Hamilton Garcia — A evolução da esquerda (IV): a era petista

 

 

Às vésperas de seu ocaso político, o PCB, ainda não atingido em sua espinha dorsal pela repressão e tentando reconquistar a liderança perdida na sociedade civil depois da dura derrota de 1964 — vide artigo anterior —, produziu um documento que, não obstante o linguajar anacrônico e os resquícios canônicos do marxismo-leninismo, apontou com precisão a direção da luta política a uma esquerda envolta nas brumas do mito revolucionário: “mobilizar, unir e organizar (…) (as) forças democráticas (…) contra o regime ditatorial (…) e a conquista das liberdades democráticas”[1].

Nesta resolução, a unidade democrática ainda não havia assumido a fórmula rígida do MDB: “As formas concretas que assumirá a unidade (…) serão ditadas pelo desenvolvimento da luta. Por ser uma reunião de forças heterogêneas, a frente (…) desenvolve-se simultâneamente com a luta entre os seus próprios componentes. (…) Os comunistas defenderão sempre, no seio da frente (…) a necessidade (…) de organizar (…) o povo (…)”[2].

Tampouco a frente tinha seu foco principal nas forças liberais — como aconteceria a partir de 1978: “A batalha antiditatorial exige um cuidado prioritário pela unidade das forças mais avançadas da frente única. Os comunistas obrigam-se, por isso, a dirigir sua atenção (…) para a aproximação com as diversas correntes que se incluem no movimento de esquerda (…)”[3].

O realismo político pecebista, envolto na bandeira rota do bolchevismo, não foi suficiente para neutralizar a atração que o guevarismo exercia sobre os jovens militantes, o que os impeliu a usar as primeiras grandes manifestações sociais contra o regime, convocadas por eles — a mais famosa delas a Passeata dos Cem Mil, em julho de 1968 —, numa mobilização em prol não da constituição da frente democrática, mas da frente popular articulada à guerrilha; o que acabaria por reforçar a ditadura, limpando o caminho para a institucionalização do arbítrio, em dezembro (AI-5), e o esmagamento da oposição, que esboçava seus primeiros atos de resistência não só com base nos intelectuais e nos estudantes, mas também com o apoio do operariado e da Igreja (católica).

Como já vimos, os comunistas, fortemente perseguidos, deixaram escapar a forma concreta com que a frente democrática se apresentaria a partir do ressurgimento dos movimentos sociais — estudantil (1977) e operário (1978). Desde então, as forças progressistas, nucleadas em torno de diversos movimentos sociais, na imprensa alternativa (Opinião e Movimento) e no MDB-autêntico — onde o PCB atuava —, passaram a discutir a criação de um partido popular, que, todavia, esbarraria na pretensão das lideranças exiladas em reconstruir/legalizar seus próprios partidos.

O impasse intra-oposição (interna e exilada) só se resolveria após a segunda greve operária do ABCD (março de 1979), em favor das forças internas, quando a intervenção policial projetou Lula como liderança política nacional autônoma, sem vínculos com as forças tradicionais da esquerda (neostalinistas, castristas, maoístas e nacionalistas), e em rota de convergência com os teólogos da libertação — nova tendência assumida pelo catolicismo de esquerda depois da Ação Popular (1962).

É daí que surge o Movimento Pró-Partido dos Trabalhadores (1979) que, sem conseguir atrair as velhas lideranças, em vias de retornar do exílio (Prestes, Brizola e Arraes), é bem sucedido em unificar a diáspora esquerdista — excetuando os stalinistas —, os ambientalistas, a juventude e uma miríade de novos movimentos sociais oriundos da urbanização dos anos 1960-70.

O PT vem à tona operando uma série de rupturas importantes no âmbito da esquerda radical. No plano da composição social, a classe trabalhadora deixa o segundo plano que ocupava no PCB, cujos quadros históricos eram de origem militar, e passa a ser a principal fonte política da nova agremiação; não obstante a centralidade castrista na esfera organizava da máquina partidária e dos intelectuais marxistas no âmbito da luta ideológica.

No plano da estrutura interna, o PT também inovaria assumindo um caráter federativo e pluralista, típico dos partidos socialistas ocidentais, em oposição ao centro único dos partidos comunistas. Isto fez com que os petistas, no curto e médio-prazo, tivessem dificuldades competitivas com os partidos centralistas que disputavam o controle dos movimentos sociais, mas tais dificuldades acabariam superadas pela capacidade da nova formação política em atrair militantes e simpatizantes em diversos segmentos sociais, e campos ideológicos — em particular entre os cristãos —, além de votos.

