Maior músico do cinema de todos os tempos, Ennio Morricone recebe o Oscar de 2016 de melhor trilha sonora original, por seu trabalho em “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino
A música está presente no cinema desde quando ele era mudo. Logo na primeira exibição pública da sétima arte pelos irmãos Lumiére, na Paris de 1895, um piano e um pianista faziam o fundo musical e davam ritmo às imagens na tela. E assim permaneceu por muito tempo, permitindo a um gênio renascentista como Charles Chaplin exibir seu talento, além de diretor, roteirista e ator, também como compositor. A história começou a mudar quando “O Cantor de Jazz”, considerado o primeiro filme falado e dirigido por Alan Crosland, estreou na Nova York de 1927. No ano seguinte, em 10 de novembro de 1928, nasceria em Roma o maior músico da história do cinema: Ennio Morricone. Que morreu hoje aos 91 anos, após 10 dias internado por uma fratura no fêmur, fruto de uma queda.
Entre as maiores duplas da história do cinema, Ennio Morricone e Sergio Leone
Morricone começou a compor com apenas 6 anos. Após tocar trompete em bandas de jazz na década de 1940, se tornou arranjador de estúdio para a gravadora RCA Victor. Em 1955, começou a compor para o teatro e em 1961, aos 33, assinou sua primeira trilha sonora para o cinema, no filme “O Fascista”, de Luciano Salce. O sucesso internacional viria naquela mesma década em que o rock dos Beatles e Rolling Stones revolucionava o mundo com a releitura britânica da música criada nos EUA. E o cinema teria seu gênero mais hollywoodiano, o “western”, reinventado na parceria entre dois mestres italianos: Morricone e o diretor Sergio Leone. Uma dupla tão afinada — e, talvez, mais genial — que John Lennon e Paul McCartney, ou Mick Jagger e Keith Richards.
Na mitologia dos EUA, o herói de John Wayne e o anti-herói de Clint Eastwood
Com a trilogia “Por um Punhado de Dólares” (1964), “Por uns Dólares a Mais” (1965) e “Três Homens em Conflito” (1966), Leone fundou o gênero “western spaghtetti”. Nele, o herói dos EUA na conquista violenta do Oeste do país continental, mitologia criada pelo cinema do mestre John Ford e encarnada entre os ombros largos do ator John Wayne, foi transformado em anti-herói. Latino de onde o latim foi ecoado ao mundo, Leone matou com um tiro à queima-roupa o moralismo anglo-saxão que separava o “mocinho” do “bandido”. E foi buscar nas séries de TV dos EUA um ator desconhecido que lançaria ao estrelato: Clint Eastwood. Seu pistoleiro sem nome, que protagonizou os três filmes, era inspirado no samurai sem senhor de “Yojimbo” (1961), do mestre japonês Akira Kurosawa.
Mesmo com a base em Ford e Kurosawa, e o carisma de Eastwood, a reinvenção de Leone só estaria completa com a música seca e minimalista de Morricone, que reforçava a aridez das paisagens da Europa em que as cenas da trilogia foram filmadas. Mesmo a quem não lembrar de nenhuma das suas cenas, ou sequer as tenha assistido, é impossível não ouvir o assobio da música tema e homônima de “Três Homens em Conflito”, sem associá-la imediatamente aos pistoleiros do “Velho Oeste” dos EUA. A trilha sonora ganhou uma força tal na cultura pop do mundo, que outra música do filme, “L’estasi dell’oro” (“O Delírio do Ouro”), acabou usada em shows por grandes de bandas de rock como Ramones e Metallica.
Outra das músicas de “Três Homens em Conflito” é “Morte di um soldato” (“Morte de um Soldado”). É dela o único som, além dos gemidos de um jovem soldado moribundo da Guerra Civil dos EUA e do relincho de um cavalo, em uma das cenas mais pungentes da história do cinema. Na qual Leone dialoga (confira aqui) com dois dos maiores poetas da literatura universal: o francês Arthur Rimbaud e o português Fernando Pessoa. Na dúvida, leia seus versos abaixo. Entre os dois poemas, veja a cena a que serviram de roteiro. E, sobretudo, ouça a música de Morricone:
Arthur Rimbaud por Pablo Picasso e Fernando Pessoa, por Almada Negreiros (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
O adormecido do vale
(Arthur Rimbaud)
Era um recanto onde um regato canta
Doidamente a enredar nas ervas seus pendões
De prata; e onde o sol, no monte que suplanta,
Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões.
Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,
E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,
Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,
Branco em seu leito verde onde chovia luz.
Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono
De uma criança que risse, enferma, no seu sono:
Tem frio, ó Natureza – aquece-o no teu leito.
Os perfumes não mais lhe fremem as narinas;
Dorme ao sol, suas mãos a repousar supinas
Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.
Outubro de 1870
O menino da sua mãe
(Fernando Pessoa)
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado —
Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
“O menino da sua mãe.”
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe
Lisboa, 1926
A parceria de Morricone seguiria na trilogia seguinte e derradeira de Leone, falecido em 1989: “Era Uma Vez no Oeste” (1969), “Quando Explode a Vingança” (1971) e “Era Uma Vez na América” (1981). O primeiro filme é considerado a obra-prima do cineasta. “Três Homens em Conflito” já traria diferenças na mesma música para os três personagens principais: flauta para Eastwood, oscarina (instrumento de sopro) para Lee Van Cleef e vozes a Eli Wallach. Mas em “Era Uma Vez no Oeste”, Morricone cria uma música própria para cada personagem entre os protagonistas interpretados por Claudia Cardinale, Henry Fonda, Charles Bronson e Jason Robards. O resultado é uma ópera do cinema. Mal recebido por público e crítica à época do seu lançamento, é hoje considerado o melhor western já feito.
Morricone nunca aprendeu a falar inglês ou deixou de morar em Roma. Nem deixou de compor trilhas sonoras para outros grandes diretores italianos, como para Gillo Pontecorvo, em “A Batalha de Argel” (1969); para Pier Paolo Pasolini, em “Teorema” (1968) e “Decameron” (1971); para Dario Argento, em “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1970); para Giuliano Montaldo, em “Sacco e Vanzetti” (1971); para Bernardo Bertolucci, em “1900” (1976); para Giuseppe Tornatore, a quem escreveria a música de todos os filmes desde “Cinema Paradiso” (1989). Mas foi o sucesso com seu maior parceiro no cinema, Sergio Leone, que levou o compositor a Hollywood.
Morricone fez trabalhos memoráveis, como em “A Missão” (1986), ficção sobre o massacre real dos índios na colonização da América do Sul. Dirigido por Roland Joffé, o filme foi ganhador da Palma de Ouro de Cannes. E uniu o talento dos grandes atores Jeremy Irons e Robert De Niro, com quem Morricone já havia trabalhado em “1900” e “Era Uma Vez na América”. Em 2017, o compositor italiano diria: “A música de ‘A Missão’ nasceu de uma obrigação. Tinha que escrever um solo oboé, se passava na América do Sul no século XVI, e tinha a obrigação de respeitar o tipo de música do período. Ao mesmo tempo, eu tinha que compor uma música que também representasse os índios da região. Todas as obrigações me prendiam. Mas também fizeram com que saísse algo claro”.
Como De Niro, Morricone teve outros ítalos-estadunidenses como parceiros assíduos em Hollywood. Com o diretor Brian De Palma, trabalhou em filmes como “Pecados de Guerra” (1989) e “Missão: Marte” (2000), após legaram outra obra-prima ao cinema: “Os Intocáveis” (1987). A música realça as grandes interpretações de Sean Connery, que lhe rendeu o Oscar de ator coadjuvante, Kevin Costner e, mais uma vez, De Niro, como o violento chefe mafioso Al Capone. Ganhador de um Oscar honorário pelo conjunto da sua brilhante carreira, em 2007, Morricone ainda teria tempo para ganhar outro pelo seu trabalho em “Os Oito Odiados” (2015). Emblematicamente, foi um western. E dirigido por outro ítalo-estadunidense, grande admirador do músico e do cineasta Sergio Leone: Quentin Tarantino.
Estive na Itália em julho de 2010, verão deles, quando visitei a “bela cidade de Verona”, como a classifica Shakespeare logo na abertura de “Romeu e Julieta”. Já sabia que a cidade tinha uma grande arena legada pelos antigos romanos, menor, mas mais conservada que o Coliseu, na Roma de Morricone. E reservei ingressos para assistir, no palco antes destinado a gladiadores, à ópera “Carmen” de Bizet. Era dirigida por outro grande nome do cinema italiano, Franco Zeffirelli. E foi um espetáculo grandioso, do qual nunca esquecerei. Mas deixou um dissabor: só quando já estava em Verona, descobri que, na semana seguinte, era Morricone quem se apresentaria na mesma antiga arena romana. Cheguei a tentar mudar o roteiro da viagem, para tentar ficar e assistir. Mas foi impossível mudar a logística e as reservas já feitas de hotéis por outras cidades italianas.
Irmãos Auguste e Louis Lumiére
Uma década depois, o maestro escreveu seu próprio obituário: “Ennio Morricone está morto. Anuncio a todos os amigos que sempre estiveram próximos de mim e também aos que estão um pouco distantes e os saúdo com muito carinho”. Em um ano de pandemia e perdas pessoais, a sua morte é sentida. Menos pelos 91 anos de uma vida plena. Que se difere pelo silêncio que sua última respiração não deixará; pela melhor música que o cinema foi capaz de produzir. Desde que um piano e um pianista acompanharam, há 125 anos, a primeira sessão dos irmãos Lumiére.
O pescador e os cães na Convivência, manhã de 06/07/20 (Foto de Ícaro Barbosa)
Semana aberta aos passos entre Atafona, a foz fechada do Paraíba e a Convivência. Fotos de Ícaro Barbosa.
