Ricardo André Vasconcelos — O enterro do presidencialismo e o farfalhar das togas

 

Congresso Nacional (desenho de Oscar Niemeyer), ganha protagonismo com instabilidade do presidencialismo

 

 

Num regime presidencialista como o nosso, é normal que as eleições majoritárias ocupem a maior parte das preocupações dos eleitores, da mesma forma como consomem o tempo e energia dos atores políticos na construção de articulações e alianças. Afinal, é na figura do presidente da República que se concentra, até agora, as grandes decisões nacionais. O elemento recente neste cenário é o crescente protagonismo dos outros dois poderes  (Legislativo e Judiciário, de formas distintas) na mesma medida da perda de eficiência e credibilidade do Executivo. Daí que, as eleições para a 56ª Legislatura (2019-2023) se revestem de especial importância porque os 513 deputados de federais e 57 senadores (2/3 do Senado) a serem eleitos no pleito de 7 de outubro próximo, atuarão numa realidade de semipresidencialismo ou semiparlamentarismo porque, na prática, o presidencialismo acabou.

O fim do presidencialismo da forma como conhecemos hoje, talvez seja o grande legado do governo Temer. Tornar-se refém da Câmara dos Deputados para livrar-se de duas denúncias — uma terceira estaria a caminho — por crimes cometidos durante o mandato e depois de ascender ao poder num golpe parlamentar, pode ter sido a pá de cal no sistema de governo que, desde a redemocratização, já se metamorfoseara em “presidencialismo de coalizão”. Todos seus antecessores — de Sarney à Dilma — bem ou mal governaram nesta corda bamba que os obrigaram a fatiar a administração pública em feudos representativos das forças políticas espalhadas pelos muitos partidos e em facções partidárias. Sarney, Itamar, Fernando Henrique e Lula tiveram jogo de cintura suficiente para concluir seus mandatos. Collor e Dilma apostaram na força do presidencialismo de direito e perderam para o parlamentarismo de fato. Foram mandados para casa mais cedo, mas foi Temer que levou o presidencialismo ao fundo do poço pelos atos e fatos recentes.

A origem desta distorção estaria na Constituição de 1988, de inspiração e concepção parlamentarista, mas na hora de os constituintes escolherem o sistema de governo deu presidencialismo. Decisão referendada por 69,2% dos eleitores que compareceram às urnas no 21 de abril 1993. Outros 24,6% optaram pelo parlamentarismo, 14,7% anularam o voto e 5,2% votaram em branco e 25,7 % do eleitorado simplesmente não compareceram. Exatos 30 anos antes do plebiscito de 1993, a derrota do parlamentarismo nas urnas foi ainda mais acachapante. Cerca de 80% dos eleitores da época escolheram a volta do presidencialismo, interrompido dois antes como única forma de tornar aceitável a posse do então vice-presidente da República, João Goulart em substituição ao titular, Jânio Quadros, que havia renunciado.

Ao imaginar o Estado tripartido em três poderes independentes, Montesquieu (1689-1755) mirava no absolutismo do Rei que, por unção divina, enfeixava em suas mãos poderes para fazer as leis, executá-las e ao mesmo tempo julgar e punir quem não cumpri-las. Dois séculos mais tarde, esse sistema de freios e contrapesos ainda funciona da mesma forma suscetível a inevitáveis ajustes de percurso, como estes a que o Brasil estará inevitavelmente sujeito nos próximos anos e, de preferência, já a partir das eleições de outubro.

Para esticar um pouco mais a reflexão, dentro do espírito dos poderes independentes e harmônicos, entende-se que para o Estado funcione imune à tentação da tirania, o Poder Legislativo tem mecanismos para conter uma episódica hipertrofia do Executivo e vice-versa. No enquanto, como neutralizar eventuais exageros da terceira perna do tripé de Montesquieu? Como a democracia reagiria ante uma possível ameaça oriunda do farfalhar das togas negras?

Coadjuvado por um Ministério Público cada vez mais onipresente, o Poder Judiciário ganha cada vez mais relevância e ares de imprescindibilidade, muito mais pela crescente descrença do Executivo e Legislativo do que pelos seus próprios méritos. Que esse protagonismo da Justiça é um bom freio de arrumação para a bandalha generalizada que tomou conta da política, não há dúvida. O desafio que se impõe é cuidar para que seus integrantes não se comportem como absolutistas imbuídos de uma missão salvadora da pátria como já se percebe aqui e ali. Para a vitalidade da democracia, não se inventou nada mais moderno e eficaz do que a velha fórmula de independência e harmonia entre os três poderes.

 

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Orávio de Campos — A política cultural e a urbe silenciosa

 

 

 

O atual governo municipal, por pura insapiência, está promovendo, deliberadamente (ou por desconhecimento de causa?), o desmonte de todo sistema municipal de cultura da cidade, elaborado, por força de sua adesão ao Sistema Nacional de Cultura (Lei Federal 12.343/2.010), nos oito anos do governo da prefeita Rosinha Garotinho, inclusive equipamentos culturais preciosos estão sofrendo a falta de interesse e de manutenção.

Para a formalização da adesão ao sistema, o que ocorreu em 2009, a urbe precisou se organizar, através da edição de mecanismos legais no sentido de cumprir seus preceitos filosóficos, envolvendo os eitos das culturas simbólica, cidadão e econômica, abrindo, com isso, perspectivas para que artistas de todas as correntes estéticas pudessem/possam viver de sua arte, independentemente de seu comprometimento político-partidário.

No primeiro momento, através de um olhar democrático, restabeleceu-se, com suas representações sociais e políticas, o Conselho Municipal de Cultura, bem como foram criadas as câmaras técnicas abrangendo todas as manifestações culturais, incluindo o carnaval e as demais de fulcros populares. Foram realizadas cinco conferências, a primeira delas nos estertores do governo de Alexandre Mocaiber, sob a presidência de Luciana Portinho.

Para dar cunho ao trabalho, a prefeita, em sua disposição prática, criou, através da Lei Municipal 8.205, de 28/12/2010, o Fundo Municipal de Cultura que, vencendo as barreiras burocráticas impostas pelo Tribunal de Contas do Estado, conseguiu publicar e executar dois editais públicos, beneficiando instâncias produtivas indicadas e devidamente aprovadas pelo Comitê Gestor, eleito pela maioria absoluta dos conselheiros.

Através de amplas discussões, com a aprovação prévia das câmaras técnicas, a prefeita sancionou a Lei Municipal 8.530, de 19/12/2013 e, antes, atendendo, igualmente, às pautas do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico (Coppam) estabeleceu, com rigor, a Lei Municipal 8.487, de 31/03/2013, passando a existir, pela primeira vez um instrumento que permitiu/permite o tombamento de cerca de 300 prédios do centro histórico, o maior conjunto de arquitetura eclética do interior do Estado do Rio de Janeiro.

Poucos sabem, mas a cidade possui, também, a Lei Municipal 8.525, de 17/12/2013, que dispõe sobre a destinação e o recebimento de patrocínio pelo poder público e estávamos cuidando, também através das câmaras, da edição de uma nova lei sobre incentivos fiscais, em favor das produções culturais; e do famoso Plano Municipal de Cultura, prevendo-se sua aplicabilidade, independente de forças partidárias, ao longo dos próximos 10 anos.

Com o apoio inconteste da então vereadora Auxiliadora Freitas e com a vontade política do presidente do Legislativo, o preclaro Dr. Edson Batista, todas as disposições legais da cultura foram inseridas na reforma da Lei Orgânica do Municipal (LOM), editado em 26 de agosto de 2014, através dos artigos 264 a 290. Lá está escrito: “O Conselho Municipal de Cultura, criado e regulamentado por lei própria, é reconhecido como instância deliberativa na formulação da política de cultura do município (…)”.

Não nos cabe criticar pessoas pelos descaminhos culturais, até porque sempre consideramos que o partido da cultura deveria ser, no mínimo, o “Partido Alto”. Mas não podemos ficar calados diante do desmonte das leis e dos equipamentos ao longo desses 14 meses. Os conselhos estão teoricamente desativados e dependentes de outras conferências para indicar os novos atores que dariam continuidade ao trabalho das câmaras técnicas.

O de Cultura andou realizando algumas reuniões pontuais, mas o Diário Oficial não registrou nenhuma providência com relação às pautas da V Conferência. E o Coppam, um órgão técnico, que incomodava grupos econômicos interessados em esterroar o patrimônio do centro histórico, também não tem atuado. E é com tristeza que registrarmos algumas perdas provocadas por decisões monocráticas, prova cabal do afastamento das representações comunitárias — o que contraria o estabelecido pela Lei 8.487/2013.

Quanto aos equipamentos, estamos diante de um circo de horrores. O Trianon, o Teatro de Bolso e o Arquivo Público não recebem investimentos suficientes para manutenção e as águas pluviais penetram nos sagrados espaços por ocasião das enxurradas. O Ceopo está abandonado por falta de políticas culturais, o mesmo ocorrendo com relação ao Palácio das Crianças. E o Museu Histórico, instalado no Solar do Visconde de Araruama, está recebendo chuva pelas claraboias e as paredes descascam pelo desleixo para com a coisa pública.

O que mais causa espanto, todavia, é que não vemos muitas pessoas e instituições reclamando contra a desfaçatez do sistema, o que nos faz refletir sobre a obra de Jean Baudrillhard, “À Sombra das Maiorias Silenciosas”.  Pode ser, em tese, que estejam todos armazenando forças para um momento mágico de contestação. Ou existe uma cumplicidade consciente no discurso tênue e comprometido dos descontentes?

O que se constata, infelizmente, é que tudo está realmente mudando. Para pior…

 

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Igor Franco — Feliz Dia Internacional da Problematização

 

No próximo dia 8 de março, não dê flores a uma mulher, chame-a para uma pelada. Sim, futebol. Ou a Cláudia, da mesa do lado, nunca te disse da trivela de canhota dela? Ah, já sei. Você é daquele tipo que pressupõe que elas não gostariam de bater uma bola com a galera do serviço. Provavelmente, se tivesse um negócio voltado para mulheres, deixaria apenas revistas de moda e celebridades na recepção. Livre-se desse preconceito: encha a mesinha de centro com exemplares de Playboy e G Magazine, porque, afinal, não podemos pressupor a heterossexualidade de ninguém, tampouco a homossexualidade, o não-binarismo…

Se você não está entendendo nada, provavelmente perdeu o bonde da história e ainda não conferiu as “40 condutas micromachistas que você reproduz, ainda que não tenha consciência disso, publicadas no jornal El País por ocasião do Dia Internacional da Mulher. A lista não-exaustiva — dada a criatividade e o ócio dos censores modernos — enumera uma série de comportamentos que você deveria abrir mão imediatamente, como o quase criminoso ato de chamar uma mulher de “linda”. Aliás, talvez fosse o caso de você não se dirigir a uma mulher antes que lhe seja permitido, sob pena de ofender a sensibilidade de quem quer que seja.