No plano ideológico, de novo, a inovação aproximava o PT do paradigma socialdemocrático, onde predominava uma acepção ampla de classe trabalhadora e os ideais socializantes eram vagos o suficiente para comportar uma ampla diversidade de crenças organizadas numa luta interna pactuada.

Todas estas inovações, porém, ocorreram sem prévio revisionismo político-ideológico e nem mesmo conheceram um esforço de sistematização posterior, tornando o PT um feixe de forças sociais e ideologias contraditórias, amalgamadas por uma liderança carismática, de perfil pragmático, que perseguia o poder externo com base no controle do poder interno (aparato partidário) por meio de lideranças unicistas de viés totalitário, e amparada em discurso de fundo místico-libertador que aliava utopia e pragmatismo numa perspectiva classista singular, baseada no neocorporativismo identitário.

Tal combinação mostrou-se poderosa fórmula para se chegar ao poder, eclipsando e contornando o espinhoso debate acerca do papel da democracia política, e suas instituições, na construção de uma sociedade mais justa e menos desigual — para não falarmos das instituições econômicas necessárias para tornar sustentável tal propósito. Mas, ela se mostrou insuficiente para fundar uma nova tradição apta a renovar a política brasileira, construir um novo modelo de desenvolvimento (sustentável) e contornar os perigos do carisma e do poder de Estado — inclusive a sedução do dinheiro.

A nova esquerda radical — de feições “ornitorrínticas” — atravessou o rubicão do poder, depois de 13 anos à frente da União, mostrando toda sua incompetência política e programática, não só para manter a sustentabilidade econômica do país — afundando-o na maior recessão de sua história —, mas para fazer as reformas políticas necessárias para a reversão do esgarçamento dos valores e das instituições públicas/privadas parasitadas pelo etos neopatrimonial, ao qual, finalmente, se rendeu e se converteu, em cabal demonstração da esterilidade de sua fórmula.

 

[1] Resolução Política do 6º Congresso (1967), In. Marco Aurélio Nogueira (org.), PCB: vinte anos de política, ed. LECH/SP-1980, p.174.

[2] [2] Id. p.179.

[3] Id. p.180.

 

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Inglaterra e Croácia eliminam as duas últimas retrancas da Copa

 

Com a camisa nº 20, o meia Deli Alli é abraçado pelos companheiros após marcar o segundo gol da Inglaterra sobre a Suécia (Foto: Alastair Grant – AP)

 

Brasileiro naturalizado, o lateral Mário Fernandes empatou o jogo com a Croácia, mas depois perdeu sua cobrança na disputa de pênaltis (Foto: Kevin C. Cox – Getty Images)

 

Definidos Inglaterra e Croácia para uma das semifinais da Copa da Rússia, venceu o futebol. Por mais simpatia que se possa ter pela eficiência defensiva da Suécia, ou pela festa dos donos da casa em sua melhor campanha no futebol, desde a dissolução da União Soviética, manteve-se uma saudável tradição: retrancas não vão além das quartas de final em Copas do Mundo.

Pela boa qualidade técnica dos seus jogadores, a Croácia foi apontada aqui, antes da bola rolar no Mundial, como uma provável supresa. Assim como a seleção da Bélgica, pelos mesmos motivos, que ontem eliminou o Brasil por 2 a 1. Mas, para eliminar a Rússia, os croatas acabaram de passar pelo segundo jogo seguido com prorrogação e disputa de pênaltis. O cansaço pode fazer diferença na semifinal da próxima quarta (11), diante de uma Inglaterra que mais cedo passou sem sustos pela Suécia, com o 2 a 0 conquistado em tempo normal.

É a primeira vez que os ingleses chegam a um semifinal, desde 1990. Por sua vez, a Croácia volta à semifinal em que chegou na sua primeira Copa como país independente, em 1998, após a dissolução da antiga Iugoslávia. Quem vencer o confronto pegará o favorito ao título na final do domingo (15). Ele será definido por França e Bélgica, na semifinal desta terça (10). Mas o que esse Mundial vem provando é que favoritismo não ganha mais jogo.

