Pré-candidato a prefeito, Caio Vianna fecha a semana do Folha no Ar nesta sexta

 

(Arte: Eiabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h desta sexta (26), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o pré-candidato do PDT a prefeito de Campos, Caio Vianna. Ele falará sobre a pandemia da Covid-19, governo Jair Bolsonaro (sem partido) x seu PDT de Ciro Gomes, além do governador Wilson Witzel (PSC) sob ameaça de impeachment. Analisará também a as quedas substanciais e progressivas das receitas do petróleo (confira aqui e aqui) com a necessidade que elas impõem de redução na máquina pública municipal. E, no último bloco, falará da administração Rafael Diniz (Cidadania), do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD), da sua pré-candidatura a prefeito e demais adversários.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Internado na UTI da Unimed com Covid, quadro de Makhoul é grave, mas estável

 

Makhoul foi três vezes candidato a prefeito de Campos pelo PT, mas nunca deixou de ser crítico ao partido e suas lideranças, como os ex-presidentes Lula e Dilma (Foto: Folha da Manhã)

 

Internado por conta da Covid-19 ontem (22) na UTI do Hospital da Unimed de Campos, o médico Makhoul Moussallem, de 75 anos, apresenta um quadro grave, mas estável. Segundo explicou sua companheira, a também médica Vera Marques, ele foi entubado e passou a usar respirador após um edema agudo. Teria sido causado por uma fibrose cardíaca, consequência da quimioterapia que fez para curar um câncer, cujo tratamento já havia concluído. Nascido e criado no Líbano, se radicou com a família em Campos ainda adolescente, onde salvou várias vidas ao longo da uma brilhante carreira na medicina. E quase chegou a governar a cidade que o adotou.

Candidato a prefeito de Campos três vezes (2004, 2006 e 2012) e uma a deputado federal (2014), além de um dos médicos neurologistas mais respeitados da cidade, Makhoul começou a apresentar os primeiros sintomas da Covid no dia 15, com febre e tosse. No dia seguinte (16), começou o tratamento com antibiótico e corticoide. Fez também uma tomografia, que apresentou comprometimento de 25% dos pulmões, e um teste PCR para a doença, cujo resultado foi confirmado no dia 20.

Ontem, apesar de ter acordado bem disposto e sem febre, Makhoul fez uma segunda tomografia, que apontou uma evolução do comprometimento dos pulmões para 50% a 75%. Saiu do exame feito na manhã já sentindo cansaço e foi direto para a Unimed, da qual foi um dos fundadores em Campos. Ficou inicialmente na terapia semi-intensiva, até vagar um leito na UTI. E, após o edema, teve que ser entubado e colocado no respirador à noite do mesmo dia.

Além das consequências cardíacas da quimioterapia, que concluiu há dois anos, Makhoul já teve dois infartos, há mais de 20 anos. Sua condição respiratória é afetada por um enfisema pulmonar. Além da fibrose no coração, no qual usa por isto um aparelho desfibrilador, a quimioterapia também deixou um quadro de leve comprometimento renal, que vem respondendo ao tratamento, desde que se internou na Unimed.

— O quadro de Makhoul é grave, mas estável. E, apesar das comorbidades, todas as adversidades de saúde que já passou demonstraram que ele tem uma resposta medicamentosa impressionante. É um dos homens mais fortes que já conheci. Ele luta pela vida, tem uma vontade de viver incrível. Acorda todo dia com vontade de tomar café e ser feliz. Acho que ele vai sair vencedor — testemunhou Vera Marques, companheira de Makhoul.

 

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Com Covid e sem febre há 4 dias, vereador Neném deve ser liberado para casa

 

 

Vereador Luiz Alberto Neném (Foto: Folha da Manhã)

Como anunciado em primeira mão no programa Folha no Ar do início da manhã de hoje, na Folha FM 98,3, e foi reforçado à tarde na sessão virtual da Câmara Municipal de Campos, pelo presidente Fred Machado (Cidadania), o vereador Luiz Alberto Neném (PSL) deve ter alta nesta quarta do Hospital da Unimed de Campos. Como o blog noticiou aqui, na última quinta (18), ele teve quadro confirmado de Covid-19 e se internou naquele mesmo dia em um leito clínico do hospital, após uma tomografia registrar que a infecção tinha atingido 50% dos seus pulmões.

Segundo o próprio Neném informou por telefone, e é possível constatar por sua voz, seu quadro clínico vem apresentando melhora. E ele está há quatro dias sem febre, o que indica a redução da infecção. Desde a sexta (19) ele faz diariamente fisioterapia pulmonar. Neste dia, uma nova tomografia indicou que o quadro dos pulmões permanecia estável. Ele voltou a repetir o exame na tarde de hoje. Que, se apontar a redução esperada, deve implicar amanhã na sua liberação para casa.

— Acompanhei o caso por acesso remoto o tempo inteiro, junto à colega infectologista Patrícia Pandolfi, que é infectologista da Unimed. Quando houve a piora do quadro de comprometimento pulmonar, achamos que seria mais seguro internar. E, desde então, Neném vem respondendo muito bem ao tratamento, Está há quatro dias sem febre, a tosse está bem mais espaçada, o quadro clínico mostra melhora, indicada também pelos exames laboratoriais. Esperamos só que isso seja confirmado pelo laudo da tomografia feita hoje para poder liberá-lo, provavelmente nesta quarta — explicou a clínica geriatra Deborah Casarsa, médica do vereador.

 

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Dom Rifan fala sobre pandemia, religião e política no Folha no Ar desta quarta

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (24), o convidado do Folha no Ar é Dom Fernando Rifan, bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney, que reúne a ala tradicionalista do catolicismo romano em Campos. Ele falará sobre a prática da fé cristã durante a pandemia da Covid-19, sobre conservadorismo religioso e conservadorismo político, além de analisar os governos Jair Bolsonaro (sem partido), Wilson Witzel (PSC) e Rafael Diniz (Cidadania).

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Prisão de bolsonarista põe atos antidemocráticos do NF sob investigação federal

 

Protestos antidemocráticos e inconstitucionais de Campos, em 15 de março, também estariam sob investigação federal (Foto: Genilson Pessanha – Folha da Manhã)

 

O fato da campista Érica Viana, auxiliar de creche do município, ter sido presa (confira aqui) na terça passada (16), dia seguinte à radical Sara Geromini ir para a cadeia na segunda (15), tem deixado radicais bolsonaristas em Campos, São João da Barra e região de cabelo em pé. Todo o esquema das manifestações antidemocráticas locais, com postagens nas redes sociais em afronta à Constituição, já estariam na mira da Polícia Federal (PF), da Procuradoria Geral da República (PGR) e do Supremo Tribunal Federal (STF). E não adiantaria deletar as postagens. Tudo já estaria printado e, seus autores, devidamente identificados. E, idelogia à parte, visaria lucro (confira aqui).

Ao que parece, a casa caiu. Do Planalto Central à planície goitacá. É esperar para ver quem irá junto.

 

A campista Érica Viana e a líder dos “300 do Brasil”, Sara Geromini, tranferidas da sede da PF à Penitenciária Feminina de Brasília (Foto: Divugação)

 

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Universitário Eraldo Duarte, da “UFF Livre”, nesta terça no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (23), o convidado do Folha no Ar, da Folha FM 98,3, é o estudante universitário Eraldo Duarte, criador e líder do grupo conservador “UFF Livre”. Ele falará sobre a retomada da construção dos prédios da UFF em Campos (confira aqui), obras iniciadas no governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e abandonadas pela metade em 2015, no governo Dilma Rousseff (PT), além da vida universitária durante a pandemia da Covid-19.

Eraldo também analisará a quebra do monopólio do pensamento político de esquerda, geralmente atribuído às universidades públicas brasileiras. E falará ainda sobre o apoio e o processo de afastamento, seu e do grupo conservador a que pertence, com o governo Jair Bolsonaro (sem partido).

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Leandro Monteiro — Evolução, eugenia e diversidade: reflexões durante a pandemia

 

Crânios humanos e instrumentos de medição em exibição no Musée de l’Homme em Paris (fotos: Leandro R. Monteiro)

 

“Com isso, o que vai acontecer, quando as pessoas não defendem o isolamento? Não se fecha comércio, a economia não para, o governo não precisa colocar dinheiro na economia, as pessoas que vão morrer muitas são os idosos, aí tem a fala de ‘aí ia morrer mesmo’ ou as pessoas que já tem doença. E vão ficar os jovens e atletas. Então se a gente pegar pedaços da fala tem uma lógica intensa. Isso chama eugenia, lembre-se de que sistema político mundial usava isso”. Dr. Arnaldo Lichtenstein.