Convivência, manhã de 06/07/20 (Foto de Ícaro Barbosa)
Atafona, manhã de 06/07/20 (Foto de Ícaro Barbosa)
“este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida”
(heráclito, d 30)
faces do mesmo
poderia ter usado a coroa do rei de éfeso,
mas renunciou à honra em favor do irmão.
prestar governo aos surdos, dever funesto,
aqui, agora, jônia européia há cinco séculos;
ou na ásia menor, meio milênio antes de cristo.
por iluminar seria, já aos antigos, o obscuro;
nada revelariam suas palavras de sibila,
não fosse a oposição do ouvido surdo,
como, sem tensão na corda, emudece a lira
e a do arco, por relaxada, inutiliza a flecha.
ao alcançar a outra margem, não era
mais o mesmo homem, nem mesmos
eram os rios atravessados, múltiplos
a desaguar no Um que a todos gera.
media a largura do seu pé pela do sol
por desconhecer outra grandeza ao passo
do homem entre a luz e a própria sombra.
domingos martins, 01/05/07
Cães na Convivência, com Atafona ao fundo, manhã de 06/07/20 (Foto de Ícaro Barbosa)
Com as perspetivas de vacinas apenas para dezembro e janeiro pode parecer que vamos falar de algo distante, mas entender, planejar e executar ações agora são a chave para sair com menos sequelas da pandemia do Covid-19, pois sem sequelas não sairemos de forma alguma, então precisamos mitiga-las para que o povo sofra pelo menor tempo possível.
Vou me ater a falar de ações em âmbito nacional, pois serão as medidas adotadas pelo Congresso e União que servirão para estados e municípios atacarem seus problemas no pós-pandemia.
Precisamos urgente debater e aprovar no segundo semestre as reformas administrativa e tributária. A primeira, precisa ser mais profunda do que já vinha se desenhando, ou praticamente todos os entes federativos não fecharão suas contas, devido ao tamanho da máquina pública. Já a segunda, a tributária, precisa ser progressiva, tirando impostos indiretos sobre o consumo, que ataca a classe média, e elevar as alíquotas para grandes fortunas e dividendos empresariais. Sim, alguém tem que pagar a conta e tem que ser no topo da pirâmide. Feitas essas duas reformas o Brasil precisa decidir sobre o que realmente quer propor sobre o pacto federativo, não dá mais para ir recursos ficarem concentrados na União e os serviços com os municípios sem o recurso necessário para fazer funcionar de maneira adequada. O que fazer? Sugiro que a União reassuma os serviços essenciais e de grande relevância, como saúde e educação. Faça um plano nacional e execute através do seu grande orçamento que é repassado a pinga gotas, através de emendas sempre insuficientes aos municípios brasileiros. Ou, então, faça valer de uma vez o discurso de campanha do presidente Jair Bolsonaro “Mais Brasil e menos Brasília” e faça o dinheiro ser descentralizado de uma vez para chegar na ponta onde o serviço é executado, onde de fato as pessoas vivem, as cidades. O risco disso, é o presidente descentralizar e transformar em uma guerra política e ideológica, acusando prefeitos e governadores de mau uso de recursos públicos. Seria uma briga sem vencedores e que atrapalharia ainda mais o Brasil.
A União vai precisar, por um bom tempo, abolir o discurso de equilíbrio fiscal e ser o estado brasileiro o grande propulsor da retomada da economia, fazendo investimentos nos agentes multiplicadores, tais como, obras de infraestrutura, programas de transferência de renda, programas de incentivo ao agro negócio e etc, gerando os empregos necessários e também gerando para si receitas oriundas da circulação de recursos do próprio governo e da iniciativa privada.
Procuro ser bastante realista e não faz parte do meu perfil vender ilusões ou criar cenários para agradar quem quer que seja, o que vejo a frente, infelizmente, é uma recessão profunda que só pode ser superada com unidade entre os diferentes. Se os políticos insistirem na velha tática do “nós contra eles”, temo que o “eles” continue sendo milhões de brasileiros.
Marcão Gomes, deputado federal de Campos
Complexo do Açu é estratégico no pós-pandemia
Por Marcão Gomes
No início desse ano, foi assinada por órgãos estaduais a licença de instalação para a segunda usina termelétrica da empresa Gás Natural Açu (GNA) no Complexo Portuário do Açu em São João da Barra. A primeira já está em construção e, com a conclusão da segunda usina, as duas farão com que o complexo termoelétrico seja o maior da América Latina, prometendo gerar muitos empregos para a nossa região.
A licença de instalação, na verdade, é uma das etapas do licenciamento ambiental, pois autoriza a construção do empreendimento. Além disso, fixa um cronograma para execução de eventuais medidas mitigadoras e para implantação de sistemas de controle ambiental que farão parte de todo o processo.
Vale lembrar que o Porto do Açu começou a operar em outubro de 2014 e, atualmente, é o maior ponto de apoio logístico para as operações que passam pela Bacia de Campos, usado por vários prestadores de serviços e também para o transbordo do petróleo, pois conta com uma localização geográfica privilegiada para essas áreas.
Podemos dizer que, em linhas gerais, as usinas termoelétricas são construídas para a geração de energia elétrica a partir de produtos combustíveis, como: óleo combustível, óleo diesel, carvão natural, bagaços, madeira, gás natural e até mesmo urânio enriquecido. Elas são um bom recurso estratégico para o setor elétrico do Brasil, pois suprem as necessidades energéticas, por exemplo, durante os períodos de seca, quando as hidroelétricas não conseguem atender a demanda da nossa população.
Vislumbro os empreendimentos no Complexo Portuário do Açu como de suma importância para alavancar a empregabilidade e ajudar na retomada da economia regional do pós-pandemia. Empreendimentos desse porte acabam atraindo a chegada de mais empresas, contribuindo para incrementar ainda mais a oferta de emprego e renda, reduzindo, assim, o desemprego e elevando o nível de renda das pessoas.
Para se ter uma ideia, segundo dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), do IBGE, a taxa de desemprego era de 12,6% em abril desse ano, mas os especialistas estimam que pode alcançar a marca negativa de 18% até o fim de 2020.
Enquanto a pandemia ainda é uma realidade, as soluções para a economia brasileira pós-pandemia ainda estão no campo das propostas. Mas, sem dúvida alguma, os empreendimentos localizados no Porto do Açu serão de muita importância nesse novo contexto, que fará parte de um futuro bem próximo da região Norte do Estado do Rio de Janeiro.
“Eduardo Paes (DEM) é franco favorito na eleição a prefeito do Rio em 15 de novembro”. Na manhã de ontem (03), em entrevista ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, foi o que apostou o deputado estadual Chico Machado (PSD), presidente da Comissão que analisa o pedido de impeachment do governador Wilson Witzel (PSC) na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). E Chico nem é correligionário ou aliado político do ex-prefeito carioca, pré-candidato a governar a cidade do Rio pela terceira vez. Nesta entrevista exclusiva à Folha, Eduardo Paes falou do legado das Olimpíadas de 2016 e demais realizações dos seus dois mandatos como gestor da capital fluminense. Admitiu o erro no projeto da ciclovia Tim Maia, que desabou a primeira vez em 2016 “e me causa muita dor, principalmente por aquilo que é irrecuperável, que é a vida de duas pessoas”. Equívoco que não enxerga ao ter insistido com a candidatura do deputado federal Pedro Paulo (DEM), seu aliado político, para sucedê-lo na Prefeitura do Rio em 2016, eleição vencida por Marcelo Crivella (Republicanos). A quem não poupou de críticas: “pode ter TV Record, Igreja Universal, máquina da Prefeitura, apoio do Bolsonaro, que eu te garanto que o Crivella não será reeleito. Ele foi, tem sido um péssimo prefeito para o Rio, incompetente, sem capacidade de compreender a cidade”.
Paes também alfinetou a deputada federal Clarissa (Pros), outra pré-candidata à Prefeitura do Rio: “Sorte de Campos, que tem um Garotinho a menos para enfrentar”. Como fez com os pais da parlamentar campista, os ex-governadores Garotinho (sem partido) e Rosinha (Pros). Ainda assim, ressalvou não ficar feliz com as prisões “nem do Garotinho, nem do Lula, nem do Cabral”, único dos três que continua na cadeia. O ex-prefeito carioca também lamentou o processo de impeachment enfrentado por Witzel, que o derrotou no 2º turno do pleito a governador de 2018. Mas lembrou: “Em alguns momentos eu até o chamei de ‘Kinder Ovo’. Mas vários dos aspectos que surgem hoje, eu apontei na eleição (…) isso só mostra que eu tinha razão, isso não é tarefa para pessoas que não têm experiência, não têm capacidade, que a gente não sabe nem quem é ou de onde veio”. Lacônico ao responder sobre as delações premiadas que o denunciaram por recebimento de dinheiro de caixa dois para campanha, Paes ressaltou ter “muito orgulho de marchar ao lado do deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ)”, presidente do Congresso Nacional. E reafirmou seu maior objetivo: “eu ainda vou ser governador do estado do Rio”. Missão na qual ressaltou a importância política de Campos, “uma cidade que eu adoro”, embora tenha preferido não opinar sobre sua eleição a prefeito.
(Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil)
Folha da Manhã – Como está a sua pré-candidatura a prefeito do Rio pelo DEM? Trabalha para vencer a eleição em turno único, como pesquisas chegaram a indicar, após o deputado federal Marcelo Freixo (Psol) desistir de disputar o pleito?
Eduardo Paes – Eu sigo muito animado com a pré-candidatura. É uma pré-candidatura que busca resgatar a autoestima do carioca, botar a Prefeitura para funcionar mais uma vez. Agora, eu não me animo nem com pesquisa que me coloca lá na frente, nem me deprimo com pesquisa que me coloca atrás. Então, se a eleição vai ter um turno, dois turnos, isso depende da população. Eu vou disputar eleição como sempre fiz, respeitando os meus adversários e lutando para vencer.
Folha – Campista, de uma das famílias mais tradicionais da política goitacá, a deputada federal Clarissa Garotinho também seria pré-candidata a prefeita carioca. Como você vê?
Paes – Eu acho que é um direito dela. Me parece que ela já mora no Rio há muito tempo. Enfim, é um direito dela ser candidata pelo Rio, ou por Campos, ou por qualquer lugar. Sorte de Campos, que tem um Garotinho a menos para enfrentar.
Folha – Prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos) é candidato à reeleição. Embora desgastado, tem a máquina municipal, o apoio da Record, da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) e do clã Bolsonaro, após seu partido ter abrigado o senador Flávio e o vereador carioca Carlos, filhos do presidente. Que peso isso pode ter no pleito?