 

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Eliminação do Brasil e polêmicas fora de campo em debate neste domingo

 

Na ressaca da eliminação do Brasil (aqui) pela técnica seleção da Bélgica, a Copa da Rússia e alguns lances polêmicos do seu entorno (aqui) dominarão a quinta edição do 4 em Linha, a partir das 20h deste domingo (08), em live no Facebook. Entrarão em campo para o debate o especialista em finanças Igor Franco, o advogado Gustavo Alejandro Oviedo, o odontólogo Alexandre Buchaul e eu. Sem demanda de torcida, aguardamos você:

 

 

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Bélgica vence por 2 a 1 e elimina o Brasil da Copa da Rússia

 

Nome do jogo, De Bruyne chuta da entrada da área, para marcar o segundo gol da Bélgica (Foto: Reuters)

 

“Que geração belga, que nada!”, bravateava quem, de quatro em quatro anos, se julga “entendedor” de futebol. O fato é que a Bélgica impôs o placar de 2 a 1 e eliminou o último time da América do Sul na Copa da Rússia, cujas semifinais serão jogadas por quatro seleções europeias. Um pouco antes, a França já havia despachado o Uruguai, e agora vai encarar os vizinhos belgas por uma vaga à disputa do título. Contra o Brasil, os Diabos Vermelhos da Europa jogaram um grande primeiro tempo, quando marcaram seus dois gols. O time de Tite diminui no segundo, quando jogou melhor e, sem sucesso, buscou se igualar no placar.

O primeiro gol foi contra. Aos 16’, Fernandinho tocou com o ombro a bola cabeceada pelo zagueiro Kompany, após cobrança de escanteio. O segundo saiu do grande nome do jogo: o clássico meia De Bruyne. Aos 30’, ele acertou  um belo chute cruzado de fora da área, em contra-ataque puxado pelo atacante Lukaku, na inversão de funções entre armador e finalizador. O gol brasileiro sairia aos 29’ da etapa final. Também de cabeça, o meia Renato Augusto converteu um passe açucarado de Philippe Coutinho.

A Bélgica mexeu na sua linha de três zagueiros. E, diferente das oitavas contra o Japão, sua defesa hoje mostrou solidez. Mas, como antecipado aqui, o treinador espanhol Roberto Martínez escalou Fellaini como titular, para reforçar a pegada no meio de campo. Em outra mudança tática também prevista, De Bruyne fez seu primeiro jogo nesta Copa mais perto do ataque, como atua no Manchester City. No vácuo do volante Casemiro, suspenso da partida pelo segundo cartão amarelo, o meia belga encontrou o espaço para ser regente e solista do primeiro tempo. Muito bem assessorado por Lukaku e pelo camisa 10 Eden Hazard, outro astro da Premier League, que estava em dia inspirado.

Os belgas voltaram ao segundo tempo com a vantagem de 2 a 0 no placar. Para correr atrás do prejuízo, o Brasil voltou a campo com o centroavante Firmino, no lugar do meia Willian. Na mesma intenção, aos 12’ Tite tirou o atacante Gabriel de Jesus — que saiu da Copa da Rússia sem marcar um gol — e colocou o meia Douglas Costa. Autor de várias jogadas pelo lado direito do ataque, ele provou mais uma vez que não poderia ser reserva. O gol brasileiro, no entanto, sairia de outra mudança do treinador: Renato Augusto entrou no lugar de Paulinho aos 27’. E diminuiu a diferença no placar dois minutos depois.

Muito bem no primeiro tempo, a Bélgica atuou pelo resultado no segundo. E cedeu a iniciativa do jogo ao Brasil, tentando explorar os contra-ataques. Com muitos erros coletivos no passe e sem o brilho individual da estrela Neymar, ainda assim a Seleção teve duas boas oportunidades para empatar. A primeira foi novamente de Renato Augusto, que penetrou pela área aos 35’, em outro belo passe de Coutinho, mas chutou à esquerda do gol. Aos 36’ Aos 48’, o goleiro Courtois faria uma bela defesa, de mão trocada. A bola foi batida com a chapa do pé, de fora da área, por Neymar.

Depois de decepcionar na Copa de 2014 e na Eurocopa de 2016, a Bélgica estreou na Rússia com as melhores atuações (aqui) da fase de grupos. Tomou um susto danado nas oitavas, quando chegou a perder de 2 a 0 do Japão. Mas, diferente do Brasil, teve força (aqui) para buscar a virada e sair de campo com a vitória, sem prorrogação ou disputa de pênaltis. E hoje, com o triunfo merecido sobre Neymar e companhia, conferiu mais peso à sua camisa vermelha, ainda sem nenhuma das cinco estrelas da blusa amarela.

Depois do jogo, o zagueiro Miranda, que travou um duelo à parte com Lukaku, e o técnico Tite disseram que o Brasil perdeu para um grande time. Por parte da torcida, os recalcados com a derrota de hoje, que em quatro anos não aprenderam nada com o 7 a 1 de 2014, certamente dirão se a Bélgica for derrotada pela França, na semifinal da próxima terça (07): “Tá vendo? Perdemos para ninguém!”. Se acontecer, é do jogo, como foi hoje com o Brasil.

