quais trouxe a Campos várias referências dessas áreas no Brasil e na América Latina. Colei com Geraldo e fui me integrando às suas atividades, ao lado também do produtor cubano Alfredo Calvino e da diretora argentina Patricia Martin. Quem estava à frente do projeto era outro cineasta baiano, Orlando Senna, amigo já de longa data de Geraldo e ex-diretor da Escola de Cinema de Cuba.

 

Cena do documentário “O Homem de Aran”, de Robert Flaherty

 

Apesar de feito como filme de propaganda nazista, “Olympia”, de Leni Riefenstahl, imortaliza o herói da Olimpíadas de 1936 em Berlim, o negro dos EUA Jesse Owens, que conquistou quatro medalhas de ouro

Além de Cabral na poesia, lida a que sempre me estimulou, Geraldo me apresentou outros mestres, que ampliariam muito a minha visão ainda juvenil do mundo. Na sua especialidade, que era o cinema documentário, me apresentou o mestre estadunidense Robert Flaherty, cuja obra prima “O Homem de Aran” (1934), sobre a vida dura de pescadores dos gigantescos tubarões Basking numa ilha irlandesa, seguramente está até hoje entre os 10 melhores filmes que assisti. Também me apresentou à estética revolucionária dos filmes de propaganda nazista da mestra alemã Leni Riefenstahl, nos documentários “Triunfo da Vontade” (1935), sobre o Congresso do Partido Nazista de 1934 na cidade de Nuremberg, e “Olympia” (1938), sobre as Olimpíadas de Berlim de 1936. Seu cineasta preferido era o mestre soviético (hoje, letão) da ficção Serguei Eisenstein, do qual já conhecia o aclamado “Encouraçado Potemkin” (1925). Mas Geraldo me mostrou também “Outubro” (1927), refilmagem 10 anos depois da revolução Russa de 1917, com os mesmos protagonistas do fato real.

 

“Outubro”, de Serguei Eisenstein, diretor preferido de Geraldo Sarno, filmado em 1927 para celebrar os 10 anos da Revolução Russa de 1917, com seus atores reais

 

Alberto Salvá, diretor de “A Menina do Lado”, sucesso brasileiro de 1987

Entre um filme e outro, um livro e outro, uma dica sobre a arte e a vida aqui e ali, Geraldo me propiciou também outros encontros. Nos cursos preparatórios gratuitos na Villa Maria para a vinda da EBCTV, lembro de uma conversa longa que mantive com o hoje falecido cineasta Alberto Salvá, espanhol radicado no Brasil, diretor do grande sucesso “A Menina do Lado” (1987), com Reginaldo Faria e que lançaria Flávia Monteiro, musa “Lolita” dos anos 1980 e 1990. Salvá conferia a exibição do filme que tinha preparado para ministrar o curso, com várias cenas marcantes do cinema. Na escolhida por ele do clássico musical “Cantando na Chuva” (1952), de Stanley Dolan e Gene Kelly, no lugar da cena icônica com o canto e a dança de Kelly que batiza o filme, ele optou por outra. Após alguns segundos de exibição, no início da melodia, cravei: “‘Make ‘Em Laugh’ (“Faça-os Rir”), com Donald O’Connor”. Impressionado, Salvá aprovou: “Você também é um cinéfilo!”. Algumas horas depois, no meio do curso, ele reforçou meu orgulho quando contou a história a todos os presentes ao exibir a cena. Quando o diretor morreu, em 2011, já com as facilidades do YouTube, coloquei a cena de O’Connor para lembrar daquele feliz encontro, quase 20 anos antes, na Villa. E, no lugar de chorar sozinho pelo que tinha ficado para trás, ri.

 

 

Tito Almejeiras, ator e produtor argentino

Lembro também que era uma noite de 1993, novamente no apartamento de Geraldo no Salete, porque assistíamos na TV da sala, em sua primeira exibição naquele ano, a minissérie da Rede Globo “Agosto”, ficção sobre o entorno do suicídio de Getúlio Vargas baseada no romance homônimo de Rubem Fonseca. Estávamos Geraldo, eu e um amigo dele, o produtor e ator argentino Tito Almejeiras, que tinha vindo a Campos dar um curso de produção na Villa. Mesmo sendo os dois de uma geração que, com o Cinema Novo, rompeu com a influência anterior de Hollywood nas populares chanchadas brasileiras da Atlântida, da qual Carlos Manga, produtor da minissérie global, era egresso, Geraldo exclamou sobre ele, enquanto observava atento a TV: “O velho está afiado!”. Ao que Tito concordou, no braço geracional a torcer: “É verdade!”.