Leandro Rabello Monteiro, professor de biologia evolutiva da Uenf

A entrevista do Diretor do Hospital das Clínicas da USP ao Jornal da Cultura, trouxe à tona novamente um termo que é velho conhecido dos biólogos evolutivos: Eugenia. A etimologia da palavra remete ao grego para “boa cepa” e consiste de um conjunto de práticas e conceitos destinados ao melhoramento genético da espécie humana. O termo foi cunhado por Francis Galton e remete à Inglaterra Vitoriana, no final do século XIX, quando avanços no conhecimento científico, aliados aos ideais de progresso da época, viram o florescimento de ideais eugenistas, com tentativas concretas de aplicar seus conceitos a políticas públicas oficiais para “melhorar” a espécie humana. Em sua definição de eugenia, Galton fala especificamente no “cultivo da raça” como faria um agricultor ou pecuarista. A história da Eugenia é complexa e tem muitas linhas do tempo e conexões. Vale a pena examinar algumas delas para entender como chegamos até aqui. Será que o descaso dos governantes com a saúde pode ser considerada uma política eugenista? O que a biologia evolutiva tem a dizer?

 

Eugenia e suas origens

A ideia de favorecer a reprodução de indivíduos considerados “superiores é baseada em uma premissa, chamada determinismo biológico, segundo a qual, pessoas têm capacidades e valores intrínsecos que surgem de diferenças herdadas e se propagam nas famílias. Esta premissa nos acompanha desde tempos remotos. Segundo o evolucionista Stephen Jay Gould, é possível remontar ao “A República” de Platão, onde um diálogo entre Sócrates e Glaucon sugere a criação de um mito (para garantir concordância das diferentes classes com o status quo), onde alguns homens teriam ouro misturado à sua composição. Estes deveriam ter posições de comando. Outros teriam prata na composição, sendo mais apropriados para posições auxiliares, enquanto um último grupo teria bronze em sua mistura, sendo melhor aproveitados em trabalhos manuais. Como disse Mário Quintana, “Tolice alguma nos ocorrerá, que não a tenha dito um sábio Grego outrora”.

Stephen Jay Gould, em seu livro “A Falsa Medida do Homem” (Editora Martins Fontes, 1999) faz uma crítica histórica à ciência por trás do determinismo biológico, onde os metais do mito de Platão são eventualmente substituídos por genes. Diferenças sociais, culturais e econômicas entre grupos humanos são exclusivamente atribuídas a diferenças herdáveis, organizando os indivíduos e grupos étnicos de acordo com critérios de valor estabelecidos pela elite da sociedade.

O racismo científico é um produto da necessidade dos colonizadores Europeus justificarem sua dominação sobre outros povos e sempre teve uma influência política maior que a científica. O livro de Gould mostra as tentativas ao longo da história de se atribuir valor aos indivíduos a partir de medições diretas e quantitativas que indicassem suas aptidões. Em um primeiro momento, grande peso se dava a medidas cranianas e corporais como preditivas da capacidade intelectual. Muita discussão teve lugar sobre comparações entre tamanhos de cérebros ou de partes do cérebro como indicadores de inteligência, as quais foram dando lugar a testes de inteligência, mas que nunca conseguiram atingir seu objetivo proposto por basear-se em premissas falsas, fraudes ou raciocínio motivado.

O Reverendo Thomas Malthus escreveu um ensaio no século XIX, argumentando que o crescimento populacional tenderia a extrapolar a capacidade de produção de alimentos (capacidade de suporte). O Reverendo enxergava aí um plano divino imposto com propósito de ensinar comportamentos virtuosos (ele conectava virtude e riqueza). Por isso, qualquer tentativa de melhorar o bem estar das classes mais pobres (com programas de assistência e caridade) estaria indo contra o plano divino. A parte populacional do ensaio de Malthus foi grande influência tanto para Charles Darwin quanto para Alfred Russel Wallace no desenvolvimento independente de suas hipóteses evolutivas de seleção natural. Uma vez que o conceito de seleção natural foi sendo popularizado, diferentes interpretações, nem sempre fiéis à ideia original foram sendo propostas.

Herbert Spencer propôs a simplificação conceitual da seleção natural como “sobrevivência dos mais aptos”, trazendo as ideias de Malthus para um contexto científico. Existe grande semelhança entre a visão de Spencer e as políticas econômicas liberais atuais. Assim como Malthus, Spencer também condenava as políticas assistencialistas como uma pedra no caminho do aperfeiçoamento da humanidade. Esta visão ficou conhecida como “Darwinismo social” e foi uma influência importante nas ideias eugenistas. Apesar do nome, no entanto, não correspondia a nenhuma proposta de Darwin, que considerava que a cooperação e a empatia entre indivíduos foi mais importante que a competição na evolução da capacidade intelectual humana. Que fique claro, Charles Darwin era um produto do seu tempo. Era progressista em diversas frentes e veementemente contra a escravidão, mas tomava como certa a superioridade Europeia sobre as demais culturas.

O trabalho de Francis Galton que cunhou o termo eugenia foi o livro Inquiries into human faculty and its development, cuja primeira edição foi publicada em 1883. Lida no contexto atual, a obra parece uma coleção de temas aleatórios (com algumas bizarrices), reunindo capítulos sobre a possibilidade de intervenção teocrática, uma investigação estatística da eficácia das orações, a domesticação de animais e uma associação entre criminalidade e insanidade. Galton acendeu um debate sobre o papel da herança x ambiente (nature and nurture) na determinação das capacidades humanas, convencido que estava do papel da hereditariedade. Os ideais eugênicos foram então popularizados na Inglaterra. Ali eram advogadas políticas da chamada “eugenia positiva”, que propunha principalmente encorajar a reprodução de indivíduos detentores de características desejáveis.

 

Prancha do livro Inquiries into human faculty and its development, onde Galton argumenta que associações entre cores e imagens mentais variam entre pessoas e são herdáveis. Por exemplo, pessoas da mesma família associariam de modo semelhante cores com letras, sons e calendários. Parte dos argumentos que faculdades mentais são geneticamente determinadas

 

Eugenia nos Estados Unidos: testes de inteligência, racismo e imigração

O movimento eugênico ganhou uma versão mais sinistra nos Estados Unidos. Eugenistas Americanos no início do século XX eram motivados por ideais utópicos similares aos dos Britânicos, mas com propostas também de “eugenia negativa”, onde a esterilização ou institucionalização de indivíduos considerados incapazes (os “débeis mentais”) chegou a ser realizada.

No início do século XX, as medições cranianas começaram a ser abandonadas como método de inferir as capacidades intelectuais. Um psicólogo Francês (Alfred Binet) reparou em seus estudos, que as medidas craniométricas não conseguiam predizer o desempenho acadêmico de alunos, avaliados pelos seus professores. Binet então resolve tentar um enfoque mais “psicológico”, a partir da literatura sobre testes mentais. Ele recebe uma incumbência do Governo Francês para desenvolver um teste que permitisse identificar alunos que necessitariam de uma educação especial, mais individualizada. O teste proposto por Binet envolvia uma série de tarefas e questões relacionadas a problemas do dia-a-dia (compreensão, invenção, ordenação). A escala de medição proposta por Binet continha idades mínimas em que uma criança deveria ser capaz de realizar determinadas tarefas. O resultado era uma medição da “idade mental”. Mais adiante, o psicólogo Alemão W. Stern propôs divididir a idade mental pela idade cronológica o que ficou conhecido como quociente de inteligência (QI).

Binet tinha um propósito prático ao desenvolver sua escala, apenas identificar crianças com dificuldade de aprendizado para receber mais ajuda. No entanto, os testes de QI acabaram assumindo um caráter bastante diverso quando foram importados para os Estados Unidos. Carl Zimmer descreve este episódio em seu excelente livro “She has her mother’s laugh“. Os testes de QI foram levados para os Estados Unidos pelo psicólogo Henry H. Goddard, que trabalhava em uma escola (Vineland) para crianças com dificuldades de aprendizado. Goddard começa a aplicar os testes de QI nos alunos de Vineland e cria uma escala de ordenação dos indivíduos considerados oligofrênicos (com pequeno desenvolvimento mental, segundo definição da época) que leva em consideração a idade mental e o QI. Na Figura abaixo temos a reprodução de um livro que utiliza a escala, mostrando a nomenclatura (idiotas, imbecis, débeis mentais) que acabou saindo da literatura técnica para ganhar as ruas como xingamentos.