Segundo o mesmo portal de notícias, o dia 8 de março foi um “dia de luta”, cuja maior realização internacional foi levar aos trending topics a hashtag #MeToo, popularizada pelas artistas hollywoodianas. Soube-se que, a partir de agora, maridos violentos desistirão de suas agressões e islamitas – parceiros estratégicos do feminismo nos países desenvolvidos – permitirão que suas mulheres andem sozinhas sem que corram o risco de serem apedrejadas vivas. Nada mais pós-moderno do que a pretensão de mudar o mundo através de manifestações coletivas de sentimentalismo, fundamentadas na ignorância de que a simples denúncia de um mundo dividido entre oprimidas e opressores, identificados como todo “macho” que não compartilhe integralmente da visão feminista radical e passe por um processo de expurgo público de sua culpa hereditária e involuntária. Na insaciável tarefa de eleger culpados, censurar comportamentos e buscar a solução de todos os problemas reais através de manifestações virtuais, de fato sobra pouco tempo para que pessoas tão boas realizem uma análise mais detida a respeito das múltiplas causas da violência contra a mulher.

No Brasil, por exemplo, fiquei sabendo pela mesma matéria que milhares de mulheres marcharam contra o machismo e a violência, mas também contra Temer (???) e a Reforma da Previdência (???).

O Dia da Mulher carrega uma carga política indissociável, tendo sua origem mais conhecida nas manifestações de operárias russas à época da Primeira Guerra Mundial, culminando no direito ao voto, permitido às mulheres ainda durante o moribundo regime de Nicolau II, defenestrado pelos revolucionários dias depois. O dia 8 seria posteriormente reconhecido como feriado soviético, ligado umbilicalmente a diversas manifestações de partidos socialistas ao redor do globo. Após tal concessão a elas, os bolcheviques decidiram que as mulheres deveriam funcionar apenas como ferramenta do regime – a nova mulher soviética seria responsável por lançar a semente da revolução em suas casas. O divórcio foi facilitado e, em pouco tempo, dado o contexto da época, mulheres separadas e seus filhos eram cada vez mais numerosos entre os famintos. O desastre foi tão grande que a ditadura soviética precisou voltar atrás nas liberdades concedidas e incentivar a tão detestada família patriarcal. O regime ainda reservaria a elas vagas cativas em campos de trabalhos forçados, onde condições desumanas e estupros faziam parte do pacote.

Se você pensou que usar uma suposta data comemorativa como ferramenta política é prática nova do feminismo, está enganado. A esquerda é historicamente hábil em usar mulheres como massa de manobra. O resultado, invariavelmente, é piorar ainda mais a realidade para suas supostas protegidas.

E aí, Cláudia, já vestiu as chuteiras?

 

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Morre a professora Cristina Salgado Rodrigues

 

Cristina Salgado Rodrigues (Foto: Arquivo de Família)

 

Morreu por volta das 20h30 de ontem (05), em sua residência, a professora Cristina Salgado Rodrigues, presidente do Educandário São José Operário. Ela tinha 68 anos e lutava bravamente, há cerca de um ano e meio, contra um câncer no fígado. Seu corpo será velado a partir das 8h de hoje, no São José Operário, que atende aos deficientes visuais de Campos e ao qual Cristina dedicou 23 anos da sua vida. O enterro será às 16h, no Cemitério do Caju.

Cristina faleceu em companhia do filho Cristóvão Hervé Lyzandro, do companheiro Walter Azevedo Júnior e da irmã, a jornalista Silvia Salgado. As duas são filhas do falecido jornalista e dramaturgo Hervé Salgado Rodrigues, durante muitos anos proprietário do jornal A Notícia, de maior circulação em Campos até o surgimento da Folha. Além de Hervezinho, Cristina deixa o filho Conrado Lyzandro, médico nefrologista conceituado no Rio de Janeiro, e cinco netos: Pedro, João, Hervé, Davi e Miguel.

Dona de belos olhos verdes, Cristina marcou todos que a conheceram pelo sorriso cativante e a elegância dos gestos. Amigo de adolescência de Hervezinho, tive o prazer de conviver com ela durante boa parte da minha vida. Mesmo agora distante de Campos, me solidarizo com sua família e legião de amigos e admiradores, entre os quais me incluo neste momento de sincero pesar.

 

 

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Alexandre Buchaul — Lava Jato, Chequinho, Sacolão…

 

 

 

Há algum tempo, conversava eu com um senhor que, do alto de seus mais de 80 anos, me relatava experiências de sua longa vida, sem a revolta ou o ímpeto dos jovens, sem o sarcasmo ou a indiferença dos canalhas, com a sabedoria de quem apenas contava histórias, não como quem diverte ou distrai-se apenas a passar o pouco tempo que lhe resta, mas como o ancião que pela tradição oral ensina, transmite sabedoria.

Dizia-me então, como quando ainda criança, com a curiosidade própria dos infantes, participava de um churrasco pela primeira vez na vida, algo estranho. Donde já se vira queimar carne no fogo? Contava que seu pai de forma alguma comera, achara tremendamente exótico comer carne sem que fosse frita. Nas traquinagens e correrias com as demais crianças, calhou que vissem, isso tudo corria no interior do Estado do Espirito Santo, homens chegados da capital, num “carrão”, algo bastante incomum e raro. Esgueiraram-se pelas beiradas do quintal, curiosos de saber o que faziam, de onde eram aquelas pessoas, foi quando vira, imaginem o assombro e deslumbre para uma criança pobre da roça, uma mala de dinheiro. Não sabia nada o então menino, apenas ficara admirado e correra a contar a seu pai o que vira. Como mandava o costume e a moral, fora repreendido. “Ficar por aí espiando os outros não era coisa de gente direita”, pouco importava se o era a mala de dinheiro. Apesar de não poder precisar a data, quem eram aqueles homens, ou sequer os governantes a época, ficaram as lições, uma aprendida à época, não se fica por aí espiando; a outra, aprendida com a experiência, de um jeito ou de outro sempre fora assim…

Ouvimos e vemos ações que nos deixam ora estupefatos, ora esperançosos, se jamais fora diferente, também jamais houvera uma operação Lava Jato. As ações da polícia federal que nos expuseram as entranhas nojentas da relação entre as empresas e os políticos, que pusera, “Como nunca antes na história do país”, gente graúda no banco dos réus, gente importante na cadeia. Saindo de Curitiba e chegando à Brasília as investigações, se levadas a cabo, deixarão sobrar pouco do que havia se estabelecido no modus operandi de nossos agentes político-empresariais. Cá em nossa planície já há envolvidos sendo investigados por desdobramentos dessa operação, pessoas habituadas as colunas sociais andam as voltas com o figurino que exibirão em outra parte dos jornais e, depois de ver o herdeiro do império da Odebrecht, amargar alguns meses de cadeia, já se percebem não mais intocáveis.

A justificativa, como se fosse justo, dos envolvidos é dizer que querem criminalizar a política, que os recursos desviados eram apenas caixa dois para alimentar campanhas eleitorais, para compra de apoio… tentam, admitindo crime menor, salvar os dedos enquanto se lhes vão os anéis. Lembro-me do senhor que ainda menino vira a mala de dinheiro, “sempre foi assim”. E observo com tristeza que a busca por subterfúgios que deem aparência justificável a compra de votos, compra de consciências, permanece viva como sempre. Dos percentuais desviados da Petrobrás e postos à luz pela Lava Jato, passando pelo Cheque Cidadão, inflado e distribuído a larga próximo a eleição e que deu origem a Operação Chequinho e chegando ao Sacolão a ser distribuído em ano eleitoral pelo governo municipal a partir de subterfúgio legal apelidado de Lei Marcão, não por acaso pretenso candidato a deputado, não há diferença.

Assistindo a um filme intitulado Ben-Hur, produção recente, não o “original”, após a corrida de bigas em que o Romano sai derrotado, o representante do Império Romano recebe condolências de interlocutor pela perda e responde “Perda? Veja isso! Eles querem sangue, são todos romanos agora”. Espero que o povo, após tantas notícias sobre corrupção e desvios de caráter, de tanto ser bombardeado com a exposição de negociatas, de privilégios que mesmo sendo legais, são imorais. De tantos chequinhos, auxílios moradia e sacolões não acabe por se tornar todo corrupto.

 

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Wladimir fala de Rafael, “venda do futuro”, legado e renovação

 

Por Aluysio Abreu Barbosa e Matheus Berriel

 

Como era de se esperar, o pré-candidato a deputado federal Wladimir Garotinho (sem partido) fez várias críticas ao governo Rafael Diniz (PPS). Assim como ao pré-candidato deste à Câmara Federal, vereador Marcão Gomes (Rede). O que surpreendeu foi que até chegou a elogiar o governo de Campos, no caso da redução do aumento no IPTU. Ainda assim, Wladimir prega que “Campos não aguenta mais três anos do governo Rafael”, conclamando que a população, como fez no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), saia às ruas no protesto marcado por Anthony Garotinho (sem partido) para o dia 8. Ele também falou da “venda do futuro”, do destino partidário da família e das operações Chequinho e Caixa D’Água. E desabafou, como filho, sobre a prisão dos pais. Herdeiro orgulhoso do legado popular do garotismo, ele defende novos métodos, aos quais credita sua boa aceitação também na classe média.

 

(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Folha da Manhã – Nas últimas pesquisas do instituto Pappel entre os pré-candidatos locais a deputado federal, você aparece liderando com folga em todas as zonas. A que credita essa vantagem?

Wladimir Garotinho – Primeiro, minha família tem um trabalho consolidado na cidade. Eu também milito na política desde 2008, no PR. Fui presidente do partido aqui; organizei reuniões em todos os bairros de Campos, então fiquei uma pessoa conhecida, participando de reuniões, conversando com a comunidade, ouvindo as demandas da comunidade e levando ao governo Rosinha. Algumas vezes conseguindo resolver, outras não, mas sempre dando o feedback à população. Eu nunca ia à comunidade simplesmente fazer uma reunião. Eu ia à comunidade, fazia a reunião e, tudo o que me era demandado, eu fazia questão de retornar, seja com a resposta positiva ou negativa. Acho que isso me deixou conhecido, me deu uma certa credibilidade nos locais por onde eu passei, e acho que é esse o motivo de, hoje, as pessoas estarem reconhecendo o nosso trabalho, mesmo que não à frente de um cargo, mas fazendo trabalho político nas bases.

