“A Queda — As Últimas Horas de Hitler” nesta quarta no Cineclube Goitacá

Em tempos de radicalismo político no Brasil e no mundo, como os que ora vivemos, a exibição do filme “A Queda — As Últimas Horas de Hitler” (2004), de Oliver Hirschbiegel, já seria oportuno. Mas sua apresentação às 19h desta quarta, dia 27, pelo Cineclube Goitacá, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio, tem como objetivo a homenagem ao grande ator suíço Bruno Ganz, morto em 19 de fevereiro.
Se é cabível afirmar que “A Queda” é um dos melhores filmes feitos no novo milênio, mais ainda se pode dizer da perfomance de Ganz: seu Adolf Hitler é uma das maiores interpretações da história do cinema. Sem nenhum favor, está lado a lado com Marlon Brando em “Uma Rua Chamada Pecado” (1951, de Elia Kazan), Peter O’Toole em “Lawrence da Arábia” (1962, de David Lean), Robert De Niro em “Taxi Driver” (1976, de Martin Scorsese) e Daniel Day-Lewis em “Lincoln” (2012, de Steven Spielberg). Mas como Hollywood é uma aldeia judaica, a interpretação definitiva do carrasco de 6 milhões de judeus, entre os 60 milhões de mortos da II Guerra (1939/45), não rendeu nem uma indicação de Ganz ao Oscar de melhor ator.
Na verdade, a morte recente de Ganz motiva a segunda exibição de “A Queda” no Cineclube, hoje Goitacá, em sua fase na sala do Oráculo — mas que já foi Cinema no Palácio, quando era sediado no Palácio da Cultura; e, antes, Cineclube José Amado Henriques, em homenagem ao primeiro crítico de cinema da cidade, quando começou suas atividades no auditório da Faculdade de Medicina de Campos. Nesta fase inicial, “A Queda” foi o segundo filme a ser exibido, depois da abertura com “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles.
Confesso que após ver o filme pela primeira vez, num cinema do Rio, fiquei duas noites sem dormir direito. Humanizar Hitler, mostrando suas faces reais de empregador gentil e criador amoroso de cães, torna sua composição mais pertubardora do que mostrá-lo com pés de cabra, rabo pontudo, chifres na testa e tridente na mão, como a propaganda soviética, estadunidense e britânica o pintou desde a II Guerra. É um homem, não a encarnação de Lúcifer, que, mesmo após se matar quando os russos invadem Berlim, conduz outros homens intelectualmente bem formados ao mesmo fim. Tudo por uma questão de honra. E isso é o mais angustiante.
Ganz teve acesso e estudou conversas gravadas de Hitler no cotidiano, que sobreviveram a despeito da vontade do líder da nazista, que mandou destruir todos seus registros como homem comum. Como quem o mitifica na condição de Anticristo, o Führer (“Guia”) da Alemanha só queria ser lembrado como grande orador de massas. As mesmas que julgou merecerem perecer com seu sonho torto de uma raça ariana superior dominando o mundo, na megalomania e ausência de empatia que caracterizam todos os psicopatas.
Para além da composição antológica de Ganz, a grande virtude do diretor Hirschbiegel é conferir uma estética documental à sua obra, filmada quase o tempo inteiro com a câmara nervosa sobre o ombro de alguém sob o bombardeio soviético. Neste sentido, o clima claustrofóbico é reforçado pelos corredores apertados do bunker construído sob a sede da Chancelaria alemã, nos quais se espremem suarentos os seguidores restantes de um líder comandando exércitos que só sobreviveram em seus delírios.
Tanto quanto o Hitler de Ganz, impressiona a crueldade de Goebbels, fanático ministro da Propaganda, interpretado por Ulrich Matthes. E o que é narrado na ficção se aproxima muito do que aconteceu na queda real da Alemanha na II Guerra. As bases para o roteiro de Bernd Eichinger são o historiador alemão Joachim Fest, considerado com justiça o biógrafo definitivo de Hitler, e o testemunho de Traudl Junge, secretária particular do líder nazista. No filme, ainda jovem, ela é vivida pela atriz romena-alemã Alexandra Maria Lara. A verdadeira, já idosa, dá seu depoimento ao final.