Com a deixa, provoquei os dois, afirmando que o mestre John Ford, ao estabelecer a mitologia dos EUA com seus westerns, tinha marcado mais o cinema do que o marxismo também genial de Eisenstein. Geraldo era zen e não comprou a briga. Mas Tito reagiu em seu portunhol: “John Ford glorificou a matança sangrenta dos índios nos EUA”. Ao que respondi: “Se é para falar de derramamento de sangue, não há ninguém melhor que os espanhóis”. O descendente de espanhóis baixou a guarda e aquiesceu, reflexivo, com o mesmo: “É verdade!”.

 

Gênios do cinema da União Soviética e dos Estados Unidos, respectivamente, Serguei Eisenstein e John Ford (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

“Perfume de Gardênia”, de Guilherme de Almeida Prado, lançado pelo diretor no antigo Cinema Goitacá

No auge daqueles cursos preparatórios para a EBCTV, todos amarrados por Geraldo com seus contatos no mundo do cinema, chegamos a realizar o lançamento em Campos do filme “Perfume de Gardênia” (1992), de Guilherme de Almeida Prado, no já então decadente Cinema Goitacá, antes de ser convertido como cristão novo à heresia de se tornar templo da Igreja Universal do Reino de Deus. Como a exorcizar sem consciência o futuro daquele espaço, eu e Guilherme saímos juntos após a exibição do seu filme, prestigiado com casa lotada, para lhe apresentar a noite campista, até quase o nascer do dia.

“Rocco e Seus Irmãos”, clássico do neorrealismo italiano do mestre Luchino Visconti

Bem mais suave era a sensibilidade de Geraldo. Um dia chegou à casa que eu tinha alugado para sair da casa dos meus pais e morar sozinho numa Atafona pré-Porto do Açu, e me gritou do portão. Como estava treinando boxe no saco de pancadas, nos fundos, gritei que ele poderia ir entrando. Atraído pelo barulho dos murros sucessivos no saco, ele chegou observou e nada disse, aparentemente indiferente, voltando para me esperar na sala. Na sua visita seguinte à minha casa, ele trouxe de presente uma fita de VHS. Era “Rocco e seus Irmãos” (1960), clássico do neorrealismo italiano do mestre Luchino Visconti, com o galã francês Alain Delon ainda jovem como boxeador, que pude assistir pela primeira vez. O carinho paternal de Geraldo se sobressaía mesmo em meio à aparente violência. Como podia ser também sintetizado no livro “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, do filósofo alemão Eugen Herrigel, com que ele era invocado e também fez questão de me presentear.

 

“A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen” livro do filósofo alemão Eugen Herrigel

 

Um final de semana alongado por feriado, que não me lembro qual, Geraldo convidou a mim e a minha namorada de então para irmos com ele e sua esposa à época, Helô, ao sítio dele na área rural de Friburgo. Tomamos vinho, comemos fondue de carne e conversamos bastante. Num passeio pela propriedade, caminhamos pelo curso do riacho de águas transparentes que o cortava até uma piscina rasa que ele tinha instalado, sem interromper o curso d’água. E me contou, como se revelasse um grande segredo, que a função era de bebedouro aos animais silvestres que habitavam aquele pedaço preservado de mata atlântica. Depois, caminhando entre as árvores já altas que ele também tinha plantado, me disse: “Eu plantei elas ainda mudas. Hoje são árvores. Quando eu passeio entre elas, me olham de cima para baixo e conversam: ‘Olha Deus caminhando lá em embaixo. Olha como ele é pequeno e careca!’”, disse, rindo como criança.

