Igor Franco — Terremoto nas urnas

 

(Foto: Reuters)

 

 

O Brasil acordou diferente na última segunda. Com a taxa de renovação na casa dos 52% na Câmara e de 85% no Senado, teremos o Congresso com mais caras novas desde a redemocratização. Com uma performance avassaladora, o PSL, partido de Bolsonaro, elegeu 52 deputados e passou de um dos menores partidos da Câmara para o segundo maior partido na Casa do Povo. A surpresa passou pela rejeição de candidatos coroados pelas reiteradas pesquisas. Dilma, Suplicy, Romero Jucá, Roberto Requião, Eunício Oliveira, César Maia, entre outros, foram apenas alguns dos figurões que estavam eleitos pelos institutos de pesquisa. Estes últimos também foram incapazes de perceber a ascensão fulminante de Wilson Witzel no Rio de Janeiro, que terminou a eleição próximo da maioria dos votos válidos. Analisada de modo amplo reflete uma rejeição massiva dos políticos tradicionais que foram incapazes de construir alternativas concretas aos problemas dos eleitores.

Após uma década de baixo crescimento, a tímida recuperação da mais brutal crise econômica deu origem a uma geração de desalentados após um longo período de melhoria contínua nas condições de vida. O crescimento galopante de assassinatos e a sensação implacável de insegurança sentida pela maioria da população coabitam com a contínua percepção de assalto sistemático aos cofres públicos. Em resumo, a população brasileira era convidada a permanecer sentada num espetáculo cujo teatro pegava fogo enquanto os extintores eram roubados pelos organizadores.

Talvez esse sentimento explique a baixa eficácia da campanha negativa realizada contra candidatos como Bolsonaro (“homofóbico, machista, misógino, apoiador da tortura” etc) e a alta eficácia das fake news, cujo conteúdo normalmente confirma crenças anteriores a respeito de algum tipo de trama de poderosos ou de acordos de bastidores que prejudicam o eleitor.

Bolsonaro é, hoje, a maior placa tectônica a mover o sistema político e a votação expressiva que obteve em todo território nacional comprova sua força pessoal enquanto encarnação do sentimento antipetista que habitava a contragosto no PSDB. É provável que Bolsonaro saia das urnas, inclusive, superior ao antipetismo, tomando o protagonismo de Lula como maior força política nacional. Porém, há alguns resultados eleitorais que não podem ser explicados apenas pela força de Bolsonaro e que ocorreram *apesar* da sua força. A não-eleição de Magno Malta, fiel escudeiro do capitão, por exemplo, indica que há algo para além da rejeição do presidiário e seus asseclas.

Desde ontem, muito se fala da “Onda Conservadora” ou de uma “Onda Bolsonaro”. De fato, os resultados das urnas foram absolutamente avassaladores e, considerando as eleições legislativas, não previstos em qualquer pesquisa. Entender o movimento que culminou nos votos de ontem como uma onda talvez seja inadequado. Prefiro classificar o que aconteceu no primeiro turno das eleições de 2018 como um terremoto. O terremoto, cuja face mais visível é a desorganização, esconde uma brutal reorganização subterrânea, em que uma nova acomodação dará origem à configuração da superfície por um certo período de tempo.

Um observador mais ousado poderia dizer que Bolsonaro deixou de ser um candidato. Bolsonaro passou a ser uma ideia, um sentimento. E será difícil encerrar essa ideia antes do dia 27.

 

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Arthur Soffiati — Primeiro tempo

 

(Robert De Niro)

 

 

Por Arthur Soffiati(*)

 

Desde a eleição indireta de Tancredo Neves, em 1985, nunca houve tanta polarização e radicalização numa eleição presidencial. Nem mesmo o neoliberal Fernando Collor de Melo provocou tanta discórdia. Nesses 23 anos, o regular foi uma posição de centro-direita enfrentar uma de centro-esquerda. Na década de 1990, a centro-direita predominou com Fernando Henrique Cardoso. A partir de 2003, a centro-esquerda com Lula e Dilma governou o Brasil até o impeachment desta última em 2016. Mesmo assim, os dois presidentes do PT buscaram a paz com as classes dominantes, seja com a “Carta ao Povo Brasileiro”, seja com os vice-presidentes José de Alencar e Michel Temer, numa política de alianças com partidos moderados.

Agora, os dois candidatos a disputarem o segundo turno radicalizaram suas posições. No impedimento de Lula, Haddad escolheu Manuela D’Ávila, do PCdoB como vice, e Jair Bolsonaro recorreu ao general Hamilton Mourão. Pelo menos nos discursos iniciais da chapa de direita, a defesa de um programa simples agradou muitos eleitores: combate implacável à corrupção, direito da sociedade se armar contra a violência, privatizações, enxugamento de ministérios, militarização da educação. Já a chapa de esquerda não conseguiu crescer como se esperava. Lula seria o candidato ideal para vencer Bolsonaro, mas impedido ele escolheu Fernando Haddad como seu representante. Houve hesitações. Não é bom um partido forte contar com uma só pessoa carismática. Lula está preso, mas imaginemos que ele estivesse impossibilitado de concorrer por doença. Haddad não também não o substituiria à altura. Houve hesitações em lançar o sucessor de Lula, e este dificultou o surgimento de novas lideranças.

E os eleitores? Os que votam na direita e na esquerda parecem convictos. Eles não mudam de posição. Daí também as taxas de rejeição serem altas de ambas as partes. O crescimento delas parece se alimentar de votos de outros candidatos e dos indecisos. Em ambos os lados, o medo de que um dos lados vença leva ao voto útil, atitude que deve ser relativizada. O voto útil tanto pode ser na direita quanto na esquerda.

E os eleitores? Ouvi de um que aquele que votar em Haddad ou é corrupto ou cúmplice da corrupção. De nada resolvem discursos elaborados demais para convencer o eleitor. A maioria se mostra sensível a argumentos simples. O cérebro humano reduz e simplifica complexidades.

Por fim, Inglaterra e França não poderiam imaginar que as rigorosas condições impostas à Alemanha no final da Primeira Guerra Mundial levariam à ascensão de Hitler. Os governos do PT também não imaginavam que criariam espaço para um discurso radical de direita ao permitirem o crescimento da corrupção, como escreveu o sociólogo petista ontem, e da violência urbana. Mesmo que a realidade seja mais complexa do que se mostra, o PT concorreu para a radicalização política. Na ficção, Dr. Frankenstein era um médico ético, mas, num momento de fraqueza, criou um monstro. Entre nós, o monstro gerou uma filha num momento de fraqueza.