 

Páginas do livro Biologia Educacional, de A. Almeida Junior (1962) mostrando a escala de QI e as nomenclaturas propostas por Goddard

 

Goddard fica empolgado com os resultados dos testes, que parecem gerar uma classificação objetiva de algo que era percebido subjetivamente por ele e por outros professores. Ele começa a se interessar sobre o histórico familiar dos alunos e chega à conclusão de que pelo menos dois terços dos oligofrênicos teriam herdado a condição de algum parente. Um projeto colaborativo entre Goddard e Charles Davenport, diretor do Cold Spring Harbor Laboratory e fundador do Eugenics Record Office, lançou um olhar mais técnico ao problema da hereditariedade da oligofrenia. Goddard treina um número de técnicos de campo para colher informações sobre as famílias dos alunos de Vineland, buscando reconstruir os históricos genéticos da debilidade mental. A redescoberta e ampla aceitação da genética Mendeliana trouxe ainda um maior entusiasmo aos estudos de Goddard, já que ele ficou com a impressão que os padrões de herança da oligofrenia pareciam se encaixar bem com a expectativa Mendeliana para uma herança simples, determinada por um ou poucos genes. Se este padrão genético fosse real, os planos da eugenia para melhoramento genético da população humana teriam grande chance de êxito.

Uma aluna e sua família chamaram especialmente a atenção de Goddard. Emma Wolverton havia sido internada em Vineland nove anos antes da chegada de Goddard. Diferente da maioria dos alunos na instituição, Emma não era incapacitada. A internação da menina havia sido realizada por causa de problemas familiares, com uma história “inventada” para acobertar o fato de que ela não se encaixava no perfil geral dos estudantes de Vineland. A maior parte dos alunos realizava trabalhos (sem receber nenhum pagamento) na escola, produzindo grande quantidade de roupas, sapatos e alimentos na fazenda da escola. Nunca foi chamado à atenção da administração da escola o paradoxo que era o fato destes alunos que deveriam ser um peso para a sociedade, na verdade serem tão produtivos. Nem ninguém ficava com peso na consciência por se apropriar dos frutos do trabalho destes alunos. Considerava-se que, deixados em liberdade fora da escola, estes alunos tenderiam à depravação, à imoralidade e ao crime.

Ao realizar os testes de QI em Emma, Goddard chegou à conclusão de que ela seria realmente débil mental (do inglês moron), apesar de aparentemente muito funcional. Uma das assistentes de campo de Goddard (Elizabeth Kite) chegou com grande quantidade de informações sobre a família de Emma, após conversar com um número de pessoas e realizar uma série de visitas às casas de parentes. Estes testemunhos permitiram a Kite traçar a origem de 480 pessoas da família Wolverton a um único ancestral (John Wolverton) que teria dois ramos principais. Em um dos ramos da família, fruto de um relacionamento fora do matrimônio entre John e uma moça débil mental, Kite encontrou evidências de debilidade mental em 143 descendentes (sem contar os 36 ilegítimos, 33 imorais, 24 bêbados, 3 epiléticos, 3 criminosos e 8 adúlteros), incluindo Emma (veja heredograma abaixo). No ramo “oficial” da família, todos os descendentes eram pessoas respeitáveis, como médicos, negociantes e advogados.

A evidência parecia se encaixar muito bem nas ideias pré-concebidas de Goddard, convencendo-o de que os Estados Unidos estavam em uma crise de debilidade mental hereditária e que a solução para isso eram medidas eugenistas, já encorajadas por Davenport. Goddard não via grandes problemas nos idiotas e imbecis, já que estes geralmente viviam suas vidas sem se reproduzir. Seu problema eram os indivíduos “fronteiriços”, que conseguiam funcionar na sociedade e estabelecer linhagens que perpetuavam suas características indesejáveis. Para tentar convencer a opinião pública da importância das medidas eugenistas, Goddard começa então a escrever um livro para ilustrar a necessidade de controlar a reprodução dos débeis mentais.

Várias famílias foram utilizadas como exemplos por eugenistas, como argumento da herança de comportamentos e faculdades mentais (os Jukes, os Nam, os Zero). Ele escolhe como exemplo a família Wolverton, mas modifica os nomes para proteger sua identidade, de modo que Emma Wolverton é identificada como Deborah Kallikak (mas fotos de todos foram publicadas). O nome era uma combinação de palavras gregas para bom (kalos) e ruim (kakos). O patriarca da família foi chamado Martin Kallikak e o livro publicado em 1912 (The Kallikak family).

 

edigree da família Kallikak publicado por Goddard. As letras N indicam indivíduos normais. As letras F indicam débeis mentais (feeble-minded) — Fonte: Wikimedia

 

Goddard considera que os heredogramas mostram um padrão de herança Mendeliana, dando um “ar” científico a preconceitos antigos na sociedade Americana, como a conexão entre a debilidade mental e o pecado. Afinal de contas, a origem dos comportamentos reprováveis da família Kallikak teria sido o relacionamento do patriarca fora do casamento. O livro transformou-se em um “best seller”, trazendo fama para Goddard e para os testes de QI, que passaram a ser adotados em grande parte do sistema escolar Norte Americano.

Os relatórios de Elizabeth Kite sobre a família Wolverton acabaram se revelando falsos. Grande parte das informações foram baseadas em relatos de pessoas que apenas tinham ouvido falar dos eventos, gerando uma corrente de desinformação, tipo “telefone sem fio” e confundindo os fatos (primos confundidos com filhos, por exemplo). Acontece que o lado alegadamente ruim da família não era formado por indivíduos reprováveis, mas por uma grande quantidade de pessoas com profissões consideradas respeitáveis, o que ficou claro após uma análise genealógica dos Wolverton realizada nos anos de 1980. No entanto, antes mesmo dos fatos errados virem à tona, era possível encontrar sérias falhas na argumentação de Goddard.

Uma boa parte desta oposição vinha exatamente dos geneticistas, que durante décadas mostraram que os resultados dos estudos eugenistas não tinham sustentação científica. Thomas Hunt Morgan, um dos principais geneticistas Mendelianos da época (também da história), não se convenceu de que os heredogramas da família Kallikak mostravam um padrão de herança simples. Em primeiro lugar, uma característica tão complexa e difícil de conceituar como a inteligência provavelmente seria determinada por um grande número de genes e pelo ambiente. Ao ignorar completamente o papel do ambiente, colocando toda a responsabilidade do comportamento humano na genética, as conclusões de Goddard não eram derivadas diretamente das observações, mas de um raciocínio motivado.

O eventual descrédito das ideias de Goddard não impediu que a fama da família Kallikak se mantivesse por muitas décadas, participando de livros texto de psicologia e do imaginário popular. O livro “Biologia Educacional” que foi publicado no Brasil entre 1939 e 1969 (será tratado adiante) mostra os Kallikak como exemplo da hereditariedade de comportamentos indesejáveis e problemas mentais. Por incrível que pareça, todo o desenvolvimento das ideias eugenistas no século XX seguiu muito mais as mudanças políticas e sociais que qualquer avanço científico.

A reputação de Goddard fez com que o Departamento de Saúde Pública entrasse em contato, com o propósito de testar imigrantes que chegavam na Ilha de Ellis vindos da Europa (mais de 12 milhões entre 1890 e 1910). Uma lei de 1907 impedia a imigração de pessoas com defeitos físicos e mentais, obrigando os médicos que realizavam inspeções de saúde nos imigrantes a também verificarem problemas mentais. Goddard tentou adaptar seu teste para a realização por imigrantes que não falavam inglês, mas não ficou muito convencido da sua eficácia. De qualquer maneira, os testes foram realizados a partir de 1912 e sua análise mostrou que, pela sua escala, mais de 80% dos imigrantes vindos da Europa seriam débeis mentais. Talvez as figuras estivessem um pouco altas, mas de qualquer maneira, Goddard atestava que os Estados Unidos estavam recebendo o que havia de pior nos países de origem. Estes resultados foram amplamente apropriados por grupos anti-imigração.

Testes de inteligência foram também utilizados em um mega estudo no exército Americano, onde 1,7 milhão de soldados foram testados, gerando um grande banco de dados, que foi examinado em detalhe pelo psicólogo Robert Yerkes. Segundo os padrões de Goddard, 47% dos soldados brancos e 89% dos soldados pretos eram débeis mentais e a idade mental média dos soldados Americanos seria 13 anos. A interpretação do conjunto de dados do exército se reuniu à dos testes feitos nos imigrantes e a conclusão dos eugenistas foi que a incapacidade intelectual do povo Americano (representado pelos recrutas do exército) era resultado da mistura racial entre o estoque original de imigrantes Europeus fundadores com os povos Africanos e Europeus do sul e do leste.