Para quem gosta mais de futebol do que de nacionalidades, ficam as palavras de Tite sobre a partida: “quem aprecia o bom futebol vai ver que esse jogo foi um espetáculo”. O Brasil tentou, mas em seu primeiro teste de fogo na Copa da Rússia, a esperança pelo Hexa se apagou diante dos Diabos Vermelhos de De Bruyne, Lukaku e Hazard. Na bola!

 

 

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França elimina o milagre uruguaio da Copa da Rússia

 

Segundo gol da França no 2 a 0 sobre o Uruguai, em falha do goleiro Fernando Muslera (Foto: Frank Robichon – EFE)

 

Acordei já no segundo tempo de França e Uruguai. Peguei o jogo já com 1 a 0 para os franceses. Que, num frango do goleiro Fernando Muslera, ampliaram e deram números finais do placar. Bonito ver essa garotada multirracial dos Bleus jogar e confimar em campo a condição de candidata ao título. Mas, no choro do excelente zagueiro José Giménez, não há como deixar de se enternecer com a eliminação da Celeste Olímpica.

O apelido do Uruguai vem do futebol que dominou a América do Sul e o mundo na primeira metade do séc. XX. Bi-campeões olímpicos, em 1924 e 28, antes de sediarem e ganharem a primeira Copa do Mundo, em 1930, os uruguaios se consideram, com razão, os primeiros tri-campeões mundiais no esporte bretão. De 1950, quando ganharam novamente a Copa, no 2 a 1 contra o Brasil, dentro do Maracanã, é desnecessário falar. E para quem acha que isso é um passado distante, que avalie o peso da ausência do atacante Edinson Cavani no jogo de hoje.

Esses dias, em conversa com alguém querido, falava sobre a Bélgica. E disse que, diferente da Croácia, herdeira do futebol da antiga Iugoslávia, os belgas têm uma boa geração, mas não uma escola. Aí, meu interlocutor perguntou: “E o Uruguai, tem uma escola?”. Ao que emendei de prima: “O Uruguai é a escola!”. Primeira grande potência sul-americana no esporte, com apenas 3,4 milhões de habitantes, se iguala no campo ao Brasil (207,7 milhões) e à Argentina (43,8 milhões). O Uruguai é um milagre do futebol.

Ex-província brasileira da Cisplatina, da cultura que o pequeno país criou na América do Sul, o time de Tite e Neymar agora é o único sobrevivente na Copa da Rússia.

 

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Contra a Bélgica, Brasil tem hoje seu primeiro teste de fogo na Copa

 

O Brasil de Neymar terá hoje, contra a Bélgica, seu primeiro teste de fogo na Copa da Rússia (Foto: CBF)

Por AluysioAbreu Barbosa

 

O Brasil terá às 15h de hoje, contra a Bélgica, seu primeiro teste de fogo na Copa da Rússia. E vice-versa. O vencedor já saberá seu adversário na semifinal, que será definido entre a França e o Uruguai, a partir das 11h. Ao lado dos uruguaios, o time de Tite tem a melhor defesa do Mundial, com apenas um gol sofrido. E hoje terá pela frente o melhor ataque da Copa: a decantada geração belga marcou 12 gols em quatro jogos, média de três por partida.

Nas quartas de final, os dois times poderão trazer mudanças em relação aos titulares que atuaram nas oitavas. Na Seleção Brasileira, é uma certeza. Tite ontem anunciou que Marcelo volta à lateral-esquerda, bem ocupada nos dois últimos jogos por Filipe Luís. Considerado o melhor do mundo na posição, o atleta do Real Madrid está curado da lombalgia que o tirou de campo no começo da partida contra a Sérvia. Outro jogador do clube madrilenho, Casemiro está suspenso pelo segundo cartão amarelo, na vitória de 2 a 0 sobre o México, e será substituído por Fernandinho.

Apesar de estar em melhor fase do que Gabriel Jesus, o centroavante Firmino começa do banco. Mas é opção certa no segundo tempo, se o titular não desencantar e o time precisar de gols. Outra alternativa ofensiva é o meia Douglas Costa, que entrou muito bem contra a Costa Rica e está curado da lesão muscular sofrida naquele jogo.

Na Bélgica, nenhuma mudança foi confirmada, mas o técnico espanhol Roberto Martínez pode repensar a linha de três zagueiros, considerada uma das causas do sufoco tomado na virada de 3 a 2 sobre o Japão. Composta de jogadores altos, mas pesados e lentos, a manutenção dessa linha seria ideal para jogadores leves, habilidosos e rápidos, como Phillipe Coutinho, Willian, Gabriel e Neymar.