 

(*) Historiador ambiental e colaborador da Folha

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

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Artigo depois do primeiro turno — No fotochart e na foto grande

 

 

Prevaleceram as pesquisas. Como adiantou (aqui) a coluna Ponto Final de ontem, a definição do segundo turno presidencial foi no fotochart. O recurso fotográfico é usado para definir o vencedor de uma corrida quando os atletas cruzam quase ao mesmo tempo a linha de chegada. Mas, nas raias ao Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro (PSL) chegou com a mesma diferença sobre Fernando Haddad (PT) que o velocista Usain Bolt costumava impor aos adversários. O fotochart só foi usado para definir o segundo turno. Com imensa desvantagem ao petista, sua largada foi dada desde a noite de ontem à chegada daqui a três domingos.

A força eleitoral demonstrada por Bolsonaro não foi suficiente para elegê-lo no primeiro turno. Mas serviu para fazer os votos dos brasileiros arderem sobre o lombo da esquerda, numa coça humilhante em quase todo o país. No Estado do Rio, após receber o apoio da família Bolsonaro, o candidato a governador e ex-juiz federal Wilson Witzel (PTC) surpreendeu com um dos crescimentos mais meteóricos na história da política fluminense.

Quando exibiu o 17 escrito na mão e pediu voto a presidente para Bolsonaro, ao final do debate do SBT de 19 de setembro, Witzel tinha apenas 1% de intenção de votos na pesquisa Datafolha mais recente. Exatos 16 dias após aquele debate, o candidato teve 17% dos votos válidos na última Datafolha antes do pleito. À sua véspera, o ex-magistrado apareceu empatado com Romário Faria (Podemos) na segunda posição, após ultrapassar Tarcísio Motta (Psol) e Indio da Costa (PSD). O avanço foi tão rápido que nem deu tempo à pesquisa para simular o segundo turno entre Witzel e o líder Eduardo Paes (DEM).

Encerrada a apuração do primeiro turno, menos de 24h depois, o avanço real do ex-juiz superou qualquer simulação. Ele teve impressionantes 41,28% dos votos do urnas do Estado do Rio. Eduardo Paes até foi ao segundo turno, mas com apenas 19,56% do eleitorado. Quase engolido pelo tsunami bolsonarista sobre o qual surfou Witzel, o ex-prefeito do Rio tinha uma eleição a governador aparentemente garantida em todas as pesquisas.

A explicação? Simples: mesmo cortejado pelo PT nacional, Paes escolheu a neutralidade presidencial. Candidato de Witzel, Jair Bolsonaro teve 59,79% do eleitorado fluminense. Com 15,22%, Ciro Gomes (PDT) ficou em segundo, à frente Haddad, que teve 14,70%. Somados, os dois presidenciáveis de esquerda tiveram a metade da votação do capitão no Estado do Rio. O mesmo que elegeu com folga seu filho Flávio Bolsonaro (PSL) como senador. À Câmara Alta, ele teve quase a soma de votos dos dois primeiros colocados a governador.

As consequências da força de Bolsonaro junto ao eleitor fluminense foram várias. Inclusive em Campos. Como o blogueiro Christiano Abreu Barbosa explicou ontem (aqui) em seu Ponto de Vista, hospedado no Folha 1: “A estupenda votação de Bolsonaro no Estado do Rio, puxou todos os candidatos do seu partido (…) conquistando 12 cadeiras para a Câmara de Deputados em Brasília. O 12º do PSL conquistou a vaga com 31.788 votos (…) A coligação de Marcão Gomes, PR e Podemos, tinha potencial para três a quatro deputados. Com a onda PSL, fez apenas dois, deixando de fora Marcão, com quase 41 mil votos”.

Ainda no Estado do Rio, o senador Lindbergh Faria (PT) foi varrido pelo voto conservador. E ganhou a companhia de outros fortes candidatos ao Senado do seu partido, como Eduardo Suplicy em São Paulo e a ex-presidente Dilma Rousseff, em Minas Gerais. Governador daquele Estado, o também petista Fernando Pimentel perdeu a reeleição ainda no primeiro turno, atropelado pelo candidato Romeu Zema (Novo), com apoio do PSL. No particular de Dilma, como lembrou ontem o jornalista Merval Pereira, ficou a irônica justiça dela ter sofrido pelo voto a punição que a Justiça sonegou em seu impeachment.

Apesar dos estragos causados à esquerda em todo o país, a imposição do segundo turno presidencial a Bolsonaro, contra Haddad, deveria servir de reflexão. À direita, pelos facínoras que ontem filmaram o voto ao capitão sendo teclado pelo cano das armas na urna, ou latiram nas redes sociais contra o Nordeste do país. À esquerda, pelo grito de “basta!” do voto popular contra quem se arrogava imune à autocrítica, em nome de uma fidelidade canina a Lula.

Salvo o imponderável, como a facada em Juiz de Fora, a vantagem para o dia 28 é toda de Bolsonaro. Sobretudo se os eleitores de Haddad propuserem insistir as próximas três semanas no diapasão “barbárie x civilização”. Além da simpatia dos já convertidos, deve surtir o mesmo efeito prático da mobilização das mulheres no “#EleNão” de 29 de setembro, responsável pelo avanço do capitão sobre o voto feminino. Mais do mesmo que transformou um deputado federal do baixo clero no pivô da separação entre a esquerda e a urna.

Se Haddad conseguiu chegar no fotochart ao segundo turno, deve à votação do Estado Bahia. E ao trabalho do seu ex-governador Jaques Wagner, eleito ontem senador. Ele foi um dos poucos que ousou questionar Lula pela aliança do PT com Ciro.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

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Subida de Witzel e queda de Romário: Garotinho é o Mick Jagger da eleição

 

 

 

Como o jornalista Arnaldo Neto noticiou aqui, a pesquisa boca de urna do Ibope nos votos válidos a governador do Rio registrou: Wilson Witzel (PSC), 39%; Eduardo Paes (DEM), 21%; Tarcísio Mota (Psol), 15%; e Romário Faria (Pode), 9%. A força do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) no apoio a Witzel já tinha sido antecipada aqui no Ponto Final de hoje. Mas a queda brusca de Romário após o apoio de Anthony Garotinho (PRP) confirma: o político da Lapa é o Mick Jagger desta eleição.