“A Queda” não é um filme fácil. Mas é necessário. Pelo menos para quem busca evitar o risco de repetir o talvez pior capítulo da história do homem, por ignorar o que fomos capazes de fazer uns com os outros há pouco mais de sete décadas. A entrada, assim como a participação no debate após a sessão, são livres.
Confira abaixo o trailer do filme:
Atualização às 13h23 de 27/03: Confira aqui a matéria do Celso Cordeiro Filho, publicada hoje na Folha Dois, sobre a exibição do filme no Cineclube Goitacá.








Desde 2016, o Brasil superou a marca de 60 mil homicídios/ano. O índice esteve entre as principais pautas da eleição presidencial de 2018, vencida por quem prometeu endurecer contra o crime e facilitar a aquisição de armas de fogo pelo cidadão comum. As promessas ganharam cara — e críticas — em 4 de fevereiro, quando o ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro apresentou o pacote antiviolência do governo Jair Bolsonaro (PSL), que deve ser analisado, discutido e votado ainda este ano no Congresso Nacional.
Luciane Soares — Tenho trabalhado com pesquisa sobre as instituições policiais desde 2001. E creio que o desafio que temos, em 2019, é pensar de que forma é possível, nas cidades do século XXI, prover segurança pública com respeito aos direitos humanos. Ao mesmo tempo, casos como a recente tragédia em Suzano, nos mostram que o investimento em inteligência policial e investigação são decisivos para a ordem pública. É preciso discutir os modelos de segurança pública e as formas de policiamento. E isto deve ser feito com a ampliação das arenas de debate, com a participação da sociedade civil.
Felipe Drumond — Considerando-se o recente decreto presidencial que fixou critérios objetivos para facilitar a posse de armas de fogo, será feita uma abordagem crítica sobre propostas que relacionam a ampliação do acesso às armas com um instrumento para a construção de política de segurança pública mais eficiente na busca por redução dos índices de criminalidade. Assim, serão feitas advertências sobre os riscos e resultados adversos que podem decorrer da adoção de um fundamento para a ampliação do acesso às armas baseado na premissa de que uma sociedade mais armada contribui para o combate à criminalidade.
Roberto Uchoa — Uma oportunidade de discutir a segurança pública que queremos para nosso município e região. Com uma atuação maior do município nessa área, podemos mudar a situação e voltar a crer em um futuro mais seguro. Importante abordar a municipalização da segurança pública, a questão do baixo efetivo para policiamento ostensivo e as melhorais possíveis. Isso, sem deixar de citar os problemas nas investigações.
Sandro Araujo — Espero que este debate seja esclarecedor para todos que lá estiverem, no que diz respeito aos conceitos mais modernos de segurança pública e proteção social. Chegamos ao momento no qual é imprescindível mostrar verdades sem retoques a quem costuma ser iludido por quem detém os meios de comunicação. Importante falar utilizando como parâmetro o mosaico urbano, porque o último elo da segurança pública é a polícia. E falar de como ela é incompetente, em sua estrutura atual, para a elucidação dos delitos. Enquanto o mundo inteiro caminha para uma direção, nós caminhamos para outra, completamente diversa.
Graziela Escocard — Receber esse evento no Museu só enaltece a posição que este aparelho cultural ocupa para a cidade. O Museu tornou-se o local de debate acerca de diversos temas necessários de discussão. Acredito que o debate será de relevância para análise de como a segurança pública tem sido conduzida pelas cidades na atualidade. A segurança pública não pode ser tratada como repressiva. Envolve diversos atores e instâncias que precisam atuar em consonância na prevenção e na reparação.