Paes – Sim, eles também são donos da TV Record. Então, de fato, é muita máquina. A vantagem para os adversários do Crivella, o que é uma tragédia para o Rio, é que ele é muito ruim. Então, pode ter TV Record, Igreja Universal, máquina da Prefeitura, apoio do Bolsonaro, que eu te garanto que o Crivella não será reeleito. Ele foi, tem sido um péssimo prefeito para o Rio, incompetente, sem capacidade de compreender a cidade. Então, tenho certeza, o Rio felizmente vai mandar o Crivella de volta para casa; ou para a igreja dele.
Folha – Se a aliança entre Crivella, a Iurd e o clã presidencial for derrotada na cidade do Rio, seria um golpe nessa mistura entre religião e política? Especificamente no projeto de poder político cada vez mais claro dos pentecostais?
Paes – Olha se você perguntar uma qualidade que eu vejo no Crivella é ele ser um homem de fé, ter uma religião. Então eu não vejo como um golpe a derrota dele na mistura entre religião e política, não. É um golpe na incompetência, na incapacidade, no amadorismo no trato da coisa pública, no desrespeito, na falta de vontade e disposição em trabalhar pela cidade que o elegeu prefeito quatro anos atrás.
Folha – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não foi o primeiro a se aproximar dos evangélicos. O ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), apesar de comunista e ateu na juventude, foi precursor nisso. E Crivella, com o aval do tio, o “bispo” Edir Macedo, foi ministro da Pesca de Dilma Rousseff (PT), com o aval do ex-presidente Lula (PT). Como analisa?
Paes – É isso mesmo, é uma coisa curiosa. Você vê que a direita nessa eleição, supostamente conservadora, evangélica e contra os comunistas, é representada pelo Crivella, que foi ministro da Dilma. E a esquerda é representada por setores que trabalharam e apoiaram, por exemplo, a eleição a governador de Sérgio Cabral (MDB). Então, acho que isso é uma grande confusão. E, como o Crivella, a única qualidade que eu vejo no ex-governador Garotinho; e, neste caso, é a única mesmo; é o fato dele ser um homem de fé. Pelo menos eu quero crer que essa seja a única verdade que ele conta.
Folha – Lula, quando o PT era governo federal, também foi aliado do então governador Sérgio Cabral e de você, quando prefeito do Rio. O primeiro foi e o segundo continua preso por corrupção. O que pode dizer daquela relação de proximidade entre as três esferas de poder, que teve como marco as Olimpíadas de 2016? Qual o legado do evento à cidade?
Paes – Olha, enfim, todas as pessoas que cometeram desvios, crimes, estão respondendo pelos seus crimes. Há o caso do ex-governador Garotinho, que já foi preso aí seis ou sete vezes (na verdade, foram cinco vezes), infelizmente o caso do ex-governador Sérgio Cabral e do ex-presidente Lula. Eu não fico feliz com a prisão de nenhum deles, nem do Garotinho, nem do Lula, nem do Cabral; lamento que tenham cometido erros. A Olimpíada foi um evento fantástico para a cidade, deixou um enorme legado, com um aporte enorme de recurso da iniciativa privada na construção dos estádios olímpicos, com expansão da rede de metrô, com o Porto Maravilha, com a implantação de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) de BRTs (Bus Rapid Transit, ou ônibus de trânsito rápido). Então, quem conhece o Rio, sabe do fantástico legado deixado pelas Olimpíadas.
Folha – Todos que frequentam a cidade do Rio são capazes de notar as realizações das suas duas gestões. A maior delas talvez tenha sido derrubar o elevado da Perimetral, na descida da ponte Rio/Niterói, para revitalizar a zona portuária da cidade com o Aquário, o Museu do Amanhã e um boulevard com áreas de lazer, bares, restaurantes e atividades culturais. O ponto negativo talvez tenha sido a ciclovia Tim Maia, que teve desabamento de trecho a primeira vez em 2016, matando duas pessoas. Entre uma coisa e outra, qual a média?
Paes – Olha, nós realizamos muito. Além do Porto Maravilha, você tem 150 km de BRT, você tem 300 escolas; eu fiz mais escolas no Rio do que o Brizola fez Cieps; você tem 115 clínicas da família, novos hospitais. Foi um governo de muita realização. Infelizmente, a gente errou ao ter implantado aquela ciclovia, você tem ali um erro de projeto técnico. Mas a responsabilidade política é do prefeito. Eu era o prefeito à época e me causa muita dor, principalmente por aquilo que é irrecuperável, que é a vida de duas pessoas.
Folha – Você foi citado como destinatário de caixa dois em delações premiadas de Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade Azevedo Odebrecht, ex-executivos da Odebrecht; de Renato Pereira, ex-marqueteiro do MDB; e de Lélis Marcus Teixeira, ex-presidente da Fetranspor. O que pode dizer sobre esses três casos?
Paes – Eu só conheço os dois primeiros casos. E ambos não condizem com a verdade.
Folha – Na eleição a prefeito do Rio em 2016, você foi criticado por insistir com a candidatura do deputado federal Pedro Paulo (DEM) para sucedê-lo, após ele ser acusado de violência doméstica contra a esposa. O fato é que, no 1º turno, o centro se rachou entre ele e os candidatos Índio da Costa (PSD) e Osorio (PSDB). Juntos, os três fizeram 33,73% dos votos, mais que os 27,78% de Crivella, ou os 18,26% de Freixo. Que foram o 2º turno, vencido pelo primeiro. Não foi um erro estratégico previsível? Pode ter sido arrogância?
Paes – Olha, eu coloquei o melhor candidato para a cidade, apresentei o melhor candidato para a cidade, o mais preparado, o que tinha condições de enfrentar aquele momento de crise que o Brasil já vivia; a gente já vinha de um decréscimo do PIB de 7,5%. Em relação à acusação que ele sofreu, ele foi inocentado depois de uma investigação da Polícia Federal (PF), do Ministério Público Federal (MPF), a pedido do (ex-)procurador(-geral da República) Rodrigo Janot, que nunca deu mole para político nenhum, e no Supremo Tribunal Federal (STF). Então a notícia não era verdadeira, a acusação não era verdadeira, ele foi inocentado, mas esse foi um dos fatores que prejudicou a candidatura dele. Infelizmente, quem perdeu foi o Rio, tendo que ver o Crivella se converter nessa tragédia. Eu não diria que foi arrogância, não. Foi a crença que eu estava apresentando para a cidade o melhor candidato.
Folha – Da eleição de 2016 à de governador, em 2018, até que ponto o fenômeno Wilson Witzel (PSC), com um dígito nas pesquisas até a semana do 1º turno, mudou a política fluminense? Credita o que aconteceu ao apoio do bolsonarismo, sobretudo a partir de Flávio, e de alguns importantes pastores pentecostais, que apostaram na reta final, via redes sociais, no então desconhecido ex-juiz federal?
Paes – Olha, eu acho que ficou muito claro que a vitória do governador Witzel em 2018 se deve ao apoio do presidente Bolsonaro, da família Bolsonaro, a esse desejo das pessoas que aconteceu em 2018 pela “nova política”; ele era um desconhecido. Em alguns momentos eu até o chamei de “Kinder Ovo”. Mas vários dos aspectos que surgem hoje, eu apontei na eleição. Eu sinceramente torcia que, após a minha derrota, ele fizesse um bom governo. E lamento que a gente esteja vivendo a situação que estamos vendo. É muito ruim para um estado já tão dilacerado como o Rio de Janeiro, que tem todos seus ex-governadores presos, a começar pelo senhor Garotinho e a senhora Rosinha (Garotinho e Rosinha estão em liberdade desde 31 outubro de 2019).
Folha – No atropelo de Witzel, ele acabou o 1º turno com 41,28% dos votos, contra seus 19,56%. Você ainda conseguiu tirar boa diferença, perdendo o 2º turno com 40,13% dos votos, contra os 59,87% dele. Foi a derrota de um político experiente na vitória da antipolítica? Como olha para isso diante da possibilidade real e presente do governador sofrer um impeachment, pelo que foi revelado na operação Placebo?
Paes – Como eu disse anteriormente, eu não vejo com alegria, não; eu vejo com tristeza. Ele me derrotou, ele venceu a eleição, teve a maioria do apoio da população do estado. A partir do momento da minha derrota, eu a reconheci e torci para que ele fizesse um bom governo. O Rio não merecia, de novo, um governador que cometesse esse tipo de erro. Nós merecíamos um governador que estivesse produzindo. Claro, isso só mostra que eu tinha razão, isso não é tarefa para pessoas que não têm experiência, não têm capacidade, que a gente não sabe nem quem é ou de onde veio.
Página 2 da edição de hoje (04) da Folha
(Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil)
Folha – Witzel foi alvo da operação federal por um suposto esquema de superfaturamento e desvio de verbas da saúde, que usaria o escritório de advocacia da primeira dama para lavar dinheiro, envolvendo o empresário Mário Peixoto. É a mesma área, modus operandi e ator do esquema de corrupção de Cabral. O problema não parece ser estrutural?
Paes – Não acho que seja estrutural, não. Eu fui prefeito do Rio oito anos, sou casado, tenho pai advogado; enfim, não há qualquer pessoa que me acuse ou que me denuncie por esse tipo de prática. Acho que isso… infelizmente… eu espero e torço, e quero repetir aqui, espero e torço para que não seja verdade em relação ao governador Witzel.
Folha – Não é segredo que você mantém o objetivo de ser governador. Se eleito prefeito do Rio, há possibilidade deixar o cargo que já ocupou duas vezes para se candidatar em 2022? Todos os ex-governadores vivos do estado, Moreira Franco (MDB), Garotinho, Rosinha e Luiz Fernando Pezão (MDB), foram presos. Cabral ainda está. E o atual, Witzel não deve ter vida fácil pela frente. É uma sina fluminense? Como romper com ela?