Vitor Sendra, produtor e diretor de TV

Pelas dificuldades de adaptação do Solar dos Jesuítas, espaço tombado pelo Iphan, para instalação de um sistema de hotelaria que permitisse um regime de internato como a Escola de Cinema de Cuba, além de disputas internas por equipamento com o curso de cinema já existente na UFF-Niterói, o projeto de EBCTV acabaria abandonado. Quando percebi isso, fiz o que achava digno fazer: pedi exoneração do cargo público e voltei ao jornalismo, que nunca havia abandonado de todo. Depois de mim, Geraldo “adotaria” outro filho campista, o produtor e diretor de TV Vitor Sendra, filho da grande literata e dramaturga Arlete Sendra. Os dois trabalhariam juntos no Laboratório de Pesquisa e Tecnologia da Imagem do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Uenf e, depois, no Projeto Rede Escola, junto à secretaria estadual de Educação e a TVE, produzindo conteúdos para teleducação.

“Tudo Isto Me Parece um Sonho” (2008), filme que deu a Geraldo Sarno o prêmio de melhor diretor no Festival de Brasília

No final dos anos 1990, com Geraldo já fora da Uenf, ele me chamou para um almoço na sua casa no Rio, na rua do Píer da Barra da Tijuca. Não pude ficar muito tempo, mas deu para bater um papo, mais ouvindo que falando, como o diretor cearense Zelito Viana, irmão do grande Chico Anysio e pai do ator Marcos Palmeira. Após, me despedi de Geraldo, que estava ocupado, dando atenção a outros convidados. Em 2008, soube e fiquei muito feliz com sua premiação como melhor diretor no Festival de Brasília, pelo filme “Tudo Isto Me Parece Um Sonho”, sobre a história do general pernambucano Ignácio Abreu e Lima, que lutou ao lado de Simon Bolívar, nas guerras de batalhas de libertação da Colômbia, da Venezuela e do Peru, da Coroa Espanhola no século 19. Seu último filme foi outra ficção, “Sertânia” (2020), que roteirizou, dirigiu e montou, com sua história não linear sobre os delírios do jagunço Antão.

Na última fase formativa da minha vida, quando iniciava a vida adulta, Geraldo foi para mim um mestre. Sem condescendência, sempre instigando o meu próprio olhar crítico, ensinou o que ler e como ler, o que ver e como ver, enquanto tentava apontar possíveis obstáculos e atalhos. Entre os que tive chance de conviver, talvez só o historiador Arthur Soffiati e o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa tiveram tanta influência intelectual e sensitiva sobre o homem que me tornei. Curioso é que Aluysio parecia saber disso. E, no lugar de ciúme, sempre demonstrou gratidão a quem serviu ao seu filho durante um tempo como “pai”.

Meu último encontro com Geraldo, com meu próprio filho já nascido, de quem lhe mostrei a foto, foi nos anos 2000. Entre um chope e outro, passamos a tarde conversando num bar à beira-mar de Copacabana. Em certa altura do papo, já mais soltos pelos chopes, ele parou num daqueles transes zen de quando se abstraía em pensamento. Após uns segundos, olhou por cima dos óculos de grau, observando o zoológico humano que desfilava na avenida Atlântica, entre nós e o oceano. E me indagou, em nosso último diálogo que guardo na memória:

— Está vendo todas essas pessoas, Aluysio? Está vendo todas essas pessoas indo pra lá e pra cá?

— Estou vendo, Geraldo. O que é que tem?

— São todos ovelhas, entende? São todos ovelhas balindo “bé”, balindo “bé, bééé”, entende? São ovelhas que seguem e balem felizes, a maioria sem saber, ao abate no matadouro!

— Pô, Geraldo. Isso não é muito fatalista?

— Pode ser. Só não seja você uma ovelha!

 

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Entenda a crise da invasão da Rússia de Putin à Ucrânia

 

O mapa da ex-república soviética da Ucrânia sob o avanço da Rússia de Vladimir Putin (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Entenda a crise da Ucrânia (I)

Vladimir Putin abriu a semana na segunda (21) com o discurso de um líder russo ao Ocidente mais duro há mais de 30 anos, desde que chegaram ao fim a Guerra Fria e a comunista União Soviética. Saudoso desta, na qual serviu como agente da polícia política da KGB, Putin disse não reconhecer a existência da Ucrânia como nação independente da Rússia. Mas reconheceu a independência das regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk, que já eram parcialmente ocupadas por forças pró-russas, dando início à invasão militar do leste do país vizinho. No poder há 22 anos, Putin já tinha anexado em 2014 a península da Criméia, no sul da Ucrânia.