Garotinho já tinha ganho fama de pé frio após apoiar Geraldo Alckmin (PSDB) no segunto turno presidencial de 2006, quando o tucano não só perdeu para Lula (PT), como conseguiu ter menos votos que no primeiro. Na eleição a governador de 2014, quando não conseguiu ir ao segundo turno, Garotinho apoiou nele Marcelo Crivella (PRB). E o sobrinho de Edir Macedo acabou perdendo para Luiz Fernando Pezão (MDB).

 

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Artigo do domingo — Na noite dos desgraçados

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

Na última sexta-feira, a Constituição Brasileira completou 30 anos. No dia, a Folha lembrou a data em boa matéria (aqui) da jornalista Suzy Monteiro, com o major Oswaldo Barreto Almeida, um dos três deputados constituintes de Campos, além do historiador Aristides Soffiati.

Dois dias depois, talvez não seja coincidência que mais de 147 milhões de brasileiros, entre eles cerca de 361 mil campistas, irão hoje escolher nas urnas presidente, governador, senadores, deputado federal e estadual. Não é pouca coisa. Maior democracia da América Latina, somos a quarta do mundo, atrás apenas de Índia, EUA e Indonésia.

Na eleição presidencial de hoje, que parece ser a mais polarizada, tudo indica que será no fotochart a definição se teremos ou não segundo turno. Se ele se confirmar, todas as pesquisas mostram que será disputado entre dois candidatos polêmicos.

O primeiro colocado nas pesquisas tem um passado de várias declarações relativizando a democracia e um presente que nega a última ditadura militar (1964/85) do país. E traz como candidato a vice um general que aventa publicamente a possibilidade de uma nova Constituição ser feita sem representantes eleitos pelo povo. Ainda assim, a chapa pode ser eleita no primeiro turno.

O segundo colocado tem como principal cabo eleitoral um líder popular condenado e preso por corrupção, a quem visita semanalmente na cadeia. E, além dos votos que nunca teve, herdou também um plano de governo ressentido, que pretende impor limitações ao Judiciário, ao Ministério Público e à imprensa. Além de propor abertamente uma nova Constituinte — como a Venezuela fez no ano passado.

Diante das ameaças de um lado e do outro também, na bipolaridade que divide o Brasil desde as “Jornadas de Junho” de 2013, relevante ressaltar a pesquisa Datafafolha feita entre as últimas quarta (03) e quinta (04). Ela revelou que 69% dos brasileiros consideram a democracia a melhor forma de governo. É o maior índice de aprovação desde que a consulta começou a ser feita, em 1989, quando houve a primeira eleição direta a presidente do Brasil após 29 anos.

A esperança é maior quando constatado que o regime com eleições diretas é “sempre a melhor forma de governo” se eleva a 74% entre os brasileiros de 16 a 24 anos. Elos do compromisso com o futuro do país, são jovens afeitos à sentença do velho ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill: “a democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as outras”.

Foi o mesmo compromisso assumido pelo ex-deputado Ulysses Guimarães, conciliador do qual o Brasil tanto carece, quando promulgou a “Constituição Cidadã” há 30 anos. Que dois trechos da sua fala — “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo” e “Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube” — possam ser luz “ainda que de lamparina” ao voto de hoje:

 

 

 

“(…) Ecoam nesta sala as reivindicações das ruas. A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. São palavras constantes do discurso de posse como presidente da Assembleia Nacional Constituinte.

Hoje, 5 de outubro de 1988, no que tange à Constituição, a Nação mudou. A Constituição mudou na sua elaboração, mudou na definição dos Poderes. Mudou restaurando a federação, mudou quando quer mudar o homem cidadão. E é só cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê e escreve, mora, tem hospital e remédio, lazer quando descansa.

(…) A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca.

Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério.

Quando após tantos anos de lutas e sacrifícios promulgamos o Estatuto do Homem da Liberdade e da Democracia bradamos por imposição de sua honra.

Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo.

Amaldiçoamos a tirania aonde quer que ela desgrace homens e nações. Principalmente na América Latina.

(…) Há, portanto, representativo e oxigenado sopro de gente, de rua, de praça, de favela, de fábrica, de trabalhadores, de cozinheiras, de menores carentes, de índios, de posseiros, de empresários, de estudantes, de aposentados, de servidores civis e militares, atestando a contemporaneidade e autenticidade social do texto que ora passa a vigorar.

Como caramujo guardará para sempre o bramido das ondas de sofrimento, esperança e reivindicações de onde proveio.

(…) Tem significado de diagnóstico a Constituição ter alargado o exercício da democracia. É o clarim da soberania popular e direta tocando no umbral da Constituição para ordenar o avanço no campo das necessidades sociais.

O povo passou a ter a iniciativa de leis. Mais do que isso, o povo é o superlegislador habilitado a rejeitar pelo referendo os projetos aprovados pelo Parlamento.

A vida pública brasileira será também fiscalizada pelos cidadãos. Do presidente da República ao prefeito, do senador ao vereador.

A moral é o cerne da pátria. A corrupção é o cupim da República. República suja pela corrupção impune toma nas mãos de demagogos que a pretexto de salvá-la a tiranizam.

Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube, eis o primeiro mandamento da moral pública. Não é a Constituição perfeita. Se fosse perfeita seria irreformável.

(…) Não é a Constituição perfeita, mas será útil, pioneira, desbravadora, será luz ainda que de lamparina na noite dos desgraçados.

É caminhando que se abrem os caminhos. Ela vai caminhar e abri-los. Será redentor o caminho que penetrar nos bolsões sujos, escuros e ignorados da miséria.

A sociedade sempre acaba vencendo, mesmo ante a inércia ou o antagonismo do Estado.

O Estado era Tordesilhas. Rebelada a sociedade empurrou as fronteiras do Brasil, criando uma das maiores geografias do mundo.

 (…) O Estado prendeu e exilou. A sociedade, com Teotônio Vilella, pela anistia, libertou e repatriou.

A sociedade foi Rubens Paiva (deputado federal torturado e assassinado pelos militares em 1971), não os facínoras que o mataram.

Foi a sociedade mobilizada nos colossais comícios das Diretas Já que pela transição e pela mudança derrotou o Estado usurpador.

Termino com as palavras com que comecei esta fala.

A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança.

Que a promulgação seja o nosso grito.

Mudar para vencer. Muda Brasil.”

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Pesquisas indicam segundo turno a presidente e novidade a governador

 

 

Expectativa de 2º turno

Jair Bolsonaro (PSL) pode ser eleito presidente hoje em primeiro turno? Só se todas as pesquisas feitas e divulgadas ontem, na véspera da eleição, estiverem erradas. Com oscilação positiva ou crescimento real, o capitão chegou a 41% dos votos válidos no Ibope e 40%, na Datafolha. Se os números estiverem corretos e o ex-capitão do Exército não crescer cerca de oito pontos percentuais de ontem para hoje, ele disputará o segundo turno contra Fernando Haddad (PT), estagnado com 25% dos votos válidos.