 

Folha – O que mais surpreende é sua liderança também nas antigas 98ª e 99ª. A chamada “pedra”, na zona central da cidade, sempre foi refratária ao garotismo. Acha que você veio para quebrar essa resistência histórica da classe média ao seu grupo político?

Wladimir – Eu sou filho de um casal conhecido na cidade, mas sou de uma geração diferente. Tenho 33 anos, sou aqui da “pedra”, moro na “pedra”, convivo aqui. Ser liderado não significa ser submisso, eu tenho minhas opiniões próprias, minhas convicções. Hoje, a “pedra” está se sentindo enganada pelo modelo que o atual prefeito pregou na eleição, e acho que isso me credencia a ter essa expressão na pesquisa. Não sei se vai se resultar na eleição. Espero que sim, vou trabalhar para que sim.

 

Folha – Mas, você tem esse objetivo:  quebrar a resistência histórica da “pedra” ao garotismo?

Wladimir – Eu acho que o preconceito não parte só da “pedra” contra o Garotinho, pessoa física. Não ao que você chama de garotismo…

 

Folha – Os cientistas políticos e sociais que atuam no município é que chamam.

Wladimir – Isso também parte um pouco do Garotinho para com a “pedra”, porque o Garotinho sempre teve seus olhos mais voltados para a camada popular. Isso gerou uma animosidade entre ele e a chamada “pedra” de Campos. Eu tenho um legado a defender. Mas, também colocarei em prática o que eu penso em termos de ideias, propostas e realizações, atingindo também a “pedra”. Como falei, eu sou daqui, moro aqui, convivo e tenho amigos aqui. Acho que é importante a gente sempre frisar que a periferia da cidade sempre foi excluída de todo processo político. O Garotinho e a Rosinha trabalharam com a inclusão dessas pessoas. Posso citar como exemplo a passagem social, que incluiu essas pessoas e as aproximou da cidade. Hoje, as pessoas têm que pagar passagem mais cara para virem ao Centro da cidade. Isso exclui a periferia do Centro. Então, vou trabalhar defendendo o meu legado, que é o da minha família, mas também vou trabalhar para aquelas pessoas que têm uma certa rejeição ao grupo, mas que comigo não têm.

 

Folha – Você mora no entorno da Pelinca, não?

Wladimir – Sim. Na verdade, onde eu moro é Centro.

 

Folha – A pesquisas  ainda tinham o empresário César Tinoco (PPS) como pré-candidato do governo Rafael Diniz (PPS). Acredita que a substituição dele pelo vereador Marcão Gomes (Rede), presidente da Câmara, vai provocar mudança nos números?

Wladimir – Acho que não. Apesar de Marcão ser mais conhecido, é mais fácil ligá-lo a Rafael. Apesar de César ser amigo pessoal de Rafael, o braço direito, a pessoa que ele confia. Politicamente, é mais fácil ligar Marcão a Rafael, porque ele é o presidente da Câmara dos Vereadores. Sem a presença do presidente da Câmara, Rafael não poderia, por exemplo, ter aprovado as medidas impopulares que aprovou, como o aumento da taxa de iluminação pública, o fim da passagem social, o fim de programas sociais. Então, politicamente, para conversar com as pessoas, é muito mais fácil ligar Marcão a Rafael.

 

Folha – Você falou em medidas impopulares. Na postagem do blog Opiniões, que anunciou (aqui) a redução do reajuste no IPTU, uma leitora indagou (aqui) em comentário: “vai aprovar aumento de IPTU no mesmo ano da cobrança?”

Wladimir – Redução não é ilegal.

 

Folha – Exato. Depois, falando à coluna Ponto Final, o advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos esclareceu isso e fez críticas ao governo Rafael, mas creditou (aqui) essas medidas impopulares que você citou às “demandas reprimidas pelo populismo”. Concorda?

Wladimir – Eu não concordo, porque sempre se falou, e o Rafael e o Marcão falavam, a bancada de oposição falava, que precisava se pensar Campos além dos royalties. Nós tentamos fazer isso. Tentamos, várias vezes, mandar medidas para a Câmara, por exemplo, e o Carlos Alexandre foi um dos que entrou dizendo que é inconstitucional. Rafael criticava, Marcão criticava. Nós pensamos em fazer algumas…

 

Folha – Carlos Alexandre revelou (aqui) que o IPTU de 2010, que sua mãe queria aprovar, era inconstitucional, por ter sido votado no mesmo ano da cobrança. E ele estava certo, não?

Wladimir – Foi em 2010 e acho que teve outra…

 

Folha – Só que em 2010, na proposta travada do governo Rosinha, teve caso de aumento de até 150% no IPTU.

Wladimir – Mas, é diferente quando você fala de aumento de alíquota e valor venal. Quando você aumenta a alíquota, aumenta muito mais. O que Rafael, lá atrás, criticava, hoje ele está fazendo pior. Ele aumentou muito mais do que a gente propôs aumentar no passado.

 

Folha – Dezesseis por cento não é menos do que 150%?

Wladimir – Ele recuou, agora, por uma pressão da sociedade, das entidades, e eu acho até digno da parte dele recuar. Quando a gente erra e percebe que errou, a gente tem que dar o braço a torcer e recuar. Isso não é demérito nenhum. Nisso, ele acertou. Mas, ele recuou em um caso específico, o do IPTU, porque a pressão popular e das entidades foi muito grande em cima dele. Mas, nas outras, ele não recuou. Então, o que ele criticava lá atrás, quando nós tentamos fazer, que era Campos além dos royalties, para tentar gerar outros tipos de receita, ele agora está fazendo pior. Está aumentando muito mais, praticamente sufocando toda a teia produtiva da cidade de Campos. O dinheiro não circula, as pessoas estão sem condição e só têm que pagar imposto. Está cada vez mais difícil viver em Campos.

 

Folha – O principal ponto de sufocamento hoje parece ser (aqui) o transporte público. Quem não tem veículo próprio e mora na periferia, sobretudo na Baixada Campista, trabalha na área central e ganha salário mínimo, está praticamente trocando dinheiro para ir e vir de van.

Wladimir – Não é só a questão da passagem social. Muitas pessoas criticam, por exemplo, o programa Cheque Cidadão. Além de botar comida na mesa das pessoas, o programa Cheque Cidadão faz o dinheiro circular no comércio. Além de gerar emprego, renda. O fim da passagem social impede que o cara venha para o Centro. Se ele deixa de vir para o Centro, deixa de comprar aqui. Com o fim do Cheque Cidadão, o dinheiro deixa de circular no comércio. Também deixa de gerar emprego. Com isso, você vai criando um ambiente ruim na cidade, no ponto de vista econômico. Então, você acaba sufocando toda a cadeia produtiva; o dinheiro deixa de circular, e ainda vem um aumento absurdo de impostos e taxas. Ninguém consegue sobreviver a isso. A cidade não consegue sobreviver a isso. Rafael ficou preso a um discurso político e agora está preso a um problema técnico. Ele dizia que o problema era a “venda do futuro”. O problema ficou demonstrado pelos números da Prefeitura que não é a “venda do futuro”. O dinheiro da cessão de crédito que ele teve que pagar à Caixa foi 2,5% do orçamento dele. Aí você pode dizer: “ah, é porque conseguiu uma liminar”… Se ele não conseguisse (aqui) a liminar, não chegava a 8%. O problema não é a cessão de crédito, que foi necessária, lá atrás, para manter as coisas minimamente funcionando. O problema é que a arrecadação caiu.

 

Folha – Você faria, se fosse prefeito?

Wladimir – Eu faria. E acho que ele deveria ter feito.

 

Folha – Rafael deveria ter feito agora, no governo dele?

Wladimir – Deveria, porque não adianta ele querer fazer os ajustes necessários fazendo o povo sangrar. Precisa de ajustes? Precisa.

 

Folha – A máquina tem que ser enxugada?

Wladimir – Precisa de ajustes, precisa ser enxugada. Mas, de que adianta realizar os ajustes fazendo o povo sangrar, fazendo o povo passar fome, ficar desempregado? O próprio Marcão falou, numa entrevista, que tem 40 mil pessoas em Campos numa situação de extrema pobreza. No final do governo Rosinha, o último levantamento apontava 30 mil. Então, já subiu, em um ano, 10 mil. Tem gente passando fome. Eu estou falando uma realidade que ando na periferia e vejo que tem gente que não tem o básico do básico do básico. Então, não adianta cortar tudo. Eles encaram o programa social como custo. Eu não acho que seja custo, vejo como investimento.

 

Folha – Rafael prometeu (aqui) reabrir o Restaurante Popular.

Wladimir – Tomara que reabra. Vai ser um gol de placa. Ele não deveria nem ter fechado. Vamos ser realistas: um negócio que não custa nem R$ 250 mil por mês, que alimentava mais de 1.500 pessoas por dia, se ele acha que isso é custo, eu não acho que seja. Por isso que eu digo que as prioridades dele são invertidas. O problema é que ele ficou batendo em “venda do futuro” e nunca existiu “venda do futuro”. O problema foi a queda da arrecadação, devido à queda do preço do barril do petróleo, que vai voltar a subir.

 

Folha – A projeção da ANP é que volte a subir.

Wladimir – A projeção é que, lá para meados de 2019, Campos volte a ter uma receita melhor. Eu digo que ele está prevendo um orçamento de R$ 2 bilhões e não vai realizar R$ 1,8 bilhão. A arrecadação vai voltar a subir uma hora, só que, para poder passar o momento de grande crise que a cidade viveu a partir de 2015 e vive até hoje, você precisa ter o mínimo de estrutura para manter a cidade em ordem. Rafael não consegue manter a cidade minimamente em ordem. Então, esse discurso de “venda do futuro” não cola. Dizer que não tem dinheiro, não cola. Existem saídas, basta ele querer fazer.

 

Folha – A “venda do futuro” incomodou, não?

Wladimir – Incomodou porque foi um jargão criado pela oposição, propagado pela mídia. Vocês propagaram uma coisa que, na minha opinião, é uma inverdade. É normal em empresa privada e em serviço público recorrer a operação de crédito. Outro dia eu estava conversando com o vereador Neném (PTB), que é empresário. Ele me confidenciou que, para poder sobreviver nas lojas dele, está tendo que antecipar cartão de crédito. Isso para sobreviver, porque o movimento está muito fraco.

 

Folha – Você diz que “venda do futuro” é mentira. Qual é a verdade, então, em ceder a verba do futuro para receber no presente?

Wladimir – Olha o que representou, 2,5% do orçamento.

 

Folha – Mas a expressão não está equivocada. Não é uma mentira.

Wladimir – Não é uma mentira, mas foi usada de uma forma que desqualificasse o que foi feito para ajudar naquele momento presente. Era a única solução que tinha, naquele momento, para não sangrar como está sangrando hoje.