 

Entenda a crise da Ucrânia (II)

Putin está certo na origem comum dos dois países. Mas errado ao creditar a criação da Ucrânia ao líder da Revolução Russa de 1917, Vladimir Lenin. Mais de mil anos antes de Lenin viver, o nome Rússia surgiu entre Europa e Ásia na Idade Média do século 9, juntando eslavos e vikings suecos, quando foi chamada de Rússia de Quieve — e Kiev é, até hoje, a capital da Ucrânia. A partir do século 16 se tornaria o Império Russo dos czares, com a transferência da sede do poder a Moscou e São Petesburgo. E, a partir da Revolução de 1917, União Soviética. Que chegou ao fim justamente quando Ucrânia e Rússia decretaram suas independências em 1991.

 

Ucrânia e Rússia de hoje nasceram juntas na Rússia de Quieve, juntando eslavos orientais e vikings suecos na Idade Média do século 9 (Mapa: Wikipédia Brasil)

 

Entenda a crise da Ucrânia (III)

Com 12 séculos de história comum, Putin também não está errado ao afirmar que a maior parte da população das regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk são de etnia e cultura russas, como também na Criméia. Mas o mesmo não ocorre no centro e no oeste do país, fisicamente mais próximos às democracias da Europa Ocidental. Com as quais a maioria da população da Ucrânia deseja se alinhar, deixando para trás as ditaduras dos czares, da União Soviética e de Putin. Que, apesar de incensado por parte da esquerda latino-americana, hoje tornou impossível a uma mulher prestar queixa na Rússia se sofrer agressão física do marido.

 

Entenda a crise da Ucrânia (IV)

(Infográfico: BBC Brasil)

Abaixo só dos EUA, a Rússia tem as Forças Armadas mais poderosas do mundo, com seis mil ogivas nucleares. E o histórico de quem já pôs para correr, à bala, as até então imbatíveis França de Napoleão Bonaparte e Alemanha de Adolf Hitler, respectivamente, nos séculos 19 e 20. No 21, EUA e Europa Ocidental não enviarão forças militares se a invasão for restrita à Ucrânia. Mas a coisa mudará se a Rússia quiser depois avançar também sobre outras ex-repúblicas soviéticas, como as bálticas Letônia, Lituânia e Estônia, todas hoje na Otan. Como a maioria da Ucrânia deseja ser, contra a palavra empenhada pelos EUA em 1990, e Putin não admite.

 

Napoleão Bonaparte em retirada com as tropas da França após ser derrotado na Rússia em 1812 (Óleo sobre tela de Adolph Northen)

 

Entenda a crise da Ucrânia (V)

(Infográfico: BBC Brasil)

Putin é um autocrata amoral, frio e calculista, capaz de matar dissidentes russos envenenados até na Inglaterra. Na idealização da “Grande Mãe Rússia” do passado czarista e soviético, refez a aliança do Estado com a Igreja Católica Ortodoxa, herança dos gregos bizantinos, e os valores da “família tradicional”. O que o faz ser também admirado pela neodireita mundial do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, e o atual do Brasil, Jair Bolsonaro (PL). Governa com mão de ferro um país exportador de petróleo e gás, com que aquece a Europa Ocidental no inverno. E só canta de galo quando essas commodities estão em alta. Como em 2014 e agora.

 

Entenda a crise da Ucrânia (VI)

Potência militar, mas não econômica, a Rússia se escora nas suas boas relações com a China, cujo capitalismo de Estado faz frente aos EUA. O adiamento da invasão da Ucrânia para esta semana não se deve aos delírios bolsonaristas pela visita do presidente do Brasil à Rússia na semana passada. Foi só para esperar que a China encerrasse as Olimpíadas de Inverno de Pequim, no último domingo. Na segunda, Putin partiu para o ataque. E se preparou antes de fazê-lo. Esperando as sanções econômicas anunciadas ontem pelos EUA e União Europeia, acumulou munição para a guerra. Em reservas cambiais recorde de US$ 630 bilhões.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Nildo confima seu voto na eleição de Bacellar presidente

 

Vereadores Nildo Cardoso, Marquinho Bacellar, Fábio Ribeiro, Juninho Virgílio e Maicon Cruz (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Nildo e a eleição de Marquinho (I)

“O único que ocupou a tribuna da Câmara e declarou o seu apoio (a presidente) a Marquinho Bacellar (SD) foi Nildo Cardoso (PSL). Isto é fato, está registrado. Por que o presidente (Fábio Ribeiro, PSD), após o término da votação, deu a vitória, está lá gravado, a Marquinho Bacellar como presidente em 2023/2024?”. Foi o que explicou e indagou ao Folha no Ar na manhã de ontem (22), na Folha FM 98,3, o próprio vereador de oposição Nildo Cardoso. Ontem, saiu o parecer da Procuradoria da Câmara de Campos que negou o pedido do edil governista Juninho Virgílio (Pros) para anular a eleição de Marquinho, por 13 votos a 12, na terça passada.