 

Capa da Folha de hoje (06)

 

Por outro lado, se mostrou deficiências defensivas, A Bélgica tem um quarteto ofensivo tecnicamente tão bom quanto o do Brasil: Kevin De Bryne na armação, Dries Merten pela direita, Eden Hazard pela esquerda, tendo à frente Romelu Lukaku. Como os brasileiros, todos são destaques jogando por grandes clubes da Europa. Ontem, o centroavante belga mostrou respeito ao falar em português para defender Neymar das críticas que o craque brasileiro vem sofrendo por conta das simulações nos quatro primeiros jogos:

 

Em português, o atacante belga Lukaku defendeu Neymar na coletiva de ontem

 

— Para mim, Neymar não é ator. Os adversários são mais duros com ele porque Neymar tem qualidades que não são normais. Para mim, no futuro, ele será o melhor do mundo. E estou feliz porque amanhã vou jogar contra ele pela segunda vez na minha carreira — disse Lukaku na coletiva de ontem. Todavia, o atacante alto, forte e inteligente não deve se furtar hoje em forçar a marcação hoje em cima dos baixos laterais brasileiros Fagner e Marcelo, para tentar o cabeceio em bolas alçadas na área. Foi através das jogadas aéreas que a Bélgica conseguiu virar o placar contra os japoneses.

Nivelados aos brasileiros na técnica com a bola rolando, os belgas podem também trazer outra novidade para tentar levar vantagem nas bolas altas: Maroune Fellaini, de 1,94m, está cotado para ganhar uma vaga de titular no meio de campo. De cabeça, ele marcou o gol de empate contra o Japão. Considerado um dos melhores jogadores da Premier League da Inglaterra e cérebro da Bélgica, De Bruyne não vem de boas apresentações na Rússia. Hoje, ele pode jogar mais próximo do ataque, como atua no Manchester City.

Se o Brasil conquistar vantagem no placar, uma alteração provável é a entrada do zagueiro Marquinhos. Como volante, seu aproveitamento no decorrer da partida foi aventado ontem por Tite, em coletiva. O jogador já atuou na posição no Corinthians, então treinado pelo técnico da Seleção. E voltou a fazê-lo, quando entrou no segundo tempo contra o México.

Também ontem, foi anunciado que o lateral-direito Danilo, com lesão no ligamento do tornozelo esquerdo, está fora da Copa. Num time que tem seus destaques em Neymar, Philippe Coutinho e no zagueiro Thiago Silva, três craques de bola, o Brasil entra em campo por uma sorte melhor.

Na única vez que se enfrentaram em Mundial, nas oitavas da Copa de 2002, os brasileiros venceram um jogo duro por 2 a 0. Os belgas até hoje reclamam por um gol de Marc Wilmots, anulado por falta em Roque Júnior, quando o placar ainda estava 0 a 0. Hoje, quem vencer encara depois outro teste de fogo, contra França ou Uruguai. O sobrevivente joga como favorito a final.

 

Página 10 da edição de hoje (06) da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

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Os elementos da equação entre Brasil e Bélgica

 

Algumas considerações sobre o Brasil e Bélgica, que definirá às 15h desta sexta (06) um semifinalista da Copa da Rússia:

 

 

1 – Suspenso do jogo pelo segundo cartão amarelo, a imprensa belga estranha como os brasileiros não se preocupam com a ausência de Casemiro no meio de campo. No Real Madrid, ele foi feito titular por alguém que conhece um pouquinho do setor: Zinédine Zidane.

2 – Sem Casemiro, o Brasil vai (aqui) de Fernandinho como primeiro e único volante. Se o titular não estivesse suspenso, o reserva possivelmente entraria no lugar de Paulinho, para tentar conter a habilidade e vocação ofensiva dos belgas.

3 – Na coletiva de hoje, Tite disse que pode voltar a usar o zagueiro Marquinhos como volante. No Corinthians, o treinador já usou o jogador na posição, na qual atuou também pela Seleção, quando entrou no segundo tempo das oitavas de final contra o México.

4 – Tite também confirmou a volta de Marcelo ao time. Com lombalgia, ele saiu no começo do jogo contra a Sérvia e assitiu do banco à vitória sobre o México. Seu reserva Filipe Luís jogou bem, é melhor defensor e mais alto. O time belga venceu o Japão na altura dos seus jogadores.