 

Folha – Mas isso não é como o sujeito que toma empréstimo no agiota para pagar o que devia a outro e continuar preso a uma nova dívida?

Wladimir – Isso é normal em qualquer instituição, privada ou pública, todo mundo faz isso. Dei o exemplo do vereador Neném, que me disse que, nas lojas dele, está tendo que fazer para sobreviver. Ele vende, o cara compra em 10 vezes no cartão de crédito e, não tendo como pagar as contas do mês, porque o movimento está fraco, ele vai lá e antecipa a venda de cartão de crédito. Paga lá os juros que tiver que pagar e antecipa. Isso é normal. Não pode é querer crucificar um governo porque fez o que era necessário para manter a cidade em ordem num período de crise.

 

Folha – A cidade continua em crise. Mas, se fosse prefeito, você faria?

Wladimir – Se não tivesse solução, sim.

 

Folha – Você acha que não tem solução?

Wladimir – Hoje? Não tem.

 

Folha – Então você faria?

Wladimir – Hoje, não tem. Rafael está preso a um problema técnico, porque ele entrou com uma liminar na Caixa e, agora, a Caixa não faria outra com ele. Foi uma saída achada na época para não deixar a cidade morrer como está morrendo hoje. Nós tivemos dificuldades, tivemos que parar as obras, mas a cidade não parou por completo, não morreu, como está morrendo. Se continuar como está, a cidade vai morrer. Ela foi a opção encontrada à época para que a cidade resistisse à forte queda da arrecadação devido à desvalorização do barril do petróleo. Você me perguntou se eu fosse prefeito, eu faria outra hoje. Eu não sou o prefeito e não tenho como afirmar se sim ou se não, mas não descartaria essa possibilidade.

 

(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Folha – O Ponto Final do último domingo anunciou (aqui) a troca de César por Marcão. E ouviu os dois, além de Rafael. Mas nenhum deles atribuiu a mudança à preocupação com a sua pré-candidatura. Essa análise ficou por conta da coluna. Mas, no Facebook, você a creditou ao prefeito, utilizando inclusive a charge do jornal, como se ele a tivesse desenhado. Não foi forçar a barra?

Wladimir – Da minha parte? Não acho, não. Li a coluna, vi a charge, publiquei aquilo porque lá dizia que o alvo era Wladimir.

 

Folha – Mas, quem disse foi a coluna e a charge. E você creditou a Rafael.

Wladimir – Não foi ele que disse? Nos bastidores, se credita a ele. Pelo menos nos bastidores da política, porque ele acha que Marcão tem uma densidade eleitoral maior do que a de César.

 

Folha – Ter você como alvo da mudança foi uma análise da coluna, que muita gente faz. Mas não foi uma declaração dele.

Wladimir – Eu, sinceramente, achei que tinha sido uma colocação do grupo dele, porque, nos bastidores, é isso que se fala. Mas, sinceramente, eu não estou preocupado com quem é o candidato da base. Seja César ou Marcão, vou me opor ao modelo de gestão do Rafael.

 

Folha – Pelo que Marcão de fato falou, ele pretende usar o discurso da experiência e da perspectiva que, se candidato e eleito, ele trará coisas como deputado a Campos. Como pretende responder a eventuais acusações de falta de experiência? E, se eleito, pode se esperar que sua atuação em Brasília trará benefícios para o município governado pela oposição ao seu pai?

Wladimir – Em primeiro lugar, experiência político-partidária eu tenho. Fui dirigente do partido aqui em Campos por muito tempo, fiz reuniões nos bairros e comunidades e tenho uma ligação muito forte direto com a população. Segundo: Marcão se diz um cara experiente. Eu admiro um presidente da Câmara, que se diz experiente, fazer aditivos com contrato da empresa de publicidade que é de propriedade do secretário de Comunicação. Essa experiência, para mim, não tem ajudado em nada ao povo de Campos. Simplesmente, ele é presidente da maior Câmara dos Vereadores do interior do estado e tem ajudado o prefeito a sufocar a cidade e o povo. Essa experiência dele, se for, por exemplo, de renovar aditivos e contratos com uma empresa que tem como dono o secretário de Comunicação do governo Rafael, para mim, essa experiência não conta. Sobre a segunda pergunta, ele disse que eu não trarei benefícios para Campos caso eu vença, porque Rafael é meu adversário. Talvez, Marcão esteja me medindo pela régua dele. Vou dar um exemplo clássico: meu pai, quando era deputado federal, trouxe para Campos um acelerador linear, porque era bom para os pacientes oncológicos de Campos. Ele colocou no hospital Álvaro Alvim, onde o diretor que cuidava e ainda cuida desse setor é Frederico Paes Barbosa, tio de Rafael Diniz, que é um excelente oncologista, por sinal. Eu não só vou trazer recursos, como vou fiscalizar a aplicação. Com certeza eu disponibilizarei recursos, se for para o bem da cidade, mas tenho que exigir um mínimo de transparência. Não dá, por exemplo, para o Portal da Transparência da Prefeitura ficar 100 dias sem ser atualizado e ninguém saber onde está sendo usado o dinheiro. Além disso, quem Marcão apoiou na eleição passada para deputado estadual e deputado federal? Ele apoiou Zeidan (PT), com base eleitoral em Maricá, e o que Zeidan fez por Campos? Nada! Ele apoiou Chico d’Ângelo (PT) para deputado federal. E o que Chico d’Ângelo (PT) trouxe para ele, Marcão, que era vereador em Campos? Nada! Então, Marcão, mais uma vez, quer me medir pela régua dele. Os deputados que ele apoiou, que eram de fora de Campos, não trouxeram nada para cá.

 

Folha – Paulo Feijó (PR) foi eleito deputado federal com o seu grupo político. E ele tem aprovado emendas parlamentares que garantiram recursos federais a Campos, sobretudo na área da Saúde. Ele serve nisso como exemplo?

Wladimir – Paulo Feijó está certo, ele é deputado de Campos e região. Tem que ajudar, tem que trazer recursos. A situação de Campos, hoje, necessita que todo mundo faça alguma coisa em benefício dela. Independente de qual grupo ele foi eleito, ele tem que trabalhar pela população que o elegeu, independente de qual prefeito estiver lá. E assim eu também o farei.

 

Folha – Apesar de, em tese, pertencer ao seu grupo político, Feijó tem o apoio disputado pelas pré-candidaturas a deputado federal de Marcão e do empresário Marcelo Mérida (PSD). Gostaria de ter o apoio dele? Como reagirá se não o tiver?

Wladimir – Eu e o Paulo Feijó sempre tivemos uma relação boa, próxima. Num passado não tão distante, ele disse que gosta muito de mim e que seria um prazer me ajudar. Mas, eu sei que a política é dinâmica e que, hoje, ele preferiu se afastar do grupo do Garotinho. Não quero nenhum tipo de conflito ou discussão com o Paulo Feijó. Desejo sorte e sucesso. Quem ele decidir apoiar, que seja bem sucedido na sua tarefa.

 

Folha – Mas, se você não tiver o apoio dele…

Wladimir – Tudo bem, está tudo certo, faz parte do jogo.

 

Folha – Falamos de Mérida. Ele e o petroleiro José Maria Rangel (PT) também são pré-candidatos locais a deputado federal. Como avalia essas postulações, uma mais ao centro e outra à esquerda? Acredita que tenham chance, ou serão eleitoralmente engolidos pelo seu embate com Marcão?

Wladimir – Eu acho que a polarização entre mim e o candidato do governo Rafael, independente de ser Marcão ou César, ela é inevitável. Mas, acho que as outras candidaturas são importantes. O Marcelo Mérida, por exemplo, representa um segmento forte na cidade de Campos, que nunca teve um representante legítimo postulando ao cargo do Legislativo Federal. É uma pessoa que eu conheço, tenho uma relação. Até conversei com ele, há poucos dias, sobre a pré-candidatura dele. Está bastante animado, acho um nome interessante no cenário atual. O José Maria, eu não conheço pessoalmente, mas sei que defende a política mais à esquerda. A polarização é inevitável, porque a Rosinha saiu do governo há pouco tempo e Marcão será o candidato do Rafael. Mas, a polarização será entre o Wladimir e o candidato do governo Rafael Diniz, que agora estão dizendo que vai ser o Marcão, mas as outras candidaturas são válidas e importantes, representam segmentos e camadas. Que o debate seja em alto nível, para o bem da sociedade. Que o jogo seja na bola, para o bem da sociedade.

 

Folha – Pode não ser?

Wladimir – Pode.

 

Folha – E se baterem na canela, você vai devolver?

Wladimir – Eu vou tentar fazer o debate no mais alto nível possível, mas, toda ação tem uma reação natural.

 

Folha – Sua pré-candidatura é algo certo, ou ainda depende das definições do seu pai, que é pré-candidato ao governo estadual, e irmã, Clarissa Garotinho (PRB), deputada federal eleita e licenciada para ser secretária do governo Marcelo Crivella (PRB)?

Wladimir – Minha candidatura é certa. Já está confirmada dentro do grupo, está confirmada na família. Não serei o único candidato do grupo a deputado federal em Campos. O grupo terá uma segunda opção.

 

Folha – Que seria quem?

Wladimir – Ainda está sendo estudado um segundo nome.

 

Folha – Comenta-se que Clarissa pode ser pré-candidata a deputada estadual. Se isso se confirmar, como ficaria seu apoio, tido como certo, à reeleição de Bruno Dauaire (PR)?

Wladimir – Clarissa tem base eleitoral fora de Campos. O Bruno é meu amigo, tem sido correto com o nosso grupo político, principalmente comigo, não posso reclamar de nada dele. Mas, nós também teremos outros candidatos a deputado estadual de Campos. Vou dobrar com todos os candidatos daqui. Não é só com o Bruno. Em relação à minha irmã, a base dela é fora. Ela vai fazer campanha fora. A base eleitoral dela é o Rio de Janeiro, a Baixada Fluminense…

 

Folha – Como você avalia o mandato de Bruno na Alerj? Uma candidatura dele a prefeito de São João da Barra em 2020 tem que passar necessariamente pela reeleição em 2018?

Wladimir – Eu acho que o Bruno tem sido um excelente parlamentar. Tem desenvolvido um trabalho digno de um deputado estadual, tem defendido a região, tem defendido categorias importantes. Acho que ele tem uma reeleição muito bem encaminhada. E ele tem um sonho pessoal, um projeto dele, de disputar a Prefeitura de São João da Barra. Ele é de São João da Barra, a família dele tem história política lá. Se ele tem esse sonho, com certeza precisa se reeleger para se cacifar e disputar a eleição lá.