 

Nildo e a eleição de Marquinho (II)

O parecer sobre o voto de Nildo ainda não saiu. E, segundo o atual presidente Fábio Ribeiro, não tem prazo. Ele tinha prazo regimental até 15 de dezembro para marcar a eleição da nova Mesa Diretora, mas decidiu iniciá-la na última terça. “Na minha opinião, Fábio colocou para votar porque corria o risco de, ali na frente, ele não ser o candidato (do governo a presidente)”, avaliou Nildo. Ele também falou da traição do vereador Maicon Cruz (PSC), que assinou termo de compromisso com a reeleição de Fábio, mas votou em Marquinho, definindo a vitória deste: “Eu não faria isso de maneira nenhuma. Mas eu sou eu, respondo por mim”.

 

Confira no vídeo abaixo o primeiro bloco da entrevista do vereador de oposição Nildo Cardoso ao Folha no Ar da manhã de ontem:

 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Campos perde Dr. Geraldo Gusmão, aos 90, para a Covid

Dr. Geraldo Gusmão

Faleceu por volta das 21h de hoje, aos 90 anos, de uma pneumonia após infecção por Covid-19, o médico Dr. Geraldo Gusmão. No final do ciclo do vírus, ao qual tinha tomado as três doses de vacina, o quadro evoluiu para pneumonia. Para tratá-la, estava internado há 20 dias no Hospital da Unimed. A partir da manhã desta quarta (23), seu velório ocorrerá na capela do Cemitério do Caju, das 10h da manhã às 15h, quando se dará seu enterro.

Dr. Geraldo deixa cinco filhos: Geraldo José (in memoriam), Beatriz, Bernadette, Ana Teresa e Artur Gusmão; além de 9 netos. Ele era viúvo da professora Ariema Gusmão, com que foi casado 59 anos, falecida em 2017. Formado em Medicina em 1956, pela UFF de Niterói, era decano da Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia de Campos. Leitor assíduo e, nas suas próprias palavras, “fã número 1 da Folha da Manhã”, foi também amigo do meu pai, o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa, falecido em 2012. Com os dois tive o prazer de comungar vários cafezinhos e muita sabedoria, no Boulevard dos anos 1980 e 1990.

O carinho e o respeito que tinha por Dr. Geraldo também eram reforçados por minha amizade de adolescência com o advogado Artur Gusmão, procurador do município e seu filho caçula. Que herdou do pai o temperamento polido e gentil, além do cristianismo praticante na fé da Igreja Católica Apostólica Romana. Em 29 de outubro do ano passado, Artur e as irmãs publicaram na Folha uma homenagem para Dr. Geraldo, que completaria seu 90º aniversário no dia 31 daquele mês. Para honrar esse homem de bem que Campos perde, segue republicada abaixo:

 

 

Parabéns ao nosso pai, nosso grande amor!

Por Beatriz Maria, Bernadette, Ana Teresa e Artur Gusmão

 

Hoje nosso coração está em festa! É tempo de celebrar e agradecer ao Senhor a vida do nosso pai que completa 90 anos!

Em 31/10/1931 nascia nesta cidade Geraldo Arthur Gusmão Rodrigues, filho de Zita Gusmão Rodrigues e João Higino Rodrigues. Aqui cresceu sob os cuidados e o colo amoroso da sua tia avó materna, D. Josefa Gusmão. Sua infância foi também marcada pela formação religiosa, que teve início na Catedral de São Salvador, onde atuou como coroinha junto ao saudoso Pe. Rosário. Nascia aí uma história de fé, entrega e amor aos ensinamentos do Pai.