5 – Embora também venha jogando bem, o lateral-direito Fagner é outro jogador baixo na defesa brasileira. Atacantes altos e inteligentes, como Lukaku, tendem a forçar a marcação em cima dos defensores mais baixos, nas tentativas de cabeceio.

6 – Em melhor fase do que Gabriel Jesus, o centroavante Firmino começa o jogo no banco. Se o Brasil precisar de gols, sua entrada é certa. Outra opção ofensiva é o meia-atacante Douglas Costa, que entrou muito bem contra a Costa Rica e está recuperado da lesão muscular.

7 – Brasil e Bélgica se enfrentaram cinco vezes. Foram quatro vitórias brasileiras e uma belga. Em Copa, só se cruzaram uma vez: o jogo duro pelas oitavas em 2002, vencido pelo Brasil por 2 a 0. Mas os belgas reclamam até hoje de um gol anulado quando o placar ainda estava zerado.

8 – O Brasil tem um quarteto ofensivo temido, com Philippe Coutinho, Willian, Gabriel Jesus e Neymar. Mas o mesmo pode se dizer do formado pelo armador De Bruyne, Mertens à direita, Hazard à esquerda e Lukaku na frente. Pela qualidade dos jogadores, podem sair muitos gols.

9 – A defesa belga é alta, mas lenta. Pode ser explorada pelo ataque brasileiro, formado por logadores leves, hábeis e rápidos. Em contrartida, a defesa do Brasil é tão boa quanto o ataque. Na Copa, o time de Tite só levou um gol. Mas não atuou sem Casemiro à frente da zaga.

10 – Uma das causas do sufoco contra o Japão (aqui), a linha belga de três zagueiros pode não ser repetida. O técnico Roberto Martínez pode adotar duas linhas de quatro. O meia Fellaini pode ganhar uma vaga. E De Bruyne, que não vem bem, também pode jogar mais próximo ao ataque.

11 – Já virou lugar comum falar da geração belga. Jogadores como Hazard, Courtois, De Bruyne e Lukaku brilham em grandes clubes ingleses. Todos estão no auge, após o amadurecimento em 2014, no Brasil, quando foram eliminados pela Argentina nas quartas de final da Copa.

12 – Faltam à Bélgica as conquistas. Já tiveram grande times, como o de Scifo, Gerets, Pfaff e Ceulemans, que chegou às semifinais da Copa de 1986, seu melhor desempenho em Mundiais. Mas nunca ganharam nem uma Eurocopa. Sua camisa não pesa no varal. A do Brasil, sim.

13 – Elogiada desde 2014, a Bélgica apresentou (aqui) o melhor futebol da fase de grupos em 2018. Mas seu único jogo contra um grande não conta, pois a vitória de 1 a 0 sobre a Inglaterra foi um confronto entre reservas. O Brasil é o seu primeiro grande teste na Rússia. E vice-versa.

14 – Badalados pelo que jogaram na fase de grupos, os belgas cairam na realidade com a atuação decepcionante contra o Japão. Seus jogadores assumem o favotismo do Brasil. Por outro lado, se foram capazes de jogar mal e virar um placar de 2 a 0, o que poderão fazer se jogarem bem?

15 – O Brasil é o segundo colocado no ranking de seleções da Fifa. A Bélgica é a terceira. Primeira, a Alemanha ficou na fase de grupos. Quem passar às semifinais, terá outro jogo muito duro, contra França ou Uruguai. O sobrevivente fará a final na condição de favorito.

16 – Ao lado do Uruguai, o Brasil tem a melhor defesa: levou apenas um gol. A Bélgica tem o melhor ataque, com 12 gols em quatro jogos. A última vez que, com a melhor defesa, o Brasil cruzou em Mundial com o melhor ataque, foi na semifinal de 1958, contra a França. O placar foi 5 a 2 para os únicos sul-americanos a terem vencido uma Copa na Europa. Há exatos 60 anos.

 

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Guilherme Carvalhal — Pôr do sol

 

 

Nesse momento quando chega o meio termo entre dia e noite, por dentro me sinto igualmente dividido. Essa é a hora em que a grande maioria da humanidade muda sua rotina, saindo do trabalho e retornando para casa, migrando da labuta para o lazer e a ociosidade. Igualmente, eu transito entre dois polos de mim mesmo.

Assim como o sol ao longo do horizonte se põe e as lâmpadas nos postes acendem, por dentro de mim emerge uma mistura de escuridão interrompida por lampejos de lumes. A própria vida que se almejava apagar, feito desligar uma lâmpada no interruptor sem a opção de voltar atrás.