 

Folha – Não é segredo que sua candidatura a deputado estadual, em 2014, foi preterida por seu pai. E que você não reagiu passivamente a isso, bancando a candidatura de Bruno e provando sua força nas urnas. A história não corre o risco de se repetir?

Wladimir – Dessa vez, dentro do grupo e da minha família, a minha candidatura já é dada como certa. Da outra vez, eu tentei construir essa candidatura, ela foi abortada por uma questão de compromisso político. Meu pai tinha compromisso com Pudim, tinha compromisso com Jair Bittencourt à época, no Noroeste. Uma candidatura minha, por ter o sobrenome Garotinho, ia atrapalhar o Pudim, em Campos, e o Jair, no Noroeste. Eu disse ao meu pai que não tinha condição de apoiar o Pudim, pedi autorização para apoiar o Bruno. Tivemos uma conversa, eu, meu pai e minha irmã.

 

Folha – E ele deu essa autorização?

Wladimir – Deu. Só que, quando o Pudim percebeu que a maioria das pessoas que queriam votar em mim me acompanharam no projeto de Bruno, e que ele (Pudim) estava sendo esvaziado naturalmente por aquilo, ele começou a trabalhar contra mim e contra a candidatura do Bruno dentro do próprio grupo. Aí foi que gerou toda a animosidade. A candidatura do Bruno foi permitida. Quando tentaram frear a candidatura do Bruno, eu reagi, enfrentei o grupo dos “cabeças brancas”.

 

Folha – Garotinho, inclusive.

Wladimir – Sim, houve um determinado momento em que, por exemplo, eu fui tirado da presidência do partido (por Garotinho), aqui em Campos, sem saber que fui tirado. E fui deslocado de Campos para poder coordenar a campanha do meu pai na Baixada Fluminense, sem conhecer a Baixada Fluminense. Aquilo estava gerando uma animosidade com Pudim e também com os outros candidatos à época: Gil Vianna, Albertinho…

 

Folha – Foi bola nas costas do seu próprio pai?

Wladimir – Não digo bola nas costas. Ele tinha um compromisso de eleger Pudim, que era amigo e companheiro dele. E Pudim reagiu a isso, vendo que o meu apoio ao Bruno, que havia sido combinado, estava indo além do que eles achavam que eu poderia ir. Na verdade, eles não acreditavam que eu pudesse transferir tanto voto para o Bruno. Então, houve uma reação, uma tentativa de frear a campanha do Bruno e me frear. Mas, eu falei: ‘não, combinado foi combinado. Vou enfrentar, vou encarar’. Graças a Deus, eu tive êxito na minha empreitada.

 

Folha – Você confidencia que seu pai é seu ídolo. Mas, ao mesmo tempo, já deu algumas demonstrações de independência de pensamento. Qual o limite entre a idolatria e a subserviência?

Wladimir – Para mim, família é uma coisa sagrada. Eu vou honrar pai e mãe enquanto estiver vivo. Mas, como falei, somos de gerações diferentes, pensamos um pouco diferentes. Discordo muito dele internamente.

 

Folha – Pode dar exemplo?

Wladimir – Não posso discordar de forma externa, muitas vezes, porque isso vai gerar, além de um problema familiar, um problema político. E ele é o líder do grupo que eu faço parte.

 

Folha – Não pode dar algum exemplo?

Wladimir – São coisas internas, de condução e de métodos que ele aplica.

 

Folha – Você fala isso em eleição ou no governo?

Wladimir – No geral. Na condução política, na condução de governo. Às vezes, quando eu achava que alguma coisa não ia por um caminho bom, eu sempre fiz questão de alertar e dizer que eu não concordava.

 

Folha – Tem uma frase que você teria dito ao seu pai, no caso da Chequinho: “você vai acabar com o governo da minha mãe”…

Wladimir – Isso foi atribuído a mim por uma pessoa que mentiu em depoimento.

 

Folha – Beth Megafone…

Wladimir – Eu provei que ela mentiu.

 

Folha – Essa frase não existiu?

Wladimir – Existiram vários embates pessoais, mas questões de discordância de pensamentos e de métodos, não de objetivo. Métodos a gente discorda e discute internamente. Eu não posso chegar para fora e dizer o que eu discordo. Além de ele ser meu líder político, ele é meu pai. Ele é líder do grupo que eu faço parte. Mas ser liderado não significa ser subserviente, abaixar a cabeça para tudo. A gente tem que discordar; é na discordância que a gente discute, debate e cresce.

 

Folha – De todas as acusações e condenações que pesam sobre seus pais, como na Chequinho e na Caixa D’Água, pouca coisa sobrou para você. Na Chequinho, por exemplo, você foi absolvido da acusação criminal em dezembro. Qual a sua opinião sobre os dois casos?

Wladimir – Primeiro, juridicamente falando: eu fui absolvido na Chequinho por absoluta falta de provas. Provei com depoimentos que, no depoimento da principal testemunha…

 

Folha – Beth Megafone.

Wladimir – Ela não é só a Beth Megafone, é a principal testemunha, que deu luz a todo o processo. Eu provei que ela mentiu, pelo menos no meu caso. Se ela mentiu no meu caso, acho que também pode ter mentido nos outros casos.

 

Folha – Você acha que ela mentiu?

Wladimir – Eu acho que ela mentiu, aumentou e potencializou uma coisa…

 

Folha – Por que ela mentiria?

Wladimir – Não sei. Eu acho que vai ficar na consciência dela, até o resto da vida, o porquê de ela ter feito isso. O porquê eu não sei, se foi a mando de alguém ou se veio da cabeça dela. Pouco me importa. Mas, eu tenho certeza que ela mentiu.

 

Folha – Na condição de filho, o quão penoso foi ver seus pais presos?

Wladimir – No aspecto familiar, é muito difícil para qualquer um. Como falei, família é uma coisa sagrada. Você deve imaginar como é, para um filho, ver pai e mãe presos. Eu, como filho homem mais velho, tive que assumir a liderança familiar por um período, junto com a Clarissa, porque temos irmãos mais novos. Tendo que cuidar dos irmãos, procurar advogados, cuidar da defesa, cuidar de tudo. A gente ainda não voltou ao normal, porque os processos…

 

Folha – Ficou trauma?

Wladimir – Não é trauma, mas é que a gente ainda vive os processos, eles não acabaram. A gente vive com um sentimento ruim, porque muitas dessas acusações não são verdadeiras. A gente tem certeza que, com o tempo, vamos provar isso.

 

(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Folha – E a Caixa D’água?

Wladimir – Eu não fui citado nela, posso falar muito pouco. O que eu sei, li na imprensa e nos depoimentos. Acho que há muitas contradições.

 

Folha – Você acha que o Deca (empresário André Luis Ribeiro, dono da Working) também mentiu?

Wladimir – Eu acho que há muitas contradições. A principal não é nem do Deca, é do Pudim, porque ele era o coordenador de campanha. Diz ele que participou da reunião, abrindo a reunião, e ele não é acusado de nada? É muito estranho. Prefiro que a Justiça cuide. Vou me reservar a não tocar muito no assunto, porque a Justiça e o tempo vão provar quem estava certo e quem estava errado.

 

Folha – Mas, quando você falou da Beth, diz que ela mentiu.

Wladimir – Beth mentiu.

 

Folha – O Deca, então, não mentiu também?

Wladimir – Eu não sei, porque nesse processo eu não sou réu. Não participo de todas as coisas.

 

Folha – Você leu o depoimento do Deca?

Wladimir – Li parte do depoimento.

 

Folha – Aquilo é mentira?

Wladimir – Acho que a Justiça vai cuidar disso. No final, vai prevalecer a verdade.

 

Folha – Com Beth você foi assertivo: Com Deca, não. Por quê?

Wladimir – A Beth mentiu sobre mim, e sobre mim eu posso dizer. Sobre os outros, não posso falar. Vou deixar que a Justiça cuide disso. O que eu posso dizer é que houve a doação da JBS para a campanha do Garotinho através do PR. Ela foi oficial, está registrada na prestação de contas. Sobre esse assunto específico, não sei sobre ele. Então, não posso falar sobre o que eu não sei.

 

Folha – Quem esteve em Campos, no início da semana, foi (aqui) o empresário Fernando Trabach, dono “fantasma” da GAP, conhecida no município pela locação de ambulância no governo Rosinha. O Ponto Final alertou (aqui), em novembro, que ele poderia falar o que sabe. E, em dezembro, o jornalista Lauro Jardim noticiou (aqui) em O Globo: “Trabach está delatando. E é quase tudo sobre Garotinho”. Como seu grupo reage a mais essa possibilidade?

Wladimir – O Fernando Trabach não enganou só a gente. Na Prefeitura de Campos, ele participou de uma licitação e venceu. Mas, também participou de licitações na Polícia Civil e venceu, participou no Governo do Estado e venceu, participou de licitações em outras prefeituras e venceu. Se ele cometeu crime e errou, que ele pague. Se tiver que falar o que pensa que deve falar, que fale. Nós vamos nos defender de qualquer acusação.

 

Folha – Com tantos problemas com a Justiça, acredita realmente que seu pai, atualmente sem partido, conseguirá ser candidato a governador?

Wladimir – É o desejo dele, e ele vai batalhar para ser candidato a governador, porque o Rio de Janeiro, hoje, passa por um momento extremamente complicado, difícil, do ponto de vista econômico e financeiro, e também de quadros políticos. O Rio de Janeiro está sem quadros políticos. Quando foi governador pela primeira vez, Garotinho conseguiu reerguer o Estado, depois de pegar o Estado arrasado por Marcello Alencar. Ele tem um plano traçado e diz que vai recuperar o Estado de novo, depois do deserto deixado por Cabral e Pezão. Então, ele vai, até o final, tentar ser candidato a governador.

 

Folha – Fora do PR, qual será o destino partidário do grupo, mais especificamente seu e do seu pai?

Wladimir – Estamos em conversa com vários partidos. Ontem (quarta-feira, 28), teve uma reunião no Rio de Janeiro, com a presença do Brizola Neto (PDT), que gostaria muito que o Garotinho voltasse para o PDT. Também é o desejo do Garotinho e de todos nós da família. O PDT foi o berço político dele.

 

Folha – O berço dele foi o PT.  Depois é que foi para o PDT.

Wladimir – É, mas o partido do coração dele é o PDT. Inclusive, ontem (28), o Brizola Neto pôde desmentir, inclusive, aquela história que o Garotinho e o Brizola terminaram brigados. Houve, sim, desentendimentos, o que é normal, mas, no final da vida do Brizola, eles estavam bem. O Brizola queria devolver o partido a ele.