Paes – Um dia eu ainda vou ser governador do estado do Rio, sim. Mas não será em 2022. Se eu me eleger prefeito, eu vou terminar meu mandato de prefeito. Não teria como fazer isso com a minha cidade. Mas não tenho dúvida de que eu queria muito dedicar a minha experiência para ajudar um estado tão rico, tão importante, com cidades importantes como Campos; com cidades tão importantes como Petrópolis, Teresópolis, Friburgo; cidades tão importantes como Volta Redonda, Barra Mansa e Resende; com uma região metropolitana que tem tudo para despontar, com uma cidade como São Gonçalo, que precisa de muita atenção do poder público. Um estado com um potencial como o nosso, é lamentável que a gente tenha esse tipo de governadores. Um dia, se Deus quiser, ainda vou ser governador e mostrar que o estado do Rio não precisa seguir essa sina, não; que a gente vai renovar isso. E, se Deus quiser, com a maioria dos votos de Campos, que é uma cidade que eu adoro.
Folha – Já falamos sobre os evangélicos na política. E seu DEM em Campos é controlado pelo pastor Eber Silva, ex-aliado de Garotinho, ex-deputado federal e pré-candidato a prefeito na cidade, que costura uma aliança com o SD do deputado estadual Rodrigo Bacellar às eleições municipais. Como vê esses movimentos? Prefeita de Quissamã e pré-candidata à reeleição, Fátima Pacheco é o quadro mais forte do seu partido no Norte Fluminense?
Paes – A eleição para governador é uma coisa, né? Você olha para o quadro todo. De prefeito, ela vai para especificidades locais. Então, eu não tenho, focado aqui na política municipal da cidade Rio de Janeiro, eu não tenho como dar opinião na política de qualquer outro município do estado. A não ser torcer para que os bons quadros se reelejam e a gente possa ter na política, vencendo as eleições municipais, gente preparada para governar.
Folha – Da planície goitacá ao Planalto Central, o DEM controla o Congresso Nacional com Rodrigo Maia na Câmara e Davi Alcolumbre (AP), no Senado. O primeiro vinha sendo apontado como principal anteparo institucional aos arroubos autoritários do bolsonarismo. Mas parece ter engessado após a aliança do presidente com o Centrão. Qual a sua leitura?
Paes – O Brasil deve muito ao deputado Rodrigo Maia. Eu diria que ele é o “Senhor Estabilidade”. Se não fosse Rodrigo Maia, nós não teríamos ultrapassado o governo Michel Temer (MDB), nós não teríamos vivido minimamente este primeiro ano e meio do governo Bolsonaro. Então, eu tenho muito orgulho de marchar ao lado do deputado Rodrigo Maia e acho que ele hoje é um fator de estabilidade e muita força no cenário político brasileiro. É necessária a presença dele na política nacional, e devemos muito a ele.
Folha – Como avalia a política de enfrentamento da pandemia da Covid-19 pelos governos Bolsonaro, Witzel e Crivella? O que faria diferente?
Paes – Faria muita coisa diferente, mas destacaria duas coisas. Primeiro, se eu fosse governador, eu não teria brigado com o presidente da República e estaria trabalhando em parceria com os vários prefeitos do estado do Rio de Janeiro, algo que não acontece neste momento. É um monte de prefeito brigando com o governador, que briga com o presidente, que briga com o prefeito; todo mundo brigando com todo mundo. Isto é muito ruim. O segundo aspecto e que eu agiria diferente é o fato de que nós temos no estado do Rio, mais especificamente na Região Metropolitana, mais de 1.800 leitos da rede estadual, municipal e federal, vazios, prontos para serem usados. E não havia a menor necessidade de se construir esses hospitais de campanha caríssimos e, pelo jeito, com uma série de desvios. Então, eu faria muita coisa diferente, mas destacaria essas duas.
“Eu sigo muito animado com a pré-candidatura. É uma pré-candidatura que busca resgatar a autoestima do carioca, botar a Prefeitura para funcionar mais uma vez”.
“Pode ter TV Record, Igreja Universal, máquina da Prefeitura, apoio do Bolsonaro, que eu te garanto que o Crivella não será reeleito. Ele foi, tem sido um péssimo prefeito para o Rio, incompetente, sem capacidade de compreender a cidade. Então, tenho certeza, o Rio felizmente vai mandar o Crivella de volta para casa; ou para a igreja dele”.
“Você vê que a direita nessa eleição, supostamente conservadora, evangélica e contra os comunistas, é representada pelo Crivella, que foi ministro da Dilma. E a esquerda é representada por setores que trabalharam e apoiaram, por exemplo, a eleição a governador de Sérgio Cabral (MDB). Então, acho que isso é uma grande confusão”.
“Como o Crivella, a única qualidade que eu vejo no ex-governador Garotinho; e, neste caso, é a única mesmo; é o fato dele ser um homem de fé. Pelo menos eu quero crer que essa seja a única verdade que ele conta”.
“Eu não fico feliz com a prisão de nenhum deles, nem do Garotinho, nem do Lula, nem do Cabral; lamento que tenham cometido erros. A Olimpíada foi um evento fantástico para a cidade, deixou um enorme legado, com um aporte enorme de recurso da iniciativa privada”.
“A gente errou ao ter implantado aquela ciclovia (Tim Maia), você tem ali um erro de projeto técnico. Mas a responsabilidade política é do prefeito. Eu era o prefeito à época e me causa muita dor, principalmente por aquilo que é irrecuperável, que é a vida de duas pessoas”.
“A vitória do governador Witzel em 2018 se deve ao apoio do presidente Bolsonaro, da família Bolsonaro, a esse desejo das pessoas que aconteceu em 2018 pela ‘nova política’; ele era um desconhecido. Em alguns momentos eu até o chamei de ‘Kinder Ovo’. Mas vários dos aspectos que surgem hoje, eu apontei na eleição”.
“Um dia, se Deus quiser, ainda vou ser governador e mostrar que o estado do Rio não precisa seguir essa sina, não; que a gente vai renovar isso. E, se Deus quiser, com a maioria dos votos de Campos, que é uma cidade que eu adoro”.
“Eu não tenho, focado aqui na política municipal da cidade Rio de Janeiro, eu não tenho como dar opinião na política de qualquer outro município do estado”.
“Eu tenho muito orgulho de marchar ao lado do deputado Rodrigo Maia e acho que ele hoje é um fator de estabilidade e muita força no cenário político brasileiro”.
“Nós temos no estado do Rio (…) mais de 1.800 leitos da rede estadual, municipal e federal vazios, prontos para serem usados. E não havia a menor necessidade de se construir esses hospitais de campanha caríssimos e, pelo jeito, com uma série de desvios”.
Eduardo Paes (Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil)
Essas foram algumas das afirmações feitas por Eduardo Paes, ex-prefeito e pré-candidato a prefeito da cidade do Rio de Janeiro, em entrevista exclusiva respondida por áudio nesta quinta (02). Para conferi-la na íntegra, falando sobre cidade e estado do Rio, política e religião, legado das Olimpíadas de 2016, desabamento da ciclovia Tim Maia, prisões de ex-governadores fluminenses, Garotinhos, Cabral, Lula, Crivella, Bolsonaro, ameaça de impeachment a Wilson Witzel, sonho de chegar ao Governo do Estado, papel de Rodrigo Maia na República e erros no combate à pandemia da Covid-19, confira a edição da Folha da Manhã deste sábado (04), bem cedo nas bancas e na casa dos assinantes.
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?
Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo — um punhado de pó —
vê quão perfeito se tornou!
Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.”
(Jalal al-Din Rumi, século XIII)
Makhoul foi três vezes candidato a prefeito de Campos pelo PT, mas nunca deixou de ser crítico ao partido e lideranças nacionais como os ex-presidentes Lula e Dilma (Foto: Folha da Manhã)
Histórias de Makhoul
Era uma tarde quente campista, na Santa Casa de Misericórdia, no verão de 1992. E o neurocirurgião Makhoul Moussallem bateu o martelo: “Eu te dou meia hora para decidir se vai levar ele ao Rio, para operar com Paulo Niemayer. Não discuto competência, mas a técnica é a mesma. Com a hemorragia comprimindo o cérebro, o problema dele é tempo. Se você não decidir, eu abro a cabeça dele e opero sem a sua autorização. E a responsabilidade deixa de ser sua e passa a ser minha”.
Assertivo, sincero e corajoso, características que sempre o distinguiram entre os homens, foi o que Makhoul disse ao jornalista Aluysio Barbosa sobre o filho homônimo deste, então com 19 anos, inconsciente e moribundo sobre uma maca. Horas antes, subira em um telhado de Grussaí para pegar uma bola de frescobol, escorregara a caíra de uma altura de três metros. Sem um galo por fora, a fronte do seu crânio arrebentara por dentro. Se morresse, o faria conhecendo pouco o calor de uma mulher, sem ter um filho ou plantar uma árvore.
Entre lapsos rápidos de semiconsciência, a última coisa que se lembrava, antes de entrar na sala de cirurgia, foi virar a cabeça ao lado, agonizando, para ver seu pai sentado em uma cadeira, chorando em prantos e amparado pela mãe, mulher de têmpera mais forte, de pé ao seu lado. Após as horas de cirurgia, quando os pais foram levados para ver o resultado, diante da incerteza da mãe em saber se aquele corpo inerte ainda era seu filho, Makhoul deu uns tapas no rosto do paciente. Que foram se tornando mais fortes em busca de reação.
Mesmo de olhos fechados e ainda sob efeito da anestesia, o recém-operado finalmente reagiu. Ergueu lentamente o punho direito cerrado, ameaçando o murro contra quem acabara de salvar a sua vida. E, naquele hiato entre dois mundos, vociferou na direção de quem não conseguia enxergar, nem distinguir entre salvador ou agressor: “Para, seu filho da puta!”. Foi a senha para que, em meio ao riso aliviado do médico do pai, a mãe finalmente caísse em prantos por reconhecer quem sobrevivera: “É o meu filho!”.
Na manhã seguinte, o médico foi ter com o paciente, já desperto, na UTI da Santa Casa. A quem perguntou: “Você sabe quem sou eu?”. E teve como resposta estranhamente consciente: “Sei. Você é Makhoul. E me operou”. Dali, durante o processo de recuperação e nos anos seguintes, nasceu daquela beira de morte uma amizade sólida para a vida inteira. Na qual o libanês adotado por Campos, ciente e cioso da história milenar do seu povo, abriu a cabeça do jovem curioso também à cultura do Oriente Médio, berço da civilização. Que faria dela um dos seus pilares na formação como homem.