De que me adiantaria permanecer numa vida sem sentido e sem aspirações? Isso ao que chamo de vida não me apetece. Quando o dia finda em uma explosão celeste entre o róseo e o alaranjado, toda essa beleza não me diz nada. Ela apenas me indica uma quebra atemporal, uma mudança nos ponteiros. Meu coração não exulta nem nada. Apenas serve para me lembrar da apatia que me acomete.

Por dentro, me pergunto diariamente: devo dar um fim à minha vida ou seguir como essa contraposição entre clarões e escuridão que assola minha alma? Valeria a pena para mim, ciente de que cada momento de paz, de amenidade, sempre será seguido por uma decadência inusitada, pairando sobre mim uma nuvem densa que lança suas chuvas sem avisar, seguir adiante?

Havia como dar um fim nisso. Saber que um pôr do sol poderia ser meu último momento. Saber que minha alma se amainaria paulatinamente até dar espaço a uma noite sem lua nem estrelas. Porém, ao contrário do movimento de rotação, não haveria porvir. Haveria o eterno pausar do tempo. Sem novas noites, sem novo amanhecer. Apenas o vazio eterno da morte.

Nesse começo de anoitecer que pela janela me saltam os pensamentos mais pujantes. Quando a noite ganha força, vejo como um fechar de ciclo que me arrasta mais e mais para dentro de um buraco negro, para um caminho sem volta. Sinto por dentro meu coração feito uma estrela, e que pouco a pouco se apaga, para em uma última faísca deixar de brilhar para sempre.

Ou até que um novo nascer do sol o faça voltar.

 

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Comandante do ataque da Bélgica, Lukaku defende Neymar

 

Não foram apenas a torcida e ex-craques brasileiros, como (aqui) Ronaldo Fenômeno e Rivaldo, que se levantara em defesa de Neymar, crucificado internacionalmente (aqui) por suas simulações em campo. Em bom português, o perigoso centroavante Romelu Lukaku, que comanda o ataque da Bélgica contra o Brasil, hoje também levantou a bola do camisa 10 adversário:

 

Adversário amanhã do Brasil, hoje o atacante Lukaku defendeu Neymar

 

—  Para mim, Neymar não é ator. Os adversários são mais duros com ele porque Neymar tem qualidades que não são normais. Para mim, no futuro, ele será o melhor do mundo. E estou feliz porque amanhã vou jogar contra ele pela segunda vez na minha carreira.

 

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Marcelo volta contra Bélgica. Fernandinho substitui Casemiro

 

Marcelo e Fernandinho entram em campo contra a Bélgica. No banco, zagueiro Marquinhos será opção como volante (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Tite confirmou agora há pouco que Marcelo voltará ao time titular do Brasil nas quartas de final contra a Bélgica, às 15h desta sexta (06). E, como o blog já havia adiantado aqui, Fernandinho será o susbtituto de Casemiro, suspenso pela segundo cartão amarelo. A despeito da boa fase de Firmino, Gabriel Jesus também foi confirmado no comando do ataque.

Se não fosse a ausência forçada de Casemiro, é possível que Fernandinho tomasse o lugar de Paulinho entre os 11 que entram em campo amanhã. O objetivo seria reforçar a marcação no meio de campo, para tentar conter a habilidade e a vocação ofensiva dos belgas.

Caso seja necessário no decorrer da partida, sobretudo se o Brasil estiver em vantagem no placar, é  provável que o zagueiro Marquinhos entre como volante. Ele atuou na posição quando entrou contra o México, nas oitavs. Assim como no Corinthians, quando era treinado por Tite.

Sobre a opção de Marquinhos, o treinador da Seleção falou:

— Como primeiro meio-campista mais atrás, assim como ele entrou (contra o México). É um jogador versátil, que já jogou comigo. Aliás, o primeiro jogo do Marquinhos no profissional (do Corinthians) foi um clássico contra o Palmeiras jogando como volante. Então ele tem as ferramentas para jogar ali.

 

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Protagonistas do Penta apoiam Neymar na busca do Hexa ao Brasil

 

Para muita gente boa, Ronaldo Fenômeno foi o maior camisa 9 do futebol mundial. E ninguém que duvida que Rivaldo tenha sido um dos maiores camisas 10 da Seleção Brasileira. Juntos, eles foram os principais responsáveis pela conquista do Penta, em 2002, nos campos do Japão e Coreia do Su. Hoje, ambos entraram de novo em campo. Mas na defesa: de Neymar.

O craque presente do Brasil tem sido alvo (aqui) de um bombardeio da crítica internacional por suas simulações nos quatro jogos da Copa da Rússia.