 

Exemplos de regras para cada item
4. Qualquer tipo de colher, em qualquer ângulo, acrescentado à mão direita, recebe um ponto. Uma colher na mão esquer­da ou separada da figura não vale.
5. A chaminé deve estar no lugar correto. Fumaça acrescentada não vale.
6. Outra orelha situada no mesmo lado que a primeira não vale.
8. Um mero quadrado, cruz, etc., colocado no lugar do selo recebe um ponto.
10. O que falta é o rebite. O anel do cabo pode ser omitido.
13. O que falta é uma pata.
15. A bola deve ser desenhada na mão direita do homem. Se for desenhada na mão da mulher, ou em movimento, não vale.
16. Uma simples linha indicando a rede recebe um ponto.
18. Qualquer desenho que represente a corneta, apontando em qualquer direção, é válido.
19. A mão e a esponja de pó devem ser desenhadas no lugar correto.
20. O que falta é o naipe de ouros. Não desenhar o punho da espada não deve ser considerado erro.

 

A Figura acima mostra uma parte do teste Beta que foi aplicado aos recrutas analfabetos do exército Americano. É um bom exemplo de como as tendências raciais e de classe contaminaram os testes. Os recrutas tinham que desenhar partes que faltavam, mas apesar de alguns items parecerem óbvios, como olhos e orelhas, outros como filamentos nas lâmpadas, rebites no canivete e a almofada de pó (Item 19) não seriam. Segundo Gould, os seus alunos em Harvard tiveram muita dificuldade com o item 18 (Gramofone) onde falta um bocal em forma de cone. Outras diferenças culturais não eram levadas em consideração. Franz Boas, um crítico da eugenia, comenta que um recruta da Sicília (sul da Itália) desenhou uma cruz na casa (Item 5), que ele considerou que era mais importante que a chaminé. Os testes eram aplicados em um ambiente inadequado, com tempo contado e um protocolo rígido, o que certamente deveria assustar muito os recrutas, especialmente os de menor escolaridade ou provenientes de localidades rurais, como era a maioria dos recrutas pretos. Outras disparidades exacerbadas era o fato de em três das sete partes dos testes Beta, era exigido conhecimento de números. Além disso, todo o teste exigia o uso de lápis, objeto que alguns recrutas nunca tinham nem visto anteriormente.

Correlações dos escores dos testes em indicadores sociais, de saúde e escolaridade explicariam bem as diferenças observadas entre os diferentes grupos étnicos, mas as interpretações de Yerkes sempre procuravam ajustar as observações aos seus preconceitos. Por exemplo, ele notava uma escolaridade muito menor nos recrutas pretos que nos brancos, o que foi interpretado como resultado do menor nível de inteligência e um consequente desinteresse pelo aprendizado. Nenhuma menção à segregação racial, as péssimas condições das escolas dos pretos e as condições econômicas desfavoráveis. Outra correlação importante foi o aumento nos escores dos testes com o tempo de residência dos imigrantes nos Estados Unidos. Em vez de interpretar este resultado como evidência de que a familiaridade com a cultura seria importante (o que de certa forma invalidaria o propósito dos testes), Yerkes o considerou evidência de que haveria uma “seleção” e apenas os imigrantes mais inteligentes permaneceriam no país. Os testes mentais do exército mostraram uma clara figura de profunda injustiça social que poderia fomentar reformas importantes, mas infelizmente não foi o caminho escolhido.

A reunião dos testes de inteligência de Goddard nos imigrantes e de Yerkes nos recrutas formou uma grande base de argumentos eugenistas que deu suporte ao estabelecimento de políticas governamentais racistas com propósito de evitar a deterioração intelectual das sociedades. Existe alguma discussão sobre o papel, direto ou indireto, que os resultados dos testes de inteligência tiveram nas discussões que levaram ao ato de imigração de 1924, onde o Congresso Americano determinou limites à entrada de imigrantes de determinados países. Um dos resultados das cotas de imigração foi a negação de entrada de uma grande quantidade de Judeus que tentaram fugir da Europa durante a escalada do nazismo nos anos 1930 e 1940. Como dito por Gould “os caminhos da destruição às vezes são indiretos, mas ideias podem ser agentes tão letais quanto armas e bombas” (A falsa medida do homem, pag 244). A lei foi modificada em 1965, mas ecoa até hoje nas políticas anti-imigração Americanas. e na retórica de seus líderes como Trump, que gostaria de ter mais imigrantes da Noruega e menos da Nigéria.

 

Eugenia no Brasil: miscigenação e higiene

As ideias eugenistas tomaram força em diferentes países, baseadas na efervescência racista Americana e Européia do início do século XX. No Brasil, ideias eugenistas foram adaptadas à realidade do país, com algumas diferenças importantes da eugenia Americana e Européia. A eugenia à brasileira na primeira metade do século XX é descrita e analisada em detalhe no capítulo de Nancy Leys Stepan no livro editado por Mark Adams (1990 – The wellborn science: eugenics in Germany, France, Brazil, and Russia) e em seu livro traduzido “A Hora da Eugenia: raça, gênero e nação na América Latina”. Outras fontes de informação mais recentes são a série de artigos publicados na Super Interessante este ano aqui e aqui.

O histórico do Brasil como nação era muito diferente dos países Europeus. Séculos de escravidão e movimentos em massa de populações Africanas para o Brasil resultaram em uma mistura genética, em grande parte forçada pela elite branca dominante. A escravidão havia sido abolida há 30 anos e a grande massa de indivíduos libertos foi abandonada à própria sorte, sem compensação ou educação, em um país que passava por um processo de urbanização e sendo desfavorecidos na competição por empregos com os mais de 1,5 milhão de imigrantes vindos da Europa neste período. O resultado foi uma turbulência social e a resposta das elites foi grandemente influenciada pela eugenia.

A mistura genética era bem maior no Brasil que nos países da Europa e mesmo na América do Norte. Os eugenistas do hemisfério norte, como vimos anteriormente, não viam com bons olhos esta miscigenação, dizendo que era responsável, junto com o clima tropical, pela degeneração intelectual e física do povo Brasileiro (uma população disgênica), criando um “complexo de vira-lata” que nos acompanha até hoje. A pópria palavra vira-lata é pejorativa e eugenista em relação a cães e gatos sem raça definida, como se sua condição desfavorecida fosse causada pela mistura de raças. A mistura genética era um fato consumado, o que na visão dos eugenistas tornava a aplicação de políticas públicas para melhora da raça ainda mais urgentes. Apesar de uma versão oficial e mitológica de tolerância e igualdade racial (somos um povo só?), é possível vislumbrar ao longo de toda a história como as inequalidades sociais e econômicas se misturam com as diferenças fenotípicas e de ancestralidade entre grupos de indivíduos. Estas injustiças foram em grande parte naturalizadas ao longo do século XX por conta da eugenia.

A ciência no Brasil no início do século XX era mais influenciada pela França que pela Grã-Bretanha ou América do Norte. Pouco conhecimento sobre biologia era produzido aqui e a pesquisa, quando existente, era realizada em escolas de medicina ou agrícolas. A Sociedade Eugênica de São Paulo, fundada pelo médico Renato Ferraz Kehl em 1918, foi a primeira organização oficial na América do Sul, e copiou exatamente o modelo e estatuto da Sociedade Eugênica Francesa. A eugenia no Brasil foi abraçada por médicos e sanitaristas, como inspiradora de políticas públicas em saúde. Por este motivo, a eugenia por aqui era considerada mais abrangente que na Europa e nos EUA, incluindo questões sobre higiene e saneamento (“sanear é eugenizar”) que não eram consideradas centrais para a Eugenia na Europa. Como não podiam fazer muito em relação à mistura genética, os eugenistas Brasileiros enxergavam a melhora do ambiente como alternativa para aumentar a força de trabalho.

A confiança dos eugenistas Brasileiros no papel do ambiente derivava de sua própria visão sobre o processo evolutivo. O início do século XX encontra-se dentro de um período histórico (do ponto de vista da biologia evolutiva) conhecido como “eclipse de Darwin“, em que a evolução das espécies era reconhecida como fato, mas o processo de seleção natural não era bem aceito entre naturalistas. Uma das principais alternativas às ideias de Darwin (favorecida na França e popular entre médicos) era o Lamarckismo, ou neo-Lamarckismo, que enfatizava a herança de caracteres adquiridos e o meio ambiente como motivador da mudança evolutiva. Diferente da seleção natural, que colocava o ambiente apenas como selecionador, sendo pouco relevante para a origem das diferenças entre os indivíduos. Uma hipótese neo-Lamarckista aceita pelos eugenistas era a “blastoftoria”, segundo a qual, as células germinativas seriam degeneradas por substâncias tóxicas (álcool, por exemplo) ou doenças, causando problemas por gerações.