 

Simulações e rejeições

Caso as urnas confirmem o segundo turno presidencial, suas simulações ontem apontaram leve vantagem ao capitão, mas todas no empate técnico. No Datafolha, o turno final ficaria Bolsonaro 45% a 43% Haddad. No Ibope, seria 45% a 41%, já no limite da margem de erro. Índice negativo considerado fundamental à definição do segundo turno, a rejeição dos dois candidatos também foi medida pelos dois institutos: Bolsonaro teve 44% no Datafolha e 43%, no Ibope. Haddad oscilou mais entre as duas pesquisas: respectivamente 41% e 36% não votariam de jeito nenhum no petista. Os dois são os presidenciáveis mais votados e rejeitados.

 

Ciro Gomes

As consultas Datafolha e Ibope foram feitas após o debate da Globo, entre a noite de quinta e a madrugada de sexta. Elas chegaram a registrar que Ciro Gomes (PDT) foi considerado o melhor no evento. A ausência de Bolsonaro, que alegou ordem médica, mas deu uma extensa entrevista a Record, foi considerada um dos motivos para que seu crescimento na reta final talvez tenha sido insuficiente para liquidar a fatura no primeiro turno. Ciro teve oscilações positivas nas duas pesquisas, chegando a 15% dos votos válidos na Datafolha. Atrás 10 pontos de Haddad, o cearense seria o adversário mais difícil a Bolsonaro no segundo turno.

 

Força do capitão

Mesmo que frustre a expectativa de vencer no primeiro turno, Bolsonaro demonstra uma força eleitoral impressionante, talvez só comparável à do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na última Datafolha a governador do Rio, após receber o apoio dos Bolsonaro em sua campanha, o ex-juiz federal Wilson Witzel (PSC) decolou e apareceu ontem empatado com Romário Faria (Podemos). Ambos têm 17% dos votos válidos, 10 pontos atrás de Eduardo Paes (DEM), com 27% dos votos válidos. Mas o crescimento de Witzel foi tão meteórico que o Datafolha nem teve tempo de fazer a simulação de segundo turno entre ele e Paes.

 

Witzel complica Paes?

De Romário, Paes ganhou com facilidade a simulação de segundo turno: 45% a 31%. Sem as simulações om Witzel, a rejeição seria o único dado para avaliar seu desempenho no caso dele chegar ao turno final. Só que o Datafolha também não divulgou o índice negativo na sua nova pesquisa ao governo fluminense. Na pesquisa Ibope também fechada ontem, o ex-juiz federal apareceu com apenas 9% de rejeição, contra os mesmos 33% de Paes e Romário. O que indica que o ex-prefeito do Rio poderia teria muito mais dificuldade em se eleger governador se enfrentasse Witzel no segundo turno.

 

Brasil no RJ

O problema na comparação entre as últimas Datafolha e Ibope a governador, é que o segundo instituto não registrou o mesmo crescimento de Witzel. Pelo Ibope, a disputa segue hoje à urna com 32% dos votos válidos para Paes, 20% para Romário, e 12% tanto para Indio da Costa (PSD), quanto para o ex-juiz federal. Os dois travaram os três últimos debates disputando acirradamente o apoio de Bolsonaro, que tem mais que o dobro de intenções de voto de Haddad no Estado do Rio. Mas foi Witzel, não Indio, que teve em sua campanha o apoio de Flávio Bolsonaro (PSL), candidato a senador e filho de Jair.

 

Vantagem de Bolsonaro e Paes

A coluna já lembrou que nunca um candidato que ficou atrás no primeiro turno conseguiu se eleger presidente do Brasil. É um dado histórico que conta contra Haddad, caso a disputa presidencial vá mesmo às urnas de 28 de outubro. Mas há outras estatísticas que podem pesar não só a favor de Bolsonaro, como de Paes: desde 1998, quando a reeleição foi adotada no Brasil, foram 272 eleições de segundo turno no país — a presidente, governador ou prefeito. Nelas, 72% dos mais votados no primeiro turno venceram o seguinte. Mas o percentual cresce a 92% quando a diferença na votação dos candidatos no turno inicial foi de 10 pontos ou mais.

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Hamilton Garcia — “#Ele não” ou “#Eles não”?

 

 

Ao que tudo indica, o segundo turno das eleições, fora alguma virada extraordinária no posicionamento dos eleitores, será decidida entre dois partidos antagônicos em seus ideais, porém próximos em seu desapego pela liberal-democracia, por razões também opostas. Mas não é isto que a campanha, supostamente apartidária, “#Ele Não” quer nos fazer crer, apontando seu dedo para apenas um dos lados da contenda.

A indignação encarnada por Bolsonaro é velha conhecida, remonta ao período da decadência do regime militar, quando os assassinatos brutais de dois militantes (pacíficos) do PCB, Vladimir Herzog (1975) e Manoel Fiel Fº (1976), fizeram cair a máscara da justificação do AI-5 pela violência da guerrilha. A partir daí, em especial depois das eleições de 1982, o campo da direita sofreria forte abalo, apenas revertido pela reabilitação recente das Forças Armadas (FFAA) como instituição republicana e a ascensão política de Bolsonaro, ambas vinculadas à degeneração do PT no poder, mais precisamente aos escândalso do Mensalão e do Petrolão, que puseram a nu as práticas criminosas do partido e seus aliados, abrindo espaços extraordinários para a rearticulação da direita (vide Os conservadores avançam ) que as forças tradicionais não souberam aproveitar.

De um lado, o PSDB, prisioneiro do corporativismo empresarial e useiro de métodos semelhantes — como se comprovou mais tarde —, abriu mão, junto com seus aliados, de propor o impeachment de Lula em 2005 acreditando que o Brasil se comportaria como SP — que deu a Geraldo Alckmin 54,2% dos votos válidos nas eleições de 2006. De outro, o Centrão fisiológico aproveitou a crise para se fortalecer no rastro da associação PT-PMDB, o que permitiu a Lula não só se reeleger como se blindar de investigações parlamentares contra suas práticas predatórias do setor público (inclusive Petrobras).