 

Ronaldo Fenômeno e Neymar

 

— O futebol tem muitas visões e interpretações. Eu sou contra essas opiniões. Eu acho que o Neymar usa de maneira muito inteligente a sua mobilidade para se defender de todas as pancadas e porradas que leva durante o jogo. Acho que os árbitros tem sido pouco protetores com ele. Eu era alvo de jogadas violentas repetidamente e me sentia injustiçado. Essas críticas são bobagens. O resultado que ele está entregando para a Seleção Brasileira é maravilhoso. Temos que ser mais técnicos nos comentários e menos conversa fiada de boteco — alfinetou Ronaldo em entrevista.

 

Rivaldo e Neymar

 

— Neymar, jogue como sempre jogou e não se preocupe com os comentários dos outros países, porque muitos já estão em casa. Se tiver que driblar, drible; se tiver que dar chapéu, dê. Se tiver que fazer gol, faça. Se tiver que cair com as faltas, caia. E se tiver que ganhar tempo no chão, ganhe. Porque todos fazem o mesmo. O problema é que você é o cara da Copa e ídolo do nosso país e, infelizmente, isso está incomodando muita gente, eu não sei por quê. Vai pra cima, como sempre e continue nos encantando com teu futebol — pregou Rivaldo nas redes sociais.

Com esse apoio, fica um único lamento: o tempo que separou os três craques no campo.

 

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Admirável mundo novo — Aberta a disputa ao título de babaca da Copa

 

A disputa pelo título de babaca da Copa está aberta. E, como na Rússia, ingleses e brasileiros também despontam como candidatos à final. Na capa do tabloide The Sun, jornalistas ingleses anunciaram (aqui) o Inglaterra e Colômbia com um trocadilho ligando o segundo país à produção de cocaína — da qual o primeiro é um dos maiores consumidores no mundo.

 

Após atuação brilhante contra a Argentina, o craque francês de origem africana Kylien Mbappé foi alvo de tuíte racista pelo youtuber brasileiro Júlio Cocielo

 

Mas não faltou quem se apresentasse à tabela com a cretinice. Após a vitória de 4 a 3 da França sobre a Argentina, quando o jovem craque francês Kylian Mbappé impressionou o mundo pela velocidade e habilidade do seu futebol, o jogador de ascendência africana mereceu o seguinte comentário do youtuber brasileiro Júlio Cocielo:

 

 

Cocielo possui 7,4 milhões de seguidores no Twitter, 11,2 milhões no Instagram e o Canal Canalha, mantido por ele no YouTube, 16,2 milhões. Acusado de racista pelo tuíte, ele o apagou e publicou um pedido de desculpas:

— O tuíte foi interpretado de mil formas diferentes e gerou uma enorme discussão. De qualquer forma, não existe justificativa, isso fez eu me sentir muito mal só de imaginar ter sido uma pessoa escrota. Arrependido e aprendido! Lição pra vida! Nunca mais se repetirá! (…) Peço desculpas publicamente.

Apesar do ato de contrição, internautas irritados pelo tuíte sobre o craque francês vasculharam os perfis de Cocielo nas redes sociais. E encontraram diversas outras postagens ofensivas feitas anteriormente. Em 2013, ele tinha escrito que só seria possível deixar de fazer piadas de negros caso eles fossem exterminados. No mesmo ano, falou que não faria vídeo sobre o Dia da Consciência Negra porque na cela não havia wi-fi.

 

Casamento dos youtubers Tata Estaniecki e Júlio Cocielo no luxuoso resort Barceló Bávaro Palace em Punta Cana, na República Dominicana. A festança de quatro dias foi bancada pelos milhões de seguidores do casal nas redes sociais

 

Por conta da polêmica, patrocinadores romperam seus contratos com o influenciador virtual. Foram os casos da Adidas, do banco Itaú e da varejista virtual Submarino. Para se ter uma ideia dos dividendos pecuniários que esse admirável mundo novo são capazes de render, Cocielo se casou em março com a também youtuber Tata Estaniecki, no luxuoso resort Barceló Bávaro Palace em Punta Cana, na República Dominicana. A festança durou quatro dias.

Ironicamente, os críticos do “politicamente correto” geralmente se identificam mais com o espectro político da direita. E as sanções que o youtuber politicamente incorreto recebeu pelo tuíte sobre Mbappé foi o mais capitalista possível: no bolso. Mais ou menos como os EUA, eliminados da Copa da Rússia pelo Panamá, costumam fazer com os países que não rezam em sua cartilha. A não ser que tenham ogivas nucleares e mísseis transcontinentais, como a Rússia e a Coreia do Norte. Aí, o mundo real se impõe.

 

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