A genética Mendeliana e a teoria do plasma germinativo de Weissmann (separação entre células do corpo e gametas) vão modificando o entendimento sobre herança, mas o processo foi lento e gradual. Ainda era possível nos anos 1940 encontrar naturalistas que aceitavam amplamente o neo-Lamarckismo. Uma parte dos escritos da época mostra como os eugenistas misturavam a genética Mendeliana com a herança de caracteres adquiridos como se fossem compatíveis. É possível que essa mistura se originasse no raciocínio motivado. Os resultados da genética Mendeliana, como discutido acima, se opunham às práticas e ideais eugenistas. Era, portanto, necessário manter a possibilidade de mudanças na composição genética da população a partir da melhora do ambiente.

Apesar da maior parte do movimento eugenista Brasileiro favorecer uma versão positiva (estimular a reprodução de indivíduos desejáveis), junto com a melhora do ambiente (saneamento), alguns participantes chegaram a clamar pela esterilização dos desajustados. Este discurso, no entanto, encontrava pouca ressonância junto à classe médica que em geral se opunha a qualquer argumento pela esterilização. Mais populares foram as propostas de exames médicos pré-nupciais obrigatórios para garantir que os indivíduos se casando seriam saudáveis e fecundos. Afinal, havia a percepção de que o Brasil precisava de mais gente. Era importante encorajar a reprodução dos “superiores”.

 

Bebê eugênico escolhido em concurso promovido por órgãos de saúde pública em São Paulo (Fonte: USP)

 

O movimento eugenista no Brasil era estruturado pela miscigenação e a ansiedade racial do país. Se por um lado parecia focar em problemas relacionados a classes sociais menos favorecidas, não era possível dissociar classe e cor da pele. As classes menos favorecidas e os portadores de comportamentos ou características “indesejáveis” eram em grande parte pretos ou pardos. O discurso eugenista em público utilizava a palavra “raça” para se referir ao povo Brasileiro, mas secretamente estava falando dos pretos.

Se por um lado, a mistura dos povos que compunham o povo Brasileiro era vista como degenerativa, havia a expectativa de que o grupo étnico Europeu por ser superior, tenderia a prevalecer naturalmente sobre as demais, fazendo com que a contribuição genética das populações indígenas e Africanas desaparecesse. Neste caso, bastaria manter as medidas eugenistas associadas ao saneamento, incentivando a reprodução dos “melhores”. A imigração de povos considerados superiores tenderia a acelerar este processo (como um bônus). Esta hipótese ficou conhecida como “tese do branqueamento”, se popularizou e moldou o movimento eugenista por grande parte do século XX (popular ainda hoje, veja comentários do atual vice-presidente).

Stepan identifica este mito do branqueamento com a ideologia extra-oficial da elite Brasileira, sendo responsável por mecanismos estruturais dificultando a mobilidade social de pretos e pardos, assim como as formas de repressão oficiais, com a polícia mantendo este grupo sob controle. A autora fala dos anos entre 1920 e 1930, mas soa altamente contemporâneo.

Uma vez que a genética Mendeliana começa a ganhar força no Brasil, uma divisão ideológica começa a ficar clara entre os eugenistas. Enquanto os Mendelianos, alguns influenciados por Franz Boas, advogam uma eugenia menos racialista e mais positiva (mas ainda confiando no poder do “branqueamento”), os neo-Lamarckistas começam a tender mais para uma eugenia negativa e racialista. Influências importantes desta eugenia negativa no período dos anos 1930 foram os eugenistas Americanos e Alemães, assim como os movimentos políticos antidemocráticos, como o Integralismo.

Os eugenistas tiveram uma considerável influência política e conseguiram uma série de vitórias em termos de políticas de eugenia positivas, principalmente as ligadas à corrente de saneamento (puericultura, limitação de trabalho infantil, com pouco efeito prático). A constituição de 1934 incorporou a “promoção da educação eugênica” como responsabilidade do estado (cujo efeito examino adiante). Leis de imigração também foram influenciadas pelos ideais eugenistas.

Eventualmente, a escalada do nazismo na Europa, e as práticas eugenistas aplicadas na Alemanha reduziram o ímpeto eugenista em todo o mundo, incluindo o Brasil. O livro de Goddard sobre a família Kallikak foi um sucesso na Alemanha, sendo inclusive usado como exemplo no filme de propaganda nazista Das Erbe (A Herança), de 1935, que promovia medidas eugenistas. Hitler inclusive toma emprestada a linguagem dos eugenistas Americanos ao escrever seu livro Mein Kampf. O mundo teve a oportunidade de ver ali o resultado da eugenia levada ao extremo como política governamental. As práticas eugenistas levaram ao Holocausto e acabaram indelevelmente associadas ao horror do nazismo. Apesar de ser um ponto de virada para a face pública do movimento eugenista, o final da segunda grande guerra não decretou o fim da eugenia. Muito pelo contrário, como avisado pelo Dr. Lichtenstein em sua entrevista para o Jornal da Cultura, ela continua ativa e enraizada no pensamento e instituições, mesmo que de maneira subjetiva ou menos pública.

 

Biologia Educacional e a educação eugênica

Nancy Stepan menciona que a promoção da “educação eugênica” como responsabilidade do estado na constituição de 1934 teve pouco efeito prático em um país com um grande número de analfabetos (talvez 90% da população). No entanto, é preciso considerar que a massa da população não era necessariamente alvo da educação eugênica, mas os professores e profissionais de saúde que estariam lidando com essa população, como que moldando essa massa amorfa em uma população ideal com valores padronizados de acordo com o que a sociedade Brasileira determinava como desejáveis.

O livro Biologia Educacional, escrito pelo médico Antônio Ferreira de Almeida Junior, foi publicado pela primeira vez em 1939 e permaneceu sendo impresso até 1969. O livro era usado como livro texto para treinamento de professoras (a grande maioria eram mulheres) do curso normal, com um foco particular naquelas que iriam ter a missão de educar as pessoas de regiões rurais, promovendo o saneamento e práticas eugênicas. O livro divide a biologia educacional em duas partes: fundamentos e aplicação. Na parte de aplicação, os tópicos são eugenia e eutenia (higiene).

 

Páginas do livro Biologia Educacional, de A. Almeida Junior (1962)

 

Almeida Junior define biologia educacional como “o estudo das causas biológicas que determinam as diferenças e as variações individuais na espécie humana, e dos meios com que o educador pode atuar sôbre essas causas, a fim de atingir, para o indivíduo, o máximo de saúde e de eficiência, quer física, quer mental“. É possível perceber que o autor incorpora a ideia de determinismo biológico, no sentido de que os indivíduos terão diferentes capacidades, mas que o papel do educador é ajudá-los a atingir um máximo de saúde e eficiência de trabalho dentro de suas limitações.

O autor inclui discussões sobre os testes de inteligência do exército Americano e suas interpretações racistas. É preciso ressaltar que ele coloca opiniões divergentes sobre a interpretação dos testes e das diferenças de inteligência entre grupos étnicos. No entanto, parece sempre deixar uma conclusão em suspenso, como se fossem necessários mais estudos, não uma revisão das premissas dos trabalhos. Nenhum estudo que identificou os brancos como superiores aos demais levou em consideração a correlação com fatores ambientais, sociais e a tendência cultural dos testes sendo aplicados.

No capítulo sobre eugenia, Almeida Junior identifica fatores sociais disgênicos (que atrapalham a causa eugenista), como filantropia (leia-se políticas assistenciais), guerra, urbanismo, trabalho infantil e imigração. A discussão sobre filantropia é paradoxal e exemplo dos malabarismos que os eugenistas às vezes tinham que fazer. Se por um lado as políticas assistenciais estariam favorecendo indivíduos inferiores, removê-las seria retornar à barbárie. Ele sugere estender a assistência também aos indivíduos eugênicos, mas tomando cuidado de impedir a reprodução dos “débeis mentais”.

O autor ainda argumenta que o trabalho infantil é mais comum nas famílias menos inteligentes (não mais necessitadas), que enxergam nos filhos uma fonte de renda, contribuindo, portanto, para “aumentar a natalidade dos elementos inferiores”.

O urbanismo é também apontado como fator disgênico, pois os indivíduos de maior inteligência teriam migrado para as cidades, onde teriam menor taxa de natalidade (segundo dados dos EUA). Os elementos inferiores teriam ficado nas zonas rurais e se reproduzido mais, com efeito disgênico. O autor até reconhece o papel do ambiente desfavorável para explicar esta “inferioridade intelectual” da zona rural, mas novamente deixa a questão em aberto.