É nesse contexto de putrefação do sistema político e de acovardamento/cooptação da oposição, que o petismo fincou raízes nas classes populares por meio de um crescimento econômico expressivo, não obstante ilusório, pois fruto de uma dinâmica externa exuberante que anulou por certo tempo nossas desvantagens competitivas. É nele também que surge uma nova militância liberal, de centro e de direita — órfã dos partidos tradicionais —, que, após 2013, encontraria no antipetismo e na agenda econômica liberal sua plataforma de oposição ao mecanismo petista.

Tal encontro, em si importante para a democracia pela renovação do campo liberal e conservador em chave orgânica com a sociedade — que o elitismo tucano-democrata foi incapaz de realizar —, se dá, todavia, sob a égide eleitoral de uma direita neointegralista, de um lado, e, de outro, prisioneira da ala terrorista do regime militar — representada pela chapa puro-sangue Bolsonaro&Mourão.

O Integralismo, em nossa história, nos anos 1930, foi uma reação ético-cristã à sociedade liberal-urbana que tomava corpo no país. Embora próxima do fascismo, ela recusava a perspectiva da Razão absoluta (hegeliana) no Estado — de caráter desenvolvimentista —, afirmando a dimensão subjetiva e o predomínio da tradição cristã (antimaquiaveliana) na administração dos negócios públicos (fusão entre ética pública e privada). Hoje, o neointegralismo parece uma versão urbana (liberista) da mesma concepção.

Quanto à ala terrorista, trata-se de uma corrente instrumental sem maiores chances de disputar a direção do Estado. Seu perigo, todavia, reside na possibilidade de se transformar em tenentismo civil-militar com base na fórmula hegeliana; o que a não assimilação da ativista liberal Janaína Paschoal à chapa, como vice, parece evidenciar. Aqui entram, em chave positiva, as FFAA e os militares moderados da coalizão, como o Gen. Heleno, que podem servir de freio a esta tendência, ao mesmo tempo que acicates para a recuperação do sentido de missão das elites políticas, desbloqueando a governabilidade capturada pelo neopatrimonialismo parlamentar (vide artigo anterior).

Já quanto ao PT, as incertezas são bem menores pois ele chega às eleições amadurecido por quase 40 anos de trajetória sem seu freio natural, o lulismo, destrambelhado desde o impeachment de Dilma e levado à radicalização como estratégia de sobrevivência.

Neste sentido, a agenda de curto-prazo do petismo, com sua constituinte e “controle social” dos poderes republicanos e da mídia, tem tudo para afastar o país do enfrentamento de seus grandes problemas histórico-estruturais e mergulhá-lo em um nível de polarização política até aqui desconhecido; tanto ao tentar reparar a “injustiça” cometida contra seu líder, quanto para reverter a desigualdade por meio do “aprofundamento da distribuição de renda” — como se fez recentemente na Venezuela, com os resultados catastróficos conhecidos.

O PT radicalizado retoma sua perspectiva revolucionária — como outrora fizera o PCB depois da cassação de seu registro e mandatos, em 1947 — na tentativa de sair das cordas, com isso contribuindo para embaraçar sua própria identidade histórica, construída em oposição ao comunismo totalitário, e a imagem moderada de seu candidato (Haddad), colocando seu futuro governo sob o dilema de trair os seus para governar ou governar traindo seu eleitorado, chafurdando o país na desordem política e institucional.

Para os céticos em relação à nova inclinação petista, o 6º Congresso (2017) não deixa dúvidas quanto aos objetivos que o partido se diz obrigado a perseguir para evitar um “novo golpe”: “(…) apenas a radicalização da democracia, no curso de uma revolução política e constituinte, poderá sedimentar o processo de mudanças que almejamos”, sendo “a via de aproximação para (…) o nascimento do Estado popular, nas condições históricas atuais, (…) a retomada da Presidência da República e a formação de uma maioria parlamentar defensora das reformas estruturais”[i].

Como tal “maioria parlamentar” não é possível, os petistas vislumbram a solução do impasse não numa ampla aliança de forças (união nacional pela democracia) — que eles só valorizam para obter votos, não para pactos programáticos que possam inibir seu poder —, mas na “intensificação da disputa por hegemonia” — não em sentido persuasivo, mas de imposição de uma vontade eleitoral-majoritária — “a partir de medidas político-administrativas que ampliem o poder popular, de pressão permanente e organizada das ruas”, acompanhada, naturalmente, do “desmonte dos monopólios de comunicação, (…) e do desaparelhamento do sistema jurídico-policial”, o que significa, à luz da tradição (stalinista), pensamento único (Pravda) e perseguição política permanente (NKVD) — o que exigiria também “democratizar o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal”, além, é claro, da “reformulação do papel das Forças Armadas”[ii].

Tudo isso apoiado no empoderamento da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo, como antídoto à Operação Lava Jato, que “desempenha papel crucial na escalada golpista” como “instrumento político para a guerra de desgaste contra dirigentes e governantes petistas, atuando de forma cada vez mais seletiva quanto a seus alvos” e funcionando “como mecanismo de contrapropaganda para mobilização das camadas médias” e do “campo reacionário”[iii].

Para quem foi às ruas, no último sábado, exorcizar as trevas do autoritarismo, acreditando que ela tem apenas um lado, o Governo Haddad seria um choque.

 

[i] Caderno de Resoluções do 6º Congresso Nacional, p. 36 it.s 23-24 (grifos meus); in. <www.pt.org.br/wp-content/uploads/2017/07/6-congresso-pt.pdf>, em 27/09/18.

[ii] Id., pp. 36-37, it.s 25-27 (grifos meus).

[iii] Resolução Sobre Conjunutra, de 17 de maio de 2016, do Diretório Nacional do PT, p.1; in. <Resolução-sobre-conjuntura-Maio-2016[impeachment].pdf>, em 29/09/18.

 

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Onda de Bolsonaro à véspera da eleição gera dúvida sobre 2º turno

 

 

Turno único: 30% de chance

À espera das últimas que serão divulgadas hoje, a grande pergunta é: haverá segundo turno na eleição presidencial? O crescimento de Jair Bolsonaro (PSL) na reta final foi confirmado pelo primeiro instituto que o colocou na casa dos 30% das intenções de voto. Pela Paraná Pesquisas de ontem, o ex-capitão do Exército alcançou os 35% das intenções de voto, mesmo índice apontado no dia anterior pelo Datafolha. Nas duas consultas, Fernando Haddad (PT) patinou nos 22%. Indagado sobre a possibilidade de Bolsonaro ganhar a eleição no primeiro turno, o diretor da Paraná, Murilo Hidalgo, estimou as chances em 30%.