 

Folha – Entrevistei (Aluysio Abreu Barbosa) o Brizola, no período que eles estavam rompidos. Ele fez muitas críticas a Garotinho. Perguntei se, então, ele se sentia como o doutor Frankenstein, por ter criado um monstro. Ele respondeu: “jovem jornalista, não chega a tanto. É mais um macaco em loja de louças”.

Wladimir – Eu lembro dessa entrevista. Mas, assim, o Brizola Neto foi o secretário particular do Brizola nos últimos 10 anos de sua vida, e ele me confidenciou algumas coisas que o avô falava para ele. O avô dele tinha um carinho muito grande pelo meu pai, e dizia sempre que o trabalhismo estaria sempre bem representado com o Garotinho. Queria, ao final da sua carreira, tentar unificar as forças dentro do PDT para que Garotinho retomasse o controle partidário e seguisse com os ideais de Brizola. Mas, o Brizola acabou falecendo, isso não foi possível. É o desejo do coração do Garotinho, voltar para o PDT. Se não for possível…

 

Folha – E o Lupi (presidente nacional do PDT), já conversaram com ele?

Wladimir – Eu conversei com o Lupi, o Brizola Neto já conversou com o Lupi, e estamos tentando marcar uma conversa do Garotinho com o Lupi, para definir como vamos caminhar; se o Garotinho vai para o PDT, se o PDT vai apoiar o Garotinho independente de para onde ele for… Estamos numa construção partidária, não só com o PDT. Meu pai já conversou com o PDT, o Pros, o PRP, o Patriota, vários partidos, para montar uma frente…

 

Folha – Clarissa acertou em se mudar antes ao PRB da Igreja Universal e de Crivella? Como avalia o governo dele no Rio e a atuação de Clarissa na secretaria de Desenvolvimento, Emprego e Inovação?

Wladimir – Clarissa foi para o PRB a convite de Crivella. Na verdade, na eleição municipal do Rio de Janeiro, existia uma conversa avançada entre Garotinho e Índio da Costa (PSD). Clarissa participou de uma outra articulação com o Crivella e a gente entendeu que era melhor apoiar o Crivella, para dar chance de ter um governo popular no Rio de Janeiro. O Índio não representava a camada popular. Crivella venceu a eleição e a convidou para ir para o PRB e ser secretária. Foi um convite direto do Crivella para ela, sem o grupo impor nada. Eu acho que ela vem fazendo um bom trabalho, já inaugurou três restaurantes populares no Rio de Janeiro. Crivella não está bem na gestão, mas, se vi uma pesquisa quantitativa, do Paraná Pesquisa, indicando que a popularidade dele ainda está num patamar aceitável, principalmente na periferia. Está bem, na medida do possível. Na última pesquisa que eu vi, do Instituto Grande Rio, o Rafael Diniz, por exemplo, está com 86% de ruim/péssimo. Eu vi essa pesquisa, não foi ninguém que me disse.

 

Folha – Foi feita quando essa pesquisa?

Wladimir – Há uns 20 dias.

 

Folha – Quem encomendou?

Wladimir – Não sei. Vi essa pesquisa na Alerj. Uma pessoa me mostrou. Quem encomendou, não faço a mínima ideia. Enfim, vi uma pesquisa indicando que o Crivella ainda tem uma boa aceitação na camada popular, apesar de o governo dele ainda estar patinando. Ele é um cara que, como sempre foi do Legislativo, foi para o Executivo agora e ainda está acertando os ponteiros.

 

Folha – Qual sua opinião sobre a intervenção federal no Estado do Rio?

Wladimir – Eu acho que só a intervenção federal não vai resolver nada. Só ocupação policial não é a solução. O Rio de Janeiro está sofrendo, hoje, o reflexo de uma política totalmente equivocada do governo Cabral e Pezão, principalmente na área social e na área de segurança, com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP’s). As UPP’s se fixavam num local, o bandido saía dali e ia para outra área, o interior ou a Baixada Fluminense; criou braços onde não tinha e agora está mantendo esses braços e retomando as suas bases. Era uma política de não prender ninguém, simplesmente de ocupação por ocupação, sem dar oportunidade às pessoas da comunidade de terem um projeto social, uma educação, qualquer tipo de coisa que tirasse o jovem daquela influência do tráfico. Não prendiam os bandidos, que ocuparam outros espaços e agora estão retomando. Acho que a intervenção não tem que ser só na segurança, mas no Estado do Rio de Janeiro inteiro; afastar o governador, para ter alguma expectativa de que isso dê algum efeito.

 

Folha –  Quando falou à Folha sobre a troca de César por Marcão na pré-candidatura do governo de Campos a deputado federal, você afirmou (aqui): “Independente de quem for o candidato, eu vou fazer oposição ao modelo de gestão do governo Rafael”. Perguntado ao que se opunha especificamente, você disse que falaria na entrevista. Estamos nela.

Wladimir – É um governo incoerente. Um governo que não tem prioridades específicas. Parece que é uma confraria de amigos. Agora, na reforma administrativa, ele (Rafael) está tentando mexer um pouco nisso.

 

Folha – Saiu hoje (quinta-feira, 01) no Diário Oficial: Fernando Leite e Dante Lucas, os “cabeças brancas”…

Wladimir – Mas, assim, é um governo que está sendo exatamente contrário de tudo o que se propôs na eleição. É um modelo de governo que está sufocando a teia produtiva da cidade, a cidade está morrendo, literalmente. Eu discordo de vir falar que não tem dinheiro. Nós temos muito menos recurso do que já tivemos, mas, no auge da crise, em 2015, a cidade resistiu. Nós mantivemos os salários em dia, mantivemos a coleta de lixo em dia, a iluminação pública. Hoje, ele não consegue manter o básico em dia, por falta de experiência, falta de equipe, preparo e prioridades. É um governo que faz exatamente tudo o que criticou, de forma ainda pior.

 

Folha – Você e o Bruno são da mesma geração de Rafael e muitos dos seus secretários, na casa dos 30 e poucos anos. Acha que, como referência dessa geração, o governo de Campos está representando mal?

Wladimir – Acho que o Rafael está fazendo mal não só à cidade, mas para uma geração de políticos da geração dele. Ele fracassando, outras pessoas podem olhar para essa mesma geração não querendo dar oportunidade no Executivo, porque acham que também não vai dar certo. Acho que Rafael não tem equipe; acho que não tinha a experiência necessária para assumir a Prefeitura; que as atitudes que ele tem tomado, uma atrás da outra, são equivocadas; e que não tem ninguém com pulso por trás dele, porque ele não consegue tomar as medidas que precisam ser tomadas. Não é que não consegue, ele tem tomado medidas equivocadas mesmo, e não tem pessoas com respaldo político e histórico por trás dele. Então, acho que está fazendo mal para a cidade e pode fazer mal para toda uma geração de políticos da faixa dele. Eu quero me colocar exatamente ao contrário disso. Sou novo, penso diferente dos meus pais, mas tenho um respaldo por trás. Tenho dois ex-governadores, pessoas de história, duas pessoas que provaram que foram bons administradores atrás de mim. Podem falar o que for do final do governo Rosinha, porque a cidade, o Estado e o país estavam numa crise, mas Rosinha foi reeleita com 70% de aprovação popular. A rejeição ao governo dela começou em 2015, quando a receita caiu de R$ 2,6 bilhões que eram previstos para R$ 1,5 bilhão.

 

Folha – A queda do barril do petróleo…

Wladimir – Sim, a queda do barril de petróleo, que foi de US$ 125 para US$ 27.

 

Folha – Isso não começou antes, com a derrota do seu pai ainda no primeiro turno da eleição a governador de 2014? Sinceramente?

Wladimir –  Não. Não foi. Em 2014, a arrecadação prevista era de R$ 2,5 bilhões. Realizou R$ 2,1 bi e pouco, não chegou nem a R$ 2,2 bilhões. O orçamento previsto já começou a cair. E 2015 foi um caos, porque o barril foi a US$ 27. Tudo o que estava programado teve que ser revisto. Teve que adaptar o orçamento, parar todas as obras. Mas, como eu disse, a cidade resistiu. Nós conseguimos manter os salários em dia, porque tinha, por trás do governo, dois gestores, dois ex-governadores, pessoas capacitadas e comprometidas com aquilo. Rafael é inexperiente e não tem equipe.

 

Folha – Na última segunda (27), na reunião no Clube de Regatas Rio Branco, prévia à manifestação contra o governo marcada para 8 de março, seu pai esperava reunir 600 pessoas. Mas apenas 300 compareceram. Garotinho chegou a afirmar: “Não podemos expor o povo de Campos ao ridículo de convocar um ato para ir meia dúzia, eu tenho responsabilidade”. O protesto será mantido? Não seria melhor tentar vencer nas urnas, do que ficar chorando a derrota da última eleição?

Wladimir – O ato não é do grupo do Garotinho. Alguém precisa puxar um movimento. O Garotinho, como pessoa física, está tentando puxar o movimento. Mas, ele disse: “a decisão de manter ou não o ato vai partir de vocês. Vocês têm que decidir em conjunto se vão manter ou não o ato”. Eu acredito que muitas pessoas não foram à reunião porque, antigamente, você convocava uma reunião para qualquer coisa e a pessoa, de qualquer distrito, pagava R$ 1 e vinha. Pagava mais R$ 1 e voltava. Eram R$ 2. Hoje, para a pessoa comparecer à reunião, tem que pagar R$ 5,50. Então, do mesmo jeito que sufoca o comércio, também atrapalha as nossas reuniões e mobilizações. Mas, o ato em si, eu acho que é um ato em prol da cidade. Muita gente está insatisfeita com o governo Rafael. Eu acho que muita gente tem o desejo de externar isso. A rede social, que foi, talvez, o grande trampolim de Rafael na eleição, tem mostrado isso. Você vê poucas pessoas defendendo o modelo e a gestão do governo nas redes sociais. Mas, falta às pessoas deixar o computador e ir para a rua. O que derrubou Dilma não foram os processos, foi a rua.

 

Folha — Você usou o impeachment de Dilma como exemplo. O objetivo, então, é derrubar o governo?

Wladimir – Eu acho que Campos não aguenta mais três anos do modelo Rafael. Acho que a cidade está morrendo, a cadeia produtiva está morrendo, e a cidade não aguenta mais três anos desse modelo. Ele criou um passivo dele mesmo, do ano passado para este ano, em torno de R$ 400 milhões. Ele não consegue sequer pagar esse passivo este ano.

 

Folha – E os R$ 2,4 bilhões que o governo alega (aqui) ter recebido de dívidas?