Foi Makhoul quem introduziu o ex-paciente na história dos cananeus, ou fenícios, como os gregos antigos chamaram os libaneses de hoje. Vizinhos e primos semitas dos hebreus, foram os arquitetos do Templo de Salomão. Na Idade do Bronze, legaram ao mundo as navegações marítimas, do Mediterrâneo até o Atlântico, o comércio e um tal de alfabeto. Foram dominados por assírios, babilônios, persas e pelos gregos de Alexandre. Ainda assim, fundaram Cartago no Norte da África, rival de Roma como a grande potência da Idade do Ferro. Com o Islã, seriam dominados pelos árabes, luz do mundo na Idade Média, cuja língua passaram a adotar. Mas nunca deixaram de praticar também o cristianismo, legado romano cuja versão maronita era a religião do médico de Campos, como de grande parte dos libaneses.
Uma coisa é ler sobre isso nos livros. Outra é ouvir da boca de um personagem vivo desse caldeirão da história humana, cônscio da visão, tato, cheiro e sabor de cada ingrediente. Como uma coisa é assistir nos telejornais sobre a questão da Palestina. E outra era ouvir de Makhoul o testemunho adulto da criança que acompanhava o avô, quando este ia correr os campos da sua propriedade rural nas colinas do Líbano, durante a primavera. E topavam com os corpos de crianças palestinas abraçadas às suas mães, degelando com a neve.
Foram essas raízes profundas de cedro do Líbano, árvore símbolo daquele país, que Makhoul fincou no barro massapê de Campos, ainda criança, acompanhado da família, para crescer entre ipês amarelos. E deixar frutos. Além dos seus filhos Luana, Felipe, Camila e Diego, dos seus netos Jonas, Maria Luiza, Eva e Makhoul Neto, da sua enteada Isadora, as tantas vidas que salvou em sua brilhante carreira na medicina. Talvez não tenha sido a todas que ele tenha podido ensinar a saborear tomates cortados com azeite e sal como isca para cerveja, whisky ou vinho. Ou os versos do persa Jalal al-Din Rumi, poeta medieval que nada fica a dever ao seu contemporâneo italiano Dante Alighieri. O que é uma pena, pois conhecer Rumi é como ter a vida salva de novo: “Você não é só uma gota no oceano,/ Você é o próprio oceano dentro de uma gota”.
Era uma tarde quente asiática em Konya, no verão de 2009, no coração espiritual da Turquia, pulsante no peito do planalto da Anatólia. Bem diferente do que quem só conhece o país por suas capitais antiga e atual, Istambul e Ancara, ou a grande cidade portuária de Ismir — a Esmirna bíblica, onde nasceu o grego Homero, pai de todos os poetas — e supõe que o antigo Império Otomano sobrevive apenas nos seus maiores centros urbanos ocidentalizados de hoje.
Dois ex-pacientes de Makhoul, o homem de 37 anos e seu filho de apenas 9 tinham a vantagem de se parecerem fisicamente com turcos, a despeito das suas roupas ocidentais modernas, em meio a mulheres cobertas com burcas. Visitavam o Museu Mevlâna, instalado em um antigo monastério dervixe, da corrente sufista. Mais mística que o islamismo tradicional, foi fundada com base nos ensinamentos teológicos de Rumi, na pregação do amor, da tolerância e da misericórdia. E se caracteriza por homens que entram em estado de adoração, enquanto dançam rodopiando com saias longas e chapéus cônicos. É um local sagrado de peregrinação aos muçulmanos.
Embora não exista a figura dos santos no islamismo, na analogia com o cristianismo, é como se Rumi fosse. O acesso ao interior do seu Mausoléu de mármore, onde fotos são proibidas, se dá por um túnel em forma de “U”, com o túmulo do poeta na base da “letra”. Embora largo e alto, o caminho se estreita pela presença de devotos, como a entrada do Maracanã em jogo de final de campeonato. O único percurso permitido é da direita para a esquerda, como escrevem árabes e judeus, herdeiros do alfabeto consonantal fenício. “Nós ciscamos para dentro e vocês (ocidentais) para fora”, como ironizava Makhoul.
A sensação claustrofóbica no interior do Mausoléu era reforçada não só pelos corpos humanos apertados uns contra os outros. Mas também pelas mulheres, em êxtase religioso, ecoando aqueles sons agudos no movimento intermitente da língua entre os lábios e o palato. Alguns homens batiam as mãos espalmadas às próprias faces. O homem ocidental estava assustado, mas tentava manter a calma. Seja porque não havia retorno possível, seja porque seu filho, criança que segurava firme pela mão e havia metido naquela celebração de fé no meio da Ásia, estava ainda mais.
Até que finalmente tiveram acesso à base mais larga do “U”, no coração do Mausoléu. Nele, o túmulo de Rumi e o epitáfio que o poeta deixou para si: “Quando estivermos mortos,/ Não procure nosso túmulo na terra,/ Mas o encontre no coração dos homens”. Em busca do que Makhoul ensinou sobre sua cultura, dois seus ex-pacientes foram curados de qualquer medo. E, irmanados a mulheres e homens antes diferentes, pai e filho saíram à luz do sol.
Makhoul nunca fez concessões em seus 75 anos de vida. Após vencer dois infartos e um câncer, nem à Covid que o matou na manhã de quarta (01). Mas quis levá-lo na segunda (29), quando lhe causou uma parada cardíaca e a família foi chamada para se despedir. Só para o libanês provar que, como todo campeão, ainda tinha mais um round guardado para lutar.
Makhoul não chegou a governar a cidade que o adotou, como tentou três vezes. Fez e foi muito mais que isso.
Vá em paz, meu irmão fenício e goitacá!
Publicado hoje (02) na Folha da Manhã
Atualização às 9h49 de 03/07 para acrescer a postagem do que escreveu (confira aqui) o jornalista Ícaro Barbosa, outro ex-paciente de Makhoul, após a morte deste. Além de um trecho em que o médico estabelece, do árabe materno ao português da sua adoção brasileira, uma ponte entre as duas culturas da qual foi fruto. Os dizeres nas duas línguas são do próprio punho de Makhoul. E o vídeo faz parte do documentário “Memórias da Imigração”, do Arquivo Público Municipal de Campos em parceria com a TV Câmara, dirigido por Fred Parente. A contribuição é da historiadora Rafaela Machado, diretora do Arquivo:
Ícaro Barbosa, jornalista e graduando em História
Por Ícaro Barbosa
Makhoul, vou tentar escrever um pouco sobre o senhor. Não posso deixar a única pessoa que viu dentro da minha cabeça, literalmente, partir sem deixar registradas algumas palavras. Na ocasião que o senhor me operou, eu não sabia nem falar, andar ou coisa do gênero, mas acho que não vem ao caso. Tua partida me deixa muito triste. Uma pessoa que eu sempre respeitei e soube que era honesto e íntegro. Tirei meu título aos 16 anos, especificamente para votar no senhor; primeira e última vez que votei no PT (repito, tirei para votar no senhor).
Da última vez que te vi, em Grussaí, em uma festa de aniversário, sentamos juntos na mesa. Brincamos e o senhor zoou da costeleta que eu usava na época. Eu ri. Apesar de não termos tido conversas muito longas ou coisa do tipo, sempre tive e nutri muita simpatia pelo senhor, falando sempre que nos víamos. Não poderia deixar o dia acabar sem registrar em palavras minha admiração e agradecimento ao senhor.
Meus pêsames aos filhos, netos e doutora Vera. Abraços, Makhoul! Vá em paz!
Ontem (29), após apresentar uma piora da condição cardíaca, o médico Makhoul Moussallem, de 75 anos, chegou a ter uma parada cardíaca na UTI do Hospital da Unimed, onde está internando, entubado e no respirador desde 22 de junho (confira aqui), por conta da Covid-19. Seu quadro ainda é muito grave, mas se estabilizou desde a tarde de ontem e segue sem alterações. Até o momento, ele não voltou a apresentar nenhuma arritmia cardíaca.
Também com complicações renais, mas sem novas intercorrências até o momento, ele fez a última hemodiálise no domingo (28). As informações foram passadas pelo irmão e a companheira de Makhoul, os também médicos Bassam Moussallem e Vera Marques.
As complicações cardíacas de Makhoul seriam fruto de uma fibrose, consequência da quimioterapia que fez para curar um câncer, cujo tratamento já havia concluído. Essa fibrose cardíaca teria causado o edema agudo que o levou a ser entubado e colocado no respirador, logo após dar entrada na UTI da Unimed, no dia 22. A quimioterapia também deixou um leve comprometimento renal, que foi agravado pela Covid.
— Eu fui vê-lo ontem, depois de estar entubado, pela primeira vez. Mas depois ele estabilizou e continua muito grave. Porém, de ontem para hoje, mantém um quadro estável. A gente espera cada hora para ver se ele não piora e o corpo possa compensar. Fui vê-lo hoje também, toda paramentada, para ficar um pouco com ele. Eu sei que está grave, mas não perdi a esperança. Ainda bem que, de ontem para hoje, ele não teve nenhuma intercorrência até o momento — explicou Vera Marques, médica e companheira de Makhoul.
Internado e entubado na UTI da Unimed desde 22 de junho (confira aqui), com Covid-19, o médico Makhoul Moussallem, de 75 anos, apresentou piora em sua condição renal e cardíaca de ontem (28) para hoje (29). Segundo seu irmão, o também médico Bassam Moussallem, os rins de Makhoul não estão funcionando bem, mesmo submetido a hemodiálise (confira aqui) desde sexta (26). E sua a frequência cardíaca estaria muito alta. O quadro é considerado gravíssimo.
O quadro cardíaco seria fruto de uma fibrose, consequência da quimioterapia que Makhoul fez para curar um câncer, cujo tratamento já havia concluído. Essa fibrose cardíaca teria causado o edema agudo que o levou a ser entubado e colocado no respirador, logo após dar entrada na UTI da Unimed. A quimioterapia também deixou um leve comprometimento renal, agora agravado pela Covid.