 

Segundo turno: 70%

Com 70% de possibilidade, o segundo turno é o mais provável. Mas suas projeções variaram muito de acordo com as pesquisas. Segunda a Paraná de ontem, Bolsonaro venceria Haddad com relativa facilidade, por 47,1% a 38,1%. Mas Datafolha e Ibope projetaram empates técnicos no turno final entre o capitão e o petista. Estes dois institutos trazem hoje mais duas novas pesquisas, as últimas antes da urna de domingo. A da Datafolha, com mais de 17 mil entrevistas, será a mais ampla já feita nesta eleição. Se nela Bolsonaro estagnar, aumentam as chances de segundo turno. Mas elas diminuem se o candidato registrar outro crescimento real.

 

Ontem e hoje

Desde que o segundo turno foi adotado pela Constituição de 1988, apenas Fernando Henrique Cardoso (PSDB) ganhou a eleição presidencial em turno único. E o fez duas vezes, em 1994 e 1998. Curiosamente, seu principal cabo eleitoral na época foi o Plano Real, que estabilizou a economia do país. Com a recessão criada no governo Dilma Rousseff (PT), a economia voltou a ser um dos principais problemas do Brasil, cujo líder em todas as pesquisas a presidente é alguém que, assumidamente, não entende do assunto. Agora é o antipetismo, cujo papel Bolsonaro roubou do PSDB, que surge como principal cabo eleitoral desta eleição.

 

Rejeições

Todas as pesquisas indicam que, desde a semana passada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esgotou sua impressionante capacidade de transferência de votos para Haddad. Serviu para consolidar o candidato como segundo colocado, na casa dos 20%. Só que a reação à perspectiva do PT voltar ao poder empurrou Bolsonaro à casa dos 30%. Junto com os votos, Haddad recebeu a rejeição de Lula, igualmente impressionante. Pelo Datafolha e Ibope, o petista já está bem próximo de Bolsonaro no índice negativo. E, na metodologia diferente da Paraná, a rejeição de Haddad (58,5%) já é bem maior que a do capitão (48,6%).

 

Haddad no ontem

Transferidos o bônus e o ônus de Lula, seria o momento de Haddad buscar seus votos por conta própria. E ele desperdiçou a chance no debate da Globo, entre a noite de quinta e madrugada de sexta, último antes da eleição de domingo. No lugar de centrar fogo em Bolsonaro ausente, o petista perdeu tempo com Geraldo Alckmin (PSDB) para atacar o governo de Fernando Henrique, de 16 anos atrás. Entre várias outras mudanças de paradigma desta eleição, a polarização nacional entre PT e PSDB foi claramente abandonada pelo eleitor. E, em caso de segundo turno, Haddad vai precisar desesperadamente dos votos do tucano.

 

Ciro se destaca

Pouco depois de Bolsonaro dar entrevista à Record do bispo Edir Macedo, que já fechou apoio da sua popular Igreja Universal ao presidenciável de direita, o debate da Globo provou mais uma vez que Ciro Gomes (PDT) é o candidato mais consistente da esquerda. Foi ele quem se destacou ao cobrar a ausência do líder nas pesquisas. O desempenho do cearense gerou uma reação positiva nas redes sociais ao seu nome, que todas as pesquisas indicam ser o mais difícil de ser batido por Bolsonaro no segundo turno. Mas, à beira da urna, dificilmente será suficiente para reverter os 10 pontos percentuais que separam Ciro de Haddad nas pesquisas.

 

Referências

Na incerteza sobre o segundo turno presidencial, bem provável entre Eduardo Paes (DEM) e Romário (Pode) a governador do Rio, estas eleições derrubaram referências de pleitos anteriores. Mas algumas sobrevivem. Por exemplo, nunca um candidato a presidente atrás no primeiro turno, venceu o segundo. E, nem com Lula, o PT chegou à presidência com uma chapa puro-sangue de esquerda, como Haddad e Manuela D’Ávila (PCdoB). Outro exemplo? Romário ontem recebeu o apoio de Anthony Garotinho (PRP) que Alckmin, a presidente em 2006, e Marcelo Crivella (PRB), a governador em 2014, também tiveram. E acabram derrotados.

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

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Instituto Paraná registra crescimento de Bolsonaro, mas aponta 2º turno

 

 

Instituto que antecipou Datafolha e Ibope no registro do crescimento de Jair Bolsonaro (PSL) na reta final da eleição, a Paraná Pesquisas divulgou hoje sua última consulta presidencial antes da eleição de domingo. Nela, o ex-capitão do Exército passou de 31,2% a 34,9% das intenções de voto. Ele foi o único candidato com crescimento real, mas a dois dias da urna, não é o suficiente para definir a eleição no primeiro turno. Seu provável adversário no segundo, Fernando Haddad (PT) oscilou positivamente de 20,2% a 21,8%. Mas a pesquisa apontou a vitória final de Bolsonaro: 47,1% a 38,1% na simulação de segundo turno contra o petista.

A explicação para o favoristismo de Bolsonaro no turno final está na rejeição. Medida de maneira individual pela Paraná Pesquisas, diferente da consulta em disco feita por Datafolha e Ibope, a rejeição registrou uma queda real do capitão: de 51,8% a 48,6%. Diferente dos demais institutos, ele ficou bem abaixo de Haddad no índice negativo. Os eleitores que não votariam de maneira nenhuma no petista tiveram uma ocilação para cima: de 57,6% a 58,5%.

Nas intenções de voto ao primeiro turno, Ciro Gomes (PDT) teve oscilação negativa: de 10,1% a 9,4%. Ele foi seguido por Geraldo Alckmin (PSDB), que ficou estaganado: tinha 7,6% e foi a 7,4% . O cearense e o tucano ficaram abaixo dos que declararam ainda não ter nenhum candidato: eram 11,9% e agora são 10,1% dos eleitores. A margem de erro da consulta é de dois pontos percentuais para mais ou menos. Foram entrevistados 1.080 eleitores entre os dias 2 e 4 de outubro, antes do debate da Rede Globo. A pesquisa está registrada no TSE sob o nº BR-08437/2018.

 

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Fake news contra Wladimir e semelhanças entre Bolsonaro e Rafael

 

 

Campanha sórdida

Em simulação da eleição de domingo entre os profissionais da redação da Folha, cujo resultado foi divulgado dia 1º (aqui) no blog Opiniões, Marcão Gomes (Rede) foi o candidato a deputado federal com mais intenções de voto: foram sete. Wladimir Garotinho (PRP) foi o terceiro, empatado com Marcelo Mérida (PSD), cada um com duas intenções de voto. Isto posto, sem nenhuma interferência na linha editorial do jornal, cabe a afirmação: os ataques mentirosos que Wladimir vem sofrendo nas redes sociais, nesta reta final da eleição, são sórdidos!