Wladimir – Eu gostaria que esses R$ 2,4 bilhões que eles dizem fossem abertos, fossem mostrados. Eles pegam parcelamento de INSS, FGTS, que vencem daqui a 10, 12, 15 anos, e trazem a valor presente. Isso não existe. Essa dívida é uma dívida que vai ser de qualquer prefeito que entrar, porque a maioria disso é parcelamento de fundo de garantia e INSS de governos passados. Se você for pegar os R$ 2,4 bilhões que ele fala, tem dívida aí que é do governo de Arnaldo, do governo Mocaiber, que nós pegamos e parcelamos em 180 vezes. Isso é uma mentira pregada e propagada.

 

Folha – A eleição de prefeito de 2020 passa pelas urnas de outubro deste ano. Eleito deputado federal, seu nome se cacifa naturalmente para vir a prefeito, daqui a dois anos?

Wladimir – Eu não vou discutir eleição de prefeito, nem acho que tem que haver antecipação de campanha. Sou pré-candidato a deputado federal. Se Deus quiser, eleito, vou trabalhar pela minha cidade e região. Até a eleição de prefeito, outros nomes vão surgir, outras circunstâncias vão acontecer, e o fluxo da política segue.

 

Página 2 da edição de hoje (04) da Folha

 

Página 3 da edição de hje (04) da Folha

 

Página 5 da edição de hoje (04) da Folha

 

 

Publicado hoje (04) na Folha da Manhã

 

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Artigo do domingo — Muito além das disputas paroquiais

 

 

 

 

Muito além das disputas paroquiais 

Por Ricardo André Vasconcelos

 

A escolha do nome do presidente da Câmara dos Vereadores de Campos, Marcão Gomes (Rede), como representante da facção política atualmente no poder para concorrer a uma vaga na Câmara Federal, significa a disposição de Rafael Diniz (PPS) de disputar de verdade o comando da política local. É um teste de fogo, não só para a sucessão municipal de 2020, mas principalmente para aferir se o prefeito conseguiu ou não se consolidar como uma liderança alternativa ao garotismo. Do outro lado do ringue estará justamente o filho do casal Garotinho — cujo nome, Wladimir, é uma homenagem ao ex-líder estudantil nos anos 60, Wladimir Palmeira —, apontado como aposta garotista para tentar retomar a prefeitura daqui a dois anos.

Há 32 anos, nas eleições de 1986, as peças eram semelhantes, aparentadas. Zezé Barbosa, em seu terceiro mandato de prefeito, lançou o genro candidato a deputado estadual, tendo como principal adversário um jovem radialista. Era uma queda de braço entre o ocaso da velha liderança e o alvorecer da nova. O radialista, Anthony Matheus, que logo incorporaria ao nome a alcunha “emprestada” do ídolo José Carlos Araújo,  o “Garotinho”, venceu a disputa com 33.439 votos pelo PDT, contra 30.751 votos do genro de Zezé, Sérgio Diniz (PMDB) e pai do atual prefeito. Ambos foram eleitos, mas o resultado numérico foi o principal sinal da ascensão de uma liderança e queda da outra e um par de anos depois, Garotinho foi eleito prefeito.

A história parece que se repete. De um lado uma liderança emergente, porém com grande dificuldade de consolidação e do outro, um “coronel” em desgraça crescente, não apenas pelo desgaste do tempo, como também muitos processos judiciais e que já renderam três prisões provisórias para Garotinho. Três décadas atrás isso seria impensável…

Para as eleições de outubro deste ano é previsível que tanto Marcão quanto Wladimir sejam eleitos, mesmo que os dois possam sofrer alguns tropeços por causa de seus partidos. O primeiro está (ainda) no minúsculo Rede, que acaba de sofrer uma perda significativa com a saída do deputado Alessandro Molon, considerado puxador de votos; e o segundo está, como o pai, sem legenda. Outra coincidência é a aparente independência, tanto de um quanto de outro, em relação aos seus patronos. O presidente da Câmara nem de longe se encaixa no perfil de “poste” e sabe como se beneficiar dos bônus sem o desgaste dos ônus de ser candidato de um governo que patina há 14 meses e dá sinais de envelhecimento precoce, enquanto o filho do casal Garotinho não só aparenta estar imune à impopularidade dos pais, como também já deu mostras de independência e até de enfrentamento dentro de casa. Preterido para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa há quatro anos, Wladimir desafiou o pai, lançou, bancou e elegeu o amigo Bruno Dauaire. Portanto, se eleitos, nem Marcão nem Wladimir serão tributários incontestáveis de padrinhos.

De um lado, o governo Rafael Diniz está passando por uma reforma para dar agilidade política ao governo que vem perdendo a luta para os problemas cotidianos, como por exemplo, dos transportes, que se arrastam sem sequer uma amenização. Busca azeitar a máquina para a batalha de outubro. Do outro, a velha tática da guerrilha política do garotismo que, sem o poder nas mãos, apela para a desqualificação dos adversários, dossiês, passeatas, denuncismo e etc…

No entanto, não custa lembrar que nem todos os eleitores se comportam diante da urna eletrônica como se o sistema eleitoral fosse do voto distrital, aquele em que você escolhe um candidato inscrito pela sua região ou distrito. Então, é possível ao eleitor ignorar a falsa dicotomia Marcão X Wladimir, ou Rafael X Garotinho e escolher um deputado que seja o seu representante no Congresso Nacional. Afinal, do que adianta ter um deputado local que arrume emendas parlamentares de meia dúzia de milhões para obras na cidade, mas que nas votações dos grandes temas nacionais vota de forma contrária ao que você pensa? E se o seu deputado, por exemplo, vota pelo impedimento de investigação contra o presidente da República? Nesta história não cabe bairrismo e os representantes que os eleitores da região mandaram para Brasília nas últimas décadas estão aí para provar que eleição para o Congresso não pode se resumir a briga de forças numa questão meramente paroquial.

 

Publicado hoje (o4) na Folha da Manhã

 

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Wladimir Garotinho fala sobre tudo neste domingo na Folha

 

(Foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Nas pesquisas entre os pré-candidatos a deputado federal em Campos, Wladimir Garotinho (sem partido) lidera em todas as Zonas Eleitorais do município. Bem verdade que estas consultas ainda não trouxeram colocaram no páreo o nome do vereador Marcão Gomes (Rede), presidente do legislativo goitacá, que (aqui) deixou a pré-candidatura de deputado estadual para ser o nome do governo Rafael Diniz (PPS) a disputar vaga para concorrer à Câmara Federal.

Para saber o que o filho do casal Garotinho pensa dessa troca governista e seus objetivos, sobre a “venda do futuro” de Campos e suas consequências, os erros (e acertos) da administração Rafael, as projeções políticas para 2018 e 2020, bem como os casos que renderam as recentes prisões dos seus pais nas operações Chequinho e Caixa D’água, sem contar a temida — e ainda não conhecida — delação (aqui) do empresário Fernando Trabacah, leia neste domingo (04) a entrevista de Wladimir à Folha da Manhã.

 

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Mérida confirma PSD e região pede ações da intervenção federal

 

 

 

Mérida é PSD (I)

Presidente da Federação Fluminense do Clube de Diretores Lojistas (CDLs), o empresário Marcelo Mérida procurou a coluna e garantiu: sua pré-candidatura a deputado federal será mesmo pelo PSD. Como o “Ponto Final” adiantou (aqui) desde 22 de dezembro: “ele já definiu o PSD como legenda pela qual pretende disputar as eleições de outubro. E vai assumir a presidência do partido em Campos e sua coordenação em todo o Norte e Noroeste Fluminense”.

 

Mérida é PSD (II)

A preocupação de Mérida se dá por especulações de que ele poderia tentar se lançar à Câmara Federal por outra legenda. “Meu compromisso é com o debate sobre desenvolvimento econômico, alicerçado no apoio às pequenas e microempresas, que hoje representam 95% dos associados das CDLs. Essa é a nossa bandeira principal e suprapartidária. Mas, politicamente, a nossa pré-candidatura atende ao convite feito pelo presidente estadual do PSD, Índio da Costa. E está inserida no projeto da pré-candidatura dele ao governo do Estado” explicou.

 

Segurança na pauta

Preocupados com uma possível migração de criminosos da capital, prefeitos do Sul Fluminense participaram, ontem, da segunda reunião do Observatório Legislativo da Intervenção Federal no Rio de Janeiro (Olerj), em Barra Mansa. Eles pedem que as Forças Armadas ampliem a atuação na Segurança Pública na região. No entanto, é importante olhar com atenção também para o Norte e o Noroeste, que possuem cidades com níveis alarmantes de violência, como Campos e Macaé, e ainda estão na rota para Espírito Santo e Minas Gerais. Durante a semana, o interventor e general Braga Netto garantiu ao deputado estadual Bruno Dauaire (PR) que existem ações planejadas para o interior também.

 

Projeto de Pudim

Os candidatos aprovados em concursos públicos estaduais ou os funcionários públicos contratados para cargos comissionados poderão ter 50% de desconto na emissão de certidões negativas cíveis ou criminais, conhecidas como “nada consta”, exigidas na admissão em órgãos públicos. Este é o objetivo do projeto de lei 2.765/14, do deputado Geraldo Pudim (MDB), que a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) aprovou, ontem, em segunda discussão. A proposta seguirá para a sanção do governador Luiz Fernando Pezão, que terá até 15 dias úteis para sancionar ou vetar a norma.

 

Terá que regulamentar

Depois de muita polêmica, a Câmara Federal aprovou o projeto de regulamentação do transporte de passageiros por aplicativos, como o Uber. Os deputados derrubaram a decisão do Senado e autorizaram que as prefeituras e o Distrito Federal poderão regulamentar e fiscalizar o serviço. Em Campos, apesar da proibição por parte da municipalidade, os motoristas de Uber circulam garantidos por decisão judicial. O texto aprovado na Câmara ainda depende da sanção presidencial para começar a valer.

 

O Leão aperta

A Receita decidiu solicitar mais detalhes sobre os bens dos contribuintes. Donos de veículos, por exemplo, terão que informar o número do Renavan. Também quer agora mais detalhes sobre donos de imóveis. As exigências também incluem tamanho e valor do IPTU. A intenção é fechar cada vez mais o cerco contra a lavagem de dinheiro e a sonegação de tributos. Neste ano, o fornecimento dessas informações será opcional. A partir de 2019, porém, elas serão obrigatórias.

 

Mais exigências

Dependentes a partir de oito anos terão que ser identificados por CPF — informação antecipada pela Receita no fim do ano passado. Em 2017, a idade limite foi de 12 anos. A partir de 2019, o CPF será exigido desde o nascimento do dependente. O período de entrega vai de 1º de março até à meia noite de 30 de abril. O programa do IRPF para 2018 poderá ser baixado a partir da próxima segunda-feira do site da Receita.