Por fim, considerando a imigração, o autor argumenta que a mistura de diferentes povos por si só não é prejudicial, mas que era “importante indagar a qualidade das raças que nos procuram“. Diz ainda que dentre os imigrantes que vinham para o Brasil, “nenhum parece inferior à média da nossa população“, listando em seguida os países Europeus de sua procedência, junto com o Japão. Ao considerar se o Brasil realmente teria um problema de eugenia, Almeida Junior coloca que “se levarmos em conta os estudos biológicos e sociais, podemos receber de ânimo alegre e com justificado otimismo os gens que da Europa nos trouxeram os descobridores e colonizadores do Brasil” e que a miscigenação não teve um efeito degenerativo na população. Estas colocações ecoam a “tese de branqueamento” mencionada anteriomente, concluindo que a eugenia era um problema secundário no Brasil, e que era mais importante se preocupar com a higiene e a educação.

Não há dúvida que o pensamento eugenista ficou marcado no imaginário popular e nas coisas que achamos naturais. Mês passado (maio de 2020), escutei no rádio um locutor comentando os problemas familiares de um famoso jogador de futebol Brasileiro com a frase “minha vó já dizia: quem nasce para dez réis nunca chega a vintém”. Determinismo biológico em sua forma pura. Ao discutir eugenia com meus alunos na UENF, não era raro algum descobrir que algumas frases comumente repetidas nas suas famílias eram de cunho eugenista, como: “pobres têm filhos demais”, “bandido bom é bandido morto”. Os ideais de meritocracia associados a políticas liberais e de “estado mínimo” são também eugênicos, pois falham em considerar que medidas de mérito não levam em consideração a desigualdade do ambiente formativo dos indivíduos. Exemplos do tipo “mas fulano nasceu na favela e venceu na vida” não são relevantes neste contexto, pois não são estatisticamente representativos da realidade da população.

Considerando o que discutimos antes sobre a impossibilidade de separar classes sociais e cor da pele no Brasil, qualquer medida ou fator estrutural das instituições que dificulte a mobilidade social ou aumente a mortalidade de pessoas de classe menos favorecida, inevitavelmente atingirá uma maioria de pessoas pretas. O que nos leva à discussão final sobre o posicionamento do governo durante a pandemia e à indignação do Dr. Lichtenstein.

 

Eugenia e a pandemia

As estratégias governamentais de diferentes países ao lidar com a pandemia de Covid-19 caem em um contínuo de níveis de restrição da movimentação de pessoas e ajuda financeira à população impossibilitada de trabalhar. Se por um lado, alguns países realmente se fecharam e deram condições às pessoas de ficar em casa, por outro lado, encontramos exemplos de pouco fechamento e uma tentativa de manter a economia funcionando. Em um primeiro momento, líderes de países que queriam manter a “normalidade”, apelaram para um conceito de “imunidade de rebanho” (herd immunity).

 

Descrição do conceito de proteção por imunidade coletiva, que deve ser obtido por vacinação (Fonte: Wikimedia)

 

O Diretor Executivo do Programa de Emergências Sanitárias da OMS, Dr. Michael Ryan, fez em maio de 2020, uma condenação clara do conceito de imunidade do rebanho como prática eugenista, apesar de não ter utilizado o termo diretamente. Quando falamos em rebanhos de animais que precisam ser imunizados em relação a um certo patógeno, alcançar a imunidade de rebanho quer dizer que após chegar a um certo percentual de indivíduos imunizados na população, a minoria que não pode ser imunizada ainda estaria protegida. Podemos chegar ali por vacinação ou pela mortalidade de indivíduos suscetíveis. Como não temos ainda vacinas disponíveis para a Covid-19, a única alternativa seria aceitar a mortalidade dos mais suscetíveis. É possível perceber aqui por que é inaceitável falar em imunidade de rebanho em populações humanas fora do contexto da vacinação. O pecuarista não vislumbra indivíduos em um rebanho de animais. O rebanho tem um valor coletivo, facilmente traduzido em dinheiro. No entanto, cada ser humano é único e tem um valor que não pode ser medido objetivamente.

Voltamos então às colocações de S. J. Gould sobre a futilidade (ou má intenção) de tentar medir o valor dos humanos a partir de suas capacidades intelectuais, e como as práticas eugenistas emulando um melhoramento genético animal são inaceitáveis, mesmo quando tentando se disfarçar de outra coisa.

A estratégia da Suécia de não restringir a movimentação de pessoas teve resultados ruins, principalmente para os idosos que vivem em asilos e os imigrantes mais pobres (como a comunidade Somali). O isolamento vertical sendo insistentemente proposto pelo Governo Brasileiro é baseado no mesmo princípio, tendo efeitos similares, com maior mortalidade entre as classes desfavorecidas, em sua maioria de cor preta. Este não é um fenômeno novo no Brasil (na verdade, no mundo) e segue um padrão parecido ao de outras epidemias, inclusive a de violência. A tese do “branqueamento” explicaria a tolerância social com este fenômeno.

Em termos de políticas públicas, aceitar que uma parte da população seja dispensável para evitar prejuízos econômicos é uma ideia definitivamente eugenista. Isso fica ainda mais evidente quando a tal parcela dispensável é formada por uma classe de indivíduos “indesejáveis” na visão da sociedade, seja por não ter a cor de pele certa ou ser considerado um peso para o sistema de assistência (saúde, aposentadoria). Os princípios da biologia educacional de Almeida Junior continuam vivos e fortes na sociedade.

 

Diversidade contra a padronização eugenista

O conceito de diversidade é importante em todos os níveis de organização biológica. Darwin argumentou que a variabilidade entre indivíduos é o motor fundamental do processo evolutivo. Sem variação não há como haver seleção. A diversidade genética pode predizer a resiliência de populações a longo prazo. O episódio conhecido como a “grande fome da Irlanda“, ocorrido entre 1845 e 1849 é um exemplo disso. A Irlanda dependia em grande parte da cultura das batatas e uma única variedade era cultivada (a lumper), e propagada vegetativamente. Quer dizer que as plantas eram quase todas clones geneticamente idênticos. A chegada de uma praga (fungo), provavelmente vindo da América do Norte devastou as plantações de batata e causou grandes perdas humanas. Aproximadamente um milhão de pessoas morreram de fome, enquanto outros dois milhões conseguiram emigrar para os Estados Unidos. A genética da resistência ao fungo foi encontrada eventualmente em cultivos de batata dos Andes, na América do Sul, que era a região de origem das batatas, levando a FAO a promover tratados de preservação da biodiversidade agrícola. Promover uma única variedade tentando “melhorar” uma espécie por conta de características desejáveis em um ambiente pode levar a um “beco sem saída” evolutivo. É impossível prever que tipos de desafios a evolução vai colocar no nosso caminho. Foi uma má ideia para as batatas. É uma péssima ideia para populações humanas.

 

Famine (1997), escultura de Rowan Gillespie em homenagem às vítimas da grande fome em Dublin, Irlanda ( Arap/Folia, fonte: Britannica)

 

A diversidade é importante também nas comunidades formadas por muitas espécies. Grande parte dos chamados serviços ambientais dependem da co-existência de muitas espécies em um mesmo ecossistema. Por esse motivo, os ecólogos reforçam tanto a importância de conservar a biodiversidade. Isto é verdade mesmo que o ecossistema em questão seja o intestino de um ser humano. A diversidade de microorganismos que habitam nosso corpo é muito relevante para a manutenção da saúde. A diversidade também é considerada importante quando falamos de grupos humanos. A empresa de consultoria McKinsey examinou dados de 366 empresas nas Américas e no Reino Unido, mostrando que a maior diversidade humana dentro das empresas (étnica e de gênero) estava associada com desempenho financeiro acima da média. O relatório Diversity Matters mostra ainda que no Brasil, 91% das empresas têm um corpo administrativo que não reflete a composição demográfica da população.

A Sociedade para Estudo da Evolução decidiu, após discussão com seus membros, renomear um dos seus prêmios mais importantes, que era chamado até 2020 R. A. Fisher Prize. Se por um lado, a contribuição de Ronald Fisher para a genética, evolução e a estatística foram enormes, sua biografia é manchada pelo seu apoio à eugenia, que causou dano a um grande número de pessoas e não tinha suporte científico. Todos temos estátuas para derrubar. Longe dos antigos conceitos de “Darwinismo social” e determinismo biológico, a biologia evolutiva moderna mostra que a diversidade em todos os níveis de organização é característica de indivíduos, populações, ecossistemas e sociedades com maior resiliência e capacidade de se ajustar a diferentes situações. As ideias eugenistas são persistentes, mas devem ser expostas e removidas do consciente e do inconsciente coletivo. Essa resistência e a luta pela manutenção e aumento da diversidade (biológica, étnica, cultural, de gênero) por ações afirmativas é ainda mais importante no Brasil atual quando temos um grupo que chegou ao governo com o propósito de eliminar as diferenças e promover valores padronizados de um grupo populacional minoritário, com propósitos eugenistas. Temos que nos perguntar a todo momento: que tipo de sociedade queremos construir para o futuro?