 

Justiça Eleitoral precisa agir

Diretor financeiro e blogueiro da Folha, Christiano Abreu Barbosa escreveu ontem (aqui) no seu Ponto de Vista: “Wladimir Garotinho (…) foi alvo de fake news, espalhada através de WhatsApp (…) A falsa notícia é que ele estaria inelegível e seu votos não seriam contabilizados como válidos nas urnas (…) É mentira que Wladimir esteja inelegível. Ele está perfeitamente elegível. E, pela campanha, deve ter uma bela votação no domingo”. A coluna assina embaixo, não sem expressar o desejo e a cobrança para que a Justiça Eleitoral puna exemplarmente os responsáveis por esse crime contra a democracia.

 

Bolsonaro continua a crescer

O instituto Paraná foi o primeiro a registrar a tendência de crescimento de Jair Bolsonaro (PSL) na reta final da eleição. Na sua pesquisa divulgada no último dia 26, o ex-capitão do Exército apareceu com 31% das intenções de voto, 10 pontos de vantagem sobre Fernando Haddad (PT). Só nesta semana o Ibope e Datafolha registraram o mesmo movimento, não só de crescimento de Bolsonaro, como de estagnação de Haddad. Pelas consultas Ibope de segunda (1º) e quarta (03), o líder teria parado de crescer. Mas entre as Datafolha de terça (02) e ontem (04), o capitão teve outro crescimento real e agora tem 35% das intenções de voto.

 

Haddad patina

Na Datafolha de ontem, Haddad permaneceu com 22% das intenções de voto. Nas três últimas pesquisas do instituto, ele oscilou no mesmo patamar. Tinha 22% em 28 de setembro, foi a 21% em 2 de outubro e, ontem, voltou aos 22%. Por sua vez, Bolsonaro avança consistentemente em crescimentos reais. Nas mesmas três consultas, ele saiu de 28% para 32% e, dois dias depois, pulou a 35%. A única coisa em que o petista teve crescimento relevante foi na rejeição. Ele saiu de 32% para depois patinar entre 41% e 40% no índice negativo. Está bem próximo do capitão, que estagnou sua rejeição em 45%.

 

Mais provável

Entre os líderes de intenções de voto e rejeição, a simulação do segundo turno da Datafolha foi Bolsonaro 44% a 43% Haddad. É um empate técnico na margem erro de dois pontos para mais ou menos. Mas com o crescimento consistente do capitão na reta final da eleição, a pergunta mais ecoada é: haverá segundo turno? Ainda é o mais provável, mas o candidato do PSL chegou a 39% dos votos válidos. Ele já é o segundo no Nordeste e lidera em todas as demais regiões. Lidera também entre as mulheres, mesmo acusado de machista e misógino, e avança até entre os mais pobres e menos escolarizados, tradicionais eleitores de Lula.

 

Antipetismo

Até aqui, o grande definidor do voto desta eleição parece ser o antipetismo. Foi a reação à entrada de Haddad na casa dos 20% de intenções voto, na semana passada, que empurrou Bolsonaro, à casa dos 30%. Na Datafolha do dia 2, foi revelado que 59% dos brasileiros querem que Lula cumpra sua condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A maioria expressiva da população considera o ex-presidente culpado. E gritar “Lula livre”, sem fazer autocrítica, só encontra eco entre os já convertidos da minoria. Na prática, tem se revelado a maneira mais eficaz de eleger quem melhor encarnou o anti-Lula nesta eleição.

 

O possível

Muitas são as diferenças entre Jair Bolsonaro e Rafael Diniz (PPS). Mas, entre 2016 e 2018, há semelhança entre campanhas por partidos pequenos, com pouco tempo de TV, calcada nas redes sociais e focada na oposição a um líder complicado com a Justiça. Ao chegar ontem aos 35% das intenções de voto, avançando no eleitorado mais pobre, o crescimento do capitão lembra muito o desempenho do candidato a prefeito de Campos de dois anos atrás. Na última pesquisa Pro4, 7 dias antes do pleito, Rafael bateu 37,7% das intenções de voto. Se Bolsonaro alcançar algo hoje parecido na Paraná, a possibilidade do mesmo desfecho deixa de ser delírio.

 

Publicado hoje (05) na Folha da Manhã

 

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Paula Vigneron — No solo do Brasil

 

 

 

Foz do rio Paraíba no Pontal de Atafona, em 3 de janeiro de 2017 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

“Por volta dos meus 20, 21 anos, a tragédia, a bárbara, que se abateu sobre essa nação no golpe de 64… Na verdade, eu nunca pensei, na minha vida, que fosse ver isso de novo. Nunca pensei (…). Sem nenhum exagero, sem nenhum tom de tragédia, eu afirmo a vocês que, para viver uma nova ditadura, eu prefiro morrer. Não vale a pena viver aquilo tudo de novo.”

Ao microfone, na praça São Salvador, Centro de Campos, vestindo uma blusa roxa com dizeres sobre o voto em que a respeita, a professora Beth Araújo estava entre mulheres e homens em coro uníssono. Centenas, que se dividiam entre palavras de ordem, palmas e celulares para registros. Do outro lado, na avenida, outros homens em carros sinalizavam seus posicionamentos contrários: gestos de armas e buzinas provocativas.

Pouco antes, ela ouvira o barulho, as vozes, os carros. Teve certeza: eram opositores ao ato que acontecia a poucos metros dali. Arrepiou-se. Em sua cabeça, um filme: Vlados, Zuzus, Stuarts. Marias e Clarices no solo do Brasil. Mães, pais, filhos, tantos que partiram em rabos de foguetes. O horror estampado nas vozes e rostos em histórias contadas anos e anos depois dos fatos, quando reconquistado o direito à liberdade de expressar e relatar os dias de chumbo.

Quatro anos antes, assistira a um evento sobre os 50 anos do golpe militar. Entre as atividades, a exibição do documentário “Vlado: 30 anos depois”, sobre o jornalista Vladimir Herzog, morto durante a ditadura. À época, registros oficiais afirmaram que ele se matou. Enforcado. O corpo foi encontrado dentro de uma cela. As pernas do homem estavam dobradas sobre uma cadeira enquanto uma corda contornava o seu pescoço, presa à parte superior do espaço. Enforcado?