Em sua última entrevista à Folha (confira aqui), em maio de 2018, o hoje deputado federal Marcelo Freixo (Psol) falou ao maior jornal de Campos no mesmo dia que seu então colega de Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) Flávio Bolsonaro (confira aqui), hoje senador e pivô da maior crise do 1 ano e meio do governo do pai. Freixo admitiu que a popularidade do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), “uma média de 30%” mantida mesmo após a prisão de Fabrício Queiroz no dia 18, “ainda é muito elevada”. Mas ressalvou: “A rejeição a Bolsonaro cresce (…) pela sua incompetência, pela incapacidade de governar, de gerar emprego e, principalmente, pela incapacidade em tratar o Brasil no momento da pandemia, cuja existência ele negou”. Ele considerou Wilson Witzel (PSC), sob ameaça de impeachment da Alerj, como “ex-governador em exercício” que “reproduziu práticas encontradas no governo de Sérgio Cabral”.
Freixo também falou sobre as eleições presidenciais dos EUA, sobre a perspectiva de se chegar aos mandantes da execução da ex-vereadora carioca Marielle Franco (Psol) ainda este ano e sobre a aliança feita pelo Centrão com o governo federal “para se esconder das investigações da Lava Jato”. Em maio de 2018, o deputado mais de uma vez se referiu ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) como “golpe”, versão que mantém dois anos depois. Só que, agora, preferiu repetir: “Bolsonaro é um ‘serial killer’ da Constituição”. E voltou a falar em golpe: “Nós temos um presidente que vai a atos promovendo a ideia de fechamento de Congresso, de fechamento do Supremo e de intervenção militar. Então já temos um golpe em curso”. Do Planalto Central à planície goitacá, apostou: “Tudo indica que o Psol de Campos caminhará com candidatura própria (a prefeito)”.
Marcelo Freixo (Foto: Folha da Manhã)
Folha da Manhã – Sua última entrevista à Folha, em 20 de maio de 2018, foi feita e publicada no mesmo dia de outra, com seu então colega na Alerj Flávio Bolsonaro (atual Republicanos). Hoje, ele é senador e você, deputado federal. E, após a prisão do ex-assessor dele, Fabrício Queiroz, no dia 18, é bem mais fácil falar contigo. O que pode falar sobre isso?
Marcelo Freixo – O senador Flávio Bolsonaro não deve estar muito disponível para entrevistas, e nem mesmo disponível para a Justiça. São muitas as tentativas de seu advogado para obstruir a investigação sobre os esquemas de “rachadinha” no seu gabinete quando era deputado estadual. Eram esquemas comandados pelo Fabrício Queiroz, o que gerou a prisão deste. E hoje a esposa do Queiroz está foragida. O senador Flávio Bolsonaro tenta fugir dessa investigação, mas eu acho difícil que ele consiga. Tudo isso cada vez mais coloca a família presidencial próxima de pessoas que viviam, conviviam com as milícias e com muitas práticas ilegais dentro da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
Folha – Naquela entrevista, perguntado sobre onde poderia chegar a liderança de Jair Bolsonaro em todas as pesquisas sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na eleição presidencial daquele ano, você respondeu: “Qual o tamanho disso? Não sei”. Hoje, quando já sabemos, o que pode dizer sobre estes últimos dois anos?
Freixo – Jair Bolsonaro foi eleito, o que eu considero um acidente histórico. Uma pessoa, quando é eleita, não se torna dona da democracia nem dona de um país, nem das pessoas que vivem nesse país. Ao tomar posse, ele jura uma Constituição e tem que respeitá-la. Hoje são diversos pedidos de impeachment, todos por crime de responsabilidade gravíssimos. Jair Bolsonaro hoje é acusado em tribunais internacionais por crimes de genocídio. Neste momento (quinta, dia 25) em que dou entrevista para a Folha da Manhã, vejo mais de 54 mil brasileiros mortos, mais de 1 milhão de pessoas contaminadas e um presidente que sequer coloca um ministro da Saúde para fazer com que a população possa se defender dessa pandemia. Então, é muito grave o momento que os brasileiros estão vivendo. O presidente se mostra um despreparado completo para exercer a função para a qual ganhou a eleição. Ele tem que respeitar a Constituição Federal. Se ele não respeita, não pode continuar como presidente.
Folha – Também naquela entrevista, analisando os 20% de intenções de votos com que Bolsonaro já aparecia nas pesquisas presidenciais, você disse: “A gente vai concluir que 20% do eleitorado brasileiro é fascista? Não, não é. Se for, a gente está perdido”. Bolsonaro foi eleito no 2º turno presidencial com 55,13% dos votos válidos. E, mesmo após a prisão do Queiroz, o presidente manteve 30% de apoio popular nas pesquisas. O que esses números permitem concluir? Como adjetivo ou substantivo, o emprego da palavra “fascista” tem sido numericamente exitoso à esquerda?
Freixo – Eu acho que aquele meu raciocínio é válido para hoje. Pesquisas apontam uma média de 30% de apoio ao presidente Bolsonaro. Ainda é uma média muito elevada. Mas, em pesquisa recente da pesquisadora Esther Solano, percebe-se uma divisão entre aqueles fiéis. Que seriam bem menos que 30%. Não chegariam a 10%, menos os críticos e os arrependidos. Não são todos iguais, os brasileiros que estão nesses 30%. No Nordeste, por exemplo, eles nem chegam a 20%. É muito importante fazer o número de apoiadores de Bolsonaro ser reduzido, pela tragédia que é o governo dele. Agora, por outro lado, tem 70%, em alguns lugares 80%, que já são contrários a ele. A rejeição a Bolsonaro cresce desde o primeiro momento do seu governo, e cresce pela sua incompetência, pela incapacidade de governar, de gerar emprego e, principalmente, pela incapacidade em tratar o Brasil no momento da pandemia, cuja existência ele negou. Ele chegou a chamar de “gripezinha” uma pandemia que hoje vitima mais de 50 mil famílias no Brasil. O meu raciocínio ainda é o mesmo. Não são todos iguais esses que ainda apoiam o Bolsonaro. É um número bem menor do que aquele que o elegeu. É muito importante que a gente vá acompanhando. Essa pesquisa de 30% foi feita antes da prisão do Fabrício Queiroz (e confirmada depois). Essa prisão do Queiroz vai revelar relações muito criminosas da família. Bolsonaro vai perder, com sua família, o lugar da honestidade sobre a qual tanto fala, pois dificilmente o senador Flávio Bolsonaro vai escapar dessa investigação. Sem dúvida alguma, isso vai reduzir o número de apoiadores do presidente.
Folha – Na entrevista que deu no mesmo dia que você à Folha, naquele maio de 2018, Flávio Bolsonaro, entre outras coisas, afirmou: “a direita saiu do armário”. E os fatos de lá para cá, provam que ele estava certo. Com que roupa essa direita saiu do armário? As ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) podem pô-la a nu?
Freixo – O Brasil vive ao mesmo tempo três investigações muito profundas, muito graves, que envolvem diretamente pessoas muito próximas do presidente. Mais do que ficar falando de fascismo, que é uma palavra que boa parte da população não entende, eu acho que todo o campo progressista, comprometido com a democracia, tem que falar com as famílias, falar de saúde e de emprego. Foram três coisas que o Bolsonaro abandonou: saúde, família e emprego. As investigações atuais sobre grupos bolsonaristas são muito graves. Eles respondem por fake news, tem uma investigação sobre isso e que pega muita gente próxima ao presidente. Há uma investigação sobre crimes contra a democracia, inclusive com deputados sendo investigados por terem financiado com dinheiro público crimes contra a democracia, como propor fechamento do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal, intervenção militar. Dinheiro público foi desviado para financiar esse tipo de coisa. Isso é muito grave, assim como a própria ação de milícia envolvendo Queiroz, envolvendo “rachadinha” e a própria família Bolsonaro diretamente.
Folha – Você disse ter aberto mão da pré-candidatura a prefeito do Rio para “chamar todos aqueles setores, para além da esquerda, que estão comprometidos com a democracia”. Que ameaça a democracia sofre? Como o discurso de união e o Psol ficam quando o PT insiste no personalismo de Lula e fica fora da Frente Democrática com Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e o ex-presidente Fernando Henrique (PSDB)?
Freixo – São dois momentos distintos no que diz respeito a essa unidade. Primeiro, é uma unidade pela democracia, uma unidade para exigir respeito à Constituição da República. Nessa unidade, cabe todo mundo, como aconteceu no movimento das Diretas Já na década de 1980. No palanque das Diretas Já, você tinha forças antagônicas, mas todas eram comprometidas com a derrota da ditadura e queriam a eleição direta para presidente. Apesar de a emenda Dante de Oliveira não ter sido aprovada pelo Congresso Nacional, sem dúvida alguma aquele movimento foi vitorioso e decisivo para sairmos de uma ditadura civil-militar com tantos prejuízos à história do Brasil. Agora, esse primeiro movimento é semelhante, é para não permitir que Bolsonaro continue rasgando a Constituição do Brasil todos os dias. Bolsonaro age como um “serial killer” da Constituição, ele mata a Constituição todos os dias. A cada dia, um novo artigo é rasgado por Bolsonaro. Isso tem que ser impedido por forças democráticas. Não é um movimento da direita ou da esquerda, mas de todos juntos pela democracia. Este é um momento. Um outro momento é o de alianças de um campo progressista que possa ter um programa, mais do que um líder. Nós temos grandes figuras nacionais, e não somente o Lula. Nós temos o Ciro Gomes, o Flávio Dino, o Fernando Haddad, a Manoela D’ Ávila. Nós temos pessoas com muita capacidade de liderar. O que a gente precisa é de um programa, um projeto, que garanta saúde pública, educação pública, segurança pública, emprego, desenvolvimento, que dê conta da questão ambiental. Qual programa todas essas lideranças podem defender juntas? Essa será uma unidade programática em um segundo momento, ai sim, já pensando em uma eleição. Agora é hora de respeitar a Constituição, de garantir democracia e vida.
Folha – Analistas sustentam que o perigo de uma ruptura democrática no Brasil poderia vir menos das Forças Armadas, sobretudo após a prisão de Queiroz, do que das milícias e do forte apoio que o presidente tem entre as Polícias e os Bombeiros Militares. Com sua experiência à frente da CPI das Milícias na Alerj, concorda com essa tese?