 

Publicado aqui, no blog “Os Diários da Evolução”

 

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Pré-candidata do PT a prefeita de Campos, Odisséia Carvalho no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h desta segunda (22), a convidada do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é a professora Odisséia Carvalho, ex-vereadora, presidente municipal e pré-candidata a prefeita do PT em Campos. Ela analisará as crises da pandemia da Covid-19, que já ultrapassou os 50 mil mortos no Brasil, e do governo Jair Bolsonaro (sem partido), fragilizado como nunca pelas ações da Justiça e prisões contra seu grupo político na semana passada.

Odisséia responderá também duas perguntas. O bolsonarismo é o lulopetismo de sinal trocado, como muitos acusam? E, amigo de longa data do presidente, ex-assessor do hoje senador Flávio Bolsonaro (Republicanos) e preso na quinta (18) pela suspeita de comandar o esquema das “rachadinhas” do filho do presidente, como de ser o elo da família com as milícias cariocas, Fabrício Queiroz pode ser um novo Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras cuja delação alavancou a Lava Jato, até ser uma das causas do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT)?

No último bloco, a líder petista no município também falará dos governos Wilson Witzel (PSC), com pedido de impeachment em andamento (confira aqui) na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), e Rafael Diniz (Cidadania), além da sua pré-candidatura a prefeita de Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Brasil de Bolsonaro — De “Onde está Queiroz?” a “Onde está a mulher do Queiroz?”

 

Fabrício Queiroz e Jair Bolsonaro (Foto: Reprodução)

 

Semana fria em Atafona, enquanto as coisas esquentavam no Brasil. Os fogos de artifício lançados sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) na noite de sábado (13), por um grupo de 30 apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), simularam o que a maioria deles queria fazer com as instituições fundamentais à democracia de qualquer país. Em vídeo, um dos participantes bravateou nas redes sociais: “Desafiem o povo. Vocês vão cair. Nós vamos derrubar vocês, seus comunistas”. Do delírio bolsonarista à realidade dos dias seguintes, a resposta foi artilharia pesada.

 

 

Na manhã de segunda (15), seria a vez de Sara Geromini, ex-feminista convertida em bolsonarista fanática e líder do grupo “300 do Brasil”, ser presa pela Polícia Federal (PF). Foi a pedido da Procuradoria Geral da República (PGR), em desdobramento do inquérito das manifestações antidemocráticas, conduzido no STF pelo ministro Alexandre de Moraes, que determinou a prisão. Em Campos, no dia 15 de março, dois depois de o município anunciar o isolamento social por conta da pandemia da Covid-19, cerca de 150 apoiadores do presidente se reuniram na praça 5 de Julho, diante da Igreja Nossa Senhora do Rosário. E exibiram a faixa: “Estamos com Bolsonaro/ Intervenção militar já/ Fechem o STF, Senado e Câmara”.

 

Em Campos, protesto antidemocrático e inconstitucional dos bolsonaristas em 15 de março, alvo de inquérito no STF (Foto: Genilson Pessanha – Folha da Manhã)

 

Na terça (16) sobrou também para a campista Érica Viana, auxiliar de creche no município, presa após se mudar da planície goitacá ao Planalto Central para integrar os “300 do Brasil”. Na quarta (17), as duas dividiram a mesma caçamba do camburão que as transferiu da sede da PF à Penitenciária Feminina de Brasília, conhecida como “Colmeia”. No mesmo dia o advogado Claudio Gastão da Rosa Filho abandonou o caso de Sara. Que ontem (19) teve outro habeas corpus negado pela ministra Carmem Lúcia e sua prisão temporária prorrogada, em mais cinco dias, por Alexandre de Moraes.

 

A campista Érica Viana e a líder dos “300 do Brasil”, Sara Geromini, tranferidas da sede da PF à Penitenciária Feminina de Brasília na caçamba do camburão (Foto: redes sociais)

 

Na quinta (18), seria a vez do Brasil responder à pergunta: “Onde está Queiroz?”. PM reformado, amigo de longa data de Jair Bolsonaro e ex-assessor parlamentar do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos), Fabrício Queiroz é apontado pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) como coordenador do esquema de “rachadinha” do filho mais velho do presidente, quando era deputado estadual. Queiroz estava escondido na casa de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro e conselheiro jurídico do governo. Emblematicamente, no mesmo município paulista de Atibaia, onde fica o famoso sítio custeado por empreiteiras e que servia ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e sua família.

 

(Montagem: MBL)
(Montagem: MBL)

 

 

Adogado da família Bolsonaro e conselheiro jurídico do presidente da República, Frederick Wassef posa no Palácio do Planalto, antes de dar guarida a Queiroz na sua casa em Atibaia

 

Queiroz é também apontado pelas investigações do MP-RJ como elo do clã Bolsonaro com o Escritório do Crime, milícia da Zona Oeste carioca. Cujo ex-chefe e ex-capitão do Bope, Adriano Magalhães da Nóbrega, era acusado de envolvimento no assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Moreira, em 14 de março de 2018. Adriano chegou a depor sobre o caso, antes de ficar foragido por mais de um ano e ser morto pela PM em 9 de fevereiro, enquanto estava escondido na Bahia. À época, sua esposa e advogado denunciaram “queima de arquivo”. Como se teme agora pela vida do seu amigo Queiroz.

 

Fotos exclusivas da revista Veja reforçaram que a execução do miliciano Adriano da Nóbrega, com tiros à curta distância, foi “queima de arquivo” (Montagem: Veja)

 

Em vida, o miliciano carioca tinha outros amigos. Em abril de 2005, quando estava preso pela morte do guardador de carros Leandro dos Santos Silva, Adriano foi defendido em emocionado discurso na tribuna do Congresso Nacional, pelo então deputado federal Jair Bolsonaro. Que chamou o então tenente da PM de “brilhante oficial”. Em setembro daquele mesmo ano, ainda preso, Adriano ganhou a Medalha Tiradentes, maior condecoração da Alerj, do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Que depois, segundo ele a pedido de Queiroz, empregou como assessoras parlamentares a mãe e a esposa do chefe de milícia já assumido e foragido.

 

(Reprodução de TV)

 

 

 

Logo após explodir o caso da “rachadinha” de Flávio, em dezembro de 2018, sua então assessora e mãe de Adriano, Raimunda Magalhães da Nóbrega, apareceu em relatórios do Conselho de Controles de Atividades Financeiras (Coaf) como uma das que fizeram depósitos em dinheiro suspeitos na conta de Queiroz. Após a morte — ou execução? — do miliciano, o já presidente Jair Bolsonaro admitiu que foi ele quem pediu ao filho para homenageá-lo da Alerj. E reafirmou que, na época, era “um herói”. Quando vivo, o “herói” bolsonarista teve como advogado Paulo Emílio Catta Preta, o mesmo agora de Queiroz.

 

Fredercik Wasseff, advogado dos Bolsonaro que abrigou Fabricio Queiroz, confraterniza com Paulo Emílio Catta Preta, advogado do miliciano Adriano da Nóbrega e agora de Queiroz

 

Transferido de Atibaia para Bangu 8, Queiroz chegou visivelmente constrangido e, segundo agentes penitenciários, chorou muito em sua primeira noite preso. Na mesma noite, em live nas redes sociais, Bolsonaro chamou a prisão do velho amigo de “espetaculosa”. E disse: “Da minha parte, está encerrado aí o caso Queiroz”. Na manhã seguinte, do delírio aos fatos, o presidente mandou de avião os três principais nomes do núcleo jurídico do seu governo se reunirem com Alexandre de Moraes em São Paulo.

 

 

 

 

Se André Mendonça, ministro da Justiça e Segurança; Jorge Oliveira, da Secretaria Geral; e José Levi, da Advocacia Geral da União (AGU), foram ao ministro do STF tentar levantar uma bandeira branca, ou se ela foi aceita, só o tempo dirá. Na dúvida, além de comandar o inquérito das manifestações antidemocráticas, Moraes está também à frente do inquérito das fake news. Nele, para muita gente que acompanha de perto a mais alta Corte da República, o ministro só não pediu ainda a prisão do vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos), apontado pela PF como comandante do “gabinete do ódio”, por um motivo: porque não quer.

 

Flávio e Carlos Bolsonaro na mira da Justiça (Foto: Adriano Machado – Reuters)

 

 

Márcia de Oliveira Aguiar, foragida da Interpol, e seu marido preso em Bangu 8, Fabrício Queiroz (Foto: Reprodução)

 

Enquanto isso, a pergunta que não quer calar mudou. Agora é: “Onde está a mulher do Queiroz?”. Foragida da Justiça, Márcia de Oliveira Aguiar já está na lista de procurados da Interpol. Quem se lembra de como a Java Jato começou, em março de 2014, não deve ter esquecido que ela só andou quando, após prender o então diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, a mesma ameaça chegou à sua família. Só daí ele falou o que sabia. E deu no que deu.