Lembrou-se das palavras ditas à mesa: “Nossa democracia é muito jovem, frágil. Tem 30 anos. Precisamos ficar atentos”. Considerou, aos 21 anos de idade, um exagero. Não vivera um período que não fosse democrático. Não sabia o que era não se expressar. Não conhecera os tempos sombrios aos quais se referiam tantos que acompanharam aqueles anos, que pareciam distantes, tão distantes.

Sempre ouvira falar sobre o período ditatorial. Relatos de pessoas próximas, que precisaram sair do país, e por meio de livros, filmes, músicas. Conhecera, ainda na infância, a Angélica de Chico Buarque. Sentia, mesmo sem ter noção do sentir, a dor de uma mãe que busca por seu filho sequestrado. Torturado. Morto. Nunca encontrou o corpo do rapaz. Em uma emboscada, ela também foi morta, sem poder lembrar, agasalhar e embalar o filho, “que mora na escuridão do mar”. Assassinada em um suposto acidente no túnel do Rio de Janeiro que leva o seu nome: Zuzu Angel.

Os dias tão distantes parecem espreitar de todos os cantos. Escondidos em gestos, atos, crenças. Travestidos em busca de paz e valores éticos e morais. Escancarados em debates, deboches, discussões. Negação de si, do outro, da própria história. Mesclados a palavras aparentes de bom senso e lógica. Ilógico. O passado tão recente, presente de ontem, assombra. Retrocessos. Excessos. Buzinas e brados e gritos e brigas; cegos e surdos e mudos; noites em dias: com quantas Angélicas se faz uma democracia?

 

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Ibope: Paes e Romário disputam segundo turno, com PT a pé no RJ

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (04) na Folha

 

 

Paes e Romário lideram sem Garotinho

Mesmo sem Anthony Garotinho (PRP), barrado no TSE pela Lei da Ficha Limpa, a eleição a governador do Rio terá segundo turno. Foi o que mostrou a pesquisa Ibope divulgada ontem, primeira sem a presença do político de Campos. Eduardo Paes (DEM) liderou com 26% das intenções de voto, seguido de Romário Faria (Podemos), com 19%. Considerados apenas os votos válidos, o primeiro teria 33%, com 24% para o segundo. Na simulação do segundo turno, fora da margem de erro de dois pontos para mais ou menos, Paes venceria Romário por 40% a 33%. A rejeição dos dois candidatos é praticamente a mesma: respectivamente, 34% e 33%.

 

Indio, Witzel e Tarcísio

Com Garotinho ainda no páreo, a pesquisa Ibope anterior tinha sido divulgada em 25 de setembro. Nela, Paes tinha 24% e Romário, 16%. Aparentemente, eles herdaram poucos votos do político campista: o primeiro cresceu dois pontos, com três para o segundo. As maiores alterações vieram no pelotão de baixo. Indio da Costa (PSD) cresceu quatro pontos e apareceu ontem na terceira colocação, com 10% das intenções de voto. Ele foi seguido de Wilson Witzel (PSC), com 7%, e Tarcísio Motta (Psol), com 6% — ambos tinham os mesmos 4%.

 

Briga pelo espólio de Bolsonaro

Mais que a ausência de Garotinho, Indio e Witzel devem o crescimento à força de do voto em Jair Bolsonaro (PSL) a presidente, apoio que os dois candidatos a governador passaram a disputar acirradamente nos debates. O ex-capitão do Exército lidera entre o eleitorado fluminense, com mais que o dobro das intenções de voto de Fernando Haddad (PT). Desde que começou a fazer campanha junto com o candidato a senador Flávio Bolsonaro (PSL), filho de Jair, Witzel saiu do 1% que até então tinha nas pesquisas. Adepto da campanha do “ele não”, Tarcísio foi ultrapassado pelos adversários que passaram a pregar com fervor o “ele sim”.

 

PT a pé no RJ (I)

Quando prefeito do Rio, Paes foi aliado dos ex-presidentes petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Político experiente, ele não só conseguiu se isolar da condição de aliado próximo do ex-governador Sérgio Cabral (MDB), como se esquivou das tentativas de aproximação do PT para fornecer um palanque forte para Haddad no Rio. Com a negativa de Paes, que se manterá neutro na disputa presidencial, o PT passou a cortejar Garotinho. O partido chegou a repassar R$ 700 mil à campanha de Clarissa (Pros) a deputada federal. Mas a Ficha Limpa que já tinha vetado Lula, barrou também Garotinho e enviuvou o “namoro”.

 

PT a pé no RJ (II)

Case o domingo confirme o segundo turno entre Paes e Romário, a campanha de Haddad terá sério problema no Estado que já votou duas vezes nas eleições presidenciais de Lula e outras duas, nas de Dilma. Político experiente, nada demoverá Paes da neutralidade, com a qual só tem a lucrar e nada a perder. Do outro lado, Romário tem como candidato a vice-governador o deputado federal Marcelo Delaroli (PR), que já manifestou apoio a Bolsonaro. Escolha pessoal de Lula e considerada a candidata mais fraca que o PT já apresentou para governar o Rio, Márcia Tiburi se despede no domingo. E não deixará saudade nem dentro do partido.

 

Ibope a presidente

O Ibope também divulgou ontem sua nova pesquisa presidencial. De diferença à de dois dias antes, Bolsonaro e Haddad oscilaram para cima nas intenções de voto: o primeiro de 31% a 32%; e o segundo, de 21% a 23%. Oscilaram para baixo Ciro Gomes (PDT), de 11% para 10%; e Geraldo Alckmin (PSDB), de 8% para 7%. A projeção do segundo turno entre o capitão e o petista registrou um empate técnico: 41% a 43%. Ambos apresentaram oscilações negativas nas rejeições: Bolsonaro, de 44% a 42%; e Haddad, de 38% a 37%. Menos mal ao candidato de Lula, que parece ter estancado seu salto recente no índice negativo.

 

Paraná e Datafolha

Até a véspera do pleito, as pesquisas presidenciais serão diárias. Mais oito estão registradas no TSE. Mas para quem se guia pela razão, não pelo desejo, duas delas devem retratar com mais precisão o cenário real de domingo: a Paraná que será divulgada na sexta (05) e a Datafolha, no sábado (06). A primeira será do instituto que registrou antes de todos o crescimento recente de Bolsonaro. Já a do dia seguinte será sobre o maior universo pesquisado até a consumação das urnas: mais de 17 mil eleitores.

 

Publicado hoje (04) na Folha da Manhã

 

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