Freixo – Nós não vivemos o mesmo momento que vivemos em 1964. Em 64, havia o governo João Goulart, que falava das Reformas de Base. Houve uma ruptura democrática ali, feita pelos militares e por um setor dos empresários brasileiros da época. Não é isso que vivemos hoje. Agora, nós já temos um governo que não respeita a Constituição, nós já temos um governo que é absolutamente violento, que fala em armas no lugar de entregar respirador. Que não amplia leitos e fala em guerra civil. Nós temos um presidente que vai a atos promovendo a ideia de fechamento de Congresso, de fechamento do Supremo e de intervenção militar. Então já temos um golpe em curso. Eu não acredito que as Forças Armadas cometam mais um erro em sua história em relação a isso, essa ruptura. O que a gente precisa fazer é interromper uma ruptura que já acontece, e não que vai acontecer. Nesse sentido, as Polícias Militares são muito práticas, e obedecem aos governos estaduais. Também não acredito nisso que falam, nessa inversão de valores nas polícias. Bolsonaro tenta alimentar uma sociedade armada, formando milícias políticas, como esse acampamento dos 300, que é algo violento e completamente ilegal, com gente já presa, inclusive. Então, é evidente que Bolsonaro quer um governo autoritário, mas não tem força política. A prisão do Queiroz vai revelar a proximidade do presidente com grupos criminosos, e ele vai, cada vez mais, perder força e apoiadores, ficar mais frágil.
(Foto: Folha da Manhã)
Folha – Em Campos, no dia 5, a PM reprimiu (confira aqui) com bombas de gás lacrimogêneo um protesto antirracista pacífico de cerca de 16 estudantes no Centro da cidade, que respeitava as regras sanitárias da pandemia da Covid-19. Como a PM não tinha feito o mesmo em atos bolsonaristas na cidade de 15 de março (confira aqui) e 17 de abril (confira aqui), a reação das instituições como OAB, Ministério Público, Legislativo e imprensa locais (confira aqui) fez com que uma nova manifestação antirracista, em 10 de junho, pudesse ocorrer (confira aqui) em respeito às regras e sem repressão. O exemplo de Campos, com a imposição das instituições, vale ao Brasil?
Freixo – Diante de uma ameaça às instituições, a melhor coisa a fazer é ver as instituições responderem dentro das suas atribuições. Se o presidente participa de um ato pedindo o fechamento do Congresso, o Congresso tem que reagir. Se um deputado fala em AI-5, existe Comissão de Ética no Congresso para ele. São as instituições respondendo à altura das ameaças e das violações. Se um deputado paga a organização de um ato antidemocrático pelo fechamento do Supremo, o Supremo investiga esse deputado, quebra seu sigilo e exige que se cumpra a lei. Existe uma Constituição para isso. Então, são as instituições reagindo. Se o presidente manda um jornalista calar a boca, cabe à imprensa falar ainda mais, ser ainda mais crítica. São as instituições da sociedade civil, ou instituições do Estado, reagindo para garantir a democracia. A democracia não é algo natural, é uma construção que passa por pessoas e por instituições. Por isso que é muito importante fazer com que a lei seja cumprida, e, neste sentido, as instituições são decisivas. Não pode haver tolerância para atos que sejam criminosos perante a Constituição e repressão para atos que pedem democracia, como este ao qual você se refere. É uma inversão completa de valores. Vamos combinar que não é liberdade de expressão dizer que um juiz tem que morrer, que um deputado tem que morrer, que tem que estuprar filha de juiz. Isso não é liberdade de opinião, de expressão; isso é crime. Quem fala algo criminoso responde por crime. Isso não pode, de forma alguma, ser chamado de liberdade de expressão. A gente precisa muito bem equilibrar esses limites, que estão muito claros, sem sombra de dívida, dento da Constituição de 1988. Não é à toa que ela é chamada de Constituição Cidadã. É uma constituição feita à luz de uma vitória sobre uma ditadura. Não pode ser ameaçada por um ditador de plantão. O Bolsonaro age como um serial killer da Constituição. Ele mata um artigo por dia. É contra isso que precisamos reagir, e nada melhor do que as instituições para fazerem valer o que está escrito na Constituição de 1988.
Folha – O ato antirracista reprimido pela PM em Campos foi em torno do Pelourinho, monumento histórico do passado da escravidão negra na cidade. E foi lá que terminou o ato seguinte com um cartaz afixado no Pelourinho, indagando: “Quem mandou matar Marielle?”. Com a prisão dos executores da ex-vereadora carioca do Psol, como chegar aos mandantes? O silêncio dos milicianos Ronie Lessa e Élcio de Queiroz, presos pela Polícia Civil do Rio, ou de Adriano da Nóbrega, morto pela PM da Bahia, continuará valendo?
Freixo – Eu acompanhei muito de perto essa investigação, junto com a família e junto com a delegacia de homicídios aqui do Rio de Janeiro. Eu não tenho a menor dúvida de que, neste ano ainda, nós vamos saber qual grupo político, quais figuras políticas do crime do Rio de Janeiro foram responsáveis, foram os mandantes da morte da Marielle. Novas prisões vão acontecer, já aconteceram agora há pouco tempo, e a Polícia Civil tem linha de investigação, a gente acompanha de perto e confia muito, tanto no Ministério Público quanto na polícia. Não tenho dúvida: este ano nós saberemos quem foram os mandantes da morte da Marielle.
Folha – Embora dificilmente vão ocorrer em outubro, por conta da pandemia, o TSE trabalha para realizar as eleições municipais ainda este ano. O Psol não apresentou nenhum pré-candidato a prefeito em Campos. Como vocês pensam o partido no município e na região?
Freixo – Tudo indica que o Psol de Campos caminhará com candidatura própria, mas os prazos foram esticados, e este é um debate, o das eleições em todo o Estado do Rio de Janeiro, que ainda não estou conseguindo acompanhar neste momento da pandemia e de uma crise tão grande em Brasília. Tenho certeza de que os dirigentes e os filiados ao Psol de Campos vão escolher o melhor caminho. Torço muito para isso porque tenho uma visão muito estratégica dessa região para o desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro e mesmo do país. Não podemos pensar pequeno sobre isso. O Norte Fluminense tem um potencial que jamais poderia ter sido desprezado por nenhum governante. Infelizmente foi, durante muito tempo, mas não pode ser mais. Campos, Macaé e toda a região são cada vez mais estratégicas para todos nós, para a política e para a economia do Rio de Janeiro, não só em função do petróleo, mas principalmente pela necessidade crucial que temos de melhorar a qualidade de vida e a atividade econômica fora da Região Metropolitana.
Folha – Como vê as atuações do governo Wilson Witzel (PSC) e Jair Bolsonaro na pandemia? O governador está seriamente ameaçado de impeachment, após a operação Placebo, que teve como alvo a compra de respiradores e os hospitais estaduais de campanha. Campos já pode desistir do dele, que atenderia todo o Norte e Noroeste Fluminense?
Freixo – Os hospitais de campanha nunca representaram uma solução para o novo coronavírus. Todos os especialistas, todos os profissionais da Fiocruz e os representantes mais sérios das entidades médicas dizem que o que a gente precisava era abrir os leitos existentes e desativados, garantir sua reativação. Por exemplo, os leitos dos hospitais federais que estão fechados até hoje e não foram disponibilizados. Isso Bolsonaro poderia fazer com muita facilidade. Então, a gestão hospitalar de um lugar já com profissionais e equipamentos é o mais importante e mais rápido. Os hospitais de campanha são muito caros, lentos, e eles não necessariamente atendem a essa demanda. Inclusive, hoje, já temos uma utilização dos leitos bem menor nos hospitais, não chega a 40% no Rio de Janeiro, o que mostra que a utilização de hospitais de campanha não era, desde o início, uma boa ideia. Isso já tinha sido alertado por muitos profissionais. E tudo isso acabou servindo a algumas investigações sobre superfaturamento e corrupção. Sem dúvida alguma, acho que o Witzel é um ex-governador em exercício. Ele reproduziu práticas encontradas no governo de Sérgio Cabral. Não representava uma nova política, como foi anunciado por Bolsonaro e por Flávio Bolsonaro no momento da sua eleição.
Folha – Bolsonaro e Witzel foram eleitos com o discurso da “nova política”. O segundo é investigado por desvios na Saúde, envolvendo o escritório de advocacia da primeira dama e o empresário Mário Peixoto. São a mesma área, modus operandi e empresário do esquema de corrupção do ex-governador Sérgio Cabral (MDB). E o presidente corre o risco de ter o seu Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras que catapultou a Lava Jato, que só contou o que sabia com a ameaça da sua família também ser presa. Como ocorre agora com a mulher de Queiroz, enquanto a ex-namorada do advogado Frederick Wassef começa a ser investigada. A “nova política” envelheceu?
Freixo – Na verdade não existe uma nova política representada por Bolsonaro. Ele sempre conviveu no subterrâneo da política, é deputado há quase 30 anos, sempre conviveu com as práticas do Centrão, foi do mesmo partido do Paulo Maluf, nunca levantou a voz contra a corrupção e sempre foi um deputado apagado, com pouquíssima contribuição no Congresso, assim como seus filhos no parlamento. O resultado daqueles movimentos de 2013, com a crise de representatividade profunda na sociedade, é que se passou a buscar uma nova política, mas Bolsonaro não a representa, definitivamente. A nova política não pode descartar as instituições e nem tentar remeter a períodos de tortura e de fim da democracia. Isso é velho demais. Bolsonaro sempre conviveu com esquemas corruptos, dentro dos seus partidos e no próprio parlamento. E, agora, as investigações sobre Queiroz e sobre seu advogado vão deixar muito claro que não temos uma nova política, muito pelo contrário, temos o que sempre houve de pior na velha política.
Folha – Nos EUA, embora tenha sido obrigado a adotar a quarentena horizontal para enfrentar a pandemia, Donald Trump também politizou o vírus, numa tática desastrosa tanto na saúde, quanto eleitoral, como indicam todas as pesquisas ao pleito presidencial deles em 3 de novembro. Se o moderado Joe Biden vencer, o eixo político do mundo penderá ao centro? Isso poderia favorecer alguém como Sérgio Moro?