Papai iniciou sua escolaridade nos colégios da cidade, tendo sido marcante na sua vida a passagem pelo Liceu de Humanidades de Campos, onde cursou o antigo ginasial e o curso clássico. Tamanha identificação fez dele um liceísta apaixonado, carregado de memórias e saudade, sempre cantando os versos do Hino do Liceu: “Liceísta sempre avante pela glória do Liceu… Que evocamos com orgulho, ó Liceu, Liceu, Liceu!”

Com a maioridade, mudou-se para o Rio de Janeiro onde foi servir ao Exército, em 1950. Em seguida passou a residir em Niterói, a fim de cursar Medicina na Universidade Federal Fluminense. Niterói foi palco não só da sua formação profissional, mas também do encontro com o grande amor da sua vida, Ariema Barbeitas Gusmão. Ali começava a nossa história.

Com o término dos cursos, ele formado em Medicina e ela em Letras, retornaram a Campos onde se casaram em 1958 na Capela Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, sob o manto protetor de Maria. Foi mamãe quem possibilitou a construção do maior sonho da sua vida: nossa família. Somos cinco filhos frutos de um imenso amor, de uma profunda fé e retidão em todos os passos e escolhas feitas por eles ao longo da vida.

Como médico traumato-ortopedista trabalhou em diversos hospitais: Hospital Ferreira Machado, Santa Casa de Misericórdia de Campos, Sandu, Plantadores de Cana e Beneficência Portuguesa, sempre comprometido com a vida humana.

Ao se aposentar realizou o sonho de voltar ao Liceu novamente como aluno nos cursos de Francês, Inglês e Espanhol. Essa paixão por aprender preenche os seus dias até hoje, se dedicando com afinco às palavras cruzadas, leitura de livros, jornais e do Evangelho. Nesse período ele também aproveitou para intensificar as suas caminhadas pela cidade, percorrendo as pontes que cruzam o rio Paraíba.

Cada caminhada na planície goitacá, sobretudo nas manhãs de sol e céu azul, enchem os seus dias de emoção, ânimo e luz! Encontrá-lo caminhando é sempre uma alegria contagiante! Tamanha paixão por Campos, revivida em pequenos passeios, o faz recitar outros versos, aqueles do hino da nossa cidade: “Campos intrépida Formosa, terra feita de luz e madrigais”, além de lembrar histórias que nunca saíram do seu coração.

Papai é um eterno apaixonado pela natureza. Seu encanto pela lua e suas fases, pelas estrelas que brilham e saltam na imensidão da noite, o tornam uma pessoa simples, desprendida, tomado pela esperança. Olhando para ele, a gente pensa que a felicidade está logo ali, ao alcance da mão.

Difícil em meio a tantas lições que ele nos dá diariamente, falar apenas de algumas. Mas talvez uma das maiores seja o exercício permanente da sua fé em Deus. Parece que quanto mais surgem os imprevistos e dificuldades da vida, maior é a sua fé! Guiado pelo Salmo 22, do Bom Pastor, ele segue firme, amparando todos nós.

Um outro presente que guardamos em nós é o seu amor por mamãe, um amor cuidadoso, companheiro, eterno e cheio de encanto pela mulher admirável que ela sempre foi. E ainda o seu amor pela família, por nós, seus filhos e netos, um amor sempre carregado de preocupação, comprometido com a nossa felicidade, respeitoso com as nossas escolhas e atento às nossas necessidades, mesmo depois que crescemos e nos tornamos pais.

Papai chega aos 90 anos com uma autonomia admirável, uma memória cristalina e com o mesmo encanto pela vida, que tanto nos apaixona, apesar das perdas imensuráveis vividas ao longo desses anos. Ao celebrar 90 anos ele continua sendo um exemplo e uma força incomparáveis nas nossas vidas!

Hoje nós escolhemos um verso da canção “Oração pela Família”, para o seu aniversário: “Que seus filhos vejam a força que brota do amor”. Sua história de vida, papai, traduz essa força que brota do amor. Nós, seus filhos, netos, genros e noras, somos testemunhas deste amor. Não há no mundo presente como esse! Seu amor e a sua oração nos acompanham e nos inspiram todos os dias!

Para o senhor, a nossa admiração sem tamanho, a nossa gratidão mais profunda e o nosso eterno amor!

Dos seus filhos,

Geraldo José (in memoriam), Beatriz Maria, Bernadette, Ana Teresa e Artur.