 

Dilma Roussef e Paulo Roberto Costa no tempo de PT e Petrobras (Foto:Roberto Stuckert Filho)

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

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Com Covid, vereador Neném se interna em leito clínico da Unimed após tomografia

 

Empresário e vereador Luiz Alberto Neném (Foto: Folha da Manhã)

 

Após testar positivo para Covid-19, o empresário e vereador Luiz Alberto Neném (PSL) se internou na noite de hoje em um leito clínico do Hospital da Unimed de Campos. A decisão foi pessoal e por aconselhamento médico, após uma tomografia feita hoje (18) apontar comprometimento de 50% da infecção nos pulmões. Há dois dias, na terça (16), outra tomografia apontou comprometimento pulmonar de apenas 25%. Mais que as tomografias, é a taxa de oxigenação do sangue que determina a necessidade que um paciente de Covid pode ter de UTI ou respirador. E a do vereador não indica isso. Ele não sofreu ou sofre de falta de ar, nem dificuldade para respirar.

Abaixo, o resultado da tomografia hoje de Neném, que o levou a se internar:

 

Resultado da tomografia de Neném, feita hoje, que apontou comprometimento de 50% dos pulmões

 

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Morte de Guto Leite, aos 50, se resume à sua arte: “Você é parte na nossa história”

 

Publicitário e surfista Guto Leite e sua maior paixão: o mar (Foto: Facebook)

 

Na manhã de hoje morreu precocemente o publicitário Guto Leite. Como informaram aqui e aqui o site Folha 1 e o blog Ponto de Vista, do Christiano Abreu Barbosa, ele pegava onda na praia de Barra do Furado, em Quissamã, quando se embolou em uma rede de pesca, ficou submerso e se afogou. Conseguiram libertá-lo, mas não o reanimar. Ele tinha 50 anos, deixa viúva a esposa Bárbara e três filhos: Lysandra e Thiago, do primeiro casamento com Edenice, e Noah, de apenas 4 anos. Com sua arte na publicidade, deixou também outros filhos.

 

(Arte: Guto Leite)

 

Soube da notícia através do grupo de WhatsApp deste blog e do programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3. Seu gerente, o radialista Cláudio Nogueira foi o primeiro a informar. Vi quase em tempo real após deitar sob o sol no piso da área de lazer da minha casa em Atafona. Voltava de uma caminhada à beira-mar, até as ruínas do antigo prédio do Julinho. E buscava aquecer do corpo ainda molhado de mar.

 

(Arte: Guto Leite)

 

Irônico agora constatar que, ao sair para caminhar, assim que avistamos o mar eu, meu filho, mais seu fiel escudeiro Zidane, buldogue francês tigrado, atentamos aos vários surfistas na água. E comentei com Ícaro que as ondas hoje estavam melhores para a prática do esporte, por grandes e contínuas, do que nos dois dias anteriores, quando estavam irregulares pela ressaca. No retorno do Julinho, antes dos surfistas, entrei no mar e arrisquei uns “jacarés”.

 

Guto Leite (Foto: Facebook)

 

Última arte de Guto Leite para o Grupo Folha, já na pandemia da Covid-19

Ainda molhado das ondas daquele mar, que matariam Guto poucos quilômetros ao sul do mesmo litoral, pensei numa memória afetiva. Muito cara a mim e comum a ambos. Era o final dos anos 1970, quando estudávamos no antigo Jardim e Escola Lobinhos, na Rua Formosa.

Criança de apartamento, foi na companhia de Guto, dois anos mais velho, que me lembro de ter subido a primeira vez em uma árvore. Era um pé de carambola do Lobinhos, de cujos frutos nos servíamos como macacos embrenhados em seus galhos. Pode ter sido por horas. Se não foram, pareceram. O fato é que só descemos após muita insistência das professoras.

Não sei se aquela árvore e seus frutos tiveram a mesma importância para Guto. Nunca conversei com ele sobre isso. Aliás, a primeira vez que falei com alguém sobre o fato talvez tenha sido hoje, com meu filho, para explicar o motivo da minha tristeza súbita. Ainda que Guto e eu nunca tenhamos nos tornado amigos. Adultos, nossos contatos foram só profissionais, já que ele fez, como publicitário, várias campanhas para o Grupo Folha.

Em outra coincidência, com a confissão paternal pelo motivo da tristeza após o mar de hoje, se deu meu único contato mais pessoal com Guto na vida madura. Era 2015, no Teatro do Sesi. Ele estava prestigiando a exposição do seu filho Thiago, artista plástico, à época com 20 anos. Impressionado com a qualidade precoce da obra do garoto, conversei com ele e seu pai coruja. E no brilho dos olhos deste, durante o papo, percebi que o amor e o orgulho pelos filhos talvez tivessem sido frutos comuns daquele pé de carambola.

 

Guto e Thiago Leite (Foto: Arquivo do Sesi)

 

Como publicitário, Guto ganhou o concurso promovido pela Folha para criar a logomarca oficial dos 40 anos do jornal, em 2018. E foi com ela que abrimos o caderno comemorativo da data, que organizei, editei e escrevi o artigo da capa. Talvez tenha sido nosso melhor trabalho conjunto.

 

 

O texto que abriu o caderno, relendo agora (confira aqui), ao lado do preto sobre o branco da arte de Guto, assim como do traço do Marco Antônio Rodrigues, parece outra estranha coincidência. Mas emblemática neste momento em a questão do racismo, que eclodiu dos EUA para o mundo, repercute também em Campos (confira aqui).

 

Capa do caderno de 40 anos da Folha, publicado em 7 de janeiro de 2018, com as artes de Guto Leite e Marco Antônio Rodrigues

 

Sobre o que Guto foi como publicitário, deixo a impressão de outro, Thiago Bellotti, superintendente de Comunicação de Campos. Que enviou após comungarmos por telefone a consternação com a perda: “Foi como um roteiro de filme publicitário, rápido, intenso, bonito e feliz. Assim, para mim, foi a vida do melhor publicitário da região. No mar, se desligava do mundo e criava o surpreendente”.

 

(Foto; Facebook)

 

Na impressão deixada pelo homem, fica o slogan que ele criou aos 42 anos da Folha, completos este ano e abertos mais ou menos quando nos conhecemos: “Você é parte da nossa história”.

 

(Arte: Guto Leite)

 

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Autor de comentário racista contra ato antirracista se identifica e pede desculpas

 

Protesto antirracista do dia 10, na praça do Santíssimo Salvador, foi alvo de comentários racistas (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Por não mostrar os nomes dos autores dos comentários racistas nas lives da manifestação “Vidas Negras Importam” da última quarta (10), feitos na página do Folha1 no Facebook, a matéria que tratou do assunto (confira aqui), publicada no último domingo (13), foi alvo de críticas nas redes sociais. Mas um deles, autor do comentário talvez mais ofensivo, que abriu e intitulou a matéria, optou hoje por se identificar. E assumiu seu erro grave, se desculpando publicamente por ele. O que requer coragem e deve ser estimulado.

Não por outro motivo, segue abaixo, a seu pedido, a retratação de Marcelo Colla:

 

Macerlo Colla (Foto: Facebook)

RETRATAÇÃO

Venho através desta, pedir desculpas pelos meus comentários infelizes, durante tal manifestação. Não foi para agredir a raça negra, mas, sim, contra uma manifestação durante a decretação de lockdown, onde todos deveriam estar em casa. Manifestação esta, contra a morte de um negro norte-americano, enquanto no nosso país, morrem vários negros pela ação policial e não fazem manifestação alguma, tipo: João Pedro, adolescente, negro fuzilado pela polícia dentro de casa, em São Gonçalo. Não vi manifestações, nem mesmo nas redes sociais. A roubalheira do Governo do Estado do Rio de janeiro, em relação aos hospitais de campanha, o presidente da República, que não tem respeito pela nação brasileira, faz e fala o que quer, ninguém tem peito de fazer nada. Respeito as opiniões e retiro as minhas palavras e retrato-me com aqueles que se sentiram ofendidos, independentemente de cor da pele. Tenho amigos e parentes negros e venho de uma linhagem miscigenada, inclusive com a raça negra. Acredito que, se a manifestação falasse sobre temas nacionais e locais, o desfecho seria outro, principalmente, por parte da força policial. Descupem-me mais uma vez a todos que se ofenderam com tais publicações, apesar da liberdade de expressão, independentemente da cor da pele, opção sexual, credo, etc. Somos apenas uma única raça, a humana.

 

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