Freixo – Acho que a derrota do Donald Trump vai mexer com o mundo inteiro, porque há uma onda conservadora, da qual o Trump foi uma pessoa muito importante, que se espalhou por vários países da Europa e também da América. A derrota do Trump, igualmente, vai gerar uma derrota muito grande para toda essa extrema direita eleita. Não acho que a vitória do Biden vá favorecer a um ou outro no Brasil, mas vai trazer um debate de volta para o campo da democracia. Acho que o Sérgio Moro cometeu erros muito graves, em aproximação com o governo Bolsonaro, e se apagou demais. Não acredito que ele volte a ser uma figura proeminente depois do desastre que foi sua participação em um governo tão atrasado como o de Bolsonaro.
Folha – Quando o socialista Bernie Sanders ainda tinha chances nas primárias democratas a presidente dos EUA, o filósofo da USP Vladimir Safatle, que já tinha causado grande impacto com o artigo (confira aqui) “Como a esquerda brasileira morreu”, disse em entrevista ao jornalista Mario Sergio Conti que identificava elementos “revolucionários” tanto no projeto de governo de Sanders, quanto no governo Bolsonaro. No sentido de que, mesmo em espectros políticos opostos, ambos tentavam romper com o status quo, ao qual o PT aderiu no poder. Como você vê?
Freixo – Eu não vejo qualquer aspecto revolucionário no governo Bolsonaro. Eu vejo todos os aspectos reacionários, ou seja, mais do que conservadores. Ele não quer conservar, ele quer retroagir. Ele elogia tortura, fala em ruptura democrática, e ele tem ali, evidentemente, um elo de uma extrema direita autoritária. Como ele se elege? Ele não se elege por ser antipetista. Havia muitos outros antipetistas que foram derrotados junto com PT. Bolsonaro se elege ao construir uma imagem falsa da não-político, e ele precisa provocar crises atrás de crises no seu governo para não entregar o resultado de um governo, porque ele precisa dizer que a política não o deixa governar. Essa é uma estratégia que leva à ideia de que só é possível governar com poder autoritário. Isso não tem nada de revolucionário, na minha opinião. Isso é reacionário, e não é o que o Brasil precisa, ainda mais diante de uma pandemia com mais de 54 mil brasileiros mortos até este momento.
Folha – Naquela entrevista de maio de 2018, você afirmou e reafirmou que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016 foi “golpe”. Por que não foi com o ex-presidente Fernando Collor de Mello (hoje Pros) em 1992? Ou não seria no caso de Witzel ou Bolsonaro? Sobre este, após a aliança do governo com o Centrão ter engessado o presidente Rodrigo Maia (DEM), vê ambiente no Congresso para isso?
Freixo – Olha, é golpe quando você não tem crime de responsabilidade. Está muito comprovado que no governo Dilma, que foi um governo ruim, não tinha crime de responsabilidade. A pedalada é um debate que evidentemente foi forçado pelo próprio Centrão, que hoje escora o governo Bolsonaro, e Michel Temer (MDB). Já Bolsonaro tem uma fila de crimes de responsabilidade, inclusive crime de genocídio já denunciado ao Tribunal de Haia. São sucessivos crimes gravíssimos. Aliás, eu tenho até saudade do Brasil de quando o debate de crime de responsabilidade era sobre pedalada. Agora é sobre genocídio. Bolsonaro não é cassado porque fez acordos, entrega cargos atrás de cargos ao Centrão. E a única coisa que o Centrão quer neste momento do governo Bolsonaro é se esconder das investigações da própria Lava Jato. O governo Bolsonaro virou um grande esconderijo da Lava Jato. É isso que buscam os líderes dos partidos que o apoiam, formam um grupo de 200 deputados ao lado dele. Mais do que cargos, que eles têm e Bolsonaro entrega, mais do que emendas, que deveriam estar indo para a Saúde e vão para mãos de deputados e partidos, o que os líderes do Centrão querem é fugir das investigações ligadas à Lava Jato. Hoje, aquele governo construído por Bolsonaro e Sergio Moro é o maior esconderijo de criminosos da Lava Jato. O Brasil realmente não é um país para principiantes. O governador Wilson Witzel terá um processo de impeachment contra ele por desvios e crimes claros na área de saúde. É robusta a denúncia contra o Witzel. Isso tudo é muito diferente do que aconteceu em relação à presidenta Dilma. E eu reafirmo, não era um governo que eu apoiava, não era um governo com o qual eu concordava. Mas para sofrer impeachment tem que ter crime de responsabilidade. Se o governo Bolsonaro fosse um governo ruim, eu jamais pediria impeachment. Mas é um governo péssimo, ruim e criminoso, com atos antidemocráticos financiados por pessoas ligadas ao presidente e com a participação do presidente, além do crime de pandemia, que é inclusive previsto no Código Penal.
Até o começo desta tarde de sexta-feira (26), o quadro de saúde do médico neurologista Makhoul Moussallem, de 75 anos, seguia grave, mas estável, na UTI do Hospital da Unimed de Campos. Infectado pela Covid-19, seus parâmetros respiratórios seguem inalterados e ele está sem febre, indicando que a infecção vem respondendo aos medicamentos. Porém, devido a uma piora da função renal, passará a partir de hoje a se submeter a hemodiálise. As informações foram passadas por sua companheira Vera Marques, também médica, que vem acompanhando o caso de perto.
Makhoul deu entrada na Unimed (confira aqui) na manhã de segunda (22), após uma tomografia mostrar piora da infecção, que passou de 25% para 50% a 75% dos pulmões. À noite do mesmo dia, já na UTI, ele foi entubado e colocado no respirador, após um edema agudo. Foi provavelmente causado por uma fibrose cardíaca, consequência da quimioterapia que fez para curar um câncer, cujo tratamento já havia concluído. E também deixou um leve comprometimento renal, cuja piora gerou a necessidade da hemodiálise, fundamental para manter seu quadro estável.
“Pesquisas apontam uma média de 30% de apoio ao presidente Bolsonaro. Ainda é uma média muito elevada”.
“Mais do que ficar falando de fascismo, que é uma palavra que boa parte da população não entende, eu acho que todo o campo progressista, comprometido com a democracia, tem que falar com as famílias, falar de saúde e de emprego”.
“Bolsonaro age como um ‘serial killer’ da Constituição, ele mata a Constituição todos os dias”.
“Nós temos um presidente que vai a atos promovendo a ideia de fechamento de Congresso, de fechamento do Supremo e de intervenção militar. Então já temos um golpe em curso”.
“Vamos combinar que não é liberdade de expressão dizer que um juiz tem que morrer, que um deputado tem que morrer, que tem que estuprar filha de juiz. Isso não é liberdade de opinião, de expressão; isso é crime. Quem fala algo criminoso responde por crime”.
“Não tenho dúvida: este ano nós saberemos quem foram os mandantes da morte da Marielle”.
“Tudo indica que o Psol de Campos caminhará com candidatura própria (a prefeito)”.
“Sem dúvida alguma, acho que o Witzel é um ex-governador em exercício. Ele reproduziu práticas encontradas no governo de Sérgio Cabral”.
“Bolsonaro sempre conviveu com esquemas corruptos, dentro dos seus partidos e no próprio parlamento. E, agora, as investigações sobre Queiroz e sobre seu advogado (Frederick Wassef) vão deixar muito claro que não temos uma nova política, muito pelo contrário, temos o que sempre houve de pior na velha política”.
“Acho que o Sérgio Moro cometeu erros muito graves, em aproximação com o governo Bolsonaro, e se apagou demais”.
“Havia muitos outros antipetistas que foram derrotados junto com PT (em 2018). Bolsonaro se elege ao construir uma imagem falsa da não-político, e ele precisa provocar crises atrás de crises no seu governo para não entregar o resultado de um governo, porque ele precisa dizer que a política não o deixa governar”.
“Bolsonaro não é cassado porque fez acordos, entrega cargos atrás de cargos ao Centrão. E a única coisa que o Centrão quer neste momento do governo Bolsonaro é se esconder das investigações da própria Lava Jato. O governo Bolsonaro virou um grande esconderijo da Lava Jato”.
Marcelo Freixo (Foto: Folha da Manhã)
Estas foram algumas das afirmações feitas pelo deputado federal Marcelo Freixo (Psol/RJ), em entrevista exclusiva respondida por e-mail entre quarta (24) e quinta (25). Para conferi-la na íntegra, falando sobre Brasil, EUA, Estado do Rio, Campos e Norte Fluminense, confira a edição da Folha da Manhã deste sábado (27), bem cedo nas bancas e na casa dos assinantes.
STF, Carmém, Fux, Bolsonaro e as covas abertas pela Covid em Manaus (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Sabe aquela bravata dos bolsolavistas, de que eu “Mito” não teria culpa pelos até aqui 54.434 mortos oficiais da Covid-19 no Brasil, 2º país do mundo com mais óbitos na pandemia, porque o Supremo Tribunal Federal (STF) teria delegado a responsabilidade a governadores e prefeitos?
Pois é. É mais uma deslavada mentira do governo investigado pelo mesmo STF no inquérito das fake news:
— O que o Supremo disse é que a responsabilidade é dos três níveis (federativos: União, estados e municípios). E não é hierarquia, porque na federação não há hierarquia. para estabelecer condições necessárias, de acordo com o que cientistas e médicos estão dizendo que é necessário, junto com governadores, junto com prefeitos. Acho muito difícil superar (a pandemia) com esse descompasso, com esse desgoverno (…) isso vai resultar em mortes, e haverá responsabilidade por isso — esclareceu (aqui) a ministra do STF Carmém Lúcia, em live promovida pela Unicamp.
No dia 22, o também ministro do STF Luiz Fux já havia desmentido (aqui) Jair Bolsonaro (sem partido) e seus apoiadores, na “narrativa” que disseminam nas redes sociais para tentar eximir o governo federal pela desastrosa condução do combate da Covid-19 no Brasil. Que já foi chamada em rede nacional pelo presidente de “gripezinha” e “resfriadinho”:
— O Supremo não exonerou o Executivo federal das suas incumbências. Porque a Constituição Federal prevê que, nos casos de calamidade, as normas federais gerais devem existir. Entretanto, como a saúde é direito de todos e dever do estado, num sentido genérico, o estado federativo brasileiro escolheu o estado federado em que os estados têm autonomia política, jurídica e financeira — explicou Fux, eleito hoje como próximo presidente do STF.