 

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Crise da Ucrânia e Brasil de outubro no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (23), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o historiador João Monteiro Pessôa, professor do IFF-Guarus. Ele falará sobre a crise na Ucrânia, com o reconhecimento da independência de regiões separatistas do país pelo presidente russo Vladimir Putin, e suas consequências ao mundo.

O historiador também analisará a visita do presidente Jair Bolsonaro (PL) à Rússia na semana passada. Assim como a queda de braço entre a grande potência militar do Leste Europeu e da Ásia com os EUA e a Europa Ocidental. Por fim, dará sua projeção às eleições de outubro no Brasil, a deputado, governador e presidente.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Oposição não formalizou queixa-crime contra Fábio Ribeiro

 

Atual presidente da Câmara de Campos, vereador Fábio Ribeiro

 

A queixa-crime por abuso de autoridade, de 12 vereadores de oposição contra o presidente da Câmara, Fábio Ribeiro (PSD), não foi feita até o momento, ao contrário do que a Folha chegou a anunciar na noite de quarta (16). Depois que Fábio suspendeu na quarta o que seria a continuação da sessão de terça (15), em que Marquinho Bacellar (SD) foi eleito novo presidente por 13 votos a 12, os edis descontentes foram à 134ª DP. Onde lhes foi solicitado que juntassem as provas para justificar o pedido, em uma petição. Mas isso não ocorreu até agora.

Fábio questionava a existência da queixa-crime dos colegas de oposição contra si. Se esta chegar a ser formalizada e aceita pela autoridade policial, ele pretende entrar contra seus colegas também com outra queixa-crime, por denunciação caluniosa. De concreto, como a Folha noticiou na terça, existe a denúncia do edil Maicon Cruz (PSC) contra o colega Juninho Virgílio (Pros) e o primo deste, o ex-vereador Thiago Virgílio. Após Maicon assinar um termo de compromisso pela reeleição de Fábio, mas votar e definir a vitória de Bacellar a presidente da Câmara, Juninho e Thiago foram cobrar satisfação pela traição, gerando a confusão que encerrou a sessão de terça.

 

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Câmara de Campos com Nildo no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça, o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador Nildo Cardoso (PSL). Ele falará do seu voto, que não foi registrado em ata, na eleição de Marquinho Bacellar (SD) presidente da Câmara, e de toda a polêmica que se seguiu, com a interrupção e depois suspensão da sessão, cujo resultado deve caminhar à judicialização.

Nildo falará também do que se esperar de uma Câmara Municipal controlada pela oposição ao governo Wladimir Garotinho (PSD). Por fim, dará a sua projeção para as eleições de outubro, a deputado federal e estadual, governador e presidente.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Marquinho do Transporte 1º vice e Maicon 1º secretário

Marquinho do Transporte, Fred Machado, Maicon Cruz e Abdu Neme devem compor a nova Mesa Diretora, com Marquinho Bacellar na presidência (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Como a coluna Ponto Final revelou no sábado, o primeiro secretário da nova Mesa Diretora da Câmara de Campos deve ser o vereador Maicon Cruz (PTC). Mas o primeiro vice-presidente será Marquinho do Transporte (PDT), não Abdu Neme (Avante), que ficará na verdade com a segunda secretaria. O segundo vice-presidente será o ex-presidente da Casa na segunda metade da legislatura passada, Fred Machado (Cidadania).

Na sessão da última terça (15), o vereador de oposição Marquinho Bacellar (SD) foi eleito presidente da Câmara Municipal de Campos, por 13 votos a 12. Quando o vereador Juninho Virgílio (Pros) foi tirar satisfação com Maicon, que assinou termo de compromisso pela reeleição do governista Fábio Ribeiro (PSD), mas votou e definiu a vitória de Bacellar, a sessão foi interrompida. Após ser suspensa na quarta (16) por Fábio, até aqui tudo indica que deve caminhar à judicialização.

 

Marquinho Bacellar, Fábio Ribeiro, Juninho Virgílio e Angelo Rafael (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Juninho que voltou para a Câmara para a eleição da nova Mesa Diretora, deixou vaga a secretaria municipal de Governo. Que passou, desde quinta (17), a ser ocupada pelo militante garotista Angelo Rafael Barros Damiano, ex-presidente do PP em Campos.

 

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