 

Com os jornalistas Aldir Sales e Paulo Renato Porto

 

Publicado hoje (03) na Folha da Manhã

 

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Folha Letras — Para parir mel do sêmem das flores

 

 

 

Eram meados dos anos 1990. Tinha pouco mais de 20 anos, quando vivia em Atafona a fase mais bicho grilo da sua vida. Um amigo biólogo, igualmente jovem e refugiado junto à foz do Paraíba do Sul, o ensinava sobre a mata de restinga que ainda cobria parte da região.

O aprendizado se dera em meio à realidade desse ecossistema no entorno da Lagoa de Iquipari, muito antes do porto do Açu, que o geólogo campista Alberto Lamego (1896/1985) perenizara no seu necessário “O homem e a restinga”, publicado em 1946. Meio século depois, era a mesma restinga que os dois jovens homens percorriam a pé, sob o sol, quando o biólogo observou ao amigo:

— Sabe por que o cactos tem espinhos? Porque ele é a planta mais suculenta do deserto, a que mais armazena água. Sem a defesa dos espinhos, ele seria simplesmente devorado pela fauna.

Com todas suas metáforas possíveis, esse dedo de prosa cutucaria a lembrança nas duas décadas seguintes, no apontamento dos caminhos. Quando estes se cruzaram sem dolo com os de “vegetação” semelhante, no entrelaçamento espontâneo das raízes, brotaram versos:

 

 

Pilar do vão de acesso à ponte Rio-Niterói, na Niterói de novembro de 2015 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

os cactos

(p/ paulinha)

 

deu-se que um cactos enamorou-se

da polpa tenra sob os espinhos tesos

do semelhante seu que reconheceu

ao tato das raízes no escuro da terra

 

o cactos se deixou espetar pelo outro

a quem deu de beber em água e verde

quando o tempo estiou ao abraço

com a força do azul no céu do sertão

 

testemunhou a abelha suja de pólen

para parir mel do sêmen das flores

de dois cactos cujas seivas trocadas

agora afluíam uma ao curso da outra

 

campos, 22/09/15

 

Folha Letras na contracapa da edição de hoje (02) da Folha Dois

 

Publicado aqui neste Opiniões, em 06/12/15, e republicado hoje (02) na Folha Letras

 

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Carlos Valpassos — Cinema como Experiência: Algumas Reflexões

 

Cena de “Cinema Paradiso” (1988), ode de amor a cinema do diretor Giuseppe Tornatore

 

 

Cinema como Experiência: Algumas Reflexões

Por Carlos Valpassos(*)

 

Eu era um garoto, estudante da Escola Técnica Federal de Campos, quando, em meados dos anos 90, aproveitei da falta de um professor para ir ao cinema com alguns de meus colegas de classe. Caminhamos juntos até o Campos Shopping, onde funcionava o único cinema da cidade — que viria a fechar suas portas pouco tempo depois. Não consigo lembrar qual filme assistimos, mas lembro do caminho que percorremos e das brincadeiras pueris vivenciadas naquela tarde. Nosso grupo era variado: jovens de Nova Brasília, Lapa, Pecuária e também moradores de distritos como Sabonete e Poço Gordo. Naquela tarde “conquistamos” a cidade com o pretexto de assistir um filme: vagamos pelas ruas, observamos vitrines de lojas, pesquisamos a variação dos preços da pipoca para valorizar nossas moedas. Não apenas fomos ao cinema: flanamos e vivenciamos o centro da cidade, o que nos proporcionou aprendizados a partir de uma experiência difusa. Não lembro quem foi o professor que faltou; tampouco qual matéria ele lecionava. Lembro que naquela tarde a aula foi ir ao cinema com meus colegas.

Depois disso Campos passou alguns longos anos sem uma tela de projeções. Foi o apogeu das vídeo-locadoras. Isso me marcou, pois fixou em mim a experiência do que é viver em uma cidade sem cinemas — mesmo que nela seja possível ter acesso aos filmes. E a falta que essa instituição fez na cidade ficou evidenciada quando o cinema do Turf Centro abriu suas portas e passou mais de três meses exibindo o naufrágio do Titanic para salas lotadas. Não consigo recordar quantas vezes assisti Jack afundando enquanto Rose monopolizava um latifúndio flutuante, mas lembro que, embora já tivesse decorado, assim como meus colegas, várias das falas dos filmes, o cinema era algo que transcendia o filme projetado. Era um pretexto para sair de casa, encontrar pessoas e viver as experiências que apenas os encontros são capazes de proporcionar.

Se a cidade não tivesse ficado aqueles anos sem cinemas, talvez tais reflexões nunca tivessem me ocorrido. Acontece que essa experiência foi marcante e depois disso passei a entender o cinema como instituição que engloba questões para além da película apresentada. Não é que o filme não tenha importância — pois essa é uma questão crucial —, mas sim que ele não é a única nota da melodia: a instituição cinema é um arranjo complexo. Há inúmeras questões que engendram a experiência do cinema: você precisa se “arrumar” para ir ao cinema, deslocar-se, utilizar o sistema de transporte (público ou particular), expor-se ao espaço público, observar tudo aquilo que te cerca — no caminho e também dentro da própria sala. Desse modo, busquei ir a cinemas em todas as cidades que visitei como uma forma de conhece-las. Mesmo que não conseguisse acompanhar perfeitamente o que estava sendo dito pelos atores dos filmes, me interessava vivenciar cada cinema local.

Da última vez que fui ao Rio, fui ao cinema. Enquanto aguardava pela exibição do filme na Estação Botafogo, aproveitei para visitar uma livraria e um sebo. Foi a oportunidade de comprar um livro, de ver lançamentos e folhear algumas publicações. Alguém poderá objetar que estou falando da perspectiva de um intelectual de meia idade, mas não creio que a questão seja simples assim. Pois em nosso carnaval goytacá, aproveitei para ir ao cinema encontrar meu amigo Tom Hanks. Na saída, resolvi “flanar” pelo shopping e descobri a existência de funis de silicone. Algo trivial, que eu desconhecia, mas que poderia ser de grande utilidade para diversos fins. Ou seja, fui ao cinema encontrar Tom Hanks e Meryl Strep; de quebra, conheci um instrumento, fora da sala de projeções, que pode facilitar minha vida. Ir ao cinema é uma experiência de aprendizado para além do que é exibido; é uma experiência que começa antes mesmo de você sair de casa e que pode terminar muito depois do seu retorno, a partir da reflexão sobre aquilo que foi vivenciado – no filme, no caminho e nas ideias.

Escrevendo sobre os “rolezinhos”, aqueles “fenômenos rituais” onde jovens das periferias das grandes cidades brasileiras se reuniam para visitar os shoppings-centers no início desta década, a antropóloga Rosana Pinheiro Machado foi objetiva: “o ato de ir ao shopping é um ato político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega dia a dia”. Meu argumento é que o cinema se constitui enquanto experiência a partir de um conjunto de fatores e que, num país marcado por desigualdades e em uma cidade caracterizada pela segregação social como a nossa, o ato de ir ao cinema é um ato político.

Uma tela de projeção armada em uma região isolada pode até causar algum encanto, mas se o objetivo é proporcionar uma “Experiência” plena — como definiu John Dewey — para propósitos educacionais, é pouco. Pois os filmes estão disponíveis a partir de inúmeras mídias: tablets, smartphones, TVs e DVDs. Hoje, esses bens estão disponíveis. Acreditar que a exibição de um filme, em pleno século XXI, constitui-se como um evento transformador por si mesmo é um equívoco. Parte de um pressuposto colonialista e, de certo modo, dogmático, que acaba por reforçar a exclusão social e salientar a segregação.

Nesse sentido, influenciado por uma literatura antropológica e sociológica sobre cultura material, narrativas e experiências — Mary Douglas, Daniel Miller, Grant McCraken, Wilhelm Schapp, John Dewey etc —,  acredito no potencial pedagógico do cinema enquanto arte política e politizada, capaz de proporcionar reflexões e ações sociais. E para que a experiência seja fecunda e não apenas mais uma pirotecnia em uma sociedade do espetáculo, as pessoas devem ir ao cinema; e não o contrário. Levar as pessoas ao cinema é um ato político contra a segregação.

 

(*) Antropólogo e professor da UFF-Campos

 

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Guilherme Carvalhal — O mendigo

 

 

 

Seu olhar mirou as centenas de pessoas protestando ao longo das ruas e não soube ao certo se começou o carnaval. Elas bradavam vestindo verde e amarelo e ficou em dúvidas se estaria em época de Copa do Mundo.

Um manifestante parou e lhe entregou um panfleto explicando que estavam ali nas ruas para mudar o Brasil para melhor e que gente do seu estilo em breve viveria bem, quando acabassem com a corrupção no país. Se fosse alfabetizado, leria o panfleto. Apenas o amassou e jogou no lixo.

Tentou por um momento entender aquele mundaréu de gente em clima empolgado, como se uma grande ruptura estivesse por acontecer. Lembrava de seu pai quando comprou uma TV velha e levou para seu barraco ma favela. Puxaram um gato de energia e assistiram novela. Situações bastante diferentes nas suas vidas, cada um a seu modo.

Tentando se misturar na multidão, ele ouvia gente clamando por prisão e pelo fim da corrupção. De novo lembrava, dessa vez de seu pai preso por assalto, que ficou na cadeia por três anos, saindo para morrer pouco depois da tuberculose contraída lá dentro. Enquanto isso, aquele agiota que tomou sua casa seguia livre.

Parou diante de um trio elétrico. Uma mulher de microfone na mão berrava palavras de ordem. Dizia que o povo unido recuperaria a nação. Que a junção de forças por parte da população traria de volta os bons rumos do país. Ele olhou ao redor com a nítida certeza de que não fazia parte daquele grupo. Jamais estaria unido a elas.

Deslocado, se afastou com seu passo manso. Um grupo de rapazes pediu para tirar foto dizendo que ele era o típico brasileiro por quem lutavam. Não compreendia o porquê de aparecer em uma foto com jovens tão bem vestidos. Pensou em forçar um sorriso, mas desistiu por vergonha de mostrar seus poucos dentes.

Parou em frente à vitrine da loja de eletrodomésticos onde sempre assistia uma TV ligada do mostruário. As imagens mostravam o protesto e o apresentador do telejornal comentava a extensão dele pelo Brasil. Um repórter entrevistou uma líder, aquela mulher do microfone:

— Esse é um dia histórico. Estamos limpando a corrupção do Brasil, estamos acabando com essas ratazanas e com isso temos a crença de que tudo irá melhorar.

Ele olhou ao seu redor. O mesmo esgoto fedido. Os mesmos mendigos nas ruas. As mesmas crianças cheirando cola. Os mesmos assaltantes. Os mesmos traficantes. Não sabia ao certo o que estava mudando.

 

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